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christine
alfredo jose dias





C

C

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e

e





Stephen King







Título original: Christine



Tradução



de



Louisa



Ibañez



E

ditora Objetiva

, 1998



Digitalizado por SusanaCap



WWW

.

PORTALDETONANDO

.

COM

.

BR

/

FORUMNOVO

/
















C

ONTRA

C

APA



Arnie C

unnigham era um perdedor. Rosto coberto de espinhas,

desajeitado com as garotas, magro demais para esportes, passava os dias

como sombra pelos corredores da escola, tentando fugir das goza

ções

implacáveis dos jovens de sua idade.



Isso at

é Christine entrar

em sua vida. Amor à primeira vista

--



não

há melhor forma de explicar o que aconteceu a Arnie ao vê

-

la. A partir

desse dia, o mundo ganha novo sentido. Tudo o que ele quer é estar junto

de Christine e nada, ninguém conseguirá detê

-

lo. Uma velha história de



amor, mais um Romeu e Julieta do século XX? Não, quando a trama nasce

da mente insuperável de Stephen King. Christine é um carro. Um

Plymouth Fury 1958. Um feitiço sobre rodas que se apodera do jovem

Arnie e faz dele alguém diferente. Muito diferente. Chr

istine é uma

obsessão.



A vida de Arnie Cunnigham nunca mais ser

á igual. Também não

será igual o pacato subúrbio de classe média em que mora. Nao quando

Christine está nas ruas. Não quando a velha e irascível Christine resolve

tirar de seu caminho quem quer



que tente afastá

-

la de seu novo dono.








O

RELHAS



Cen

ário: subúrbio de classe média, em Pittsburg. Ano: 1978.



Personagens: Arnie Cunnigham, jovem estudioso e rejeitado pelos

colegas; Dennis Guilder, seu

único amigo e protetor ocasional; Leigh

Cabot a aluna r

ecém

-

chegada ao colégio que Arnie conquista e... Dennis

também deseja.



O mesmo e velho tri

ângulo amoroso? Os ingredientes certos para

mais uma açucarada historinha de amor e ciúme? Não. Porque aqui,

velando nas sombras, está Christine. Um quarto personagem

, uma dama

perversa que levará a trama por uma trilha de sangue e vingança. Por

caminhos onde um ódio implacável zela pela posse de Arnie. Não,

Christine não é uma rival comum. Lataria vermelha e branca, Christine é

um carro, um velho Plymouth 1958 que sed

uz Arnie com um poder

assombroso.



Quando Arnie se dedica febril

mente a restaurar Christine, Dennis e

Leigh come

çam a suspeitar que o preço dessa crescente obsessão pode ser

terrivel

mente alto. Em pouco tempo, Arnie não é mais o mesmo. Em

pouco tempo, Chr

istine também se transforma. E logo as calmas ruas de

subúrbio vão sendo banhadas de sangue. Há algo poderosamente maligno

solto pelas estradas de Libertyville. Uma

for

ça sobrenatural que vai

deixando seu rastro de vingança por onde passa. E Dennis é o pri

meiro a

descobrir a verdade aterradora





Christine está viva.



Nesta hist

ória de terror sobre

natural, Stephen King leva o leitor

numa viagem assustadora por um roteiro macabro. Se tiver coragem,

embarque em Christine e boa sorte... pode ser que, para você,



esse passeio

tenha volta.





N

OTA DO

A

UTOR



As letras das canções citadas neste livro foram atribuídas ao cantor

(ou cantora, ou grupos) mais comumente associados às mesmas. Isto




poderá ofender o purista, que considera a letra de uma canção como

pertencendo

mais ao compositor do que ao cantor. O que você fez,

poderia argumentar o purista, foi algo semelhante a atribuir

-

se as obras de

Mark Twain a Hall Holbrook.



Discordo. No mundo da canção popular, é como dizem os Rolling

Stones: o cantor, não a canção.



Os no

mes dos autores das letras estão aqui para os que quiserem

conhecê

-

los. Agradeço a todos eles





e mais particularmente a Chuck

Berry, Bruce Springsteen, Brian Wilson... e Jan Berry, de Jan and Dean. Ele

voltou da Curva do Homem morto.



É deveras trabalhoso

conseguir

-

se as necessárias permissões legais

para o uso de letras



de canções, de modo que eu gostaria de agradecer a

algumas das pessoas que me auxiliaram a



recordar as canções e, depois, a

garantir a possibilidade de seu uso. Elas incluem: Dave Marsh,



cr

ítico e

historiador de rock; James Feury, conhecido como "Mighty John Marshall",

que transmite rocks em minha cidadezinha, pela WACZ; seu irmão, Pat

Feury, que divulga canções antigas em Portland; Debbie Geller; Patrícia

Dunning e Peter Batchelder. Obrigad

o a todos vocês, chapas, e que seus

discos antigos nunca empenem muito, a ponto de não poderem tocá

-

los.



S.K.





P

RÓLOGO



Esta é a história de um triângulo amoroso





suponho que este seria

o nome





formado por Arnie Cunningham, Leigh Cabot e, naturalmente,

Ch

ristine. Quero que compreendam, no entanto, que Christine chegou

primeiro. Ela foi o primeiro amor de Arnie e, embora eu não tenha a

presunção de garantir (de qualquer modo, não após os altos níveis de

sabedoria que alcancei, em meus 22 anos), creio que el

a foi seu único e

verdadeiro amor. Portanto, chamo de tragédia ao que aconteceu.



Eu e Arnie crescemos no mesmo quarteirão, freqüentamos juntos a

Escola Primária Owen Andrews e o Ginásio Darby. Também juntos,

fomos para o Ginásio de Libertyville. Penso que

fui o principal motivo de

Arnie não haver sido devorado no ginásio. Eu era um cara importante








sei que isso não quer dizer grande coisa; cinco anos após o diploma, não

se consegue nem mesmo uma cerveja grátis, por termos sido o capitão dos

times de futebo

l e beisebol, e um nadador da Associação de Escolas



,

mas, como fui tudo isso, pelo menos Arnie nunca foi liquidado. Abusaram

dele um bocado, mas nunca o destruíram.



Ele era um perdedor, compreendam. Todo ginásio tem dois, pelo

menos; é como uma lei nacion

al.



Um homem, uma mulher. Sacos

-

de

-

pancada de todos. Seu dia foi

ruim? Falhou em uma prova importante?



Discutiu com seus velhos e ficou o fim de semana a pé? Não há

problema. Encontre um daqueles pobres coitados que se esgueiram pelos

corredores como crimi

nosos, antes do sinal para as aulas, e vá direto ao

infeliz. Sabiam que, algumas vezes, eles são abatidos em todos os sentidos,

exceto no físico; em outras, acham alguém a quem agarrar

-

se e

sobrevivem. Arnie tinha a mim. Depois teve Cristine. Leigh aparece

u mais

tarde.



Eu só queria que vocês compreendessem isso.



Arnie era um deslocado natural. Estava fora do atletismo por ser

magricela





um e setenta e cinco, com cerca de setenta quilos, tragado por

todas as suas roupas, mais um par de botas Desert Drive. E

stava por fora

também para os intelectuais do ginásio (eles próprios, um grupo

inteiramente "desajustado" em uma cidadezinha como Libertyville),

porque não tinha nenhuma especialização. Arnie era esperto, mas seus

miolos não se fixavam naturalmente em cois

a alguma, a menos que fosse

mecânica automotora.



