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AMOR BARATO - Cantigas Torpes e Carinhos Ordinários
fabio espirito santo

Resumo:
Teatro musical brasileiro com canções originais de Fábio Espírito Santo, Jarbas Bittencourt e Ronei Jorge. O espetáculo narra a trágica história do amor impossível vivido entre uma barata e um rato no submundo dos esgotos de uma metrópole brasileira. Ela é Dona, dondoca fútil e vulgar, filha de um megaempresário da comunicação; ele é Dom, delinquente juvenil, filho de um senador corrupto. O texto inspira-se na fábula infantil “O Casamento de Dona Baratinha” para abordar, com poesia e humor, aspectos da sociedade contemporânea como as disputas nas esferas do poder, corrupção e violência. Assuntos que estão no cerne da reflexão sobre a ética, a moral e a crise de valores no mundo moderno. Texto vencedor do Edital de apoio a criação de textos dramatúrgicos do Estado da Bahia/2010 – FUNCEB/SECULT. Teve a sua primeira em 2012, no Núcleo.TCA (Bahia)










AMOR BARATO
Cantigas Torpes e Carinhos Ordinários

Musical para teatro







Autores:
Fábio Espírito Santo
Jarbas Bittencourt
Ronei Jorge
















Brasil – 2012




























Aquele pozinho de matar baratas
matou o nosso amor.




PERSONAGENS:


DONA – D. Baratinha, órfã de mãe, filha do Dr. Barata

DOM – D. Ratão, filho do Senador Ratazana e Madame Ratazana

SENADOR RATAZANA – pai de Dom, político, arquiinimigo do Dr. Barata

MADAME RATAZANA – mãe de Dom, casada com Senador Ratazana

DR. BARATA – pai de Dona, megaempresário da comunicação, arquiinimigo do Senador

BARATA MACHO – integrante do coro dos bichos, solista narrador

RATA – integrante do coro dos bichos, solista narradora

BARATINHA 1 – amiga de Dona

BARATINHA 2 – amiga de Dona

RATO DA GANGUE 1 – rato amigo de Dom

RATO DA GANGUE 2 – rato amigo de Dom

VELHO RATO – rato de rua

RATA ASSESSORA – funcionária do Senador Ratazana

RATO SUSPEITO – rato misterioso

RATOS POLICIAIS – grupo de ratos policiais

DELEGADO RATÃO - delegado

REPÓRTER BARATA – jornalista da tevê do Dr. Barata

CORO DOS RATOS – grupo de ratos

CORO DAS BARATAS - grupo de baratas

CORO DOS BARATÕES – jovens baratas macho

CORO DE HUMANOS – voz de humanos

1 – ESGOTOS DE NARCISO

A música começa delicada e sorrateira até revelar-se grandiloqüente ao final da cena. Abre-se a cortina. Vemos um emaranhado de tubos e manilhas de esgotos escorrendo água imunda por todos os lados; sacos plásticos, lixo demais. Estamos no subterrâneo da metrópole, mais precisamente numa galeria no centro da velha cidade, um labirinto soturno e de aparente caos. Lugar povoado massivamente por ratos e baratas, embora outros bichos trafeguem pelo lugar. Aos poucos, desconfiados, eles surgem. Neste mundo dividido não dá para vacilar, nem mesmo com os iguais. É preciso ter olhos atentos.


BARATA MACHO
Que venham os vermes

MADAME RATAZANA
Apareçam os nefastos

BARATINHA 1
Que vivam os covardes

RATO DA GANGUE 1
Germinem os fracos

RATO DA GANGUE 2
Procriem os estúpidos

BARATINHA 2
Proliferem os corruptos

CORO DE RATOS E BARATAS
Que venham os vermes
Apareçam os nefastos
Germinem os fracos
Procriem os estúpidos
Que vivam os covardes
Proliferem os corruptos
Chega de escrúpulos!
Chega de escrúpulos!


A música cresce. A coreografia é vigorosa. Ratos e baratas se misturam mecanicamente num hábito cotidiano. E apesar da atmosfera de extrema tensão, sempre há um modo de se divertir: ratos fumam raticidas, baratas cheiram inseticidas; gangues se enfrentam; extorsão, estupro, assassinato, roubo, bandidagem, perseguição e fuga. Cenas de diversão e violência gratuita.



BARATA MACHO
Este é o mundo!

RATA
Muito infame este nosso mundo!

BARATA MACHO
Voce sabia
Acostumou-se bem rápido
Com a hipocrisia
E o ar.

RATA
Fétido do lugar!

CORO DE RATOS E BARATAS
É lixo, é lama, é merda por todo lado!
Parece que algo aqui deu muito errado!
Senhoras!
Senhores!
Perdoem-nos.

BARATA MACHO
Por palavras tão sórdidas
Por tanta aspereza

CORO DE RATOS E BARATAS
Senhoras!
Senhores!
Perdoem-nos.

RATA
Pela falta de delicadeza neste momento de diversão

CORO DE RATOS E BARATAS
Senhoras!
Senhores!
Perdoem-nos.

BARATA MACHO
Cantamos aqui, o drama de um amor impossível
Com trágico final.

CORO
Senhoras!
Senhores!
Perdoem-nos.

RATA
Folhetim gasto nada original!


CORO FEMININO DE BARATAS E RATAS
Epopeia animal!
Metáfora tosca!
Grosseira alegoria falsa!
Opereta imoral e louca!

BARATA MACHO E RATA
Cantamos agora uma história
Que fala ao coração
Canção de amor e de morte,
História de dor e paixão.
De Dona Baratinha e Dom Ratão
De Dona Baratinha e Dom Ratão.

CORO DE RATOS E BARATAS
Senhoras!
Senhores!

BARATA MACHO
Só não esperem de nossos heróis muita coisa.

CORO DE RATOS E BARATAS
Senhoras!
Senhores!

RATA
Não esperem nenhum feito relevante.

CORO DE RATOS E BARATAS
Senhoras!
Senhores!

BARATA MACHO
Não esperem nada.
Não esperem!

CORO DE RATOS E BARATAS
Senhoras!
Senhores!

RATA
Nada que não seja a delinquência.
Não esperem!

CORO DE RATOS E BARATAS
Senhoras!
Senhores!

BARATA MACHO
Qualquer semelhança aqui
Não é mera coincidência.

CORO DE RATOS E BARATAS
Senhoras!
Senhores!

BARATA MACHO
Presenciem de fato,
A bizarra paixão...

CORO DE RATOS E BARATAS
Senhoras!
Senhores!

RATA
..de uma barata...

CORO DE RATOS E BARATAS
Senhoras!
Senhores!

BARATA MACHO
...e um rato!


No meio do caos destacam-se, agora, Dom e Dona, nossos protagonistas. O destino resolve o encontro: esbarram-se. Intensa troca de olhares entre eles, mescla de ameaça, medo e atração,.


CORO DE RATOS E BARATAS
Senhoras!
Senhores!
Perdoe-nos!

Por sermos bichos tão rudes.
Por sermos bichos tão sujos.

Senhoras!
Senhores!

Os ratos e baratas se dispersam; agora, ouvimos, ao longe, uma melodia que vem de alguma tubulação.



2 – INTRODUZINDO DONA

Acompanhada por um grupo de jovens baratas macho, vemos Dona, nossa dondoca heroína. Ela surge dançando de maneira sensual e provocativa, fazendo ferver o sangue frio dos baratões. Mais afastado, vemos Barata Macho e acompanhado de duas Baratinhas, amigas de Dona, que rebolam de forma vulgar, num erotismo extremista. Todas dançam e cantam animadas, enquanto bebem a sobra de cerveja que cai pelo bueiro.


BARATA MACHO
Ela é filha de megaempresário
Da comunicação
Baratinha “flor da idade”
Delicinha, tentação!

CORO DOS BARATÕES
Filha de megaempresário
Da comunicação
Baratinha “flor da idade”
Delicinha, tentação!

BARATA MACHO
Ela é:

CORO DOS BARATÕES
Dona, Dona, Dona, Dona, Dona
Dona, Dona, Dona, Dona, Dona
Dona

BARATA MACHO
Baratinha gostosa!

CORO DOS BARATÕES
Dona, Dona, Dona, Dona, Dona
Dona, Dona, Dona, Dona, Dona
Dona Baratinha gostosa!

BARATA MACHO
Ela é demais!
Perninhas esculturais,
Tá nas colunas sociais.
Frequenta finos bacanais

CORO DOS BARATÕES
Dona, Dona, Dona, Dona, Dona
Dona, Dona, Dona, Dona, Dona
Dona Baratinha gostosa!

BARATA MACHO
Não sabe da missa a metade
Desta carcaça cascuda
Brota mediocridade.
Dondoca fútil e vulgar...
Até parece... Esquece!
Deixemos que com suas pernas
Ela tropece!

CORO DOS BARATÕES
Deixemos que com suas próprias pernas
Ela tropece!

BARATA MACHO
Baratinha gostosa!

CORO DOS BARATÕES
Dona, Dona, Dona, Dona, Dona,
Dona, Dona, Dona, Dona, Dona,
Dona Baratinha gostosa!
Vou comer sua baratinha!
Vou comer sua baratinha!
Baratinha gostosa!


