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Garrafa de Vinho
Lucas Samuel Souza de Mendonça

1
Para mim, apartamentos deveriam significar pobreza e não riqueza. Observando a cidade, percebe-se que as pessoas são como os ratos: quanto mais pobre, menor o espaço em que vive e maior o número de indivíduos com quem compartilha o lar. Qual o sentido então de se esticar para cima, num prédio recheado de outras pessoas? Qual a graça de enriquecer e gastar os frutos do trabalho para se amontoar com mais gente? Nunca achei que status valesse mais do que sossego. Com o primeiro dinheiro que eu conseguisse eu ia me afastar o máximo possível de todo mundo, principalmente dos malditos da minha família.

Há quem diga que a praticidade é que faz as pessoas tomarem esse tipo de escolha, mas eu discordo completamente. Enquanto eu estava no carro de uma senhora rica, esposa do chefe do meu irmão, passamos por uma rua, dessas bem largas e com poucas mansões, todas bem distantes umas das outras, do jeito que eu gosto.

– Quanto acha que custa uma casa dessas? – a esposa do meu irmão tinha perguntado como se pretendesse comprar, deslizando seus olhos cobiçosos pelos quintais american-style.

Meu irmão estava se formando em arquitetura e é provável que soubesse estimar aproximadamente um valor, mas foi a senhora rica que respondeu, interpelando-o:

– A mais barata custa, aproximadamente, 2.5 milhões, e a mais cara deve estar por volta de 3.5 – ela falou como se não fosse grande coisa. – Há uns quatro anos, estávamos dando uma olhada por aqui. Minha filha tinha se formado e o Antônio queria que ela morasse por perto.

– Ele ia pagar a casa toda? – Marcela perguntara de abrupto, pois para nós, do povão, já não era comum ver um pai querer pagar qualquer coisa além de roupa ou comida para os filhos, uma mansão então, nem por todo cu do mundo.

– Se dependesse dele, sim – ela esclareceu.

– Mas minha filha é muito… independente, para não dizer orgulhosa. Ela se casou e deixou que o marido pagasse dois terços, e o Antônio pagou o resto.

Óh, mas que moça boazinha, essa, eu pensei.

Vi os olhos do meu irmão parados como bolas de ferro, evitando demonstrar qualquer vergonha ou admiração, ou qualquer coisa. Nós eramos parecidos nesse sentido, e isso me fazia gostar dele: ambos ficávamos de boca fechada e deixávamos que as idiotices fossem faladas por outras pessoas.

No apartamento deles havia um carpete branco, uma mesinha de vidro que não serve pra nada, um sofá que ocupava duas paredes e uns quadros feitos pra gente que paga de intelectual, que eram mais caros que tudo que havia no meu quarto, cada.

O tal do Antônio, um gordinho gente boa, nos recepcionou com café. Não precisei dizer quem eu era, pois dava pra ver só de olhar pra mim e pro meu irmão. (Somos a mesma pessoa, a diferença é que ele é mais alto, mais bonito, e mais inteligente; mas só isso também.)

– Você gosta de café? – ele quis saber quando finalmente notou a presença daquela criatura estranha e com roupas velhas no seu castelo ártico afeminado.

– Gosto, mas prefiro uísque, se tiver.
Ele estreitou as sobrancelhas, sem compreender o sarcasmo.

– Você não é muito novo para isso?

– Não. Tenho quarenta anos.

– Ah, claro! – ele finalmente riu. – Aqui. Tome.

– Obrigado.

– Eu não gosto muito de café – ele falou como se alguém quisesse saber. – O cheiro é maravilhoso, mas o gosto é terrível.

– “Quando o homem aspira o odor da imaginação, se espanta com o sabor da realidade” – mencionei enquanto bebericava.

– Olha, temos um filósofo aqui – ele brincou, como se tais palavras jamais devessem sair da boca de alguém como eu. – Onde leu isso?

– É do livro dele – respondeu Marcela no meu lugar, depois de eu ter ficado em silêncio por muito tempo. Eu já estava farto daquela conversa inacabável.

– Então você é escritor? – ele falou com surpresa, novamente pensando que tal coisa parecia algo impossível para alguém como eu.

– Só quando tenho tempo.

– E ele tem muito tempo – dessa vez foi minha mãe que falou por mim. Praticamente a família toda estava presente. Pobres são assim, quando um sai, não quer deixar o outro sozinho e vai levando todo mundo. Se minha mãe imaginasse que um dia eu passei uma hora em paz, ela não dormiria tranquila por décadas.

Eu só fui porque me obrigaram, pra esclarecer. Antes de continuar com esse lenga-lenga chato do caramba, me deixe adiantar o que eu estava fazendo naquele bendito apartamento:

Meu irmão estava quase se formando, como você já sabe, e ele trabalhava pra esse carinha há uns dois anos. Recentemente ele tinha sido promovido e agora já tinha condições de indicar os outros para vagas de trabalho, então adivinhe só… É, isso mesmo. Ele chamou a esposa; minha mãe ficou sabendo e quis ir também, mesmo que já trabalhasse; e claro, eu era o que mais precisava de emprego, portanto, não tinha essa coisa de “estou ocupado”. Na minha casa NUNCA tinha essa coisa de “estou ocupado.”

