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"QUEM NÃO DEVE, NÃO TEME."
Alexsandre Soares de Lima



Everson, primogênito da família Vital, era um garoto humilde, pacato, sorridente. Vivia com seus pais e mais cinco irmãos. Eles moravam numa quitinete no Morro do Urubu. A vida deles era muito sofrida naquele início dos anos 80. O chefe da família, seu Moacir, era pedreiro e também um faz-tudo. Já a sua esposa Dandara era empregada doméstica, trabalhava num apartamento na Figueiredo de Magalhães, em Copacabana. Everson e sua irmã Kênia, por serem os mais velhos, ficavam tomando conta dos irmãos menores. Kênia, depois de morar por 6 anos na casa confortável dos tios em Niterói, decidiu voltar pra casa dos pais. Sentia muitas saudades dos irmãos, embora gostasse muito dos tios, que a pegaram pra criar pois tinham pena de vê-la bebê já sofrendo naquela condição precária e, porque também queriam que ela fizesse companhia ao primo, filho único deles. A menina se dava muito bem com o primo, só que era rebelde e não gostava de estudar. Dava muito trabalho, diferentemente do seu primo. Kênia e Eduardo eram da mesma idade e foram criados como se fossem irmãos. Ela implicava as vezes com ele, que era muito calmo e nem revidava. Só fazia chorar. Era realmente tranquila a convivência dos dois, Eduardo ria muito da irmã postiça devido ao fato de ela ter a mania de chupar o dedo polegar. Eduardo era aplicado nos estudos, já sua "irmã" era péssima, conseguia as vezes aos trancos e barrancos tirar notas regulares nas provas. Apanhava muito do tio para aprender a fazer as operações matemáticas. Não tinha capricho com seus materiais escolares, os livros e cadernos tinham "orelhas". Kênia e Eduardo iam juntos para o colégio, ele estava uma série mais adiantado que ela. O menino era muito tímido, e só sentia-se mais tranquilo na hora do recreio, quando encontrava com Kênia.
Eduardo sentiu muito quando a prima falou que queria voltar pra casa dos pais. A menina começou a sentir falta da família de origem quando ficou sabendo que a irmãzinha mais nova teve meningite e quase morreu. Também ficava pensando nos irmãos sozinhos em casa enquanto os pais trabalhavam, e outro motivo era porque sabia que lá poderia ficar à vontade, só nas vielas brincando até tarde, e sem os tios puxando a orelha dela pra estudar.
Lá a menina desandou, começou a ficar maltratada com os cabelos em pé e com piolhos. No colégio sempre repetia de série , até​ depois abandonar os estudos. Na adolescência, começou a responder os pais. Chegou a dar um tapa na cara do pai dizendo que ele saía do trabalho e em vez de ficar com os filhos, ficava na companhia dos " amigos do bar" bebendo e paquerando outras mulheres como se não tivesse família. A menina era realmente atrevida, ninguém segurava ela. A mãe, Dona Dandara, se via na filha. Ela era do mesmo jeito da filha, rebelde, briguenta, cheia de atrevimento. Everson era calmo, mas tinha os momentos que ele se estourava. Queria a harmonia da família, ele se cobrava por ser o irmão mais velho. Assim como Kênia, ele não era bom nos estudos. Mal chegou a aprender ler e escrever. Já adolescente foi morar com os tios, ficou no lugar de Kênia. Lá começou a trabalhar com o tio e o primo Eduardo numa banca de verduras e frutas. Era bem prestativo, ajudava bastante o tio. Não respondia, era bem animado no trabalho. Gostava de ir com o tio ao Mercado comprar verduras para revender. Rodava toda a Central de Abastecimento com o tio pechinchando, em busca de bons preços. E assim ele também foi aprendendo a negociar​.
Everson passou a tomar conta de uma outra banca, localizada num bairro próximo. Começou a trabalhar pra ele mesmo. Eduardo ficava as vezes na banca do pai e outras na banca do primo. Everson sonhava alto, nem ligava pra sua origem humilde, sua cor negra. Queria ter muito dinheiro pra ter uma fazenda, pois gostava muito de sossego, gostava também muito de cavalos, bois. Jogava na loteria federal, sempre almejando ser muito rico. Um belo dia o Rio de Janeiro todo recebeu a notícia que uma banda de Rock estrangeira de baladas românticas de muito sucesso, iria se apresentar no Maracanã. A tia de Everson era muito fã dessa banda. Os bilhetes estavam à venda numa loja de roupa em galerias do Rio e Grande Rio. Sábado à tardinha, depois das vendas, Everson, Eduardo e um amigo deles lá da banca foram passear na galeria em Niterói e também comprar os ingressos. Eduardo estava com um " bolinho" de dinheiro no bolso, dinheiro que sua mãe deu pra comprar cinco ingressos. Partiram os três ( os dois primos e o amigo) pra