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Um reino de monstros Vol.1 - Capítulo 2
Caliel Alves dos Santos

Resumo:
Neste momento Tell e Saragat descobrem o que Flande esconde abaixo de seu subterrâneo.

Capítulo 2: A Cidade Subterrânea



Parte 1
Passada a rede de esgoto, para admiração de Tell e Saragat, eles chegaram até o que podia se passar por uma cidade.
A iluminação era feita a base de lampiões, o que concedia um clima sombrio e um tanto frio. Mas o odor forte do esgoto já havia passado. Centenas de pessoas estavam acam-padas. O acampamento rebelde estava concentrado num bolsão revestido de mármore.
— Esse é o nosso refúgio, a Cidade Subterrânea, ela foi construído na Primeira Grande Guerra para proteger os flandinos da Horda. Agora serve a esse propósito uma vez mais.
O espadachim retirou a mordaça de Saragat, e este aliviado sorveu o ar guloso.
— Tenho que reconhecer a inteligência dos flandinos, mas não é um pouco pequeno pra tanta gente?
— Não meu caro conjurador, este é apenas um dos vários bunkers que utilizamos.
Tell que estava muito agradecido resolveu demonstrar e disse:
— Eu gostaria de agradecer... Seu...
— Meu nome é Dumas, pode-me chamar apenas de Dumas, “o melhor espadachim do mundo”.
— Quanta humildade.
— Gostaria de me enfrentar numa peleja senhor conjurador?
— Quando eu me recuperar eu juro que te dou uma surra seu...
Bluongh... Esse som cortou a discussão como se fosse à faca na manteiga.
O estômago de Tell havia roncado tão alto que o som ecoou pela cúpula de mármore, suas bochechas ficaram vermelhas. Uma senhora trouxe um pedaço de pão para ele.
— Ah, obrigado senhora.
A velhinha sorriu e fez uma mesura. Tell olhou para Saragat e dividiu o pão no meio.
— Me parece que vocês já não têm muito, não tem problema dividir com estranhos?
O conjurador então evitou o pão, Tell virou-se para Dumas, que de modo elegante, ajei-tou as mangas de sua camisa branca.
— Com a quantidade de rebeldes aprisionados recentemente, nossas reservas são mais que suficientes, além do mais, sempre fomos amistosos, e um ditado popular diz que “Farinha pouca, pirão para todos”.
Como não havia mais o que ser explicado os dois agradeceram e comeram os pães.
Dumas os levou até uma fogueira. Um menestrel tocava alguns acordes alegres. Tell observou atrás das chamas um homem de sobrecasaca vermelha, ele tinha o cabelo gri-salho e enormes olheiras. Na sua cintura havia um sabre, ele tinha um porte distinto.
— Mestre Clapeyron.
—... Oh sim, perdão Dumas, espero que não tenha havido muitas baixas dessa vez.
— De maneira nenhuma mestre, nosso contingente aumentou em mais de sessenta entre homens e mulheres.
— Não é nenhum daquelas suas piadas é?
— Não. E as surpresas não acabam por ai, venha aqui Tell.
Tell meio que envergonhado se pôs diante de Clapeyron e foi analisado de cima a baixo.
— Um garoto comum não?
— Não se ele fosse o último dos Lisliboux.
Perdendo a indiferença, os olhos do velho brilharam com uma intensa alegria. Ele se levantou e com as luvas de seda branca alisou sua barba lanosa.
— Ver você é como ter um pouco do seu pai e do seu avô aqui presente sabia?
— O senhor os conheceu?
— Sim, seu pai Taran, sua mãe Crala, e o seu avô Taala. Como ele está?
Tell olhou para o chão e passou a apertar as alças da mochila, com olhos lacrimosos respondeu:
— Eu me perdi dele.
— Para você vir até aqui, significa que está em posse do Monstronomicom.
— Como sabe disso?
— O seu avô era um grande homem Tell de Lisliboux. Ele nasceu nessas terras sabia? Infelizmente sua habilidade com esgrima era horrível, e nunca conseguiu se tornar um membro da Guarda dos Cavaleiros Flandinos. Ele saiu para estudar a magia ainda muito jovem e aprimorar os seus talentos natos. Foi assim que se tornou discípulo do Mago Dourado. Você pisa o solo dos seus ancestrais.
O garoto abriu um sorriso e correu a abraçar o velho. Agora ele tinha entendido tudo afinal, o avô o tinha teleportado justamente para a cidade em que possuía aliados.
Clapeyron explicou que Taala mesmo a distância liderava a Resistência através de cartas. Ele por razões de segurança não havia contado em detalhes, mas dizia ter encontrado a solução para o problema do surgimento dos monstros.
Os líderes rebeldes conheciam a verdade sobre os ressurgimentos deles. E quando o motivo entrou nos ouvidos de Tell e Saragat ambos exclamaram:
— MENTIRA!
Mas era a pura verdade, o rei Zarastu, como único conjurador de Enug, o deus dos monstros, transformava humanos em monstros. Ninguém sabia qual o seu metódo.
— E vocês esconderam isso de nós o tempo todo, quer dizer que matamos amigos e irmãos?
