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Index Librorum Prohibitorum
Ítalo Grimaldi

Resumo:
Em plena Guerra-Fria, um agente da KGB falece deixando para trás uma carreira manchada por suspeitas de traição ao seu país. Em seu velório, a preocupação é com uma possível lista de agentes soviéticos infiltrados nos EUA que teria sido feita pelo finado agente e que seria entregue aos americanos. Mas seria este um último ato de traição deste agente, ou seria isso tudo parte de um plano maior?

O corpo velado no cemitério de Donskoye, em Moscou, jamais receberia tamanhas honrarias militares, não fossem as poucas pessoas do alto escalão da KGB que ainda defendessem a índole incorruptível do falecido. Ulrich Ivianenko era ucraniano, mas desde os 6 meses de idade viveu em Moscou. Proveniente de uma família simples e sempre muito dedicado aos estudos, ingressou na academia de polícia muito cedo e rapidamente ascendeu em sua carreira, sendo notável especialmente na cadeira de investigador, onde conseguiu desmascarar ao menos uma dúzia de espiões nazistas durante a Segunda Guerra. Sua reputação e habilidades o levaram rapidamente à KGB, por quem ficou infiltrado por 19 anos nos EUA, atuando como professor de química em uma universidade de Nova Jersey sob o nome de Christian Heish, um morador de Berlin ocidental que tentava a vida em solo americano.

Apesar do emprego discreto e a vizinhança modesta em que morava, conseguiu fazer as amizades certas enquanto viveu em solo americano. Por meio destas amizades, descobriu a identidade e o paradeiro de 11 espiões americanos que viviam infiltrados em Berlim Oriental, Moscou e Kiev. Os 11 foram capturados graças à ajuda de Ulrich. Após os 19 anos de serviço, foi trazido de volta para Moscou como herói, aos 69 anos, em maio de 1981.

Sua fama pouco durou. Dois meses após o seu regresso, foi descoberto que Ulrich teve problemas com a polícia americana após um incidente de trânsito e ficou detido por 4 dias, em outubro de 1977. Desde tal descoberta, as suspeitas de que ele fosse um agente duplo aumentaram exponencialmente entre os membros da alta cúpula da KGB e Ulrich apenas não foi desligado completamente da instituição pelas amizades que tinha com alguns destes importantes membros que não acreditavam que ele tivesse se corrompido. Contudo, foi gradualmente sendo deixado de lado, tendo seus salários e bonificações reduzidos, e não raramente sendo rebaixado de cargo. Em seus últimos dias de vida, já aos 72 anos, lhe restava apenas um ridículo apartamento na periferia de Moscou, com mobília gasta e sem luxo. Estava falido e extremamente ressentido com a KGB, onde exercia um cargo sem nenhuma expressividade.

- Andava fraco do coração, pelo que disseram. O filho chegou em casa e o encontrou caído no banheiro. Já estava morto há algumas horas, segundo os médicos.

- Ele deixou testamento?
     
- Não. Apenas uma carta indicando como gostaria que fosse o seu enterro.
     
- Alguma coisa de relevante na carta?
     
- Não vi. Entrei no apartamento horas depois de terem levado o corpo para a preparação. O filho já tinha pego algumas roupas para vesti-lo e a carta. Não encontrei mais nada lá.
     
Os dois homens recostados em uma das paredes do velório mantinham os olhos fixos nos familiares de Ulrich, embora à distância. Trajados com ternos pretos, preocupava-lhes o que, na verdade, também preocupava boa parte dos funcionários da KGB que estavam ou estiveram ali para prestar, em sua maioria, falsas homenagens ao finado agente: dias antes de morrer, Ulrich revelou a um amigo próximo que havia conseguido obter uma lista com os nomes de uma “formidável quantidade de agentes soviéticos infiltrados nos EUA” e que iria entregá-la aos americanos. Seria a compensação que ele daria à KGB depois de ser deixado de lado pela instituição.
     