Era grande nisso. Em se tratando de carros, o garoto era uma espécie

de alucinado nato. Seus pais. no entanto (os dois lecionavam na

Universidade, em Horlicks), não podiam ver seu filho





que tinha

marcado o



máximo de cinco por cento no teste de inteligência Stanford

-

Binet





matricular

-

se nos cursos profissionalizantes. Andy teve muita

sorte, quando lhe permitiram cursar Mecânica de Motores I. II e III.

Precisou batalhar muito para conseguir a permissão. Esta

va ainda

deslocado com os que se drogavam, porque não era disso. E também não

se ligava com o grupo machão calças

-

jeans

-

e

-

Lucky

-

Strikes, porque não

era de beber e chorava, se atingido com força.






Oh, sim, era um desajustado também com as garotas. Seu

mecani

smo glandular



degringolara inteiramente. Quero dizer, Arnie era

um tapete de espinhas. Acho que lavava o



rosto umas cinco vezes por dia,

tomava umas duas dúzias de duchas por semana e



experimentava cada

creme ou panacéia conhecidos pela ciência moderna. Na

da funcionava. O

rosto de Arnie parecia uma pizza e ele ia ficar com uma daquelas caras

furadas e marcadas para sempre.



Eu gostava dele assim mesmo. Arnie tinha um sutil senso de humor

e uma mente que não se cansava de fazer perguntas, inventar jogos e

peq

uenas, divertidas brincadeiras. Foi Arnie



quem me mostrou como

construir uma fazenda de formigas quando eu tinha sete anos, e



passamos

todo um verão espiando aqueles animaizinhos, fascinados por sua

diligência e total



seriedade. Quando tínhamos dez anos, f

oi por sugestão

de Arnie que nos esgueiramos de casa



certa noite e colocamos um monte

de bostaseca de cavalo, tirada dos Estábulos da Rota 17,



debaixo do

enorme cavalo de plástico sobre o gramado do Libertyville Motel, do

outro lado da



linha do trem, em Mo

nroeville. Arnie aprendeu xadrez

primeiro.



Aprendeu pôquer primeiro. Ensinou

-

me a aumentar meu escore em

Scrabble. Nos dias



chuvosos, bem até a época em que me apaixonei (ora,

foi mais ou menos isso





ela era chefe de torcida, com um corpo

espetacular; ac

hei que me apaixonara pelo corpo, embora, quando Amie

avisou que a mente da garota tinha toda a profundidade e ressonância de

um Chaun Cassidy 45,



eu não pudesse responder que ele estava mentindo,

porque não estava mesmo), era nele que eu



pensava primeiro,



porque

Arnie sabia como engrandecer os dias de chuva, da mesma forma



como

sabia aumentar os escores no Scrabble. Talvez seja esta uma das maneiras

de



identificarmos as pessoas realmente solitárias... elas sempre podem

imaginar algo legal para se



fazer em

um dia de chuva. A gente sempre

pode contar com ela. Estão sempre em casa. Sempre na pior.



De minha parte, ensinei Arnie a nadar. Chateei

-

o até convencê

-

lo a

comer verduras, para



que pudesse melhorar um pouco a sua magreza.

Consegui trabalho para ele em um

a estrada,



um ano antes de nosso último

ano no Ginásio de Libertyville





e para isso nos empenhamos a



fundo

com os pais dele, que se viam como grandes amigos dos trabalhadores nas

fazendas da Califórnia e dos metalúrgicos daquela cidadezinha cretina,

mas q

ue ficavam horrorizados à



idéia de seu talentoso filho (com um




máximo de cinco por cento em seu teste Stanford

-

Binet,



lembrem

-

se)

ficando com os pulsos sujos de terra e o pescoço vermelho.



Então, perto do fim daquelas férias de verão, Arnie viu Christine

p

ela primeira vez e se apaixonou por ela. Eu estava com ele nesse dia





íamos para casa, voltando do trabalho





e



testemunharia a respeito

diante do Trono de Deus Todo

-

Poderoso, se para isso me convocassem

.



Irmão, ele gamou e gamou



de fato. Até que podia te

r sido gozado, se

não fosse tão triste,



se aquilo não ficasse assustador tão depressa



como

ficou. Podia ter sido divertido, se não houvesse sido tão ruim.



Ruim





a que ponto?



Foi ruim desde o começo. E se tornou rapidamente pior.





Dennis

-



Canções adolesce

ntes sobre

carros





P

RIMEIROS

P

ROJETOS



Ei, olhe l

á!



Do outro lado da rua!



Um carro feito na medida para mim,



Seria um luxo ter aquele carro...



Aquele carro é um barato, cara,



É algo fora de série.







Eddie Cochran









Deus do céu!





gritou de repente meu amig

o Arnie Cunningham.







O que foi?





perguntei.






Seus olhos saltavam por tr

ás dos óculos de aros de aço, ele

espalmara a mão sobre o rosto, de maneira que a palma cobria a boca

parcialmente e o pescoço parecia girar sobre rolamentos, no modo como

Arnie se vir

ava para trás, por sobre o ombro.







Pare o carro, Dennis! Volte!







O que você está...







Volte, quero olhar para ela outra vez! Entendi na mesma hora.







Oh, cara, esqueça





falei.





Se está se referindo àquela... coisa

que acabamos de deixar para trás...







Volte!





ele quase berrou.



Voltei, imaginando que talvez fosse uma daquelas sutis piadinhas

de Arnie. S

ó que não era. Ele gamara mesmo. Arnie se apaixonara.



Ela era uma piada imbecil e jamais saberei o que Arnie viu nela,

nesse dia. Na m

áquina, quero dizer

, no carro. O lado direito do pára

-

brisa

era uma confusa teia de aranha em rachaduras. A traseira direita do teto

estava afundada e um ninho horrendo de ferrugem se espraiara pelo vale

de pintura descascada. O pára

-

choque traseiro descambava para um lado

e



o tampo do porta

-

mala estava entreaberto. O estofamento sangrava para

fora, através de compridos rasgões na cobertura dos assentos, da frente e

traseiro. Era como se alguém tivesse brincado ali com uma faca. Um pneu

estava arriado. Os outros, tão carecas,



que dava para se ver o

encordoamento interno. O pior de tudo era a mancha escura de óleo,

debaixo do motor.



Arnie se apaixonara por um Plymouth Fury 1958, um daqueles

comprid

ões, com enormes aletas no radiador. Havia um velho anúncio de

À VENDA, já desbot

ado pelo sol, escorado contra o lado direito do pára

-

brisa





o lado que não estava rachado.







Veja que linhas ele tem, Dennis!





sussurrou Arnie.



Corria em torno do carro, como um possesso. Seu cabelo suado

subia e descia na cabe

ça. Experimentou a porta tr

aseira, no lado do

passageiro, e ela se abriu com um rangido.







Você está me gozando, Arnie, não está?





perguntei.





É

insolação, certo? Me diz que é insolação. Vou levar você para casa, ligar o

ar

-

condicionado e esquecemos tudo isto, está bem?






De qualque

r modo, falei isso sem muita esperan

ça. Ele sabia fazer

uma piada, mas então não havia nada que lembrasse uma piada em sua

cara. Pelo contrário, era uma espécie de loucura imbecil, que não me

agradou nem um pouco.



