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Rio, 453 anos...
(e comemorar o quê?)
Roberto Queiroz

Na última quinta-feira o Rio de Janeiro "comemorou" 453 anos de idade. E, sim, o comemorou teve de aparecer neste artigo entre aspas. Comemorar o quê, meus caros amigos e conterrâneos? A presença de uma cidade praticamente falida? A sensação de que dias piores ainda não deram as caras? Comemorar especificamente o quê? (de preferência com inúmeras interrogações).

Um rápido aporte de nossa cidade outrora maravilhosa: servidores estaduais recebendo em parcelas, isso quando recebem; qualquer princípio de chuva alagando a cidade a níveis catastróficos, com direito à milhares de cidadãos pagadores de seus impostos perdendo tudo, praticamente tudo, até mesmo a esperança; um prefeito que nem sequer reconhece o carnaval como festa popular, pois está mais interessado nos mandos e desmandos da Igreja a qual pertence, e por isso mesmo sai de fininho da cidade para curtir o que há de melhor nessa época na Europa; um sistema de transportes caindo aos pedaços com linhas de ônibus que simplesmente deixaram de existir, declararam falência, ao menor sinal de que deveriam oferecer aos seus clientes (pobres passageiros!) um reles ar-condicionado; a população acuada pela violência urbana e o crime organizado cada dia mais livre e opressor; agências bancárias assaltadas diariamente; escolas sucateadas, ocupadas por vagabundos que não estão nem um pouco interessados nos rumos da educação, e professores acuados, feitos reféns pelo sórdido regime que comanda a cidade; precisa continuar?

Na boa: precisa. E muito.

A Rede Globo, que não é boba e além do mais é mestre em alienar o povo ignorante que habita nossas terras, exibe uma crônica comemorativa da data no seu RJTV. Resultado: tive a sensação legítima durante todo o texto de que eles estavam falando de uma cidade em outro país, outro planeta, outra constelação. Fazer o quê! É a Rede Globo, verdadeira governante desse país covarde e nanico, que pode abrir mão de tudo na vida, a comida dos filhos, as contas do mês, menos de suas novelas e reality shows.

O Rio de Janeiro continua indo... No máximo. Porque de lindo a cidade não tem mais tanto assim. Saia às ruas. Parece de se esconder dentro de casa por conta de um discurso que promove o medo perante a população e saia de vez em quando de casa. Dê um boa olhada na sua cidade e preste atenção no que está acontecendo. É vil, é covarde, é desumano.

Preste atenção na intolerância religiosa que virou moda, preste atenção no racismo ganhando força novamente, preste atenção no machismo e na misoginia contra mulheres que desejam apenas buscar o seu espaço, preste atenção na falta de capacidade de sermos solidários, de entendermos (ou, pelo menos, respeitarmos) o que é diferente de nós, preste atenção nas ruas sujas, mal cuidadas, abandonadas, no desrespeito contra aqueles que financiam a cidade há mais de cinco séculos e não vêem uma contrapartida à altura.

Preste atenção, O tempo todo. Não custa nada. E é de graça.

No Carnaval de 1989 a Beija-flor de Nilópolis - atual campeã do Grupo Especial - apresentou ao público brasileiro na Marquês de Sapucaí o Cristo Mendigo, criação do carnavalesco Joãosinho Trinta para o enredo "Ratos e urubus, rasguem a minha fantasia!". Ele trazia no abre-alas a faixa mesmo proibido, olhai por nós! (impedido de desfilar em toda a sua exuberância, veio enrolado num plástico) e chocou espectadores que aguardavam pelo luxo e o glamour característico do carnavalesco. Naquele ano a agremiação seria vice-campeã, mas o desfile nunca sai da cabeça de quem o assistiu.

Pois bem: o Cristo de hoje, 29 anos depois, anda se sentindo tão mendigo como o daquela época. Maltratado até dizer chega, vítima dos discursos mais falaciosos feitos em seu nome, parece implorar (até ele!) por dias melhores, horas melhores, minutos, segundos que sejam, melhores. Qualquer melhora no atual cenário carioca já é super bem-vinda.

A questão: de onde virá tal melhora?

Pergunto-me se há solução que salve o Rio de Janeiro de seus piores dias em toda a sua história (ou, pelo menos, para a minha geração) e não encontro resposta que apazigue a minha tristeza e impotência.

Só podemos esperar que ano que vem, quando a cidade completar 454 anos, tudo isso não passe de uma lembrança amarga...


Biografia:
Crítico cultural, morador da Leopoldina, amante do cinema, da literatura, do teatro e da música e sempre cheio de novas ideias.
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