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Aurora de Aço - Cap. III
Jim cavezell

•     
               Capítulo 3
                                                 
                                   
              Torrororro.

O homem caminhava ligeiro à frente, ele mesmo, com suas ervas e raízes e toda a parafernália que usava para colhê-las, além, é claro, das roupas por demais peculiares, parecendo uma planta desajeitada. O trio vinha logo atrás, andando em fila indiana pelo pequeno bosque, agora manchado pelo o carmim do pôr-do-sol: Accon à frente, envolto numa fina capa verde-escura, de mesma cor das suas roupas; Ercut no meio, empertigado dentro do seu pesado casaco preto, alcançando-o até os tornozelos; e por fim, Beirand, o manto vermelho folgadamente enrolado no pescoço e caindo-lhe sobre as vestes cinza, da cor do chumbo.

   Tinham deixado as Colinas Pardas logo no início da manhã, seguindo o curso do Alim, e somente agora, no finalzinho da tarde depararam com o solar da Floresta da Neblina. Bertomurl, que juntamente a seu filho, Betwor, os acompanhou ainda por algum tempo antes de os campos de algodão dobrarem suavemente para o norte se distanciando do rio, os aconselhou a procurar um guia em Verdárvore, a única moradia de homens que haveriam de encontrar naquela direção e tão próxima da sombria floresta ou das montanhas. “Com sorte”, dissera ele, “não precisarão entrar na floresta, o que seria muito bom, entrementes Verdárvore, por ser onde é sempre esteve à sombra da apreensão, por isso os homens dali tendem a ser mais cuidadosos e menos receptivos. E já soma um longo tempo desde o nosso último contato, por isso não sei como estão as coisas por lá agora - espero que não piores do que se espera, do contrário poderão ter dificuldade para achar alguém que se aventure até as montanhas.”

   Ercut trazia consigo, além de um arco longo, a espada de seu pai, Abrefendas, nome que ele mesmo lhe dera quando a viu pela primeira vez, há muito tempo, quando ainda era uma criança e que parecera muito agradar seu pai; mas Tazary não mais permitiu que ele a tocasse novamente, ou mesmo a visse, apesar de ele tê-lo feito ainda algumas vezes, sorrateiramente, antes de ser apanhado. Accon também tinha uma espada a tiracolo, na qual viera trabalhando com Betwor e para a qual ainda não encontrara um nome. Beirand, no entanto, apesar de ter uma arma dessas e um arco semelhante ao que Ercut portava ( eram ávidos por competição ), depositava sua confiança mesmo era na sua pesada marreta, Esmagadora, descansando nas suas costas largas a beber, com sua lâmina em meia-lua o fulgor do pôr-do-sol.

Além disso portavam mochilas e bolsas pequenas, onde tinham comida para algumas semanas e objetos úteis, como rolos de corda, pederneira e vasos de sal. Atentaram também para algumas mudas de roupa, capas de capuzes fundos e cobertores, porque a viajem era longa. E, é claro, dinheiro. A não ser que pretendessem chegar à Nemoragi por terra, teriam de pagar um navio.
Accon carregava, guardada numa pequena caixa de carvalho, as cinzas de seu pai; não o fazia, porém como pretexto para a viagem; mas à iminência desta, viu que não poderia ser diferente. Ademais, tinha certeza de que seu pai haveria de se agradar.

- Já estamos chegando, venham - dizia o homem enquanto caminhava, ora ou outra camuflando-se em meio as plantas à sua volta e sumindo da visão do trio. - Ainda bem que os encontrei antes de tomar meu caminho: um feliz acaso. Sem contar também que logo estriam encharcados até os ossos - completou com um sorriso.

Os três se entreolharam, dividindo sua confusão, pois não havia uma nuvem sequer no céu, limpo e agora repleto de estrelas, com uma lua que mesmo faltando um pedaço deveria ser suficiente para iluminar a noite. Ficaram imaginando se ele estaria mesmo se referindo a chuva, já que não dissera a palavra propriamente dita. Beirand olhou para o homem-planta - como de repente se viu pensando nele - , e se perguntou o que os esperava e mais que tudo, o que teria ele a lhe oferecer, alguém que nunca vira na vida; num primeiro momento o homem era levemente desequilibrado, e à ele, o grandalhão pensou com um sorriso, aquela frase “A primeira impressão é a que vale” se aplicava perfeitamente.

   Haviam-no encontrado num ponto próximo às margens do rio. Tinham parado para descansar quando de repente o homem, com a agilidade de um macaco pulou dos galhos sobre suas cabeças, assustando-os e obrigando-os instintivamente a buscar as armas. Era alto e esguio, e o rosto por detrás da barba e dos cabelos cinzentos e emaranhados, onde se agarravam folhas e pedaços de pau, magro e atônito. Suas roupas - se é que aquilo fossem roupas, pois parecia haver mais folhas e casca de árvore do que pano - , eram marrons e verdes, e sobre a cabeça exibia um chapéu enviesado de formato peculiarmente engraçado, porque parecia que um pássaro grande havia-o cagado ali.

- Olá, amigos! - saldou-os animado, sem parecer notar as armas e dobrando-se numa reverência que julgar-se-ia não possuir qualquer osso, num tom de quem, após uma longa espera enfim felicita a chegada de alguém muito esperado. - Eu os tenho notado se aproximar já há algum tempo, por isso sei que não são caçadores. E vejo também que estão de viagem, não é mesmo? - Não era uma pergunta retórica, ele parecia realmente interessado neles. - Chamam-me Torrororro, espero que os agrade. No entanto já fui Atlae entre os homens, motivo pelo qual sinto-me inclinado lhes revelá-lo. - Aqui subitamente emudeceu, um instante no qual uma sombra pareceu transpassar seu rosto esperto, arrancando-lhe do espírito o fulgor da alegria. - Sim, Atlae - repetiu taciturno, dividindo com eles um sussurro; depois, como se despertasse do transe falou, reanimado: - Mas isso foi há muito tempo, não tem ‘mais’ importância.

Àquela altura eles já sentiam-se relaxando, porque descobriram que bastava observá-lo por um breve instante para saber que, tão claramente que não podia se evitar certo lapso de condolência, o homem não exprimia qualquer vestígio de maldade.

   Ercut disse, voltando a embainhar a espada:

   - Eu sou Ercut, e esses são Accon e Beirand.

