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  Texto selecionado
O dia que pegamos o capeta
vilma Wons

Resumo:
O texto é um misto de folclore com a realidade e relata o medo imposto a crianças através de crenças advindas dos costumes locais.

Pesquisei em artigos científicos, novenários e em diversas outras publicações do tipo, para ver se encontrava alguma fundamentação teórica/cientifica que embasasse as estórias que ouvíamos quando crianças.
O que encontrei, nada justificou ou esclareceu as narrativas relatadas por nossos pais, que geralmente aconteciam em noites de inverno, quando o escurecer chegava mais cedo e a família reunia-se em torno do fogão à lenha esperando o jantar, iluminados por lâmpadas à base do querosene, e quando da falta desse combustível, pedaços de trapos embebidos em gordura animal, mais precisamente banha de porco, clareavam de forma fantasmagórica a cozinha onde estávamos. Hoje quando lembro daquele cenário percebo o quanto ele era propício para aquelas narrativas. Nossas sombras projetadas na parede sem pintura, era ideal para aquele tipo de histórias. O crepitar da lenha queimando no fogão para aquecer o ambiente e para a preparação dos alimentos, sem querer também ajudavam a despertar tensão e medo em nós, crianças.
As histórias, narradas por meu pai estavam relacionadas a fatos acontecidos quando, ele, jovem, trabalhava como balseiro no interior do Rio Grande do Sul navegando pelos rios das Antas e do Peixe, indo até o Guaíba, na grande Porto Alegre.
Meu pai relatava a existência de muitas taperas, naquele estado. Tapera, designa casas abandonadas, no Sul do Brasil, nas quais buscavam abrigo ao anoitecer, pois navegar à noite sem iluminação nenhuma era muito perigoso. Só que o abrigo segundo ele, na maioria das vezes tornava-se um grande pesadelo. Ao invés de ele e seus companheiros, balseiros, dormirem tinham que conviver com gemidos de crianças, mulheres chorosas, homens que blasfemavam fazendo um enorme barulho como se arrastassem pesadas correntes.
Nós nos arrepiávamos de medo. Ninguém nessas noites maravilhosas de terror ia para o quarto dormir sozinho, ou melhor em suas camas. A barriga doía, tínhamos ânsia de vômito. O quarto de nossos pais acabava sendo uma enfermaria.
Nossos pais, quando questionados a respeito do porquê dos fantasmas, eles nos explicavam que, eram almas penadas que morreram sem ter a assistência de um padre, ou porque não iam para a igreja aos domingos. Então ficavam vagando até que alguém se dignasse a chamar um padre para exorcizar o lugar e eles poderem descansar em paz.
Por isso na minha casa nenhuma criança ou adulto ficava sem ir para a igreja aos domingos e dias santos. Caso contrário seríamos também, quando morrêssemos, almas penadas.
Lembro-me também que em uma certa feita numa tarde de domingo minha família foi para a reza domingueira, menos dois irmãos meus que resolveram sair muito cedo, acompanhar meu tio numa caçada a veados, muito comuns naquele lugar. Meu tio possuía várias parelhas de cachorros, especialmente treinados para essa finalidade.
Recordo-me como se fosse hoje. Ao sairmos da capela, após a reza, meus pais, meus outros irmãos e eu demos de cara com meu tio, seus cachorros e nossos dois irmãos, esperando-nos do lado de fora da igreja. Interrogados por meu pai a respeito da caça, pois não via nada, além de mãos vazias, eles relataram um fato horripilante. Disseram que meu irmão mais velho havia conseguido capturar um tatu e que quando ele desferiu um golpe de facão no animal a cabeça desse separou-se do corpo e em seguida juntou-se e assim sucedeu-se por diversas vezes. Ele desferia o golpe com o facão no tatu e o corpo do animal juntava-se. Desesperado, segundo ele, correu até onde estavam os demais caçadores. Reconheceram, então o pecado cometido. Ao invés de irem para a igreja, foram caçar.
Meu pai concluiu que foi o capeta que tomou forma de tatu.
Meu Deus, quanto medo!
De lá para cá passaram-se mais de uma década. Algumas histórias morreram, outras eram lembradas de vez em quando. Ir para a igreja aos domingos já não era mais uma obrigatoriedade para meus pais, embora nós crianças tínhamos que obedecer ainda àquele ritual.
Havíamos a pouco mudado de estado e no lugar onde fomos morar existia um rio enorme. E como deveria ter peixes lá! Nossos pais tinham muito cuidado comigo e com meu irmão pois o rio era caudaloso. Só íamos até ele na companhia de adultos.
Numa certa manhã de domingo, eu e meu irmão levantamos como sempre e obrigados por nossos pais fomos para a igreja, quer dizer, fingimos que fomos, porque no meio do caminho resolvemos voltar e decidimos que iríamos pescar. Se nossos pais não iam à igreja por que nós teríamos que ir?! Aquelas histórias de capeta eram estórias. Fantasmas? Tudo invenção. Só para nos meter medo e não deixarmos de ir para a igreja.
Decidimos que faríamos a maior pescaria de todos os tempos. Ficaríamos lá até o tempo que duraria a reza. Sorrateiramente apanhamos os anzóis, minhocas para isca e caminhando de quatro em meio a plantação de milho para não sermos vistos chegamos até a barranca, descemos, nos acomodamos em galhos de árvores e jogamos nossos anzóis devidamente iscados.
O rio não estava para peixe, espera, espera e nada. Até que meu anzol fisgou um peixe. E pelo peso deveria ser enorme, pois não tive forças suficiente para puxá-lo para fora d’água.
Gritei então, para meu irmão que veio em meu socorro e juntos conseguimos tirá-lo d’água. Só que ao tirá-lo, percebemos que não se tratava de um peixe. Nos entreolhamos. Era o capeta! Jogamos tudo e saímos correndo barranca acima clamando por nosso pai que nos avistou e percebendo nosso desespero veio a toda em nosso socorro.
_Papai, papai! Perdão. Nós mentimos para o senhor, não fomos à igreja viemos pescar e pescamos o capeta. Perdão. Jamais faremos isso!
Nosso pai calmamente pediu que explicássemos o ocorrido. Nem eu, nem meu irmão conseguíamos explicar nada. Apenas repetíamos que havíamos pescado o capeta.
Meu pai percebeu que nossas explicações não lhe clareavam nada, então solicitou-nos que o levássemos até o lugar do acontecido pois queria ver o capeta que havíamos fisgado.
Desceu a barranca conosco. Eu e meu irmão apontamos com nossos “fura bolos” para a mesma direção. Ele então visualizou “o capeta”. Foi até ele. Apanhou-o e começou a gargalhar.
_Meus filhos vocês pescaram um cágado.
_Cagado? Quem o cagou pai? A merda do capeta é assim?
_Não filha. Esse animalzinho vive na água. Não faz mal algum. - Ia dizendo isso e tirando o anzol da boca do animal. Depois entregou-o para mim, que o passei em seguida para meu irmão, para que o observássemos melhor -. Então meu irmão devolveu-o para meu pai que carinhosamente jogou-o nas águas do rio.
Mas, e essa história de igreja versus capeta? Deve ser herança da Inquisição. E para nós são apenas doces lembranças de nossa infância.


Biografia:
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