O grupo de jovens baratas macho se afasta. Dona sai da muvuca do inferninho acompanhada das suas amigas Baratinhas 1 e 2.



3 – VIDA DE BARATA É FOGO

Dona acende um cigarro. Um copo de bebida na mão.


DONA
Basta!
Isso aqui ficou chato!
Basta!
Chega pra lá, desencosta!
Basta!
Isso aqui tá um saco!
Basta!
Não quero mais essa bosta!
Basta!
Eu vou fumar um veneno
Basta!
Lá no bueiro da esquina
Basta!
Eu quero um café pequeno,
Basta!
Um mousse de estricnina...
Hoje eu só quero da vida é me foder!

BARATINHAS 1 e 2
Deixar a onda bater
Deixar a onda...


DONA
Hoje eu só quero da vida é me foder!

BARATINHA 1
Prefiro inseticida, amiga
Alguém sabe onde tem?

BARATINHA 2
E a maldita creolina?
Fico tonta logo logo, hein?!

DONA
Vida de barata é fogo!

DONA e BARATINHAS 1 e 2
Vida de barata é fogo!
Vida de barata é fogo!
Só ficando muito doida pra suportar!

DONA
Eu não quero esse casamento negociado pelo meu pai!

BARATINHA 1
Mas o casório tá marcado!

BARATINHA 2
Você tá louca, sua barata tonta?

BARATINHAS 1 e 2
A casório tá pago
A banda tá paga,
A bebida tá paga,
O salgado tá pago
O doce tá pago
Tá tudo pago, tá tudo pago!
E o velho baratão é bilionário
Tá tudo pago, tá tudo pago!
Logo logo alguém pisa nele
Tá tudo pago, tá tudo pago!
E você vai ficar ainda mais rica, sua burra!
Tá tudo pago, tá tudo pago!

CORO DOS BARATÕES
Dona Baratinha vai se casar!

DONA
Mas o que eu queria mesmo era um outro lance
E que fosse pra valer
Um love story, um romance
Como deveria ser


BARATINHAS 1 e 2
Não delira Dona,
Não delira Dona!

DONA
Antes que o mundo acabe
Antes que a terra se exploda
Eu preciso saber o que é o amor!


As amigas baratinhas enchem o saco de Dona e vão embora. Dona sai em seguida para o outro lado, depressiva.



4 – INTRODUZINDO DOM

A rata sai das tubulações e, de longe, observa a saída de Dona.


RATA
Não lamentem, senhores.
Não, não chorem por ela, senhoras.
Essa barata não vale uma lágrima
Acreditem!
Coisa pior ainda vem por aí.
Chegou a hora de conhecer, irmão
Conheça Dom, vulgo Dom Ratão.


Dom surge de um dos canos; espreita; parece que vai aprontar uma das suas.


RATA
Rato muito escroto
Camundongo delinquente e rico.
Devia perder todos os dentes
Devia envenenado morrer!
Nascido da mais fina flor dos ratos,
Deixemos que ele se enforque
Com seu próprio rabo.





5 – CHURRASQUINHO DE RATO

A música cresce em tesão. Confusão. Dom e os ratos de sua gangue perseguem o Velho Rato. Conseguem cerca-lo.


GANGUE DOS RATOS
Comece a rezar
Pegou pra você
Sua cara idiota
Vai sair na TV
Cê vai ver! Cê vai ver!
Estampada nos jornais!
Ensanguentada pra valer!
No asfalto, na sarjeta.
Vai tá lá!
Cê vai ver!
Vai tá lá!
Cê vai ver!


Seguram o Velho Rato à força, que tenta resistir à humilhação,. sem sucesso, coitado. Os ratos arruaceiros barbarizam na violência.



DOM
Sou fruto das melhores escolas
Sou bacharel
Escrito na Bíblia
Tá no papel
E no dicionário

GANGUE DOS RATOS
Malandro é malandro
Otário é otário

DOM
Tá tudo manipulado
Tá tudo dominado
Politicamente correto
Na casa do caralho

GANGUE DOS RATOS
Malandro é malandro
Otário é otário

DOM
Minha intenção aqui é ruim, sim
Eu sou assim.
Mas o que fazer...

GANGUE DOS RATOS
...com os velhos?

DOM
O que fazer...

GANGUE DOS RATOS
...com os pobres?

DOM
O que fazer...

GANGUE DOS RATOS
...com as bichas?

DOM
O que fazer...

GANGUE DOS RATOS
...e as vadias?

DOM
Quebrar os dentes!
Arrancar a pele!
Esfolar,
Queimar,
Sumir com essa gente.

GANGUE DOS RATOS
Vamos queimar esse rato!
Rato preto, rato pobre, rato velho, rato morto!

DOM
Por que chorar por aqueles
Que não têm o que perder?

GANGUE DOS RATOS
Vamos queimar esse rato!
Rato preto, rato pobre, rato velho, rato morto!

VELHO RATO
Senhor,
Por favor, eu te peço perdão
Perdão.

DOM
Nós não somos a escória
Isso a história vai dizer.

GANGUE DOS RATOS
Vamos queimar esse rato!
Rato preto, rato pobre, rato velho, rato morto!

VELHO RATO
Pelo pelo meu ser mais preto que seu.

DOM
Como são ingênuos os pobres!
Tô te fazendo favor
Não tá vendo?

GANGUE DOS RATOS
Vamos queimar esse rato!
Rato preto, rato pobre, rato velho, rato morto!

VELHO RATO
Senhor,
Por favor, eu te peço perdão
Perdão.

DOM
Vamos excluir de vez os excluídos
Extrair o pus da sociedade

GANGUE DOS RATOS
Vamos queimar esse rato!
O pânico, o medo, a inveja, o boato.

DOM
Vamos jogar uns contra os outros!

GANGUE DOS RATOS
Vamos queimar esse rato!
O pânico, o medo, a inveja, o boato.

DOM
E se for pouco...

GANGUE DOS RATOS
Vamos queimar esse rato!
O pânico, o medo, a inveja, o boato.

DOM
...espalhemos a carnificina

GANGUE DOS RATOS
Vamos queimar esse rato!

DOM
Hoje, tem churrasquinho de rato!

Os integrantes da Gangue seguram o Velho Rato e despejam gasolina sobre ele. Dom pega o maçarico e toca fogo no Velho Rato que grita e arde em chamas.




6 – COLOQUE NA CUECA

Em seu gabinete, o Senador Ratazana, arrotando poder, fala ao telefone.


SENADOR RATAZANA
Consiga uma maleta
Ou coloque na cueca
Enfie no cu se preciso for.

Se vire nos trinta,
Não dê mole, minta.
Enfie no cu se preciso for.

Vista a roupa de sapo,
Dê seus pulo pro alto.
Enfie no cu se preciso for.
Mas traga, me faça o favor!
Seu tralha!

A Rata Assessora entra, apressadinha. Senador Ratazana fala com ela.


RATA ASSESSORA
Senador, Senador
Quem Vossa Excelência esperava
Chegou.

SENADOR RATAZANA
Faça-o entrar, por favor.

RATA ASSESSORA
E se a imprensa perguntar

SENADOR RATAZANA
Diga que é meu eleitor.


Assessora sai serelepe. Senador Ratazana volta ao telefone.


SENADOR RATAZANA
Mas tome muito cuidado
Olhe se não tá sendo gravado
Não quero meu filme queimado.
(para fora) Faça entrar por favor!
(ao telefone) E vê se não falha!
Seu tralha!

Zangado, o Senador Ratazana desliga o telefone. O poder o estufa.



7 – RATO DE MEIA-PATACA

Entra Rato Suspeito, atento e desconfiado ele se aproxima do Senador Ratazana; cínico aperto de mãos.


SENADOR RATAZANA
Caro Rato,
Muito bem vindo seja.
Uísque? Cerveja?

RATO SUSPEITO
Eu não bebo...

SENADOR RATAZANA
Aceita outra coisa qualquer?

RATO SUSPEITO
Que seja o que você quiser...
O que você quiser.

SENADOR RATAZANA
Caro Rato,
Uma coisa é uma coisa
Outra coisa é uma coisa qualquer!

RATO SUSPEITO
Esse papo já tá qualquer coisa...
Diga já o que quer.

SENADOR RATAZANA
Tem uns Rato pobres
Em uma área nobre
Lá na Viela Principal.

RATO SUSPEITO
Lá onde deságua o esgoto central?

SENADOR RATAZANA
Não é uma vielinha qualquer...
Entendeu?

RATO SUSPEITO
Sim, mas o que você quer?


Senador Ratazana delira por um momento.



SENADOR RATAZANA
Construir um lugar pra morar, pra viver!
Construir um lugar para mim pra você.
Construir um lugar pra comprar, pra vender
Um lugar, não lugar, pra alugar...
Pra quem possa pagar!


Senador Ratazana volta ao seu normal e fala pertinho do Rato Suspeito, em segredo.


SENADOR RATAZANA
Mas tem uns Rato pobres
Nessa área nobre
Lá na Viela Principal.

RATO SUSPEITO
Onde deságua o esgoto central!

SENADOR RATAZANA
Não é uma vielinha qualquer...
Entendeu?

