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AS APARÊNCIAS ENGANAM
Tânia Du Bois



“... Eu não sei o que dizer / Para quem ganhou beleza. / Mas pergunto: o que vais fazer / Se a idade te inundar a Alma de tristeza”
                     (Getúlio Zauza)

     Não se enganem com as aparências. Ela é uma das formas para executar ações como ferramenta e estratégia, para alçar maiores voos. Um mundo de fato igualitário é aquele onde paramos para pensar nos impasses: meias verdades ditas como fatos e preconceitos. Nas palavras de Helena Rotta de Camargo, “Os padrões de beleza, tão divergentes na cultura dos povos, comprovam a debilidade dos nossos conceitos e definições”.
     Tão extensa quanto a vida, a beleza é marcada por profundos contrastes e comparações sobre a aparência pessoal. A beleza ou a feiura podem ser expressas em diversas tonalidades e, mesmo assim, é difícil agradar a todos os gostos. Gilberto Cunha, no ensaio O Preço da Opinião, escreve, “expor aquilo que pensa sobre determinado assunto, envolve, quase sempre, uma visão pessoal do mundo, conceitos, prévios, juízo de valor, princípios doutrinários e -... também um pouco de presunção...”
     Dizer que este ou aquele é feio, é julgamento cruel, dramático e vazio; atitude inquieta e preconceituosa, porque as aparências enganam. Falta autocontrole que assegure os impiedosos palpites que fazem sobrar e ultrapassar a barreira do bom senso; como encontro em Carlos Trigueiro, no livro O Clube dos Feios e outras Histórias,” Não há discriminação mais vil do que a estética...”.
     Aqui e ali vejo pessoas que consideram o “bonito” e criam formas de menosprezo ao “feio”; assim, expressam seus poderes sobre os outros expondo suas fragilidades, como o absurdo da notícia de que a Estátua de Nossa Senhora de Caravaggio, em Farroupilha (RS), será trocada porque a população julgou a imagem “feia”. Será que julgar a aparência na imagem não seria nossa resistência? Será que as pessoas que atazanam com seus pré-julgamentos sobre as aparências estão apenas exorcizando suas desvalias?
     O pior é que essas meias verdades sobre a aparência ditam diferenças estéticas e rotulam as pessoas no revelar a prepotência dos “ditadores da moda”, sem a correta perspectiva e, sobretudo, sem qualquer substrato que realce a verdadeira beleza. Carlos Higgie retrata no conto Cara a Cara, “...Não consegui aceitar aquele nariz feio, que eu imaginava perfeito... Dois espelhos estavam destruindo meus sonhos, minhas mais secretas ilusões...”
     Nessa perspectiva indago, de que belezas estão falando? Da aparência da “bela” e a “fera”? Da beleza cultural ou social? Nilto Maciel demonstra, “... Turma maravilhosa, alegre, inteligente: Severiano... apesar de baixinho, moreno, narigudo, magrinho, exercia sobre nós grande influência...”.
     As meias verdades inviabilizam, sem necessidade, os sonhos de muitos que são marcados pelo julgamento das diferenças na aparência estética. A alusão de conceitos como forma de procedimento é trama empregada para julgar a aparência do outro; e isso passa pelos valores e necessidade de cada um. Por sua vez, as variantes em função do conceito de beleza, são identificadas pelo olhar sábio da vida no desejo de definir os encantos e o projeto vivencial das pessoas. Segundo Billy Blanco, “Feiura não é nada // ...Tem fé em Deus que tua feiura não é nada, / Gente mais feia encontrou marido, / Enquanto a bonitona ficou encalhada! // ... Já vi gente mais feia que tu, / Ser elegante...”
     O tempo traz o descompasso no traduzir o árduo mundo da beleza, que tem vento salgado e sopra sobre nós persistindo sem sentido ao conspirar contra a aparência, como demonstra Helena Rotta de Camargo, “Outrora, a beleza feminina não passava de um predicado, a que toda mulher aspirava. Hoje, transformou-se numa religião, obrigatória, quando não obsessiva”.
     A vida mistura o pó do tempo e, muitas vezes, colho flores pelo caminho, quando ligo o sentimento à existência, como limite da vida, e encontro a beleza no olhar, nos gestos, nas palavras e no coração; assim, percebo e concebo, de forma simbólica, que as aparências enganam; que beleza “não bota mesa” e que “bonito é o que lhe parece”. Esse o desvelar o mistério, valorizar a mente antes do corpo.
     Acredito que o sorriso sincero; o carinho e a tolerância em meio ao confronto são capazes de alterar, por completo, o conceito de beleza. Não existe perfeição no mundo, existe sim o sonho vinculado à realização e à felicidade. Só com a razão posso ver a beleza de cada um, como em Tunai e Sérgio Natureza, “As aparências enganam / Aos que odeiam e aos que amam / ... As labaredas e as brasas são / O alimento, o veneno ... / A recordação / Dos tempos idos de comunhão / Sonhos vividos de conviver...”


Biografia:
Pedagoga. Articulista e cronista. Textos publicados em sites e blogs.Participante e colaboradora do Projeto Passo Fundo. Autora dos livros: Amantes nas Entrelinhas, O Exercício das Vozes, Autópsia do Invisível, Comércio de Ilusões, O Eco dos Objetos - cabides da memória , Arte em Movimento, Vidas Desamarradas, Entrelaços e Eles em diferentes dias.
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