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Um reino de monstros Vol.1 - Capítulo 1
Caliel Alves dos Santos

Resumo:
Tell chega a uma terra desconhecida e se coloca em risco após uma perseguição junto de um misterioso encapuzado.

Capítulo 1: Páginas em branco



Parte 1
Tell apontou a mão direita para o alvo e se certificou de que não erraria. Depois firmou o pé direito no chão, pôs o esquerdo um pouco atrás e respirou fundo.
Uma gota de suor escorreu pelo rosto de pele negra. A pedra estava a cerca de trinta metros de distância. Ele deixou a sua energia mágica fluir até a palma da mão. A energia formou feixes de luz espirais, que vinham para o interior da palma.
Logo os feixes se concentraram e formaram uma esfera de energia brilhante. Com um arremesso rápido, ele lançou a esfera de energia gritando a recitação:
— Projétil de Luz.
Ela provocou uma lufada de vento que lambeu os cabelos cacheados de Tell.
A esfera bamboleou em alta velocidade. Antes de chegar ao alvo, o garoto já festejava o seu sucesso. Mas ao invés de atingir a rocha em cheio, a milímetros do alvo, ela subiu pelo céu azul. O garoto ficou sem reação.
Ele acreditava que com um alvo desenhado numa rocha enorme como aquela, ele não teria como errar aquela magia.
Antes de ele começar a questionar o que tinha dado errado, uma criatura chamuscada caiu do céu, dando um grasnido final e sacudindo as patas fumegantes.
— Ah! Eu matei um passarinho.
Depois de constatar o corpo do defunto, Tell caiu em prantos. Começou a chorar e bater os punhos no solo se culpando pela morte da ave.
— Tudo isso por causa da morte de um urubu!
O velho pousou a mão no ombro dele. Só daí ele parou de chorar e se levantou, com as dobras dos dedos limpou as lágrimas de Tell.
— Vovô, não era um urubu, era uma andorinha, o Projétil de Luz esturricou a bicha todinha.
— Tell você é muito sentimental.
— Temos que enterrá-la vovô.
— Não ouviu o que eu falei agora a pouco não?
— Ela estava passando por aqui... Eu não tive culpa... Quero fazer algo por ela.
— Unfh, tudo bem. Vamos enterrar o pássaro.
O velho arregaçou as mangas e foi até os fundos da casa, onde ficavam as ferramentas. Pegou uma pá e cavou no lugar indicado por Tell.
— Ah, como minhas costas doem.
— O senhor só retirou duas pás de terra!
Os olhos cerrados de Tell fizeram o velho baixar a sua guarda. Ele admitiu que sua coluna não doía tanto assim.
— Temos que dizer alguma coisa.
— Tipo o quê? Que o papai andorinha ia voltando para casa, depois de um dia de trabalho cansativo e desejava brincar com os filhotinhos andorinhas e no meio do caminho um aprendiz de mago o matou.
O garoto esperneou dizendo que não era sua culpa e que não tinha visto.
— Tell já chega disso, você precisa crescer.
De repente a brisa fresca se tornou uma ventania assustadora. O avô protegeu o seu neto com os braços. O velho então mirou o horizonte onde ficava também a vila.
— Tell venha comigo.
— O que foi vovô?
— Lembrei de que preciso que faça algo para mim, terminei de escrever o meu livro, você pode levá-lo para a vila e enviá-lo pelo correio?
— Tudo bem.
— Esse é o meu neto.
Os dois entraram pelas portas do fundo. A casa de dois andares não parecia mais uma construção clássica, parecia apenas uma casa velha.
Essa era uma muitas das residências que o velho e Tell haviam morado, nunca se estabelecendo mais do que alguns meses num mesmo lugar, seu avô dizia ser um mago aposentado, agora o que ele queria era escrever livros.
Eles subiram até o andar de cima. As tábuas do piso de madeira rangiam a cada passo. Alguns cômodos continuavam fechados, os dois não precisavam de tantos quartos e não possuíam empregados.
Na oficina do avô, que nada mais era do que uma antiga biblioteca, ele levou o seu neto até a sua mesa.
O livro no qual o velho havia trabalhado estava embrulhado num tecido marrom, nem mesmo a capa Tell pôde ver.
Apontando para o embrulho, o garoto fez que sim com a cabeça. Seu avô parecia ter pressa.
— Pegue, coloque em sua mochila e siga as instruções que lhe derem.
O velho colocou o livro nos braços do garoto que quase desabou com o peso.
— Agora vá.
Tell fazia um esforço tremendo para que o objeto não caísse no chão e acabasse levando uma bronca do seu avô. O velho o seguiu com os olhos até a porta se fechar.
Tell foi até o seu quarto e pôs o livro dentro da mochila. Estava morrendo de curiosidade porque seu avô nunca o deixava lê-lo e tinha medo de ser descoberto bisbilhotando, agora era sua oportunidade de lê-lo.
Mas mudou de ideia, fechou a mochila e desceu a escada. No penúltimo degrau a tábua envergou tanto com o peso que quebrou com grande estalo.
Meu avô parece gostar de literatura pesada.
Ele riu com sua própria piada. Atravessou a sala e abriu a porta. A estrada seguia por entre cajueiros e mangueiras.
De todos os lugares que Tell tinha morado, este era o que mais dava prazer.
Embora ficasse longe da vila, o casarão lhe trazia um sentimento familiar.
Sentimento esse que conhecia bem pouco. Sentia falta dos pais que nunca mais tinham voltado para casa, seu avô sempre estava ocupado demais, e quando lhe dava atenção era para treiná-lo nas artes mágicas.
Como era seu único elo com o avô, ele se empenhava no treino, entretanto, sem sucesso.
Seu avô explicava que talento tinha um tanto de concentração e dois de persistência.