RATO SUSPEITO
Sim, mas o que você quer?

SENADOR RATAZANA
Caro Rato,
O que queres mais que eu diga?

RATO SUSPEITO
Depende.
O que queres mais falar?

SENADOR RATAZANA
Só o que já foi dito...

RATO SUSPEITO
Ah, então...
Até logo.

SENADOR RATAZANA
Muito bem.

SENADOR RATAZANA e RATO SUSPEITO
Foi um prazer!


Senador Ratazana e Rato Suspeito apertam as mãos novamente; Rato Suspeito sai pelos fundos, imundo.



8 – A COMISSÃO QUER COMISSÃO

Rata Assessora entra correndo, aflita.


RATA ASSESSORA
Senador, Senador
Chegaram os integrantes da bancada
Senador, Senador
Tá parecendo uma comissão bem armada
De palavrórios.

SENADOR RATAZANA
É tudo imbróglio
A comissão quer comissão

RATA ASSESSORA
A comissão quer comissão

SENADOR RATAZANA
A comissão quer liberar uma emenda

RATA ASSESSORA
A comissão quer comissão

SENADOR RATAZANA
Cargos, privilégios e regalias

RATA ASSESSORA
A comissão quer comissão

SENADOR RATAZANA
Faça entrar os ratos institucionais!


Com sorriso farto e falso, Senador Ratazana abre os braços para a plateia.


SENADOR RATAZANA E RATA ASSESSORA
Digníssimos
Ilustríssimos
Excelências
Sejam todos bem-vindos
Por aqui.

SENADOR RATAZANA
Sigam-me pelo esgoto.
Há privilégios para todos!


RATA ASSESSORA
Senador, Senador
Há também uma ligação urgente,
Muito urgente!
Seu filho, da delegacia.

SENADOR RATAZANA
Que agonia!
Resolva
Agora não posso
O delegado que espere
Sou um rato bastante ocupado
Com as questões nacionais.


Senador Ratazana sai pela abertura de uma manilha por onde desemboca o esgoto. Lugar propício para ele.



9 – ESCÓRIA DA ESPÉCIE

Na delegacia, agora é a hora e a vez de Dom sofrer nas mãos dos Ratos Policiais.


DELEGADO RATÃO
Você é crápula
Você é pútrido
Você é víbora
Escória da espécie.

RATOS POLICIAIS
Você fede, seu verme!
Matar semelhante!
Quanto desplante!
Como pôde?
Se igualar aos humanos
Deste jeito tão torpe?

DOM
O velho já ia mesmo morrer
Que mal há?
Só adiantei a passagem.
Sem sacanagem.

DELEGADO RATÃO
Você é crápula
Você é pútrido
Você é víbora
Escória da espécie.

RATOS POLICIAIS
Aqui não tem malandragem
Moleque!
Com mesma moeda
Se paga também
Para um crime assim
Tem que ter um mesmo fim.

DELEGADO RATÃO
Você é crápula
Você é pútrido
Você é víbora
Escória da espécie.

RATOS POLICIAIS
Hoje tem churrasquinho de rato!
Hoje tem churrasquinho de rato!
Hoje tem churrasquinho de rato!

DOM
Tenho as costas quentes!
Corvardes!
Vocês vão se estrepar!

RATOS POLICIAIS
Você é crápula!

DELEGADO RATÃO
Vai se foder
Seu playboy de merda!

RATOS POLICIAIS
Você é pútrido!

DELEGADO RATÃO
Perdeu a vez
Não tem voz

RATOS POLICIAIS
Você é víbora!

DELEGADO RATÃO
Costas quentes, sim
Bem à vontade
E bem frito
Nos ferros da grade.

RATOS POLICIAIS
Escória da espécie!


DOM
Quem tem cu, tem medo!

DELEGADO RATÃO e RATOS POLICIAIS
Hoje tem churrasquinho de rato!
Hoje tem churrasquinho de rato!
Hoje tem churrasquinho de rato!

DELEGADO RATÃO
(nojo) Mas isso não é um rato!


Dom grita desesperado.



10 – SABE COM QUEM ESTÁ FALANDO

Senador Ratazana invade a delegacia com toda prepotência que lhe é peculiar.


SENADOR RATAZANA
Parem!
Soltem!
Libertem!
Tirem estas patas podres
Do corpo do meu filho.

DOM
Pai?

SENADOR RATAZANA
Larguem!
Deixem!
Desamarrem!
Tirem esse pau imundo
Do rabo do meu filho.

DOM
É meu pai!

RATOS POLICIAIS
Digníssimo.
Ilustríssimo.
Excelência.

DELEGADO RATÃO
Quanta honra
Tê-lo por aqui, excelência!

SENADOR RATAZANA
Deixemos de papo-furado
Você sabe muito bem com quem está falando!

RATOS POLICIAIS
Digníssimo.
Ilustríssimo.
Excelência.

SENADOR RATAZANA
Se não quiser perder o emprego
Faça o que eu mando
Você sabe com quem está falando!

RATOS POLICIAIS
Digníssimo!
Ilustríssimo!

DELEGADO RATÃO
Calma, excelência!
Aqui a língua é diferente.

SENADOR RATAZANA
Sei muito bem o tipo de rato que é
Conheço bem tua fala
Diga quanto e a conta do banco.

DELEGADO RATÃO
Que tal um cafezinho.
Num lugar mais reservado?

SENADOR RATAZANA
Bem acertado!
Melhor sermos discretos!


Os Ratos Policiais riem. Saem todos por uma abertura do esgoto.




11 – QUE TESÃO DE BARATINHA

Na sala de sua casa, Dr. Barata se masturba vendo imagens projetadas de jovens baratinhas.


DR. BARATA
Uhhh!
Veja que gracinha
Uhhh!
Tão pequeninha
Uhhh!
Essa... essa eu imagino...
Uhhh!

DR. BARATA e CORO
Balançando as anteninhas!

DR. BARATA
Uhhh! Uhhh!

DR. BARATA e CORO
Olha só que tesão de baratinha!

DR. BARATA
Nascendo pelinho...
Uhhh!

CORO
Olha só que tesão de baratinha!

DR. BARATA
Por toda perninha.
Uhhh!

CORO
Olha só que tesão de baratinha!

DR. BARATA
Olha só que tesão de barata!

CORO
Olha só que tesão de baratinha!

DR. BARATA
E ela ainda é só uma baratinha!
Uhhh!

CORO
Olha só que tesão de baratinha!

DR. BARATA
Ai, ai... Essa quando crescer vai dar trabalho

CORO
Olha só que tesão de baratinha!

DR. BARATA
Ai, meu caralho!

CORO
Olha só que tesão de baratinha!

DR. BARATA
Olha só que tesão de barata!

CORO
Olha só que tesão de baratinha!

DR. BARATA
E ela ainda é só uma baratinha!

CORO
Olha só que tesão de baratinha!

DR. BARATA
Uhhh!




12 – MEU PAI, UM PEDÓFILO

Dona entra e vê seu pai, o Dr. Barata, com a “mão na massa”; ele goza sem perceber a presença dela. Dona fica chocada; as fotos das baratinhas continuam sendo projetadas. Dr. Barata percebe, enfim, a presença da filha. Nada explica o que foi visto.


DR. BARATA
Uhhh!
Vem, vem...
Senta aqui no colinho do titio, vem!

DONA
Que podridão é essa?
Que porcaria é essa?

DR. BARATA
A imagem nem sempre é
O que parece ser
Filha minha
Tente entender...

DONA
Que podre, que porco, quanta nojeira!
São minhas amigas!

DR. BARATA
São tão bonitinhas!

DONA
Elas são minhas amigas!

DR. BARATA
Mas são umas gracinhas, não são?
A imagem nem sempre é
O que parece ser
Filha minha
Tente entender...

DONA
Que podre, que porco, quanta nojeira!
O meu próprio pai...

DR. BARATA
Quem? Eu?

DONA
O meu próprio pai...

DR. BARATA
Exagero seu!

DONA
É nojeira demais!
É porcaria demais!

DR. BARATA
Você vai entender
Quando eu explicar.

DONA
Que podridão é essa?

DR. BARATA
Você vai entender...

DONA
Que podridão é essa?

DR. BARATA
Quando eu explicar.


Babando, Dr. Barata tenta agarrar Dona.


DONA
Você me dá nojo!
Você me dá asco!
Não toque em mim!
Tire as mãos de mim!
Covarde!
Canalha!

DR. BARATA
Cale essa boca, vadia!


Dr. Barata dá um tapa na cara de Dona, que vai ao chão.


DONA
Eu não me calo
Já sou mesmo carta fora do baralho.
Mas tua hora é certa
É o começo de tua agonia
Quando todo esgoto souber
Dessa tua face doentia.
Adeus. Até. Adeus.
Pai, já não tenho mais!


Desnorteada, Dona sai correndo aos prantos; Dr. Barata segue atrás, mas se conforma em parar na porta. Desiludido, rasteja até as imagens das baratinhas que continuam sendo projetadas.


DR. BARATA
Dona, filha minha
Querida, volte!
Diz que me ama
Então dormiremos na mesma cama
Volte!
Dona, filha minha querida
Volte!
Papai gosta!
Uhhh!