À menção de Beirand o homem se aproximou descuidadamente deles, visivelmente interessado - apesar de fascinado se aplicar melhor. - Beirand - repetiu fitando o grandalhão de perto, onde pôde ver a opacidade do seu olho cego, frio e cinzento como a pele frangida em seu redor. - É um imenso prazer conhecê-lo, Beirand. - Fez uma nova reverência, e, apressando-se para os outros: - À vocês também, é claro: É um grande prazer, Accon e Ercut - mas vocês hão de me perdoar, afinal não é todo dia que deparo com um Filho de Etyo. - Eles sorriram.

- Escutem, amigos - ia dizendo quando de repente algo, em grande velocidade, passou pelos galhos acima, desviando sua atenção. O trio teve tempo de ver apenas um vulto desaparecer por entre a folhagem. - Ei, macaco!, o que trouxe para mim hoje? - gritava no que trepava numa árvore e estendia os braços para os galhos, num movimento que logo o levou para cima, de onde falou excitado: - Amigos, peço que esperem-me, não devo demorar. Não vão embora!

   - Macaco? - disse Accon, como os outros olhando atônito para os galhos - , ele disse macaco?

- Foi que pensei também ter ouvido - disse Ercut.

- Macacos em Eifiralia - disse Accon - : tá aí algo inusitadamente novo.

Como tivessem parado para descansar resolveram que o esperariam - ou o fariam até que julgassem o descanso terminado. Se o homem não retornasse nesse meio-tempo iriam embora, apesar de estarem curiosos para saber qual seu interesse neles.

   Não obstante, antes mesmo que pensassem em inclinar-se para a bagagem ele irrompeu eufórico por detrás de uma árvore. Estava coberto de folhas e gravetos, e no rosto e nos braços se desenhava uma confusão de rabiscos róseos. - Galho de cervo branco dos vales do outro lado do Rio Maior - disse com os olhos cintilando, estendendo-lhes o que devia ter sido metade da galhada dalgum cervo muito velho, pois era enorme. – ‘Aquele’ malandro - disse olhando fascinado para a galhada, como se segurasse algo muito raro e valioso - , como é que ele consegue...

   - Aquilo era um macaco? - disse Ercut com um aceno vago de cabeça para os galhos, interrompendo seu devaneio.

- Oh, ‘o Tulip’ - disse. - Sim, ele é um macaco. Mas entendo sua surpresa: já faz algum tempo desde que apareceu por estas partes, sozinho e desorientado. Acredito que tenha vindo do outro lado das montanhas, mas nem ele mesmo sabe dizer. É uma boa criatura, apesar de trapaceiro às vezes. - Soltou uma gargalhada, como se de repente lembrasse de alguma piada; depois disse, insinuando-lhes a galhada: - É ótimo para achar coisas - coisas que ninguém mais consegue, vejam bem. O problema é que nunca as entrega de bom grado, ou sem me fazer correr um pouco - mas logo terá que parar com isso, estou ficando velho.

   - Perdoe-me se minha pergunta soar absurda - disse Accon - , mas qual a serventia de galho de cervo?

- Não se trata exatamente da galhada - apesar dela não ser completamente inútil - disse ele, parecendo muito satisfeito por ter que explicar aquilo - , e sim do que cresce sobre ela. Veja. - Accon apanhou a galhada e a examinou: cobria-a uma vegetação rasteira muito verde, com ramos se enrolando e espiralando junto a folhas miúdas e arredondadas, como as do boldo, em meio as quais despontavam pequeninos botões vermelhos, como olhinhos de fogo. - Essas folhas fazem milagre, meu rapaz - completou Torrororro deleitoso.

   - Gostaria realmente de aprender seus segredos - disse Accon - , mas nossa posição não o permite agora. Se fosse diferente faria-o animadamente.

   - Como não? - arfou o homem exultante. - Aceitem minha hospitalidade por esta noite e poderei ensinar-lhe muito antes que se vão. Eu pretendia mesmo fazer-lhes o convite. - E, antes que eles pudessem falar voltou-se para Beirand. - A verdade é que tenho algo para você, Beirand. Sim, os ventos o mandaram. Soube disso assim que pus os olhos em você: a bem da verdade, foi exatamente por isso que os aguardei. Jamais me perdoaria se o deixasse ir embora de mãos vazias.

   - Bem - disse Beirand embaraçado, olhando para os outros - , é que pretendíamos chegar à Verdárvore ainda hoje...

   - Vedárvore?! - exclamou Torrororro, quase gritando. - Estão indo para Verdárvore? - posso levá-los até lá amanhã, sem problemas. Conheço aquela cidade, e por lá sou também conhecido, pois vez ou outra necessitam dos meus conhecimentos medicinais. E quando lá chegarem falem em meu nome, assim poderão entrar sem dificuldade. Ademais, acredito que se batessem àqueles portões hoje, no meio da noite, ficariam do lado de fora.

   - Então - disse Ercut por fim - não vejo mal algum em aceitarmos seu convite. E começo a pensar agora que seria muito improvável que nossa primeira noite na estrada fosse a céu aberto na nossa própria terra: parece-me algo estranho. - Torrororro deu pulinhos de excitação.

Ele os levou para uma extensa clareia, onde um criatório assustadoramente grande de abelhas estava espalhado em redor de uma estufa circular com teto bicudo, em formato de cone, por onde a ponta de uma chaminé se sobressaía. Havia no ar, juntamente a um zumbido constantemente profundo, um cheiro adocicado e enjoativo de mel.

   - Venham - disse aguardando-os à porta da estufa, parecendo se divertir com sua expressão de assombro e admiração - , as abelhas não lhes farão mal - a não ser que o queiram à elas.

Antes de entrar na estufa Beirand parou, sentindo uma lufada fria contra suas costas. Então virou-se e fitou o céu, onde nuvens sombrias se arrastavam languidamente encobrindo as estrelas. Soergueu as sobrancelhas e fez um muxoxo, depois seguiu os outros.