A estrada de acesso a residência continuava até um velho portão de ferro. Depois disso uma estrada descia serpenteando até a vila.
A velha casa ficava no alto de um morro. O que tudo indica que a antiga família vendeu a propriedade por não mais conseguir manter os custos.
Seu avô os chamara de “nobres decadentes”, Tell não sabia o que significava, mas no fundo imaginou que o significado não parecia nada bom.
Na oficina, o velho descortinou a janela e observou seu neto até desaparecer.
— Tell você a partir de hoje escreverá o seu futuro... Sozinho. Você terá sucesso aonde eu e seus pais falhamos.
* * *
Quilômetros acima da velha residência, uma esfera luminosa se materializou. Quatro seres ocupavam o seu interior.
Um deles era um homem que vestia uma longa capa, um lobisomem com ombreiras metálicas, um gorjala trajando um kilt e portando um grande tacape espinhado, o quarto era um bradador em seu típico traje esfarrapado e puído.
— Este é o local. Reconheceria essa energia mágica em qualquer lugar do mundo. Mas hoje esse velhote deve morrer custe o que custar.
O lobisomem embora quisesse, não conseguia compreender porque o encapuzado tinha tanta vontade de caçar um velho mago.
— Rei Zarastu, perdoe minha ousadia, mas porque este mago lhe traz receio?
— Ele é o nosso único empecilho meu caro Sirius.
Sirius começou a enxergar o seu alvo com outros olhos. No início acreditava que aquela perseguição tinha nascido de um capricho de Zarastu, mas para alguém que trazia inquietação ao rei, deveria ser um inimigo poderoso, sorriu.
A esfera foi descendo até chegar à frente do velho casarão. Uma joia vermelha brilhava em seu peito atada por uma grossa corrente prateada.
Zarastu bateu à larga porta da entrada, feita de madeira com uma argola de cobre no centro.
O líder do grupo fez uma careta debaixo de seu capuz, achou-a horrível.
A porta se abriu. Por um momento Sirius se colocou na frente da porta. Zarastu ajeitou o seu capuz e manteve a expressão de neutralidade.
— Está fácil demais Vossa Majestade, pode ser uma armadilha.
— Para ele nos deixar entrar, significa que também já não perde por esperar.
O lobisomem de pelagem escura rosnou como um cão de guarda. O grupo entrou. A sala parecia velha com seu piso xadrez e paredes mofadas. Havia um silêncio perturbador. Zarastu então sacudiu a capa e bateu palmas.
— Olá, tem alguém em casa, mas que péssima recepção.
A resposta veio da própria casa. Os pisos começaram a revirar no chão, o verso deles estava cheio de fórmulas mágicas que brilhavam e subia pelo ar, o selo tinha sido ativado com sucesso. Os invasores entraram em guarda.
— Maldita magia rúnica.
— Eu bem que avisei que era uma armadilha!

Parte 2
O espaço em volta do quarteto começou a se contorcer como uma bandeira agitada pelo vento. As paredes desapareceram e o teto também.
Os corpos ficaram sobre o piso xadrez, formando uma arena, a porta de madeira continuava flutuando no mesmo local.
— Eu nunca faria isso com você... Velho amigo. A casa é sua.
No meio da plataforma, o corpo do avô de Tell se materializou.
— Taala de Lisliboux, é um prazer revê-lo, pena que seja pela última vez.
Sirius se colocou a frente do rei, o pelo estava arrepiado, presas a mostra.
— Ele usou um selo mágico para prender o meu rei! Deixe-me matá-lo?
— Coloque esse cachorro na coleira Zarastu.
O lobisomem não aguentou a provocação de Taala e correu rapidamente para decepar sua cabeça com suas garras afiadas.
A rapidez de Taala foi maior do que a de Sirius, mesmo sendo idoso e robusto, ele desviou-se. A cauda do lobisomem pegou a sua perna em pleno ar e o jogou no centro da plataforma.
— Os anos não foram gentis com você Taala.
— Pior é você Zarastu, que tem ódio correndo nas veias no lugar de sangue.
Com um estalar de dedos de Zarastu, o gorjala saltou e girando o tacape, desferiu um golpe tão forte que toda a estrutura tremeu.
Taala evadiu e se pôs em defensiva na estrutura que flutuava no vazio.
O lobisomem aproveitou a oportunidade e tentou atacar com suas garras, visando às costas do velho mago. Taala esquivou com algum esforço.
O bradador pôs as mãos na barriga, inflou o peito, o gorjala e Sirius se afastaram. Abrindo uma enorme boca, o bradador usou a magia Sonido.
Uma rajada sônica atingiu Taala. Os tímpanos dele quase estouraram.
Eu tenho que aguentar, eu preciso ser forte por você, meu neto.
Ele colocou as duas mãos em defesa e tentou armar um escudo mágico, mas os anos consumiram sua energia mágica, foi derrubado violentamente.
O corpo foi arrastado até a ponta da plataforma, ele se segurou na pontinha. Zarastu caminhou devagar enquanto o outro tentava manter-se firme.
— O que acontece se você cair nesse espaço vazio?
Zarastu pisou numa das mãos que devido à dor logo foi solta. Com uma mão só, Taala se esforçava para não cair naquela escuridão profunda.
— Se me matar, aquela porta nunca vai se abrir, o seu único futuro será cair nessa treva.
— Eu pagarei para ver.
— Mas antes de te dar um fim eu tenho só mais uma pergunta velho amigo.
— Você nunca vai pôr as mãos nele.
— Não tenha tanta certeza.
— Você nunca foi tão poderoso quanto o nosso mestre.
— Falou o aluno pródigo. Diga-me onde está o maldito livro?
— Está muito longe daqui agora. Você nunca vai pôr as mãos naquele livro. E mesmo que eu não possa derrotar você e a Horda, surgirá alguém que possa.