Cai a luz sobre o Dr. Barata.



13 – PIOR PODE FICAR

A música ataca violentamente. Senador Ratazana aparece puxando Dom por uma coleira amarrada ao pescoço.

SENADOR RATAZANA
Você quer me arruinar?
Você quer me foder?
Você quer me estrepar?
Você vai ver!!!

DOM
Me solta, pai
Eu não sou cachorro, não!

SENADOR RATAZANA
Cale essa boca!
E não me chame de pai.


Dom tenta escapulir, sem sucesso. De súbito, entra Dona correndo desesperada. Dá de cara com os dois ratos escrotos. Tensão. Ela os reconhece, principalmente o Senador Ratazana que a olha com malícia.


SENADOR RATAZANA
Olha, olha, olha...
Olha, olha só mas que surpresa!
Olha que beleza, quem me apareceu?

DONA
Ai, ninguém merece...

SENADOR RATAZANA
Olha que tesão de baratinha!
Olha que perninha! Mas como ela cresceu!

DONA
Vê se me esquece!

SENADOR RATAZANA
Era tão pequenininha...
Eu só me lembro aquela puta confusão que deu!

DONA
Que nojo da porra!

SENADOR RATAZANA
Só por causa de uma lambidinha
Toda a corja de baratas quase enlouqueceu...

DONA
Eu quero mais que você morra!

SENADOR RATAZANA
Mas hoje eu não vou te lamber!
Hoje eu não vou te chupar!
Hoje eu vou te comer!
Hoje eu vou te estraçalhar!


Senador Ratazana avança para cima de Dona, mas Dom corre para o outro lado fazendo o velho ir ao chão; Dona foge.

DOM
Deixa ela, pai.


Senador Ratazana se recompõe, seu olhar fulmina Dom e o puxa pela coleira, com violência.

SENADOR RATAZANA
Cale essa boca e não me chame de pai!
Você quer me arruinar?
Você quer me foder?
Você quer me estrepar?
Você vai ver!!!

DOM
Me solta
Ai, me solta, pai!.


Dom ainda tenta escapar, mas sem sucesso; os dois saem.



14 – SIM, CHOREI, SIM

Confortavelmente sentada na poltrona da sala, Madame Ratazana bebe mais uma dose; já tá calibrada. A tevê, que ela não assiste, está sempre ligada.


MADAME RATAZANA
Sim, chorei ,sim
En mi sueños hermosos vivi,
E un sinfín de “Recuerdos” de mi,
Em festas, vestidos e orquestras,
Não sei se vivi...
O amor que deixei no papel,
O vestido, o altar, o anel
Que a lembrança me diga, quem sabe, que amei, que sorri.

Sim, chorei, sim
Quem sabe se amei
Quem sabe sorri
E usei patchuli.


Madame Ratazana entorna o copo.



15 – OLHA SÓ O IMPRESTÁVEL QUE VOCÊ PARIU

Impetuoso, o Senador Ratazana entra em casa arrastando Dom; Madame Ratazana permanece dopada em sua poltrona vendo a cena.

SENADOR RATAZANA
Olha só o imprestável que você pariu.
Olha esse miserável, saiu de você.
Dei carro importado,
Dei roupa da moda,
E a melhor escola
pra quê?

SENADOR RATAZANA e CORO
Olha só o imprestável que você pariu.

MADAME RATAZANA
Meu filho, o que fizeram contigo?

DOM
Nada, mãe
Só uma zoeira à toa, aí.
Já tô bem.

CORO
Olha só o imprestável que você pariu.

SENADOR RATAZANA
Tão burro e inútil quanto à própria mãe!

DOM
Não fale dela assim, estúpido.
Eu sou igual a você
Não vê?

CORO
Olha esse miserável, saiu de você.

SENADOR RATAZANA
Vá à merda, Moleque!
Filhinho da mamãe
Seu lugar é o quarto
Lá, fodido
Bem no fundo do buraco.

CORO
Olha só o imprestável que você pariu.


Dom sai cabisbaixo.




16 – NEM PRA FODER VOCÊ SERVE

Senador Ratazana e Madame Ratazana ficam sozinhos. Momento constrangedor.


MADAME RATAZANA
Coitado, o menino não tem culpa.

SENADOR RATAZANA
Cala a boca também
Que nem pra foder você serve.

MADAME RATAZANA
Mas eu só pensei...

SENADOR RATAZANA
Pensou errado!

MADAME RATAZANA
Mas eu só falei...

SENADOR RATAZANA
Falou errado!


Senador Ratazana bate em Madame Ratazana, que não reage.


SENADOR RATAZANA
Cala!
Agora, chega!
Vou sair por aí
Procurar melhor companhia
Na madrugada
Você não me agrada em nada!
Me causa azia
Agora, se puder, sorria!


Senador Ratazana sai sorrindo; Madame Ratazana continua sozinha, balançando a pedra de gelo no copo; escurece.



17 – A VIDA NÃO É BELA

Cenas paralelas. Dona, sozinha, perambula pela rua; vasculha algumas latas de lixo, procurando restos de cerveja. Dom, sozinho, triste no fundo do buraco.


DONA
Será que a vida
É feita só de dor
Será?
Me diz, me diz
Eu que não tenho amor,
Eu que sou infeliz.

DOM
Será que a vida
É feita só de dor
Será?
Me diz, me diz
Eu que não tenho amor
Eu que sou infeliz.

DONA e DONA
Me diz como posso
Sofrer tanto assim
Me explica,
Me faz entender.
Eu que ainda não tenho amor
Eu que sou infeliz

DOM e DONA e CORO
A vida não é bela disso eu tenho certeza!

DONA
Eu...

DOM
Rato de esgoto

DONA
Barata de rua

DOM e DONA e CORO
A vida não é bela disso eu tenho certeza!

DOM
Pai

DONA
Pedófilo

DOM
Corrupto

DOM e DONA e CORO
A vida não é bela disso eu tenho certeza!

DONA
Mãe

DOM
Alcoólatra

DONA
Morta

DOM e DONA e CORO
A vida não é bela disso eu tenho certeza!

DONA E DOM
Eu que não tenho amor
Eu que sou infeliz.


Dom e Dona se acomodam para dormir.



18 – A VIDA DÁ UNS VACILOS

Entram grupos de ratos e baratas e ficam em volta dos ambientes em que nossos heróis estão.

CORO DAS BARATAS
Dona não sabia
Não
Não sabia.

CORO DOS RATOS
Dom não sabia
Não
Não sabia.

CORO DE RATOS E BARATAS
Dom não sabia
Dona não sabia

BARATA MACHO
Que a tristeza tem lá seus remédios!

CORO DE RATOS E BARATAS
Não, não sabia

RATA
Que o destino tem lá seus atalhos!

CORO DE RATOS E BARATAS
Não, não sabia

BARATA MACHO
Que a vida tem lá seus descuidos!

CORO DE RATOS E BARATAS
Não, não sabia

RATA
Que o mundo tem lá seus mistérios!

CORO DE RATOS E BARATAS
Não, não sabia

CORO DE RATOS E BARATAS
Não conheciam quase nada das coisas da vida.

BARATA MACHO
Eram jovens demais pra saber.

CORO DE RATOS E BARATAS
Não conheciam quase nada das coisas do mundo.

RATA
Que a vida, as vezes, dá uns vacilos!

CORO DE RATOS E BARATAS
Não conheciam quase nada das coisas da vida.

BARATA MACHO
Frequentavam os mesmos esgotos
Os mesmos buracos quentes
As mesmas paradas

CORO DE RATOS E BARATAS
Não conheciam quase nada das coisas do mundo.

RATA
Mas nunca imaginaram
Que pudesse acontecer
Em suas podres vidas.

CORO DE RATOS E BARATAS
Não conheciam quase nada das coisas da vida.

BARATA MACHO
Ratos e baratas
Nunca se deram mesmo muito bem.
Mas, às vezes, a vida dá uns vacilos!

CORO DE RATOS E BARATAS
Não conheciam quase nada das coisas do mundo.

RATA
E como já é certo
Que tudo acontece um dia
Aconteceu a fatalidade.
Dom foi barbarizar na zona oeste
Da cidade.
E Dona lá estava
Bêbada,
Largada na porta do bar.

BARATA MACHO
Foi assim que a coisa toda se deu
Foi assim que tudo isso ocorreu.
Mas deixemos que eles mesmos contem.


Ratos e Baratas se dispersam.



19 – AMOR, UMA PORRA!

A música muda o clima; Dom conta para a sua gangue de ratos imundos como foi a noite passada.

DOM
Comparsas
Vocês não vão acreditar no que aconteceu.
Começou assim:

Dentro de um bar de quinta
Depois de muito zoar
Desci correndo a ladeira
Cês não vão acreditar!
Quando virei a esquina
Topei com um gato escroto.
Me enfiei no esgoto bueiro
E ele ficou por lá.


A Gangue ri e comemora a esperteza de Dom.


GANGUE DOS RATOS
Rato quando não tem saída
Entra pelo cano.
Rato entra pelo cano.

DOM
Se vocês querem saber
Eu nunca fugi tão contente
Se fosse pra repetir
Repetia tudo, sinceramente
Foi uma noite tão louca,
Alucinante...
Uma noite diferente
Dessas que ficam marcadas
Pra nunca mais esquecer.

