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Nossa Promessa
Manoella S. Martins

Resumo:
Éramos crianças, crianças inocentes e ingênuas. Acreditávamos nos contos de fadas que liamos nos livros velhos que eram doados ao orfanato. Naquela época estávamos apenas buscando amparo no lugar mais reconfortante possível, na nossa imaginação. Eu sabia que nenhuma daquelas coisas existia, mas eu queria acreditar que elas existiam e com ele - pelo menos naquele espaço de tempo que estávamos juntos - parecia possível, tudo era possível se ele estivesse comigo. No fim das contas, éramos como os meninos perdidos. Sem lar e sem família.

O velho chão de madeira da casa rangia em um som infernal, era como um aviso que ele tinha chegado. Nathan não sabia o que era silêncio, não sabia o que era se comportar e muito menos o que era ficar quieto. Na época, apesar de gostar de silêncio, eu não me irritava ou me sentia incomodada com isso, na verdade eu achava engraçado e muitas vezes observava com um sorriso no rosto. Porém as freiras, que cuidavam de nós no orfanato não achavam essas atitudes engraçadas e muito menos adoráveis. Muitas vezes elas nos colocavam para encarar a parede por não cumprir alguma ordem, foram tantas vezes que, em certo ponto, eu perdi a conta. Naquela época e até hoje, eu não sei por que elas me colocavam para "vigiar" ele enquanto o mesmo encarava a parede. Talvez por eu ser mais quieta e tranquila, completamente o oposto dele. Eu tinha o costume de levar alguns livros empoeirados de contos de fadas para ler, uma vez ou outra levantava a cabeça para ver se ele ainda estava olhando para a parede. Lembro de sempre rir quando percebia que ele não estava mais encarado a parede velha e caindo aos pedaços do orfanato, simplesmente ignorando o castigo.

Em uma dessas vezes, em uma primavera, lembro dele ter ficado novamente de castigo e uma das freiras ter ido me chamar no sótão. O sótão era o único cômodo que se podia ter um pouco de paz naquele lugar, apesar de ser todo empoeirado e a lâmpada que deveria iluminar o local estar queimada, era agradável. Pela janela eu via as outras crianças brincando e se divertindo até uma das freiras chamar elas para entrar para o jantar. Enquanto a irmã - como elas gostavam que as chamassem - me levava para o local do castigo, me explicava as mesmas regras infernais, o que é bem irônico, de sempre. -Sem falar com ele, Sofia. Isso é um castigo, portanto, sem dar atenção. Ela estava falando mais um monte de regras chatas que, como na maioria das vezes, não me dei o trabalho de prestar atenção. Quando entramos na sala a porta fez um rangido tão alto que por poucos segundos achei que a mesma fosse cair, o que não aconteceu. A freira saiu e me deixou sozinha com ele, me sentei com as pernas cruzadas em cima de um banco que tinha ali e abri o livro para começar a ler.

-Sofia...- ouvi Nathan me chamando, me tirando a atenção do pequeno livro de contos infantis - Você poderia ler em voz alta?Não consegui conter o sorriso, aquela era a primeira vez que Nathan me dirigia a palavra e a primeira vez que alguém me pedia para ler em voz alta. Com certeza me lembrava das regras, mas não é como se eu me importasse muito com elas.

Nathan nunca tinha falado comigo, mesmo com todos os anos que morávamos lá. Nós morávamos lá desde...bem, desde que me conhecia por gente, mas o Nathan costumava brincar com as outras crianças, as mais animadas como ele. Eu costumava ficar quieta no meu canto, lendo e escrevendo para passar o tempo, não tinha interesse em sair correndo por aí. Minha preguiça resultava em longas manhãs e tardes sentada embaixo da janela do sótão lendo os livros um tanto velhos e empoeirados que doavam ao orfanato. Ficava sentada lá sozinha, aproveitando a luz do dia, já que a noite as freiras nos mandavam diretamente para nossos quartos após o jantar. Passava o dia inteiro lendo, descia apenas para comer e ir ao banheiro. Eu nunca podia ter ficado mais feliz com Nathan me pedindo para ler em voz alta, afinal as outras crianças nunca se interessavam em ler comigo. Elas apenas queriam brincar e atazanar a vida das freiras.

