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O Ensino Formal e o Autodidatismo
Heleno Reis

Nestes tempos de forte sentimento meritocrático na educação brasileira e de grave crise econômica uma velha discussão volta à tona no seio das famílias, muito especialmente no seio daquelas que, não sei muito bem por que, convencionamos chamar de classe média, quando a sensatez manda que se coloque os pés no chão é repense a escola dos filhos para equilibrar o orçamento apertado.

A decisão de cambiar ou recambiar os filhos da escola privada para a escola pública não deixa de ser uma tarefa assaz difícil e dolorosa para os pais. Quais chefes de família não se sentiriam negligentes, não ficariam pesarosos com a possibilidade de, mesmo contingencialmente, é o que esperam que assim seja, não mais poderem dar a devida prioridade, o devido valor à educação dos filhos e de, por isso, julgarem estar concorrendo para a precarização do futuro deles por conta da parcimônia forçada? Afinal, o ensino público no Brasil vem há muito sofrendo a pecha de ser sofrível e desigual.

Mas, pensando bem, o diabo não é tão feio assim como se pinta quando se fala em educação pública. Por via de regra, não é esse ou aquele outro tipo de escola, seja da rede pública ou da rede privada, que determina o sucesso ou o insucesso desse ou daquele aluno no futuro. Se fosse assim, não teríamos tido e não teríamos hoje no mundo tantas pessoas de comprovada capacidade e de notável importância para a humanidade que, por rebeldia, voluntarismo, falta de condições econômicas etc., não importa aqui o motivo, passaram ao largo do ensino formal ou frequentaram apenas uma ou algumas séries do ciclo escolar.

O que irá tornar um estudante bem-sucedido, creio, é a capacidade de ele, além do currículo escolar obrigatório, além das carteiras escolares, aprender por vontade própria; é a curiosidade, nata ou inata, tanto faz, pelo desconhecido e pelo inusitado que se vislumbram para além dos ditames pedagógicos da escola. Já imaginaram se as pessoas da lista abaixo* tivessem preferido frequentar uma escola formal ao autodidatismo? Seriam o que foram ou o que são? Não sei. Só sei que, para mim, o sistema de ensino oficial é um meio de aprendizagem e não um fim em si mesmo. É apenas um rumo pedagógico gerido por currículos arbitrários que o sistema – muitas vezes longe das realidades e das capacidades individuais – impõe aos educandos.

Ora, quem determina o nosso o futuro somos nós mesmos, independentemente de a escola ser da rede pública ou da rede privada. A meritocracia hierarquizante no Brasil pode até continuar sonhando privatizar o ensino público para controlar, mercantilizar, monetizar e, por fim, elitizar a educação, mas jamais conseguirá gerir o ser individual, a sua inteligência, a sua liberdade de conhecimento, a sua imaginação, o seu poder de discernimento e decisão e, tampouco, determinar o seu futuro.

Portanto, pais, não fiquem preocupados com o tipo de escola dos filhos, pois o sistema educacional brasileiro não é, vale reafirmar, um fim em si mesmo. É tão somente um meio oficial sistematizado criado mais para fornecer conhecimento, ainda que em tese, do que para estimular o aprendizado do aluno, ou seja, é uma ferramenta que foi pretensamente pensada – e, infelizmente, ainda é pensada assim - com o objetivo nada realista de “contribuir integralmente” para o desenvolvimento intelectual do aluno, o que não significa concluir que seja eficiente e producente na sua missão de ajudar o estudante a alcançar de modo concreto seu objetivo final: o saber, a formação e o exercício de uma profissão exitosa, tanto no sentido espiritual, pessoal e social, quanto no sentido material.

Fiquem preocupados, sim, pais, em agir proativamente na educação dos seus filhos, ou melhor, em secundar de modo efetivo a escola que eles frequentam, em preencher os vazios que ela indubitavelmente deixa, em ajudar a despertar e a incutir neles a necessidade da autoeducação e, portanto, da disciplina consciente, ingredientes esses indispensáveis na busca do conhecimento por meio da leitura e da pesquisa obstinadas, voluntárias e livres como complemento, como reforço ao currículo escolar imposto e, por conseguinte, capenga e desfocado das realidades e das demandas modernas, tanto individuais quanto sociais. O importante é que, amanhã, a soma dos conhecimentos adquiridos pelos seus filhos, independentemente da forma e da fonte, logre êxito em alimentar a autoestima deles pela proficiência profissional e social e pelo conforto existencial alcançados por eles.