GANGUE DOS RATOS
Fala logo,
Larga o doce,
Abra o jogo,
Fala logo
Larga o doce.

O que te fez ficar assim?
O que te fez falar assim,
Tão mansinho?

DOM
Mansinho, o cacete!

GANGUE DOS RATOS
D. Ratinho...

DOM
Ah, vão à merda, não enche!

GANGUE DOS RATOS
D. Ratinho...
Tão mansinho!

DOM
Madrugada no esgoto de um bar.
Passei correndo sem zelo
É tão difícil de acreditar,
Ficou grudada em meu pelo.
Atropelei uma barata bêbada.

GANGUE DOS RATOS
Barata bêbada?

DOM
Atropelei uma barata bêbada!

GANGUE DOS RATOS
Barata bêbada?
Isso tudo é pesadelo!

RATO GANGUE 1
Pelo menos comeu a nojenta?

DOM
Não.

GANGUE DOS RATOS
Isso tudo é pesadelo!

RATO GANGUE 2
Com certeza estraçalhou a bagaça!

DOM
Também não.

GANGUE DOS RATOS
Isso tudo é pesadelo!

DOM
Dessa vez foi diferente!
A barata ficou grudadinha em mim!

CORO DAS BARATAS
Barata grudada no pelo!

GANGUE DOS RATOS
Isso tudo é pesadelo!
Barata bêbada!

CORO DAS BARATAS
Barata grudada no pelo!

DOM
Foi uma loucura!
Gostoso pra caralho!!
Nunca senti algo assim!

GANGUE DOS RATOS
Isso tudo é pesadelo!
Barata bêbada!

CORO DAS BARATAS
Barata grudada no pelo!

RATO GANGUE 1
Que otário!

DOM
Ah, não zombem!

RATO GANGUE 2
Ih, isso tudo é amor


DOM
Amor, uma porra.
Amor, um caralho.


GANGUE DOS RATOS
Isso tudo é pesadelo!
Barata bêbada!

CORO DAS BARATAS
Barata grudada no pelo!


Ratos da Gangue zombam de Dom.


DOM
Vocês tão me desconhecendo?
Ah, me deixem!

GANGUE DOS RATOS
Isso tudo é pesadelo!

CORO DAS BARATAS
Barata grudada no pelo!
No pelo!

Dom sai furioso e os ratos da gangue o seguem rindo e fazendo gozação.





20 – A INCRÍVEL VIAGEM DE AMOR PELO PELO DELE

Entra Dona Baratinha seguida por suas amigas baratinhas; alegrinha, ela conta como foi a sua noite de aventura.

DONA
Baratinhas
Sigam-me!
E vou contar pra vocês como foi
A incrível viagem de amor pelo pelo dele.


Baratinhas 1 e 2 soltam gritinhos histéricos.


BARATINHAS 1 e 2
Conta todos os detalhes!
Todos os segredos!
Conta até as sacanagens!

DONA
Nunca senti nada igual!
Ele é sensacional!

BARATINHA 1
Ih, tá apaixonada!
Agora já era!

BARATINHA 2
Ah, Dona
Conta mais!
Conta do início!

DONA
A incrível viagem de amor pelo pelo dele.
A incrível viagem de amor pelo pelo dele.

DONA e BARATINHAS 1 e 2
A incrível viagem de amor pelo pelo dele.
A incrível viagem de amor pelo pelo dele.

DONA
Tava madrugada
Ali parada
Na calçada do bar.
Tava encostada,
Tão chapada,
Sem sair do lugar.
Quando não,
De repente uma força me leva em qualquer direção
Quando não,
Uma amor tão veloz atropela o meu coração

DONA e BARATINHAS 1 e 2
A incrível viagem de amor pelo pelo dele.
A incrível viagem de amor pelo pelo dele.

BARATINHA 1
Um rato?

DONA
É, um rato!

BARATINHA 2
Atropelada por um rato?

DONA
É, um rato
Foi enquanto ele fugia de um gato.

BARATINHA 2
Não sabia que rato tava barato!

DONA
Ai, mas eu fiquei grudada nele, no ato.

BARATINHAS 1 e 2
Intenso! Selvagem!
Ai, quanta loucura!
Só sacanagem!!!
Ai, quanta aventura!

DONA
Quando não, um arrepio na asa direita e a onda bateu.
Sensação, a anteninha girou e o pelinho da perna tremeu.

DONA e BARATINHAS 1 e 2
A incrível viagem de amor pelo pelo dele
A incrível viagem de amor pelo pelo dele

BARATINHAS 1 e 2
Dona!

DONA
Acho que tô amando!

BARATINHAS 1 e 2
Dona,
Você tá delirando!

DONA e BARATINHAS 1 e 2
A incrível viagem de amor pelo pelo dele
A incrível viagem de amor pelo pelo dele

Saem cantando, eufóricas.



21 – O VENENO ESCORRE PELA TELEVISÃO

Agora o clima de felicidade da cena anterior, cede lugar para a tensão no duelo a seguir. Cenas paralelas. Vemos o Senador Ratazana e o Dr.Barata, cada qual em seu escritório, atento às imagens que passam na tevê; ouvimos apenas o som que sai do aparelho: é uma entrevista com o Senador Ratazana.


SENADOR RATAZANA (pela tevê)
Estamos fazendo de tudo
Pelo bem da população.
Por isso, na próxima eleição
Eu quero ser governador.
É mais um ato meu, de amor
Pelos necessitados.
Vou à vitória nos braços do povo!
O povo sabe votar!

REPÓRTER BARATA (pela tevê)
Muito obrigada, Senador!
Mas o que o senhor tem a nos dizer
Sobre estas imagens?

Pela televisão, vemos o Senador Ratazana em cena de suborno explícito.


REPÓRTER BARATA (pela tevê)
Excelência, o senhor pode explicar?
Senador, ficou mudo?
O gato comeu a sua língua?


Neste momento ouvimos um grande estardalhaço e gritos, é uma cena de selvageria em que o Senador Ratazana, em estado de completa fúria mata toda a equipe de reportagem; percebemos que a televisão saiu do ar. Já no plano real, o Senador Ratazana, furioso, bate na mesa, não acredita na merda que fez e que agora vê, em rede nacional. Do outro lado, em seu escritório Dr. Barata vibra vendo a cena. Ligam a webcam e discutem pela internet.


DR. BARATA
(gargalha) Rato otário!

SENADOR RATAZANA
(furioso) Barata canalha!

DR. BARATA
Foi desmascarado e ainda deu muita audiência
Em minha emissora.

SENADOR RATAZANA
Crápula!

DR. BARATA
Vil !

DR. BARATA e SENADOR RATAZANA
Quer apostar quem cai primeiro?
O meu tiro é certeiro!

DR. BARATA
Você gostou?

SENADOR RATAZANA
Gostei!
Mas você gostará ainda mais!
Pois quando um certo dossiê for revelado,
Discutido,
Divulgado,
Exibido,
Comentado na TV!
Todos vão ver a
Sua face mais secreta,
Uma derrota!
Mas não queira nem saber...
Você gostou?

DR. BARATA
Gostei.
Mas você gostará ainda mais.
Ainda tenho em minha manga outro escândalo
Guardado,
Engatilhado,
Preparado,
Apontado pra você!
Belas imagens,
Bastidores do Senado
Provado e comprovado
Cê não queira nem saber...
Você gostou?

SENADOR RATAZANA
Gostei.
Mas você gostará mais!
Viva a tecnologia!
As paredes hoje em dia
Já tem olhos e ouvidos digitais.
Um cartãozinho de memória
Gigabytes de histórias
Suas glórias pela frente e por detrás
Você gostou?

DR. BARATA
Gostei.

DR. BARATA e SENADOR RATAZANA
Mas você gostará ainda mais!

SENADOR RATAZANA
Bem...
Não chegamos a acordo nenhum
Pelo que vejo.

DR. BARATA
Poderá assistir também pela tevê
O teu declínio.

SENADOR RATAZANA
Mas antes verei a tua queda
Vertiginosa e cega.
Uma vergonhosa imagem
A escorrer pela tela
De outra emissora.

DR. BARATA
Escândalo político
Crime financeiro.
Quer apostar?

SENADOR RATAZANA
Escândalo sexual
Devassa moral.
Que apostar?

DR. BARATA
Crápula!

SENADOR RATAZANA
Vil!

DR. BARATA
Não sabe o que te espera!

SENADOR RATAZANA
Você já era!

DR. BARATA e SENADOR RATAZANA
Seu merda!


Arrogantes, desconectam simultaneamente as webcam. As luzes se apagam.



22 – POR QUE O MUNDO É FEITO ÀS AVESSAS?

Na sala de casa, Madame Ratazana e Dom trocam confidências. Dom com a cabeça no colo da mãe.