-Claro. - respondi com um enorme sorriso nos lábios, mas sabia que Nathan não podia me ver, já que estava com o rosto virado para a parede. Eu sabia aquele livro de cor, de trás para frente e de frente para trás. Era um livro velho e empoeirado, de capa vinho quase caindo, Contos dos Irmãos Grimm. Comecei a ler o famoso conto de João e Maria, eu gostava mais dos outros contos, mas imaginei que Nathan iria gostar de ouvir algo mais conhecido. De primeira minha voz saiu falha, por causa da falta de hábito em ler em voz alta. Logo consegui continuar a leitura normalmente, pois me lembrei que o mesmo estava de costas e, portanto, não estava me vendo, isso fez minha vergonha ir embora. Quando terminei o conto percebi que tinha terminado também o tempo do castigo. Assim que abaixei e fechei o livro, encontrei os olhos curiosos de Nathan muito próximos aos meus, o que me fez cair do banco pela surpresa. Ele apenas riu e me ajudou a ficar de pé, colocou no rosto aquele sorriso enorme e brilhante que ficou gravado em minha memória desde então.

-Não seria legal encontrar uma casa feita de doces? - perguntou Nathan com seus olhos verdes brilhando de um jeito novo para mim. Fiz uma careta e virei minha cabeça para os lados em negação.

-Não seria bom encontrar uma bruxa, Nathan. - Eu disse, achando que meu argumento seria forte o bastante para fazer ele concordar comigo, mas eu estava errada, estava extremamente errada.

-Sim, é verdade. - Ele respondeu, por um momento pensei que ele tinha concordado. - Mas poderíamos fazer como Maria e joga-la dentro do fogão! Então nós ficaríamos com a casa dela e nunca mais íamos passar fome.Ele fazia diversos gestos com as mãos enquanto falava, ele estava bem animado como sempre.

Eu pensei em dizer a ele que a comida iria acabar, consequente iriamos comer a casa e ficaríamos sem teto, mas o sorriso tão inocente e alegre no rosto de Nathan me fez desistir. Não é porque sou mais velha e, digamos assim, menos ingênua que posso destruir os sonhos dele. Abri minha boca para falar qualquer outra coisa, mas Nathan voltou a falar.

-Eu sei que depois eles pegaram o tesouro e voltaram a casa do pai deles. - Nathan deu de ombros - Mas não temos um pai e nem uma mãe, então poderíamos pegar o tesouro e comprar muitos brinquedos!

Abri um sorriso triste, pois eu sabia que ele tinha razão em uma parte ali. Não tínhamos família e nem uma casa para voltar. Nós poderíamos ficar morando na casa de doces até que ela simplesmente não existisse mais e ninguém iria sentir a nossa falta, nem mesmo as irmãs. Na verdade, as irmãs iriam até agradecer a Deus, seriam menos duas bocas para alimentar com o dinheiro escasso do pobre orfanato. O sorriso de Nathan desapareceu depois daquelas palavras, ele estava apenas encarando o livro velho, mas sua mente parecia estar em outro lugar. Talvez ele estivesse realmente cogitando a ideia de sair procurando uma casa feita de doces e por um momento me senti tentada a sugerir isso para ele. Apesar de ser mais velha, eu ainda era criança e me permitia sonhar de vez em quando, mesmo sabendo que todos aqueles contos mágicos que eu lia não passavam de meras fantasias.

                                                                                     ***

Depois daquele dia, todos os dias que Nathan ficava de castigo, ele me pedia para ler para ele. Apesar das irmãs me darem sempre um pequeno esporro por - segundo elas - estar quebrando as regras e estar dando atenção demais para ele, enquanto ele devia estar de castigo pensando sobre o que ele fez, mas eu não me importava com o esporro, era a primeira vez que me divertia um pouco dentro daquele lugar.Eu lembro que chegou um tempo que ele nem pedia mais, ele apenas ajoelhava encarando a parede e esperando que eu começasse a leitura. Quando o tempo e a leitura acabavam, ele ia se sentar ao meu lado no velho banco de madeira para tagarelar sobre a história. As vezes inventávamos uma continuação para ela, outras, nas situações dos personagens. E, mesmo que sem perceber, aqueles momentos se tornaram precisos para mim. Tornei-me dependente deles e o dia parecia completamente sem sentido quando eu não lia para o Nathan.

