Login
E-mail
Senha
|Esqueceu a senha?|

  Editora


www.komedi.com.br
tel.:(19)3234.4864
 
  Texto selecionado
A SOMBRA DE CADA UM
n-
SUELI COUTO ROSA

Resumo:
A sombra do passado afeta a vida e a saúde de Terezinha.

A SOMBRA DE CADA UM

Todos temos luz e trevas dentro de nós.
O que importa é o lado o qual decidimos agir.
Isso é o que realmente somos. Sirius Black

_ Mãe, mãezinha, porque você está chorando? Mãe, acorda!
A filha toca no braço da mãe, carinhosamente e a mãe, como que assustada, abre os olhos.
— Que foi, filha?
— Mãe, você estava chorando! Estava acordada ou dormindo?
— Não, filha. Eu estava dormindo. Não estava chorando!
— Ah! Mãe, você sempre me assusta porque, ultimamente, você tem chorado muito à noite.
Terezinha tenta desviar de assunto.
— Ah! Deve ser porque minhas pernas doem também à noite. Sinto muitas dores.
— Está bem mãe, vamos falar com o médico para ver algum remédio para essas dores.
Terezinha se cala. Não pode continuar esta conversa. Ela lembra-se de seus sonhos recorrentes, o medo e a tristeza que a assola nestes sonhos. Talvez ela chore mesmo. Será que se pode escutar um choro quando se está dormindo? Ficou preocupada.
Terezinha, acamada já há alguns meses, não conseguia andar. Havia sido diagnosticada com uma doença autoimune que resultara em uma fraqueza progressiva de seus músculos. Vinha sofrendo dores pelo corpo e fraquezas e se sentia melhor apenas em total repouso. Foi piorando aos poucos, até porque não conseguia mais se movimentar nem fazer exercícios naturalmente. Sua filha contratou uma fisioterapeuta que a orientava nos exercícios físicos e até em fonoaudiologia.
Essa enfermidade de Terezinha a amargurava. Fingia até que acreditava em sua melhora, porém, no fundo, sabia que não melhoraria. Algo lhe dizia ela tinha o que merecia. Ali, deitada, bem cuidada e limpa, tinha muito tempo para refletir sobre sua vida. Uma vida da qual nem sempre se orgulhou. Podia dizer que ela era uma mulher de muitas vidas. Uma, de notáveis exemplos de luta e superação. Outra, da qual seria melhor nunca se lembrar. Pior que isto. Seria bom ninguém saber.
Mesmo idosa, Terezinha revelava traços perfeitos, com sua pele clara, olhos castanhos esverdeados e nariz muito bem feito, emoldurados por uma bonita cabeleira, comprovando que sempre fora uma mulher de grande beleza. Ainda não tinha a pele enrugada, pois sempre a tratava com cremes, assim como nos cuidados com seu belo cabelo. Fazia questão, mesmo na cama, de passar seus cremes, ficar penteada e ter os lábios pintados com suave batom. Foi assim em toda a sua vida. Simples, mas sempre elegante.
Terezinha era uma mulher de destaque em sua vida familiar e social. Casou-se, aos 28 anos com o médico e prefeito da cidade onde morava, um homem querido e respeitado. Terezinha havia chegado à cidade há pouco tempo, vindo para trabalhar como professora primária. Quando chegou, contou que vivia na zona rural de um município pequeno, de outro estado. Ali chegou para ser professora, um sonho que estava realizando.
Ao conhecer o Dr Mário, Terezinha ficou dividida. Sentia uma forte atração por ele, um homem bonito e gentil, tranquilo e sorridente, que sempre tinha uma palavra de ânimo para todos que encontrava. O mesmo fez com ela. Os olhos do médico mostraram, desde o princípio, que gostara dela. No entanto, Terezinha tinha medo de se envolver com um homem tão importante. Não se sentia digna dele, mas estava apaixonada.
Dr Mário era clínico geral e tratava seus pacientes como membros da familia. Era o exemplo do médico antigo, aquele que se aproximava do paciente, olhava suas pupilas, sua língua, seu pulso e perguntava como a pessoa estava se sentindo. Dirigia o melhor hospital da cidade e centenas de pessoas nasceram, reviveram e morreram sob seus cuidados. A cidade o amava.
Portanto, a noiva de Dr Mário foi muito avaliada quando apresentada como a futura mulher do prefeito. Terezinha, sabendo da responsabilidade de seu novo papel, esforçou-se ao máximo para não frustar toda uma população e, muito menos, seu amor.
Apesar de recém-chegada foi bem aceita. Era bonita, bem apresentável e professora. Assim, após o casamento, Terezinha iniciou, gradualmente, um novo círculo de amizades e de contatos sociais. Foi tornando-se o braço direito do prefeito para as ações sociais locais. Cuidava da assistência social, das reuniões com as associações de pais e mestres, promovia feiras e quermesses para arrecadar fundos. Tornou-se uma referência para as mulheres daquela cidade. Entretanto, em casa, Terezinha revelava uma personalidade inconstante e muitas vezes, depressiva.
