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A invasão
(dark meets the light)
Foxtrot

Resumo:
Até onde estamos dispostos a ir para que nossos medos e inseguranças sejam suprimidos? Aquele jovem provou a si mesmo, naquela noite, que as nossas ações podem ser confusas e cruéis quando saímos de nós mesmos e vivemos um outro amedrontado, mas consciente. Um outro que é capaz de agir e superar os perigos que sua mente ingênua projeta.

Tudo começou quando esse jovem recebeu convidados em sua casa, foi uma surpresa inédita (para não dizer inesperada), pois o jovem e sua família viviam festejando com amigos e parentes, principalmente com esses primos e tios. Mas, naquele momento, a situação era diferente das anteriores, todos viviam em um período caótico, no qual a comunicação era feita por simples gestos ou falas distantes, os convidados não podiam se abraçar, ou beijar, ou se tocar, ou estar juntos como antes. Por isso, aquela visita era (até certo ponto) incômoda. O jovem que não via motivos para interagir parcialmente, decidiu checar as portas do fundo da casa, pois naquele período o índice de assaltos havia aumentado. Aproveitou e foi checar seus pássaros, pois percebeu que a noite se aproximava, logo os animais deveriam estar protegidos. Chegando lá, notou que as aves ainda estavam no quintal, mas observou também que havia um animal próximo ao telhado, ele parecia rugir e gotejar alguma coisa transparente... Era um gato. O mesmo gato que surgia todas as noites com a esperança de conseguir uma diversão grátis… um animal que vivia na espreita pelas aves aprisionadas, um astuto que ansiava pelo esquecimento das gaiolas para que seu prato ou brinquedo durasse até o dia amanhecer.

Notando a fera, o jovem subiu a janela do quarto, o mais rápido que pode, e tentou alcançar o animal, mas este já estava longe, parecia gargalhar de todos. O jovem, então, prosseguiu com o ritual de sempre, retirou as aves do alto e levou-as para dentro de um quartinho próximo, onde estava outra ave, porém esta era maior do que as outras. Aquele quartinho era a fortaleza das aves, pois dormiam protegidas. Ao colocá-las lado a lado, percebeu que sua ave maior estava com pouca ração em seu recipiente amarelado, decidiu abastecê-lo. Abriu a gaiola com todo cuidado para não assustar e afugentar a ave, e cercou de panos a abertura por onde ia a sua mão, para que não houvesse fugas. No entanto, todo aquele clima de atenção e paciência transfigurou-se em agitação quando o jovem notou alguma coisa passando por entre suas pernas retorcidas… era o gato novamente.

Seu olhar estava firme e certo, apenas uma nuvem de escuridão pairava em todo o sol de sua face. Aproximando-se lentamente, o gato ia em direção ao pássaro maior, mas, de repente, como um tiro certeiro que não permite plateias, o jovem imobilizou o animal pelo pescoço e patas traseiras. O animal apenas debatia-se em silêncio. Aquele gato deveria ser parado, não poderia agir novamente, quantas famílias não passavam dias e mais dias atentas, em constante alerta para que um de seus animais ingênuos não fossem atacados, devorados ou dilacerados? Quantas vezes mais algum infeliz deveria abster-se da companhia da família ou dos deveres cotidianos para realizar uma atividade laboriosa e angustiante causada por um mensageiro da morte? Estava claro que alguém deveria fazer alguma coisa. Enquanto o animal era refém e o jovem analisava o que deveria fazer para acalmar sua aflição, um dos primos que estava cansado dos videogames na sala decidiu observar as aves. Porém, ao chegar no quartinho deparou-se com aquela cena. Assustado, relutou em concordar com o que o jovem primo argumentava. Entretanto, entraram em acordo, deveriam ferir o animal com algum objeto cortante para que o gato não causasse mais danos para ninguém, assim o animal ficaria um longo tempo sem apavorar qualquer vizinho. O primo, que era o mais novo dentre os outros primos ali presentes, foi em busca de alguma faca. Enquanto isso, o jovem percebia o quão difícil era manter a mesma postura ao longo de um período, percebia como uma vida poderia se tornar frágil de uma hora para outra, percebia, também, que bastava um gesto para que tudo escapasse de suas mãos para sempre, um mesmo gesto que permitiria que o ciclo de tortura perdurasse na existência de uma única vida, como uma crônica psicológica. Vendo que não aguentaria segurar as coisas por muito tempo, o jovem decidiu trancar o felino em algum lugar, seu primeiro impulso foi colocá-lo no fogão. O animal parecia sentir que ali seria seu fim, pois quando foi lançado no ambiente inóspito reverberou lamentações e prantos que podiam ser ouvidos do outro lado da rua.

Nesse momento, o primo chegou com o objeto pontiagudo e brilhante, mas ambos, o primo e o jovem, não conseguiam se comunicar em meio àquele caos sonoro. Com os tímpanos vibrando e o coração acelerado, em um gesto, o jovem acendeu o fogo. O primo olhou-o confuso, sem acreditar e, ao mesmo tempo, repudiando aquela ação. Fechou os olhos, mas não saiu do lugar. O jovem, por outro lado, observou atentamente o animal desmoronar, seus pelos cada vez mais unidos, seus gritos cada vez mais abafados… O jovem queria que aquilo tudo acabasse logo, porém, ao mesmo tempo, sentia algo diferente do que já havia sentido antes, uma liberdade sem alívio ou glória, uma sensação de culpa alegre. Antes que pudesse organizar seus pensamentos, ouviu passos, alguém estava se aproximando em sua direção, tudo ficou claro novamente. Voltou a si.


Biografia:
Às vezes, uma parte de mim, que estava perdida, volta para casa. Quando volta, confusa e assustada, modifica-se e fala (por gestos ou expressões, ou símbolos e memórias) de eventos e experiências (que viveu e percebeu) em um tempo durante o qual sua consciência estava presente.
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