Em um certo dia, tomei um pouco de coragem e puxei ele pela manga da camisa depois do jantar, antes de irmos para nossos quartos.

-Você não precisava ficar de castigo para que eu leia para você... - Disse baixinho, olhando para os olhos arregalados de Nathan. Esperava que ele caçoasse de mim, mas o que veio a seguir eu não conseguia nem imaginar.

-Sério? - Ele arregalou ainda mais os olhos com um pequeno sorriso se formando em seu rosto, sua expressão de alegria misturada com surpresa era impagável. Eu comecei a rir dele e não o contrário, como eu tinha imaginado. Nathan ficou piscando os olhos em confusão enquanto eu ria e colocava a mão na barriga, fazia tempos que eu não ria tanto. - Para nem é tão engraçado.

-Com certeza é. - Disse depois de respirar fundo algumas vezes. Coloquei minha mão sobre a cabeça dele e baguncei seus cabelos, o que era cômico já que ele era mais alto que eu. - Você só preciso pedir, eu lerei para você, bobo.

Nunca tinha visto o rosto de Nathan ficar tão vermelho como naquele momento. Eu não sabia se ele estava envergonhado ou se estava furioso. Comecei a me desculpar e falar coisas sem sentido, em pânico achando que ele estava furioso. Até que ele começou a rir, então nós dois caímos na gargalhada por alguns minutos. Depois que paramos nem nos lembrávamos do que estávamos rindo.

-Bobo. - Repeti, sorrindo tanto que minhas bochechas doíam.

-Não diga isso. - Ele me bateu de leve no braço, fazendo um bico nos lábios de criança.

-Você não sabe ler, Nathan? - Perguntei, me encostando na parede do corredor.

-É claro que sei! - Nathan respondeu quase gritando colocando as mãos na cintura, abismado com a minha pergunta. - Acha que eu sou burro, Sofia?

-Não, é que...eu, você, nós... - ele riu da minha confusão e do jeito que eu fazia gestos com as mãos tentando me explicar, fiz uma cara brava - Você sempre me pede para ler para você, então eu pensei que...Ele me cortou no final da frase.

- Eu sei ler, mas gosto que você leia para mim. - Ele disse simplesmente, dando de ombros. Nathan não sabia, mas aquelas palavras fizeram algo aquecer no meu peito que eu nem fazia ideia que existia. Eu sorri, ele estava sendo sincero, como toda criança é. Por ser mais velha, eu ponderava sobre minha palavras e até mentia de vez em quando. Só que Nathan era uma criança pura, dizia o que tinha vontade e era sempre sincero, sem exceções. Ele quis mesmo dizer aquilo, ouvir aquelas palavras me deixou feliz como nunca na vida. Ouvir Nathan me dizer que gostava de me ouvir me fez sentir em casa pela primeira vez.

-Eu também gosto de ler para você. - Eu disse, meio envergonhada, tinha medo do que ele pudesse pensar. No fim, ele só sorriu e me puxou pela mão até o sótão, onde ficavam os livros e as outras tralhas repletas de poeira.

-Vem, venha ler mais para mim. - Suas mãos suadas e suaves de crianças não soltaram das minhas até chegarmos lá em cima e nos sentarmos no mesmo lugar especial de sempre, embaixo da janela. Lugar que começou a ser ainda mais especial depois que Nathan passou a frequenta-lo comigo todos os dias. Naquela noite, eu não me importava se as freiras iriam nos procurar para ter certeza que fomos para nossos quartos, eu só queria ficar ali e me divertir com aqueles contos infantis junto com Nathan.

No orfanato não tínhamos muitos livros, poucas pessoas doavam coisas ao orfanato e o que era mais difícil de ser doado eram livros. Consequentemente repetíamos as histórias de vez em quando. Eu lia e relia os contos favoritos de Nathan, a ponto dele decorar as frases e fazermos um pequeno teatro. Era divertido o jeito como ele encenava, criava as próprias falas e modificava a história como bem queria. Mas em algumas histórias ele ficava completamente quieto, prestando uma atenção assustadora. Uma dessas histórias era Peter Pan.

-Sofia - Nathan disse baixinho, brincando com meu cabelo enquanto deitava no meu colo sem ao menos pedir - Somos como os meninos perdidos, não é?