— Não tivemos escolha Dumas, e enquanto a solução não estivesse em poder dos rebel-des, não poderíamos deixar que o Reino dos Monstros avançasse sobre nós.
Dumas estava irritado, mas decidiu não continuar a discussão. Tell tinha os queixos caídos. O velho pediu para que Tell narrasse suas desventuras.
Detalhadamente cada passo até chegar ali foi dito e para provar, Tell invocou Index.
— Então esse é o Guardião do Monstronomicom, Taala, você é mesmo um gênio.
Com o nome do avô, Tell lembrou uma dúvida que corroia sua mente desde a chegada.
— Senhor Clapeyron, acredita que o meu avô ainda está vivo?
O velho espadachim alisou sua barba que parecia uma lã de carneiro e ficou reticente.
Ele sabia o preço da decepção e não podia simplesmente dizer que o avô do garoto o esperava em algum lugar, além do mais, corria o risco dele ter virado um monstro.
Reconheceu, no entanto que o sentimento mais resistente de todos era a esperança, e mesmo quando o amor desiste, ela continua lutando para sobreviver.
Não quero colocar falsas expectativas... Mas também preciso ter fé.
— Ele usou uma magia complexa Tell, ele sacrificou determinado anos de vida para lhe mandar alguns anos no futuro. Pelo seu relato, já se passaram dez anos desde então. Não poderia dizer com toda certeza, mas acredito que ele possuía 65 anos de idade...
— Ele está vivo, eu sei disso.
Essas palavras foram suficientes para que o velho também acreditasse.
Espero que você também esteja filho...
Clapeyron pediu para que o menestrel tocasse uma balada, Tell e Saragat foram trazidos para o meio do refúgio e começou uma quadrilha com homens e mulheres.
Não é uma noite para lembranças tristes, é hora de festejar.
***
A balada havia terminado com muitas pessoas bêbedas, dormindo umas por cima das outras. Saragat levantou-se, Index estava bem abaixo dos seus pés, ele mirou um chute.
Parou, queria sair sem que ninguém percebesse. Tomou seu cajado e andou como se pisasse em ovos.
Tell ronronava, os lampiões iam se apagando, mas como um conjurador das sombras, ele enxergava melhor no escuro.
Continuou sua caminhada e refez todo o trajeto em sua mente, durante o percurso, ele tinha memorizado cada entrada, desvio e sabia de cor como sair daquele labirinto. Cui-dadosamente ele seguiu para a entrada e virou-se para trás.
— Adeus Tell.
— Adeus Tell?
Droga, eu fui pego!
Ele olhou para um lado e outro, viu apenas um vulto em meio às sombras do corredor.
— Quem está ai?
Num primeiro momento os cabelos cacheados lhe fizeram acreditar que se tratava de Dumas, mas o corpo foi se definindo ainda mais, depois a saia longa, branca fendida nos lados, um top tomara que caia de mesma cor terminava o escasso vestuário da visitante, lhe deu a certeza de quem era realmente.
— Desde quando você se despede de alguém Saragat?
— Nalab, o que faz aqui?
— Você é um conjurador muito mal sabia? Você nunca ora nem me agradece.
— Sabe muito bem que não me tornei conjurador porque quis...
— E se não fosse pelo meu poder, todos naquela vila inclusive você estariam mortos não é? Se continuar a me desobedecer...
A mulher de pele negra andou rebolando seu largo quadril na direção dele, a boca se abria num sorriso de dentes brancos, quase prateados. Sua pele tinha a mesma textura de uma noite estrelada, como se fosse feita de galáxias. Os olhos emitiam luzes diáfanas.
— Não fuja novamente de suas responsabilidades, como conjurador, é seu dever lutar pelos meus desígnios. Fique e ajude este garoto.
— Porque os deuses não lutam por seus próprios desígnios e nos deixam em paz.
— Nós criamos o mundo e tudo que nele habita. O que mais exigem de nós? Oh Tolo!
Assim como apareceu, Nalab sumiu entre as sombras. Saragat virou-se para o bunker.

Parte 2
Pela manhã Tell acordou bocejando, Index que lhe serviu de travesseiro saltou no ar, pôs um dedo na boca e assoprou. Em instantes ele estava com o formato ovular novamente. Após se levantar procurou Saragat, mas ele não estava lá.
Será que ele foi embora?
— Bom dia flor do dia!
Tell se virou, e lá estava Saragat, vestido a rigor, com capa e tudo. O garoto meneou a cabeça. Index voou em volta do conjurador, que o espantava como se fosse uma mosca.
— Você não tem outro modelito não?
— A capa me deixa mais elegante e a noite ela serve como lençol.
Plaft! Com um tapa, Saragat colocou Index para longe. Tell se pôs a rir.
Eles nunca param de brigar.
Uma mulher veio até eles e os convidou a tomar café da manhã junto com os outros. Eles atravessaram o acampamento e chegaram até uma mesa longa de carvalho.
Na ponta estava Clapeyron, Dumas sentava a sua direita, pareciam ser bastante íntimos.
