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Contos de Maria
Episódio 1 - A primeira vez
André Leite

Ela era somente uma garota mal compreendida. Havia sim dentro dela, desde que se tornara uma moça e talvez até um pouco antes, alguns desejos sádicos e uma ponta de masoquismo, os quais cultivara com enorme discrição. O problema não estava nesses desejos, absolutamente: eles fluíam em sua pele de forma totalmente natural e espontânea, e ela ainda tinha a destreza de praticá-los somente em locais discretos, com rapazes e moças que não a conheciam. Seria realmente uma lástima caso sua família e outras pessoas de bem descobrissem sobre esse seu hobby. Não será uma ironia que, nos tão proclamados tempos modernos, no qual os quase liberais se orgulham em afirmar que há plena liberdade, uma moça tão simpática, honesta e justa tivesse que esconder os seus impulsos, sob pena de ser hostilizada?
     Pois então, é bom simpatizarmos logo com a nossa querida Maria que, entre tantas marias, resolver assumir para si o papel se satisfazer às suas necessidades. Tudo começou de forma inocente, logo após virar moça, quando as novas sensações ainda lhe confundiam os sentidos, e os desejos eram incontroláveis e precisavam ser satisfeitos de forma imediata, ainda que de maneira amadorística. A menina, já moça, porém ainda intocada, fora deixada em casa sozinha pelos pais no fim de semana, somente com seu irmão mais novo, o qual pouca parte tem na história. Aconteceu, que não por coincidência, Antônio, rapaz de semelhante idade, chega de bicicleta às três da tarde, para conversarem. Ambos cientes de que estavam a sós na casa, e que por horas ninguém os iriam importunar. Nada fora dito a respeito do que aconteceria, mas, apesar da ingenuidade de ambos, o jovem colocou a bicicleta discretamente no corredor da entrada da casa, de forma que não pudesse ser vista pelos vizinhos ou caso alguém eventualmente entrasse na casa. A necessidade de segredo muitas vezes demonstra que pecar era uma intenção.
     Nossa amiga e protagonista mordia os lábios, e mantinha seus olhos fixados em seu novo brinquedo: o tesão da primeira juventude é incontrolável e muitas vezes mal diagnosticado. Ao passar pela porta de entrada nenhum dos dois jovens sabia exatamente quais seriam os próximos passos a serem tomados: como fazer, para que aquelas roupas que tanto incomodavam, fossem para no chão, para que aqueles lábios se tocassem, e para que se apalpassem seus corpos? Era necessário dar o primeiro passo, e o nosso jovem Antônio seria muito mais corajoso quando contasse a história a seus amigos de escola, pois naquele momento ele simplesmente permanecia estático, abstendo-se de qualquer movimento. Por um instante Maria sentiu dúvida. Não do tesão que sentia, ainda que não muito bem identificado com esse nome, ou da vontade de se fazer mulher naquele dia. Era na realidade uma questão prática: o que ela deveria fazer, quando começar, e como não o assustar?
Ele entra, ela oferece água, ele bebe água, ela apresenta a casa, ele elogia a casa, ela senta na cama, ele senta na cama. A ciência dos nossos protagonistas sobre seus corpos nesse momento era plena, e pouco sabiam eles o que fazer nessa situação de tamanho desconforto. Na cama de Maria, os dois sentados lado a lado, sem roteiro. Conversinhas. Pouco se falam, muito menos se diz. Ela não sorri, não meche no cabelo, não o toca. Ela permanece com os olhos fixados naquele já insignificante rapaz, determinada a cumprir o que determinava o seu próprio desejo. De tão jovem ainda não aprendeu o básico da comunicação. Mesmo se soubesse, no entanto, estaria muito aquém da capacidade de Antonio ler sinais.
Ele parado ela o beija. Impulsivo, sem jeito. Os dois adolescentes trocam carícias. Beijar já era do conhecimento de nossa protagonista – mas isso ainda não a diferenciava da maior parte das meninas de sua idade. E como todas, ainda não sabiam o resto. O nosso jovem herói respira fundo e, em um acesso de coragem, coloca a mão entre as pernas da nossa protagonista. Um surto, ainda com medo de uma resposta hostil aos seus movimentos. Mas, ao contrário do que era a sua expectativa, Maria não o repreende, apesar da indelicadeza e da velocidade desse movimento. Maria sente aquelas pequenas e delicadas mãos correrem entre suas pernas, por dentro de sua saia. A humidade denunciava a culpa. Ela se alegrava pela experiência de pela primeira vez sentir um toque, ainda que descoordenado, em suas partes de moça. Que alegria, que tristeza! Maria começava a lograr em seu objetivo de se fazer mulher, mas Antônio a nada compreendia e ainda continuava um menino. A verdade é que, muitos meninos, bem mais velhos e experientes que Antônio, não conseguem ou nem tentam ser homens. Frustrante.
