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Um reino de monstros Vol.1 - Capítulo 3
Caliel Alves dos Santos

Resumo:
Clapeyron dá início ao treinamento de Tell, será que o pequeno mago se tornará um espadachim em três dias?

Capítulo 3: Treinamento árduo



Parte 1
Tell tinha Index empoleirado no topo da cabeça. Clapeyron e Dumas vasculhavam o alojamento em busca de um misterioso objeto.
Quando ele foi finalmente encontrado, o mestre de armas deu um enorme sorriso.
Para Saragat que também assistia a cena, não viu nada demais, entretanto ficou em silêncio. Tell também parecia decepcionado.
— Esta será a sua espada de treino.
— Uma espada bastarda?
Saragat não conteve a língua. Index voou em volta da espada que tinha cabo de madeira, uma guarda em formato de cruz e dois gumes. Ela tinha uma bainha de couro cru.
— Não é uma espada comum, ela é uma lâmina de treinamento flandina.
Dumas sorriu e a jogou para o garoto que a pegou no ar de modo desajeitado.
— Mestre Clapeyron, eu peço desculpas se estou sendo ousado, mas como essa espada irá me ajudar?
— Para olhos desacostumados, essa espada não passa de uma velharia, mas no fundo ela é que garante nossa maestria na esgrima. Tente empunhá-la.
O garoto a segurou com as duas mãos e não conseguiu. As veias saltaram no rosto, mas ele não levantou o seu gume.
— Anda garoto fraco, levanta esse monte de ferrugem logo!
Saragat gritou, mas não surtiu efeito, a espada continuou grudada no chão.
— Mas, mas como essa espada pode ser tão pesada?
— Hungh, talvez você esteja bem fraquinho mesmo Tell.
— Até você Index?
— Só se é apunhalado pelos seus Tell.
A descontração diminuiu após Saragat ter dito essas palavras. Dumas pousou as mãos nos ombros do garoto e disse para que eles o acompanhassem. O conjurador mascarado foi na direção contrária.
— Espere, aonde vai?
— Não sou espadachim.
— Será interessante para melhorar suas habilidades em combate.
Saragat virou-se para Dumas com um olhar rijo como pedra e disse ironicamente:
— O que você vai me ensinar eu já esqueci.
Saragat saiu e ninguém tentou impedir. Index voou de volta para o garoto e comentou:
— Ele deve ter problema de memória.
— Vamos, espero lhe ensinar alguma coisa antes do almoço.
O quarteto saiu do acampamento e tomou a mesma rota que Dumas usava. Aquela área não costumava ser vigiada pelos monstros. A espada de lâmina enegrecida pesava a cada passo. Quando eles saíram do corredor de pedra, o garoto ficou aliviado.
Dumas e Clapeyron adentraram a floresta com o garoto estafado. Index ajudava Tell trazendo a mochila com suas mãozinhas.
A floresta tinha árvores imensas, entre elas havia diversos pinheiros e araucárias.
Numa clareira aberta por árvores tombadas o grupo parou. Depois de uma pequena pesquisa Dumas voltou dizendo que a área estava limpa.
— Tudo bem, agora nós vamos começar...
— Por um momento eu achei que carregar a espada seria o treinamento.
Clapeyron coçou a sua barba lanosa e deu um sorriso amigável. Ele retirou o seu sabre e o ergueu no meio de um raio de luz. O flash se tornou vários feixes prateados.
— Geralmente treinamos os jovens com lâminas pesadas como essa. Entre o sabre, o florete, a rapieira, o estoque e a espada, o melhor é que você manuseie está aqui. Você não tem treinamento eficiente em qualquer arma, não possui, portanto, o reflexo para empunhar estoques e rapieiras, velocidade para usar o florete ou a habilidade para manusear um sabre. Temos que aumentar sua força também, pois lutará com inimigos maiores que você.
— Ao menos ele terá explosão mestre Clapeyron.
— Mas sem a disciplina o arsenal de um guerreiro se torna um peso.
Tell arfava, suado e cansado, ouvia toda a conversa perto de um desmaio. Depois da explicação, Clapeyron pediu para que o espadachim se colocasse em frente de um tronco. Metade de uma árvore seca estava de pé.
O garoto logo entendeu que eles usavam suas habilidades para coletar madeira enquanto treinavam. Index e Tell observaram atentamente.
— Agora veja meu filho Dumas, atinja essa árvore com o Coup de Foudre.
Esse era o mesmo golpe que o jovem havia usado para inutilizar as caveiras.
Dumas ajeitou as mangas de sua camisa de seda. Uma brisa fresca lambeu os seus cabelos longos e encaracolados. Entrando em postura de ataque ele desembainhou o seu sabre num corte vertical, ao que pareceu um único movimento.
Com a mesma elegância que o rapaz combateu os monstros no beco ele golpeou o tronco. Num primeiro momento nada aconteceu.
— Será que ele errou Tell?
— Acho que não Index.
Dumas embainhou o sabre novamente e com uma nova lufada de vento, o tronco dividiu-se no meio. Tell ficou impressionado como um tronco tão largo havia sido cortado de modo tão rápido.
Clapeyron ficou satisfeito com a expressão do garoto. Dumas voltou para perto do mestre de armas. Clapeyron se aproximou de Tell e apontou para o tronco.