Todos conversavam quando Tell e Saragat chegaram, como foi de súbito, ambos tiveram um mal estar. Clapeyron levantou-se com uma taça de hidromel na mão direita.
— Um brinde, aos nossos mais novos companheiros Tell e Saragat.
— Não se esqueçam de mim, eu também ajudei.
Index voou por toda a mesa orgulhoso de ser o centro das atenções.
— No que você ajudou sua bola de carne inútil?
Antes que Index fosse arremessado novamente, Tell o colocou em seus braços.
Os homens e mulheres a mesa gargalharam. Index não parecia um monstro, não fora criado com esse intuito, mas não deixava de causar estranhamento.
— Não precisava ter feito o brinde senhor Clapeyron, cumprimos o nosso dever.
— Sabem quem são estes que sentam conosco Tell de Lisliboux? Aqueles a quem você devolveu a humanidade.
Todos eles prestaram uma reverência, Tell respondeu timidamente.
Depois uma imagem voltou a sua cabeça, na batalha, quando a magia de purificação fora usada, alguns corpos não tinham voltado à forma humana, isso o deixou triste.
A vitória não compensava a ausência de seu avô. Clapeyron percebeu tudo isso.
— Tell, eu garanto que ficará tudo bem, mas acho que tudo isso deva tê-lo deixado con-fuso não é mesmo? Então eu vou explicar tudo.
Clapeyron se pôs a narrar com todos os olhos e ouvidos voltados para si.
Há dez anos, o mago Zarastu, que o mundo julgava desaparecido desde a morte do Ma-go Dourado, reapareceu para surpresa geral como um conjurador de monstros.
Diferente das habilidades desse guerreiro nos tempos de outrora, ele não apenas contro-lava e invocava os monstros, mas podia criá-los, pois na última guerra, eles entraram em extinção. Ao custo de muitas vidas, descobriu-se que os humanos que viviam sendo raptados eram transformados em monstros através de método ignorado.
Com o início da Segunda Grande Guerra, Taala deixou os campos de batalha e passou a atuar como o melhor estrategista dos rebeldes.
Taala passou a trabalhar numa maneira de derrotar os monstros sem perder os seres hu-manos transformados, assim reaveria a humanidade.
— Mas ele tinha que manter a minha segurança não é?
— Sim, foi por isso que o Monstronomicom demorou tanto tempo para ser usado, ele é o nosso trunfo.
— Então agora eu devo repassá-lo para vocês.
Tell pegou o livro, mas as mãos de Clapeyron rejeitaram o livro.
— Por que não, meu avô me fez vir até aqui...
— Infelizmente ninguém além de um mago pode usar o livro Tell, e nenhum de nós é usuário de magia. De acordo com seu avô, apenas um Lisliboux ou um mago de grande poder pode usar o livro. Ele pensou em tudo, principalmente na segurança do livro.
Saragat ficou um tanto feliz de saber que aquele livro não era responsabilidade dele.
E como se não tivesse nada a ver com a conversa, comeu o desjejum como se não tivesse visto uma mesa farta há muito tempo.
A conversa entrou numa pausa, o estômago de todos doía. E em poucos minutos nada mais restava à mesa.
Após terminarem, Tell, Saragat e Dumas foram convidados a entrar no alojamento de Clapeyron.
O garoto ainda tinha muitas perguntas a fazer, e nem todas mereciam plateia.
Depois de acomodados, Saragat analisou o ambiente, havia escassa mobília e um quadro com uma foto já amarelada. Embora mais jovens, lá estavam Clapeyron e Dumas.
Mas quem é esse outro?
— Curioso para saber quem eles são não é Tell? Esse sou eu, Dumas aqui... E...
— Jacs, o melhor espadachim, além de mim é claro.
— Não foi o que os resultados de graduação mostraram Dumas.
De acordo com Clapeyron, seu filho Dumas tinha um grande talento, mas o seu filho mais velho Jacs, esse era o que poderia ser considerado um gênio, daqueles que só nas-cem um em cada geração.
— Então você é só o segundo melhor.
— O pior dos nossos espadachins Saragat, comparado a você, ainda é o melhor.
— Ei espere, ele é seu filho, mas ele o chama de mestre!
Index tinha lançado uma boa pergunta. Saragat cruzou os braços esperando uma respos-ta. Clapeyron apenas sorriu de modo paternalista.
— Dumas na verdade é o meu sobrinho, seus pais morreram quando ele era mais jovem, e eu cuidei dele como se fosse seu pai, mas ele se recusa a me chamar de pai, não é filho?
Clapeyron espremia as bochechas de Dumas como se ele fosse um bebê, com um tapa, Dumas afastou a sua mão e saiu do aposento.
— Desculpem-no, ele não gosta de falar dos pais.
— E porque não?
— Seus pais sofreram nas mãos dos monstros por não aceitarem passar o controle da cidade para os monstros, havia um acordo de paz, que não foi cumprido. O barão e a baronesa foram depostos por Nipi, alguém que Dumas realmente odeia, e temo que ele não permita sua purificação. Todos os dias ele treina, acreditando que derrotará o ma-pinguari.
Tell acreditava que o comportamento de uma pessoa tinha muito mais a ver com seus sentimentos do que propriamente de suas escolhas.