A estufa estava abarrotada de plantas, de modo que eles tinham de andar um atrás do outro. Havia montes delas enfileiradas em canteiros no chão e crescendo em vasos sobre mesas e prateleiras, pendendo das paredes e subindo a quase lamber o teto - o teto. Sim, este era diferente de qualquer outro que já tivessem visto. À distância nada mais era do que uma tela simples para aquele tipo de estrutura, mas vista de perto, ou melhor, observada do seu interior, era como se uma aranha gigante a tivesse tecido ali. Quando, no entanto mencionaram esse pensamento a Torrororro e ele disse-lhes, tão naturalmente, que não estavam de tudo errados, ficaram tão admiradamente absortos que não conseguiam mais desviar o olhar. - Não uma gigante - explicara ele - , pois esse tipo de coisa sempre esteve associado à escuridão - e nem preciso dizer quão perigoso é mexer com ele. Esse é um trabalho das aranhas tecelãs, criaturas extremamente habilidosas e, de contrapartida, mortíferas. Mas são os mais associáveis dos aracnídeos, e, o mais esplêndido, são herbívoras! Se alimentam de uma planta que vem ficando cada vez mais escassa nestas partes do sul, mas que, do outro lado das montanhas, mais precisamente a oeste da Floresta Circundante, se encontra abundantemente. Por isso, felizmente tenho conseguido cultivá-la aqui.

   - O senhor já esteve do outro lado das Montanhas Correntes? - Ercut perguntou no momento em que depararam com uma figueira frondosa erguendo-se no centro da estufa, a qual estava parcialmente rasgada pouco antes da divisa dos galhos, como se tivesse sido atingida por um raio, o que fazia sua copa, ainda vigorosamente verde, debruçar-se sobre o chão; havia no seu tronco, numa fissura profunda formada por duas raízes, uma porta em arco. - Oh, sim - disse Torrororro abrindo a porta. – ‘Aqui, vamos.’ - E, retomando o que dizia antes: - Mas uma única vez e há bastante tempo - se é que se pode chamar ‘aquilo’ de atravessá-las, pois estive apenas nos vales dos Precipícios Escuros, a leste. Não cheguei propriamente a descer suas encostas, não até o solar da Floresta Circundante. O que acontece com a planta, se é por isso que pergunta, é que, com a ajuda de alguns bons pássaros consegui uma porção generosa da sua semente.

   Os três passaram meio arqueados pela porta, descendo um lance rápidos de degraus cobertos de turfa que os levou a um espaço amplo e arejado, como uma pequena caverna escavada sob as raízes da árvore, que como cobras nervosas deslizavam pelas paredes. Os restos do que parecia ter sido um fogo volumoso jaziam num misto de cinzas e brasas no interior de uma lareira baixa de tijolos, por sobre a qual, assim como no chão, atapetando-o e tornando-o fofo aos pés, crescia a mesma turfa dos degraus.

- Sejam bem-vindos, amigos. Fiquem à vontade - disse Torrororro antes de desparecer e deixá-los a observar sua curiosa casa.

   A sala cheirava a umidade. Mas não era um cheiro desagradável; era como o cheiro de terra molhada, ao qual se juntava o aroma desordenado de ervas e raízes, folhas e mel, numa mistura que tornava o ar de algum modo mais agradável. Era como se se estivesse num bosque, de qualquer forma, só que debaixo da terra, pensou Beirand.

Torrororro, que havia desparecido pela abertura ao lado esquerdo da lareira ( pois havia outra ao direito ) logo reapareceu por ela de novo segurando um castiçal com duas velas de cera de abelha, grandes e grossas. Usou-as para ascender muitas outras espalhadas pela sala; sobre a lareira e em suportes nas paredes, numa pequena mesa redonda atulhada de tudo quanto é tipo de coisa e sobre prateleiras onde se enfileiravam muitos potes, caixas e vasos, feitos de vidro, madeira e barro.

   - Eu já volto - disse desparecendo outra vez, retornando em seguida com duas cadeiras em uma das mãos e uma banqueta na outra, atabalhoado. Ercut o ajudou pegando as cadeiras, que a seu pedido foram postas frente à lareira, onde outra maior e mais parecida com uma poltrona já se encontrava. - Acomodem-se. Eu já volto.

   Dessa vez voltou com uma braçada de lenha, que com um som abafado jogou sobre as cinzas. Tateou-se nervosamente a procura de algo, remexendo nas bolsas das quais ainda não se despira e até mesmo debaixo do chapéu-bosta-de-pássaro.

   Enquanto o homem pelejava para ascender o fogo e Ercut e Beirand sentavam-se, Accon foi perambular pela sala. Parou diante das prateleiras, inspecionando-as. Descobriu que tudo que havia ali estava cuidadosamente organizado e nomeado numa letra apressada mas legível. ‘Alecrim’, ele leu, ‘aspargo, absinto, babosa, bálsamo, camomila, carrapato, calêndula, dente-de-leão, erva-da-névoa, erva-cidreira, gengibre, noz-moscada, noite-azul, noite-sempre-negra, osso-da-terra, raiz de árvore branca dos bosques do sul, raiz de pinheiro negro, raiz-maldita' e mais uma infinidade, com alguns trazendo ainda breves descrição e advertência: ‘arnica: eficaz contra contusões, reumatismo e dores musculares; bálsamo: ótimo cicatrizante; barba de salgueiro velho: colhida do mais velho salgueiro dos bosques do sul: eficaz contra a insônia - mas se usado erroneamente ou em alta quantidade pode causar o "sono eterno"; cânfora: ideal para diminuir a ardência de picadas de insetos; casca de angico: se amassado junto a erva-da-névoa, ter-se-á um unguento poderoso contra mordida de troll ou picada de cobra; raiz ressequida: fervida junto a erva-da-névoa servirá para dores intestinais - ingerir frio e evitar contato do vapor com os olhos; raiz úmida: eficaz contra dor nos olhos - ideal mastigar antes do desjejum.’ Depois voltou-se para a lareira, agora fulgurando numa chama azulada e enchendo a sala com um aroma ameno, onde estudou os livros amontoados sobre o seu console, volumes empoeirados encadernados em couro. Apanhou um a esmo e leu na contracapa, na mesma letra apressada das prateleiras ‘Unguentos, chás e banhos’, e, devolvendo-o entreabriu outro, ‘As abelhas, o pólen e o mel', e depois desse mais um, 'Venenos para curar', mas foi com a cara enfiada em ‘Ervas e raízes milagrosas' que ele foi juntar-se aos outros frente ao fogo, absorto.