— Quero que você faça o mesmo.
— Eu não posso...
— Só saberá se tentar.
Tell com algum esforço arrastou a espada até em frente ao tronco. Fez um enorme esforço, mas a lâmina não conseguia ser levantada.
Index sobrevoava-o falando palavras de otimismo, a espada só conseguiu ser erguida a muito custo. E quando a espadada aconteceu, errou o alvo.
O garoto jogou a espada no chão, o desânimo estava em seus olhos.
— Não dá, não consigo.
Dumas se levantou e pegou seu sabre novamente, empunhou-o com maestria.
— Vede Tell, é assim que se empunha uma lâmina.
— A lâmina é a extensão do braço, meu pai dizia isso quando eu era criança.
— E porque você não segue os seus ensinamentos?
— É porque eu não sou um grande mago igual a ele tá bom.
Tell se levantou e empurrou Dumas com as duas mãos, correu floresta adentro com olhos lacrimosos. O jovem nobre virou-se para Clapeyron.
— Que garoto birrento.
— Não diga isso Dumas, todos temem o caminho da espada.
— O que eu vejo aqui é que ele não tem talento nenhum para a esgrima.
— Ele não foi treinado para tal por falta de tempo e quem lhe ensinasse, eu deixo o treino do garoto sobre sua responsabilidade.
— O QUÊ?
Dumas tinha o queixo caído, ele não queria ficar responsável por um pirralho. Não tinha nada contra Tell, ele só não tinha a paciência para ensinar.
— Gostaria que fosse atrás dele e o trouxesse para o almoço, treinarão aqui.
— Mesmo que ele tenha um grande potencial latente, uma semana não será suficiente.
— Não o quero espadachim até o fim da semana, você tem apenas três dias.
Dumas ainda tinha o queixo caído quando Clapeyron entrou na Cidade Subterrânea.

Parte 2
No dia anterior...
Numa mesa extensa, um grupo de seletos convivas como banqueiros, latifundiários e comerciantes banqueteava um farto desjejum.
Havia diversas iguarias, muitas eram apenas petiscadas e logo eram jogadas no lixo para que outro prato ainda mais saboroso fosse posto em seu lugar.
Em uma das pontas da mesa, um enorme gorila olhava aturdido aquele imenso desperdício de comida e achou ridículo que numa cidade com Flande, apenas um pequeno grupo pudesse se alimentar decentemente; no fundo agradeceu a gula dos burgueses, assim o povo flandino não teria força para contra-atacar.
Gumercindo era o mais glutão de todos. Entre uma coxa de frango e uma costeleta de porco, ia-se metade de uma taça de vinho.
A filha fingia se alimentar, ela dava uma garfada e logo pousava o prato.
A atual baronesa entornava taças e mais taças de vinho. Ela fazia cena.
— O que foi capitão Nipi, não gosta de alimentar-se?
— Desculpe barão, só não sei o que estamos comemorando.
A filha de Gumercindo se sentia enojada na presença de Nipi. Os mapinguaris não eram nada elegantes na sua concepção de estética.
—... Vai o deixar falar assim com o senhor papai?
— Perdoá-lo-ei.
O maior banqueiro da cidade ergueu a sua taça transbordando de vinho e fez uma gesta com os feitos de Nipi quando este sitiou a cidade com sucesso, derrotando a Guarda dos Cavaleiros Flandinos. Nipi sentiu o seu ego inflar.
Mais a vontade, ele pensou em pegar do porco assado e comer a sua carne suculenta. Mas ao cheirar a carne ele resolveu não comê-la.
— Estou em jejum, para fortalecer o meu espírito.
Gumercindo que desejava ardentemente que ele provasse do seu prato lançou mão de outra estratégia. Pegou um cálice e o encheu com vinho tinto.
— Está garrafa eu a reservei especialmente para o senhor, por acabar de uma vez por todas com os problemas dos rebeldes. Tome deste vinho e não irá querer beber outro.
Nipi de certa forma emocionado pegou do cálice e o ergueu até a altura dos olhos. E propositalmente derrubou a bebida encima do braço de uma donzela. Como se fosse ácido, o vinho provocou uma queimadura de terceiro grau.
— Angh! Meu braço queima, maldito, argh!
— Se bebesse desse vinho, me parece que não beberia mais nada neste mundo, não é?
Como não ouviu nenhuma resposta, o mapinguari se irritou e num momento de fúria derrubou a mesa e entornou o manjar.
— Quem acha que eu sou Gumercindo? Pensou em algum momento que eu não sabia que minha comida e bebida estavam envenenadas? Eu senti o cheiro de veneno logo quando entrei aqui. Pois bem, daqui a três dias eu farei a maior execução pública em toda a terra conhecida pelo homem e pelos deuses. Não, farei ainda melhor, depois de matar todos os dissidentes, eu matarei todos vocês.
Depois de proferir aquela horrível sentença de morte, Nipi saiu tilintando sua armadura.
Um dos guardas registrou a cena em sua mente. O mapinguari desconfiava de que os guardas humanos do palácio do barão se tratavam de espiões, mas agora ele teria a chance de provar sua teoria, precisava de apenas três dias.
A espera era para aumentar o terror, e se divertir com a ideia de uma série de delações realizadas para que alguns salvassem a própria pele.