Ele nem mesmo se deu ao trabalho de respon

der. Um bafo quente e

espesso de ar, cheirando a velhice, óleo e adiantada decomposição brotou

da porta aberta do carro. Arnie também pareceu nem perceber. Entrou e

sentou

-

se no desbotado banco traseiro dilacerado. Um dia, vinte anos

antes, aquilo tinha si

do vermelho. Agora, era um rosa lavado e desbotado.



Estiquei o braço e arranquei um pouco do recheio, olhei para ele e o

soprei ao vento.







É como se o exército russo tivesse pisado sobre isso, ao avançar

para Berlim





comentei. Ele finalmente notou que eu



ainda estava ali.







Certo... certo, mas poderia ser consertado. Essa máquina... ela

ficaria um barato. Uma unidade móvel, Dennis. Uma beleza. Uma

verdadeira...







Ei, ei! O que estão fazendo aí, garotos?



Era um velhote que parecia estar curtindo





mais ou

menos





seu

septuagésimo verão. Talvez menos. Aquele sujeito me deu a impressão de

ser dos que não curtem muito as coisas. O pouco que restava do cabelo era

comprido e ralo. Tinha um bom caso de psoríase em andamento, na parte

careca do crânio.



Usava calça

s verdes de velho e tênis de basquete de cano baixo.

Estava sem camisa; em vez disso, tinha algo apertado em torno da cintura,

parecendo uma cinta de mulher. Quando chegou mais perto, vi que era

um colete ortopédico para as costas. De saída, só em olhar pa

ra aquilo, eu

podia dizer que o homem o tinha trocado, pela última vez, mais ou menos

na época em que Lyndon Johnson morrera.







O que estão querendo, garotos?





gritou, em voz aguda e

estridente.







Este carro é seu, senhor?





perguntou Arnie.



Uma pergunta

quase desnecessária. O Plymouth estava estacionado

no terreno da casa pós

-

guerra, de onde o velho brotara. O gramado era

horrível, mas ficava um barato com aquele Plymouth nos fundos.










E daí, se for?





perguntou o velho.







Eu...





Arnie engoliu em seco.





Eu quero comprá

-

lo.



Os olhos do velhote cintilaram. A expressão irritada do rosto foi

substituída por um brilho furtivo no olho e um certo sarcasmo faminto em

torno dos lábios. Então surgiu um falso, resplendente e largo sorriso. Foi

naquele momento, crei

o





bem, justo naquele momento





que senti algo

frio e depressivo dentro de mim. Houve um instante





só então





que

senti vontade de puxar Arnie e arrancá

-

lo dali. Alguma coisa transpareceu

dentro dos olhos do velho. Não foi só o brilho; era algo por trás

do brilho.







Bem, devia ter dito logo





falou o velhote. Estendeu a mão, que

Arnie apertou.





LeBay. Roland D. LeBay. Reformado do Exército.







Arnie Cunningham.



O velho pareceu puxar a mão e fez uma espécie de aceno para mim.

Eu estava fora da jogada; ele

já tinha seu otário. Arnie podia perfeitamente

entregar sua carteira a LeBay.







Quanto?





perguntou Arnie. Depois insistiu:





Seja o que for

que quer pela máquina, ainda é pouco.



Grunhi intimamente, em vez de suspirar. O talão de cheques de

Arnie estava de

ntro de sua carteira.



Por um momento, o sorriso de LeBay falhou um pouco e ele apertou

os olhos desconfiadamente. Devia estar avaliando a possibilidade que

tinha pela frente. Estudou o rosto franco e ansioso de Arnie, à procura de

algum sinal de malícia, p

ara então disparar a pergunta homicidamente

perfeita:







Já teve algum carro antes, filho?







Ele tem um Mustang Mach II





respondi rapidamente.





Seus

pais compraram para ele. Tem uma mudança Hurst, uma superbateria e

pode fazer a estrada ferver, quando em

primeira. O carro...







Não





respondeu Arnie, tranqüilo.





Só tirei minha carteira de

motorista esta primavera. LeBay dedicou

-

me um rápido, mas astuto olhar,

para em seguida voltar a concentrar inteiramente a atenção em seu alvo

principal. Colocou as mãos

no final das costas e estirou

-

se. Captei uma

azeda onda de suor rançoso.










O Exército me deixou com um problema nas costas





disse

ele.





Invalidez total. Os médicos nunca conseguiram endireitar

-

me. Se

perguntarem a vocês o que há de errado no mundo, rapaz

es, digam que

s

ão três coisas: médicos, comunista e radicais que gostam de negros. Dos

três, os comunistas são os piores, seguidos de perto pelos médicos. E se

perguntarem quem disse isto, respondam que foi Roland D. LeBay. Sim,

senhor!



Ele tocou o velho e



arranhado cap

ô do Plymouth, com uma espécie

de admirado amor.







Este aqui foi o melhor carro que já tive. Comprei em setembro de

1957. Naquele tempo, era em setembro que se conseguia o novo modelo

do ano. Durante todo o verão, exibiam fotos de carros deba

ixo de lonas e

encerados, até a gente ficar morrendo para saber como eles eram, por

baixo daquilo. Hoje é diferente.





Sua voz ressumava irritação, pelos

tempos degradantes que vivera.





Uma máquina novinha em folha.

Cheirava como carro saído da fábrica e,



para mim, este é o melhor cheiro

do mundo.





Fez uma pausa para considerar.





Exceto, talvez, pelo de

uma cona.



Olhei para Arnie, mordendo furiosamente o interior das bochechas,

para n

ão estourar de rir de tudo aquilo. Arnie olhou para mim, surpreso.

O ve

lho nem pareceu notar

-

nos; estava isolado em seu próprio planeta.







Vesti cáqui trinta e quatro anos





contou LeBay, ainda tocando o

capô do carro.





Entrei aos dezessete, em 1923. Comi poeira no Texas e vi

piolhos do tamanho de lagostas, em algumas casas

das putas de Nogales.

Vi homens com as tripas saindo pelos ouvidos, no tempo da guerra. Foi na

França que vi isso. As tripas deles saíam pelos ouvidos. Acredita nisso,

filho?







Sim, senhor





respondeu Arnie.



Duvido que tivesse ouvido uma s

ó palavra do que

LeBay dizia.

Equilibrava

-

se ora em um pé, ora no outro, como se estivesse apertado

para ir ao banheiro.







Bem, e quanto ao carro...





insistiu Arnie.







Você está na Universidade?





clamou LeBay, subitamente.







em Horlicks?







Não, senhor. Estou no Ginási

o de Libertyville.










Muito bom





disse LeBay, taciturno.





Fique longe de

universidades. Estão cheias de gente que gosta de negros, gente que quer

entregar o Canal do Panamá. "Cérebros", é o nome que dão a eles. Pois eu

digo que são "cacholas de merda".



Ol

hou amorosamente para o carro em cima do pneu arriado, a

pintura dissolvendo

-

se em ferrugem, banhado pelo

último sol da tarde.







Machuquei as costas na primavera de 57





disse ele.





O

Exército já estava falindo naquele tempo. Saí na hora exata. Voltei par

a

Libertyville. Torrei grana. Aproveitei meu tempo. Então, entrei na

Norman Cobb, concessionária Plymouth, onde hoje fica o boliche, lá perto

da Main Street, e encomendei este carro aqui. Disse para eles: quero

vermelho e branco, modelo do próximo ano. Ver

melho como um carro de

bombeiros por dentro. Eles conseguiram. Quando recebi a máquina, tinha

um total de seis milhas no odômetro. Sim, senhor.