   - Vocês devem estar cansados - disse Torrororro, que àquele hora já se livrara do chapéu e da armadura de bolsas, deixando à amostra as têmporas altas e recolhidas e os argutos olhos negros mais visíveis, brilhando ao fogo. - Ora, é claro que estão! - reprimiu-se bruscamente. O trio notou que, por detrás da aparência desleixada e antinatural o homem não era, de longe, assim tão velho quanto isso fazia parecer num primeiro momento. - Descalcem os pés e sintam a turfa, não há coisa melhor. - E foi somente quando disse isso que Ercut e Beirand repararam que ele mesmo estava descalço, os grandes pés esguios deslizando no tapete natural. - Há vasos com água naquele quarto - apontou para a porta à direita da lareira - , acaso queiram se lavar. Eu vou preparar um chá.

Como Accon estivesse completamente imerso no livro permanecera inerte, sem parecer ouvi-lo. Ercut e Beirand, por sua vez atentaram às suas palavras e jogaram as botas pesadas a um canto, afundando os pés na turfa fresca e sentindo, satisfeitos, a quentura do fogo. Depois, cada um segurando um castiçal com duas velas, atravessaram a porta. O quarto parecia ser algum um tipo de depósito, mas não chegava a ser tão grande quanto a sala. Ali havia, além de uma pilha de toras grossas de lenha para a lareira, alguns barris gordos e bacias e potes de barro, cheios de água, onde eles lavaram as mãos e os rostos.

   Quando retornaram à sala ela recendia ao aroma entorpecente do hortelã.

   Torrororro retirou da lareira a panela fumegante e serviu-lhes grandes canecas espiralando a fumaça cheirosa. Providenciara também grandes pedaços de bolo de sementes e torradas com mel, os quais eles realmente acharam apetitosos.

- O que o senhor acha do uso de runas para medicação? - perguntou Accon bebericando da sua caneca e soerguendo os olhos do livro, notando, de supetão, que os outros, assim como seu anfitrião, estavam descalços. - Por quê estão descalços? – franziu as sobrancelhas intrigado, ao que os outros apenas riram.

- É um processo extremamente delicado - e perigoso! - respondeu-lhe Torrororro, ainda de pé e parecendo surpreso com a pergunta do rapaz, pois olhou-o cheio de interesse - , que se feito errado, ainda que minimamente, pode acarretar consequências desastrosas. Além do mais, o estudo das runas é por demais difícil e complexo.

- Isso lá é - comentou Ercut. - Até tentamos por um tempo, mas acabamos por desistir, não é mesmo, Beirand?

- Ah, se tentaram! - ironizou Accon displicentemente fuzilando os dois com os olhos. - Como era mesmo que chamavam...ah, sim, 'tagarelice!' Somente aguentavam aquela tagarelice porque depois vinham as aulas de espada e corpo-a-corpo.

- Irmão - disse Ercut descaradamente insinuando um sorriso - , você usa a cabeça e nós, os músculos; não é assim que sempre foi?

- Cala a boca, Ercut! - ralhou Accon sem energia. - Quero ver só no dia em que seus músculos não funcionarem...

- Você estará lá - retorquiu Ercut com uma golada de chá que inevitavelmente queimou sua língua - , não se preocupe.

   - Quer dizer então - disse Torrororro exultante, indo sentar-se e trocando o ar inquieto de quem pretendia fazer alguma coisa pela expressão animada de uma criança que espera ouvir uma história fascinante - , que vocês realmente estudaram os segredos das runas! Isso é esplêndido!, e ultrajante, porque são pouquíssimos os que têm essa oportunidade: um mestre com tais aptidões não se encontra em qualquer lugar.

- Sim - concordou Accon - , Bertomurl é mesmo um em mil.

- Bertomurl - repetiu Torrororro hipnoticamente, fitando-o com os olhos esfomeados. - Contem-me, amigos, de onde vêm?

- Somos filhos de Tazary Ewstrufh - disse Ercut, arranhando a língua sapecada entre os dentes - , Senhor das Colinas Pardas; e é de lá que viemos.

- Tazary Ewstrufh - anuiu Torrororro. - Sim; O-Homem-de-Além-das-Montanhas...’oh!', sinto muito por sua perda - completou pesaroso.

- O senhor o conheceu? - perguntou-lhe Beirand.

- Infelizmente não tive a honra - disse ele. - Mas duvido que haja alguém em Eifiralia que nunca tenha ouvido tal nome. - E, como se buscando afastar a sombra das últimas palavras arfou, estentóreo: - Pelos ‘Onze!', então são vocês, os famosos caçadores de trolls, expulsadores de dragões e assassinos de serpentes, a bem-aventurança de donzelas infelizes!

- Nem todas as histórias são verdadeiras - replicou Ercut sorrindo à excitação do homem. - Nunca lidamos com um dragão antes ou resgatamos donzelas infortunadas - quer dizer, depende-se do ponto de vista. - Beirand arreganhou um sorriso cumplice.

- Bem - disse Torrororro - , certamente vocês devem ter alguma experiência para compartilhar, quero dizer, no que diz respeito ao uso das runas? - Apesar de soar como se falasse com os três, era apenas sobre Accon que ele deitava um olhar incisivo.
   O rapaz falou:

   - Já utilizamo-las algumas vezes, sim. A última há alguns ciclos, contra uma serpente das árvores. A criatura estava aterrorizando um vilarejo a oeste...

   - Sim - atropelou-o Torrororro inclinando-se na cadeira - , a Vila Ensombrada. Ouvi sobre o caso, e dei, eu mesmo, uma olhada na coisa, depois de vocês darem cabo dela, é claro. Mas um monstro daqueles...O que usou para o encantamento?

   - ‘O Círculo do Ciclo Quaternário' - disse Accon, agora soando tão entusiasmado quanto o próprio Torrororro, o rosto banhado pelas chamas - e as propriedades do fogo e da terra unidos à essência de verdizina e osso-da-terra. Para o fluído de energia central utilizei tartz, de modo que às linhas de concentração...

   - Desculpe, senhor Torrororro - Ercut interrompeu Accon abruptamente, ele e Beirand sentindo-se afogar num torpor de tédio profundo conforme aquela conversa criava pernas - , é que, bem, o senhor disse ter...

