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Sentimento de criança
Matilde Diesel Borille

Um cobertor da cor do urso polar me envolvia, e me abraçava, me abraçava, me abraçava... e eu me aconchegava na cama quentinha naquela noite fria que era de verdade. Era?
Você nunca vai saber. Você dormia um pouquinho, quando lá no céu ao som de "Deixe nevar! Deixe nevar! Deixe nevar!" nasceram três fascinantes floquinhos de neve, cada um com uma carinha única.
Assim que abriram os olhos, os pequeninos conheceram uma triste verdade: nasceram flocos de neve súditos de uma rainha branquinha que tinha frios olhos cinza chumbo.
Sua Majestade, a rainha, a quem se podia ler a intenção no rosto velho novo, olhou com firmeza para os três floquinhos e falou com eles em um tom esclarecedor, porém, autoritário.
_ Vocês, seus branquelos, são de vida curta, têm o direito de presenciar somente uma aurora e um crepúsculo, portanto, tratem de cair logo; cair no solo e continuar sendo o que são: belos e perfeitos.
Zinho, dono de uma beleza translúcida, quis descer nas asas da vaidade, testar sua coragem caindo sobre o primeiro casaco de inverno que encontrasse.
Pedido feito, pedido atendido.
Belo e perfeito, pousou no mundo da lã molinha, pesada, felpuda.
- Tá aí um camarada bem quentinho e de lã preta que vai permitir que eu mostre meu brilho de floco de neve nascido primeiro.
Pobre Zinho, às três horas da tarde daquele dia ele morria. Ninguém contara a ele que no mundo dos tecidos felpudos existem sombras e essas sombras são tão escuras para um floquinho de neve..., que descer sobre a gola de um casaco peludo e quentinho é o mesmo que morrer. E morrer errado.
Preguicinha, o que veio antes do floquinho menor, branquelo feito barriga de lagartixa, ia bem, estava bem, se sentia bem, até conhecer a Senhora Preguiça.
Deitados preguiçosamente (é claro) nas bordas de uma janela de queda, ele e ela, a Senhora que lhe atrasava a vida, dormiram. De repente, o branquelinho virou pro lado. E bow!
Pobre Preguicinha, não presenciou sequer o crepúsculo.
Quatro horas da tarde do primeiro dia e ele já tinha caído mortinho.
Por que não disseram ao branquelinho que preguiça mata?
E que morrer de preguiça é morrer errado?
Audaz, o que nasceu por último, o lindinho do meu bem querer, por palavras altas animado, perguntou, estudou, questionou, correu contra o tempo..., beijou a rainha (hã?), sim, beijou a rainha (ela não era tão má assim, viu?), e com os olhos cheios de perguntas bem abertos para tudo ver, caiu à maneira de uma neve suave.
Onde caiu?
Dentro de uma onda espumante.
Foi prazeroso. Conforme sonhado e planejado. E não demorou nadinha para o lindinho do meu bem querer sentir-se na areia da praia e observado por uma criança que brincava de um jeito simples, amava de um jeito simples e vivia de um jeito simples.
Imagina Audaz ter passado por sua vida sem ter tido a chance de conhecer a alegria de uma criança.
Não. Não precisa imaginar. Audaz foi sábio. Ele escolheu descer nas asas de um bonito pensamento, estudou para cair certo e o fez com humildade, de modo que dos três flocos de neve, somente a ele, a Natureza permitiu, como floco de neve belo e perfeito assistir uma aurora e um crepúsculo, e como prêmio pelo esforço, virar sentimento de criança.
E de repente eu estou gostando de neve, gostando ainda mais do que antes. Com meu coração nos pés, pisando leve. E do floquinho Audaz o tempo todo lembrando.


Biografia:

Este texto é administrado por: MATILDE DIESEL BORILLE
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