O amigo, Igor Ranov, na verdade se aproximara de Ulrich a mando do coronel Dimitri Kevchenko, diretor regional da KGB e o apoio de Ulrich em solo soviético, enquanto este era infiltrado. A Igor não interessava a amizade de Ulrich, mas unicamente qualquer pista que provasse que de fato ele trabalhava para os americanos. A revelação de Ulrich causou um frenezi dentro da KGB, embora alguns dos aliados do espião não acreditassem na história. De qualquer forma, ele terminaria morto dentro de alguns dias, não fosse a natureza ter feito o trabalho de desligá-lo da instituição. Desde então, seu pequeno apartamento foi invadido incontáveis vezes na tentativa de se encontrar a lista ou qualquer coisa que indicasse o seu paradeiro.
     
- Só pode ser a carta... – disse Pedro Karpov, um dos homens recostados na parede e um dos que invadira o apartamento. – Não duvido que o filho dele esteja evolvido nisto até o pescoço.
     
- Ele era amigo de um professor de física, também... Igor comentava que eles se reuniam muito tarde para conversar sobre política e outros assuntos. Seria bom encontrar este cara. – Respondeu Mikhail Lenine, um sujeito de cabelos bem negros e cara redonda, e de gestos bastante expansivos e energéticos.

O amplo salão em que ocorria o velamento do corpo estava lotado de pessoas, em sua maioria funcionários da KGB que ali estavam em consideração aos poucos poderosos aliados de Ulrich. Igor e Dimitri, ambos há alguns metros do caixão, falsamente consolavam a viúva do agente e seu filho, Gustav.

O corpo do velho Ulrich estava trajado com um surrado terno marrom que era visível apenas até a metade do peito, sendo que daí para baixo tudo estava coberto com pequenas flores brancas. Suas mãos, entrelaçadas sobre seu peito, seguravam um livro parcialmente recoberto pelas flores e um tanto sujo com um fino pó branco semelhante a um talco. Não era possível ver o que estava escrito na capa do livro, embora alguns dos agentes tivessem tentado, discretamente, mover as mãos de Ulrich para tomá-lo.

Todos se aproximaram do caixão para a última oração feita pelo padre ortodoxo. Neste momento, dois vizinhos de Ulrich tomaram um comprido espelho em moldura de madeira e colocaram sobre seu corpo, cobrindo-o da cabeça à virilha, como ele deixara explícito na carta que tanto interessava à KGB. O estranhamento foi geral. Todos os que se aproximavam do caixão agora viam seu rosto refletido lá dentro, como se aquele fosse o sepultamento de cada um que ali estava. Ninguém quis permanecer por muito tempo contemplando tal cena e tão logo a oração foi terminada, o tampo do caixão de madeira muito barata foi colocado, encerrando em seu interior o cadáver e o misterioso livro.
     
- Como desejo do meu pai, pelas amizades que cultivou ao longo de seus anos em serviço do seu país, era seu desejo, colocado em carta, que apenas os seus verdadeiros amigos, os homens que com ele defenderam o seu país, carregassem o seu caixão. -disse o filho de Ulrich, tendo em mãos a carta que Pedro Karpov estivera procurando.

Um tanto consternados, homens de cargos elevados dentro da KGB, e que até então tentavam arrumar um modo de arrancar Ulrich da instituição, se posicionaram e, tomando as alças do caixão, o levantaram dos suportes em que se encontrava e caminharam em direção ao túmulo, sempre acompanhados pelos cantos sacros do padre. O túmulo que Ulrich comprara 2 semanas antes de sua morte ficava em um dos pontos mais afastados do cemitério, exigindo uma caminhada de 20 minutos sob o sol escaldante de julho. Ele não queria de forma alguma ser enterrado no jazigo da sua família. Cochichos praguejando o finado agente eram rogados disfarçadamente entre a maior parte dos 6 homens que tomaram o caixão:
     
- Pois bem... Eis aqui a última vingança do desgraçado: nos humilhar, fazendo-nos andar pelo cemitério todo carregando seus restos.
     
Içado por cordas, desceram Ulrich em sua cova e logo começaram a cobri-lo de terra. No local, a terra batida recém colocada contrastava com o verdume da grama muito bem cuidada que coloria os túmulos em todo o cemitério.
     
