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O Clube do TOC — II
André Claro

— Bom, no começo eu escondia minha mania de arrumação. Eu não queria que o Jorge não me aceitasse por aquilo. Eu não podia observar que a TV estava mal alinhada ao vão quadrado da estante. Eu media com uma trena a distância entre os cantos da TV e a estante, milimetricamente, e o Jorge às vezes mexia nos cabos lá atrás para conectar o aparelho de som na TV, aí eu chegava e estava fora do alinhamento, me dava um a sensação de angústia...
— O que exatamente era essa angústia? — interferiu a terapeuta. Os olhares eram atentos e coniventes ao relato de Ana.
— Bom, agora eu sei que essa angústia era um medo de que minha mãe me batesse porque não fazia as coisas exatamente ao modo dela, ou seja perfeitamente. Manter a TV, alinhada ao vão da estante me distanciava desse medo criado em minha infância, o aliviava, como faço com outras manias, como fiz, como tenho feito.
—Isso de esconder foi no começo, mas depois passei a fazer as arrumações na frente do Jorge. Um dia fomos assistir a um filme, e ele deslocou a TV um pouco para a esquerda, para o nosso lado no sofá. E eu fui lá e voltei. Ele não entendeu, achou que o afrontava, não falei do motivo real, e discutimos e nem assistimos ao filme. E daí por diante, as coisas pioraram. Sempre que eu compro algo, o total não pode conter centavos quebrados, tem que estar arredondado. Por exemplo, R$ 123,00 pode, R$122,97 não pode. E numa ocasião num supermercado, estressei com a caixa, porque eu calculava previamente em casa o valor, se não fosse redondo, lá no momento de pagar, eu acrescentava uma bala, uma caixa de fósforos, mas nesse dia, três centavos passaram do total porque o preço do bombom estava um na cesta de bombons e outro no sistema. Na pressa, não verifiquei e quando fui pagar, briguei com a caixa, não pelos preços estarem diferentes no anúncio e no sistema, mas por me sentir enganada pela caixa, como que por ela ter permitido que minha mãe me viesse punir por não ser perfeita, “redonda”. E isso foi o dos males o menor. Já deixei de comprar uma roupa que amei por não ter o número de botões pares, por exemplo. Com o tempo, Jorge tomou conta de minha doença, quis me ajudar, mas eu recusei o tratamento, achando que se eu o fizesse, desobedeceria à minha mãe; o que me traria uma punição ainda maior que um castigo.
— Seu caso é semelhante ao de minha filha — interferiu uma senhora. — Mas ela acabou fazendo disso tudo uma piada. Virou comediante. Ainda tem umas manias, mas transforma isso em piada, e isso parece estar dando certo.
— Bom, Rute, eu acho que sua interessante explanação ficará para o próximo encontro — determinou a terapeuta.
Todos foram saindo, aliviados, esperançosos, apesar de ainda confusos. Quando chegou a casa, entrou e fechou a porta, Dalton teve uma crise de choro, pois não cumpriu seu ritual de contar até 30, antes e depois de abrir a porta. Agora era seu fim.


Biografia:
Por um período, entre 1999 e 2001, fui repórter, não antes de ser escritor. Foi, pois, publicando um velho conto — no primeiro jornal no qual trabalharia — que me tornei repórter. Julguei que pagaria pela publicação, mas, além de não a pagar, ela simplesmente me valeu um emprego! A despeito disso, produzi pouco ao longo de vinte e tantos anos como escritor e dramaturgo. Em 1999, publiquei uma novela, que tem como cenário o Capão Redondo, Amargo Capão (Um Dia no Tráfico). Só então em 2006, voltaria a publicar, estrearia no conto com Absurdos, Delírios e Ilusões (Litteris Editora). Da mesma forma, escrevi alguns roteiros de curtas e alguns textos para o teatro, ocasião em que colaborei escrevendo e atuando numa paródia Shakespeariana: Queijo e Goiabada (Romeu e Julieta). Posteriormente, enclausurei-me, fiquei restrito a fazer bicos. Ler e escrever poesias, contos – esboçar romances. O Homem Sem Desejos, foi o único desses esboços a ser lançado, em 2016, então pelo Clube de Autores. Agora, igualmente, algumas daquelas poesias vão sendo divulgadas. Paralelamente, vou concluindo a faculdade de psicologia.
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