Desceu os degraus e se dirigiu para sua carruagem. O condutor que nada mais era do que uma caveira chicoteou os flancos dos cavalos e a carruagem saiu em disparada.
— Pode aparecer Leona, eu sei que está ai, apareça imediatamente.
A alma de gato, no entanto não apareceu. O monstro continuou invisível por precaução.
— Desde quando você me dá ordens?
— Você pode se esconder de muitas pessoas, mas não de mim.
— Isso não significa nada, miau.
— Ao contrário minha cara alma de gato. Desde o dia em que você pisou suas patinhas felpudas aqui, não nos deu pista do esconderijo dos rebeldes.
— Vá ao...
Não completou a frase, Leona foi subitamente estrangulada. Apenas os olhos apareceram esbugalhados. Ele deslizou sua mão de dedos grosseiros pelo rosto dela.
— Não se atreva!
— Huhuhuhu, não se preocupe gatinha manhosa, você não faz o meu tipo.
Nipi abriu a janela e lançou Leona para fora da carruagem como se fosse um brinquedo.
Depois de fechar as janelas o mapinguari ajeitou suas ombreiras prateadas e respirou profundamente. Ele pediu ao condutor que o levasse diretamente a guarda municipal. O café da manhã não havia saído de sua cabeça.
O episódio de hoje havia sido uma afronta, e agora não podia mais suportar a ideia de conviver na mesma cidade que Gumercindo, achava-o asqueroso.
Mais do que antipatia, agora Gumercindo se tornara uma ameaça. Precisava neutralizá-la imediatamente. Nipi gozava de certo respeito entre os monstros pela sua posição.
Entretanto, toda a Horda sabia que ele não era um grande estrategista. Para conquistar Flande ele havia consumido grandes contingentes militares. Uma perda inaceitável para os Generais Atrozes, os comandantes supremos da Horda.
— Chegamos capitão Nipi.
Ele desceu da carruagem e se encaminhou para o centro da guarda. Mas ao invés de subir pelo edifício ele desceu uma escadaria nos fundos de um corredor escuro.
Duas caveiras escoltavam a porta de ferro. Quando foi aberta ela rangeu, movendo-se pesada. Nipi abriu passagem entre os monstros. As escadarias eram feitas de pedras escuras. Os passos correram íngremes até outra porta de ferro resguardada por uma caveira.
Após essa porta o que se seguiu foi um enorme calabouço. Celas e mais celas estavam abarrotadas de presos. Homens, mulheres e até crianças, os cavaleiros que não haviam sido mortos ou transferidos, tinham sido preso junto com seus familiares.
Muitas vezes os presos morriam no catre e só eram retirados dias depois.
Acendendo uma tocha, o mapinguari andou pelo corredor. O cheiro era fétido e o clima tinha um ar pesado. A armadura refletia o brilho amarelado das chamas.
— Veio assistir nossa miséria capitão Nipi?
Um dos cavaleiros numa postura de desafio pôs as mãos nas grades e esperou uma resposta. Nipi voltou-se e bafejou no rosto do espadachim.
Os olhos do monstro brilhavam com uma intensidade selvagem. O homem continuou a encarar o mapinguari, com olhos frios e neutros.
— Não que eu goste de ver essa imagem de desforra, mas gostaria de lhes dizer uma coisa muito interessante que veio a acontecer.
Uma mulher levantou-se trôpega do chão e cuspiu em Nipi.
— Não me diga que os rebeldes tomaram a cidade das suas mãos?
— Oh, não minha querida. Tanto eles como vocês irão participar de um novo evento na cidade. Irei executá-los em praça pública e para cada um que queira ser salvo, deverá entregar mais dois rebeldes, caso não pactuem conosco, morrerão.

Parte 3
O guarda deixou a mansão do Barão de Flande e com certo esforço venceu os vigias. As caveiras não tinham fama de serem muito prestativas.
O guarda da mansão se dirigiu até uma boca de lobo após se lançar sobre a abertura do bueiro, sumiu dentro da escuridão. O cheiro logo se fez sentir, acre e azedo a boca.
Seus olhos lacrimejaram por um instante. Depois ele ascendeu um lampião e seguiu rumo a um dos bunkers. Como os espadachins não conheciam da magia, os encontros tinham que ser feitos pessoalmente, isso colocava em risco as identidades dos espiões.
Nipi seu desgraçado, você já tirou tudo de nós, agora quer tirar a vida de quem amamos! Isso é imperdoável.
O guarda seguiu pelos corredores de pedra homogêneos até que viu uma resta de luz.
Ele apagou o seu lampião. Em redor de uma fogueira, uma dúzia de anciões deliberava sobre o futuro das ações da guerra em Flande.
Clapeyron tomou conhecimento da chegada sorrateira do guarda e pediu para que este sentasse. O guarda sentou-se e tomou uma caneca com hidromel.
Um dos anciões sorveu sua bebida e disse com determinação:
— Mestre Clapeyron, nós estamos acovardados há muito tempo. Nossas reservas diminuem a cada dia, bem como nossas forças. Eu peço uma votação para que decidamos de uma vez por todas a derrocada dos monstros.
— Caro Javier, nós ainda não podemos decidir se nosso informante ainda nem sequer teve direito a palavra. Por favor, diga-nos aquilo que precisamos saber.
