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Um reino de monstros Vol.1 - Capítulo 4
Caliel Alves dos Santos

Resumo:
Nipi se prepara para realizar sua execução, mas o que ele não sabia é que a Resistência estava pronta a atacar.

Capítulo 4: Liberdade ainda que tardia



Parte 1
Na véspera da execução dos cavaleiros flandinos, Leona foi até o seu alojamento na guarda municipal e indo até a sua cama, que por sinal era uma caixa de areia, retirou um objeto transparente e esférico de dentro da areia cinzenta.
Era uma esfera maior que um punho de um homem, parecia cristalino e de textura muito lisa. O objeto era um dos artefactos mais usados por magos e conjuradores: o telemago. Com ele, podia-se comunicar a distância criando uma Transmitância Mágica.
Os telemagos transmitiam imagem e voz, ou apenas um destes, podia também ser usado como circuito de segurança etc.
Ela o alisou com suas patinhas fofas retirando à areia. O objeto se pôs a emitir um brilho e dois olhos apareceram. Leona Prestou uma saudação e posicionou o objeto encima de sua cômoda.
— Capitã Leona reportando-se a Vossa Majestade.
— Fale minha cara Leona.
Leona como era de seu feitio passou a falar e a gesticular com todo o seu corpo.
— Saiba glorioso rei que muito tenho observado em Flande. Assim como em vossa sabedoria havia me alertado, Nipi é um mau capitão, acaba muitas vezes sendo o responsável pela diminuição do exército, qualquer motivo pra ele é razão para ferir de morte os seus subordinados. Gumercindo por sua vez é extremamente diplomático e sagaz, embora imprudente por desafiar Nipi, tenho observado que Gumercindo através de manobras psicológicas tem levado Nipi a tomar atitudes desesperadas para mostrar serviço, o que ainda não aconteceu.
O relato de Leona continuou ainda com a descrição da emboscada no beco e como a célula rebelde continuava a se multiplicar a cada dia mais no Reino dos Monstros.
O que mais agradou aos olhos do rei foi o relato do Monstronomicom.
Zarastu ficou refletindo as palavras da alma de gato por um instante e depois disse:
— Capitão Leona, esqueça Nipi e Gumercindo, estarei enviando um observador para que assim eu possa tirar minhas próprias conclusões. Quanto a você, eu tenho uma nova missão: siga os passos desse moleque e na primeira oportunidade, roube o livro. Quanto ao Barão de Flande, lhe reservarei um destino ainda maior.
* * *
Sob as luzes de tochas incandescentes, os catres dos calabouços da Guarda Municipal de Monstros foram abertos. Figuras esquálidas saíram cambaleantes.
As caveiras passaram a agredir os já feridos cavaleiros flandinos. Embora humilhados uma vez mais, saíram resignados, pois ainda assim possuíam o orgulho de serem cavaleiros e flandinos. Nipi comandava a retirada e dava ordens aos soldados.
Ao passar por Nipi, um dos cavaleiros cuspiu em sua face simiesca. O muco ressequido escorreu pela testa vincada e chegou à ponta do focinho, pingando no peitoral da armadura. Os monstros ficaram atônitos. O mapinguari o fitou por um instante.
Depois num brusco e rápido movimento, Nipi aplicou um tapa no tórax do ousado prisioneiro, mas parou o ato antes que atingisse o alvo.
— Que graça teria se eu o destroçasse aqui, sem plateia para lamentar sua morte?
— Você já não é mais o mesmo macacão de antes Nipi.
Nipi pisou nos pés do flandino e o segurou pelo pescoço o enforcando, o homem de pele bronzeada ficou com um tom cinzento. O capitão o largou no chão e disse:
— Não abuse da sorte Arnaldo, ande seu animal!
Aos empurrões, Arnaldo e os demais foram trazidos guiados pelos corredores de pedra da guarda municipal. Arnaldo sentia um frenesi, era um dos melhores cavaleiros flandinos de todos os tempos, e foi um dos últimos a ser capturados.
Na última investida dos monstros, ele tinha se colocado como isca para que Dumas pudesse levar os outros para a Cidade Subterrânea. Ele havia jurado resgatá-lo com vida, como todos os prisioneiros de Nipi, ele mantinha a esperança acesa todos os dias.
Passaram as duas portas de ferro até chegar à recepção. Formando duas filas paralelas, as caveiras ficaram observando o cortejo dos maltrapilhos prisioneiros.
Essa fila levava até a praça principal, e por ela, famílias inteiras iam quase a se arrastar para conseguir andar. O cordão de isolamento servia para impedir que a multidão que acompanhava o cortejo tentasse algum resgate.
Todos os monstros sob o controle de Nipi estavam nas ruas, exceto Leona.
Muitas pessoas tentavam em vão furar o bloqueio. Aos olhos do povo aquilo era cruel demais, não poderiam entregar alguém para ser morto, mesmo que fosse para salvar um parente, amigo ou cônjuge. Mas essa era a intenção de Nipi, causar desespero.
— Monstro assassino!
Gritou um senhor tentando passar pelas caveiras que o repeliram com violência.
— Você não vai se safar dessa seu macaco fedido.
Ironizou uma jovem jogando um tomate apodrecido na armadura lustrosa de Nipi.
Sob insultos e vaias, eles continuaram a andar entre a multidão furiosa, porém enfraquecida. O máximo que eles podiam fazer era agredir os monstros verbalmente.