   - Não seja grosseiro, Ercut! - bradou Accon irritado, a carranca de descrença fulminando o irmão, que por sua vez o olhou dissimuladamente assustado, com o ar atordoado e levemente chocado de alguém que não entende o que fez de errado.

- Só estou curioso para saber o que o senhor Torrororro tem para Beirand - defendeu-se Ercut buscando o apoio de Beirand, mas o grandalhão, diante da fúria de Accon, continuou de olhos fixos no fogo, com ar desentendido e fingindo não notá-lo.

- Mas que atencioso! - disse Accon sarcasticamente, parecendo desconfortável na cadeira, como se estivesse prestes a avançar sobre o irmão. - E você, claro, não podia ter esperado um minuto, sequer. Nem o próprio Beirand está assim tão afoito.

No entanto não era verdade, porque desde que entrara na sala Beirand estivera tenso, imaginando o que o homem tinha assim de tão importante para ele ao ponto de quase arrastá-los até ali. E apesar de não demonstrá-lo, estava aliviado por Ercut apressar as coisas.

- Oh, sim! - exclamou Torrororro pressuroso, levantando-se com um pulo, os olhos brilhando, esquecendo completamente o assunto das runas. - Sim, sim! Já estava me esquecendo do motivo de tê-los trazido aqui. Vou buscá-‘la’, Beirand. - E meteu-se na porta à esquerda da lareira outra vez, desaparecendo por um tempo.

   Logo voltou segurando uma pequeno embrulho negro, e, precipitando-se animado até Beirand começou a desdobrá-lo devagar, enquanto Accon e Ercut inclinavam-se curiosos nas cadeiras.

- Aqui está, Beirand! - anunciou solenemente, revelando uma harpa luzidiamente negra, em cujo caixilho estavam gravadas imagens simbólicas que se entrelaçavam; possuía vinte finíssimas cordas, prateadas como sua cravelha, habilidosamente trabalhada em formato de folhas.

Beirand tomou o instrumento nas mãos e pôs-se a estudá-lo, fascinado, enquanto Torrororro, ainda de pé de diante dele, frangia o rosto num largo sorriso por detrás da barba cinzenta, como se a cena o deleitasse.

- Isto é...?- ia dizendo Beirand depois de um tempo deslizando os dedos pela estrutura da harpa, sentindo suas cordas e tocando seu caixilho muito negro, onde queimava o brilho da lareira, mas as palavras morreram-lhe na boca e Torrororro, no mesmo instante, completou: - ‘Terraneris.’ Sim, a Árvore dos Filhos de Etyo. E não podia ser diferente, porque seu antigo dono, um amigo muito querido, era como você, um descendente de Etyo Tiofyer.

    Accon e Ercut se inclinaram ainda mais nas cadeiras, ávidos por olhar melhor o instrumento.

    - Quol Voz Trovejante - prosseguiu Torrororro - , era como o chamavam naquele grupo errante, ao qual me juntei depois que...- Emudeceu instantaneamente, assumindo um olhar vago para as chamas, como se arrebatado por alguma lembrança remota e muito distante; e mais uma vez a alegria, junto com qualquer resquício da excitação que há pouco exibia, pareceu deixá-lo completamente. Então, com a expressão tensa desanuviando-se por meio de um suspiro longo e cansado, terminou. - Depois que perdi minha família.

Os três o olharam surpresos e se deram conta àquela hora de como, sem a animação habitual, o homem era muito velho e abatido. Antes que pudessem falar, no entanto, ele continuou.

- Aquele era um grupo de homens negros, por isso não pensem que Quol era o único descendente de Etyo Tiofyer, ou o único cantor - não mesmo! Era um grupo grande, e havia nele mulheres e crianças, e apesar de nunca pararem num lugar tempo suficiente para chamarem de casa, eram as pessoas mais felizes que já encontrei. Receberam-me afetuosamente, e em seu meio eu esquecia-me da minha dor, principalmente com a chegada da noite, quando a cantoria irrompia, tão profunda! Aquela música poderia, ao seu tempo, curar qualquer dor, restaurar a esperança. - Suspirou cansado de novo, como se nem se desse conta disso. - Mas, infelizmente não fiquei com eles o tempo necessário para minha cura, então fui-me embora com uma cicatriz entreaberta, logo depois que Quol falecera.

- Mas - Accon, assim como Beirand e Ercut fitando-o atentamente, se apressou antes que ele pudesse continuar, levemente intrigado - , senhor Torrororro, àquele tempo o senhor era Atlae ou Torrororro?

- Um suspiro entre um e outro - respondeu Torrororro vagamente depois de um tempo, ainda com o olhar parado nas labaredas nervosas. - Com a morte de Quol - retomou em tom mais seguro e presente - , a quem eu tinha muito me apegado e amado com a um irmão, mesmo com o pouco tempo em que convivemos juntos, fiquei atordoadamente arrasado. O fato de não poder ter feito nada para ajudá-lo era o que mais me corroía, pincipalmente por que a história se repetia.

- Sua família, o senhor quer dizer? - indagou Beirand, os dedos roçando distraidamente a harpa, repousando no seu colo.

- Sim - confirmou ele olhando para o grandalhão, mas foi com os olhos outra vez voltados para o fogo que prosseguiu. - Minha mulher nasceu com os pulmões fracos, o que, com o tempo, respirar para ela se tornou um sofrimento. Quando engravidou do nosso único filho ficamos receosos de que a criança pudesse vir a herdar a doença; contudo, para nossa infelicidade, com o nascimento isso apenas se confirmou. Tudo piorou quando ela falecera, isso três ou quatro meses após dar à luz. Entrei realmente em desespero; jamais sentira-me tão confuso e impotente. A criança era quem me fortalecia, apesar de tudo, pois aqueles foram dias sombrios. - Fez um pausa, os olhos congelados e cingidos, como se visse além do fogo. - Por isso, é de se imaginar que com sua morte eu também deixei, de certo modo, de estar vivo.

   - Voits, apesar disso, crescera ainda até os quatro anos. - Ao dizer isso calou-se por um instante de novo, e sorrio. Não um sorriso jovial, tampouco triste; era um sorriso de saudade, o qual trouxe consigo uma lágrima solitária, há muito reprimida. Então terminou, a voz dissolvendo-se num lamento lânguido e subjetivo: - Um garoto cujo físico frágil não pôde suportar seu espírito vigoroso.