Com os olhos esbugalhados e rosto pálido, o guarda tomou uma segunda caneca de hidromel. Limpou o bigode cheio de espuma e falou com voz aterradora:
— Nipi daqui a mais três dias matará todos os rebeldes presos em praça pública.
A única reação de Clapeyron foi cair sentado em sua almofada.
Ele já planejava atacar Nipi, mas não de súbito, esperava estudar mais o Monstronomicom de Tell e assim montar uma estratégia adequada.
Algo havia motivado Nipi a tomar aquela decisão, isso significava que havia algum conflito entre os monstros e o barão Gumercindo.
— Nipi não é tão burro ao ponto de inflamar a revolta na população, sabe que muito do que impede uma revolta ainda maior contra o governo dos monstros é que os prisioneiros de guerra ainda estão vivos. Uma promessa feita pelo próprio Gumercindo ao povo. Acredito que há conflito entre as duas forças em Flande, o que acham?
Todos começaram a falar ao mesmo tempo, o som foi ecoando como sussurros fantasmagóricos pelas paredes frias.
— ORDEM IRMÃOS, ORDEM.
Todos se voltaram para Clapeyron que aparentava uma seriedade nunca antes vista. Alisando sua barba lanosa, o velho espadachim chamou seus colegas à razão.
— Vejam como nós estamos; os monstros fazem o seu movimento e ao invés de tomarmos nossas decisões para impedir que percamos ainda mais vidas inocentes, ficamos aqui a dar volteios sobre como podemos fazer aquilo que temos de fazer. Só há uma coisa a se fazer. Vocês podem não acreditar, mas a solução dos nossos problemas passa pelo jovem Tell de Lisliboux...
— Como poderemos dar crédito a essas palavras se há dez anos Taala não dá notícias, o próprio já morreu, quem dera o seu neto.
Clapeyron se virou para o que ancião que acabara de falar e retrucou:
— Não podemos dizer que ele está morto, só desaparecido. Eu tenho o testemunho de cerca de sessenta homens e mulheres de que Tell é sim um Lisliboux...
— Mesmo que ele saiba operar o Monstronomicom deve ser fraco e ingênuo.
— Como dizia antes de ser interrompido, o garoto purificou sessenta monstros que se tornaram novamente humanos saudáveis aos olhos de todos, inclusive muitos eram cidadãos flandinos. Chegamos à conclusão de que primeiro: o Monstronomicom funciona; segundo: seu operador é Tell de Lisliboux; e por último ele é o nosso trunfo. Taala nos afirmou de que os monstros que surgiram nesta guerra são nada mais nada menos do que pessoas capturadas por Zarastu. A única maneira eficiente de derrotá-lo seria diminuir o seu exército potencialmente e assim garantir uma virada de mesa.
Os anciões começaram a debater acaloradamente de novo. Clapeyron tomou nova caneca de hidromel e esperou que os homens terminassem de discutir.
Nos olhos de alguns se via esperança, em outros se via estampado a melancolia.
Clapeyron não havia citado quantos humanos transformados em monstros tinham que morrer para que outros pudessem ser purificados da magia divina de Enug, e nem precisou, ninguém queria admitir arriscar perder alguém, entretanto, vê-lo transformado em monstro não diminuía a aflição de ninguém.
— Qual sua posição Clapeyron sobre o assunto?
Javier tinha os olhos fitos no mestre de armas. Clapeyron pôs a caneca de lado e disse:
— Esperamos tempo demais, está na hora de realizar o nosso intento. A partir de amanhã vamos treinar Tell de Lisliboux na arte da esgrima. Ao que me consta ele recebeu certo treinamento em artes mágicas. Poderá nos ser útil contra os monstros, além de ele ser o único com nível para operar o Monstronomicom. Ele estará na linha de frente custe o que custar. Deixarei Dumas cuidando de seu treino e enquanto isso eu e Saragat, colega de Tell, vamos cuidar dos preparativos para a deposição de Nipi.
— Isso não é arriscado demais mestre Clapeyron?
— Três dias é tempo insuficiente para treinar alguém em esgrima.
— Como alguém tão jovem pode ter tantas responsabilidades?
Um a um os flandinos falavam. Muitos com pesar na voz, outros com pessimismo.
O guarda levantou-se bruscamente e falou quase a gritar:
— Eu sei o que estão pensando, nossas chances são pequenas e estão nas mãos de outras pessoas, pois eu digo que uma pequena chance é melhor do que nenhuma. E se eu tiver que sacrificar a minha vida para que meus filhos não tenham que viver abaixo do céu junto com os monstros, então eu o farei. Eu estou com Clapeyron.
Um burburinho começou ao redor do círculo de anciões, todos agora demonstravam uma coragem desenfreada. Clapeyron fez um gesto com a cabeça para o guarda. Todos gritaram em uníssono:
— VAMOS ACABAR COM OS MONTROS!
Criaram um plano atendendo todas exigência da difícil missão.
Em meio à praça pública da cidade em frente ao palácio de Gumercindo, eles criariam uma distração. Os presos estariam lá e ajudariam após libertos, na luta contra os monstros. Os presos não conheciam o Monstronomicom. O efeito surpresa seria a garantia de vitória. Nipi com certeza estaria lá pra assistir junto com os aristocratas.