— Belíssimas últimas palavras.
O pé de Zarastu se moveu para esmagar a outra mão do velho, mas a porta se abriu.

Parte 3
Tell descia a estrada pensando em como vovô Taala era solitário. Desde o desaparecimento de seus pais, aquele homem tinha se tornado uma pessoa envolta em mistérios e segredos demais.
Com um sorriso, o garoto pegou a mochila e abriu o embrulho retirando o livro.
A capa negra tinha uma única inscrição em letras douradas “Monstronomicom”.
Por um momento ele observou o livro em suas mãos. Analisou a situação, seu avô nunca tinha lhe mostrado o livro, e sempre o tinha por perto, Tell imaginou que motivação levaria seu avô a lhe dar o livro e levá-lo para longe?
Ele pôs o livro de volta na mochila e passou a subir a estrada. Em pouco tempo estava no velho portão. Mesmo não tendo a mesma sensibilidade mágica que o avô, ele pressentiu que algo estava errado.
Sem pensar duas vezes ele abriu a porta. O susto foi tremendo. Não reconheceu o cenário.
A plataforma xadrez flutuava, quatro estranhos convidados estavam presentes.
— Vovô!
— Fuja meu neto.
Os invasores se viraram. Zarastu percebeu que o Monstronomicom estava nas mãos de Tell. Os monstros ficaram sem saber o que fazer naquela situação.
— Vocês, peguem o garoto. Ele está com o livro.
— Já disse para soltarem o meu avô.
A voz saiu embargada. Tell abaixou a cabeça e segurou o livro no peito com a mão esquerda, as letras começaram a brilhar intensamente. Ele apontou a mão direita na direção de Zarastu, uma esfera de luz se formou.
— Projétil de Luz.
Após o disparo automático, a esfera aumentava de tamanho a cada metro que avançava. Os monstros tentaram defender a esfera de energia, mas Zarastu pediu para que ninguém interferisse.
— NÃO SE INTROMETAM, acham que não posso desviar esse ataque?
A esfera passou por entre os monstros atingindo Zarastu em cheio... Thum... Apesar da força do ataque, o mago não se feriu.
— Viram como eu não... Unhg.
Taala aproveitando a distração causada pelo neto saltou para a plataforma e segurou o oponente pelas costas, o imobilizando.
— O que pensa que vai fazer?
— O que deveria ter feito há muito tempo.
— Eu não vou deixar seu maldito, Sirius, pegue o fedelho.
Rapidamente o lobisomem alcançou Tell e o suspendeu pela garganta.
— Vovô, me ajude.
— Solte-o Zarastu, sua luta é comigo, não seja um covarde.
— Solte você primeiro.
— O que devo fazer com o garoto rei Zarastu?
— Acabe com...
Uma aura avermelhada começou a cobrir Zarastu e Taala. O rei dos monstros percebeu qual era o plano de seu oponente e deu um sorriso amargo.
— Acho que já não tem mais tempo de vida para fazer essas coisas meu velho.
— Cale-se, eu sempre guardo o melhor para o final. Tell de Lisliboux, filho de Taran, eu deixo todos os meus sonhos e um futuro como herança para você.
O velho lacrimejou enquanto Zarastu ria de modo insano. Tell não entendeu aquelas palavras, mas sentiu que elas eram verdadeiras.
O corpo de Tell foi sumindo aos poucos, até as garras de Sirius segurarem apenas o ar. A última visão de Tell foi seu avô e Zarastu num clarão rubro.
Antes de sumir ele fez questão de memorizar cada um daqueles inimigos.
O garoto sentiu o seu corpo se tornar transparente. Por um momento a visão, audição e tato não existiam mais. Mas sua consciência permanecia a mesma.
Em poucos segundos o seu corpo se materializou numa rua movimentada. Seus sentidos foram voltando aos poucos, a cabeça doía e sentiu uma enorme vontade de vomitar.
Depois do mal estar provocado pelo enjoo, Tell só voltou a enxergar depois de alguns minutos. As cores foram pouco a pouco se definindo. O azul do céu sem nuvens, o calçamento de pedras cinzentas e as barracas de vendedores multicoloridas.
Embora não soubesse onde estava, encontrava-se numa praça movimentada.
Muitos vendedores gritavam os preços de suas mercadorias, outros falavam de suas qualidades. Diversos animais também contribuíam com o barulho.
Com receio, ele pôs o livro dentro da mochila. Por um momento o garoto ficou analisando aonde havia chegado, e teria descoberto se não fosse atropelado.
— Sai da frente!
Tell se virou. Mas não teve tempo de desviar do homem que corria em sua direção... Thump!
Tell estava tão distraído que não reparou que alguém corria em sua direção em toda a velocidade. Não houve como o corredor parar, e os dois se chocaram.
O garoto foi nocauteado e o corredor esperneava reclamando e pedindo que Tell saísse de cima dele. Tell achou aquela figura um tanto exótica.
Ele trajava uma capa negra por cima de roupas longas e folgadas, com gola alta como se fosse duas orelhas de cachorro, uma máscara onde era possível ver apenas os olhos azuis e a boca fina.
Em sua mão direita havia um pequeno cetro, com uma joia escura na ponta.
— Eu falei para você sair da frente, você é surdo ou o que seu pivete?
Tell não conseguiu se desculpar, o outro acidentado gesticulava e gritava alto.
— Vejam, ele está ali e também tem um comparsa. Ataquem-nos!
No final da feira um enorme grupo corria em direção a eles. Na queda, ambos ficaram entrelaçados no chão e demoraram a levantar.
O encapuzado passou a correr. E para confundir os perseguidores, pediu a Tell que também corresse. O garoto ao invés de dar no pé, tentou convencê-los.
— Olhem, eu não fiz nada de errado, eu não estou com ele, nem sei como cheguei aqui.