   No silêncio que se seguiu, Accon, Beirand e Ercut ficaram a fitar o bruxulear sutil da lareira, sem encontrar o que dizer. Torrororro, no entanto, foi quem primeiro voltou a falar, agora com a voz de novo mais viva, conforme abandonava, ele mesmo, a visão das chamas.

   - Assim, dediquei-me a encontrar cura para tanta calamidade. E digo-lhes que, se tivesse o conhecimento que obtive desde então, as coisas teriam sido diferentes. Mas, confesso-lhes também que isso não é nenhum conforto. - E levantou-se desenvoltamente, caminhou até a pequena mesa e apanhou alguma coisa, que o trio soube se tratar de um longo cachimbo de barro assim que ele retornou à cadeira, ao lado da qual permaneceu de pé, ocupado em preparar o fumo.

   - Mas... - deu uma longa sugada no cachimbo, afundando as bochechas e ascendendo-o num vermelho estalante, prosseguindo logo em seguida, depois de uma profunda e relaxante baforada: - livremo-nos da sombra do passado. Beirand, desentupa nossos ouvidos! - exclamou vivaz, e, como se tomado de repentina dúvida: - Pelos ‘Onze!', presumo que você toque harpa?

   - Gostaria de saber o que Beirand não toca - comentou Ercut, dilacerando uma torrada.

   - Antes - disse Accon para Torrororro - , se o senhor não se importa, como Quol morreu?

   Todos o olharam, esperando-o tirar o cachimbo da boca e libertar o jato de fumaça cinzenta.

   - Quando o conheci - disse ele - , Quol tinha leves dores de cabeça, que o acometiam em intervalos longos e que, por isso, não mereciam especial atenção, até por que não chegavam a ser realmente um problema, ou um empecilho. Mas isso mudou, radicalmente. As dores passaram a chegar simultaneamente, com o triplo de intensidade, tão severas que muitas vezes arrancavam-lhe lágrimas.

   - Numa manhã, na qual íamos levantar acampamento, o encontramos numa das carroças, morto. Ainda agarrava-se à sua harpa, que tocara magicamente na noite passada, impondo à música o fulgor de seu espírito - uma despedida à sua altura!

   - Sua esposa e seus dois filhos, rapazotes tão habilidosos e admiráveis quanto o pai, permitiram-me ficar com a harpa, uma lembrança física sua. - Virou-se para Beirand. - Mas seria um sacrilégio que continuasse guardada, muda, diferentemente de como era em suas mãos. Isso vai totalmente contra o seu ser; ele não se agradaria. E, além do mais, a melhor lembrança que tenho de Quol Voz Trovejante guardo no meu íntimo, tão profunda que às vezes sinto sua presença.

   No instante seguinte estavam todos de olhos sobre Beirand.

   O gigante negro posicionou a harpa contra o peito e estirou-se na cadeira, cruzando os pés descalços sobre a turfa, à vontade. Fechou os olhos e acariciou as cordas prateadas, enchendo a sala com um som brando e relaxante, daqueles que penetram fundo no íntimo, tocando até mesmo o mais brutal dos homens.

   Torrororro, que virara de costas para a lareira e ficara defronte à ele, imitou sua disposição, afrouxando-se na cadeira e descansando os pés na turfa enquanto fumava, com ar satisfatório, seu cachimbo. Seus olhos refulgiam intensos.

   Accon e Ercut também deixaram-se relaxar, ou foram naturalmente levados a isso.

   Enquanto Beirand tocava eles sentiram-se adormecer intimamente, morrendo para o mundo lá fora. Apagaram da mente qualquer pensamento ou preocupação. Não havia passado ou futuro, apenas o momento presente, intenso e infindável.
- “Etyo então apanhou seu alaúde” - ouviu-se a voz de Torrororro após um tempo, num tom etéreo e remoto que misturou-se em perfeita harmonia ao som da harpa, como se recitasse um poema; e conforme se prolongava, todos, até mesmo Beirand enquanto tocava, viam as cenas que suas palavras narravam, projetando-se naturalmente em sua cabeça - , “empertigou-se na cadeira e mostrou aos presentes sua destreza, arrebatando-os com o poder da Música dos Filhos de Etyo. Seus olhos, profundamente negros, estavam agora fechados, todo o seu ser voltado e concentrado para o instante vigente. Do outro lado seu adversário, ninguém menos do que o próprio Ilol, o observava atentamente, deleitando-se com o que via; sua vez já passara, quando tocou tão esplendidamente como somente um ezjur haveria de fazê-lo. Entrementes, Etyo Tiofyer não vacilara, e provava agora que estava à altura do desafio. Sua música era arrasadora, e enquanto lhe dava liberdade os espectadores sequer respiravam, de tão maravilhados e absortos. Vencera os três temas propostos e ergueu-se imponente, orgulhosamente satisfeito, numa branda reverência ao coro estridente de palmas que irrompeu pelo salão. O júri, então, pronunciou-se para revelar sua vontade. Apesar de, por meio de um placar acirrado Etyo Tiofyer não ganhar, fora ele quem realmente saíra vencedor, uma vez que foi, pelo seu adversário, presenteado com o seu próprio instrumento, um alaúde alvo e levíssimo, o qual ele batizou de Avenls. Do som deste nascera Terranerys, árvore de tronco extremamente negro e folhagem prateada que tornou-se o símbolo da sua Casa.”

   Beirand prolongou-se ainda por algum tempo, ao que os outros permaneceram silenciosos, embevecidos sem realmente enxergar o que fitavam, porque seu olhar ia muito mais longe, levando-os a lugares longínquos e desconhecidos.

   Por fim, quando o que saía da harpa era apenas um lamurio vago que ia desaparecendo lentamente, Accon falou num tom sonhador, como se o último momento tivesse feito-o resgatar o pensamento:

- ‘Há somente duas coisas que podem dominar um dragão: a Música dos Filhos de Etyo e seis pedras de diamante negro.’

- Ou pelo menos é o que se diz por aí - replicou Beirand brandamente pondo a harpa novamente no colo, observando-a.

- Você não acredita, Beirand? - perguntou Torrororro endireitando-se na cadeira.

- Em histórias ou em fantasias poéticas? - disse Beirand encarando-o por um instante e voltando os olhos para a harpa.

- Na Música dos Filhos de Etyo - respondeu Torrororro, fulminando-o seriamente - , na sua música.