DOM
Por que o mundo é feito às avessas?
Confessa
Você deve saber
Você que viveu tanto, viveu muito...
Você que conhece o porquê
Deste sentimento que invade a gente
E distraidamente flecha
Pela brecha da alma
Acalma
Acaricia

MADAME RATAZANA
Querido filho meu
Muitas coisas eu vivi.
E abrigo todas elas em meu coração.
Querido,
essa caixa eu posso abrir...
Remexer,
Revirar,
Reviver,
Os guardados do meu coração.
Um por um
Por você
Pra você
Vou contar
Se o que agora sente
For igual ao que senti um dia
Querido filho meu
Isso é amor.

DOM
Se o que eu sinto agora
For igual ao que você sentiu um dia
E se isso foi amor?

Acho que...
Eu acho que tô amando...
Tô amando uma barata.

MADAME RATAZANA
Uma barata?
Tô chocada!


Dom se afasta dela e se encolhe, triste.


MADAME RATAZANA
Amar uma barata de rua
Sim, é loucura
Mas ...
Ouça, querido filho meu
O conselho de uma ratazana velha e bêbada
Ame bastante
Por favor, querido
Ame muito
Mesmo que seja uma barata
Ame.

Madame Ratazana carinhosamente acolhe o filho. Beijam-se na boca.



23 – QUEM QUER COMIGO CASAR

Perambulando sozinha pela rua, Dona canta.


DONA
Quem quer comigo casar?
Quem gostará de mim?
Eu sei.
Quem saberá me fazer feliz assim?
Eu sei.
Vem, meu bem
Entra em mim vento arredio
Te respiro em silêncio sem fim
Feito a margem que abraça o rio
Feito a margem que abraça o rio
Quem quer comigo casar?
Quem quer comigo casar?

A luz cai suavemente em Dona.



24 – QUEM É VOCÊ

Dom sozinho. Ele mesmo está surpreso com seus sentimentos. Abre um sorriso ao pensar em Dona. A luz a destaca em outro lugar no esgoto. Eles dançam sozinhos, imaginando seu par. Coisa ridícula que só os apaixonados se permitem.

DOM
Quem é você
Que fez um rebuliço em mim?
Quem é você?
Me balançou,
Desalinhou...
Quem é você?
Que sufoco!
Fez o meu rock sambar torto
Vou dar um toque
Vou te avisar
Preciso te encontrar
Quero saber...
Eu vou te procurar
Quem é você?
Vou a qualquer lugar
Só pra saber quem é você.

Dom sonha acordado.



25 - DE TANTO PERAMBULAR

A luz destaca Dom e Dona, cada um em um lugar. Grupos de ratos e as baratas entram e narram o encontro dos namoradinhos, que dançam entre eles, mas ainda separados, sem um ver o outro.

RATA
De tanto perambular pelas ruas
De tanto procurar pelos becos
Da cidade.

RATA E BARATA MACHO
Da cidade.
Essa louca cidade!

BARATA MACHO
De tanto rondar as esquinas
De tanto circular os esgotos
Da cidade.

RATA E BARATA MACHO
Da cidade.
Essa louca cidade!

CORO DE RATOS E BARATAS
Quem poderá encontrar
No meio da multidão
O amor que procura?
Percebam, caros senhores
Percebam , caras senhoras

RATA
Aqui nesta história
O amor está fadado a dar errado.

BARATA MACHO
Quem conhece as linhas do destino sabe
Bem mal tudo isso acabará.

RATA
De tanto perambular pelos ralos
De tanto procurar nas vielas
Da cidade.

CORO DE RATOS E BARATAS
Da cidade
Essa louca cidade!
De tanto rondar avenidas
De tanto circular os bueiros
Da cidade.
Da cidade,
Essa louca cidade!
Quem poderá encontrar
No meio da multidão
O amor que procura?
Percebam, caros senhores
Percebam , caras senhoras.

BARATA MACHO
Não há engano
O amor aqui entra pelo cano.

RATA
A vontade era tanta!
O desejo demasiado era!
Então o caminho dele passou a ser o dela.

BARATA MACHO
Ela procurando ele.

RATA
Ele procurando ela.


Ratos e baratas abrem caminho e, finalmente, os enamorados se encontram.



26 – PRA QUE FAZER UMA CANÇÃO DE AMOR?

Dom e Dona correm na direção do outro e se abraçam com intensa paixão e uma compreensível saudade. Louco amor desses dois.


DOM E DONA
Você, você, você!

DOM
Tentei seguir um mapa feito a guardanapos e canetas
Trilhas, notas, letras, eu marquei pra te encontrar

DONA
Tentei chegar em ponto mas o amor não anda em linha reta
Faz seus próprios planos vem sem hora nem lugar.

DOM E DONA
Você, você, você!
E num cruzar de dedos e esquinas, num piscar de agora,
A espera por acaso a certa a hora de acabar
Mas o tempo foge como um ladrão de bicicletas
Me leva na garupa e não me deixa escapar...
Pra que fazer uma canção de amor?
Pra que guardar uma canção de amor?
Melhor viver, melhor viver, melhor viver....


Dom e Dona beijam-se com intenso amor.




27 – VAMOS DANÇAR

Ratos e baratas entram fazendo festa para os dois “pombinhos”, que dançam felizes. Simulam uma cerimônia de casamento.


CORO DE RATOS E BARATAS
Ela curtiu seu inglês Mickey Mouse!

DOM
My love you, vou levá-la em my house!

DOM E DONA
A nossa dança começou!

CORO DE RATOS E BARATAS
Ele pirou em seu tom black and brown

DONA
Fiz tatuagem tribal, coisa e tal

DOM E DONA
A nossa dança começou!

CORO DE RATOS E BARATAS
Vamos dancar!
Vem cá!
Vamos dancar!

BARATA MACHO
E no princípio fez-se o verme
O amor contido
Distraído e repousado
Ali na própria epiderme
Fervendo na nervura
Com toda candura
O amor ama tanto que perfura.

RATA
Toda essa glosa
Vem só pra dizer
É muita estranha e misteriosa essa natureza
Tenha certeza que não apaga
Queima em autocombustão
palha seca da paixão.

CORO DE RATOS E BARATAS
Vamos dancar!
Vem cá!
Vamos dancar!

Ele pediu sua mão e afinal
Os dois formaram um lindo casal

DOM E DONA
A nossa dança começou...

DOM
Vamos, amor meu
Vamos pra nossa festa de casamento improvisada
Nos divertir um bocado
Lamber doce, roer salgado
O que é meu agora é teu.
Vamos, amor meu.

DONA
Vamos, amor meu
Vamos pra nossa festa de casamento improvisada
Nos divertir, com certeza
Quero cachaça, quero cerveja
Tudo que é meu agora é teu.
Vamos, amor meu.

CORO DE RATOS E BARATAS
Vamos dancar!
Vem cá!
Vamos dancar!


Dom e Dona saem felizes levados pela multidão de ratos e baratas.



28 – NÃO HÁ FINAL FELIZ PARA A ESCÓRIA

Os narradores Barata Macho e Rata, observam a saída do casalzinho feliz; o clima muda. No decorrer da cenas, entram alguns ratos e baratas.


BARATA MACHO e RATA
Mas a felicidade tem sua hora,
Demora e até que as vezes acontece
Mas a felicidade tem seu preço
Endereço, CEP e CPF.
Na hora em que começa
É quando o amor acaba!
O amor armou uma trama como essa
Saiba:

CORO DE RATOS E BARATAS
Senhoras!
Senhores!

BARATA MACHO
Não há final feliz para a escória

CORO DE RATOS E BARATAS
Senhoras!
Senhores!

RATA
De qualquer espécie, sim.

CORO DE RATOS E BARATAS
Senhoras!
Senhores!

BARATA MACHO
Triste história

RATA
Reza a lenda que foi assim.


Alguns ratos e baratas se espalham e ficam nas extremidades observando. Todos gostam de um escândalo.



29 – LIXO ATÉ A TAMPA

Cenas paralelas. Grande tensão. A luz destaca Madame Ratazana, bêbada, na sala; Senador Ratazana em seu gabinete; Dr. Barata em casa. Todos assistem ao grandiloquente declínio da sociedade transmitido em rede nacional.


CORO DE RATOS E BARATAS
Escândalos!
Falcatruas!
Roubalheiras!

BARATA DO CORO
A revista sensacionalista anunciou!

CORO DE RATOS E BARATAS
Suborno!
Nos noticiários
Indecências!
Em todas as rádios
Estelionatos!
O jornal publicou
Circulou na web

RATO DO CORO
Senador é chefe de quadrilha!

CORO DE RATOS E BARATAS
Imorais!
Nos noticiários
Indecentes!
Em todas as rádios
Abomináveis!
O jornal publicou
Circulou na web

BARATA DO CORO
Empresário em cena de pedofilia!

DR. BARATA e SENADOR RATAZANA
Não fui eu!

DR. BARATA
Eu não fiz nada!

MADAME RATAZANA
Mais uma dose!

DR. BARATA e SENADOR RATAZANA
Não fui eu!

SENADOR RATAZANA
Isso não dará em nada!

MADAME RATAZANA
Eu aguento!

DR. BARATA e SENADOR RATAZANA
Não fui eu!

DR. BARATA
Eu não fiz nada!

MADAME RATAZANA
Mais uma dose!

DR. BARATA e SENADOR RATAZANA
Não fui eu!

SENADOR RATAZANA
Isso não dará em nada!