O garoto tentou demonstrar sua inocência, mas os perseguidores não pararam de correr. A Tell parecia uma espécie de guarda municipal, e não eram nada comum, e sim um grupo de monstros.
Como temia que o livro caísse nas mãos dos monstros, Tell correu mais rápido que o encapuzado, o ultrapassando rapidamente.
— Eu disse para você correr seu idiota, mas não na mesma direção que eu!
Era tarde demais para que pudessem se dividir, os monstros já haviam declarado ambos como cúmplices. Tell tentou iniciar uma conversa.
— Moço eu cheguei aqui minutos atrás, onde é que eu estou e porque os monstros estão te perseguindo?
— É uma longa história moleque, eu não tenho tempo para ensinar caipiras a viver na cidade grande.
O garoto achou o desajeitado corredor encapuzado alguém muito rude.
— Me desculpa, eu só queria ajudar, talvez tenha sido apenas um mal entendido..
— Você é retardado? Acha que dá pra levar monstros no papo? Conseguiu o quê com isso sabichão? Você sabe quem é o líder da Guarda Municipal de Monstros? Não? Nem queira! Ele é um mapinguari, um poderoso guerreiro do Reino dos Monstros.
— O Reino dos Monstros?
Tell ficou assustado com essas palavras. Zarastu tinha um reino de verdade!
— Como um reino de monstros surgiu sem que ninguém fizesse nada?
— E como é que eu vou saber, não estudei ciências políticas, só sei que é um reino de verdade, e cidade após cidade a Horda aumentou de tamanho, mas isso não é da minha conta. Eu só tento sobreviver nesse mundo maldito, mas os problemas iguais a você vêm até mim, eu devo ter um imã para o azar, só pode ser isso.
Tell em toda sua vida nunca tinha visto alguém tão mal humorado. Além da agressividade, o encapuzado fazia tudo parecer negativo.
Eles correram tanto pelas ruas da cidade que já tinham deixado a feira para trás há muito tempo. A cidade parecia ser bem grande, porque atravessaram diversas ruas em zig zag.
— Você sabe para onde estamos indo encapuzado?
— Desculpe, eu não tenho o mapa da cidade.
— Porque você é tão mal humorado hein?
— Olha aqui garotinho, eu estava em plena fuga para fora desse lugar cheio de aberrações, até que apareceu uma barreira, você.
— Eu já te pedi desculpas.
Os monstros continuavam a avançar cada vez mais. O encapuzado pensou em se dividir com o garoto, mas seria melhor reservá-lo para o caso de ser pego, poderia até fazer uma troca com os monstros: sua fuga pela prisão do garoto.
— Olha garoto, se quiser sobreviver é melhor ficar perto de mim.
— Obrigado.
O encapuzado poderia ter se comovido com sua confiança, mas só tinha uma coisa em mente, sobreviver. As prisões da Horda não eram nada generosas.
Parte 4
O líder da Guarda Municipal de Monstros dividiu o seu grupo em dois.
— Eu quero que um grupo siga comigo e o outro vá pelo lado esquerdo, eles parecem estar indo para a parte mais velha da cidade. Leona lidera o outro grupo.
— Não me dê ordens capitão, além dos mais, eu não vou deixar escapatória para eles, miau.
Todo o grupo parou de correr e prestou uma exagerada continência.
— Sim senhor capitão Nipi.
Nipi tinha dois metros de altura e bateu em seu peito com os punhos soltando um longo rugido. Humanos e monstros ficaram em silêncio.
— Não fiquem aqui me bajulando seus inúteis, vão atrás daqueles dois e os capturem.
Dessa vez não houve continências e os monstros seguiram suas ordens. A perseguição continuou.
A guarda de monstros era constituída de caveiras e uma alma de gato, que por sua vez liderava o segundo grupo. Nipi guiava o seu bando até certo ponto, depois os seus guardas passaram a correr na sua frente.
Nipi também demonstrava cansaço após vencer uma grande distância, mas continuava a correr e com uma pausa de seus comandados ele passava a liderança.
O capitão como um mapinguari, tinha uma forma simiesca igual um gorila de pêlos escuros.
Seu corpo forte era coberto por uma pesada armadura de prata com ombreiras arredondadas, havia desenhos em alto relevo no peitoral. O seu elmo tinha uma barbatana metálica no alto da cabeça.
— Capitão Nipi, não acha que essa perseguição está indo longe demais?
— O que quer dizer com isso sua caveira covarde?
— Não é covardia senhor, mas veja em que direção eles estão se dirigindo.
Apontando para as ruas ao longe, a boa infraestrutura do centro da cidade deu lugar a um lugar cheio de casas em ruínas e ruas esburacadas. Nipi parou o grupo.
— Capitão Nipi!
O mapinguari pegou a caveira pelo pescoço ossudo e a estrangulou.
— Meu... Meu capitão... Perdoe-me pelo meu atrevimento... Argh...
— Com certeza seu guarda imprestável, eu como capitão dessa guarnição não admito que alguém questione ou desafie as minhas ordens, muito menos um soldadinho como você. Você sabe por que me deram o controle dessa cidade?
— Eu peço perdão... Arf... Não meu capitão... Não faça isso... Arf...
O suor escorria pelo rosto descarnado do monstro, as outras caveiras apenas tremiam.
— Não fazer o quê? Isso?
Com toda a selvageria, Nipi pegou o pobre guarda, o suspendeu acima da cabeça e o quebrou dando-lhe uma joelhada. A coluna se partiu e os ossos da caveira viraram pó.
— Mais alguém quer desistir de perseguir aqueles dois?
— Não senhor!
A resposta veio de todo o grupo, satisfeito com a obediência ele aproveitou para fazer um pequeno discurso.