Ele cuspiu.



Olhei para o od

ômetro, por cima do ombro de Arnie. O vidro estava

turvo, mas pude ler o estrago assi

m mesmo: 97.432. E seis décimos.

Caramba!







Se gosta tanto do carro, por que quer vendê

-

lo?





perguntei. Ele

me dirigiu um olhar leitoso, bastante aterrador.







Está querendo bancar o sabido pra cima de mim, filho? Não

respondi, mas tampouco fugi com o olha

r.



Ap

ós alguns momentos daquele duelo olho

-

a

-

olho (o que Arnie

ignorou por completo; deslizava lentamente uma amorosa mão por uma

das aletas dorsais), ele disse:







Não posso mais dirigir. Minhas costas pioraram muito. E os olhos

estão indo pelo mesmo camin

ho.



Entendi de repente





ou acho que entendi. Se ele nos fornecera as

datas exatas, teria setenta e um anos. E, aos setenta, neste Estado é

obrigatório o exame de vista a cada ano, para que renovem a licença de

motorista. LeBay devia ter falhado no exame d

e vista ou tinha medo de

falhar, o que vinha a dar no mesmo. Antes de submeter

-

se a tal

indignidade, resolveu colocar o Plymouth à venda. E, depois disso, o carro

envelhecera rapidamente.







Quanto quer por ele?





Arnie tornou a perguntar.






Ele mal podia esp

erar para ser degolado. LeBay virou o rosto para o

céu, como se o estudasse para saber se choveria. Depois baixou os olhos

para Arnie, oferecendo

-

lhe um largo e gentil sorriso, para mim demasiado

semelhante ao anterior sorriso astuto que me dirigira.







Est

ou pedindo trezentos





disse



, mas você me parece um bom

rapaz. Deixo por duzentos e cinqüenta para você.







Deus do céu!





exclamei.



Não obstante, ele sabia quem era o seu pato, como sabia exatamente

aumentar a barreira entre nós. Nas palavras de meu avô,



LeBay não tinha

caído ontem de um caminhão de feno.







Está bem





disse ele, bruscamente.





Se quiser, é assim. Tenho

meu programa das quatro e meia para ver. Beira da Noite. Nunca perco,

se depender de mim. Tive um bom papo com vocês, rapazes. Adeus.



Arni

e dirigiu

-

me um olhar tão dorido e raivoso que recuei um passo.

Depois foi atrás do velho e o segurou pelo cotovelo. Conversaram. Não

ouvi tudo, porém vi mais do que suficiente. O orgulho do velho ficara

ferido. Arnie estava ansioso e se desculpando. O vel

ho apenas queria fazer

Arnie entender que não suportava ver insultado o carro que o conduzira

através de seus anos dourados. Arnie concordou. Pouco a pouco, o velho

permitiu que ele o reconduzisse de volta. E, de novo, senti algo

conscientemente amedrontad

or em relação a ele... era como se um frio

vento de novembro pudesse pensar. Não consigo palavras melhores para

expressá

-

lo.







Se ele disser mais uma só palavra, lavo as mãos disto tudo





disse LeBay, apontando um polegar calejado e chifrudo para mim.







El

e não dirá, ele não dirá





assegurou Arnie, apressadamente.





Trezentos, foi o que disse?







Sim, acho que foi...







O preço combinado foi de duzentos e cinqüenta!





falei bem alto.



Arnie pareceu aflito, temendo que o velho se fosse de novo, mas

LeBay não qu

eria arriscar

-

se. O peixe agora estava quase fora d'água.







Sim, acho que duzentos e cinqüenta está bem





concedeu LeBay.



Tornou a olhar para mim e vi que estávamos de acordo





ele não ia

comigo e nem eu com ele. Para meu crescente horror, Arnie puxou a




ca

rteira e começou a manusear seu interior. Houve silêncio entre nós três.

LeBay era um mero espectador. Espiei para um garotinho que tentava

matar

-

se em um skate verde

-

vômito. Um cão latiu em algum lugar. Duas

garotas com ar de estarem na oitava série passa

ram rindo muito e

apertando uma pilha de livros contra os bustos em formação. Restava

-

me

apenas uma esperança de que Arnie se visse fora daquilo: faltava um dia

para o pagamento. Com tempo, até mesmo vinte e quatro horas, aquela

febre selvagem passaria. Ar

nie começava a recordar

-

me Toad, Toad Hall.



Quando tornei a olhar para eles, Arnie e LeBay fitavam duas notas

de cinco e seis de um dólar





aparentemente, tudo que ele tinha na

carteira.







Que tal um cheque?





sugeriu Arnie. LeBay sorriu friamente e

nada d

isse.







É um cheque bom





protestou Arnie.



Claro que era. Havíamos passado todo o verão trabalhando para

Carson Brothers, na extensão da I

-

376, aquela que, na opinião dos nativos

da área de Pittsburgh, jamais seria finalmente terminada. Às vezes, Arnie

diz

ia que a Penn

-

DOT tinha começado a apostar no trabalho da I

-

376

pouco depois que a Guerra Civil terminara. Não que qualquer um de nós

tivesse alguma queixa; muitos jovens trabalharam naquele verão em troca

de salários de escravos, ou não trabalharam em abs

oluto. Estávamos

fazendo um bom dinheiro, inclusive em hora extra. Brad Jeffries, o capataz,

se mostrara francamente duvidoso em aceitar um garoto como Arnie, mas

por fim concordara que ele podia ser usado como sinaleiro; a jovem que

planejara contratar fi

cara grávida e fugira para casar

-

se. Assim, Arnie se

iniciara como sinaleiro em junho, mas aos poucos fora passando para o

trabalho mais pesado, no que mostrava muita coragem e determinação.

Era o primeiro emprego de verdade que já tivera e não queria estr

agar

tudo. Brad ficara um tanto impressionado e, inclusive, o sol de verão

contribuíra para amenizar um pouco as erupções cutâneas de Arnie.

Talvez fosse o ultravioleta.







Tenho certeza de que seu cheque é bom, filho





disse LeBay





mas meu negócio é feito



a dinheiro. Procure entender.



Eu não sabia se Arnie entendera, mas eu entendia. Seria fácil demais

sustar o pagamento de um cheque local, se aquele Plymouth comido de

ferrugem soltasse uma biela ou explodisse um pistão, a caminho de casa.










Pode telefonar



para o banco





disse Arnie, começando a

desesperar

-

se.







Negativo





disse LeBay, coçando o sovaco acima do escabroso

colete.





Vão dar cinco e meia. Os bancos já fecharam há muito tempo.







Fica como um sinal, então





disse Arnie, estendendo os

dezesseis d

ólares. Positivamente, agia como maluco. Talvez seja difícil

acreditar

-

se que um cara, com idade quase suficiente para votar, em

quinze minutos ficasse tão enredado com um velhote anônimo. Eu mesmo

achava difícil acreditar. Somente Roland D. LeBay parecia

não ter

problemas a respeito e suponho que fosse devido à idade, quando já tinha

visto tudo. Só mais tarde cheguei a crer que aquela sua estranha segurança

podia originar

-

se de outras fontes. De qualquer modo, se já havia corrido

em suas veias algum leite

de gentileza humana, há muito se transformara

em coalhada azeda.







Preciso ter um sinal de dez por cento, pelo menos





declarou

LeBay. O peixe estava fora d'água; em mais um momento, iria para a

cesta.





