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A CONFISSÃO DE LÚCIO
Rubemar Costa Alves


ROMANCE analisado num velho caderno universitário. Publicação em 1914 - narrativa do fim para o princípio da estória, narrador desiludido. Três obsessões dominantes: o suicídio, o amor pervertido e o anormal avançando até a loucura. Atmosfera de exacerbado lirismo.
TEMAS DO EU - I --- eu = personalidades. Constante temática da literatura fantástica como uma das características fundamentais - percepção e consciência do sobrenatural.    Feixe temático - analogia entre certas estruturas sociais: eu - religião ou abstrato - averbal - olhar.
TEMAS DO EU - II - relação homem / mundo: 1-Pan-determinismo - 2-metamorfose física - 3-ruptura de limite entre matéria e espírito - 4-fusão entre sujeito e objeto - 5-tempo / espaço transformados, fora dos limites normais: clima mágico.
Segundo TZVETAN TODOROV (professor e linguista búlgaro), “estruturação da relação entre o homem e o mundo.
DOMÍNIO - discurso e sexo: Gervásio domina Lúcio e os outros através da linguagem; Ricardo domina Gervásio e os outros através da linguagem; Ricardo “domina” Marta através da linguagem e do sexo (Marta é desdobramento de Ricardo, logo: M = R); Marta domina Lúcio através do sexo; Ricardo domina Lúcio através do sexo.
FUSÃO FANTÁSTICO-MARAVILHOSO - toda a estória, em particular a metamorfose de RICARDO e o desaparecimento do “cadáver” de MARTA, enfim, nada pode ser explicado pelas leis da natureza: FANTÁSTICO - hesitação, presente / um gênero sempre evanescente; percepção particular de acontecimentos estranhos + MARAVILHOSO - porvir, futuro / fenômeno desconhecido; admite novas leis da natureza.
PERCEPÇÃO E CONSCIÊNCIA DO SOBRENATURAL - Em termos freudianos, o sistema percepção-consciência nos vem através dos cinco sentidos, mais particularmente o “tema do olhar” (relação estática: mais posição que ação. Importância da vista e da percepção em geral. o homem é tomado como um observador isolado.
LÚCIO - narrador ambíguo porque protagonista-narrador, primeira pessoa, desiludido: “Cumpridos dez anos de prisão por um crime que não cometi ... venho fazer enfim a minha confissão ... A minha defesa era impossível. Ninguém me acreditaria ... A minha confissão é um mero documento ... Ao adormecer, tive a sensação estonteante de acordar de um longo desmaio, regressando agora à vida ... sensações bizarras desaparecido por completo, e eu via agora nitidamente a sua esposa ... carne mordorada, fugitiva. O seu olhar perdia-se de azul, nostalgicamente ... companheira propícia, ideal, de um poeta ... ela parecia-me bem real, bem simples, bem certa ... essa mulher não tinha recordações - como se tivesse apenas um presente! ... essa mulher de sombra? De onde provinha, onde estaria? ... numa ânsia, corria a casa do artista, a certificar-me da sua realidade.” “... um ser de outra espécie ou possuíra um cadáver ... nos seus amplexos mais doidos, ela era sempre a mesma esfinge ... a que não tinha uma recordação ... eu tinha nojo do seu corpo como sempre tive nojo dos feiticeiros ... da gente que o mistério grifou ... os seus olhos de infinito ... o seu olhar fascinava-me.”
PAN-DETERMINISMO - tudo tem causa, até no plano sobrenatural - uma causalidade particular. Dissolução de limite entre o físico e o mental, entre matéria e espírito, entre coisa e palavra, deixando de ser estanque (fusão dos dois elementos opostos) -- /A/
METAMORFOSE FÍSICA - I - multiplicação da personalidade: consequência imediata da passagem possível entre matéria e espírito - transgressão da separação entre matéria e alma. - /B/
A-B têm um denominador comum: a ruptura do limite entre concreto e abstrato.