Clapeyron então decidiu quais seriam os próximos passos da empreitada. Após tudo acertado, todos saíram do recinto, só ele ficou admirando o lume do fogo.
É Clapeyron, você tinha tudo, era o mestre de armas mais famoso de Lashra, era o comandante da ordem militar mais poderosa da região, possuía uma linda família snif-snif, agora está aqui embaixo da terra como se fosse um rato snif.
As lágrimas rolavam pelo rosto e caíam na sua caneca. Dezenas de cenas desagradáveis vinham a sua mente num turbilhão de memórias.
O rosto de Jacs vinha a sua mente o todo tempo, sentia-se culpado de ter perdido o filho para a Horda. Ele não conseguiu fazer nada perante os monstros que o levaram.
Ele jogou a caneca na escuridão tentando afastar as memórias. O passado como um fantasma vinha todas as noites e o assombrava. O que o invocava era o hidromel.
Clapeyron com passos trôpegos caminhou pela escuridão do bunker, apagou a fogueira e seguiu rumo a sua tenda. A dor aguda no abdômen voltara a corroer-lhe a saúde. Ele precisava se recompor, pois pela manhã ele prepararia uma revolução.

Parte 4
Saindo do bosque, Tell encontrou um pequeno rio de águas cristalinas. Os peixes vez ou outra mergulhavam na superfície para capturar as libélulas.
— Droga!
Index estava pousado na cabeça de Tell como se fosse um enfeite. As águas do rio formavam pequenas ondas pela areia fofa da margem. Ele sentou-se.
— Snif-snif, eu não mereço o livro, eu sou fraco, snif-snif, meu avô sabia disso...
— Se ele confiou essa missão a você Tell, é porque ele acreditava em ti.
O garoto enxugou as lágrimas e virou-se para trás. Dumas estava de pé. Os braços estavam cruzados na altura do peito, mas ostentava um sorriso feliz.
Ele caminhou na direção dos dois e tomou uma pedrinha em sua mão.
— Nossos sentimentos não são diferentes dessa pedrinha...
Jogou-a formando pequenas ondas na superfície. No entanto, o lançamento foi para o alto. A pedrinha caiu pesada na água, afundando em poucos segundos.
— Se seus pensamentos forem negativos, provavelmente você afundará.
Ele tomou outra pedra do chão sob os olhares curiosos de Tell e Index.
— Agora veja, se seus sentimentos forem positivos, você chegará ao seu objetivo.
Mais uma vez a pedra foi jogada, mas dessa vez ela foi quicando na água e chegou até o outro lado. Dumas sentou-se ao lado dos dois.
Retirou as botas e pôs os pés na água. Pequenos peixinhos mordiscaram a sola dos seus pés.
— Tente também Tell, é muito relaxante.
Tell retirou os seus sapatos e deixou que os peixinhos fizessem o seu trabalho.
Index também tentou fazer o mesmo que os dois rapazes, só que um peixe maior viu suas patinhas na água e o confundiu com uma presa. Numa única mordida o peixe engoliu o guardião. Dumas e Tell se puseram a sorrir compulsivamente.
Enquanto Index se debatia com o peixe na água, o jovem nobre pôs a mão no ombro do garoto e disse:
— Entendo tudo que sente, mas se quiser reencontrar o seu avô Taala, deverá se tornar forte. Você já encontrou alguns dos Generais Atrozes, eles são perigosos, muito perigosos!
Enxugando as lágrimas do seu rosto, o garoto retirou a mão do seu ombro.
— Tell me tire daqui, esse peixe vai me... Glub-glub-glub
Dumas relaxou os braços e respirou profundamente. Tell continuou com seus olhos fixos na luta que acontecia na superfície, os peixes mordiscavam Index, quanto mais ele tentava se desvencilhar, mais peixes saltavam da água.
— Eu sei o que você está sentindo Tell...
— Será que sabe mesmo?
— Sim, eu também perdi os meus pais nessa guerra assim como você.
— Mas, mais eu poderei purificá-los se estiverem transformados em monstros, ou se estiverem refém nós poderemos resgatá-los ou...
— Infelizmente isso não será possível.
Tell virou-se para Dumas com os olhos esbugalhados. O espadachim catou mais uma pedra e a atirou no rio. A pedra quicou até o meio e afundou na água cristalina.
— Eu sinto muito Dumas, eu não... Desculpe.
— Não precisa se desculpar. Eu sei como é difícil estar sozinho no mundo, sem pai, mãe, nossos amigos se distanciando ou morrendo a cada dia.
Dumas não aguentando mais a pressão em si, ele revelou sua triste história a Tell.
Jacs e ele estudavam a esgrima como se nada mais lhes restasse nesse mundo.
Seu primo, filho de Clapeyron, desde cedo fora educado para salvaguardar o Baronato de Flande e a família de Dumas, que por sua vez eram os governantes.
Ambos viviam cercados por responsabilidades e afazeres, o jovem nobre deveria se preocupar em ser um bom aristocrata, embora considerasse essa vida cansativa.
Seu primo deveria suceder o pai na liderança da Guarda dos Cavaleiros Flandinos, uma das ordens militares mais prestigiadas do mundo.