Se me der os dez por cento, reservarei o carro por v

inte e quatro

horas.







Dennis





pediu Arnie



, pode me emprestar nove pratas até

amanhã?



Eu tinha doze na carteira e nenhum lugar particular aonde ir. Dia

após dia espalhando areia e cavando trincheiras para bueiros, haviam

feito maravilhas para quando che

gasse a hora de treinar futebol, mas eu

não tinha mais nenhuma vida social. Ultimamente, nem mesmo vinha

assaltando as defesas do corpo de minha namorada chefe de torcida, no

estilo a que ela se acostumara. Estava rico, mas solitário.







Venha até aqui e ve

remos





falei.



LeBay franziu o cenho, mas sabia

-

se preso à minha intervenção,

quisesse ou não. Seu anelado cabelo branco agitou

-

se de um lado para

outro, à brisa ligeira. Manteve uma das mãos possessivamente sobre o

capô do Plymouth.



Caminhei com Arnie até



meu carro, um Duster 75, estacionado na

esquina. Passei o braço pelos ombros dele. Por algum motivo, lembrei

-

me

do dia chuvoso que havíamos passado em seu quarto, quando não

tínhamos mais de seis anos





os desenhos animados saltitavam na tela




em preto

-

e

-

b

ranco de um antigo aparelho de TV, enquanto coloríamos

com lápis de cor velhos, guardados em uma lata de café serrilhada. A

imagem me deixou triste e um tanto amedrontado. Compreendam, há

dias em que seis anos me parece uma idade excelente, isto porque a

l

embrança dura, de fato, apenas 7,2 segundos.







Você tem o dinheiro, Dennis? Eu devolvo amanhã de tarde.







Sim, tenho





respondi



, mas, pelo amor de Deus, o que está

fazendo, Arnie? Aquele pilantra é totalmente inválido, não vê? Ele não

precisa de dinheiro



e você não é uma instituição de caridade.







Não compreendo. De que está falando?







Ele está se aproveitando de você. Faz isso pelo simples prazer da

coisa. Se levar o carro à Darnell's, não conseguirá nem cinqüenta dólares

por peças. Aquilo é um monte de

bosta!







Não. Não é não.



Sem a pele ruim, meu amigo Arnie pareceria absolutamente normal.

Contudo, Deus dá a todos pelo menos um traço bom, acho eu, e em Arnie

eram os olhos. Por trás das lentes, que em geral os obscureciam, seus

olhos mostravam um belo e

inteligente cinza, a cor das nuvens em um

nublado céu de outono. Podiam ser quase incomodamente agudos e

perscrutadores quando surgisse algo que lhe interessasse, mas agora

estavam distantes e sonhadores.







Não é nenhum monte de bosta





insistiu ele.



Foi q

uando comecei realmente a compreender que ali havia mais do

que a súbita decisão de Arnie em ter um carro. Ele nunca demonstrara o

menor interesse por um, antes; contentava

-

se em rodar no meu,

contribuindo para a gasolina ou apertando o pedal de suas três

marchas. E

agora não era como se precisasse de um carro, a fim de sair sozinho; que

eu soubesse, Arnie jamais tivera um encontro com garotas na vida.

Tratava

-

se de algo diferente. Era amor ou coisa assim.







Pelo menos





argumentei





deixe que ele ligue o m

otor para

você, Arnie. E que levante o capô. Tem uma poça de óleo debaixo do

motor. O bloco bem que pode estar partido. Se quer saber, acho que...







Pode emprestar os nove?






Os olhos dele estavam fixos nos meus. Desisti. Tirei minha carteira e

entreguei

-

lhe



os nove d

ólares.







Obrigado, Dennis





disse ele.







O funeral é seu, cara.



Ele nem ouviu. Juntou meus nove aos seus dezesseis e voltou para

junto de LeBay, ao lado do carro. Estendeu

-

lhe o dinheiro e o velho o

contou cuidadosamente, molhando o polegar.







S

ó vou segurá

-

lo por vinte e quatro horas, compreenda





disse

LeBay.







Sim, senhor. Assim está ótimo





respondeu Arnie.







Vou até em casa, passar um recibo





disse o velho.





Como é

mesmo o seu nome, soldado? Arnie sorriu ligeiramente.







Cunningham. Arnold

Cunningham.



LeBay grunhiu um assentimento e cruzou seu gramado maltratado

at

é a porta dos fundos. A porta externa era uma daquelas engraçadas

estruturas de alumínio, com uma floreada letra no centro





um L

maiúsculo, no caso.



A porta bateu atr

ás dele.







O

sujeito é esquisito, Arnie. O sujeito é um fodido esqui...



Arnie n

ão estava mais ali. Sentara

-

se atrás do volante do carro. Em

seu rosto havia a mesma expressão enérgica.



Dei a volta at

é a frente e descobri o fecho do capô. Puxei

-

o e o capô

subiu, com um g

rito enferrujado que me fez pensar nos efeitos sonoros

ouvidos naqueles discos de casas mal

-

assombradas. Fragmentos metálicos

voaram para baixo. A bateria era uma velha Allstate e os terminais

estavam tão cobertos de corrosão esverdeada que não se poderia

dizer

qual o positivo e o negativo. Puxei o filtro de ar e olhei sombriamente para

um carburador de quatro difusores, tão negro como uma galeria de mina.



Baixei o cap

ô e fui para o lugar onde Arnie continuava, agora

deslizando a mão ao longo da borda do pa

inel de instrumentos, por sobre

o velocímetro, calibrado para uma marcação totalmente absurda de 120

milhas por hora. Os carros teriam realmente atingido tal velocidade?










Acho que o bloco do motor está trincado, Arnie. Acho mesmo.

Este carro é uma droga,

meu amigo. Uma droga total. Se está querendo

rodas, por duzentos e cinqüenta podemos encontrar coisa muito melhor

do que isto. Falo sério. Muito melhor.







Ele tem vinte anos de idade





replicou Arnie.





Sabe que um

carro é oficialmente uma antigüidade, qua

ndo tem vinte anos de idade?







Claro





falei.





O pátio de ferro

-

velho atrás da Darnell's está

repleto de antigüidades oficiais, está entendendo?







Dennis...



A porta bateu. LeBay estava de volta. N

ão adiantava; qualquer

discussão posterior não teria sentid

o. Posso não ser o humano mais

sensível, mas quando os sinais são fortes o bastante, consigo captá

-

los.

Aquilo era algo que Arnie decidira ser preciso fazer e eu não iria dissuadi

-

lo. Aliás, creio que ninguém conseguiria dissuadi

-

lo.



Com um floreio, LeBay

estendeu

-

lhe o recibo. Escrito em uma folha

comum de bloco, em uma aracn

óide, e ligeiramente trêmula, caligrafia de

velho, havia o seguinte: Recebido de Arnold Cunningham, $25,00, como

sinal e reserva por vinte e quatro horas de Christine, um Plymouth 1958

.

Abaixo, ele assinara seu nome.







O que significa isto de Christine?





perguntei, pensando ter lido

errado ou não entendido bem.



Os l

ábios de LeBay estreitaram

-

se e seus ombros se ergueram um

pouco, como se esperasse que rissem dele... ou como se me desaf

iasse a

isso.







Christine





explicou





é como sempre chamei o carro.







Christine





repetiu Arnie.





Gostei. E você, Dennis?