No casamento, Terezinha e Mário alcançaram uma relação de respeito, carinho e desvê-lo. O temperamento sereno de Mario permitia equilibrar as crises depressivas e paranoicas de Terezinha. Tiveram dois filhos: Raul e Raquel, que criaram com muito carinho. Ambos foram apoiados em suas individualidades e tiveram uma infância e adolescência normais junto deles. Por fim, saíram para estudar em boas universidades. Raul formou-se engenheiro civil e Raquel tornou-se psicóloga e também professora universitária. Alguns anos depois casaram-se e cada um teve um filho. Portanto, Terezinha tinha agora uma bela família.
Foi um choque para Terezinha quando um câncer no duodeno levou Mário. Foram dois anos de dor e tratamento e Terezinha ficou ao seu lado até o fim. Lembrou-se que Mário, nos seus últimos dias, pegou sua mão e perguntou:
— Amor, eu já estou indo embora e me preocupo em lhe deixar sozinha.
— Ah! Meu amor, não é hora de você se preocupar comigo. Estou bem, Raul e Raquel cuidarão de mim. Você precisa é tentar melhorar. Porque se preocupa?
— Me preocupo porque sei que você sofreu muito no seu passado, quando perdeu seu filho. Mas, você nunca me contou como aconteceu. Há um segredo que você sempre guardou, aquele que esconde até de você mesma.
— Que segredo, amor?
— Você pensa que depois de quarenta anos juntos eu não sei que você esconde algo? Que você deixou alguma coisa para trás e não quer me contar? Conte-me agora, pois, levarei para o túmulo, você sabe, disse brincando.
— Não há segredos, meu amor. Descanse e não brinque com isto, por favor!
Nesta ocasião, Terezinha sentiu-se angustiada e envergonhada. Talvez seu marido fosse a única pessoa que merecia, realmente, saber de seu passado. Será que a compreenderia e a perdoaria? Bom, não era o momento certo de testar isto. Fingiu, mais uma vez que tudo estava bem.
Após a partida de Mário, Terezinha, ainda que desconsolada, voltou para suas atividades sociais, agora mais dedicada e até mesmo, obcecada. Havia muita pobreza e miséria na periferia e ela precisava contribuir mais. Chegou a presidir a Fundação criada em nome de Dr Mário para atender idosos e crianças órfãs. Coordenava o asilo e a creche como se fossem sua própria casa. Quanto mais se sentia triste, mais trabalhava.
Contudo, a vida ainda testaria Terezinha mais uma vez. Seu filho Raul era responsável pela construção de uma rodovia, próxima dali. Em um final de tarde, enquanto vistoriava a obra, foi atingido por um caminhão e teve morte instantânea. O choque na cidade foi grande e repercutiu até na mídia. Raul era considerado um dos melhores engenheiros civis da região.
Foi quando a saúde de Terezinha desmoronou. Sua tristeza parecia ter se espalhado por seu corpo e as dores a paralisou. Foram muitos meses e muitas clínicas de saúde procuradas para identificar uma causa real de sua condição. Finalmente, disseram ser uma doença auto-imune. O único a fazer seria o repouso absoluto.
Uma tarde, Raquel, sua filha, entra no quarto e diz para sua mãe que ela tinha uma visita. Sua amiga, Etelvina.
Terezinha, estremeceu e pensou que estava, de novo, em seus pesadelos.
— Como, Etelvina? Etelvina já morreu!
— Não, mãe. Ela é uma senhora de idade, mas soube que a senhora estava doente e veio visitá-la. Ela disse que veio de longe.
Raquel conduziu Etelvina até o quarto e providenciou uma cadeira para Etelvina se sentar, próximo à cama.
Terezinha acompanhou com um olhar instigador esta senhora idosa, octogenária, entrar e se sentar. Magra como sempre foi, Etelvina ainda tinha os mesmos seus olhos carinhosos e amigos. No primeiro momento Terezinha apenas sorriu e estendeu a mão como faria com qualquer pessoa que a visitava. Não sabia o que dizer para Etelvina após mais de cinquenta anos. Etelvina vinha do seu passado, aquele que ela nunca gostava de se lembrar.
— Como você está Terezinha? Uma pessoa daqui esteve lá na nossa cidade e me contou que você estava doente. Como você está? Perguntou Etelvina.
— Como pode ver, não consigo sair desta cama. Mas, tirando as dores no corpo, estou bem cuidada. E você Etelvina? Nunca mais tive notícias suas! Que surpresa? Me diga, quem é esta pessoa que me conhece e que esteve lá? Perguntou educadamente, ainda que sua voz não escondesse uma certa agitação.