Nipi e os seus prisioneiros enfim chegaram até um palanque com algumas forcas a balançar com a brisa do vento.
Gumercindo e família estavam numa tribuna de honra, bem em frente ao palanque.
A baronesa balançava o lenço para o cortejo fúnebre de cavaleiros flandinos. Gumercindo estava de braços cruzados, encarando Nipi com desprezo. Sua filha magricela bocejava, usava um poá na bochecha esquerda, simulando uma falsa nobreza.
Esse maldito Gumercindo também será mandado à forca hoje...
Um cômico carrasco, que nada mais era do que uma caveira vestida com capuz negro e roupa larga de mesma cor acenava para os cavaleiros flandinos e passava o dedo embaixo do pescoço, indicando o fim trágico que os esperavam.
Onde está àquela alma de gato inútil que nunca está aqui quando precisamos dela?
— Tenente, pode me dizer aonde aquela bola de pelo foi?
— Isto é bem difícil de dizer capitão Nipi, ela sempre usa sua magia Corpo Diáfano.
— Mas você também é outro desútil, saia daqui já seu paspalho.
Havia pessoas demais, nem mesmo o mapinguari esperava tantas pessoas. Algumas telegas estavam dispostas pela praça e ruas adjacentes, Nipi imaginou que pessoas de arraiais e vilas circunvizinhas tinham vindo para o Baronato de Flande.
Desde o dia anterior ele não tinha visto Leona, isso de certo modo não significava nada, mas ela sempre estava o observando a todos.
De certo modo ele não sabia o real motivo de ela ter aparecido, Flande estava dominada e Gumercindo, ao menos ele acreditava, também estava sob seu controle.
Para Nipi, não havia necessidade de ser espionado e o rei tinha lhe dado demonstração de que gozava de seus favores reais. Havia sido destacado para o cerco de Flande.
De repente, a concentração de Nipi foi deslocada para uma voz rija.
— Não acha que está indo longe demais capitão Nipi, olhe para essa gente, os flandinos estão em polvorosa, acha que conseguirá controlar a situação?
— Mas é claro que...
Essa voz, mas, mas, não, não pode ser!
— Vossa Majestade?
Slish-slish, uma criatura semelhante a um enorme olho flutuava no céu, atrás de si, havia vários tentáculos roxos, eles se moviam e se eriçavam como se fossem nadadeiras. Era semelhante a uma água-viva nadando no ar. Na pupila do observador, Zarastu.
— E-eu, eu... não se preocupe meu rei e senhor, foi tudo planejado de modo a causar uma série de delações no povo flandino.
— A única coisa que vejo é uma população inflamada com sua atitude, é como uma corda que puxada por duas forças iguais, acaba por se romper.
— Perdoe a ousadia Vossa Majestade, mas verá como tenho razão, observe.
Nipi subiu no palanque, e com um gesto de mão as caveiras puseram os prisioneiros na forca. De modo altivo, dez dos prisioneiros puseram seus pescoços nos laços.
O observador transmitia o que ocorria em tempo real para Zarastu em seu castelo.
O algoz estava com as mãos ossudas encima da trava que abriria o alçapão, só esperando a ordem de Nipi. O mapinguari se dirigiu ao povo, silenciando-o desse modo:
— Calem-se seus infelizes! Agora sim, bem, eu, Nipi, comandante da Guarda Municipal de Monstros do Baronato de Flande, declaro um acordo de colaboração com os cidadãos flandinos: aquele que denunciar um rebelde salvará a vida de um desses prisioneiros. Darei dez segundos para que possam se manifestar.
— Nipi, se não for morto pela população, com certeza será morto por mim...
— Tenho tudo sob controle Vossa Majestade.
Infelizmente o que se viu foi ao contrário. As pessoas gritavam e conturbavam a cerimônia de execução. Muitas delas forçavam o bloqueio. As caveiras revidavam.
— DO AÇO, PELO AÇO!
Os flandinos gritavam o lema da ordem, os cavaleiros também passaram a entoar o lema continuamente. Nipi não sabia mais o que fazer, gritou com as caveiras:
— Comecem a execução agora!
Mas antes que o alçapão fosse aberto e o carrasco desse o seu sorriso carniceiro, as cordas foram cortadas por um facho de luz prateado.
— Flux Lux!

Parte 2
Dentro das carroças de quatro rodas dispostas pela praça e ruas, os rebeldes esperaram a deixa para agir. Dentro de uma das telegas carregada com palha, estava Tell e Dumas.
O disfarce embora incômodo, possibilitou a infiltração dos rebeldes.
Index tivera uma crise de espirros devido à palha, e fora devolvido ao Monstronomicom. Clapeyron fez um pedido aos rebeldes e pediu que esperassem até a ordem de execução. Tell ficara preocupado, sua técnica recém aprendida, se errada, custava-lhe caro.
— Dumas, eu... Estou bastante nervoso.
— Com o que se permite saber?
Puxa! Será que pra ele é assim tão fácil combater a Horda?
— Eu só, eu só não queria ter tanta responsabilidade...
— O que determina a diferença de um homem e um monstro é justamente ela.
Tell ficou sem palavras por alguns instantes. Realmente ele não esperava ser responsável por tantas vidas, seus lábios estavam secos e as pernas bastante bambas, mas agora não havia tempo para pensar sobre isso, os flandinos precisavam dele.
Pelo buraco aberto no monte de palha, ele vislumbrava a cena. Dezenas de flandinos assistiam a execução na praça principal. Os monstros digladiavam com os cidadãos para que estes não atrapalhassem, nem furassem o bloqueio.