Dumas retinha mágoa em seu coração e isso o fazia duro consigo mesmo.
Dumas, a ira destrói a razão.
Se houvesse oportunidade ele diria isso, mas tinha certeza de que não seria ouvido.
Index voou pelo lugar e se empoleirou nos ombros de Tell. O garoto expirou o ar, estava um tanto quente, diferente da noite em que quase congelou.
— Gostaria de um pouco de café?
— Ah, sim.
— Gostaria de perguntar uma coisa senhor Clapeyron.
— Me chame apenas de Clapeyron.
— Tudo bem então, conheceu os meus pais?
— Oh! Sim, eles eram formidáveis no campo de batalha, lutando com uma sincronia muito difícil para um casal. Vê-los lutando era como ver um show, as magias, os golpes e as armas pareciam mais uma dança do que uma luta. Inclusive seu pai Taran se parecia muito com Taala, era muito divertido, mas já você, se parece mais com sua mãe, tem a mesma sensibilidade dela. Eu os vi ainda numa batalha, hoje eles estão desaparecidos em combate, o que não significa mortos em combate...
Não há como negar que você é filho deles Tell, essa pele negra, esses cabelos cacheados, esses lábios grossos, assim como o seu avô e seu pai, sim, um grande Lisliboux.
Tell vagueou o olhar e o voltou para o chão. Saragat lançou um olhar congelante para Clapeyron que se calou.
O garoto então voltou a sorrir, afinal de contas, o velho espadachim tinha razão. Seu avô poderia estar vivo com seus pais em algum lugar.
Perder alguém é sempre doloroso, mas a possibilidade de encontrá-la já é motivo sufici-ente para estampar um sorriso.
— Até agora me pergunto como essa cidade foi entregue se aqui há os melhores espa-dachins do mundo! Estamos em Flande gente, aqui eles vivem “do aço, pelo aço”.
— Sim este é o lema da Guarda dos Cavaleiros Flandinos. Do aço, pelo aço! É assim que se diz. Houve uma traição, os humanos que vocês viram na superfície não passam de fantoches. Mas não os culpo, o medo inverte as coisas. Entretanto, a alguém que não escapará da minha justiça, ele se chama Gumercindo.
Gumercindo, o “horrível vilão”.
Saragat só não riu porque a situação já era trágica demais.
Gumercindo não era nenhum cavaleiro, era um burguês mal intencionado que desejava tomar o Baronato de Flande, não tendo prestígio nem força militar, fez um pacto com a Horda. Ele enfraqueceria as defesas internas diplomaticamente e em troca a Horda o faria Barão de Flande, mesmo sem ter nenhum poder político.
Isso era imperdoável por vários motivos, o povo vivia agora acorrentado ao medo.
Como um déspota ele controlava a cidade de Flande com mãos de ferro, e todos que o desobedeciam iam parar na prisão da cidade, e sabe-se lá que tipo de coisa ocorria lá!
Saragat refletiu sobre quem eram os verdadeiros monstros da situação, a Horda ou os humanos que entregaram seus semelhantes para os monstros.
Era como perguntar quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?
— Tell, você é o portador deste livro e da esperança de todos nós.
— Ele já entendeu coroa...
Clapeyron lançou um olhar mortal para Saragat que logo calou a boca.
— Tell, disse ontem à noite que o seu treinamento nas artes mágicas está incompleto, não sabemos magia, mas Taala me disse que tem um grande potencial para as armas.
— Bem, acredito que meu avô supervalorizou as minhas habilidades.
Plaft! Clapeyron bateu no ombro de Tell.
— Ora não diga isso, se eu pude ensinar até mesmo o meu irmão mais velho, a não ser que você esteja duvidando de minhas capacidades pedagógicas...
O garoto alisava o ombro que havia levado o tapa, doía e estava vermelho.
— Não de maneira nenhuma.
— Então a partir de agora começaremos o seu treinamento em armas, não é a toa que eu sou chamado de o melhor mestre de armas de Flande.
— Atualmente você deve ser o único mestre de armas.
Numa rápida investida, o sabre de Clapeyron estava abaixo do queixo de Saragat, pres-sionando a sua garganta.
— Até que não estou tão velho assim não é conjurador?
— Eu já entendi, agora abaixe isso, eu posso me machucar.
Tell percebeu que aquele movimento tinha sido o mesmo que Dumas havia usado para derrotar as caveiras no beco.
— Agora vamos repassar a descrição dos monstros que você viu lutando contra o seu avô.
— Bem, na casa do meu avô havia um bradador com um piercing no nariz e um cabelo estranho, só havia cabelo no topo da cabeça, como se fosse uma crista de galo sabe? O outro, vejamos, era um gorjala, um gigante escuro, ele usava uma saia quadriculada vermelha e azul. O último era um lobisomem e se chamava Sirius.
— Não me lembro dos outros dois, mas Sirius é um dos Generais Atrozes, os mais fortes entre os membros da Horda. Seu treinamento tem que começar já, eu e Dumas vamos ajudá-lo, só preciso saber para onde ele foi?