      Uma foda entre um menino e uma mulher é algo extremamente desequilibrado. Maria, apesar de tão jovem, já era capaz de exercer domínio sobre os seus instintos, e fazia com que o seu desejo ditasse o tempo. E quase com a maestria de mulher experiente nossa querida protagonista assumiu para a si o controle daquele momento. Foi firme Maria quanto agarrou o antebraço de Antônio e se fez de guia da mão até então boba do rapaz. Ela puxa aquele inibido garoto para perto de si. Suas mãos passeavam por aquelas costas, suas unhas deixavam rastros. As respirações se tornaram intensas. Maria era naquele momento dona daquele jovem: nada passava em sua cabeça que não fosse o corpo da nossa protagonista, nada sentia ou queria sentir senão a pele a da jovem. Tudo aquilo que se passava fora daquele quarto de forma repentina parou de ser a ela uma preocupação, e seu único conhecimento era o estranho desejo que tinha pelo raquítico corpo do rapaz.
     Peça por peça, despe-se Maria. Não há pressa em seus movimentos. Aquele garoto assustado a olhando tirar a roupa calmamente à deixa ainda mais excitada. Os olhos arregalados de Antônio mirando seu corpo nu. Êxtase. A timidez da primeira vez logo é inibida pelo prazer de tão explicitamente ser objeto de desejo de alguém. Uma liberdade não ter mais que esconder o próprio corpo. Só que mais uma vez o nosso desastrado anti-herói tenta dar um passo maior do que sua própria perna. De forma descoordenada, ele avança sobre a brava Maria. Nossa jovem impede que aquele ato de bravura e falta de jeito tenha sequência. Ela coloca com suavidade a mão no peito do jovem. Ela se aproxima de seu ouvido, e suspira: “sua vez”. E o pobre Antônio, que se encontrava fora de si depois de admirar pela primeira vez uma a beleza que é o corpo nu de uma mulher, cai de volta à terra. E, com uma pressa desnecessária, arranca como se estivessem em chamas as suas próprias roupas.
     Finalmente! Maria nua em sua cama com aquele que em instantes viria a ser o seu primeiro amante. Dois corpos, com total liberdade de se tocarem, só o medo e a inexperiência seguram esses dois. E os jovens se entregam àquilo que antes nunca haviam provado. Toques, mãos e beijos, uma quase infinita possibilidade de prazer. Muito pouco se aproveita, que pena que a inexperiência limita tantos os jovens quando começam a praticar o amor. Sem direção clara, os dois nus deitados na cama, e ele se pronta por cima dela, ela abre as pernas. Toda essa expectativa não impede que o ato em si pouco dure. Devagar ele se coloca dentro dela, ela geme, solta um pequeno grito, mas tudo bem, a dor vale a pena. Seus movimentos não são uniformes, e em pouco mais de um minuto toda a ansiedade desses dois jovens amantes se transforma em dois corpos com um pouco de suor e uma camisinha descartada.
Maria divagava: o sexo é puro. Aquilo que abava de acontecer não fora o auge do seu dia, mas com certeza foi uma forma de prazer. Já sabia: ela tinha como objetivo ser senhora do seu próprio desejo, pouco lhe importavam as convenções de como agir ou a moral. Quanta hipocrisia e jogo político para se debater e julgar o simples e belo ato de foder. Histórias contadas em excesso, tão repetidas que a todos deixam fatigados, sobre as terríveis consequências psicológicas, sociais e para a sua saúde que aquela tão simples, barata e honesta diversão poderia proporcionar. Pode-se até dizer que a nossa brava heroína por um momento sentiu medo. Em nenhum momento forma alguma de incerteza, mas sentiu medo das consequências que poderia ter caso alguns de seus colegas ou seus pais descobrissem que uma jovem moça movida pelo desejo e pela curiosidade iniciou praticamente sozinha a sua vida sexual. Ah, os tempos modernos, gente moderna, mas que ainda prefere que a mulher seja apenas objeto de desejo, nada mais. Essa é uma receita infalível para que os homens sejam medíocres.
