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Falecendo-se
Europa Sanzio

Ele, já farto, tateou os dedos pelos envelopes que abarrotavam a sua mesa. Pela décima sétima vez, sorteou um com a mão, usando da outra para ajeitar os óculos. Aquele estava recheado de um aroma doce, enjoativo para alguns, mas perfeito para ele afogar seu nariz no pescoço que se inundasse com aquele cheiro. Que aroma. Proporcionava-lhe não apenas um cheiro, mas um sabor, uma visão. E aquela letra que se estendia por dois papeis, deitada, meio falhada, feia para alguns, mas ela se encaixava com o adocicado que agora havia preenchido a sala. Não reconhecia nenhum dos dois ali; o aroma nem a caligrafia. Eram desconhecidos que agora habitavam a sua residência.

Era uma carta extraviada. Analisou um pouco mais e viu que a assinatura era dela, da moça que há muito tempo havia conhecido e que há duas semanas havia posto um fim na sua vida. Aquele aroma doce pertencia a um defunto. Tão vivido eram as letras, o papel, o cheiro. Tudo respirava. Aquilo era a última batida do coração dela, o último pulsar em suas veias. E era dele. Aquele último suspiro, as últimas palavras, o último resquício de vida.

Agarrou sua caneca de café em uma das mãos e se pôs a consumir aquilo que agora era sua propriedade.


A maioria das pessoas costuma odiar-me em seus dias de aniversário. Esse estado se prolonga por mais uma semana ou dez dias, mas sempre acontece. É que nunca lhes dou uma carta de feliz aniversário, tampouco escrevo um extenso texto declarando o meu carinho e valor que dou a elas. Mas bem, acharia hipócrita da minha parte faze-lo. Não que eu não os tenha em consideração, é justamente o contrário. Eu amo a todos de forma terna, não tenho dúvidas. Mas a hipocrisia viria se eu tentasse resumir todo esse carinho na forma de meras palavras, em um dia do ano, para voltar a fazer o mesmo no ano seguinte. No outro e no outro. Enxerga o erro nisso tudo? Há ainda minha visão sobre a data do aniversário. É como se existíssemos somente a partir daquele dia, de tal ano. Quando na verdade já existíamos há muito, meses antes da tal data do nascimento. Resumindo, acho celebrar o nascimento um tanto tosco. Também como acharia de uma tolice sem fim celebrar a existência. Comemoram o nosso primeiro ato de não liberdade. Desejam-nos parabéns por isso! Que absurdo, como se me fosse bom.

Dito isso, deve estar se indagando por que te escrevo hoje. Bem, sei que nasceu hoje, há umas boas décadas, e quero usar isso como desculpa. Se essa carta a ti chegasse em um dia qualquer, sozinha, o impacto dela poderia não ser o desejado. Prefiro que ela chegue para ti bem assim, junto a uma enxurrada de tantas outras, no dia em que te enchem de presentes e felicitações. Assim não terá muito tempo para pensar nela. Assim a esquecerá bem rapidinho, como eu bem quero. Se ela te chegasse em outro dia, você a sentaria com ela no colo, com uma mão passando pela testa, o sol queimando a sua pele. Você a esconderia rapidamente quando alguém irrompesse pela sala. Tiraria os óculos e fingiria que nada fazia. Mas ela continuaria tão fresca na sua cabeça; tinta não seca sobre a sua mente. Demoraria para ela ir embora.

Hoje não há tempo para fazer isso, meu querido. Hoje é preciso comemorar, ler as outras tantas cartas, responder aos parentes gentis, abrir os teus presentes. Meu presente para ti será esse, fazer você esquecer mais fácil do que tenho a lhe contar.

Mais fácil ainda seria eu simplesmente não te escrever, mas, entenda, por favor, que eu também preciso ser presenteada. Há uma dor imensa em mim, faz meses, desde quando fui embora, que fala que só será curada quando eu lhe contar isso. Eu também preciso me dar um presente, se eu não der, ninguém mais o fará. A coisa mais necessária para mim, bem agora, é acabar com a maldita aflição que há em mim, desde aquele dia.
Pois bem, lembra da noite anterior a minha ida?


Lembrava-se bem do antes. Odiava lembrar e detestava ainda mais não conseguir afastar aquilo da sua cabeça.

Um sobressalto.

O líquido negro da caneca voou, junto com seu movimento de espanto. O homem pousou na cadeira, o café, nas folhas, que levantadas em desespero, mancharam-se ainda mais. Lá se ia embora o desencargo de consciência. Ele viu as letras se dissipando, tudo que ainda restava da defunta se desmanchado, tomando gosto e cheiro de café. Morreu, o aroma doce.



Biografia:
Leio desde criança, quando comecei a achar o mundo enfadonho em demasia. Escrevo desde a adolescência, quando senti a necessidade de dissertar sobre aquele mundo tão tedioso. Prazer, sou Europa!
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