-Por que? - Perguntei, dando de ombros. Apesar de ter uma ideia do motivo da comparação.

-Porque eles não tem família e nem casa - ele murmurou, sua voz parecia deprimida - Os meninos perdidos vivem na Terra do Nunca, se divertindo com o Peter Pan.

-É, eu acho que sim. - Respondi descansando a cabeça na parede - mas eles não vão crescer nunca, nós vamos.

-Eu queria ir para Terra do Nunca. - Fiquei surpresa ao ouvir aquilo. Isso significa não crescer jamais.

-Você quer ser criança para sempre? Não quer virar adulto?

-Eu quero ser criança, não quero crescer. - Ele se virou no meu colo de um jeito que nossos olhos se encontrassem - Quero ser criança e brincar com você para sempre, Sofia.

-Nathan... - Eu ia começar a falar sobre ser adotado, crescer, virar adulto, trabalhar e ter sua própria família, mas Nathan colocou a mão na frente da minha boca antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.

-Wendy poderia ser nossa mãe.

-Wendy foi embora, Nathan. - Eu disse, batendo de leve minhas mãos sobre sua barriga - Ela voltou para casa, voltou para a família dela.

-Nós não temos para onde voltar, então ficaríamos lá com os meninos perdidos, Sofia! Não precisamos de mãe, teremos Sininho e Peter. - Ele sorrio de um jeito tão triste que senti que meus olhos iam começar a se encher de lágrimas - Não preciso de ninguém, terei você. Você cuida de mim Sofia.

-Eu cuido. - Acenei com a cabeça, mostrando um pequeno sorriso.

-E eu cuido de você. - Nathan disse sorrindo, levantando do meu colo e segurando minhas mãos - Vem comigo para a Terra do Nunca?

-E como poderemos fazer isso?

-Com pozinho mágico.

-Onde vamos achar pozinho mágico?

-Eu sei onde tem!

Olhei para ele, metade incrédula e metade curiosa. Queria acreditar que o pozinho mágico existia, queria acreditar que a Terra do Nunca existia, mas ao mesmo tempo eu sabia que nenhuma dessas coisas era real. Porém quando eu estava com Nathan, tudo se parecia exatamente como nos livros de contos de fadas. Tudo era possível se eu estivesse com Nathan. Uma vassoura velha virava um encantador cavalo, uma panela furada se tornava um elmo de cavaleiro e as colheres de madeira da cozinha viravam um par de espadas. Com Nathan, o tapete velho e surrado da sala se transformava no tapete mágico do Aladdin, e da velha lamparina saia um gênio poderoso, mas só se esfregássemos bem. Quando abríamos os braços e corríamos pelo orfanato, virávamos dois pássaros, livres para voar para onde quiséssemos, desde que fosse dentro dos terrenos do orfanato, senão iríamos apanhar das freiras. Quando eu via aquele sorriso nos lábios de Nathan, eu podia ser tudo o que eu quisesse, e o mais importante, eu podia ser eu mesma.

                                                                                          ***

-Tem certeza que podemos entrar lá? - Já era tarde da noite, fiquei um tempo parada em frente ao relógio velho da sala, contando nos dedos que horas já seriam. Passava da meia noite quando Nathan me cutucou e me fez sair da cama para ir atrás do pozinho mágico - Não deveríamos entrar no quarto das freiras.

-Vamos ser silenciosos - Nathan colocou o dedo na frente dos lábios e fez um "shh" . Para a minha infelicidade, ele ficou com medo assim que chegamos em frente da porta do quarto. Podíamos ouvir os roncos altos daquela irmã que nos servia comida. Nathan se colocou atrás de mim e me empurrou para frente.