Parte 3
O Barão de Flande estava na mesa tomando o café da manhã quando um mensageiro trouxe um pergaminho.
— Estou fazendo o meu desjejum, será possível que aquele macaco dos infernos não pode me deixar em paz?
A baronesa e sua filha estavam fazendo companhia, elas olharam uma para outra.
— Deve ser assunto político meu bem, não fica bem tratá-lo a mesa.
— Mas não foi o que eu disse a esse paspalho.
Ele abriu o pergaminho com rudeza e ele o leu, depois o releu e treleu até que a caveira ficou impaciente.
— Então, que resposta eu devo dar a Guarda Municipal de Monstros?
— A darei pessoalmente. Agora vá, vá.
A caveira revirou os olhos e seguiu até a porta onde um grupo de soldados humanos lhe escoltou.
Diferente de muitos “colaboradores do Reino dos Monstros”, Gumercindo não confiava nos monstros. E por meio de ameaças, conseguiu que alguns cavaleiros fizessem esse papel. Verdade é que todos, exceto os que eram favorecidos por ele o odiavam.
Chegara ao trono do baronato por meios duvidosos. Como um dos mais fiéis súditos de Zarastu, ele instituiu decretos e altos impostos para os humanos.
Com sua ganância ele tinha colocado 90% dos flandinos abaixo da linha da pobreza.
— Oh, como eu odeio o capitão Nipi, sempre estraga os meus desjejuns.
— Querido, não o desafie, sabe muito bem como aquele gorila é perigoso.
— Quando tiver oportunidade, eu mesmo serei o chefe da Guarda Municipal de Mons-tros.
A mulher arqueou as sobrancelhas, como o marido estava apressado, ela não o deteve.
Ele foi escoltado pelo mesmo grupo, aqueles cavaleiros flandinos não eram nada mais nada menos do que o remanescente que não estavam com os rebeldes e que não estavam mortos. Através de chantagem, eles decidiram proteger o Barão de Flande.
A filha vestida com um rico vestido adornado de pedrarias continuou a comer. E como aquela invasão lhe tirou o apetite, ela jogou todo o prato fora.
Quando muitos não tinham o que comer, ela desperdiçava não à-toa vivia magricela. Seu medo de engordar era maior do que o medo da guerra.
Antes de sair o barão voltou seus olhos para trás, tinha tudo o que queria, mas o verme da ganância em seu coração não estava saciado, então ele soltou uma maldição e saiu.
— Tragam uma sacola de maçãs, não as boas, aquelas que já estão apodrecendo e pe-guem a sege de quatro cavalos.
Se não fosse com pompa, ele não saia. A carruagem tinha uma abertura no teto que o possibilitava jogar as maçãs.
Não fazia isso por misericórdia, ele se divertia ao ver dezenas de pessoas famintas e esfarrapadas brigando violentamente por uma maçã apodrecida, era o seu deleite.
No pátio, quatro alazões estavam atrelados a uma fina carruagem.
O teto solar havia sido invenção do irmão mais velho de Clapeyron, ele costumava ace-nar para o povo enquanto saia pelas ruas.
Ele adentrou na sege e o condutor deu uma chibatada nas ancas dos cavalos.
O portão foi aberto e segui-se um galope veloz.
Do portão pra fora o que se viu foi uma cidade praticamente morta, mendigos e pilhas de lixos se amontoavam pelas ruas em contraste com os burgueses.
Devo baixar um decreto para tirar essas pessoas das ruas e praças principais, elas fe-dem e deixam a cidade feia.
— Para onde devo levá-lo Vossa Alteza?
— Para a sede da Guarda Municipal de Monstros.
Gumercindo ajeitou sua barriga saliente e forçando suas perninhas, subiu pela entrada no teto com a sacola de maçãs nas mãos.
— Comam maçãs, tomem seus mortos de fome, os porcos devem comer huahuahua.
O condutor sentiu uma vergonha alheia, trabalhava num regime de semiescravidão em troca de comida e abrigo.
Ele olhou para todos a sua volta e viu registrado em cada olhar um brilho de inveja, ou-tros de ódio. O condutor virou o rosto e focou na estrada.
Uma das maçãs atingiu o rosto de uma criança, ela se colocou em posição fetal e chorou. Gumercindo riu tanto que começou a babar como se fosse um cão sarnento.
E como os pobres flandinos não tinham mais força para brigar pela comida, para que continuasse a se divertir, fez tiro ao alvo usando as maçãs apodrecidas.
— Huahuahua, você deveria tentar condutor, veja como eu os acerto.
E para cada maçã que explodia no corpo de alguém, uma nova gargalhada se fazia ouvir. E assim foi todo o trajeto, até que as maçãs acabaram.
— Huahuahua, essa foi à viagem em que mais me diverti, foi muito bom, muito bom.
— Chegamos Vossa Alteza.
Gumercindo ainda sorria quando dois olhos flutuaram do chão para o ar.
— Oh não, se afaste de mim.
Dois lábios apareceram sorridentes, as presas estavam amostra.
— Pobre menino rico, de tão pobre só tem dinheiro.
