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Livramento em Copacabana
T. Richter

Já faz mais de uma semana do ocorrido, então não é de se admirar que notícias a respeito do atropelamento no calçadão de Copacabana já não tenham destaque nas notícias da grande mídia. O público se entedia com a mesma velocidade que se comove, afinal.
     Não que nesse caso específico não existam razões legítimas para choque... a morte de uma criança de poucos meses é sempre algo chocante, não menos o são um idoso internado com ferimentos graves ou toda a dubiedade que paira sobre como um motorista naquelas condições se encontrava atrás de um volante. Mas algo igualmente chocante, pelo menos para mim, aparentemente passou batido.
     Em um telejornal noturno, não lembro de qual canal específico, assisti algumas testemunhas e vítimas dando seus relatos do acidente daquela noite. Um deles, um rapaz de camisas sem mangas e ostentando alguns curativos, declara em tom empolgado e com aquele tipo de olhar que me faz gelar a espinha de que ele sofrera apenas ferimentos leves, tendo sido protegido por Deus. Um livramento. Obra divina. Livramento poderoso. E isso no mesmo acidente onde um bebê de oito meses perdeu a vida e um idoso encontra-se com a sua por um fio.
     Eu teria ficado atônito com tamanha arrogância se já não tivesse ouvido uma grande quantidade de declarações semelhantes vindas de diversas pessoas diferentes, mas que em comum possuem o fato de seguirem determinadas linhas do Cristianismo contemporâneo que parecem incentivar seus fiéis a se acharem especiais e superiores, de uma forma infantilmente egoísta, apenas por serem daquela denominação específica.
        Talvez o rapaz da reportagem pense que um bebê morrerá a sua direita e um idoso se ferirá gravemente a sua esquerda, mas com ele ocorrerá um livramento? Afinal Deus vai protegê-lo porque ele é abençoado por ser da religião correta, portanto melhor que os outros e digno de cuidado especial, enquanto uma criança de oito meses morre de parada cardíaca causada pela força descomunal da batida, provavelmente por ser parte dos planos de Deus que nós, seres humanos, não somos capazes de compreender?
        Deve ser isso, afinal o rapaz da declaração empolgante no telejornal é extraordinário. E não só ele... o líder religioso que ele segue e a congregação que ele frequenta inteira também o são. Eles são demais, não? Dois polegares para cima para eles. Se eu tivesse um terceiro levantava também.
        O problema deve ser comigo, que estranho tal comportamento vindo de indivíduos os quais seguem uma religião que declara ser um de seus princípios centrais o “Amai-vos uns aos outros”. O erro deve estar em mim, que acho contraditório um seguidor dessa religião, a qual orienta amar o próximo como a si mesmo, se alegrar e dar graças a Deus pela casa da vizinha ter queimado em um incêndio enquanto a da mãe dele nada sofreu.
       Admito que a declaração do rapaz no telejornal entalou na minha garganta. Acho que preciso tentar dar um jeito na bagunça que meus livros estão e tentar encontrar meu velho exemplar de “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. Fazem anos que não o abro! Talvez aquilo que o destacado professor alemão colocou no papel me ajude a compreender um pouco isso que vejo crescer ao meu redor, tornando-se mais e mais freqüente e, o pior de tudo, tão natural a ponto de não espantar ninguém.
                                  Janeiro, 2018


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