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Sarau de Poesia
T. Richter

Era a primeira vez dela em um sarau de poesia. Na verdade nunca pensara em participar de um até umas três ou quatro semanas atrás, quando, no cinema, ouvira pela primeira vez o poema “Tomar uma Coca Cola com você” de Frank O’Hara ser recitado em um filme água- com- açúcar revestido de leve verniz de fantasia.
     Por acaso vira o cartaz na vitrine de uma livraria. “Sarau de Poesia- aberto a todos- entrada gratuita”. A livraria era a mesma onde comprara o último livro do Harry Potter anos atrás. Aliás, essa havia sido a última vez que entrara lá. “Como eu era criança na época” pensou “Nem gostava de comédia romântica naquele tempo!”.
Indiferente às constatações agridoces da moça, o pequeno cartaz diligentemente continuava a apregoar, em belas letras cursivas verde jade, o dia e o horário do sarau. O local do evento não foi citado, ficando subentendido que o mesmo se daria ali, na livraria, e não na loja de ferragens mais próxima nem no botequim do português da esquina, onde provavelmente só permitiria que recitassem Camões caso o sarau lá ocorresse.
Um plano estalou em sua mente, de súbito, sem aviso prévio. Decoraria “Tomar uma Coca Cola com você” e recitaria, como tributo à Sexta Arte, seu poema favorito no sarau!
Calculou rapidamente. Tinha uma semana inteira para cumprir a tarefa de decorá-lo. Levando em consideração que já lera o poema cinquenta e sete vezes desde que vira o filme, não deveria ser tão difícil assim. Chegou até a postá-lo no Facebook, junto com uma belíssima foto em preto e branco, achada com Google Images, de um jovem casal de costas, sentado em um bando na beira da praia, com uma lata de Coca Cola entre eles. Se bem que na foto original não existia a lata de Coca Cola. Ela a colocou usando Photoshop. Ficou mais ou menos. Se não se olha-se com atenção, até que passava despercebido.
A semana passou voando. O poema foi memorizado com um pouco mais de dificuldade que o esperado. Chegou a assistir várias vezes alguns vídeos no You Tube com cena do filme onde que o poema era recitado. Também curtira, comentara e compartilhara os vídeos. Isso não ajudou muito na memorização, mas achou que valia a pena. “Merecido” pensara “Merecido”.
Fora uma das primeiras pessoas a chegar. Escolhera para aquele dia um vestido azul escuro com mangas bufantes, que aparentava ter saído do guarda- roupa de uma apresentação teatral de “Alice no País das Maravilhas”. E sapatos baixinhos com alças, sem meias! Havia ficado em dúvida entre usar o cabelo solto ou preso em uma trança. Acabou preferindo a primeira opção, mais livre e despojada.
O sarau começou com alguns minutos de atraso. Umas dez pessoas sentavam-se em círculo nas cadeiras de plástico que tão pouco combinavam com o resto da loja. Um poeta de meia idade, que já publicara dois livros por conta própria e era cliente habitual da livraria a muitos anos, além de ser o idealizador do evento, fez as honras desejando a todos um cordial boa tarde seguido de teatrais boas- vindas, depois apresentou-se e, por fim, recitou dois poemas de sua autoria. A ideia do sarau havia sido dele, nada mais justo então.
O poeta foi seguido por um rapaz que usava cachecol, mesmo sendo um mês de fevereiro em plena cidade do Rio de Janeiro, que recitou um poema de Fernando Pessoa. Ou de um de seus pseudônimos... ou heterônimos...não fazia muita diferença naquele momento para a moça, pois aquele foi o momento onde a ela levantou-se e pediu a palavra.
Recitou bem. Recitou com gosto. Com emoção. Em voz clara e ótima pronúncia. Não errara uma única estrofe. Nem uma única palavra. O poeta veterano acenou com a cabeça em cumprimento, um grave sorriso de aprovação nos lábios. A moça sorriu, o rosto vermelho, não sabia se devido a emoção ou a timidez ou um pouco de ambos. Sentou-se, ainda respirando fundo.
Um braço ergueu-se, lenta e indolentemente. A menina que recitara “Tomar uma Coca Cola com Você’ precisou virar levemente o rosto para ver quem pedia a vez. Um rapaz alto, um pouco mais velho que ela própria. Ela o acharia bonito se não fosse a aparência descuidada, com barba por fazer e cabelos desalinhados. Calçava botas pretas que mereciam uma boa dose de graxa, calça jeans de um tom bem escuro e uma camiseta cor de chumbo, sem nenhuma estampa.
Tirando um pedaço de folha de caderno pautado já bem amassada do bolso de trás, o rapaz dirigiu-se ao centro do círculo, parando quase em frente a ela. Tomou fôlego, sem fazer nenhum ruído, e principiou:

"Tomar Guaraná Dolly com você
É melhor do que ir à Baixada Fluminense, Vale do Jequitinhonha, Ceilândia, Belágua, Caruaru
Ou ficar com diarreia na Avenida Presidente Vargas no Rio de Janeiro
Em parte porque nessa camisa laranja você parece um cone de trânsito melhor e mais feliz
Em parte porque eu tolero um pouco você, em parte porque você gosta tanto do resto de leite moça que ficou na lata
Em parte por causa das tulipas laranja fluorescente que eu estou começando a achar que são radioativas...
Em parte pela zoeira que nos vem às risadas pelas costas de gente e de esculturas toscas feitas com material reciclável vendida em feirinha
é difícil quando estou com você acreditar que existe alguma coisa tão parada
tão solene tão desagradável e definitiva como o trânsito das seis no centro da cidade quando estou espremido na frente do ônibus
na luz quente do Rio de Janeiro à porra do dia inteiro nós estamos indo e vindo
de um lado para o outro como a árvore que tinha ali mas que foi cortada porque suas folhas sujavam a calçada
E a exposição de retratos parece não ter nenhum 3X4
De repente você se surpreende de alguém ter se dado ao trabalho de pintá-los se não usados em documentos
Olho
para você e prefiro de longe olhar para você do que para todos os retratos 3X4 do mundo
exceto talvez às vezes um de um cavalo com óculos escuros que vi numa exposição de arte pós moderna no CCBB"

(Nesse ponto piscou para ela, que já engasgava com olhos arregalados. “E ainda pisca para mim justo quando está debochando do meu trecho favorito do poema? Esse maldito!” vociferou mentalmente)

"Onde graças a Deus você nunca foi de modo que eu posso dizer que não sei onde fica e continuar indo sozinho
E isso de você se mover tão esquisito dá conta de papel de figurante alienígena em filme de ficção futurista
assim como em casa nunca penso no porque do velho maluco do seu pai descer nu a escada ou
em algum desenho das Tartarugas Ninja, Leonardo, Rafael, Donatelo ou Michelangelo que costumava me deslumbrar
E o que adianta aos impressionáveis tanta pesquisa
Quando eles nunca encontram a pessoa certa para se acorrentar na árvore que querem derrubar para passar uma via expressa enquanto o valor do terreno aumentava devido à especulação imobiliária
ou por Roberto Marinho que não escolheu o Cavaleiros do Zodíaco tão na mosca
quanto a Manchete acho que eles todos da Globo deixaram de ter uma experiência maravilhosa
que eu não vou desperdiçar por isso estou te contando o final da Saga de Hades"

Ao terminar, o rapaz de barba por fazer galhofescamente soprou-lhe um beijo e, pousando a folha de caderno amassada em sua cadeira vazia, foi embora sem olhar para trás, os tacões das botas batendo no chão de tábua corrida da livraria.
A moça acompanhou-o com os olhos. O rapaz sumiu atrás de uma estante de Literatura Internacional. Pouco depois ouviu-se o som da porta se abrindo. Era, agora, claramente possível ver que a folha de papel que o rapaz segurava estava completamente em branco, nenhuma letra de tinta maculando suas pautas."Maldito! Miserável!" bufou entre os dentes.
Nunca mais tornou a vê-lo, mas odiou-o até o fim de sua vida.
E também nunca mais pisou em outro sarau de poesia.

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