Durante todo o trajeto, Leona estava perto dele, ninguém poderia perceber, pois ela ti-nha uma incrível magia: a invisibilidade.
Essa magia de extrema dificuldade era dominada por ela facilmente. Embora a domi-nasse a perfeição, Leona não conseguia adentrar nas passagens secretas dos rebeldes, porque se assim fizesse, logo sua forma visível era denunciada.
— Leona.
— Para você é capitã do Batalhão Espectral seu grande idiota.
Saindo da forma invisível, ela se mostrou ainda mais feroz, mas não o atacou.
Ela estava irritada com Gumercindo, não que ela se importasse com o mau tratamento dado aos humanos, mas sim por acreditar que o direito de torturá-los era só dos mons-tros. Para Leona, alguns seres humanos tinham atitudes mais monstruosas que eles.
— Desça dessa carruagem, o capitão Nipi deseja vê-lo.
— A senhora poderia me adiantar o assunto?
— Isso não é problema meu e não fui eu que o chamei aqui, que fique bem claro.
E antes que Gumercindo desse uma resposta ela desapareceu.
O barão tremeu dos pés a cabeça. Mesmo com passos trôpegos ele continuou a caminhar, duas caveiras estavam de guarda, e quando o barão se aproximou elas fizeram uma reverência, o problema é que as lanças que portavam deceparam a cabeça uma da outra.
Gumercindo abanou a cabeça com ar de decepção, os corpos das caveiras começaram a se debater como se fossem baratas tontas.
Adentrou a porta da sede da extinta Guarda dos Cavaleiros Flandinos, o lema que havia numa xilogravura em carvalho, agora tinha escrito: Sobre domínio do rei Zarastu.
Ele seguiu pela recepção de cabeça baixa, algumas caveiras iam de um lado para o outro bafejando a morte entre suas mandíbulas.
— Onde está o capitão Nipi?
— Como vou saber humano idiota?
Mas idiota é responder com outra pergunta.
Não ousou dizer seus pensamentos em voz alta. Não queria passar uma noite nos cala-bouços da guarda municipal.
Além da sede do Exército local, o lugar também funcionava como uma área de treina-mento para novos membros e portava em seus calabouços muitas celas.
Se antes as celas eram usadas por ladrões e baderneiros, agora serviam para acomodar os rebeldes que durante dia sim dia não sofriam horríveis torturas nas mãos de Nipi.
Ele subiu pela escada em espiral. Na parede diversos quadros de Nipi estavam pendura-dos. Muitos como se ele fosse o próprio Barão de Flande, aquela briga de egos entre os dois fazia com que o próprio domínio da cidade estivesse em risco.
Gumercindo o achava confiante demais e um tanto presunçoso. Nipi não via nenhum perigo em Gumercindo e mal sabia da aproximação do mesmo com o rei.
Se ele assim soubesse, com certeza já o teria colocado em alguma das suas máquinas de tortura.
Chegou até o segundo andar, uma caveira andava pra lá e pra cá com lança em riste.
Gumercindo se aproximou sorrateiramente e percebendo a distração do monstro indagou com severidade:
— O capitão Nipi se encontra?
— Quem vem lá?
— O Barão de Flande seu idiota.
— Perdão Vossa Alteza...
Com rispidez, Gumercindo abriu passagem pela porta.
Dentro da sala estava Nipi, sem sua armadura, usava um robe marrom e uma caveira com uma toca na cabeça, vestida de empregada polia sua armadura. Outra aparava suas unhas e uma terceira limpava o escritório.
Havia papéis e tinta esparramada na mesa, livros abertos e o capacete jogado de lado.
Aguçando os olhos, Gumercindo notou que não havia pêlos na barriga do mapinguari.
Então é por isso que usa essa armadura não é?
Todos que combatem monstros sabem que cada um deles tem determinada fraqueza, a dos mapinguaris se concentrava no ventre, pois seus pêlos rijos como fios de aço não nascem ali.
Para se livrar desse ponto fraco, Nipi usava uma pesada armadura. Mas essas informa-ções de nada valiam se você não pudesse derrotá-lo num único ataque. As chances de um contra-ataque eram perturbadoras demais para serem pensadas.
Nipi percebendo a invasão do barão fez um gesto dispensando as caveiras.
— Vossa Alteza tanto demorou que quase me esqueci de que existia.
— Vossa Excelência é tão vaidoso ao ponto de esquecer que os outros existem...
Nipi saltou encima de Gumercindo torcendo o seu pescoço. O rosto do homem arroxeou e ficou rapidamente inchado, não contente com isso, Nipi o levou até a janela. Do lado de fora, o vento sacudiu as vestes do barão, sua peruca branca foi levada pelo vento.
Enquanto isso as caveiras treinavam no pátio da guarda.
Depois de se divertir bastante, Nipi o colocou para dentro o jogando no chão.
O corpo rechonchudo foi embolando até parar na parede. Gumercindo apalpou a gar-ganta, parecia que seus órgãos haviam desprendido de dentro de seu corpo.
— Levante-se, ainda não terminei com você.
Se eu tivesse um punhal, eu é que estaria rindo agora seu selvagem, mas deixe estar, quem ri por último rir melhor.