Dumas viu Gumercindo assistindo a morte dos cavaleiros de camarote, como o odiou.
— Não existe limite para a ousadia de Gumercindo, ele está lá, cara a cara com as pessoas que ele traiu e ainda assim ostenta um sorriso.
— Dumas, veja, tem algo flutuando sobre a cabeça de Nipi!
O espadachim estreitou as vistas e deu um longo assovio, era um observador.
— Um observador?
— Sim, um monstro capaz de transmitir imagem e som, não muito diferente dos telemagos, eles são usados para espionar, podem estar em qualquer lugar sob quaisquer formas transmitindo para Zarastu. Quando você atacar, é bom destruí-lo também.
— Mas Dumas! Ele é uma pessoa que pode ser purificado e voltar a ser humano.
— Nós sabíamos que seria assim Tell, qualquer um desses monstros pode muito bem ser o meu primo Jacs sabia? Nem por isso eu vou deixar esse sentimento interferir no meu julgamento. Sabe quantas pessoas salvaremos hoje com a destruição de um simples observador Tell? Inúmeras, centenas, talvez milhares, mas o mais importante é: qual o seu nível de envolvimento com essa causa? Se o seu avô te deu o livro, é porque confiou em você, faça essa confiança valer à pena.
Tell mordiscou os lábios, apertou os punhos e respirou fundo. Apesar do utilitarismo de Dumas, ele sabia que essa luta traria mais sacrifícios do que estava disposto a fazer.
Nesse momento Nipi soltou sua condição para não executar os seus prisioneiros.
Os flandinos nem sequer o deixaram terminar de falar. Em pouco tempo a única coisa que se ouvia era Do aço, pelo aço! Quando o mapinguari mandou o carrasco baixar o alçapão, Dumas bateu nos ombros do garoto e sussurrou no ouvido dele:
— Vai lá, essa é a sua deixa.
Ele expirou o ar mais uma vez e tomou o seu novo sabre em suas mãos. Num rápido movimento de desembainhe, Tell revolveu a palha.
Slash! O raio prateado foi cortando tudo que sua extensão pôde tocar, era como se fosse um raio a fender as montanhas. As cordas foram cortadas, e o observador virou uma pasta de muco flutuando no ar. O muco caiu na armadura de Nipi.
Antes que ele pudesse vislumbrar de onde tinha vindo o ataque, os rebeldes saltaram das telegas empunhando armas e fazendo algazarra. Muitos gritavam o lema dos cavaleiros flandinos. Outros distribuíam armas entre a população, retiradas de barris.
Os cidadãos logo empunharam suas lâminas e partiram em ataque contra os monstros.
— Malditos rebeldes! Ataquem suas caveiras inúteis.
Os monstros então deixaram os prisioneiros de lado e investiram num contra-ataque contra os rebeldes. Homens e mulheres ergueram suas armas.
O choque entre as duas facções foi tremendo, a onda de violência que vinha do lado rebelde de certa forma sufocou o fôlego dos monstros. As caveiras só confiavam na numerologia, mas mesmo Nipi sabia que isso não era suficiente.
— Usem suas magias mais poderosas, mostrem do que a Horda é capaz.
Todos os monstros tinham a vantagem de usar a magia divina, e não precisar invocar ao seu deus Enug, todos os efeitos eram automáticos.
Entretanto, as habilidades de esgrimas dos cavaleiros flandinos não podiam ser subestimadas e ainda, os rebeldes contavam com mais dois integrantes cujos poderes eram desconhecidos. Podiam ser infelizes surpresas na batalha que se desenrolava.
Nipi olhou a sua volta, em meio ao caos, ele localizou Tell, e com os olhos cheios de ódio, trotou de modo furioso concentrando sua magia mais poderosa na palma esquerda.
Tell e Dumas combatiam algumas caveiras quando Nipi apareceu de modo selvagem.
— Poaçú.
Tell e Nipi nem pareciam preocupados, isso assustou o mapinguari que descia do céu como um meteoro.
Splanz, antes que sua palma acertasse os jovens espadachins, uma lâmina cruzou o ar e defendeu a palma do simiesco.
— Você é meu capitão Nipi, agora nós vamos ver quem é mais poderoso, o comandante da Ordem dos Cavaleiros Flandinos ou o capitão da Guarda Municipal de Monstros.
— É tolice me desafiar
— Eu não concordo com isso, mas prove que estou errado.
Assim como haviam aparecido, eles desapareceram deixando um vestígio de poeira na atmosfera. Tell ficou impressionado com o nível épico daquela luta.
— Ele me tirou o direito de lutar, vingar minha família, mas no fundo, eu também sei que não posso derrotar Nipi, não sozinho, e mesmo meu pai terá dificuldades...
— Nipi é tão poderoso assim?... Dumas, você chamou Clapeyron de pai!
Dumas apenas sorriu, e virou-se para os seus companheiros de batalha dizendo:
— Flandinos, não matem os monstros, apenas os deixem desacordados, assim nós poderemos mostrar a vocês o magnífico poder que agora possuímos.
— Espero que não seja mais uma daquelas suas enganações.
Dumas conhecia aquela voz, para sua surpresa ele não havia mudado nada, apenas uma barba falhada e um bigode haviam modificado sua face. O cabelo curto e ralo continuava o mesmo, já revelando uma calvície nas têmporas.
— Arnaldo!