PAN-DETERMINISMO II - “... eu hoje sinto a minha alma fisicamente. A minha alma não se angustia apenas, a minha alma sangra. As dores morais transformaram-se-me em verdadeiras dores físicas, em dores horríveis, que eu sinto materialmente - não no meu corpo, mas no meu espírito ... a minha pobre alma anda morta de sono ... Um turbilhão de ideias me salva a desconjuntá-la, a rasgá-la, num martírio alucinante! Até que um dia ela se me partirá, voará em estilhaços ... os olhos de Ricardo cobriam-se de um véu de luz. Era muito estranho, mas era assim.” - “... sou um isolado que conheceu meio mundo ... Nos próprios meios onde me tenho embrenhado, não sei porquê senti-me sempre um estranho ...” - “... para ser amigo de alguém forçoso me seria antes possuir quem me estimasse, ou mulher ou homem ... eu só poderia ser amigo de uma criatura do meu sexo, se essa criatura ou eu mudássemos de sexo ... Entretanto esses desejos materiais não julgue eu os sinto na minha carne; sinto-as na minha alma.”
METAMORFOSE FÍSICA - II - “O meu corpo, o meu próprio corpo é uma incoerência. Julga-me magro, corcovo? Sou-o; porém muito menos do que pareço. Admirar-se-ia se me visse nu... Como em vez deste corpo dobrado, este rosto contorcido - eu quisera ser belo, esplendidamente belo! E nessa tarde, fui-o por instantes, acredito ... É que vinha de escrever alguns dos meus versos ... Aliás, ainda hoje ignoro se o meu amigo era ou não formoso. Todo de incoerências, também a sua fisionomia Ra uma incoerência ... o seu perfil, por vezes, também era agradável ... sob certas luzes ... sob certos espelhos.”
PERSONALIDADES MÚLTIPLAS - “Ricardo e Marta faziam viagem no mesmo trem ... Marta, sem nos ver, batia à porta desta vez, entrava ... E, ao mesmo tempo, apertando-me o braço bruscamente, o poeta ... Ricardo mudara de lugar à mesa, só para que eu me sentasse junto de Marta e as nossas pernas se pudessem entrelaçar ... Ricardo ao volante, sentávamos sozinhos no interior da carruagem ... eu nunca receara que ele visse as nossas mãos ... era como se as nossas mãos fossem soltas, e nós sentados muito longe um do outro.” - “Marta foi tua amante, e não foi só tua amante ... Mas eu não soube nunca quem eram ... Ela é que me dizia sempre ... Eu é que lhos mostrava sempre!”
RUPTURA DE LIMITE ENTRE MATÉRIA E ESPÍRITO - não se sabe onde é um ou outro - RICARDO - Vontade de ser mulher (desejo) - “... como eu sinto a vitória e uma mulher admirável, olhando a sua carne toda nua ... esplêndida ... loura de álcool! ... Se eu fosse mulher ... sou todo admiração, todo ternura, pelas grandes debochadas que só emaranham os corpos ... E lembra-me todo um desejo perdido de ser mulher ... para ser amigo de alguém ... se essa criatura ou eu mudássemos de sexo.” // Masculino (ser) - antes: “Ricardo de Loureiro ... rosto árabe de traços decisivos, bem vincados ... olhos geniais, intensamente negros.” // Feminino (metamorfose) - depois: “linda mulher loira, muito loira, alta, escultural ... O seu olhar azul ...”
PENSAMENTO de LÚCIO atrai a chegada de MARTA - ela chega qual fantasma., de repente: “Eram quatro horas. Eu sonhava dele, quando, de súbito, a encantadora surgiu na minha frente ...” ----- MUDANÇA de RICARDO - “As suas feições bruscas haviam-se amenizado, acetinado - feminilidade, eis a verdade - a cor dos seus cabelos esbatera-se também . a diferença ... fisionomia que se tinha difundido ... seus traços fisionômicos haviam e dispersado - eram hoje menores ... o tom de sua voz esbatera-se ... o poeta se casara ...” (isto é, se dividira em duas pessoas físicas). ----- DOIS CORPOS - “Somos todos álcool, todos álcool! - álcool que e esvai em lume que nos arde! ... Longe de Marta, em pé, na outra extremidade da sala, permanecia o poeta. E então, pouco a pouco, à medida que a música aumentava de maravilha, eu vi a figura de Marta dissipar-se, até que desapareceu por completo ... Marta regressara. Erguia-se de ‘fauteuil’ nesse instante.