Os que estavam ali foram pouco a pouco deixando o local e se dirigindo aos seus carros. O sol começava a se pôr e já se escondia quase completamente por trás das inúmeras árvores que se espalhavam pelo cemitério. Quando o último homem saiu, os portões foram fechados e as visitas daquele dia deveriam, em tese, estar encerradas.


     
Por volta das 23:00, o sol ainda iluminava discretamente o céu, mas se algum resquício do dia continuava a ser notado, o cemitério de Donskoye estava mergulhado em escuridão pelas grandes árvores em seu interior. Um carro parou próximo ao portão de aço do cemitério e 3 homens desceram: Pedro, Mikhail e Laska. Este último também era funcionário da KGB, mas bem mais jovem, magro e baixo, não estando habituado ao serviço fora dos escritórios.
     
Com o guarda do cemitério tendo sido previamente subornado durante o enterro, a entrada dos 3 foi facilmente liberada e, com pás e uma picareta, rumaram em direção ao túmulo de Ulrich.
     
- Pedro, fique aí na altura dos pés que eu escavo aqui na altura da cabeça. Laska, mantenha esse lampião aceso. – Disse Mikhail, apontando a cada um onde deveriam ficar.
     
Laska ficou a alguns poucos passos dos dois e, enquanto mantinha o lampião em uma altura razoável para iluminar bem todo o túmulo, ficava atento a qualquer barulho que viesse da escuridão proporcionada pelas árvores e que indicasse que um coveiro ou outro guarda estivesse por perto. Na verdade, embora o lampião produzisse uma boa luminosidade, preferiram-no justamente por sua luz não chamar tanto a atenção.
     
- Pelo Amor de Deus, não me lembro de termos colocado ele tão fundo.
     
- Cuidado com o jeito como está cavando. Toda esta parede de terra aí vai desmoronar desse jeito.
     
- Já vi, deixe-me ajeitar isso...
     
O processo prosseguiu, sem intervalos, em um minúsculo espaço de 1,8m x 50cm. O corpo estava sob 5 m de terra e por muitas vezes o trabalho parecia completamente em vão. A terra que era atirada para fora caia novamente dentro do túmulo ou a escavação parecia ir se desviando para um dos lados, longe do caixão, obrigando os dois a se reposicionarem. Também, por várias vezes, era preciso chamar a atenção de Laska para que ele melhor se posicionasse para iluminar o buraco.
     
Após uma hora e meia de um trabalho extenuante, Mikhail, com um golpe de pá, atingiu o tampo de madeira do caixão.
     
- Laska, amarre o lampião e abaixe ele aqui perto de mim. Dê-me a picareta, também.
     
Laska amarrou firmemente o lampião e o desceu dentro do buraco até pouco acima da cabeça de Mikhail. Com a outra mão, entregou-lhe a picareta. Pedro terminava de tirar o restante de terra que ainda cobria parte do caixão.
     
- Pedro, afaste-se. Isso... encoste ali na parede um pouco.
     
Um pesado golpe de picareta foi desferido sobre o tampo do caixão, na altura da cabeça de Ulrich. Em seguida outro golpe, na altura do peito, e outro, e outro, e outro, despedaçando sem nenhuma hesitação o tampo do caixão.
     
- Puxe esse pedaço de madeira para lá. Traga a porcaria do lampião aqui mais perto de mim. Não enxergo nada. - Ordenava Mikhail
     
Mikhail tentou enfiar a mão dentro do caixão, mas percebendo que ainda não enxergava nada, voltou-se extremamente furioso e livrou o lampião da corda que o amarrava. Tomando-o com uma das mãos, abaixou-se novamente para o buraco que abrira sobre o caixão e um arrepio lhe cobriu o corpo. O espelho, mesmo arrebentado pelos golpes de picareta, ainda refletia quem quer que olhasse para dentro do caixão, projetando-o lá dentro. Removeu o que restava do espelho, cortando a mão em um de seus cacos, e então alcançou o livro.
     
