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A VIOLÊNCIA
A violência conseguiu se estabelecer por conta da vingança que exige que o sangue inimigo seja derramado, que os prisioneiros sejam torturados, mutilados ou devorados ritualmente. A vingança é um imperativo social, independente das noções de culpabilidade ou responsabilidade individuais e que se manifesta por força do pensamento selvagem. Desta forma, a vingança pode ser vista como uma violência limitada que visa equilibrar o mundo e instituir uma simetria entre os vivos e os mortos.
Desde longa data a violência se organizou em função da honra e da vingança. Em relação à honra, existia a guerra, na qual o homem tem o dever de ser um guerreiro e valente perante a morte. A vingança é um dispositivo que socializa por meio da violência e faz com que ninguém possa deixar o crime ou a ofensa por punir. Neste sentido, o suplício selvagem é uma prática ritual exigida pelo código da vingança a fim de estabelecer o equilíbrio entre os vivos e os mortos.
A violência também apresenta um parentesco com a troca, na medida em que ensina aos homens o código de honra, prescrevendo a dádiva e o dever de generosidade.
Após o advento do Estado, a guerra tornou-se um meio de conquista, de expansão ou de captura, ou seja, ela desligou-se do código de vingança e entrou num processo de especialização, através da constituição de exércitos regulares de recrutas ou de mercenários. Desta forma, a partir do momento em que o Estado firmou sua autoridade, ele também limitou a prática da vingança privada, pois ela lhe era hostil. Contudo, a honra e a vingança perduraram sob o Estado, assim como a crueldade dos costumes, que tornou-se uma demonstração ostentatória de força e um festejo público.
O processo de civilização, marcado por uma suavização dos costumes, do qual ainda somos herdeiros e continuadores se iniciou a partir do século XVIII. Todavia, foi a partir do Estado moderno que emergiu uma nova lógica social e uma nova significação da relação inter-humana, ocorrendo o declínio da violência privada. Com a centralização do Estado moderno surgiu o indivíduo moderno, considerando-se a si próprio isoladamente, absorvendo-se na dimensão privada, recusando a submeter-se às regras ancestrais exteriores à sua vontade íntima. A partir daí, o indivíduo já não reconhece como dever sagrado a vingança de sangue que durante milênio, permitiu soldar o homem à sua linhagem. O código de honra também sofreu uma mutação decisiva e deu lugar ao código pacífico da respeitabilidade.
O Estado moderno, criou assim, o indivíduo socialmente desligado dos seus semelhantes, mas em contrapartida, criou um ser isolado, não belicoso e com medo da violência. Por outro lado, o indivíduo, existindo como pessoa privada, sente cada vez mais a aflição ou a dor do outro, o sangue, os ataques à integridade do corpo tornaram-se espetáculos insuportáveis, a dor surge como uma aberração caótica e escandalosa, mas a sensibilidade tornou-se uma característica permanente do homem.
Atualmente, a violência desparece maciçamente da paisagem urbana, tornando-se ao mesmo tempo o interdito maior das nossas sociedades. A pacificação dos indivíduos ocorre pela hiper-absorção individualista em sociedades que promovem o bem-estar e a auto-realização, evidenciando os indivíduos desejosos de se descobrirem a si próprios, de descarregarem por meio de viagens, de músicas, de desportos, de espetáculos do que se confrontarem fisicamente. Desta forma, o indivíduo renuncia a violência não só porque apareceram novos bens e fins privados, mas porque, o outro se torna dessubstancializado, ou um figurante sem importância.
O narcisismo que se estabeleceu teve suas conseqüências: a representação da violência tornou-se mais exacerbada quanto mais a violência regride na sociedade civil, ou seja, assistimos a uma profusão de cenas de violência, a um deboche de horror e atrocidade sem precedentes. Por toda a parte o processo extremista está em ação, pois vivemos numa época dos efeitos especiais e da performance pura, da exasperação e da amplificação vazias.
Isso deixa claro que se o processo de personalização suaviza os costumes da maioria, mas endurece os comportamentos criminosos dos desqualificados, favorece a emergência de atos energúmenos e estimula a violência. Hoje, assistimos à emergência de uma violência que perde as suas fronteiras estritas, atingindo praticamente, todos os países.
Por sua vez, com o narcisismo está ocorrendo uma epidemia do suicídio, por causa do acentuado individualismo, tem multiplicado as tendências para a auto-destruição evidenciando o desejo de morrer. Nesta era pós-moderna o indivíduo tenta matar-se sem querer morrer, ou seja, ele tenta pôr termo à vida por causa de qualquer observação menos lisonjeira.
A sociedade individualista traz em seu bojo uma era de revoluções e de lutas sociais sangrentas, emancipando-se do sagrado e abrindo a possibilidade de uma era de violência total da sociedade contra o Estado, sendo uma das suas conseqüências uma violência não menos ilimitada do Estado sobre a sociedade, ou seja, o Terror como modo moderno de governo pela violência exercida em massa, não só contra os opositores, mas contra os partidários do regime. O terrorismo ganha velocidade por si próprio, surgem explosões por toda parte, as violências sociais ocorrem num ritmo frenético que podem ser contextualizadas como revoltas puras da desocupação, do desemprego e do vazio social. A violência de classe deu lugar à uma violência de jovens desclassificados, que destroem seu próprios bairros num culminar hierrrealista sem programa nem ilusão.
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