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Fragmentos
João Carvalho

Resumo:
O texto trata do medo que temos de novas interações, das oportunidades perdidas e de legado.

Fragmentos

Todos os dias ele entra por aquela porta barulhenta de vidro e bordas de alumínio. O sino tilinta, avisando que um novo cliente chega ao café. Todos os dias carrega uma pasta e um paletó sobre seu antebraço, formando um perfeito ângulo de 90º. Sempre com o cabelo grisalho e ralo perfeitamente penteado, a barba meticulosamente aparada. A imagem que todo homem de sucesso passa, e deve passar, aos outros. Estende o jornal matinal à sua frente, cobrindo todo o seu campo de visão com notícias a respeito das crises política e financeira.

O vejo passar por aquela porta todos os dias e pedir exatamente a mesma coisa. Tapioca com ovos fritos e café sem leite. Sua voz é grave, a voz que é semelhante, possivelmente, a dos deuses do Olimpo. Acho graça ao pensar que as únicas palavras que ouvi daquele homem foram: ovos, tapioca, café e obrigado. O café ficava na praça João Lisboa, próximo a uma agência da Caixa Econômica e da Academia Maranhense de Letras. Tinha um clima agradável de uma São Luís colonial.

Talvez a postura ereta e as poucas palavras tenham sido causadas por uma vida difícil, muitas lutas e perdas. Dizem que cada perda, independentemente do que seja e de sua importância, leva consigo uma fatia do que éramos, nos remodelando com o passar dos anos. Aquele homem era só o fragmento de um ser, com muitas fatias subtraídas pelo tempo.

Jamais perguntei sua profissão ou seu nome, ele sequer fala ao telefone, talvez nem o tenha. Pela sua postura pode ser um homem de negócios, um banqueiro, editor de um grande jornal ou um jurista prestes a se aposentar. Apesar da curiosidade, das oportunidades, eu jamais saberei. Receio em importuna-lo, sou um reles garçom. O que teria a aprender comigo? Ele, por outro lado, seria fonte de grande aprendizado, além de, claro, permitir que todas as minhas dúvidas fossem respondidas.

Os dias seguiram marcados pela mesma rotina, vários jornais foram lidos, incontáveis cafés sem leite foram servidos, pouquíssimas palavras foram ditas. Mas num dia pouco movimentado de sexta-feira aquele homem não passou pela porta barulhenta do café. Sua ausência se repetiu por dias a fio. Finalmente aquele senhor teve o descanso merecido, deve ter conseguido sua tão desejada aposentadoria, pensei. Poderia comer tapioca com ovos na hora que desejasse, e no conforto de sua casa.

Pensar daquela maneira me fez rir, aleguei-me com a vitória do meu “amigo”, a quem, apesar de ter dirigido poucas palavras, desejava a felicidade. Infelizmente não soube através dele seu nome, sua história de vida e seus ensinamentos, mas em breve saberia.

O café sofreu algumas mudanças, algumas perdas. Foi remodelado. O movimento havia aumentado drasticamente em decorrência das reformas, tinha, talvez, o dobro de mesas para atender. Estava satisfeito com o aumento das gorjetas, o que poderia ajudar a abrir minha padaria. Os dias eram de prosperidade, a felicidade transbordava em todo o café.

Ao final de um dia comum, arrumando as mesas e cadeiras, encontrei um exemplar de jornal, o mesmo lido pelo meu “amigo”. Será que ele leu esta edição? Poderíamos discutir a respeito da reforma da previdência ou das próximas eleições se soubesse onde encontra-lo. Apanhei o jornal amassado sobre o acento de uma cadeira, endireitei os cadernos e o abri numa pagina aleatória.

Empalideci de pano, perdi completamente a cor. Vi o rosto do meu “amigo” estampado no caderno de variedades, ao lado de letras garrafais com os dizeres “morre aos 76 anos o Dr. Ademar Dutra”. Câncer, a reportagem dizia que lutava contra um câncer há meses, foi submetido a quimioterapia, porém não resistiu a sua última sessão. O texto sucedeu com a biografia do Dr. Ademar Dutra, advogado por muitos anos, tendo lutado de forma fervorosa na defesa dos direitos de minorias. Sua carreira profissional havia começado com o ingresso no Banco do Brasil, onde integrou grupos de luta por melhores salários e condições de trabalho.

As opiniões fortes e o engajamento político e social o tornou repórter de língua e pensamento afiado, sendo apresentador de jornais no rádio e colunista em edições impressas, onde publicou seus primeiros trabalhos literários. Ingressou na Academia Maranhense de Letras, ocupando a cadeira nº 3, deixando vasto acervo entre poesias, contos e livros acadêmicos.

Apesar do luto me enchi de orgulho e satisfação, finalmente pude conhecer meu “amigo”, seu nome, sua história, seu legado. Todas as lições que não tive oportunidade de aprender, seriam ensinadas por meio de suas obras. Poderia, finalmente, conhecer meu grande amigo, Dr. Ademar Dutra. O homem e seus fragmentos.



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