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Post Mortem
Europa Sanzio

Girei minha cabeça de um lado para outro, vendo tudo ao meu redor se tornar turvo, formas incompreensíveis. Era um texto em uma língua estrangeira. Assim como eu. Não saberia sequer pronunciar alguma palavra daquela língua em alfabeto esquisito.

Quero gritar.

Estava com a cara enfiada no parapeito da janela. Meu rosto estava pregando; as lágrimas que ressecaram sobre a pele. À minha frente, eu podia ver os vários prédios que se estendiam na rua. Qualquer pessoa que resolvesse espiar do outro lado, concluiria que minha aparência era decadente.

Mas havia uma decadência maior, transparente aos olhos; a dor interna que me fazia de ração. Ela sempre esteve ali. O sofrimento está presente em cada corpo que respira em vida. Os anos podem aumenta-lo ou diminui-lo, dependendo de como tu encaras o que te cerca.

No meu caso, ela havia se transformado insuportável anos antes, quando fui obrigada a reconhecer que nunca teríamos o nosso para sempre. Poderia escrever linhas e linhas sobre o amor que eu tinha por ti; mas tudo se resume em uma única frase, eu te amo.

Meu amor se tornou tão forte que equiparou ao sofrimento encravado. Então, ela se sobressaiu. Nesse instante, a dor diminuiu e eu tive o vislumbre da felicidade. Isto; fui feliz apenas por tê-lo com meu amado.
Nunca o beijei, tampouco o tive de forma mais ousada. Conheci a felicidade somente com o sentir que eu própria criei sobre o que seríamos juntos.

Tu eras meu conforto, quando eu chegava dos dias tristes da vida, as lágrimas estavam frescas pela bochecha. Mas eu tinha a ti em meu pensamento. Tu sempre fostes o que bastava. Enquanto eu cada traço do seu rosto pertencesse à minha memória, eu o relembraria em meu leito de sono.

Veja só, afirmei que não escreveria linhas de amor, mas o fiz. Não consigo me controlar. Há um berro dentro de mim, junto com a dor, e ele precisa gritar em um momento.

Tudo que estava incorporado a mim, assim como aquele grito, estava em língua estrangeira. Todavia, aquele bramido se revelava para mim. Era a única coisa que eu conseguia compreender do idioma esquisito: o meu amor por ti. Aquilo, eu poderia ler até as entrelinhas e elaborar conspirações envolvendo as letras.

Os anos de convivência com teu amor me ensinaram a ler bem.
Havia me separado de ti anos antes, com um sorriso. Era doloroso pensar na hipótese de talvez esquecer-te pela distância. Mas eu sorria. Tinha o teu rosto. Teria aquele amor por todo o sempre, enquanto eu permitisse que ele estivesse vivo.

Fui até o fundo das gavetas, onde eu escondia o meu íntimo. Havia um trecho ali dentro, uma lauda que havia titulado em teu nome, seguido de "quando ele voltar para mim". Porque tu voltarias, eu tive certeza disso meses antes, quando me vi escrevendo aquelas bobagens.

Um dia, eu jurava, eu o teria em carne. Almejava o instante em que eu me declararia para ti, após anos sem nos vermos. Poderia ser rejeitada, que fosse. Havia um grito a ser dado. Eu me conformava com a distância e os anos, pois um dia eles me levariam de volta até aquele rosto, e eu cantaria.

Nunca sequer cogitei a ideia de que inúmeras coisas poderiam acontecer nos dias que me levavam até lá. Mas as fatalidades não pensam em nós. Elas só fazem o que tem de fazer. São menos complexas do que pensamos. Aquela tinha feito, ao que constava no papel em minhas mãos, alguns dias antes.

Pensei no ontem e no anteontem, em como eu pensara, como fazia todos os dias, no momento em que eu te reencontraria. Enquanto eu me iludia com esses pensamentos, em um lugar distante, teu corpo já esfriava. Os anos não o carregavam, de momento em momento, até mim. Eles tinham te guiado para a morte.

No fim, não é exatamente o lugar para onde todos nós estamos sendo carregados? Cada hora, segundo desperdiçado com um olhar. Dedicamos unicamente a ela.

Eu só julguei que durante esse trajeto, eu te reencontraria. Aconteceu mais rápido do que eu podia pensar presumir.

O grito estava intacto, preparado durante anos para ser dado. A dor, que se alimentava da ausência tua, ardia ainda mais, ao consumir a tua inexistência. Não era somente o não estar, era o não ser.

O berro que me era fluente era também única coisa que havia restado de ti. Havia amargura por não ter tido a coragem necessária para te ter dado. Gosto da ideia de ter te visto um pouco mais feliz por saber que havia alguém que o amava. Eu.

Mas nada me garantiria isso. Se eu berrasse, poderia ter sido o começo do fim, com tu me renegando para sempre. Dessa forma, eu teria sofrido até o último dos meus dias.

Nesse instante, a vida te leva para longe, com a verdade de como teria sido a tua reação junto a ela.

Se eu tivesse gritado, esse bramido não mais existiria. Nada seria o que eu possuiria de ti, agora que se foi e já não posso acreditar que um dia te verei de novo.

Não poderei mais sonhar contigo e com o nós; mas ainda o tenho. Não guardarei teu rosto zangado comigo pelos meus dizeres de amor. Ah, isso nunca há acontecer!

De ti, guardo apenas a incerteza e o grito que nunca ecoou.
Do que adiantaria, então, se eu berrasse por além daquela janela? Temo que o berro escape entre os meus dedos e eu o perca para sempre.

Deixá-lo-ei guardado bem aqui, junto com as frases na língua estrangeira. Gostaria que tivesse sido meu tradutor, mas, talvez, o teu maior ato de amor comigo foi ter partido precoce, sem me dar tempo de gritar.


Biografia:
Leitora assídua e apaixonada pela escrita. Fascinada por história e filosofia. Sem paciência para exatas e seus números. Vidrada em distopias, mais do que em utopias. Moradora de Belo Horizonte, Minas Gerais. Revolucionária e ao mesmo tempo tradicional. Excessivamente fã de Nuno Bettencourt e Nirvana. Prazer, eu sou Europa!
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