     Terminado o ato os jovens amantes ainda permaneceram um pouco na cama. Era algo totalmente novo estarem nus, um na frente do outro. Toda a inexperiência que se mostrara no sexo, era agora escancarada. Antônio, que na hora de tocá-la pela primeira vez ou de demonstrar alguma atitude era hesitante, a olhava sem nenhuma discrição, mas ainda que discretamente procurava se cobrir de forma a não se sentir totalmente exposto. Maria, nossa Maria, não. Mais conversinhas, mais protocolo. Ela conversava com o rapaz de forma descontraída, mas tentava ainda ensaiar alguma forma de vergonha de estar naquela situação, ensaio em boa parte do tempo esquecido. Após um pouco de conversa nossa Maria levantou-se e ainda nua retirou da cama os lençóis, enquanto Antônio se vestia. Ela colocou o lençol ao cesto, vestiu-se, e foi abrir o portão para o colega. A despedida foi uma oportunidade a ambos de ver o que seria a partir daquele o momento a síntese de maior parte dos relacionamentos pelos quais passariam: um beijo cínico e um abraço protocolar.
O jovem rapaz em sua bicicleta pensava no caminho de volta da superioridade que teria em relação aos colegas quando os relatasse a história, o primeiro a perder a virgindade entre seus amigos, ainda que tenha sido mais por uma falta de critério de nossa protagonista e por ele estar disponível naquele horário do que por alguma de suas qualidades. Esse episódio foi ao rapaz um dos poucos em sua vida medíocre, desde a primeira infância, aos quais guardaria com sabor em sua lembrança, quase como um trunfo, provavelmente até o fim de sua monótona vida. Ele nunca compreendeu a sorte que teve por ser tão mal escolhido pela nossa jovem heroína. E provavelmente não entenderia mesmo que explicado.
     Depois que o rapaz foi embora, a nossa querida não-mais-tão-moça Maria pensava no ocorrido. Ao mesmo tempo em que pela sua cabeça corriam possíveis explicações para caso perguntada por que um jovem foi visto entrando em sua casa naquela pacata tarde, havia nela a sensação de dever cumprido. Desejava tirar de si o peso que sentia na inocência. A mística em relação ao sexo, que há tanto tempo a assombrava, havia acabado se ser quebrada. Não conhecer o próprio corpo, não saber como provocar o prazer e calar o desejo para ela era insuportável, e desnecessário ainda por cima. Eu ainda me pergunto se havia nela o conhecimento do mundo de excitações que estariam por vir. Mesmo tão ainda inocente, até hoje me parece que já naquela época ela algo sabia. De qualquer forma, pode-se dizer que naquele momento a ansiedade a animava, pois tinha todo o tesão do mundo a desvendar. Arrisco até a dizer que Maria sentia-se naquele momento até um pouco feliz.
     Apesar das emoções da juventude, a vida continuou a seguir, e no domingo à noite seus pais retornam de sua viagem. Na protocolar conversa de chegada seus pais a questionam sobre o seu fim de semana, e Maria responde com naturalidade que tudo ocorrera como esperado. Maria naquele momento realmente não tinha nada a temer, uma vez que a pergunta, uma mera encenação de paternidade, não carregava nenhum interesse autêntico na resposta. As mesmas perguntas proferidas a Maria foram replicadas e aplicadas novamente ao seu irmão, mesmo que os dois na maior parte do tempo polarizassem naquela casa comportamentos e personalidades. Mesmo que moralistas, os pais da nossa heroína tinham a virtude de não serem detalhistas, o que seria de muito utilidade a ela nos anos seguintes.
      Vejamos, então, quais são as possíveis reflexões que podemos ter a partir desse primeiro episódio da vida de nossa cada vez mais querida Maria. Ela, tão moça, determinada a sentir-se mulher, submete seu corpo ao quase prazer que é deitar-se com um rapaz tão prepotente, medíocre e inseguro que é Antônio. Não é necessária, no entanto meus queridos leitores, forma alguma de indignação! Se é injusto a tal menina de tamanha personalidade deita-se pela primeira vez com tão inexpressivo rapaz, saibamos que a vida se encarregou dessa vez em fazer justiça: enquanto nossa Maria passou seus anos em busca de seus mais autênticos prazeres, o rapaz seguiu corretamente o fluxo da vida já desenhado a rapazes de classe média, encenando quase todos dias o que se esperava que alguém como ele fizesse.


Biografia:
Caipira radicado na cidade de São Paulo. Poeta por gosto ou necessidade, ainda a definir
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