— Você demorou tanto para me salvar que eu nem esperei mais.
— Não diga isso, somos irmãos da mesma ordem, somos cavaleiros flandinos.
— Está bem, está bem, agora me dê um sabre, quero descontar minha frustração.
O mago-espadachim ficou abismado com o clima de humor na situação, realmente seus concidadãos eram bastante exóticos, para não dizer o contrário!
— Tell, purifique as caveiras que já estão caídas.
— Está bem, eu vos purifico.
O garoto abriu o livro, e de lá saíram Index e os feixes de luzes multicoloridos.
As luzes iridescentes penetraram em cada monstro no campo de batalha que havia na praça principal. E quando elas fizeram o movimento de retorno, elas pareciam negras e foscas como a escuridão de um poço. Arnaldo ficara estupefato.
Mas que tipo de magia é essa que transforma humanos em monstros?
A luta continuou, os rebeldes continuavam atacando os monstros, as caveiras revidavam nas mesmas medidas. A antiga praça se tornara um palco de guerra.
Entre gritos de fúria e juras de vingança, outra oração deixava a todos perplexos, era o eu vos purifico de Tell. Pouco a pouco o número de caveiras diminuía e o de humanos aumentava.
— Veja Gumercindo, os monstros serão derrotados, faça alguma coisa!
— Deixe-me pensar, deixe-me pensar sua matraca.
Gumercindo arguto como sempre pensou na possibilidade remota de se aliar aos humanos, o que ele logo descartou, lutar ele também não podia, seria morto rapidamente.
Pense Gumercindo, você é mais esperto do que isso...
Só lhe restou à única coisa que pessoas como ele fazem: fugir. Gumercindo e sua família aproveitaram a confusão e se refugiaram, de modo que nem os monstros e os flandinos soubessem onde estavam.

Parte 3
A batalha se desenrolava selvagem pela praça e ruas do entorno, os monstros confiantes na vitória devido ao seu maior número marchavam furiosamente contra os flandinos.
Os cidadãos maltrapilhos e enfraquecidos da cidade, bem como os sofridos prisioneiros pegaram em armas e aos poucos o número de combatentes nos dois lados ficou igual.
Dumas partia pra cima das caveiras sem dó nem piedade, deixando-as esquartejados.
Arnaldo ia logo atrás, dando-lhe cobertura e abrindo caminho para Tell, o cavaleiro curioso olhou para trás e lançou um sorriso. E indagou para Dumas:
— Quem é o moleque?
— Acredite ou não é a nossa arma secreta, ou melhor, a mais nova liderança da Resistência.
— Não me diga que...
— Sim, Tell, o neto de Taala!
Taala sempre dissera que o neto dele é quem traria o livro até Flande. Arnaldo então pensou que agora sim eles teriam chance contra os monstros.
O maior problema que a Resistência enfrentava era a escassez de recursos e o aumento desproporcional do inimigo. Geralmente humanos capturados nunca mais retornavam para as células rebeldes. Lashra vivia sob o jugo da Horda.
Um dos últimos redutos dos rebeldes era justamente na Cidade Subterrânea, estes por sua vez, tentavam muito mais sobreviver do que lutar.
Flande era sinônimo de luta contra os monstros, depois de sua derrocada, mais e mais cidades passaram a pertencer ao Reino dos Monstros.
Após essa grande vitória, a credibilidade dos monstros aumentara bastante.
— Então quer dizer que você é Tell de Lisliboux, muito prazer Tell, CUIDADO!
Com um corte horizontal de seu sabre, Arnaldo havia partido uma caveira ao meio.
— Eu vos purifico.
Arnaldo não podia deixar de se impressionar com aquela magia. O garoto recitava aquelas palavras e a caveira deixava de ser um terrível monstro e voltava a ser humano.
Esse era o poder do tão sonhado Monstronomicom. Embora essa informação ficasse restrita aos líderes do movimento, todos sabiam que quando os Lisliboux retornassem, teriam uma grande revelação, talvez uma arma que pudesse derrotar os inimigos definitivamente. Arnaldo, no entanto nunca imaginara um livro.
Com ele, a monstruosidade era retirada e deixava apenas a essência humana. Não era uma arma, era uma cura. Taala estava devolvendo o direito de homens e mulheres viverem como humanos. Assim o número de monstros caía drasticamente.
Até aquele momento, ninguém sabia o porquê dos Deuses Virtuosos permitirem Enug mais uma vez e mesmo selado, continuasse a praticar suas atrocidades.
Ninguém também chegou à conclusão de como Enug possuía um conjurador, se este estava selado. Essa divindade, embora respeitada, nunca havia sido adorada, nem cultuada, a não ser pelas suas crias.
Arnaldo achava a existência dos monstros um desrespeito a natureza, pois eles não reconheciam nenhuma lei ou ordem que não fosse à destruição.
— Venham monstros e eu mostrarei o que uma lâmina flandina é capaz de fazer.
As caveiras iam sendo separadas membro a membro, Tell usava o Monstronomicom.
Arnaldo percebeu que uma criatura gorducha estava empoleirada na cabeça de Tell, como se fosse um chapéu, não se atreveu a perguntar sobre o que estava vendo.
— Garoto, tome cuidado com a alma de gato, ela tem a magia Corpo Diáfano e pode aparecer e se dissolver no ar ao seu bel prazer.
— Está falando da capitã Leona?
Arnaldo estava excitado, dos monstros que havia conhecido no pardieiro dos calabouços da Guarda Municipal de Monstros, Leona parecia a mais poderosa.
