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vestir 1908
Carolina Assis

VESTIR 1908


VAGINA


Deitada meditava sobre os textos que lera. Eram muitas mulheres e para cada uma havia traços próprios. A minha apresentava singularidades, que hermética dizia sobre meu ser: uma pinta em um dos lábios. Um adorno natural tornava-a sexy, embora não se sentisse assim. Remexia na memória o começo daquela narrativa. Dizia a minha personagem mentalmente: você conhece sua vagina? O trem da história passava por ela.
Dormia sonhando com geografias de cidades perdidas nos tempos do feminino. Um eco parecia chamar-me.
Nervosa, atravessava o átrio principal daquela residência, os fundos parecia mais seguro. As construções de tijolos tomados por heras adornavam os espaços, pensei em correr. Sair sem ser percebida com os dois vestidos acetinados de verde musgo nos braços. O volume e o peso fizeram-me retornar, certamente não passaria por ali, o liame de tempos impossibilitava passar por aquelas cercas, fronteiras. Retornei à sala. Deixei-os com os empregados antes que Francisco de Lavoura chegasse. Menstruará naquele dia. Como diria a todos que não estava grávida, seria expulsa!
Chegaram, enfim. Acompanhava a mãe. Preocupava-me o meu ventre, pareciam olhar-me com a certeza de que não engravidará. Na realidade, as via com bigodes. Os deixei com os outros familiares e caminhei para fora, usei a charrete.
No enterro que seguia muitas mulheres surgiram solidárias com aquela que um dia trouxera a libertação. Antes que imaginasse, Lavoura estava a minha procura. Joguei em seu rosto o dinheiro, não precisaria dele. Queria exigir resposta:
- Como pode deixar a todos para vir a esse enterro? Usou nossa charrete para despedir-se desta leviana!


O TREM DA HISTÓRIA

Não há trem da história para vaginas. Minha avó deveria ter acabado com todos naquela época, mas preferiu ficar com Lavoura. Sua barba, diziam todos os empregados e jagunços que lhe serviam, tremia quando não estava satisfeito com a casa, com o gado, não precisava de palavras. Minha avó era uma índia bugre laçada como bicho. Gerou mais filhas do que filhos, todos, inclusive Jacintho, o mais novo herdara as artes artesanais, estava no sangue. Lavoura desde a primeira gestação queria um pinto como extensão do dele. Cada vez que Mariana ensinava Jacintho a costurar, Lavoura tremia a barba. Não queria, não permitia: “Filho meu é macho e como macho deve morrer, larga esses tecidos de chita!”
- Mas mãe você não sabe se isso aconteceu mesmo, a avó tem Alzheimer, a memória esta entrecortada...
- É claro filha, mas essas coisas ela me contava muito antes dos sintomas aparecerem. Vamos, termina de fazer a bainha desse vestido, ele ficara muito bonito no corpo daquela cliente.
- Você acha que herdei a estética dela, mãe?
- Sim, certamente. Esse vestido tem muito dela. Guardei no baú do sótão modelos da avó Mariana. Você vera como a memória veste a mesma roupa de tempos em tempos. Existem cortes, tecidos e adornos que repetem a memória do feminino. Mariana sabia disso, seus vestidos eram muito procurados, Lavoura não gostava que ganhasse dinheiro. Ah! Os homens querem a dependência, ficava irritadíssimo quando Mariana costurava para outros tipos de mulheres. Lavoura não aprovava, mas Mariana sabia que ele as cortejava. Ganhava mais dinheiro costurando para o teatro e para as damas da época do que ele.
- Não sei não mãe parece estranho ela ganhar mais do que ele, tinha gado mandava em todos na região... sei não isso ta me cheirando a romance de botequim.
- Bom, não sei, mas tá gostoso ouvir, não está?
Quando seu tatara avô a trouxe para casa as irmãs, tias e mãe não se conformavam. Queriam mulher branca, sem mistura. Chegaram de Portugal só com títulos e terras que mais parecia à mata atlântica. Mariana era uma das índias encontradas na região, o resto de sua família foi morta e outra parte virou jagunço de Lavoura. Mariana tinha traços diferentes dos bugres, às vezes achava, dizia sua avó que já era misturada por branco, tinha olhos claros, Lavoura era moço, mas herdara do pai o jeito de Bandeirante, o jeito de devastar a região. Sua avó dizia que Mariana se deixara laçar. Antes de se casarem limparam suas roupas de índia, vestiram-na à moda européia, puseram-na para estudar bordado e algumas letras. A história dela jamais seria contada se não estivéssemos aqui costurando...
No enterro todos abaixaram os olhos quando Lavoura entrou não se trata de vergonha, mas ódio contido. A mulher os procurava para viver, sorrir. Entre os negros era assim abriam a roda para dançar. Lavoura não gostava, mulher tinha ficar em casa fazer bordados, cuidar da família. Mais do que isso a mulher dele, pensava um dos parentes da defunta amiga de Mariana, ela os ajudava nas primeiras letras, costurar. Outro lembrava que na primeira gravidez, Mariana sentia fome entrava como os pretos às escuras na cozinha, a mãe de Lavoura a vigiava, redicava alimento, família ruim. Mariana ficou louca de ódio pegou o cavalo e foi embora, tinha 15 anos de idade. Virou uma guerra entre as famílias, Mariana disse que não moraria no mesmo teto da sogra. Naquele dia todos da fazenda acharam que Lavoura gostava dela, pegou suas coisas e ganhou a vida para ganhar dinheiro e comprar outra propriedade só para eles. Disse a Mariana, “Volto pra te pegar prenda!” Não sei por que ela acreditou, mas era posse. Quando subiu no cavalo com uma barriga de seis meses acharam que perderia mais uma vez o filho, rezava para que fosse um varão. Mãe preta dizia: “Nada sô! Se for menina que adianta?! Nessa terra só nasce mulher.”
O vestido acetinado caiu bem em Mãe Preta, queria ela bonita, morrer... Mariana pouco antes de Lavoura chegar no enterro olhava fixamente para a mãe ou a mãe de todas as mães: bonita. Lembrava não sabia por que do dia que Mãe Preta a salvou de uma surra. Um jagunço olhara os tornozelos de Mariana com o canto dos olhos. Lavoura tremia. Gritava: “Muleque safado, ta olhando o quê? Só a parteira olha para os pés da minha mulher!” A casa veio à abaixo, Mãe Preta largou a menina de Mariana na cozinha e correu, à noite passou pomada feita de banha nas costas dela.
Minha mãe não disse tudo esperou a doença da memória para deslocar as narrativas com outras verdades, ela também perdera todos os dentes.
(não terminei a narrativa)


Biografia:
Carolina Assis é pseudônimo de: Adriana Carolina Hipólito de Assis. É formada em Língua e Literatura Portuguesa pela PUC/SP e professora universitária da Universidade Uniban. Durante o curso universitário atuou em pesquisa literária com bolsa CEPE (Conselho de Ensino e Pesquisa) da PUC/SP, no projeto “O desenvolvimento da personagem em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago”, no qual elaborou o artigo Seres e Papel e Tinta em co-autoria com Cláudio R. Sousa publicado em Escritores e Escreventes, org. por Beatriz Berrini, editado pela EDUC/SP em 1995. Especialista em Língua, Literatura e Semiótica, Pós-Graduação Lato Sensu pela Universidade São Judas Tadeu. É Mestre em Literatura e Crítica Literária, pela PUC/SP, autora do O Palimpsesto amoroso em Desmundo: contos de fadas, pela editora FATEIA, 2007.

Este texto é administrado por: adriana carolina hipolito de assis
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