Como Beirand permanecesse cabisbaixo, sem falar, ele continuou, uma centelha ardendo em seus olhos.

- Os poetas podem exagerar, mas é a forma de expressarem a sua arte, todavia, eles têm que basear-se em algo. Quanto às histórias, são a maneira de o antigo chegar à nossa geração - e há mais verdade nelas do que pensa!

   Recostou-se de novo na cadeira e deu mais uma puxada no cachimbo, que chiou crepitante. Esperou a fumaça se dissipar e disse, com o mesmo olhar intenso.

- Diga-me, Beirand, acaso você já tentou recuperar sua visão perdida por meio da sua música?

- Sim - confessou Beirand num suspiro depois de um instante, voltando a fitar as chamas. - Mas é mais difícil do que parece.

- É claro que é - aquiesceu Torrororro complacente, parecendo aliviadamente contente com a resposta; e estudando com mais interesse a palidez ao redor do olho frio do rapaz, comentou: - Uma cicatriz dessas...Como você a conseguiu?

- Não me lembro - respondeu Beirand laconicamente.

- Quando - interpôs Ercut - meu pai encontrou Beirand, ele não se recordava de onde viera ou como ficara cego. Parecia ter andado um bocado, porque estava exaurido e castigado pelo sol.

- Bem - disse Torrororro à Beirand - , você sabe que uma marca dessas só pode ser feita por uma...

- Criatura fria - completou o grandalhão antes que ele terminasse.

Torrororro ficou observando-o, levantou-se e postou-se diante dele, pondo uma mão magra em seu ombro.

- Como já disse - disse em tom ameno - , soube, assim que o vi, que os ventos o mandaram. Esta harpa servirá - se você escolher - , mais que qualquer coisa, para lhe dar respostas e levar-lhe embora a cegueira - não apenas no sentido fisiológico! - lembrou com um vago levantar de dedo. Em seguida advertiu, concisamente: - Mas, chegada a hora, você deverá estar preparado para a verdade, que quase nunca é gentil conosco.

Lá fora a chuva enfim começara a cair, de modo que agora eles podiam ouvi-la surrar gentilmente o bosque. Accon, que acabara de enfiar a cara no livro outra vez, tivera um sobressalto ao pensar na estufa, mas Torrororro o confortou dizendo que, a não ser que tivessem uma chuva de granizo ( e esses teriam que ser dos grandes ) , suas plantas estariam seguras.

Beirand, que voltara a dedilhar distraidamente a harpa, tocou ainda por um bom tempo, a pedido de Torrororro, que sugeriu-lhe, esperançoso e muito entusiasmado, uma porção de canções que ouvira Quol tocar. O fato de o grandalhão parecer conhecer boa parte delas não podia tê-lo deixado mais feliz.

   Ercut se esparramara na cadeira preguiçosamente, onde sentiu-se envolver pelo som suave da harpa junto ao aroma confortante da lareira; não demorou e logo imergiu num sono profundo e silencioso.

   Sonhou.

   “Um grande lobo cinzento corria veloz num bosque escuro, as formas sombrias das árvores passando como vultos agourentos. Sentiu a respiração quente e chiante da criatura, assim como a contração de seus músculos e o chão relvado sob suas patas. Enxergou através de seus olhos argutos, apoderando-se da sua forma.

   “Agora ele corria veloz, sentindo as patas contra o chão e o vento frio massageando seu pelo espesso. Chegou à uma clareira, onde parou e farejou o ar. Não havia estrelas ou lua, somente uma cortina de céu negro. Num instante se deu conta de um vulto branco sobre a grama à sua frente, refulgindo. Se aproximou vagarosamente e parou a um metro deste, que revelou-se tratar de uma mulher, uma jovem de pele alva e cabelos muito negros. Ela virou-lhe o rosto e sorrio. A princesa Ervin. Sua mãe. Reconhecera-a imediatamente. A mesma mulher que tantas e tantas vezes lhe aparecera no mesmo sonho. O colar de prata caía-lhe delicadamente sobre o peito, brilhando com a mesma intensidade dos seus olhos, verde-jovens.

“Então ele ergueu-se sobre as patas traseiras, e no instante seguinte já não era mais um lobo, e sim, ele mesmo. Deu mais um passo e olhou nos olhos da mãe, mas eles já não sorriam, seu brilho encoberto por lágrimas que agora fluíam pelo seu rosto. Ele quis perguntar-lhe por quê chorava, mas parecia ter-se esquecido de como falar. Tentou erguer a mão e tocar seu rosto, mas o corpo não obedeceu ao seu desejo.

   “Então”, ele ouviu Bertomurl dizer, “como vai ser, eu preciso de uma mãozinha aqui, senhor lobisomem”. E no mesmo instante formas difusas irromperam pela clareira, tornando a noite ainda mais escura. “Então, como vai ser”, a voz de Bertomurl ribombava em seus ouvidos, “eu preciso de uma mãozinha aqui, senhor lobisomem.” Sua mãe caiu ao chão, desesperando-se sobre as vestes brancas. Ercut ouviu seu choro, mas continuou imóvel, incapaz de se mexer. Tentou gritar e mais uma vez a voz não chegou-lhe à boca. “Então, como vai ser”, Bertomurl continuava a dizer, “eu preciso de uma mãozinha aqui, senhor lobisomem.” Os vultos se proliferaram, sufocando-o e levando embora a visão de sua mãe. Num sobressalto, Ercut viu, de início com um rápido assovio e depois lentamente muda, uma flecha vindo em sua direção. “Então, como vai ser, eu preciso de uma mãozinha aqui, senhor lobisomem”, ouviu Bertomurl dizer mais uma vez quando sentiu o coração palpitar e num átimo a flecha o alcançar, arrancando-lhe um rosnado estridente que estremeceu a noite.”

   Ercut acordou bruscamente, o coração acelerado.

   Levou ainda um tempo para voltar à realidade; olhou à volta, momentaneamente atordoado: Accon e Torrororro sentavam-se à mesa, afastados da lareira, que agora queimava mais delicadamente; mas não havia sinal de Beirand em parte alguma.

Com uma careta forçou o corpo enrijecido a se levantar. Andou até a mesa e espiou os dois homens, entretidos numa discussão acalorada, debruçarem-se sobre uma pilha de livros e pergaminhos, no meio dos quais folhas e raízes e caixas e potes das prateleiras se espalhavam desordenadamente.