Agora ele falava em batizar a maldita coisa. Aquilo estava passando

dos limites.







O que acha, Dennis, você gostou?







Não





respondi

.





Se tem que dar um nome a isso, Arnie, por

que não o chama de Problema? Ele pareceu magoar

-

se com isso, mas eu

pouco me importava. Voltei para meu carro, a fim de

esper

á

-

lo, desejando

que antes houvesse tomado um caminho diferente, na volta para casa.








A



P

RIMEIRA

D

ISCUSSÃO



Diga apenas aos seus amigos marginais l

á fora,



Que voc

ê não tem tempo para dar um passeio!



(Conversa mole!)



N

ão responda!







The Coasters





Levei Arnie de carro at

é sua casa e entrei com ele para um pedaço

de bolo e um copo de leite, ant

es de seguir para a minha. Foi uma decisão

da qual me arrependi prontamente.



Arnie morava na Laurel Street, situada em uma tranq

üila zona

residencial, no lado oeste de Libertyville. Em geral, Libertyville é quase

que integralmente tranqüila e residencial.

Nada de grande estilo, como o

subúrbio vizinho de Fox Chapei (onde a maioria das residências se

compõe de propriedades como aquelas que costumamos ver todas as

semanas em Columbo), mas também não é como Monroeville, com seus

quilômetros de ruas comerciais,



depósitos de pneus vendidos com

desconto e sujos empórios de livros. Por aqui não temos nenhuma

indústria pesada; trata

-

se, principalmente, de uma comunidade

-

dormitório para a vizinha Universidade. Sem suntuosidade, mas pelo

menos uma espécie de concentra

ção de cérebros.



Arnie estivera calado e pensativo, durante toda a caminhada para

casa; tentei distra

í

-

lo, mas ele não se deixou distrair. Perguntei

-

lhe o que

pretendia fazer com o carro.







Ajeitá

-

lo





respondeu, em voz ausente, tornando a ficar em

silênci

o.



Bem, ele tinha jeito para isso; eu n

ão questionava o assunto. Era bom

com ferramentas, podia ouvir e concentrar

-

se. Suas mãos eram sensíveis e

ágeis com mecanismos; somente quando estava perto de outras pessoas,

em especial garotas, é que elas ficavam d

esajeitadas e inquietas,

procurando estalar os nós dos dedos ou enfiar

-

se nos bolsos, quando não




(pior do que tudo) se encaminhavam para o rosto e deslizavam pela

acidentada paisagem das bochechas, queixo e testa, chamando a atenção

para esses pontos.



Ele

podia ajeitar o carro, mas o dinheiro que ganhara nesse ver

ão era

reservado para a Universidade. Nunca tivera um carro antes e pensei que

talvez não imaginasse a maneira sinistra como carros velhos podem sugar

dinheiro. Eles o sugam, como se imagina que um



vampiro suga o sangue.

Arnie evitaria os custos da mão

-

de

-

obra na maioria dos casos, fazendo o

trabalho ele mesmo, porém só o conserto das peças isoladas quase o

mataria, antes de chegar ao fim.



Disse

-

lhe algumas dessas coisas, mas ele preferiu ignorar

-

me

. Tinha

o olhar ainda distante e sonhador. Eu n

ão saberia dizer em que pensava.



Michael e Regina Cunningham estavam em casa





ela decifrava

uma daquelas séries intermináveis de quebra

-

cabeças idiotas (este era a

respeito de seis mil rodas denteadas e engre

nagens diferentes, sobre um

fundo absolutamente branco





e me deixaria arrancando os cabelos em

quinze minutos) e ele ouvia música na sala.



N

ão demorou muito, comecei a desejar que tivesse desistido do bolo

e do leite. Arnie contou a eles o que fizera, mos

trou o recibo e os dois

imediatamente subiram pelas paredes.



Compreendam, Michael e Regina eram criaturas da Universidade

at

é o âmago. Procuravam ser bem

-

sucedidos e, para eles, isto significava

protestar. Haviam protestado em favor da integração, no iníci

o dos anos

60, passaram para o Vietnã e, quando desistiram, havia Nixon, questões

de equilíbrio racial nas escolas (podiam citar capítulo e versículos do caso

Alan Bakke, até pegarmos no sono), violência policial e brutalidade

paternal. Depois, foram os di

scursos





toda aquela discurseira. Estavam

quase tão envolvidos nisso, como nos protestos. Pareciam sempre

dispostos a tomar parte em sessões pela noite inteira, tratando das mais

variadas questões, desde o programa espacial a conferências estudantis

em de

safio às autoridades acadêmicas, ou mesmo de um seminário sobre

possíveis alternativas

de combust

íveis fósseis. Só Deus sabe como

conseguiam tempo para tantas "linhas quentes"





números de telefone

para estuprados, drogados, para crianças fujonas que queri

am conversar

com um amigo, bem como o bom, o velho DISQUE

-

AJUDA, para onde os

suicidas podiam ligar e ouvir uma voz compreensiva dizendo não faça

isso, chapa, você tem um compromisso social com a Espaçonave Terra.




Com vinte ou trinta anos lecionando em uma



Universidade, o sujeito está

pronto para a discussão, da mesma forma que os cães de Pavlov estavam

prontos para sair quando ele tocava a campainha. Acredito que até se

chegue a gostar disso.



Regina (eles insistiam em que eu os chamasse por seus primeiros

nomes) tinha quarenta e cinco anos e era simp

ática, atraente de uma

forma um tanto fria e semi

-

aristocrática





isto é, conseguia parecer

aristocrática, mesmo usando jeans, o que fazia a maior parte do tempo.

Sua área era Inglês mas, naturalmente, quando se



atinge um nível

universitário, isso nunca é bastante: é como dizer "América" se alguém lhe

pergunta de onde você é. Ela se refinara nisso e estava calibrada, como o

"blip" de uma tela de radar. Especializara

-

se em poetas primitivos ingleses,

tendo apresen

tado tese sobre Robert Herrick.



O neg

ócio de Michael era História. Tinha uma aparência tão lutuosa

e melancólica, como a música que saía de sua flauta, embora luto e

melancolia não fossem uma parte normal de sua estrutura. Por vezes, ele

me fazia pensar no



que Ringo Star supostamente havia dito, quando os

Beatles vieram à América pela primeira vez, e certo repórter, em uma

entrevista à imprensa, perguntou

-

lhe se ele era realmente tão triste quanto

parecia. "Não", replicou Ringo, "é só o meu rosto." Michael

era assim.

Além do mais, seu rosto fino e os óculos grossos que usava combinavam

para emprestar

-

lhe uma leve aparência de caricatura de professor, em

uma inamistosa charge editorial. Seu cabelo começava a diminuir e ele

usava um pequeno cavanhaque anelado.







Oi, Arnie





disse Regina, quando entramos.





Olá, Dennis.,



Naquela tarde, foi essa a

última coisa cordial que ela disse para nós

dois. Respondemos "Oi" e passamos ao nosso bolo com leite. Sentamos no

canto reservado ao café da manhã. O jantar estava em

andamento no

forno e, lamento dizer, o cheiro era francamente repelente. Regina e

Michael tinham andado flertando com o vegetarianismo durante algum

tempo e, naquela noite, o aroma dava a impressão de que ela preparava

uma boa e velha torta de algas ou coi

sa assim. Esperei que não me

convidassem para ficar.