— Eu sou o capitão Nipi, chefe da Guarda Municipal de Monstros. Conquistei esse cargo através de confiança. Embora meus soldados não passem de inúteis, consegui manter a ordem, os humanos nos respeitam e mesmo os possíveis rebeldes já foram capturados. Os que ainda resistem estão em número reduzido. Ninguém poderá nos derrotar. Então caveiras, marchem rumo à glória do nosso grande reino.
As caveiras comovidas passaram a aplaudir. O aplauso saia como um som de chocalho.
— Vamos capturar aquele tolo que acha que pode fugir de nós e aquele garoto também.
— Ele parece ser um rebelde capitão.
Nipi pensou no que uma das caveiras dissera. O encapuzado era um bom alvo, mas já o garoto lhe garantiria informações importantíssimas sobre o inimigo. O guarda disse:
— Não o reconheci como alguém dessa cidade, nem das circunvizinhas, pode ser um espião trazendo informações.
— Excelente, se continuar eu posso promovê-lo a tenente.
— Obrigado meu capitão.
— Às vezes vocês me aprecem até monstros confiáveis, será que resta algum cérebro nessas cabeças ocas? Huhuhuhuhuhuhuhuhu.
— Imagina capitão, obrigado.
A caveira agradeceu o elogio, mas por dentro sentia ódio de seu capitão.
Os guardas viviam sendo mau tratados. E morriam em suas mãos por qualquer motivo.
Mas se eles não quisessem receber punições, eles deveriam adorar o capitão Nipi como se ele fosse o próprio rei Zarastu.
Muitas vezes os guardas pensaram em removê-lo da liderança, mas não tinham poder para desafiá-lo, e o único monstro que tinha esse poder, não tinha interesse nenhum em derrotar Nipi.
O mapinguari não demonstrava nem um pouco de cansaço e a cada momento chegava mais perto dos dois humanos que perseguia.
— Vocês podem até correr, mas não podem se esconder.

Parte 5
Tell e o seu improvável amigo corriam desesperadamente.
O garoto achou aquele local um tanto estranho, não havia pessoas, apenas paredes com reboco mofado e estranhas pichações, para ele não era só vandalismo e sim uma espécie de código. A fuga continuou desenfreada até que a dupla se deparou numa viela.
— Droga, mas essa agora.
— Não tem como a gente escalar o muro?
O encapuzado achou a pergunta de Tell um desaforo.
— E você é raciado com gafanhoto?
— Não é...
— Vamos voltar e arrumar outra saída.
Foi isso o que fizeram, mas não encontraram outra saída. Na rua e no entorno, dezenas de monstros esperavam, voltar ao beco sem saída não ajudaria a dupla em nada.
— Vamos ter que lutar guri, sabe algum estilo de luta?
Tell respondeu timidamente:
— Não.
— Você sabe usar alguma arma?
— Não.
O encapuzado já começava a ficar impaciente.
— Sabe usar magia pelo menos?
O mascarado perguntou com um fio de esperança.
— Não muito.
— Mas você é praticamente um inútil.
— Eu não tenho culpa se não completei o treinamento e me perdi do meu mestre.
— E eu com isso seu pivete idiota?
Nesse momento quem perdeu a paciência foi o pacato Tell. Ele tinha se perdido do seu avô e não sabia como achá-lo, agora estava sendo perseguido sem motivo nenhum.
— Olha aqui seu encapuzado vestido de agente funerário, graças a você eu estou sendo perseguido por um grupo de monstros e cada vez mais longe do meu avô.
As caveiras ficaram assistindo a briga e não atacaram. Aquilo deixou Nipi furioso.
— Ataquem agora suas caveiras imprestáveis.
As caveiras deram um grito de guerra e saltaram sob os dois acuados fugitivos. Por instinto, o encapuzado se colocou a frente de Tell, agitando o seu cajado ele proclamou:
— Oh deusa Nalab, senhora da escuridão eterna, conceda-me tua força...
Nipi ficou impressionado com a quantidade de energia reunida no cetro, o mascarado estava conjurando uma magia divina das sombras.
— Raer Umbrátil.
A energia mágica na ponta do cetro se transformou numa onda de sombras, que derrubaram as caveiras e as desmontaram como se fossem quebra-cabeças.
— E agora macacão, o que vai fazer?
— Huhuhuhuhuhuhuhuhuhu. Eu não vou fazer nada, observe com atenção conjurador.
Os ossos das caveiras começaram a se mover. Os crânios trajados de capacetes com pequenos chifres se juntavam a coluna. Os braços ossudos logo se conectavam aos ombros e ao tórax com duas faixas de couro espinhosas em formato de X.
A bacia em volta de um saiote de couro se conectava ao resto do corpo e logo as caveiras estavam lá de novo, com suas lanças e espadas nas mãos.
— Ah não, mas eu os derrubei agora a pouco.
— Não é isso não seu encapuzado, é que...
— Cala a boca seu fedelho, é por causa de você que estamos aqui perdidos.
— O quê! Mas foi você que guiou o nosso caminho.
As caveiras partiram para cima de Tell e do conjurador que batia com o cetro no rosto de um e dava pontapés em outros.
Tell apenas tentava fugir das espadas afiadas e das lanças do inimigo.
— Peguem eles, eu não quero que deixem esses dois escapar, ouviram bem.
Com Nipi incentivando, os guardas passaram a atacar com mais vontade.
Uma caveira golpeou com sua espada a cabeça do conjurador, mas este se desviou e desferiu o cetro no queixo da caveira, a cabeça caiu gargalhando, mas o corpo continuou lutando, tudo aquilo se tornara surreal e perigoso demais para o encapuzado.
Tell tentava proteger o livro a todo custo e por isso quando não se defendia ele recuava.
Uma caveira tentou espetá-lo com a lança, mas ele desviou, a lança golpeou outra caveira. Dois pares de olhos e um sorriso de dentes afiados apareceram ao lado de Nipi.