-Você é a mais velha, vai na frente. - Quis protestar, mas não podia me passar por medrosa. Afinal, eu era realmente a mais velha. Girei a maçaneta devagar e empurrei a porta, que rangeu alto como em um filme de terror, fazendo arrepios subirem pela minha espinha. Nathan agarrou minha mão e se encolheu atrás de mim. Respirei fundo e dei o primeiro passo para dentro do quarto escuro, segurando a velha lamparina acesa com uma mão e a mão de Nathan com a outra. As freiras pareciam monstros respirando embaixo dos lençóis claros. Os roncos eram muito mais altos dentro do quarto, e cada vez que uma delas se mexia na cama eu tinha que tampar a boca de Nathan para que ele não fizesse algum barulho ou gritasse de medo. Andando na ponta dos pés, fazendo o chão ranger a cada passo até que finalmente conseguimos chegar até um gaveteiro velho onde ficavam as coisas das irmãs. Nathan saiu de trás de mim e abriu todas as gavetas até encontrar o que estava procurando. Era um saquinho com pó marrom dentro, algo que só reconheci muito tempo depois como pó de incenso que o padre usava nas missas. Nathan segurou o saquinho nas pequenas mãos, um sorriso vitorioso estampado em seu rosto. Levantei a lamparina para analisar o pozinho mágico e acabei sorrindo também. Naquele momento uma faísca de esperança se acendeu em meu peito. Pensei que realmente iria voar pelos céus de madrugada segurando na mão de Nathan, em direção à Terra do Nunca.

-Agora vamos logo! - Ele cochichou e eu acenei com a cabeça. Fizemos o mesmo caminho para fora do quarto, mas sem antes de Nathan se assustar com a perna gorda da freira, que saio debaixo do lençol e parou bem na frente do seu rosto. Segurei as risadas e o arrastei para fora do quarto.

-Saímos vivos da caverna dos dragões! - Nathan disse baixo, erguendo o saquinho de pó - E conseguimos resgatar o tesouro que eles escondiam.

-Por que será que elas estavam com o pozinho mágico? - Perguntei, já imersa na fantasia de Nathan.

-Não é óbvio? - Seu sorriso de desmanchou e ele ficou sério - Para que a gente não voe para à Terra do Nunca. Elas precisam de nós para receber dinheiro do padre.

Fiquei boquiaberta, completamente chocada. Não imaginava que Nathan poderia saber de uma coisa dessas, pois, nem eu sabia. Eu sabia que as irmãs recebiam dinheiro do padre para sustentar o orfanato, mas nunca imaginei que Nathan pensasse dessa forma. - Ouvi as irmãs conversando o padre, dizendo que iam fechar o orfanato e nos mandar embora. - Ele abaixou a cabeça - Mas aí ele disse que se elas fechassem, não iam mais receber dinheiro.

Naquele momento, eu não tinha entendido. Éramos crianças e não percebíamos o quanto era difícil para manter o orfanato. Tinham poucas doações, pois passávamos por uma crise econômica na época e os únicos que tinham dinheiro eram os ricos e, bem, a igreja. Mas quem cuidava de nós era uma pequena capela, praticamente esquecida e danificada, que sobrevivia de doações. Naquela madrugada, naquele momento, uma raiva cresceu dentro de mim, raiva das irmãs, raiva do padre, raiva daquele lugar. Antes eu pensava em ser adotada e em ter uma família, mas lá, naquele momento, eu só pensava em fugir dali com Nathan. Eu só queria ir para à Terra do Nunca.

-Então vamos logo! - Disse, pegando Nathan pela mão e subindo as escadas do sótão - Vamos para à Terra do Nunca agora.

Nathan sorrio e acenou com a cabeça, apertando sua mão contra a minha e me seguindo para cima. Saímos pela janela e subimos no telhado, coisa que pareceu fácil demais para Nathan, pois provavelmente já tinha feito essa pequena aventura. Assim que coloquei os pés nas telhas velhas do telhado, senti fraqueza e caí sentada, eu tinha medo de altura. O orfanato não era muito alto, tinha apenas três andares, mas já era o suficiente para me deixar amedrontada.

-Não precisa ficar com medo, vou jogar um pouco de pó em você - Nathan sorrio confiante para mim e abriu o saquinho, tirando de lá um punhado de pó e jogando sobre minha cabeça. O cheiro daquele pó era tão forte que eu comecei a tossir sem parar, fazendo Nathan rir um pouco. - Deve ser o efeito do pó mágico.

Então ele jogou um pouco de pó de incenso em si mesmo e guardou o resto no bolso. Foi quando ele se colocou na beirada do telhado que eu acordei. Aceitei que aquilo não era pó mágico e que a Terra do Nunca não existia. Nathan não iria voar, mas iria cair três andares direto no chão duro. Ele iria se machucar.