— Um mensageiro me trouxe um pergaminho pedindo para que eu viesse, mas não achei que fosse para me matar, bluf...
— Jamais faria isso deliberadamente, sei que goza dos privilégios do meu rei, mas isso não significa que sua posição de subalterno tenha mudado.
Os olhos de Gumercindo queimavam de ódio. Por um momento ele desconfiou que seus planos houvessem sido descobertos. Mas analisando melhor, não dava pra saber.
Nipi pulou pela sala até chegar a Gumercindo fazendo-o voltar a ficar de pé pela força.
O barão com as pernas tremendo, ficou ereto, mas por dentro morria de medo, sentia-se um boneco nas mãos daquele enorme gorila.
— Olhe para estes punhos meu caro barão, com minha magia Poaçú eu posso destruir qualquer coisa com um simples toque, posso lutar por horas e horas sem perder a minha força, além disso, eu sou um conjurador de Enug, minha magia provém da fé que depo-sito nele e não da minha energia mágica. Não ouse me desafiar outra vez ouviu!
— Sim capitão Nipi.
— Sente-se antes que eu me arrependa.
Nipi foi até a sua mesa e sentou usando um dos pés para coçar a sua barriga rosada.
Gumercindo teve náuseas. Evitando olhar para aquela cena que julgava deplorável, fez a pergunta que Nipi esperava.
— Em que posso ajudar o chefe da guarda municipal?
Nipi soltou uma estridente risada de escárnio. Ver a humilhação de um ser humano para ele era equivalente a assistir uma peça de comédia.
— Repita a primeira parte, por favor.
— Em que posso ajudar...
— Huhuhuhuhuhuhuhuhuhuhu, você não passa de uma piada barãozinho de quinta. Olhe para si mesmo, mais parece um peru de ceia do que um nobre. Metade da deca-dência dessa cidade é por sua avareza, a outra é pela sua incompetência, huhuhuhuhuhu.
Gumercindo engoliu todas as ofensas, e no fim daquele saboreio amargo ele soltou um doce sorriso que fez Nipi se calar de imediato.
— O que foi?
— De acordo com minhas informações, ontem à tarde você foi encurralado por um gru-po de rebeldes, com todo respeito a Vossa Excelência, mas acredita estar apto a res-guardar esta cidade? Não estaria na hora de nosso rei no-lo substituir?
Nipi apertou seus punhos e bateu na mesa fazendo grotescos sons simiescos. Os dois ficaram se encarando.
— A Resistência só consegue atuar porque as suas políticas de combate aos rebeldes foram ineficazes seu burguês imbecil. Nosso rei errou por colocar um simples homem fazer o trabalho de um monstro.
— Agora você desafia até o próprio rei! Você é que foi incompetente, evitou derramar sangue e quebrar ossos para não perder seus brinquedinhos não é Nipi?
Nipi urrou ainda mais, desarrumou o escritório todo de novo e jogo a mesa pela janela, matando assim mais algumas caveiras lá embaixo.
— Então está bem, a partir de segunda-feira, para cada um que tivermos preso, nós exi-giremos a entrega de outro rebelde. Caso a população flandina não nos entregue, vamos executar todos os presos em praça pública, um por um.
— Faça como quiser capitão.
— Saia daqui seu humano nojento.
Gumercindo saiu com um sorriso de orelha a orelha. Não havia conseguido apenas tirar Nipi do sério, pôs também uma grande preocupação em sua cabeça.
O que ele mais temia era perder o poder. O barão desceu as escadas rapidamente com as pernas curtas e roliças e chegou à sege estacionada na frente da guarda.
Sem demora ele entrou e pediu ao condutor que o levasse novamente para sua mansão.
O condutor não ousou perguntar, mas ao que tudo indicava, o barão havia sofrido um escalpo.
Gumercindo resmungava dentro do coche. Em outra oportunidade levaria um afiado punhal e derramaria os intestinos de Nipi pelo chão.

Parte 5
Havia naquele rapaz um misto de jovialidade e melancolia.
Embora sempre mostrasse um sorriso gentil, qualquer um podia perceber que a morte dos seus pais ainda provocava sofrimento.
Ele andava com a cabeça erguida e o coração subjugado pela dor. Durante suas cami-nhadas diárias, ele relembrava tudo o que tinha vivido antes da guerra.
Cada lembrança equivale a toda uma vida. E lá estava o tipo de vida que ele não conhe-cia. Viver escondido nos esgotos de Flande como se fosse um ratinho acuado.
Tudo vai mudar, agora temos o garoto e o livro, prepare-se Nipi e você Gumercindo.
— Bom dia Vossa Alteza.
— Bom dia madame Jessica.
Para cada um que passava por ele, lhe prestava um grande respeito.
Quando era mais jovem a nobre criança não entendia o motivo de tantas pessoas lhe prestarem reverência e a importância de sua posição.
Ele era o sucessor do Barão de Flande, diferente de muitos outros jovens de sua extirpe, ele não abusava de sua posição. Preferia as cavalgadas e a falcoaria aos bailes.
Embora adorasse a esgrima, preferia não usá-la para ferir pessoas, e sonhava num dia em que a esgrima pudesse servir apenas como esporte e não como força bélica.