— Aquele garoto está dando muita importância aquela mochila.
— Também reparei Nipi, eu vou roubá-la.
O sorriso gatuno que flutuava no ar desapareceu. Nipi passou a refletir sua posição.
Mesmo que o conjurador não precise de energia mágica, ele ficará cansado, estamos em maior número e nenhuma ajuda virá de Tell.
O garoto quase teve a barriga cortada por uma caveira, mas ao invés de acertá-lo, a espada cortou uma das alças da mochila e ela acabou escorregando para longe.
Tell saiu desesperado atrás, mas quando chegou perto, alguém chutou a mochila.
Quando finalmente pôde chegar perto dela, duas patas de gato enorme apareceram do nada e pegaram a mochila.
Tell ficou impressionado, não esperava por aquilo. Depois um sorriso apareceu, logo após um corpo humanoide foi se formando em sua frente.
Era a alma de gato. Se não fosse pela cauda, as orelhas, as garras e os olhos, o monstro poderia se passar por um ser humano.
— Desculpa, mas esse livro não te pertence mais, miau.
— Pertence sim, ele foi herança de meu avô.
Nesse momento iniciou-se um verdadeiro cabo de guerra entre Tell e Leona. O pesado livro fez os olhos da alma de gato arder de cobiça.
Com certeza esse livro deve conter magias poderosas, meu rei ficará satisfeito comigo se eu o levar...
— Solte-o, eu preciso entregar esse livro ao meu avô.
Tell ficava cada vez mais irritado com a disputa, mas não soltava o livro.
O raciocínio de Leona só foi cortado ao ler o título da capa.
Não pode ser! O rei Zarastu está há muito tempo a procura desse livro, e agora eu o encontro aqui... Isso já virou uma questão de honra.
Aproveitando o momento de distração, e aplicando toda força nos braços, Tell conseguiu se soltar.
Ele caiu com o livro no chão, aberto encima de seu peito. De modo inesperado, uma luz intensa saiu do livro.
O próprio garoto achou aquela energia mágica familiar. Era a mesma de seu avô. Ele pôs o livro no chão, enquanto todos ao seu redor assistiam o fenômeno.
Feixes de luz azul espiralaram de dentro do livro e subiram pelo ar. Depois formaram uma figura humana transparente, que Tell conhecia muito bem.
— Vovô Taala!
— Tell, meu querido neto, se estiver ouvindo está mensagem é porque já não posso mais trilhar a jornada junto com você, mas você nunca estará sozinho. O livro que carrega, o Monstronomicom é a ferramenta que salvará o mundo da Horda, este é o meu legado. Para que você possa utilizá-la de maneira sábia, eu criei um mecanismo para defender o livro e que servirá como um manual para você, ele se chama Index, não tenho muito tempo Tell. Não pare nunca de lutar pela justiça, eu amo você...
— Vovô, não vá, eu preciso do senhor.
Com a voz embargada e chorando, ele estendeu os braços como se para aplicar o último abraço, a imagem sorriu e espelhou o gesto, mas ao tocar a imagem, ela desapareceu, e quando Tell percebeu, uma criatura repousava em seus braços. Os dois se olharam fixamente, analisando um ao outro.
—...
— Olá Tell, eu sou Index, o Guardião do Monstronomicom.
A criatura era branca, com orelhas grandes como as de um coelho e em seu dorso havia caracteres como números e letras embaralhadas.
Seu corpo formava uma oval horizontal. Seus olhos eram grandes e expressivos e os membros eram curtos. Os monstros não sabiam o que dizer, nem o que pensar. Nipi estava reticente.
Mas o que é tudo isso, primeiro esses dois baderneiros nos trazem aqui e esse garoto surge com o tesouro mais cobiçado por nosso rei, quem ele é afinal?
De modo inesperado, uma flecha acertou uma caveira. Nipi ficou alerta, esquecera que tinha chegado longe demais dentro dos territórios dos rebeldes.
Em cada janela e porta, apareceram humanos apontando arcos e espadas para os monstros. Os rebeldes deram início a um ataque e Nipi ordenou:
— Recuem seus idiotas.
Dezenas de centenas de rebeldes apareceram. Mesmo com sua extrema confiança não esperava um ataque tão massivo, o que ele podia fazer era recuar. Depois pensaria numa maneira de revidar a humilhação.
Atrás de Tell e o conjurador, um espadachim surgiu com um sabre. Ele tinha um colete escuro. As calças eram rasgadas na altura das coxas e seu cabelo era grande, cacheado e castanho. Os olhos eram amendoados.
— Não acharam que invadiriam o nosso território sem que revidássemos? Estavam enganados. Eu quero que todos os que portam espadas e os que conhecerem da magia, que não deixem um monstro de pé... Isso é uma ordem.
Agora a luta não havia se equilibrado, se tornara um massacre. As caveiras ficaram praticamente indefesas, esperavam uma ordem e quando ela veio, causou mais agitação.
— Vamos suas caveiras inúteis, já disse para recuar.
A confusão se seguiu entre as fileiras das caveiras. Enquanto isso o ataque rebelde continuava. Prevendo o pior, Leona sumiu em meio à multidão de monstros, Nipi também fugiu ao ver o futuro resultado daquela batalha.
O espadachim que liderava o ataque bateu com o seu afiado e longo sabre nos ombros do conjurador e nas pernas de Tell, como se fosse um cassetete.
— Não é hora para lamentar, estamos em combate, mexam-se.
— Olha só pivete, de perseguidos passamos a marionetes do cabelo de macarrão aqui.
— Se não quiser lutar do lado dos humanos conjurador, vamos considerá-lo inimigo.
— Puxa! Que clima pesado. Estamos lutando contra os monstros, por isso estamos do mesmo lado, vamos ajudar seu encapuzado... E pare de me chamar de pivete, meu nome é Tell, Tell de Lisliboux.