Mais poderosa até do que Nipi, ela mesma sabia disso. Leona aparecera várias vezes na cela e narrando para horror geral muitas das investidas da Horda na superfície.
Seu objetivo não era transmitir informações, e sim coletá-las. Arnaldo percebeu a astúcia e acabou por lançar falsas informações. Depois de perceber que o seu golpe tinha dado errado, ela não apareceu mais.
— Eu quero enfrentá-la.
— Quem? Você Arnaldo, mal se aguenta em pé!
— Saiba que a fornalha do meu coração tem muita lenha para queimar.
Uma caveira mais ousada investiu contra Arnaldo, que com pouquíssimo esforço, derrubara-o no chão. A caveira ergueu-se e aprumou-se.
— Não pense que ainda fui derrotado humano, saiba que nós caveiras somos parte do Batalhão Amaldiçoado, não podemos ser derrotados facilmente.
Todos os que combatiam os humanos sabiam da facilidade de se encontrar e derrotar as caveiras, difícil era ter que fazer isso por três ou quatro vezes consecutivas.
As caveiras tinham uma magia chamada Diáfise. De efeito automático, com ela, o usuário poderia separar as partes do seu corpo sem sofrer quaisquer danos e reconstituí-los, isso consumia muita energia física e mágica de um guerreiro.
— Está muito confiante, veremos.
Arnaldo colocou a lâmina em riste e lançou um golpe vertical de cima para baixo. A caveira esquivou-se com um sorriso desdentado a boca.
— Viu? Eu não...
Trac-trinc-trenc... Pouco a pouco os ossos começaram a despencar do monstro.
— Tell, faça o seu trabalho.
— Eu vos purifico.
Logo o que antes era uma arrogante caveira, passou a ser um humano.
Dumas lutava com um grupo de caveiras ágeis. Elas usavam alfanjes. O sabre do espadachim rodopiava no ar e rebateu um dos pesados ataques das caveiras. E o número de inimigos só aumentava. Tell e Arnaldo estavam ocupados, ele teria que se virar sozinho.
Um dos monstros aproveitando um momento de distração dele o atacou pelas costas. O nobre se curvou e defendeu com o sabre. Outra caveira avançou, Dumas repeliu-a com um chute. O som rascante da bota chutando a caveira ressoou no seu ouvido.
Ele por um momento sentiu asco de toda aquela situação. Outra caveira deu uma espadada visando decepar o braço de Dumas, que recolheu o corpo para trás.
Diferente dos cavaleiros de outras terras que envergavam pesadas armaduras e cotas de malhas, o cavaleiro flandino optava por não usá-las. Isso lhe permitia liberdade de movimentos, entre elas a acrobacia, a submissão e a fuga.
Com esse arsenal, o espadachim conseguia diversificar suas técnicas de modo que este usava mais da improvisação do que propriamente de suas habilidades de esgrima.
— Peguem esse desgraçado, não o deixem escapar.
Droga, primeiro Leona, agora o nosso comandante, quem irá desaparecer?
— Vou lhes dar uma chance seus monstros idiotas, entreguem-se, ou os derrotarei.
— O que faremos tenente?
— Eles usam uma terrível magia que nos transforma em humanos.
— Não importa o que eles façam, continue combatendo, essa é a nossa chance de derrotar a Resistência de uma vez por todas.
As caveiras ainda receosas investiram contra Dumas, o espadachim controlado defendeu o ataque. Com movimentos simples e graciosos elas eram varridas do campo de batalha.
A caveira teve seu corpo desmembrado e voltou a se juntar novamente. Dumas continuou a cruzar espadas com as tais. A sua volta já havia uma dúzia desses monstros.
O sabre do espadachim revolveu o ar e desceu se chocando com toda a força com a espada inimiga. A caveira mediu força com Dumas, e ao se separarem, o som de clangor inundou o ar. Outra caveira desfechou um golpe, mas o cavaleiro se abaixou.
A espadada passou rente ao cabelo de Dumas, cortando uma das mechas. Dumas virou-se para as caveiras, tomou distância e preparou um golpe.
— O que ele vai fazer?
— Está concentrando sua força.
— Não fiquem ai suas infelizes, fujam!
O tenente havia dado a ordem, mas elas estavam petrificadas de medo.
— Alizé.
A lâmina provocou uma rajada de vento que derrubou as caveiras, as fazendo caírem por terra espalhadas pelo chão, como as cartas de baralho derrubadas numa mesa.
A cabeça do tenente caiu no chão gargalhando. A sua volta havia poucas caveiras. Nipi não estava lá.
— Chega, já estamos humilhando demais a Horda, é hora de mostrar o que nós caveiras somos capazes de fazer. Polimerização Mágica – Forma do Rei Esqueleto.
O ossuário esparramado pelo chão começou a se fundir, se conectar, criando no final do processo um único e gigantesco ser. A caveira gigante gargalhou e atacou os rebeldes.

Parte 4
Nipi pulava entre as caveiras fugindo dos ataques de sabre de Clapeyron. Este por sua vez mostrava uma coragem e jovialidade que fizeram Nipi ficar assustado.
O monstro simiesco trajava uma pesada armadura que cobria todo o seu corpo. Abaixo dela, uma cota de malha. Isso fazia com que seus movimentos ficassem pesados e pouco articulados. Ele levou suas patas aos ombros e desatou os feixes das ombreiras.