MADAME RATAZANA
Eu aguento!

DR. BARATA e SENADOR RATAZANA
Não fui eu!

DR. BARATA e SENADOR RATAZANA
Não fui eu!

Os ratos e baratas deixam os três sozinhos, com seus martírios.



30 – NEGUE, NEGUE SEMPRE, NEGUE TUDO

Dr. Barata e Madame Ratazana continuam em cena, em contra-luz. Ilumina-se o gabinete do Senador Ratazana. O velhote cheira um pó sobre a mesa e tranqüilo, ensaia sua defesa.


SENADOR RATAZANA
Negue.
Negue tudo.
Negue sempre.
Negue mais uma vez!

É muito fácil!
Cê só tem que decorar.
Cê só tem que se esforçar pra convencer.
Esse bando de otário que vota em você
E que vai te eleger numa outra eleição!

Negue.
Negue tudo.
Negue sempre.
Negue mais uma vez!

Mil imagens pra iludir e disfarçar
E argumentos pra ninguém lhe entender
Habeas Corpus pra você,
   Mil recursos vão fazer    
Cair no esquecimento da população.

Negue.
Negue tudo.
Negue sempre.
Negue mais uma vez!

Isso não é meu
Nunca vi nada antes
Não sei do que cê tá falando
Eu jamais fiz algo assim
Alguém se passou por mim
Eu não assinei isso
Eu não sei de nada.
Nada
Nada
Negue!


Senador Ratazana cheira novamente o pó sobre a mesa; escurece.



31 – GOZO UMA ÚLTIMA VEZ

Dr. Barata, sozinho, vê imagens de baratinhas; excitação barata.


DR. BARATA
Depravado!
Pervertido!
Indecente!
Imoral!
Difamado e esmagado vivo em rede nacional!

Sei que acaba aqui a minha história
Que é chegada minha hora...
Sei que este é o meu fim.

Mas barata não chora!
Barata não chora!

Não, não me condenem
Não, não me condenem
Se antes de ir embora
Eu gozar uma ultima vez

Baratinhas
Nuazinhas
Uma última vez
Perninhas
E asinhas
Uma última vez

Depravado!
Pervertido!
Indecente!
Imoral!
Uma última vez


Dr. Barata pega um inseticida e borrifa sobre seu corpo; começa a delirar com o efeito do veneno.

Sou depravado!
Uhhh
Veja que gracinha
Tão pequeninha.
Sou pervertido!
Uhhh
Olha só que tesão de barata
E ela ainda é só uma baratinha!
Sou imoral!
Uhhh
Essa quando crescer vai dar...
Vai dar...
Ai, meu caralho!
Uhhh
Adeus, minhas pequenas!
Adeus!
O prazer foi meu!


Dr. Barata borrifa mais veneno e chora copiosamente, vendo as fotos das baratinhas; escurece.



32 – SE TIVESSE MAIS, BEBERIA

A tevê ilumina Madame Ratazana. Mal segura o corpo de tão bêbada.


MADAME RATAZANA
Se tivesse mais
Mais um trago,
Uma dose,
Uma gota,
Um talvez...
Se tivesse mais
Beberia a primeira e a última vez
Beberia...
Beberia...

Se tivesse mais
Uma lágrima morta,
Uma gota,
Um talvez...

Se tivesse mais
Choraria meus ais todos de uma só vez
Choraria
Tanto que eu me anulei, me escondi, me entreguei
Outro sonho jamais eu teria
Uma gota, uma vida, uma dose, um minuto talvez...


Madame Ratazana cambaleia e embola as palavra de tão bêbada.


Se eu tivesse mais
Um trago
Se eu tivesse mais
Uma doze
Se eu tivesse mais
Uma vida
Se eu...


Madame Ratazana para subitamente de cantar; o copo cai; está morta. Adeus velha rata. A música morre em pedaços, junto com ela. Tudo é escuro.



33 – SAMBA, SOL E FEIJOADA

O tambor transforma a dor em festa. É domingo. Ratos e baratas invadem a confraternização dos humanos. Eles sabem que sempre tem uns restos de comida pra fazer a farra. Dom e Dona são só paixão.


CORO DE RATOS E BARATAS
Domingo dia lindo pra comemorar casamento!
Samba, sol e feijão.
Samba, sol e feijoada
Samba, sol e feijão.

Domingo dia lindo pra comemorar casamento!
Samba, sol e feijoada!

RATA
Dona e Dom invadiram uma festa de humanos
Com este casal não há engano
Arrisca até a última parada.

CORO DE RATOS E BARATAS
Samba, sol e feijoada.
Domingo dia lindo pra comemorar casamento!
Samba, sol e feijão.
Samba, sol e feijoada
Samba, sol e feijão.
Domingo dia lindo pra comemorar casamento!

BARATA MACHO
O pagode é romântico, mas é bem pra frente
Tecnológico
Sociológico

CORO DE RATOS E BARATAS
Samba, sol e feijoada.
Laiá, laiá...

BARATA MACHO
Fala da burguesia decadente
Dos emergentes
Alegremente
Neste domingo vou sambando até não sobrar mais nada!

CORO DE RATOS E BARATAS
Samba, sol e feijoada!


Dom e Dona Os ratos e baratas deixam Dom e Dona sozinhos para curtir a festa.



34 – ROUBOU MEU CORAÇÃO PRA CHAMAR DE TEU

Clima romântico entre Dom e Dona, eles dançam agarradinhos em um canto. Vez ou outra, cantarolam a música que toca na festa enquanto conversam.


DOM
Amor, escuta só, é a nossa música.

DONA
Ai, que lindo!

DOM
Pô, esses humanos tem bom gosto!

CORO DE HUMANOS e DOM e DONA
Você está presente dentro do meu peito, amor
É só você que eu quero
É só você que eu chamo
Eu amo
Você é minha louca lucidez perdida
É só você quem quero por toda minha vida
Bandida
Que roubou meu coração só pra chamar de teu
Que roubou meu coração.

Você mora bem dentro do meu coração, amo
É só você que eu quero
É só você que eu amo
Eu chamo
Você revela em mim um sentimento adormecido
Eu quero de qualquer jeito o seu amor fingido
Bandido
Que roubou meu coração só pra chamar de teu.
Que roubou meu coração.

DOM
Ai, baratinha...
Você me deixa louco!
Rebola, rebola...
Faz aquela dança que aprendeu na escola.

DONA
Ah, essa festa tá muito careta!
Quero mais ‘breja’, quero caipirinha
Depois eu rebolo até mostrar a bundinha.
Mas antes tenho que encher a cara
Pra ficar bem alegrinha.

DOM
Isso é fácil
Deixa comigo que eu pego pra você.
(sente o cheiro) Hum...
Meu amor, olha só, tá sentindo o cheiro da alegria?
Feijoada é o prato do dia.

DONA
(desanimada) Xi! Feijão me dá azia
Prefiro os doces, amor
Ou então salgadinhos
Traz amor, traz pro seu benzinho.

DOM
É pra já, minha baratinha gostosa!

DONA
Vá rápido,
Mas vá com cuidado para que ninguém te veja!

DOM
Deixa comigo, seu ratão é esperto!
Tá vendo aquele galho ali sobre a mesa?
É moleza!
Vou e volto já com bebida e salgado.

DONA
Amor, tenha cuidado.

DOM
Deixa comigo, baratinha
Seu ratão é descolado.

DONA
Rato malandro!
Vem logo que já tô com saudade.
Amor, tenha cuidado!

DOM
Eu te amo, baratinha!


Dom sai buliçoso pela grama em direção à árvore. Se exibe para Dona, que observa a desenvoltura do amado e solta beijinhos.



35 – TEMPERO DE RATO

Música cresce em tensão. Dom sobe na árvore para a morte; os ratos e baratas entram para narrar o terrível desfecho da aventura.


CORO DE RATOS E BARATAS
Apaixonado, fascinado, incontrolado,
Abobalhado, Camuflado, resvalado, arrepiado
Foi.

RATA
Foi devagarzinho
Passeando sorrateiro
Foi subindo de fininho
Foi sem pressa de chegar

CORO DE RATOS E BARATAS
Estimulado, deslumbrado, acobertado, disfarçado,
Enviesado, exaltado, inclinado
Foi.

BARATA MACHO
E sua amada logo ali perto do muro
De onde assistia a tudo
Sobre a grama deitadinha
Tomando sol tão quietinha, apaixonada,
Disfarçada, estava só pensando na caipirinha.

CORO DE RATOS E BARATAS
Desengonçado, arrebatado, desvairado, embalado
Fissurado, alucinado, azoado    
Foi.

RATA
Só que Dona não sabia
E Dom não sabia.

CORO DE RATOS E BARATAS
Senhoras!
Senhores!

RATA
Começa aqui o início do fim de nossa história.

DONA
Amor, tenha cuidado!

DOM
Deixa comigo
Seu ratão aqui é esperto.

CORO DE RATOS E BARATAS
Senhoras!
Senhores!

BARATA MACHO
Um gesto impensado de um rato
E tudo se acaba.

CORO DE RATOS E BARATAS
O que te fez ficar assim...

RATA
Deslizando no galho
De fininho
Dom se aproxima
Da bandeja de salgadinho.