Foi tudo tão rápido, quando me dei por mim, estava abraçando o corpo de Nathan, com meu rosto pressionado em suas costas e meus braços agarrados fortemente em seu peito. Eu chorava, como eu nunca tinha chorado na vida. Nathan tentou se desfazer do meu aperto, mas eu o segurava forte, pedindo entre soluços para que parasse. Logo, ele desistiu e nós dois sentamos no telhado. Eu segurava sua mão, sem nenhuma intenção de soltar.

-Você gosta de olhar para as estrelas? - Nathan me perguntou, olhando fixamente para cima. O céu estava estrelado naquela noite. Eu ainda enxugava as lágrimas, sem conseguir responder com palavras, apenas balançando a cabeça. - Eu gosto. Com elas não me sinto tão sozinho...

Levantei meu olhar, a fim de observar as estrelas e também a grande lua que parecia estar colada no suave véu escuro da madrugada. Nathan ficou quieto, apertando vez ou outra minha mão, sem tirar os olhos dos luzeiros que pareciam cintilar, tão brilhantes quanto seus olhos quando me ouvia contar histórias. Naquele momento, eu senti que devia cuidar do Nathan mesmo não estando na Terra do Nunca. Ele era tão inocente, tão gentil e puro as vezes até me via adentrando em suas ilusões, como se ele conseguisse criar um mundo só dele. Como se ele conseguisse criar sua própria Terra do Nunca. Talvez ele até soubesse que essas coisas não existiam, mas ele era teimoso e queria acreditar e me fazer acreditar também. Nathan não era ingênuo como eu jurava que era. Ele era como eu e todas as outras crianças do orfanato. Sozinho, carente. Mesmo que nunca tivesse tido uma, ele sentia falta de ter uma família. Como eu, sentia aquele buraco no peito de não ter ninguém para chamar de mãe ou pai. Nathan era um menino perdido, assim como eu. Não tinha para onde ir, então queria ir para um lugar onde tudo terminasse feliz como nas histórias. Não tinha família, então queria ir para onde não precisasse de uma. Nathan só tinha a mim, mas mesmo que quisesse, só eu não era o suficiente.

-Você disse que não temos família, não é? - Quebrei o silêncio, apertando sua mão contra a minha para chama-lo a atenção - Disse que não temos para onde ir e nem alguém para chamar de pai e mãe.

Nathan me olhou sério e concordou, piscando com os olhos, curioso por uma continuação. Sentei mais perto dele e coloquei meu braço ao redor do seu ombro, apontando com o outro a grande lua branca no céu.

-Está vendo a lua?

-Sim.

-Ela é nossa mãe e todas as estrelas do céu são nossos irmãos. - Disse, apontando com a mão para as estrelas - É por isso que você não se sente sozinho quando olha para elas.

Ele permaneceu quieto, observando os pontinhos cintilantes no céu, se colocando mais perto de mim.

-Quando anoitece a nossa mãe sobe lá no alto para cuidar de nós enquanto dormimos. Ela está cuidando de nós agora, Nathan. - Nathan parou de olhar a lua e nossos olhos se encontraram. Ele continuava sem expressão no rosto, mas seus olhos brilhavam, esperando que eu continuasse - E quando amanhece, nosso pai aparece para trabalhar. O sol aparece todos os dias para esquentar e trazer luz, assim podemos ler nossos livros e brincar lá fora.

-E para onde vão nossos irmãos quando é dia? - Nathan me perguntou, me pegando completamente de surpresa. Olhei para a lua e as estrelas como se esperasse que elas me cochichassem uma resposta, mas elas permaneceram em silêncio, como se dissessem "se vira". Respirei fundo e continuei.

-Eles vão brincar, assim como nós.

-Eles moram em orfanatos, Sofia?

-Sim, Nathan. Eles são como nós. Somos todos irmãos e quando crescermos, poderemos morar em nossas próprias casas.

-Quando eu crescer eu quero morar com você Sofia. - Nathan sorrio abertamente e me abraçou - Você promete que vai morar comigo?

-Eu prometo. - E eu prometi, eu sabia que poderíamos ser adotados ou mandados para outros orfanatos, mas eu prometi.

-Sofia, me conta uma história? - Ele se deitou em meu colo como sempre fazia e eu comecei a mexer nos seus cabelos.