Dumas percebia em Jacs um senso de liderança e instinto guerreiro maior que o do seu tio. Clapeyron até mesmo alertara o jovem para que não deixasse seus desejos se sobreporem as suas necessidades.
Jacs ironiza sua preocupação e fazia questão de desconversar quando tocado no assunto. Os dois cresceram inseparáveis ao longo dos anos.
— Ele deveria ser um espadachim incrível Dumas!
— Com certeza meu caro Tell.
O jovem nobre continuou a relatar o início de suas desventuras. No dia em que os monstros marcharam para a cidade, os já então cavaleiros flandinos, Jacs liderou um grupo de espadachins para lutar contra a Horda, o capitão Nipi confrontou-o sem sucesso.
Os flandinos ficaram confiantes na vitória, mas aos poucos os conflitos internos minaram as defesas do baronato até não restar nada mais do que intriga e discórdia.
Gumercindo traiu Flande e entregou a cidade de bandeja para que assim pudesse governar, sem nenhuma legitimidade é claro.
O Barão de Flande assim como em todos os lugares de Lashra, eram indicações de Sua Majestade Zarastu e aceitas ou não pelo povo. Os cidadãos decidiam no fim quem deveria ocupar a vaga, mas nesse caso, a vontade do povo foi jogada no lixo.
Gumercindo havia matado os seus pais, e não pudera fazer nada a não ser ver a cidade entregue aqueles horríveis e grotescos seres. Um contra-ataque foi formado, mas com a o desaparecimento de Jacs em batalha, a confiança do povo caiu.
O que restou aos flandinos foi se esconder na Cidade Subterrânea de Flande.
Lá ao menos estariam seguros e esperariam uma chance de retomar o que era deles.
Tell se levantou cerrando os punhos, seu corpo tremia, sua voz saiu como um rugido:
— Não adianta nada ficar aqui choramingando, eu tenho que fazer jus a escolha do meu avô, ele me deixou um legado que ninguém pode me tirar, a esperança.
— Sábias palavras Tell, do aço?
— Pelo aço!
— Index, venha até aqui, eu precisarei de você!
— TELL, DUMAS, SOCORRO, ME AJUDEM!
Dumas fechou os olhos estalando os lábios, ergueu-se e desembainhou o seu sabre.
Com as duas mãos ele o pôs encima da cabeça e concentrou-se o máximo que pôde ainda com os olhos fechados, Tell observou a postura de Dumas.
— Alizé.
Quando desceu a lâmina, as águas se dividiram por alguns instantes e assim permaneceram até que Index pôde fugir de seus algozes aquáticos.
Alguns peixes ficaram se debatendo no seco e Dumas pediu para que Index capturasse um deles, assim poderiam almoçar sem ter que voltar a Cidade Subterrânea.
Alegremente Index trouxe a sua presa, parecia feliz em ser o predador agora.
— Puxa esse foi um golpe e tanto!
— Você acha mesmo Tell?
Enquanto Dumas esfregava o nariz, o rio voltou ao normal e os peixes puderam novamente nadar na correnteza e sua marola ribeirinha. Eles caminharam de volta a clareira.
Tell estava curioso, o espadachim carregava os peixes nos ombros como se fosse um troféu. Index ia flutuando e girando suas orelhas, descrevendo espirais no ar.
Aquele golpe mesmo não sendo uma magia, conseguiu causar um efeito bastante destrutivo.
Um ataque tão forte quanto o Projétil de Luz, embora ela não fosse uma magia de grande dificuldade, se realizada corretamente, ela poderia causar grandes estragos.
— Dumas?
— Sim Tell.
— Como um espadachim consegue fazer tudo isso sem fazer uso da energia mágica?
A clareira já podia ser vista. Dumas para aumentar o interesse do garoto sobre o assunto pediu para que ele esperasse um pouco, prepararia o almoço e logo conversariam.
Tell e Index juntaram a madeira, o jovem nobre preparou o peixe e ascendeu o fogo batendo a lâmina do sabre num pedaço de pederneira.
Flush, a madeira começou a crepitar. Com um espeto, o peixe foi trespassado já sem as suas vísceras. Um pouco de sal foi jogado encima, enquanto ele dourava, Dumas contou ao jovem aprendiz como funcionavam a arte da esgrima.
— Diferente dos magos, um espadachim conta exclusivamente com seu arsenal de golpes e todos os efeitos da sua técnica estão relacionados com esses quatro vetores: força aplicada ao golpe, velocidade de execução do mesmo, inteligência estratégica e habilidades em geral. Por mais que um espadachim seja forte, ele não poderá derrotar um inimigo mais veloz, e mesmo que ele seja bom em estratégia, jamais conseguirá feri-lo se não dispuser de habilidades adequadas para realizá-la. Está entendendo tudo?
Tell balançou a sua cabeça embasbacado com o nível de dificuldade para assimilar as informações. O nobre continuou a falar assim:
— Se um espadachim conseguir preencher esses quatro requisitos, ele poderá derrotar qualquer um, seja ele monstro ou humano, mago, conjurador, não importa.
Index com os olhos esbugalhados secava o peixe que tentara devorá-lo agora a pouco.
Sem as escamas, sua pele azul-rosada era tostada no fogo intenso da fogueira, as orelhas estavam em pé, como se fosse um cão faminto esperando as sobras. Dumas o pegou pelas orelhas e o colocou no colo de Tell.