galeria e lá, começaram a olhar as vitrines. Eram muitas roupas lindas, roupas de marcas, todos estavam felizes. Rodaram toda a galeria, de repente Eduardo resolve ir ao banheiro. Na volta, ele se depara com um segurança gritando com Everson e o segurando pelo colarinho da camisa. Disse que estava observando os passos dele e dos outros dois desde que adentraram o centro comercial. Everson xinga o segurança, Amilton ( o jovem amigo dos primos) tenta defender Everson mas é contido por outro segurança, que também segura Eduardo. Os três foram levados à uma salinha, a sala da tortura. Lá foram revistados, ficaram pelados. O chefe da segurança viu a quantia de dinheiro com Eduardo. Ele disse que era pra comprar os ingressos para a apresentação da banda de Rock. O homem não acreditou de imediato, mas devido a sua experiência com marginais acabou convencido de que os jovens não eram ladrões. Triste cena, foram tratados como se fossem delinquentes. Viram pessoas serem espancadas. Um segurança quebrando uma vara de bambu nas costas de um sujeito. Cenas de violência, brutalidade e preconceito registradas na mente de três jovens adolescentes. Isso aconteceu há quase 30 anos, mas é a realidade dos nossos dias. Te julgam pela seu jeito de se vestir, pela cor da sua pele, pelo fato de você não ter muito estudo. Enquanto não mudar a mentalidade seremos vítimas da maldade do preconceito. Everson sentiu a dor da humilhação, a revolta tomou conta dele, não tinha culpa de nada mas carregava aquela culpa. Por que não nasceu rico? Por que não nasceu em berço de ouro? Por que ele não poderia sonhar? Só por ser negro? Aquelas roupas bonitas das vitrines, será que ele não teria o direito de usar, comprando com o dinheiro do suor do seu trabalho? Everson chorava, chorava muito. Eduardo, o menor dos três, ficava paralisado, parecia ver um filme de terror. Já Amilton​, com lágrimas nos olhos, tentava acalmar os amigos. O chefe do departamento disse para Everson que ele não tinha necessidade de chorar, ficar nervoso, afinal " quem não deve, não teme". É fácil falar assim quando se vive em outra realidade. Os negros, os pardos devem muito à sociedade brasileira. Somos heróis marginalizados! Os três jovens estavam sendo castigados por quem não tinham nada a perder. Ou melhor por quem pensava que não tinha nada a perder, pois quem enxerga a vida com os olhos do preconceito só tem a perder. E o preconceito feriu a alma de Everson. A revolta foi tão grande que ele decidiu seguir o lado errado da vida. A revolta dele não foi para o bem, mas foi uma revolta que o fez se afundar cada vez mais. Deixou a casa dos tios, isso depois de uns dois anos, e caiu na marginalidade. Ficou bem longe da família, namorou a filha de um chefe de facção criminosa. Só andava com seguranças, era bicho solto. Um dia resolveu acertar as contas com um amigo de infância que estava aprontando no morro onde ele nasceu. Tarde da madrugada, ouve-se tiros. Everson foi abatido. Quis voltar pro morro onde nasceu, a fim de defender sua família de um amigo de infância, que tinha virado bandido, e acabou sendo morto por ele. Everson antes de morrer disse estas palavras:
Irmão, deixe esta vida. Não faça como eu! Você é meu parceiro! Você não é vítima da sociedade como eu! Você tem tudo, não é todos que moram em morros que são bandidos!
Eu te peço, irmão! Crie coragem pra mudar de vida! A minha vida é uma outra história... É uma história que eu bem lá no fundo queria reescrever. Mas é difícil, é uma luta pra sair deste destino que me colocaram. Estou sozinho nessa escuridão, eu não me vejo!
Após ter dito estas palavras, Everson tombou com um tiro no coração. Caiu nas escadarias de uma Igreja Evangélica. A mesma igreja que sua mãe congrega e que tanto ora pela família. Oremos pela nossa família! Família é tudo, abaixo de Deus!

( Autor: Poeta Alexsandre Soares de Lima)


Biografia:
Eu me chamo Alexsandre Soares de Lima, nasci em Meriti, no Rio de Janeiro no dia 22 de abril de 1976. Sou o poeta que fala da importância de viver na luz do amor. Sou autor de dois livros de poesias, o primeiro lançado em 1996 ( ENGRENAGEM) e o segundo lançado em 2005 ( COM O OLHAR FIXO NA ALMA ). Escrevo diariamente poesias na minha página do Facebook ( POETA ALEXSANDRE SOARES DE LIMA ), já publiquei em diversos jornais e revistas. Tenho canal no YouTube, se chama POEMAS DO OLHAR FIXO NA ALMA, em cada vídeo eu crio na hora poesias sobre amor, amizade, solidariedade e fé em Deus. Meu lema é VAMOS ESPALHAR O PERFUME DO AMOR E DA POESIA PELO MUNDO!
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