Quantas pessoas, muitas delas por indução dos pais ou impelidas por exemplos alheios, diplomaram-se e, no fim das contas, sentindo-se insatisfeitas com o resultado dos estudos ou com a profissão exercida, e afundadas no mais profundo desalento, vez por outra deixem escapar um murmúrio de pura de insatisfação ou resignação: “não era isso que eu queria para mim” ou “não é isso que eu quero para minha vida”. Sob a outra perspectiva, seria razoavelmente improvável que um autodidata proficiente viesse a dizer isso no decurso da sua vida e do seu exercício profissional, já que, pela experimentação entusiasta e voluntariosa, e solitária com certeza, escolheu ser o que, pela persistência e zelo inauditos, acabou em consequência sendo.

Em síntese, sem pretender discriminar e depreciar a escola formal em seu aspecto geral – a generalização advinda do preconceito é parva - melhor que haja autodidatas exitosos, proficientes e autoestimados, do que doutores, mestres e técnicos negligentes, imprudentes, imperitos, frustrados e, por conseguinte, desacoroçoados.

Ou melhor ainda, que pudessem haver, sim, diplomados formais por excelência que fossem, pelo menos, metade autodidatas. O mundo agradeceria.

*Lista de autodidatas famosos abaixo:

Abigail Adams
Abraham Lincoln
Agatha Christie
Albert Einstein
Alexander Graham Bell
Andrew Carnegie
Ansel Adams
Arnold Schoenberg
Art Buchwald
Benjamin Franklin
Bill Gates
Carl Bernstein
Carl Friedrich Gauss
Chandler Burr
Charles Dickens
David Ben-Gurion
Derek Bickerton
Elizabeth Barrett Browning
Emma Goldman
Ezra Cornell
Geraldo Emerson Pimenta
Grover Cleveland
Hans Christian Andersen
Hart Crane
Henry Clay
Henry David Thoreau
Henry Ford
Hubert Howe Bancroft
Isaac Newton
James Baldwin
James Cameron
Jane Austen
Jaron Lanier
Jimi Hendrix
Johann Wolfgang von Goethe
John Bartlett
John Browning
John Cheever
John Edward Bruce
John Henrik Clarke
José Saramago
Joseph Campbell
Joseph Conrad
Leandro Rosa
Leo Tolstoy
Leonardo da Vinci
Louisa May Alcott
Machado de Assis
Malcolm X
Maya Angelou
Michael Faraday
Octave Chanute
Patrick Henry
Paul Allen
Pedro Barbosa
Peter Cooper
Quentin Tarantino
Ralph Lauren
Ray Bradbury
Raymond Chandler
Richard Avedon
Richard Branson
Robert Browning
Robert Burns
Rodrigo Rodriguez (Regra Zero)
Stanley Kubrick
Steve Wozniak
Thomas Henry Huxley
Wally Amos
Walt Disney
Walter Cronkite
William Blake
William Cobbett
William Faulkner
Wilson Bentley
Woody Allen

Heleno Reis, Minduri, 22-07-2017



Biografia:
Poeta, cronista e ficcionista desde os dezessete anos, sou adepto do realismo fantástico. Tendo como base esse gênero literário permissivista no que tange à incomensurabilidade da imaginação criativa e, assim, alijado das tangibilidades da vida, faço uso desabrido do maniqueísmo para, intuitivamente, inspirando-me nas vicissitudes e nas distrações humanas, exteriorizar e historicizar as minhas percepções e emoções cotidianas. Todas elas envolvendo temas delicados e controversos presentes na nossa sociedade. De um lado, o materialismo, a avareza a corrupção política e o egoísmo econômico e social; o racismo, o preconceito, o ceticismo e/ou a hipocrisia religiosa e social da mediocracia. Do outro lado, a alienação política, a ludicidade popular anestesiante, a credulidade consoladora e alvissareira, a sensualidade aflorada, a índole tolerante, a interação existencial e a solidariedade comovente dos simples, tanto no espaço rural quanto nas áreas urbanas. Tudo isso temperado com generosas pitadas de humor, ironia e sarcasmo.
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