— Não se preocupe Terezinha. Esta pessoa é filho de uma senhora que está no seu asilo, aqui. Quando ela falou seu nome e a descreveu eu imaginei que deveria ser você! Ela me contou tudo o que você fez pelo asilo e pela creche, que você está viúva e ficou muito doente depois que seu filho morreu de forma trágica.
— Sim, Etelvina, aconteceram muitas coisas na minha vida. A morte me acompanha. Você contou de meu passado para esta pessoa?
— Imagine, Terezinha. Você sabe que sou sua amiga, apesar de você nunca mais ter dado notícias. Fiquei feliz em saber que estava viva e queria saber se estava bem. Vim porque sei por tudo que você já passou e queria continuar dando o meu apoio.
— Obrigada Etelvina. Por favor. Não conte para minha filha sobre meu passado, por favor.
— Não se preocupe, Terezinha. Se você não contou, não sou eu que vou dizer. Você sabe que tudo foi esquecido. Afinal, faz mais de 50 anos e seu processo também foi arquivado. Não tem nada que se preocupar.
— Eu me preocupo, sim porque todo dia, depois que fiquei doente, fico com medo de surtar de novo. Minha filha disse que eu choro dormindo. Isto não é um surto?
— Ah! Penso que não. Deve ser tristeza. Você está aparentemente bem. Naquela época o que você teve foi um trauma, muito compreensível. Os médicos do sanatório disseram que você não é doente. Foi apenas um surto diante do horror que você presenciou.
Terezinha começou a chorar de novo, agora convulsivamente. Etelvina despertou tudo outra vez, inclusive o medo e a culpa. Porque Etelvina teve que vir aqui, lembrar-lhe tudo de novo?
Etelvina foi a amiga que a abrigou em sua casa e deu-lhe total apoio após o incidente. Era quem a visitava no sanatório e a ajudou quando ela desejou sair da fazenda e daquela cidade. Deixou tudo para trás, inclusive parte de seus bens. Mudou de lá, foi para uma cidade maior, fez o curso de normalista e inscreveu-se para dar aulas. Foi assim que chegou nesta cidade e conheceu Mário. Tentou ficar bem, pois havia feito terapia no sanatório e a fizeram crer que ela havia sido vítima de trágico acidente, mas que ela não era culpada.
Tudo voltou quando Raul morreu. Sem entender porque, o passado voltou em sua memória e em seus sonhos. Cada vez que se lembrava da morte dele, apareciam os outros filhos. Sentia medo, culpa, pânico e raiva, ao mesmo tempo. Seu corpo, nesses momentos, queria morrer também. Sentia dores em cada pedaço de si mesma. Tentou, por anos, convencer-se de que não teve culpa. Não foi ela que matou seus filhos dormindo. Foi João, seu marido.
Naquela dia trágico, ela havia descoberto que João estava tendo um caso com a filha do caseiro da fazenda. Soube que era um caso de muitos anos. À noite ela confrontou João. Gritou, xingou e disse para ele ir embora de casa. Ele a enfrentou dizendo que não iria sair e que ia trazer a amante para viver com ele. Ela era quem deveria sair. Indignada, Terezinha pegou a espingarda dele que sempre ficava atrás da porta e o ameaçou. João, mais forte, tomou a arma de sua mão e ameaçou atirar. Terezinha correu para o quarto das crianças para acordá-las e gritou que iria embora com elas. João, num impulso de violência, virou a arma para ela e para os filhos. Atirou duas vezes, acertando as crianças dormindo. Terezinha, em choque, agarrou-se ao corpo dos dois filhos e saiu pela fazenda, caminhando sem rumo. João, ao dar-se conta do que tinha feito, recarregou a arma e suicidou-se.
Terezinha foi encontrada vagando com os filhos nos braços e sem falar coisa com coisa. A princípio nem conseguia contar o que havia acontecido. Foi internada em um sanatório para doentes mentais por mais de seis meses. Saiu de lá melhor, porém abandonou seus familiares e amigos e fugiu daquele lugar. Nunca mais havia tocado neste assunto. Quis e conseguiu romper com todos de seu passado, por muitos e muitos anos.
Contudo, o passado sempre se manifesta, ou em luz, ou em sombra. Terezinha produzia em seu próprio corpo os sons de seu passado sombrio. Agora, ele não a abandonava mesmo quando dormia. Seu choro era o pranto não esvaziado, que teimava em escapar durante seu sono. Não sabia mais o que fazer para contê-lo! Deveria levar seu triste passado para o túmulo ou libertar-se de uma vez? Quem sabe, sua filha psicóloga poderia ajudá-la!
Sueli Couto Rosa, setembro 2020