Ao ouvir o sobrenome do garoto, o espadachim observou Tell atenciosamente com Index no colo, como se fosse um bicho de pelúcia e começou a se perguntar como ele provaria o que tinha afirmado, afinal de contas, de acordo com os registros, os Lisliboux deixaram de existir a muitos e muitos anos.
— Só paro de te chamar de pivete se parar de me chamar de encapuzado, ou mascarado ou qualquer coisa que envolva o meu vestuário, fico parecendo até um assaltante de quinta categoria. O meu nome é Saragat, o conjurador da deusa das sombras, Nalab.
— Mas com esse vestuário ridículo, realmente, você parece um bandidinho de quinta.
O queixo de Saragat caiu com as palavras do espadachim, o punho da mão direita se fechou com tanta força que as luvas quase se rasgaram, quando ele preparou o soco, várias caveiras os atacaram.
Pondo o sabre acima da cabeça em posição vertical, o espadachim esperou até o último momento para atacar, quando parecia que as caveiras iriam cobrir o trio, ele atacou.
— Coup de Foudre.
Shuinfh
O golpe da espada foi tão rápido que quando ela foi embainhada novamente, só as cinzas das caveiras caíram no chão. O espadachim ajeitou o seu cabelo e retirou as cinzas do ombro com a mão.
Tell achou incrível a rapidez com que tantos monstros haviam sido derrotados com um único golpe de espada. Tell não distinguiu o estilo de esgrima dele.
Ele que conhecia muitas histórias de heróis, se impressionou com aquele ataque. Admitiu para si mesmo que aquele não era um espadachim comum.
Com recitações e cânticos, Saragat removeu os inimigos que apareciam pelo caminho.
Os rebeldes também fizeram seus inimigos recuar, quando não caiam mortos no chão. Tell não foi preparado para aquilo, ele era apenas um aprendiz de mago.
Não sendo bom em combate corpo a corpo, no uso de armas e nem com a própria magia, Tell não conseguiria sequer se defender. Seu corpo travou por completo.
Suas pernas tremiam a cada passo dos monstros, o espadachim viu o medo no rapaz.
— Não tenha medo Tell, o valor de um homem é medido por sua bravura.
Saragat não acreditava que devia sua vida a alguém tão narcisista.
— Vamos Tell sei lá das quantas, mostre a esse cabelo de spaghetti o que tu sabe. Não podemos deixar a diversão toda para ele.
— Tá, Index, eu preciso que você me ajude a combater os monstros, como o Monstronomicom funciona?
— Essas são as regras para utilizar os poderes do Monstronomicom: 1º Procure um monstro; 2º Derrote o monstro e em 3º Recite o seguinte verso, “Eu te purifico”.
— Tá, e o que mais?
— Só isso.
O garoto ficou com o queixo caído, Index flutuava pelo ar batendo suas orelhas como se fossem asas. Ele ainda imaginou a possibilidade daquilo tudo ser uma piada de mau gosto do seu avô, mas para tanto trabalho, devia ser verdadeiro.
Os monstros estão aqui, então se eu derrotá-los... Como se fosse assim tão fácil.
Com certo desânimo, o pequeno mago olhou em volta e assistiu algumas cenas da batalha campal. Uma gota de suor escorreu pelo rosto.
Vovô, eu espero que o senhor esteja certo.
Tell pigarreou e olhou para Index que mantinha seu olhar de autoconfiança.
— Tudo bem, vamos lá então.
Segurando o livro na altura dos olhos e se concentrando. Tell percebeu que já havia vários monstros no chão, ele proclamou:
— Eu vós purifico.
Uma luz multicolorida saiu do livro e formou vários feixes. Os feixes, como tentáculos de um polvo penetravam no peito de um monstro e aos poucos a luz se tornava fosca.
Com espanto, todos perceberam que quanto mais a luz se tornava fosca, mais humanizado ficava o monstro.
Quando o livro terminou de absorver a monstruosidade, as caveiras se tornaram humanas completamente humanas.
Na primeira página, surgiu à figura de uma caveira, o típico soldado que abarrotava as cidades do Reino dos Monstros.
Entretanto o garoto percebeu que os monstros que estavam mortos não se transformavam em humanos.
— Alguns deles não se transformaram! Por que Index?
— O livro remove a essência monstruosa, mas não funciona como necromancia, sendo assim, após a morte, não há como humanizar o que já está morto.
Mas que tipo de magia é essa!
O espadachim estava encantado, nunca na sua vida ele poderia imaginar que os monstros podiam se transformar em humanos.
A inesperada revelação o fez pensar no ressurgimento dos monstros após a sua extinção.
— Isso explica tudo.
As caveiras ficaram tão amedrontadas que fugiram de modo vergonhoso.
Saragat tentou esconder sua admiração, estava cansado demais pra comemorar qualquer coisa. Arf-urf-barf, de todos os sons, esse era o som mais ouvido entre os rebeldes.
Saragat não se aguentava em pé, mesmo para um conjurador, lutar tanto tempo é cansativo e como ele se esquecia de fazer as orações a sua deusa, ele acabava não recuperando o seu vigor mais rapidamente, nem tão pouco cicatrizando as suas feridas.
— Você os botou para correr, Tell, até que você não é tão pirralho.
— Obrigado, eu acho.
— Bem agora que eu ajudei a botar as caveiras para correr, já terminei aqui, até mais.
O espadachim o segurou pela capa, e com o puxão Saragat caiu.
— Nada está acabado aqui Saragat, nós precisamos saber que tipos de gente são vocês.
— Que negócio é esse? Escuta aqui cabelinho de macarronada, nós somos do tipo que não te devem nada, morou? E quer saber do que mais, odeio essa tua cara burguesa.