FUSÃO REAL / IRREAL - “... O seu perfume, que ela deixava penetrante no meu leito, que bailava subtil em minha volta. Mas um perfume é uma irrealidade ... Evocando-a, nunca lograra entrever. As suas feições escapavam-me como nos fogem as das personagens de sonhos ... Num ímpeto, numa fúria, colei minha boca a essa mancha - dilacerando-a ... Nem mesmo parecera notar essa carícia brutal ... Marta, porém, não gritou ... estranha dúvida ...” --- FUSÃO ENTRE SUJEITO E OBJETO - Ricardo = Marta - ruptura (apagamento) de limite entre marido/mulher: ----- uma só alma - ele não projetado no espelho, porque alma seguiu ao encontro de Lúcio - “Eram quatro horas ... a encantadora surgiu na minha frente ... o poeta me dissera esta estranha coisa: ... tive hoje uma bizarra alucinação ... quatro horas ... Por acaso olhei para o espelho e não me vi refletido nele! ... via tudo quanto me cercava projetado ... Só não via a minha imagem ... a sensação misteriosa que me varou ... Não foi uma sensação de pavor, foi uma sensação de orgulho.” (Ele se sente vitorioso de sua obra.) ----- um só raciocínio e consciência -“Marta misturava-se por vezes nas nossas discussões ... Curioso que a sua maneira de pensar nunca divergia da do poeta. Ao contrário: integrava-se sempre com a dele, reforçando, aumentando em pequenos detalhes as suas teorias, as suas opiniões.” ----- a alma de Marta foge por causa do êxtase de Ricardo - “... a figura de Marta dissipar-se ... velada, a voz de Ricardo ... Nunca vibrei sensações mais intensas do que perante esta música admirável ... São véus rasgados sobre o Além ... impressão de que tudo quanto se constitui em alma, se precisou condensar para o estremecer - se reuniu dentro de mim, ansiosamente, em um globo de luz ...” ----- desencantamento - “Chegou a hora de dissipar os fantasmas ... Foi como se a minha alma, sendo sexualizada, se materializasse para te possuir ... frases incoerentes, impossíveis ... Marta folheava um livro ... Ricardo puxou e um revólver, desfechou-lhe â queima-roupa ... E então foi o Mistério ... o fantástico Mistério da minha vida ... Ó assombro! Ó quebranto! Quem jamais estiraçado junto da janela, não era Marta - era o meu amigo, era Ricardo ... Marta, essa desaparecera, evolara-se em silêncio, como se extingue uma chama ... Aterrado, soltei um grito -   um grito estridente, despedaçador - e, possesso de medo ... carreira louca ... despertei deste pesadelo alucinante, infernal, que fora só a realidade, a realidade inverossímil ...” ---- Ricardo e Marta eram um só - “O beijo de Ricardo fora exatamente igual, tivera a mesma cor, a mesma perturbação que os beijos de minha amante ... o beijo de Ricardo, o beijo de Ricardo semelhante aos de Marta ... ao possuí-la eu tinha a sensação monstruosa de possuir também o corpo masculino desse amante.”
TEMPO E ESPAÇO TRANSFORMISTAS - no mundo sobrenatural, tempo e espaço não são como na vida cotidiana: parecem “suspensos”: ----- festa - “Ao entrarmos novamente na grande sala - por mim, confesso, tive medo ... Todo o cenário mudara - como se fosse outro o salão. Inundava-o um perfume denso, arrepiante de êxtases ... brisa cinzenta com laivos amarelos ... o mais alucinador era a iluminação ... transparências várias ... torrentes luminosas, todas orientando para o mesmo ponto quimérico do espaço ... turbilhão meteórico ... De forma que a luz total era uma projeção da própria luz ... um fluido novo ... nós respirávamos o estranho fluido ... perfume roxo do ar (fusão de abstrato concreto) ... vertigem de ascensão ... e o pano rasgou-se sobre um vago tempo asiático ...” ----- sensações do poeta Ricardo - “... o horror dos arcos - de alguns arcos triunfais e, sobretudo, de alguns velhos arcos de ruas ... Não propriamente dos arcos ... antes do espaço aéreo que eles enquadram ... uma porta aberta para o infinito ... só se via o horizonte através desse arco ... Fugi apavorado ... me assustam alguns espaços vazios emoldurados por arcos -   me inquieta também o céu das ruas, estreitas e de prédios alto, que de súbito se partem em curvas apertadas.” Marta surge de um espaço sem dimensão - “Um criado conduziu-me a uma grande sala escura, pesada, ainda que jorros de luz a iluminassem ... tive a mesma sensação que sofremos se, vindos do sol, penetramos numa casa imersa em penumbra ... E de súbito, sem saber como, num rodopio nevoento, encontrei-me sentado em um sofá, conversando com o poeta e a sua companheira ... Ainda hoje me é impossível dizer se, quando entrei no salão, já lá estava alguém, ou se foi só após instantes que os dois apareceram ... eu entrara naquela sala como se tivesse regressado a um mundo de sonhos.” Transformação de tempo / espaço além dos limites normais - clima mágico.