-Era uma vez um menino perdido e uma menina perdida. - Eu comecei, levantando a cabeça para olhar o céu - Eles não tinham pais e moravam em uma casa velha repleta de dragões cruéis. Um dia eles foram acordados por uma luz forte que entrava pela janela, os convidando a subir no telhado. Os dois foram e quando chegaram lá, viram que quem os estava chamando era a lua. Ela e todas as pequenas estrelinhas do céu estavam olhando para o garoto e a garota. Foi então que a lua disse: "Todas as estrelinhas são seus irmãos, se olharem para elas não estarão mais sozinhos", então ela começou a cantar uma canção de ninar para fazer as crianças dormir.

Quando olhei para baixo para ver a reação de Nathan, percebi que ele já estava dormindo. Aquela noite, dormimos no telhado e, apesar da bronca que levamos e da hora que passamos ajoelhados de castigo, valeu a pena. Aquele momento que estive com o Nathan valeu completamente a pena.

                                                                                 ***

Foi em uma noite dessas que eu estava no meio da rua da cidade que eu morava. Já era tarde e várias luzes foram apagadas, me dando um bela visão das estrelas. Eu fazia isso toda noite, olhar as estrelas...Me fazia lembrar do Nathan e dos momentos divertidos que tínhamos dentro do orfanato. Agora eu morava em uma pequena casa, morava sozinha. Isso me fez lembrar da promessa que eu tinha feito a Nathan à tantos anos, mas acabamos nos separando, afinal fomos adotados depois de um tempo. Imersa em meus pensamentos e nas boas lembranças que tive com Nathan, escutei a mesma história que contei para Nathan à tantos anos atrás. Comecei a rir de mim mesma, é impossível que seja Nathan contando aquela mesma história de anos atrás. Eu estou enlouquecendo.

-Ensurdeceu, Sofia? - Arregalei meus olhos ao olhar para o lado e ver que não era coisa da minha imaginação fértil. Nathan estava ali, mais alto, mais velho e mais bonito do que eu lembrava. Os cabelos escuros dele divididos para o lado perfeitamente, enquanto meu cabelo loiro estava completamente bagunçado. Minhas bochechas ficaram vermelhas e meu coração acelerou, eu não podia imaginar vê-lo depois de tantos anos. Senti vergonha após me lembrar de todas as vezes que andamos de mãos dadas, por todas as coisas que disse a ele no passado e por todas as vezes que dissemos nos amar, mesmo sem saber o significado daquelas palavras.

-Nathan... - Foi a única coisa que saiu da minha boca, eu estava em completo choque.

-Depois de tanto tempo você não diz nada? - Ele riu enquanto se aproximava.

-Queria que eu dissesse o que? - Perguntei, cruzando os braços e fazendo uma careta, como nos bons e velhos tempos.

-Você poderia dizer que sentiu minha falta. - Ele respondeu, fazendo bico, exatamente como nos bons e velhos tempos.

-Eu senti sua falta. - Digo, ele segura minhas mãos sem nem pensar duas vezes, sorrindo. Elas ainda se encaixavam perfeitamente... - E agora?

-Sofia, você pode me contar uma história? - O sorriso dele aumenta, e ele soltou minhas mãos para pegar um livro que estava em sua bolsa. Era o mais novo exemplar dos contos dos Irmãos Grimm. Minhas bochechas doíam de tanto que eu sorria enquanto folhava as páginas do livro. - Levo sempre comigo porque me faz lembrar de você.

-Você não precisa de um livro para se lembrar de mim, Nathan. - Fechei o livro e olhei para o céu - É só olhar para as estrelas, como a lua disse.

-Eu fazia isso todas as noites. - Mesmo depois de tanto tempo, eu percebo que Nathan continua com essa aura de criança. Ele não mudou nada em todos esses anos.

-Você fazia?

-Sim, mas agora eu não preciso mais, você está aqui. - Nathan disse pegando em minhas mãos novamente - Sofia, você se lembra da nossa promessa?

-Sim.

-E o que me diz? - Ele sorri adoravelmente, aquele sorriso que me fazia sorrir junto automaticamente.

-Se você aceitar se mudar para o meu apartamento minúsculo...

-Eu preciso de pozinho mágico para chegar lá?

-Não.

-Então, eu aceito.

No fim, nunca fomos meninos perdidos. Tínhamos o sol, a lua, as estrelas e mais importante, nós tínhamos um ao outro.






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