— Desculpe se meu porte nobre não lhe agrada, mas tudo isso me pareceu um tanto... Teatral demais. Dois humanos estranhos fugindo de um grupo liderado pelo próprio capitão Nipi da Guarda Municipal de Monstros de Flande, sinceramente, isso é muito estranho. Parecem que ambos são espiões, no mínimo, vocês fazem parte de um plano para nos expor, como no caso de hoje, e assim aquela maldita alma de gato colheria dados.
O espadachim arqueou as sobrancelhas, como se exigisse uma resposta.
— Não seu espadachim, eu e o Saragat apenas fomos perseguidos por esses monstros, eu não sabia que estávamos em Flande...
Tell dividiu as sílabas da palavra, depois colocou as mãos na cabeça e começou a gritar.
— Aaaaaaaaaaaaaaagh! Mas isso é longe demais, como vou chegar até o meu avô?
— Você foi aliciado por este maléfico conjurador, ele tem cara de quem faz essas coisas, não confio em homens mascarados, não estamos no carnaval, mas se vocês dois estiverem corretos, uma pessoa pode dar o veredicto.
— QUEM?
Tell e Saragat perguntaram ao mesmo tempo, o espadachim respondeu com um sinal de mão que não tivessem pressa.
— Se vierem comigo vocês terão oportunidade de nos explicar como conseguem transformar monstros em humanos e poderíamos ajudar vocês. Mas agora temos outra questão para resolver.
E voltando seus olhos para o campo de batalha, dezenas de homens e mulheres se abraçavam, agora não havia inimigos, apenas humanos.
Muitos reconheceram parentes e até amigos entre os ex-monstros. Aquela informação de monstros virarem pessoas era desconhecida, quando havia corpos de monstros, eles não mudavam de forma, permanecendo como monstro até a decomposição.
Um grupo de rebeldes suspendeu Tell no ar e fez um hip-hip hurra! Index e Tell se mostraram felizes. Para os rebeldes, aquilo era mais que uma vitória, era um milagre.
— Vamos, precisamos ir para o nosso esconderijo, precisamos nos reagrupar. Tell e Saragat venham conosco.
O espadachim temia um reagrupamento de novos monstros e a habilidade de Tell não tinha sido analisada. Liderando o grupo, Tell, Saragat e o restante seguiram Dumas.
Passando entre velhas construções tombadas, eles entraram numa ruela e chegaram perto de um bueiro.
O espadachim abriu-o e o que se viu foi um fosso profundo e escuro, ratos chiaram lá embaixo quando uma tocha foi acesa.
— Não quer que eu entre ai né?
Ninguém respondeu a Saragat. Um a um todos foram entrando. E seguiram-se longas caminhadas por corredores de pedra maus cheirosos.
— Esse lugar é frio e sujo, a companhia é desagradável e não gosto de você spaghetti.
— O sentimento é recíproco nobre conjurador das sombras.
Das ruas em ruínas, o grupo de rebeldes literalmente desceu pelo esgoto.
Flande tem uma grande rede de esgotos, com túneis e mais túneis correndo por baixo de suas ruas. Em tempos de guerra se tornavam refúgio para os flandinos.
Um labirinto de tijolos e concretos. Só os seus habitantes conhecem o seu segredo e os rebeldes agora fizeram dos seus subterrâneos um lar. Usando isso como estratégia.
Em qualquer lugar da cidade é possível que eles ataquem de surpresa ou escapem.
— Viu só seu moleque desgraçado, ainda tinha que concordar com o spaghetti.
— Não tínhamos escolha, se fugíssemos seriamos atacados por monstros. Se enfrentássemos os rebeldes declaramos a nossa culpa, só nos restou obedecer, quem não deve não teme.
— Que menino mais cândido, sabe como eu estou me sentindo agora Tell?
— Um futuro rebelde?
— UMA OVELHA ENTRANDO NO MATADOURO.
— Tell, seu amigo ai nunca cala a boca não?
Index se mostrava preguiçoso no colo de Tell, um dos rebeldes lhe entregara uma nova mochila, e agora o Monstronomicom estava seguro... Ao menos por enquanto.
Saragat tomou Index das mãos de Tell e apertou-o, dividindo a sua cabeça e o seu tórax, os olhos de Index se esbugalharam.
— Me largue seu assassino.
— Reclama agora, sua bolinha de carne.
Um dos homens se achegou até o líder do grupo e lhe disse ao ouvido:
— Senhor eu compreendo que eles devem ser levados ao líder, mas pelo menos o conjurador não poderia ir com uma mordaça, juro que se ele falar de novo eu vou...
— Sábio conselho.
O espadachim de cabelos ondulados pegou um lenço do bolso da calça jeans e amarrou a boca de Saragat. Mas mesmo assim ele continuou a murmurejar.
— O próximo que trouxermos para cá, lembrem-me de trazê-lo desacordado.
Os homens passaram a rir. Mesmo Tell não aguentou a piada do espadachim. Saragat olhou para o garoto, os olhos assustadores, a boca rogava alguma praga.
— Que foi? A piada foi engraçada!
— Deixe meu caro Tell, ele não tem um humor tão nobre como o meu.
Index flutuou até a cabeça de Tell e pediu para que ele abrisse o livro. Tell o abriu e Index adentrou em suas páginas, sumindo nelas.
— Aonde você vai?
— Quando precisar é só me chamar.
Tell fechou o livro e agradeceu a ajuda, estava cansado demais para raciocinar. Só esperava chegar logo ao QG dos rebeldes.
A caminhada continuou com resmungos e reclamações até que uma entrada luminosa apareceu. Havia música e um aroma de comida saindo do forno. O grupo adiantou-se.


Biografia:
Comecou a escrever depois de um concurso em sala de aula. Dois anos depois ele publicou seu primeiro livro.
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