— Não, não amigo, espere um momento, ainda não ficou pronto.
O garoto mordiscou os lábios e fez uma pergunta que aos seus próprios ouvidos soou boba:
— Como posso aprender aquela técnica que usou agora a pouco?
Dumas sorriu, os olhos de Tell brilhavam mais intensos do que o fogo.
Ao menos ele está se esforçando.
— Como dito anteriormente, o espadachim precisa ter controle de suas técnicas. Vejamos, como posso lhe explicar...
— Ah, vai, sem rodeios Dumas.
— Tudo bem, tudo bem.
Dumas se levantou e pegou o seu sabre com as mãos, com um leve movimento, ele gerou uma corrente de ar que descabelou Tell e jogou Index no chão.
— Ei pare com isso, que brincadeira mais sem graça.
— Desculpe Index, esse inconveniente foi necessário para mostrar uma das minhas técnicas favoritas, a Alizé. Com ela, eu não preciso atacar o adversário diretamente. Com um movimento econômico de uma das minhas mãos, eu posso derrotá-lo sem muito esforço. Diferente do Coup de Foudre no qual eu uso da velocidade executando múltiplos ataques curta distância, a Alizé exige muito mais da minha força. Eu gero um deslocamento de ar que ultrapassa a velocidade do som.
— Mas isso é rápido demais!
— Ele deve estar contando vantagem Tell.
— Ela não é muito diferente do meu Projétil de Luz, só que nesse caso o problema não é a velocidade, é a minha mira que é ruim mesmo.
O garoto mostrou melancolia por alguns segundos, mas quando o peixe foi servido, um sorriso voltou a estampar o seu rosto novamente. Depois do almoço, eles deitaram-se no chão para descansar e fazer uma boa digestão, logo eles recomeçariam o treino.
Dumas deitou-se ao lado de Tell e Index formando um triângulo onde as arestas eram suas cabeças. O jovem nobre olhou para o céu e perguntou curioso:
— Tell, agora a pouco você disse que sua magia se parece com minha técnica, por quê?
Tell pensou um pouco, um feixe de sol caiu sobre sua testa vinda das copas de araucárias.
— Bem ela é uma técnica de longo alcance, eu a disparo na direção do inimigo, mas só consegui realizá-la uma única vez sobre pressão, quando confrontei Zarastu. Ela exige que o mago concentre uma grande quantidade de energia mágica, quanto maior a concentração de energia, maior a intensidade do golpe e sua velocidade. Infelizmente eu não consigo controlar o fluxo na hora do disparo e acabo errando o golpe...
— Espere, espere, espere o que você disse?
— Acabo errando o golpe pelo descontrole de energia?
— Não antes disso?
Index flutuou sobre Dumas com suas orelhas-asas batendo velozmente.
— Acho que sei aonde quer chegar, Dumas seu espertinho.
— O quê, aonde ele quer chegar?
Dumas ficou de pé, tomou a espada bastarda de treinamento e chamou Tell para o treino. O garoto levantou-se desconfiado, mas como Dumas sorria, ele relaxou.
O espadachim entregou a espada a Tell e explicou de modo muito prático:
— Sei como torná-lo um grande espadachim em três dias! Talvez até em menos tempo do que o que mestre Clapeyron estipulou. Você não poderá dominar uma nova técnica em tão pouco tempo, mas com esforço adaptará uma técnica que conhece.
E narrando passo a passo, Dumas explicou como Tell faria para aperfeiçoar o ataque.
— O quê, mas como vou fazer isso se nem consigo concentrar a energia direito?
— A espada servirá como um condutor entre você e sua energia mágica.
— Ainda não entendi aonde quer chegar.
Puxa, realmente ele ainda não entendeu!
— Veja bem, muitas vezes um elemento precisa de um condutor. Veja a água, ela pode ser encanada por uma série de dutos e ser escoada para uma cidade. A energia mágica também pode ser direcionada. A espada conduzirá a energia na hora do disparo e a chance de erro será mínima.
Dumas colocou a pesada espada na sua mão, a lâmina pesada pendeu balançando de um lado para o outro. Index voava feliz encima de ambos.
Tell olhou para a espada, soltou um sorriso e fez um tremendo esforço para erguer a lâmina. Dumas pareceu surpreso com a reação do garoto.
— DO AÇO, PELO AÇO!

Parte 5
Saragat e Clapeyron andavam pelos corredores subterrâneos de Flande. O velho tinha um lampião na mão, o conjurador caminhava com total ar de despreocupação.
Metros e mais metros eram vencidos com um monólogo de Clapeyron, Saragat dava respostas vagas e observações lacônicas.
Os pensamentos de Saragat estavam voltados todo que exclusivamente para Tell.
— Mestre Clapeyron, o senhor faz parte da mais curiosa ordem militar de Lashra, vocês são cavaleiros que não usam armaduras?
Clapeyron sorriu com a pergunta, e de modo ainda mais irônico respondeu:
— Quem precisa de proteção são nossos inimigos.
Saragat achou aquilo o cúmulo da autoconfiança. Mas não acreditava que havia algum tipo de proibição a cerca do uso de armaduras. Eles realmente preferiam o combate livre e honesto. Com o pouco que vira, já admirava as habilidades de esgrima flandina.