Biografia:
Socióloga, professora universitária aposentada, escreve poesias, crônicas e contos, aproveitando seu tempo livre.
Número de vezes que este texto foi lido: 103


Outros títulos do mesmo autor

Poesias O TEMPO SUELI COUTO ROSA
Contos O CROCODILO AMÁVEL SUELI COUTO ROSA
Contos A SOMBRA DE CADA UM SUELI COUTO ROSA
Contos TRÊS MULHERES, TRÊS ESCOLHAS SUELI COUTO ROSA
Crônicas O CORONAVIRUS E OS IDOSOS SUELI COUTO ROSA
Contos A CASA DOS OBJETOS FALANTES SUELI COUTO ROSA
Contos O AMOR EM TEMPOS DE TERREMOTO SUELI COUTO ROSA
Contos O MENINO DA FLORESTA SUELI COUTO ROSA
Poesias TU SUELI COUTO ROSA
Crônicas A NOVA GAVETA DO ESCRITOR SUELI COUTO ROSA

Páginas: Próxima Última

Publicações de número 1 até 10 de um total de 12.

  Envie este texto por e-mail
Digite seu nome:
Digite seu endereço de e-mail:
Digite o nome do destinatário do e-mail:
Digite o endereço de e-mail do destinatário:

escrita@komedi.com.br © 2020
 
  Textos mais lidos
The crow - The Wiki World - The Crow 69529 Visitas
A Arte De Se Apaixonar - André Henrique Silva 55941 Visitas
IHV (IAHU) e ISV (IASHUA) - Gileno Correia dos Santos 48445 Visitas
PÃO E CIRCO - Tércio Sthal 44678 Visitas
Minha namorada - Jose Andrade de Souza 44320 Visitas
Reencontro - Jose Andrade de Souza 43940 Visitas
Amor e Perdão - Amilton Maciel Monteiro 43229 Visitas
viramundo vai a frança - 43174 Visitas
OS ANIMAIS E A SABEDORIA POPULAR - Orlando Batista dos Santos 41938 Visitas
haicai - rodrigo ribeiro 41575 Visitas

Páginas: Próxima Última