- Pedro, me ajude aqui. Pegue o lampião.
     
Era um grosso volume de capa vermelha e sem título. O livro parecia ter algum objeto entre suas páginas, talvez marcando algo importante. Abriram no local onde estava este objeto e encontraram um saquinho de plástico transparente, rasgado, contendo um pó branco muito fino em seu interior. Não havia nada escrito nas páginas.
     
- O que é isso? Não tem cheiro nenhum. As páginas também estão em branco. – Disse Mikhail.
     
- Deixe-me ver. – disse Pedro, tomando o livro e, de forma ingênua, colocando um punhado do pó na ponta da língua - Isto é sílica, Mikhail! Veja! Parece que ele queria que estas páginas se conservassem da umidade e da decomposição.
     
- Então estas páginas não estão em branco. Alguma coisa está escondida aí e, para ele querer preservar o livro, alguém viria buscá-lo.
     
- Os americanos.
     
- Provavelmente.
     
Os dois homens saíram do buraco com o livro em mãos e com o saquinho marcando as páginas em que anteriormente estava. Cobriram porcamente o túmulo com a terra retirada e foram embora.


     
Na rua Nikstiky, em Moscou, funciona um prédio de 3 andares, verde claro e bastante comprido, que serve como um pequeno centro de análises da KGB. O prédio esta a 8km do cemitério de Donskoye e há 1,5km da praça Vermelha. Quem passa pela larga rua percebe que aquele edifício é o único que não é residencial dentre os prédios daquele quarteirão, mas não percebe que a maior instituição de inteligência da União Soviética o utiliza como um centro bastante importante. Ali, numa das janelas fechadas do 2º andar, estava Ivanov Stancovich, um químico de 36 anos que tinham em mãos, há 2 dias, o volume retirado do túmulo de Ulrich.
     
- Já testei com tudo... Só a porcaria do magnésio eu já usei 3 vezes para me certificar de que não tem nada aí. A luz negra nem se fale... É a técnica mais infantil, mas eu usei mais de uma vez também para me certificar.
     
- Então está vazio, Ivanov. Não tem nada aí. – Disse Bernd Hauser, um químico de Berlim oriental, colega de Ivanov.
     
- Não é possível. Este livro ficou 4 dias nas mãos de gente muito importante da KGB e me entregaram alegando que há alguma coisa escondida nele. Uma lista com nomes que não sei de quem são. Se as pessoas que me entregaram isso disseram que aqui tem alguma coisa, então tem.
     
- E o saquinho?
     
- Não é sílica. Disseram que era, mas não tem nada a ver com sílica. Mas ainda não olhei ele direito... Primeiro quis testar as páginas do livro. Todas elas estão em branco. Branco total.
     
- Então analise esse saquinho.
     
- Deixe-me ver isso.
     
Sem cheiro, branco e fino. Ivanov começou a testar o material e, então, temeu estar diante de um veneno. Os grãos eram tão finos que ele preferia usar duas luvas e duas máscaras para lidar com aquilo, fora os óculos de proteção.
     
Neste momento, o telefone do pequeno laboratório de Ivanov começou a tocar. Era Krevchenko. Não era comum alguém de patente tão elevada ligar diretamente para Ivanov, um mero químico, o que indicava que, o que quer que houvesse naqueles papeis, era muito importante.
     
- Ivanov, é Krevchenko! Como está, meu amigo?! Ouvi falar muito bem de você, sabe?! – Exclamava o diretor, entusiasmado, demonstrando uma familiaridade com Ivanov que não tinha. Na verdade, sequer se conheciam.
     
- Col. Krevechenko! É uma grande honra! Em que pos...
     
- Os papeis que você está analisando, camarada. Como progrediram as coisas?
     
- Estão vazios, camarada coronel.
     
Um silêncio medonho se instalou do outro lado linha, quebrado apenas por cochichos irritados de um homem.
     
- Vazios, Ivanov?! – Dizia Krevchenko em voz alta, mas sem demonstrar raiva alguma – Você tem certeza?
     