BARATA MACHO
E lá vai Dom
Rato malandro
Deslizando no galho
Surfando no galho.

CORO DE RATOS E BARATAS
Mas Dona não sabia
Dom não sabia...

BARATA MACHO
Que a vida, às vezes, dá uns vacilos!

RATA
É perto da mesa
Bem ali do lado
Havia um caldeirão batendo fervura.
Vejam que loucura!

DONA
Benzinho, tenha cuidado!

DOM
Relaxa, amor, sei o que tô fazendo!

BARATA MACHO
Cego de arrogância
Lá vai Dom
Rato malandro
Caindo do galho
Voando, viajando
Direto pra boca do caldeirão quente
Em ebulição
escaldante
Lançando fervura
Na maior altura
D. Ratão vai
D. Ratão cai
Certeiro na panela de feijão!


Dom cai no caldeirão de feijão e vira tempero; Dona assiste a tudo e fica desesperada ao ver a tragédia. Dona em estado de choque.


DONA
Não! Não!
Isso, não!
Não

CORO DE RATOS E BARATAS
E logo ali perto do muro
De onde assistia tudo...

RATA
Dona chorou a morte de Dom
Enquanto todos comiam.
E não aguentou quando a música continuou.

CORO DE RATOS E BARATAS
Você mora bem dentro do meu coração, amor

DONA (aos prantos)
É só você quem eu quero
É só você quem amo
Eu chamo
(grita) Dom!!

CORO DOS BICHOS
Senhoras!
Senhores!


RATA
Dissemos que não seria fácil toda essa narrativa.
Calma!
Já vai terminar, enfim
A nossa heroína também terá o seu fim.

CORO DOS BICHOS
Desconsolada, Murcha, xoxa e arrasada, abalada
Atordoada, esturricada
Ela saiu.

DONA
A merda toda é que eu ainda tô de cara!

CORO DOS BICHOS
Abandonada, detonada, atropelada
Tonta e desorientada, amargurada
Ela saiu.

BARATA MACHO
Cambaleando sobre a grama
Por entre as pernas de quem sambava
Dona partiu
Partiu.



36 – O DESTINO DE BANDEJA

Visivelmente alterado por tantas carreiras de raticida que cheirou, Senador Ratazana encontra Dona na festa. Isso não vai acabar bem.


SENADOR RATAZANA
Ora, ora, ora veja
Olha que surpresa!
Que a vida nos dá...

Ela veio feito sobremesa,
Veio de bandeja,
Veio pro jantar.

DONA
Senador
Seu filho, Dom Ratão
Caiu na panela de feijão

SENADOR RATAZANA
Antes ele do que eu!

DONA
Senador,
Dom, seu filho, morreu!

SENADOR RATAZANA
Antes ele do que eu!


Senador Ratazana circula Dona, cercando-a e aumentando a tensão até o final da cena.


SENADOR RATAZANA
Cada um tem seu destino
Gracinha
Agora, não chora
Chegou a sua hora.
Por vingança
Por maldade
Por prazer
Vou te comer!

CORO DE RATOS E BARATAS
Por vingança
Por maldade
Por prazer
Vou te comer!

DONA
Já perdi tudo na vida
Não forças tenho pra lutar
Se quiser me mate agora
Sem pena, nem compaixão.

CORO DE RATOS E BARATAS
Por vingança
Por maldade
Por prazer
Vou te comer!

DONA
Meu amor, Dom
Eu vou encontrar num mundo menos hipócrita!

CORO DE RATOS E BARATAS
Por vingança
Por maldade
Por prazer
Vou te comer!

DONA
Me deixe em pedaços,
Me arranque a pele,
Me tire a casca,
Me esfole,
Me lasque em banda!

CORO DE RATOS E BARATAS
Por vingança
Por maldade
Por prazer
Vou te comer!

Dona se entrega. Num urro animal, violentamente o Senador Ratazana parte para cima de nossa heroína. Um grito seco de Dona. Senador Ratazana deixa a cena cambaleando; Dona, em espasmos, no chão.



37 – MORRENDO NA CADÊNCIA DO SAMBA

Os bichos narram a agonia de Dona sobre a grama.


CORO DE RATOS E BARATAS
Destino de barata é ser esmagada!

BARATA MACHO
Foi assim que aconteceu
O Senador Ratazana
Avançou o sinal
E deu no que deu

CORO DE RATOS E BARATAS
Destino de barata é ser esmagada!

RATA
Ele nem esperou o último suspiro da bela
Sacana
Deixou Dona, ali, aos pedaços
Ainda vivinha sobre a grama.
    
CORO DE RATOS E BARATAS
Dona, Dona.

RATA
E nossa heroína apaixonada
Por pura infelicidade
Demorou de morrer
Morte cruel!
Morte lenta!
Foi esmagada aos poucos
Pelos pés loucos das pessoas
Que ali sambavam alegremente

BARATA MACHO
Deprimente!

CORO DE RATOS E BARATAS
Dona, Dona.

BARATA MACHO
A grama amparava o impacto
Perdoem-nos por este final trágico
Fora do tom
Mas assim estava escrito nas linhas
Da vida de Dona e Dom.

CORO DE RATOS E BARATAS
Dona.

BARATA MACHO
Ela nunca imaginou
Nem tão pouco cogitou
Que ia ser esmagada
Na triste cadência do samba
Morrendo aos poucos
Na cadência bonita do samba

CORO DE RATOS E BARATAS
Dona.

RATA
O sambão continuou
E ninguém notou a morte de nossos heróis
A festa tava animada
Era patrocinada
Era carnaval
Acaba em samba esta fábula
Este é o fim
Desta tragédia amorosa, meu bem
Onde todos morrem no final.

BARATA MACHO
Mas não fiquem tristes
Senhoras
Senhores
Isso é a mais pura ficção.

RATA
Se há alguma lição nessa história
É que todos morrem
Mas o amor, não

BARATA MACHO
E sempre vale a pena viver o amor
Mesmo que um dia tenha fim.


O tambor vai morrendo aos poucos.



38 – EU QUERO AMOR

Um a um, ainda vestidos como ratos e baratas, os atores vão surgindo e cantam o amor.



ATOR 1
Com todo esse lixo, com toda essa dor
Eu quero amor!

ATOR 2
Com toda essa merda no ventilador
Eu quero amor!

ATOR 3
Com toda essa droga, com todo torpor
Eu quero amor!

ATOR 4
Com toda essa moda, com todo fedor
Eu quero amor!

ATOR 5
Com todo cuidado com o santo no andor
Eu quero amor!
ATOR 6
Com todo desastre, com todo tremor
Eu quero amor!

ATOR 7
Com toda essa pilha, com todo temor
Eu quero amor!

ATOR 8
Com todo revólver, com todo terror
Eu quero amor!

ATOR 9
Pra não esperar pelo clima ideal
Pra não esperar um juízo final

ATOR 10
Vamos reinventar um romântico artefato
Um Amor Barato!

ATOR 11
Fazer-mo-nos muito de gato e sapato
Um Amor Barato!


CORO
Vamos reinventar um romântico artefato
Um Amor Barato!
Fazer-mo-nos muito de gato e sapato
Um Amor Barato!


Escurece a cena.



FIM DO MUSICAL
“Amor Barato - Cantigas Torpes & Carinhos Ordinários”

autores:
Fábio Espírito Santo
Jarbas Bittencourt
Ronei Jorge

Brasil. 2012


Contato:
fabioespiritosanto@gmail.com


Biografia:
Fábio Espírito Santo é diretor, dramaturgo, roteirista e iluminador cênico. Formado em Comunicação Social – Cinema e Vídeo, tem especialização em Roteiros para Audiovisual. Como dramaturgo, é premiado pelo texto A Farsa da Usura, no Concurso Nacional de Dramaturgia Álvaro de Carvalho/SC.1998. É também de sua autoria a comédia Matilde, La Cambiadora de Cuerpos e o infantojuvenil Sem Pé Nem Cabeça, entre outras obras desenvolvidas em parceria. Assinou a direção artística do concerto/DVD “Yèyè Omó Ejá – Mãe das águas” (2010), e dirigiu os espetáculos Sobre Flores no Asfalto Quente (2009); o circense Histórias Contadas de Cima (2008); a comédia Divorciadas, Evangélicas e Vegetarianas (2005); o musical infantil Do Outro Lado do Mundo (1999); e o espetáculo de rua Quem Não Tem Cão Casa com Gato (1996). Na área da iluminação cênica, recebeu o troféu Braskem de Teatro/2008 pelo seu trabalho nos espetáculos: O Olhar Inventa o Mundo, Batata e Casa Número Nada. No campo do audiovisual, trabalhou como roteirista e diretor de filmes educativos e institucionais. Entre seus trabalhos de ficção, destacam-se o curta-metragem Cabidela (2006) e Onde está Lynch? (2002) vídeo premiado em festivais de Santa Maria (RS) e Rio de Janeiro (VídeVideo/RJ). Trabalhou na elaboração e coordenação de projetos culturais como Diretor do Teatro Vila Velha (2008/2009); como repórter do Correio da Bahia e diretor técnico de eventos e casas de espetáculos. Contato: fabioespiritosanto@gmail.com
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