A m

úsica da flauta cessou e Michael veio para a cozinha. Usava

bermudas, recortadas de uma calça jeans e tinha um ar de quem acaba de

receber a notícia da morte de seu melhor amigo.










Estão atrasados, ra

pazes





disse.





Algo errado?



Abriu a geladeira e come

çou a vistoriar seu interior. Talvez a torta

de algas também não lhe fosse tão agradável ao olfato.







Comprei um carro





disse Arnie, cortando outro pedaço de bolo.







Você fez o quê?





exclamou sua mãe

no outro aposento,

imediatamente.



Ela se levantou depressa demais e houve uma batida seca, quando

suas coxas colidiram solidamente contra a beira da mesa de jogo, onde

resolvia seus quebra

-

cabe

ças. O baque foi seguido pelo ruído cascateado

de peças caindo

ao chão. Foi quando comecei a pensar que seria melhor

ter ido direto para casa.



Michael Cunningham se voltara da geladeira para fitar o filho,

segurando uma ma

çã em uma das mãos e uma embalagem de papelão

com iogurte natural na outra.







Você está brincando







disse, e por alguma absurda razão, pela

primeira vez notei que seu cavanhaque, usado desde mais ou menos 1970,

estava ficando um bocado grisalho.





Arnie, você está brincando, não?

Diga que é uma brincadeira.



Regina entrou, alta e semi

-

aristocr

ática, al

ém de infernalmente

furiosa. Esquadrinhou de perto o rosto de Arnie e soube que ele não

estava brincando.







Você não pode comprar um carro





falou.





De que está falando,

afinal? Só tem dezessete anos!



Arnie olhou lentamente, do pai junto

à geladeira, para



a mãe parada

à porta que levava à sala de estar. Havia uma expressão teimosa e

decidida em seu rosto, algo que eu nunca vira antes, que me lembrasse.

Pensei que, se usasse aquela expressão com mais freqüência na escola, os

colegas da cantina não se mostra

riam tão ávidos em massacrá

-

lo.







A verdade é que se enganam





respondeu ele.





Posso comprar

um carro sem qualquer problema. Claro, à prestação seria impossível, mas

uma compra em dinheiro não oferece problema algum. Naturalmente,

registrar um carro aos d

ezessete anos é uma questão totalmente diferente.

Para isso, eu precisaria de sua permissão.






Os dois o fitavam com surpresa, inquietação e crescente raiva.

Quando percebi a última, experimentei uma profunda sensação de dor no

estômago. Apesar de todas as s

uas idéias liberais e comprometimentos

com os trabalhadores das fazendas, as esposas maltratadas, mães solteiras

e o resto, eles manipulavam Arnie completamente. E Arnie se deixava

dirigir.







Não me parece legal, falar com sua mãe dessa maneira





disse

Mic

hael. Recolocou o iogurte no lugar, conservou a maçã e fechou

lentamente a porta da geladeira.





Você é muito novo para ter um carro.







Dennis tem um





disse Arnie prontamente.







Bem, puxa! Como está ficando tarde!





falei.





Eu já devia estar

chegando em.



casa! Devia estar chegando neste momento! Eu...

-







O que os pais de Dennis fazem e o que nós fazemos são coisas

muito diferentes





disse Regina Cunningham. Eu jamais ouvira sua voz

soar tão fria. Nunca.





E você não tem o direito de fazer semelhante coisa



sem consultar seu pai e a mim sobre...







Consultar vocês?





rugiu Arnie, de repente.



Derramou o leite. Havia enormes veias em seu pescoço, estiradas

como cordas. Regina recuou um passo, boquiaberta. Eu podia apostar que

o filho

-

patinho

-

feio nunca lhe rugir

a daquela forma, em toda a sua vida.

Michael ficara estupidificado. Estavam tendo um gostinho do que eu já

provara





por motivos que só ele saberia explicar, Arnie finalmente

conseguira ter algo que realmente desejava. E que Deus se apiedasse de

quem ficas

se em seu caminho.







Consultar vocês? Eu sempre consultei vocês em cada maldita

coisa que já fiz! Em tudo havia uma reunião para discutir e quando era

algo que não me interessava fazer, vocês venciam por dois contra um! Só

que agora não estamos em nenhuma

reunião para discutir o assunto.

Comprei um carro... e está acabado!







Pois eu não acho que esteja acabado





disse Regina.



Seus lábios se tinham afilado e, curiosamente (ou talvez não), ela

deixara de parecer tão semi

-

aristocrática; era agora como a Rainha



da

Inglaterra ou de algum lugar, com jeans e tudo. Michael estava fora da

situação, dali por diante. Parecia tão surpreso e desgostoso como eu e, por

um instante, senti uma bruta pena do homem. Ele nem ao menos podia ir




para casa jantar e se ver livre daq

uilo: já estava em casa. Ali se

desenrolava uma crua luta pelo poder, entre a velha guarda e a jovem

guarda. Tudo acabaria sendo decidido da mesma forma de antes, com

uma monstruosa exibição de amargura e aspereza. Aparentemente,

Regina estava disposta àqu

ilo, mesmo que não fosse este o caso de

Michael. Eu, no entanto, não queria tomar parte em nada. Levantei

-

me e

caminhei para a porta.







Você deixou que ele fizesse isto?





perguntou Regina. Olhou

para mim com arrogância, como se nunca tivéssemos rido junto

s, feito

bolos juntos ou participado juntos de acampamentos familiares.





Dennis,

estou surpresa com você.



Aquilo me atingiu. Eu sempre gostara da mãe de Arnie, porém

nunca chegara a confiar inteiramente nela, pelo menos desde que

acontecera algo, quando e

u tinha uns oito anos.



Eu e Arnie tínhamos ido de bicicleta até o centro da cidade, para

uma matinê no sábado. Quando voltávamos, ele caíra da bicicleta, em

uma manobra para evitar um cachorro, e machucara bastante a perna.

Levei

-

o para casa de carona em m

inha bicicleta, e Regina foi com ele ao

pronto

-

socorro, onde o médico deu meia dúzia de pontos. Então, por

algum motivo, depois que tudo terminou e se soube que Arnie ia ficar

perfeitamente bom, Regina se voltou contra mim e desandou com sua

língua afiada.



Pregou

-

me um sermão como se fosse sargento

-

chefe. Ao

terminar, eu tremia dos pés à cabeça e estava a ponto de chorar





que

diabo, tinha apenas oito anos e havia um bocado de sangue. Não posso

recordar capítulo e versículos de todo o falatório, mas a sensa

ção

generalizada que ficou comigo era perturbadora. Que me lembre, ela

começou por acusar

-

me de não ter tomado conta dele direito





como se

Arnie fosse muito mais novo e não quase da minha idade





e terminou

dizendo (ou parecendo dizer) que aquilo devia te

r acontecido era comigo.



Agora, a situação parecia repetir

-

se





Dennis, você não tomou

conta dele direito





e aquilo me irritou. Minha desconfiança quanto a

Regina talvez fosse apenas parte da coisa e, para ser inteiramente sincero,

talvez apenas a menor p

arte. Quando somos crianças (e, afinal de contas,

dezessete anos não são apenas o limite extremo da infância?), tendemos a

ficar ao lado de outras crianças. Um forte e infalível instinto nos diz que,

se não derrubarmos alguns muros e arrombarmos alguns por

tões, nossos




pais





com a melhor das intenções





ficariam satisfeitos nos mantendo

para sempre no cercado para bebês.



Fiquei zangado, mas disfarcei o melhor que pude.