- Testei várias vezes com tudo o que temos, camarada coronel. Ainda posso tentar mais algumas coisas, mas realmente não parece haver nada ali.
     
Outro silêncio se instalou. Agora se podia ouvir, mais ao fundo, um homem irritado proferindo alguns palavrões.
     
- Ivanov... eh... – Tentou continuar o diretor.
     
Mais silêncio. Krevchenko parecia pensar no que dizer. O químico podia ouvir o coronel conversar com um outro homem que o acompanhava.
     
‘Não tinha mais nada no túmulo?’
     
‘Bem... eles pegaram o livro, coronel.’
     
‘Qual é o nome? Mikhail. Ligue para ele’
     
‘Está no hospital’- respondeu uma terceira voz.
     
‘Pedro. Ligue para ele, então.’ – continuou Krevchenko.
     
‘Morto.’
     
‘Morto?!’
     
‘Morto.’
     
‘Quando?!’
     
‘Esta madrugada.’
     
- Ivanov! – Agora a voz de Krevchenko parecia bastante preocupada – O que mais veio com este livro? É só um livro comum, certo?
     
- Um saquinho com um sal, camarada coronel.
     
- Sim! Eu vi isso! Disseram que era para conservar as páginas. Sujou todo o meu uniforme. Você analisou aquilo?!
     
Uma voz então irrompeu em berros do lado de fora do laboratório de Ivanov, desferindo verdadeiros socos em sua porta, tentando abri-la.
     
- Pelo Amor de Deus, com o que vocês estão mexendo aí?!
     
- Ivanov!? O que está acontecendo aí?– Falava Krevchenko.
     
- Camarada coronel...
     
- Vocês ‘queimaram’ o prédio inteiro!!! – A voz do outro lado da porta agora parecia realmente desesperada
     
- Ivanov! O que raios é isso aí?! – Gritava o coronel
     
O químico já não sabia para onde olhar. Seus olhos esbugalhados clamavam por ajuda. O que era aquela gritaria? O que era aquele pó? Quem havia morrido e por que havia morrido? Olhando de um lado para o outro, via Bernd berrar com o homem da porta, mas não conseguia compreender mais nada pelo estresse em que estava. Tinha a impressão de que ia entrar em colapso. Ouvia seu coração acelerar violentamente enquanto gritos incompreensíveis vinham da porta, de dentro da sala e do telefone. Um irritante som semelhante a estalidos ia preenchendo a sua mente. Estalidos e mais estalidos, seguidos um atrás do outro, em alta frequência, de forma que pareciam ir se juntando em um som único. Em meio a tanto barulho, os estalidos pareciam ser o barulho mais alto de todo o ambiente, a única coisa que ele ouvia nitidamente. Agora ele já sabia o que estava acontecendo... Ele já sabia o que eram aqueles estalidos... Ele olhava pelo pó que se espalhava pela bancada de análises... Agora estava claro... Tudo estava claro...
     
A porta abriu violentamente e Boris Aleshin, um físico de 47 anos de idade, de volumosa barba preta e miúdos óculos redondos, entrou na sala, pálido como se tivesse visto um fantasma. Em sua mão, um contador Geiger emitia incontáveis e sucessivos estalidos, indicando estar próximo de uma fonte radiativa.
     
- 210 mSV/h!!! – Exclamou o físico.
     
Não se tratava de um livro; não se tratava de uma lista; não se tratava de qualquer sal que buscasse preservar coisa alguma. Tratava-se de um ataque direto aos membros da KGB com polônio 210. A substância altamente radioativa e letal em quantidades menores que 50ug, estava misturada e disfarçada entre muitos outros sais, no interior de um saco plástico.

- Santo Deus! - exclamou Bernd.

Ivanov soltou o telefone e perdeu a consciência.



Ao abrir os olhos, sem entender ao certo onde estava, Ivanov viu diante de si uma figura apocalíptica: Um homem alto, com uma máscara de gás e olhos esbugalhados e preocupados, fitava o químico. Seu avental estava recoberto por um colete de chumbo fino. Era o médico Grigor Raninski.