Minha mãe literalmente tinha arrombado minha porta no chute. Tudo bem, a trinca estava quebrada, então não foi difícil.

– Não quero essa porta trancada – ela avisara o que já tinha avisado setecentas e quarenta e duas mil vezes antes. – Olha, nós vamos pra um almoço na casa do chefe do Pedro. Ele vai ver se consegue arrumar um emprego pra Marcela. Coloque uma roupa decente.

Minha mãe era uma pessoa com apenas duas tonalidades de voz: a submissa e a ameaçadora. A submissa era usada com todo mundo que não fosse da família e a ameaçadora com todo mundo que fosse. Por causa disso, eu só sabia respondê-la com rispidez.

– “Nós” quem?

– O Pedro, a Marcela, você e eu – ela afirmou debilmente.

– Por que eu iria? – confrontei como se servisse de alguma coisa, mas evitando usar palavrões. – Tenho que escrever, ir pro curso de inglês, ir pro curso de informática, estudar… E nem tenho roupas “decentes”.

Ah, mais uma coisa. Eu fazia cursos por obrigação também. Minha mãe nunca foi capaz de administrar a vida dela, então tentava administrar a minha. Meu inglês já era razoavelmente bom pois eu gostava de estudar sozinho em casa, e eu passava tanto tempo no computador que já sabia até quem eram as tias dos fundadores do xvideos. Não via necessidade em gastar tempo fazendo algo que não me agradava em nada, além de ficar extremamente irritado por causa disso tudo. A única coisa que eu queria da vida era sentar meu cu numa cadeira e desenhar alguma porcaria até dormir, mas, segundo minha mãe “isso não dá dinheiro.”

O que dá dinheiro então, sua fodida? – eu sentia vontade de perguntar, mas sabia que se falasse isso ela já ia abrir uma cara de choro. O que realmente me deixava indignado era ver alguém que fracassou completamente querer dar opinião no que se deve fazer para ter sucesso. Há quem diga que esse tipo de pessoa só quer o seu melhor, mas o que eles querem mesmo é mandar na sua vida, já que estão acostumados a receberem ordens de todo mundo e os filhos são os únicos miseráveis abaixo no fundo do poço da cadeia alimentar.

– Não vou – falei, com as bochechas esquentando, como sempre.

– Você vai – ela ameaçou. – Ou quer ficar igual seu tio?
(Meu tio era um desempregado de quase quarenta anos que morava com a mãe, num sobrado do outro lado da cidade. Todo emprego que ele conseguia era como ajudante de pedreiro e todo dinheiro que tirava com isso ele gastava com bebida e cigarros.)

– Não vou e ponto. Você não consegue me carregar.

– Mas consigo te bater.

Ela estreitou os olhos, com as veias saltando na testa, e me deu as costas.

Depois de uma hora espremido no calor cáustico de um ônibus, atravessei a cidade e cheguei no curso de inglês. Eu não tinha amigos lá dentro, e tampouco vontade de estar ali ou estudar, então nas três horas em que o professor passava andando de um lado pro outro falando asneiras, eu dormia ou ficava desenhando.

“Mas que desperdício do suado dinheirinho da sua pobre mãe”, você deve estar pensando, mas não era bem assim. O único motivo dela ter me colocado naquele curso foi porque uns caras foram na minha escola e deram um desconto de 50% pra todo mundo – coisa de inclusão social do governo. – O curso era 100 reais, então ficou por 50. Era uma barganha. Mas não valia nem isso.
Depois que eu entrei nesse curso, minha lógica passou a ser a seguinte: Se fosse bom não era tão barato.

E o curso realmente não era bom. Havia só dez alunos por sala, em um prédio com oito salas, e na maioria das vezes só iam uns quatro. Os professores eram, na maioria, jovens que haviam acabado de completar o curso em alguma outra escola de inglês um pouco melhor que a nossa. Com a informática não era diferente. Na primeira aula o cara tentou nos ensinar a abrir o paint, e pior, havia quem não soubesse fazer isso. Na segunda aula ele passou um vídeo do youtube sobre a história da computação. Na terceira aula eu fui embora e nunca mais voltei. Uns meses depois minha mãe trancou o curso quando descobriu que eu só saía de casa e ficava perambulando sem rumo pela cidade, e eu fiquei sem computador por fantásticas quatro horas.

Mas, retornando à história: Quando saí do curso de inglês naquele dia, estava suando pois fazia um calor de 40 graus, e o mormaço da cidade ampliava isso pra uns 60. Eu sempre usava blusa, pois tinha cortado os pulsos há pouco tempo e umas cicatrizes ainda não haviam sarado mesmo com a pomada que eu usava todos os dias. Então, adivinhem só, eu suava feito uma puta depois do fim do expediente e ainda tinha que aturar as pessoas me olhando como se eu fosse louco.

Eu estava esperando para atravessar a rua quando uma BMW parou em frente do prédio e abriu a porta, e para minha surpresa, era minha mãe que estava lá dentro, com meu irmão, sua esposa e aquela mulher nojenta.

– Entre aqui – minha mãe disse de lá de dentro, toda polida e queridinha. – Vamos almoçar na casa do chefe do Pedro.


Biografia:
email: lsamuelsm1998@gmail.com

Este texto é administrado por: Lucas Mendonça
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Romance Garrafa de Vinho Lucas Samuel Souza de Mendonça


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