Droga, ele é muito rápido para alguém da idade dele...
— Venha Nipi, ainda não terminei com você.
— E não terminará, derrotei até mesmo o seu filho que era mais forte do que você, porque perderia para um velho gagá?
— Não serei um velho gagá quando eu despedaçar toda sua armadura e trespassar sua barriga gorda com meu sabre.
Foi o necessário para o mapinguari ficar assustado, o mestre de armas sabia de sua fraqueza. O velho espadachim continuava em seu encalço.
A volta deles, flandinos e monstros entravam em choque. As lâminas provocavam um som rascante quando entravam em contato com os ossos das caveiras.
Em cada canto, um dos cavaleiros confrontava o seu inimigo com orgulho.
As caveiras eram destroçadas e logo seu ossuário se reconectava, fazendo com que os cavaleiros flandinos os tivessem que enfrentar uma vez mais.
O vento agitou a barba lanosa de Clapeyron, ele empunhava o seu sabre com a guarda alta. Nipi não podendo mais fugir por estar indo a uma viela, iniciou uma postura defensiva. Slim, o aço do sabre chocou-se com as braçadeiras prateadas.
Sem as ombreiras, as articulações dos braços agora possibilitavam movimentos mais ágeis por parte dele. Mas também permitia ataques nos ombros.
— Seu traje de gala está se esvaindo meu caro mapinguari.
— Maldito, maldito, seu, seu maldito.
— Você falou “maldito” três vezes na mesma frase, deve ser mentira.
Aplicando um pouco de peso no punho do sabre, Clapeyron afastou Nipi. O monstro resfolegava como um cavalo. Começou a bater no peito como uma fera selvagem.
Rugia e batucava com as grandes mãos no peitoral floreado da couraça.
— Não me subestime seu humano imundo, eu sou o capitão da Guarda Municipal de Monstros...
— E eu sou o melhor mestre de armas do mundo, agora prove que eu estou errado.
— Não precisa pedir duas vezes.
O monstro trotou na direção de Clapeyron como se fosse um touro furioso. O mestre de armas manteve a lâmina em riste e esperou que o capitão viesse até ele. O choque de ambos foi tão forte que a poeira descreveu diversas espirais no ar.
Os dois mediram forças enquanto os joelhos se flexionavam ora para frente, ora para trás. Os músculos de Nipi se retesavam debaixo da camada de pêlos espinhosos.
Do punho, o espadachim mantinha a força no sabre, com grande dificuldade. Sua luta se tornava ainda mais difícil devido ao fato de ele não poder aplicar golpes mortais, a não ser se realmente precisasse. O que ele não estava disposto a fazer era admitir essa derrota frente à Zarastu. Não via mais a possibilidade de perder mais ninguém.
Droga, esse macaco tá me dando canseira, que vergonha!
— Vamos Clapeyron, parece que o seu aço enferrujou.
— Aço inoxidável seu babuíno almiscarado.
— Eu sou um mapinguari com corpo de gorila, seu cavaleiro fajuto.
— Isso me magoou muito sabia?
— Irei fazer você sofrer ainda mais.
Nipi tomou a lâmina do sabre com as duas mãos espalmadas e tentou envergar a lâmina. Rapidamente o velho espadachim o golpeou com um chute, o afastando.
Ele tentou quebrar meu sabre, mas que safadinho!
Nipi resfolegava, havia tomado uma atitude precipitada. Tentara remover a arma das mãos do espadachim, o que de certo modo exigia mais habilidade que força.
O monstro pensou em como faria para derrotar Clapeyron, sua grande força não o ajudava, pois mesmo que pudesse destruir uma parede com um tapa, não conseguiria ferir alguém com golpes mais veloz que uma rajada de vento.
O mapinguari era mais esperto do que seus inimigos imaginavam. E não podendo combater o oponente desarmado, ele resolveu se armar também, equilibrando as coisas.
Nipi foi até um poste e tomou a haste balançando a mesma. O comandante dos cavaleiros flandinos ficou um tanto apreensivo, o poste era de ferro e possuía cerca de três metros, possibilitando que o mesmo fosse usado em ataques a distância.
— Ei! Destruir os postes de iluminação pública é vandalismo seu cretino. Opa!
Nipi arrancou o poste, junto com uma emaranhada raiz de ferro e concreto, que fazia do poste um perigoso malho. Nipi sacudiu sua improvisada arma como uma hélice.
Metade das caveiras foi arremessada ao longe com seu movimento. O mapinguari arreganhou os dentes afiados e vociferou com voz animalesca:
— Eu vou matar você agora seu humano nojento!
O monstro saltou uma grande distância e preparou um golpe de martelo em Clapeyron. O mestre de armas então se concentrou e fez uma postura diferente. Recolheu um pé atrás, e pôs o outro a frente, parecia uma postura de dançarino.
Os braços se estenderam e se cruzaram segurando o sabre que estava na posição horizontal e na altura do ombro. Os olhos estavam fechados. As formas do espadachim passaram a vibrar, como se estivesse a tremer de frio, embora suasse.
Nipi girou a haste no ar e preparou o golpe que pra ele definiria a vitória.
Trunck, o malho improvisado se tornou um bastão. O movimento tinha sido tão rápido que foi impossível para o mapinguari perceber como ele tinha acontecido.
Como líder da companhia enviada a Flande, ele tinha confrontado muitos dos cavaleiros flandinos mais poderosos, inclusive tinha se confrontado com Jacs, que havia considerado o mais forte, mas o mestre de armas estava sendo um desafio ainda maior.