- Onde está Beirand? - perguntou seguido de um bocejo, sem conseguir evitar um esgar de censura à diversão dos dois.

- Oh, olá, Ercut - disse Torrororro por sobre o ombro, notando-o de esguelha ali de pé, a escancarar a boca ( Accon permanecera a examinar minuciosamente uma folha de pergaminho amarelada, sem parecer se dar conta dele, ou simplesmente ignorando-o ). - Está lá fora - respondeu ele - ; tomara que fortalecendo as plantas com sua música - comentou frangindo os olhos num sorrindo. - Venha, junte-se a nós. Há mais...

   - Obrigado! - Ercut se viu dizendo mais depressa do que pretendia, e, sem querer dar tempo para que o homem formulasse qualquer impressão, concluiu no mesmo segundo: - Preciso de ar fresco! Vou procurar Beirand. - Parecera funcionar, porque na mesma hora Torrororro virou-se distraído para Accon, que fazia qualquer comentário sobre bálsamo de cerejeira e resina de erva-maldita, ou algo assim - ele não se demorou para ouvir.

   Subiu os degraus e atravessou a porta, sentindo o ar frio da noite envolvê-lo; foi apenas quando se deu conta de que ainda estava descalço. Mas, com a turfa fofa ainda corresse muito além das raízes da árvore, não se incomodou.

   A chuva descortinava-se assente sobre as árvores lá fora, fazendo-as chiar. Ercut observou-a bater contra o teto da estufa e viu, fascinado com a boca entreaberta, que Torrororro tinha razão.

   Ao invés de a água passar pela teia de aranha, desmanchando-a como seria de se pensar, ela parecia transformar-se em minúsculas partículas prateadas que infiltravam-se por sua estrutura, preenchendo cada pequenina fenda aberta entre o traço das suas linhas. Ercut ficou imaginando como não seria tal fenômeno sob a luz do dia, captando, em lugar da palidez da lua, toda a quentura dos raios de sol.

   - De tirar o fôlego, não é mesmo? - Beirand estava recostado contra as raízes da árvore, também olhando para o teto, com ar abobado, a harpa abafada contra o peito, em posição de toque.

Ercut foi sentar-se ao seu lado, e para sua surpresa viu que não fora o único a esquecer de calçar as botas.

Ficaram os dois olhando para cima, embasbacados, as cabeças descansando na árvore.

- Um belo presente, hein? - comentou Ercut insinuando um rabo de olho para a harpa.

- Realmente inseperado - disse Beirand. - Quem poderia imaginar?

Ercut percebeu na sua voz uma ponta de entusiasmo.

   - Mal tiramos os pés de Eifiralia - disse ele com um muxoxo - e as surpresas já começaram a nos acometer.

   Ficaram em silêncio por algum tempo, no qual ouvia-se apenas o rumorejar da chuva.

   Ercut foi quem falou primeiro.

   - Por quê você nunca me contou - disse ele - , quer dizer, que andou tentando recuperar a visão?

   - Ah, ‘isso!’- disse Beirand num tom de quem faz pouco caso do assunto. - Foram apenas duas vezes; é extremamente exaustivo! - exclamou taciturno. - Como tentar mover coisas com o pensamento.

   - Pretende tentar novamente? - indagou Ercut virando-se para ele, emendando, antes que tivesse uma resposta, outra pergunta. - E quanto à sua infância, procurará lembrar-se ‘também?'

   Beirand suspirou.

   - Não sei muito bem - confessou ele, agora olhando distraído para a harpa, que voltara a ter no colo. - Bem, é como Torrororro disse, pode ser que o que quer que se tenha para descobrir não seja lá tão ‘bom' assim...

   - Contanto que você esteja preparado - ponderou Ercut - , não vejo problema.

- Aí é que está - disse Beirand sem emoção, estirando as pernas com um suspiro abafado - ; será que estou?

- A não ser - disse Ercut virando-se para olhá-lo - que você queira passar a vida toda indiferente a quem você é realmente, deve estar. - Suspirou impaciente: - Beirand, olhe para mim! A melhor coisa que Accon fizera foi me contar sobre minha origem, e, apesar de tudo que ouvi não passar de uma história de ódio e morte, isso me motivou de alguma maneira. Você não pode fugir; nem deve ter medo.

   Fez-se silêncio de novo. Ambos voltaram a descansar as cabeças na árvore, retomando a visão do teto da estufa, respirando lentamente.

   Ercut foi quem primeiro o quebrou de novo.

   - Há pouco, sonhei outra vez com a minha mãe - revelou.

   Beirand deteve-se nele, curioso.

- O mesmo sonho? - quis saber.

- Não - respondeu Ercut. - Dessa vez fora diferente. Ela estava sozinha, e eu estive muito perto de tocá-la, mas não pude. - Vagueou o olhar por um instante, mudo. - As sombras nos engoliaram - prosseguiu - , e delas veio uma flecha em minha direção, então eu...- Hesitou, sem saber ao certo o que dizer. - Então eu acordei - concluiu. Mas seu tom era sombrio.
   Beirand parecera notar, porque o olhou incisivamente.

   - A cada momento que se esvai, Beirand - Ercut se adiantou veemente, segurando o olhar do amigo - , sinto uma inquietação crescente dentro de mim. Como se fosse um chamado. Sim. É exatamente com o que se parece. Tanto que, agora sei com certeza, mesmo sem a morte prematura de nosso pai e as revelações de Accon, eu não ficaria por muito mais tempo surdo à ele. O Norte me chama!

   - E nós iremos até ele - confortou-o Beirand, pousando uma mãozorra em seu ombro.

Quando voltaram à sala sob a árvore, Accon estava enfurnado dentro do seu saco de dormir, num sono quieto defronte à lareira, agora esmaecendo junto a um leito de cinzas. Seus próprios sacos estavam também estendidos ao lado dele.

   Antes que se deitassem Torrororro veio ao seu encontro, sob movimentos tão sutis que parecia estar flutuando.

   - Vim - disse num sussurro - desejar-lhes boa noite, amigos. Espero que estejam bem? - E à confirmação deles falou, antes de desaparecer outra vez, tão silencioso quanto chegara: - Bom, durmam bem, então.




    




   




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