- Acho que essas luvas não são muito úteis para o que eu andei mexendo, não? - Disse Ivanov, fitando as luvas que estava usando e esboçando um sorriso.

O médico nada disse, apenas tomou-lhe o pulso e checou o dosímetro que carregava consigo. O químico foi retirado da sala de análises onde ainda estava e levado para a rua.

Em volta do prédio, viaturas, ambulâncias e carros do instituto de física Gagarim se acumulavam pela rua. O trânsito estava impedido e os funcionários do prédio eram todos avaliados por dosimetristas, nas calçadas. Alguns, apenas de roupa íntima, eram levados para os veículos e direcionados aos hospitais. Ivanov era um dos mais envenenados com a substância.

-Retire as roupas e coloque neste saco - solicitou um dos dosimetristas.

Resignado, o químico retirou toda a sua roupa e, apenas de cueca, foi levado para uma ambulância e coberto com um avental de chumbo. Atrás de si, as portas das ambulância se fecharam. Mais três homens e uma mulher, todos de roupas íntimas e avental de chumbo, estavam no veículo. Olhando para a rua, com todo o caos instalado, lembrou-se do livro e do saquinho que estivera em posse. Tão simples e inocentes, sem cheiros, sem avisos, sem nada. Ivanov conhecia a substância e culpava-se de sua ingenuidade perante aquele pó. Sabia que, quer fosse agora, quer fosse em breve, aquela substância cobraria um alto valor ao químico. Resignava-se.

No cemitério, carros e viaturas entravam em alta velocidade pelos portões do Donskoye. Era meio dia e, com o sol iluminando amplamente a cidade, muitos estavam no cemitério prestando homenagem aos seus mortos. Todos os veículos rapidamente se dirigiram ao local do túmulo de Ulrich. Um caminhão betoneira seguia o comboio.
Sem entenderem nada, os visitantes foram todos retirados do cemitério. Homens do instituto de física e da polícia escavavam o túmulo usando máscaras e uniformes contra radiação. Ao atingirem o caixão, sem cerimônias desceram uma grande quantidade de cimento sobre o buraco, preenchendo-o completamente. A terra ao redor, contaminada, era analisada com dosímetros e contadores.

Na KGB, a notícia não se espalhou para todos, mas ficou restrita aos poucos envolvidos na investigação de Ulrich. Carros partiam com agentes que estiveram no enterro e outros agentes eram telefonados em suas residências para comparecerem ao Hospital Geral de Moscou dentro de uma hora. Poucos eram os gravemente contaminados, mas alguns destes ocupavam posições chaves na instituição.
     
krevchenko olhava pela janela de sua sala, calado, com os braços voltados para trás. Atrás de si, sentado em uma mesa, Igor olhava para o nada, tentando entender o que havia acontecido. Um terceiro homem , secretário de Krevchenko, também sentado à mesa, inspirou fundo e disse, voltando-se para o coronel:

-Mikhail morto.

Todos os três ficaram em silêncio, imersos em seus pensamentos. Igor, então, se levantou e, sem dizer nada, saiu da sala e caminhou pelo prédio até o estacionamento , para o seu carro. Nos corredores, a rotina parecia normal, sem que quase ninguém soubesse o que havia acontecido. Apenas algumas poucas pessoas deixavam suas salas e, caladas, iam até seus carros para se dirigirem ao hospital.

-Coronel...

-Pode ir, Yuri. Não sei por que não foi ainda...

Yuri, o secretário, levantou -se e partiu para o hospital. Na sala, ainda com o olhar vazio através da janela, Krevchenko acendeu um cigarro e tragou profundamente, eliminando a fumaça com um longo suspiro. Culpava-se de sua ingenuidade e contemplava um futuro que, talvez, fosse mais breve do que temia. Um físico do instituto Gagarim bateu à porta e, ao perceber que não houve resposta, entrou. Em suas mãos, um contador Geiger e um colete com uma folha de chumbo.

- Coronel?

Krevchenko continuava a lançar um olhar opaco pela janela...








Resignava-se.


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