Como um velho consegue ser tão rápido?
Não houve tempo para pensar numa resposta, a haste defendeu o golpe, mas ele não a impediu de causar estragos. Uma fenda transversal foi aberta na couraça prateada.
— NÃO! Minha armadura.
— E lá se foi mais um pedaço do ultraje a rigor.
Havia um grande motivo para Nipi, um monstro tão selvagem usar uma armadura como aquela. Sirius, o seu general atroz havia lhe dado aquela couraça antes de partir para guerra. De todos os Generais Atrozes, Sirius era o que mais prezava o extinto guerreiro, não à toa o seu batalhão era o mais combativos de todos.
Graças aos serviços prestados, ele teve o direito de ostentar essa bela armadura.
— Não, a armadura que general Sirius me confiou para que eu entrasse nesta cidade caindo aos pedaços em triunfo! Não irei perdoar você Clapeyron.
— Tudo isso por um naco de metal?
— Não tripudie de mim!
— Engraçado, você disse “cidade aos pedaços”? Seu ingrato, essa cidade ficou assim por sua causa, só por isso ela está entregue às moscas, mas isso vai demorar pouco, logo, logo iremos purificá-lo deste mal que é a monstruosidade.
— Não me trate como um inválido.
De um salto ele bateu os dois bastões em Clapeyron, que se desviou. Ele continuou a atacar o mestre de armas que se desviava e rebatia os ataques.
O mapinguari estava babando furioso. Mas seus ataques embora poderosos, não estavam surtindo o efeito desejado. Isso aumentava sua ferocidade ainda mais.
A lâmina do sabre fazia curvas no ar e rebatia as investidas do monstro, Clapeyron sorria como se estivesse se divertindo. Há muito tempo não lutava.
Não pense que deixarei escapatória para você Clapeyron, eu odeio os espadachins, eu odeio os humanos, eu odeio todos vocês, não passam de pragas neste mundo, existe um motivo para o nosso deus Enug querer a extinção de vocês, precisamos realmente fazer com que vocês cheguem até o mais profundo dos infernos... Argh!
O fluxo de pensamentos de Nipi foi interrompido devido uma dor aguda e lancinante em seu ombro esquerdo. O sangue começou a escorrer pela ferida aberta.
Nipi tremia dos pés a cabeça. Clapeyron como se fosse um fantasma, estava atrás dele.
— Devia cuidar melhor da sua guarda...
Tentando um último ataque, Nipi revolveu os bastões de ferro e tentou acertar o espadachim. Este por sua vez se esquivou e manteve distância. Nipi ficou desesperado.
A dor, o estresse da luta e ver seus comandados perdendo a batalha foi demais para ele. Saindo em disparada ele correu a esmo derrubando quem aparecia na frente dele. O espadachim se permitiu sorrir naquele instante.
— A caçada ao macaquinho danado continua...
Clapeyron saiu em disparada, Nipi ia à direção da Guarda Municipal de Monstros.
Parte 5
Index se aninhava no cabelo de Tell como se quisesse se esconder do imenso monstro.
A caveira sorria guturalmente. Arnaldo e Dumas se posicionaram defensivamente a frente de Tell. Os cidadãos de Flande estavam assustados por todos os fenômenos que tinham presenciado naquela batalha.
Nipi havia fugido, Leona estava desaparecida e ainda não haviam localizado o atual Barão de Flande. Mas a caveira gigante foi algo totalmente inesperado.
— E então, qual desses insetos eu devo pisar primeiro.
Duas gotas de suor escorreram pelo rosto de Dumas. Estava apreensivo, todos estavam em risco, os golpes daquele monstro tinham alcance muito maior.
— Droga! Temos muitas pessoas aqui, vamos evacuar a área, Tell fique com Arnaldo, vocês dois evacuem o local e levem os feridos, bem como todos os purificados para o mais longe possível deste monstro.
— Vai ficar com toda diversão pra você?
Arnaldo se pôs a frente de Dumas, o jovem nobre alisou o rosto com as mãos.
— Eu também quero ajudar!
Tell pôs o Monstronomicom em uma alça nas costas e esperou com o sabre em riste.
— E eu posso ajudar ainda mais.
Index sobrevoou Tell e ficou observando a reação chocada de Dumas.
Parece que eu não tenho o mesmo senso de liderança que o meu pai.
— Se vocês não se decidem eu escolho por vocês.
A caveira gigante levantou o seu enorme e ossudo pé direito e fez um gesto de pisar um grupo de flandinos que estavam olhando a cena de modo atônito.
— Vão, fujam!
Thomp; Dumas defendeu o peso do corpo esquelético com apenas a força de seus músculos. O sabre se envergou com a força do golpe.
— O que estão esperando Arnaldo e Tell, retirem essas pessoas daqui, depois me ajudem, por favor, salvem os flan... di... nos.
A caveira recuou o pé devagar e seu corpo bamboleou para trás desequilibradamente.
Tell e Arnaldo passaram ajudar as pessoas que estavam desacordadas ou os que não podiam andar. Os flandinos foram levados para o local mais seguro do Baronato, a Cidade Subterrânea. Nem mesmo aquela caveira gigante poderia fazer mal contra eles lá.
— Agora sou só eu e você, saco de ossos.
