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A luz do Sol aparece, pálida, tímida, avisando que mais uma noite foi desperdiçada. Não consegui dormir, não fiz nada de proveitoso. Minhas tarefas estão atrasadas, meus pensamentos estão bagunçados, não organizo meu quarto, não organizo minha cabeça, meu corpo mal consegue me responder. Estou ali, como um corpo largado de um moribundo qualquer, e apenas uma palavra sai de minha boca: seu nome. O som de minha própria voz ao dizê-lo acorda meus sentidos, mas ainda não sou capaz de me levantar. Estou prestes a me entregar aos meus próprios devaneios. Começo minha viagem pelo lugar onde nos conhecemos a primeira vez, e lá está você. O mesmo sorriso, a mesma roupa, o mesmo olhar que se encontra com o meu (e nada me diz). Você, meu enigma.
Eis que o relógio anuncia de forma brusca que está na hora de voltar ao mundo real. Saio daquele lugar tão precioso com pesar, e uma porta me traz de volta ao quartinho tão sem graça, tão cinza, tão vazio. Forço meu corpo a se levantar, vou até o espelho e prometo a meu próprio ser que jamais repetirei esta noite, mas a quem estou enganando? Você, minha angústia.
A comida já não tem o mesmo sabor, tudo está insosso demais. Reclamo para o nada e me levanto, está na hora de encarar o mundo real. Qual roupa vestir? Sinceramente, não faz diferença, você não a olhará mesmo. A primeira que aparece é suficiente, apenas tomo cuidado para não me entregar ao total desleixo, afinal, ainda que não repare, estará lá. Você, minha preocupação.
Um dia cheio, um dia terrível, mais uma vez deixei que fosse embora sem dizer-lhe uma mísera palavra. O céu noturno acompanha meus passos, enquanto repreendo minha boca por não abrir quando mandei. Será que faria certo em contar-lhe? Não sei. Mais uma noite desperdiçada. A rotina se repete, o céu se torna mais cinza, o Sol fica mais pálido. Estou me cansando. Já que não consigo confessar, tentarei esquecer. Impossível. Você, minha obsessão.
Na última tentativa desesperada de acabar com o sofrimento, entrego-me à mais doce aventura na boemia. Saio sem direção, entro em qualquer lugar, converso com quem aparecer, tudo isso tentando te encontrar. Buscar seus lábios tão certos nos beijos de outros tão errados, mas nenhum deles possui o vermelho que tanto lhe cai bem. Acho que não me resta opção, preciso admitir essa paixão doentia, que me consome como uma chama a sua vela. Você, minha frustração.
Volto para a casa, sem esperanças. Mais uma noite desperdiçada. O relógio anuncia que é hora de encarar o mundo real, mas hoje é domingo (mesmo não sendo Domingo). Não consigo dormir, mas me entrego ao desvario, entro pela mesma porta de sempre, passo horas ali, apenas admirando aqueles olhos que jamais se abrirão para que eu chegue até sua alma. Um misto de sofrimento e felicidade se alastra por todo meu corpo, e se traduz em apenas uma palavra: seu nome.
Você, minha essência.
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