Clapeyron se virou enquanto andava, Saragat viu seus dentes brilharem na escuridão. Seu rosto expressava especulação, e quando a pergunta veio, abalou o conjurador.
— Agora ainda mais curioso Saragat, e isso não passou despercebido a um homem fervoroso como eu, os conjuradores de Nalab não costumam ser mulheres? Talvez isso tenha passado despercebido aos que já perderam sua fé nos Deuses Virtuosos e aos jovens que não conheceram os ritos religiosos como eu, mas é realmente curioso não?
— É uma longa história.
Tudo bem Saragat, todos nós temos nossos segredos escondidos.
A frente deles uma luz cortou a escuridão como se fosse um raio. A entrada ficava a alguns metros. Eles correram velozmente.
Eles podem estar sendo atacados, droga, logo aqui!
Clapeyron estava preocupado, sua maior angústia nos dias de guerra era perder as pessoas que amava uma a uma, perdera um filho e não admitia perder outro.
Quando o mestre de armas e o conjurador saíram entrada a fora, o cenário era o mesmo de um campo de batalha. Crateras e árvores ressequidas estavam tombadas no chão.
Se aquele local ficasse próximo de Flande, provavelmente eles já teriam sido atacados pelos agentes da Horda, a tensão continuou, pois uma coluna de poeira ascendeu aos céus.
De costas para eles, estava Dumas, Tell aos olhos de Saragat e Clapeyron, havia sido atacado. Eles se adiantaram e chegaram até o jovem espadachim de olhos esbugalhados.
— O que foi Dumas, foram atacados?
— Vimos o feixe de luz, quem fez isso?
— Foi o Tell.
Quando a coluna de poeira baixou, Tell estava de pé com a espada erguida. Ele virou-se e dezenas de árvores haviam sido derrubadas. Uma ranhura vertical na terra de mais de três metros fendia o solo limoso em duas partes iguais. Index sobrevoava a cratera.
— Novo recorde Tell.
Index com suas patinhas fez um sinal de ok e voltou a voar para perto dele. O garoto se virou e mostrou um sorriso contente no seu rosto sujo e suado. Pôs a espada nos ombros e deu um legal com a mão esquerda. Mas aos poucos seu corpo foi tombando.
A espada caiu de seu ombro, o guardião ainda tentou impedir a queda, mas o garoto veio a cair no chão desacordado. Dumas e os outros dois foram até lá ajudá-lo.
Dumas tomou Tell em seus braços e deu leves batidinhas em seu rosto.
— Tell acorde! Vamos lá, você conseguiu, não é hora de desmaiar.
— Vocês exigiram muito dele sabia, ele é só uma criança.
— Ele não é apenas uma criança, ele é especial, afinal de contas, é um Lisliboux, essa família provou ao longo da história que com esforço e dedicação podemos deixar um legado não importando se nossa origem é humilde.
Saragat olhou para Clapeyron e depois para a cratera, aos olhos do conjurador era difícil acreditar que o Lisliboux teria feito aquilo com poucas horas de treino, havia algo mais.
Ele virou-se para Dumas que ergueu Tell nos ombros e o carregou em direção a entrada do refúgio. Clapeyron, Saragat e Index seguiram-no.
— Como um jovem com um dia de treino consegue realizar uma técnica avançada de esgrima e ainda aplicar um efeito tão poderoso no golpe cabelo de macarrão?
— Meu nome não é cabelo de macarrão, seu mascarado leviano, isso só é possível porque eu o treinei! Hahaha.
Tirou todo o mérito do garoto seu esnobe.
— Ainda assim, era uma espada muito pesada pra ele, uma lâmina de ferro...
— Ferro não, chumbo.
Clapeyron falou aquilo como se fosse à coisa mais normal do mundo se empunhar uma lâmina de chumbo. Saragat estacou de repente.
Eles haviam dado uma lâmina de daquela para que o garoto treinasse e ainda assim ele conseguira empunhá-la e golpear!
O conjurador começou a refletir sobre o que Nalab tinha lhe dito na noite de sua fuga.
— Sei como você se sente Saragat, um garoto tão franzino levaria muito tempo para erguer aquela espada bastarda, nosso objetivo não era ensinar uma grande técnica a ele, nossos jovens demoram anos até que se consiga fazer algum movimento digno na esgrima, se sua velocidade aumentasse, ao menos estaríamos felizes com esse processo. Pois bem, adaptamos uma das minhas técnicas, ou melhor, fundimos uma técnica de esgrima e uma magia arcana de Tell.
Dumas então explicou o complexo processo de treinamento ao qual tinha submetido seu aluno. Tell usou de muito esforço no treinamento, usara energia física e mágica exaustivamente para conseguir um bom resultado.
Tell concentrava sua energia nas mãos, o que tornava a espada leve em suas mãos, e a redirecionava para a espada. Entretanto, o processo demora um pouco até que esteja completo. O fato da concentração de energia mágica diminuir o peso da lâmina foi um alívio e de certa forma foi pulada uma etapa.
Agora os treinos se concentrariam em aumentar a velocidade e aplicar a força corretamente. Mas isso seria feito pela manhã, agora só lhes restava uma noite de sono.


Biografia:
Comecou a escrever depois de um concurso em sala de aula. Dois anos depois ele publicou seu primeiro livro.
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