— Contemple humano, a glória de nosso deus Enug, somos seus servos e filhos, e mesmo assim nós podemos usar magia divina sem ter que lhe recitar nenhum rogo. A cada dia o nosso exército aumenta, enquanto vocês fogem como ratos acuados para o esgoto, e mesmo quando lhes é dado chance de vida melhor, vocês aproveitam para se rebelar contra o nosso julgo, oh tola humanidade.
Dumas achou aquela palavras uma ofensa a sua inteligência, não era possível que os monstros fossem tão cínicos a acreditar que o domínio deles trouxesse benefícios.
— Me parece que como você não tem cérebro, é até difícil debater ideias com você.
A caveira soltou mais um dos seus sorrisos estrondosos, parecia o som do mar batendo nas pedras. Depois ela apontou o dedo de modo acusador para Dumas:
— Vocês seres humanos se acham superiores, ferem seus semelhantes, muitas vezes pelas costas. Rezam aos Deuses Virtuosos e minutos após a oração se põem em pecado.
Dumas encarou a caveira gigante entortando a cabeça, já tinha ouvido o sermão de muitas pessoas, mas nunca de um monstro, principalmente um tão feio.
O espadachim manteve a conversa com cuidado, não se deixaria abater por uma caveira.
— Então vos disseste que o Reino dos Monstros e o plano de Sua Majestade Zarastu são o que o mundo sonhou?
— Mas é claro, ele significa o poder, o poder é o que move o mundo. Sem eles o mar não estrondeia, os ventos não revolvem a terra, o exército não derrota as tropas inimigas. Como não estar agraciado com o poder de Enug.
Dumas estava ganhando tempo para que assim as pessoas tivessem tempo de escapar.
Percebendo que não havia mais ninguém, ele simplesmente avançou contra a caveira. Ela com um movimento do pé preparou um chute em Dumas.
O espadachim veio correndo e deslizou por debaixo dos seus pés. O chute ainda resvalou um pouco em seus cabelos cacheados.
Se aproveitando por estar nas costas do inimigo, o jovem nobre se aproveitou para lançar um ataque surpresa, mas a caveira lançou mão de uma nova magia.
— Ímpetus.
O monstro pisou no chão e a terra passou a tremer, as casas chacoalharam como se não estivessem mais construídas sobre o solo, muitas desabaram.
As casas de tijolos amarelos e fachadas de madeira verdes ficaram em frangalhos no chão. As que não caíram ficaram condenadas, pois estavam tortas.
— Seu monstro infeliz, essas casas são patrimônio cultural do nosso Baronato.
— Huonhuonhuon! Esperava mais dos cavaleiros flandinos, derrotar um de nós parece ser fácil, mas derrotar todos me parece um tanto mais difícil não?
Dumas brandiu o sabre e se pôs a correr, subiu num monte de destroços para conseguir impulso e pulou preparando um golpe no rosto da caveira gigante.
— Coup de Foudre.
Sliz, Dumas, no entanto foi interceptado pelo monstro que o segurou pela cintura.
— Veja Humano, em toda a criação tu és a coisa mais fraca que já inventaram, é como um caniço se curvando a brisa do vento.
— Argh, arf, podemos ser frágeis a ponto de nos dobrar, mas nunca quebramos.
— Isso pode muito bem ser mentira, vejamos se o que diz é verdadeiro.
Como se Dumas fosse um brinquedo, ela passou a apertar o espadachim pela cintura. Seus ossos faziam sons quebradiços, suas costelas pareciam ser oprimidas a martelada.
Tentando encaixar um golpe com o sabre, ele perdeu a força nos braços devido à dor e deixou a arma cair. A caveira gigante tinha dez metros, e Dumas desconhecia qualquer outra técnica que pudesse aplicar com as próprias mãos.
A caveira o pôs perto de sua face ossuda e branca e bafejou em seu rosto:
— Humano insignificante, se resolvesse colaborar conosco, tua glória seria mais honrosa que a de um simples mártir.
— Eu n-não, s-sou como Gumercindo, aquele desgra-çado.
— Gumercindo fez a melhor opção, diferente de vos, que não viu a imensidão da nossa Coroa, nem a força do nosso poder. Agora pereça humano ingrato.
Dumas tentava em vão retirar os dedos esqueléticos da sua cintura, mas a força com que eles estavam constringindo seu corpo o fez vomitar.
Seus braços golpeavam inutilmente a caveira gigante que mantinha a mesma pressão.
Por um momento sua vista embaçou, não conseguia enxergar mais nada, perdeu os sentidos. A dor era tamanha que aos poucos seu próprio tato foi falhando.
Os nervos estavam entrando em colapso. Aos poucos seu corpo foi ficando relaxado.
Então é assim? Minha vida acaba assim, destituída de qualquer honra...
— Flux lux.
— Coup de Foudre.
A última coisa que Dumas viu foi à caveira receber um forte facho de luz na face e cair de costas. As mãos ossudas que o prendiam lhe soltaram o corpo. Uma brisa leve percorreu seu corpo. Era como aqueles sonhos em que estamos caindo.
Enquanto caia, seu corpo se moveu devagarzinho. Apesar de ter durado poucos segundos, a queda lhe pareceu uma vida inteira.
As nuvens formavam figuras, entre elas ele se viu nos campos de Flande. Correndo entre bosques de araucárias e pinheiros. Jacs, Clapeyron, seu pai e sua mãe, todos...
Quando ele chegou ao solo, seus olhos se fecharam bruscamente.


Biografia:
Comecou a escrever depois de um concurso em sala de aula. Dois anos depois ele publicou seu primeiro livro.
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