INTERROGAÇÃO DE LÚCIO - o fantástico, o inverossímil: “Pouco mais resta a dizer ... Com o inverossímil, ninguém se justifica ... conservo reminiscências muito indecisas ... Em face a tão fantástico segredo, eu abismara-se-me ... a minha estranha aventura.”
TODA NARRATIVA, mesmo FANTÁSTICA, é movimento entre dois equilíbrios semelhantes, mas não idênticos:
1-situação estável - Lúcio e Ricardo são amigos e confidentes;
2-desequilíbrio - o mistério de criação de Marta;
3-restauração do equilíbrio - fim da figura de Marta, como elemento maravilhoso.
QUESTIONAMENTO de real / irreal é o centro do fantástico, em metafísica do real e do imaginário.
METALINGUAGEM - a arte pela arte; arte domina o homem. Aqui, arte ligada à sensualidade:
Fusão
Arte / Sensualismo

AUTOR DO ROMANCE:
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO - Lisboa 1890 / Paris 1916. Poeta, contista e ficcionista. Iniciou o curso de Direito em Coimbra, foi depois para a Sorbonne, sem concluir. Problemas emocionais, depressão, vida boêmia, dificuldades financeiras, ideias de morte e suicídio.
              
                 F I M


Biografia:
PARVUS IN MUNDUS EST. (O MUNDO É PEQUENO DENTRO DE UM LIVRO) Ser dedicado, paciente, ousado, crítico, desafiador e sobretudo enlighned são adjetivos de um homem cosmopolita que gostaria de viver mais duzentos, ou quem sabe trezentos anos para continuar aprendendo e ensinando. Muitos de nós acreditam que uma vida de setenta, oitenta anos é muito longa, contudo refuto esse pensamento, pois estas pessoas não sabem do que estão falando. Sempre é tempo de aprender, esquadrinhar opiniões, defender, contestar ou apoiar teses, seguir uma corrente filosófica (no meu caso, a corrente kantiana), não necessariamente crer num ser superior, mas admirar e respeitar quem acredita nele. Entender a diversidade de costumes e culturas denominados de forma polissêmica nas diferentes partes do mundo, falar um ou dois idiomas, se perguntar o porquê e tentar encontrar respostas para as guerras, a segregação racial, as diferenças étnicas, o fanatismo religioso, o avanço tecnológico, o entendimento político. Enfim, apenas estes temas já levaria uma vida para se ter uma compreensão média. A leitura é o oráculo para estas informações, é ela que torna o mundo cada vez menor capaz de se acomodar nas páginas de um livro. É por isso que se diz que não há fronteiras para quem lê. Atualmente as pessoas confundem Balzac com anti-inflamatório, Borges com azeite, Camilo Castelo Branco com rodovia estadual, Lima Barreto com laranja de determinado município paulista, Aristóteles com marca de carro e por aí vai. Embora, eu tenha dissertado sobre o conhecimento culto, os meus trabalhos publicados aqui demonstram o dia a dia das pessoas comuns narrados através de divertidas e curiosas estórias. Meu público alvo são as mulheres. É para elas que escrevo, pois são elas possuidoras de sensibilidade capaz de entender o conteúdo do meu trabalho.
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