Mas quando a Segunda Grande Guerra estourou, todos os sonhos dos jovens morreram com a esperança de uma nova era.
Os monstros; estás formas de vidas desprezíveis foram criadas pelo perverso deus Enug para desequilibrar a criação dos Deuses Virtuosos, e não a toa ele liderou os Deuses Profanos.
Dumas tentou não pensar em que tipo de intento um deus profano tinha em seu coração e sua mente. Mas os monstros constituíam um bem ruim.
Se os Deuses Virtuosos criaram os humanos e a natureza, os Deuses Profanos criaram os monstros e a destruição.
Pouco era conhecido desses embates divinos entre os deuses, mas ele sabia que havia grandes consequências para os seres humanos em toda a Terra.
Dumas andava tão distraído que esbarrou num tabuleiro de maçãs, como era vendido, ele não podia simplesmente pegá-las e ir embora, ele a tomou na mão. O homem logo se levantou e disse:
— Gostaria de uma maçã Vossa Alteza? Pegue-a.
— Obrigado bom senhor Gustavo.
Mas ele depositou a mação de volta, o homem ainda rogou para que ele a levasse, mas ele não levou nenhuma.
Havia fome em seu corpo, mas não a fome que uma maçã pudesse saciar.
Sua fome era de liberdade. Gostaria de uma vez mais cavalgar pelos campos de Flande, sentir a brisa no rosto e ir até os córregos da região, pôr os pés na água corrente...
Enfim, viver como um ser humano novamente. Não gostava de demonstrar sua insatis-fação, mas odiava viver como um rato naquele esgoto.
Sua vaidade também negava aquela vida, seu corpo a rejeitava como um todo.
Ele continuou a andar, sem destino, pelos corredores de pedra fria e água malcheirosa.
Pegou o sabre e investiu contra o ar, e a cada passo ele estocava, cortava e brandia-o.
As coisas haviam mudado, ele não sentia falta do luxo, da riqueza e das valsas, isso era coisa que só gente como Nipi ou Gumercindo davam importância, ele sentia falta de respirar, sentir-se livre.
— Bom dia Vossa Alteza, como está Vossa Alteza, oh sim eu estou bem senhora, um belo dia senhor, Unfh!
As ratazanas ao ouvir as espadadas pulavam na água e sumiam na escuridão salobra.
Como memorizara a planta da Cidade Subterrânea, ele não necessitava nem de guia nem de uma lamparina. Guiava-se mais pelo instinto do que por qualquer outra coisa.
Gumercindo seu maldito, vou enfiar este sabre bem no meio do seu coração.
— Hahahaha, como diria mestre Clapeyron, o ódio faz pesar o aço.
Pondo o sabre na bainha, ele seguiu a passos lentos e controlados. Alguns passos a di-reita ele dobrava, alguns a esquerda ele descia, mais a frente subia a direita.
A Cidade Subterrânea fora criada no centro, logo abaixo da praça principal, mas para os desavisados, ele não seguia num simples zig zag, mas também descidas e subidas.
O centro consistia num bolsão revestido com uma espécie de pedra que tinha uma gran-de propriedade mágica: só permitia a entrada no recinto de convidados. Essa era um dos motivos pelos quais Leona não podia entrar no refúgio.
Não importava qual o poder do invasor ou suas habilidades, só entrava quem fosse per-mitido pelos seus moradores.
A cidade de Flande havia sido fundada por um casal de magos, que para proteger a ci-dade, sacrificaram toda sua energia mágica para criar a Cidade Subterrânea.
Em todas as partes da cidade havia uma entrada e uma saída para fuga e assaltos rápi-dos. A que Dumas usava dava para um córrego, o qual ele adorava.
Ele retirou as botas, estava por volta das oito da manhã. Caminhou descalço pela grama, o ar frio do bosque lhe trouxe lembranças já esquecidas.
Aquela parte era tão longe da cidade que a Horda não conhecia.
Dumas retirou sua lâmina da bainha e a fincou no chão. Depois desabotoou o colete e a camisa também, abriu os braços e cumprimentou a natureza.
Continua tudo indo como sempre...
— Por favor, pare com o strip-tease.
Dumas virou-se com cara de poucos amigos. Atrás dele estavam Tell com Index na ca-beça, Saragat e Clapeyron com os braços cruzados.
— Quantas vezes eu já lhe disse que um cavaleiro não se separa de sua espada Dumas?
— Com essa é a milésima.
Dumas olhou para si mesmo e depois olhou para as roupas de Saragat e disse:
— Você não sente calor com essa mortalha não?
— Não, a luz é boa, mas em excesso ofusca.
Dumas girou os olhos.
Um conjurador fotofóbico.
— O que desejam de mim?
— Dumas, nós vamos treinar Tell. Do aço, pelo aço!
Dumas tomou o seu sabre, ele e Clapeyron cruzaram as lâminas.
— Do aço, pelo aço! Meu caro Tell.


Biografia:
Comecou a escrever depois de um concurso em sala de aula. Dois anos depois ele publicou seu primeiro livro.
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