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Tarde Vazia
T. Richter

Eu estava de folga aquela quarta- feira de cinzas. Ela não. Fomos cedo à praia, almoçamos juntos e deixei-a em casa. Pareceu-me um dia tão bom quanto qualquer outro para buscar o cooler que havia emprestado a um amigo. Talvez até um pouco melhor que a média.
     Esse amigo trabalha na Freguesia. O expediente só ia terminar às 18 horas. Resolvi esperar em um shopping center próximo. Não sou um grande fã de shopping centers mas frequentei bastante esse na época do pré- vestibular, uns quinze anos atrás. Às vezes almoçava ali e jogava pinball... “Medieval Madness” era minha mesa favorita... Folheava alguma coisa na revistaria ou dava uma olhada nos CDs de rock em uma loja que não mais existe...
E também divagava, pensando no que viria a seguir e como as coisas correriam após passado o rito de passagem do vestibular, apoiado na grade do segundo andar enquanto olhava as árvores ao redor do estacionamento. Duvido que tenha pensado em algum momento que as coisas correriam como correram, que tudo fosse como hoje é.
No começo da tarde eu voltava então para às aulas à tarde no colégio, de onde só sairia às 18 horas, o mesmo horário que hoje espero meu amigo sair do trabalho. Parece que foi outro dia, apenas. Às vezes parece que foi ontem, mas não... não foi... mais de uma década já se passou. A forma como sinto o correr do tempo deve ser estranha, defeituosa talvez, daí essa dessincronia.
O tempo nunca foi meu aliado, de qualquer forma... Nunca foi de correr favorável a mim, exceto por um punhado de ocasiões contados nos dedos de uma mão...
O shopping, como eu esperava, está deserto. Perambulo a esmo por um tempo. Compro uma lata de refrigerante e acabo por me sentar nas poltronas em frente ao XIV Juizado Especial, completamente só. Leio um pouco. Uma televisão distante, visível pela porta de vidro de um laboratório exibe a reprise de alguma novela para recepcionistas de ar entediado.
Termino o livro que estava pela metade. Termino o refrigerante. Péssimo hábito, beber tanto refrigerante. Quero mudar isso. Acho que preciso, na verdade... Vez por outra algum transeunte passa pelo corredor, parecendo deslocado, sua presença ali um tanto incoerente. É um bom lugar para se ler, em dias como esse, em que o fórum está fechado.
À minha frente um cartaz em uma porta trancada convida de forma simpática “Venha dar uma espiadinha”. A loja está escura. Estantes e cabides ainda presos à parece mas completamente vazios. Seu nome já foi raspado do letreiro, mas ainda é legível, fastasmagórica como a marca que uma palavra escrita a lápis deixa no papel após ser apagada. Penso na pessoa que colocou o cartaz e sinto-me um pouco triste.
Recosto-me na poltrona. Uma tarde vazia, vadia, desapressada, consumindo-se ao som de bossa nova usada como som ambiente e do farfalhar das folhas das árvores ao vento. Uma daquelas tardes que você sabe serem cada vez mais raras após o fim da faculdade. Após o fim da juventude. Existe vida após a faculdade? Os anos vão se acumulando e ainda não descobri.
Estico as pernas e vou procurar uma lixeira para jogar a lata. Já são quase seis. Preciso buscar o cooler. A tarde se aproxima do fim.Uma daquelas tardes que você não será capaz de saber quando é a última do tipo, que não vai reconhecer quando esse momento chegar e que ele passará desapercebidamente, cessando-se sem aviso, sem despedida, sem nem mesmo o leve ruído de uma página virada de um livro qualquer, lido sem muita atenção.
                                Fevereiro, 2016

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