Eu não o deixei coisa nenhuma





respondi.





Ele quis comprar e

comprou.





Antes, eu pod

ia ter contado que Arnie apenas dera um sinal,

mas não faria mais isso. Agora, eu empinava as costas.





A verdade é que

tentei convencê

-

lo a não comprar.







Duvido que tenha tentado com insistência





atacou Regina.



Ela bem poderia ter encerrado a frase, diz

endo: Você não me engana,

Dennis. Sei que os dois estavam de combinação nisto. Havia manchas

vermelhas nas maçãs de seu rosto e os olhos dela atiravam faíscas. Estava

procurando fazer com que me sentisse novamente um garoto de oito anos

e não se saía mal n

a história. No entanto, mantive minha posição.







Ora, pensando bem, afinal não foi uma coisa tão terrível assim.

Ele comprou o carro por duzentos e cinqüenta dólares e...







Duzentos e cinqüenta dólares?





explodiu Michael.





Que

espécie de carro se consegu

e por duzentos e cinqüenta dólares?



Seu anterior e incômodo desligamento





se é que existira, e não o

simples choque, ao som da tranqüila voz de seu filho, erguida em

protesto





desaparecera. O preço do carro é que o despertara. E ele olhou

para Arnie com

tão aberto desdém que me senti mal. Eu gostaria de ter

filhos um dia e, se os tiver, espero poder deixar fora de meu repertório

aquela particular expressão.



Fiquei dizendo para mim mesmo que não me alterasse, que aquilo

não era da minha conta, que não havi

a motivos para me irritar... porém o

bolo que comera se grudara no meio de meu estômago, em uma grande

bola pegajosa, e sentia a pele fervendo. Os Cunningham tinham sido

minha segunda família, desde que eu era garotinho, e podia sentir dentro

de mim todos

os aborrecidos sintomas físicos de uma disputa familiar.







Podemos aprender muito sobre carros, quando consertamos um

já velho





argumentei. De repente, soava para mim mesmo como uma

imitação maluca de LeBay.





E é preciso um bocado de trabalho, antes

mesm

o que fique bom para rodar na rua. (Se chegar a ficar, pensei.) Pode

-

se encarar isso como... como um hobby.







Eu encaro como loucura





disse Regina.






De súbito, eu só queria ir embora. Creio que, se as vibrações

emocionais ali dentro não estivessem tão pesa

das, até acharia graça

naquilo. De certa forma, passara a defender o carro de Arnie, quando

decidi que era um despropósito seguir em frente.







Pensem o que quiserem





murmurei



, mas me deixem fora

disto. Vou para casa.







Ótimo!





exclamou Regina, com aspe

reza.







Muito bem





disse Arnie, em voz inexpressiva. Levantou

-

se.





Vou dar o fora desta merda. Regina engoliu em seco e Michael piscou,

como se tivesse sido esbofeteado.







O que foi que disse?





bufou Regina.





O que foi que... ?







Não sei por que estão t

ão irritados





respondeu Arnie, em uma

voz distante, controlada



, mas não vou ficar aqui sentado ouvindo um

monte de besteiras de cada um. Você quis que eu fizesse os cursos do

colégio. Estou fazendo.





Ele olhou para a mãe.





Quis que eu entrasse

para o

clube de xadrez, em vez de ficar na banda da escola: muito bem,

estou lá também. Consegui atravessar dezessete anos sem envergonhá

-

la

no clube de bridge ou ir parar na cadeia.



Os dois estavam olhando para ele, de olhos esbugalhados, como se

uma das paredes



da cozinha tivesse ganho lábios subitamente e começasse

a falar.



Arnie os encarou, seus olhos eram estranhos, brancos e perigosos.







Estou dizendo a vocês que vou ter esse carro. É só isso.







Arnie, o seguro...





começou Michael.







Pare com isso!





gritou



Regina.



Ela não queria começar a falar sobre os problemas específicos,

porque esse seria o primeiro passo no caminho para uma possível

aceitação. Sua única idéia era esmagar a rebelião sob o calcanhar, rápida e

completamente. Há momentos em que os adultos



nos aborrecem de tal

forma, que eles jamais compreenderão; creio que vocês sabem disso. Eu

vivia um desses momentos e isso só fez com que me sentisse pior. Quando

Regina gritou com o marido, pude vê

-

la vulgar e assustada, ao mesmo

tempo. E, como gostava d

ela, desejaria nunca tê

-

la visto de um jeito ou de

outro.






Ainda assim, permaneci parado à porta, querendo ir embora, mas

doentiamente fascinado pelo que acontecia





a primeira discussão em

grande escala que já presenciara na família Cunningham, talvez a ún

ica.

Sem dúvida, aquilo era uma caretice, marcando no mínimo dez, na escala

Richter.







É melhor você ir, Dennis, enquanto resolvemos isto





disse

Regina, carrancuda.







Certo





falei



, mas acho que estão fazendo tempestade num

copo d'água. Esse carro... Re

gina... Michael... se vocês o vissem... talvez vá

de zero a trinta em vinte minutos, se chegar a se mover...







Dennis! Vá embora! Eu fui.



Quando entrava em meu Duster, Arnie saía pela porta dos fundos,

aparentemente afirmando sua intenção de ir embora. Os

pais o seguiram,

agora parecendo preocupados e também infelizes. Eu podia entender um

pouco o que eles sentiam. Fora tudo tão repentino como um ciclone,

descendo de um claro céu azul.



Liguei o motor e dei marcha à ré, até a rua sossegada.

Evidentemente, mu

ita coisa acontecera, desde que nós dois havíamos

saído do trabalho às quatro, duas horas atrás. Então, eu estava faminto a

ponto de comer quase qualquer coisa (exceto torta de algas). Agora, meu

estômago estava tão embrulhado que por pouco não devolvia tu

do quanto

fora engolido.



Quando parti, eles três estavam parados na entrada para carros, em

frente de sua garagem para dois automóveis (o Porsche de Michael e a

camionete Volvo de Regina estavam enfiados lá dentro





eles têm seus

carros, pensei, com certa

maldade; estão pouco ligando), ainda discutindo.



É isso aí, pensei, um tanto triste e aborrecido. Eles o derrotarão,

LeBay embolsará os vinte e cinco dólares de Arnie e aquele Plymouth 58

ficará em seu gramado por outros mil anos. Os pais de Arnie já tinha

m

feito coisas semelhantes com ele. Porque Arnie era um perdedor. Até

Regina e Michael sabiam disso. Ele era inteligente, e quando se conseguia

varar seu exterior tímido e desconfiado, ficava divertido, amável e... dócil,

acho eu. Dócil, exatamente o termo



que faltava. Dócil, mas um perdedor.



Seus pais sabiam disso, tão bem como os soquetes

-

brancas da

cantina, que implicavam com ele aos gritos pelos corredores e esfregavam




polegares em seus óculos. Eles sabiam que Arnie era um perdedor e o

derrotariam. Foi

o que pensei. Só que, desta vez, estava enganado.





A



M

ANHÃ

S

EGUINTE



Meu velho disse "Filho,



Me dê uma carona para eu ir beber,



Se você ainda dirige aquele



Lincoln envenenado. "







Charlie Ryan





Na manhã seguinte, passei pela casa de Arnie às 6:30 e apenas p

arei

junto ao meio

-

fio, não querendo entrar, mesmo imaginando que seus pais

ainda estariam na cama





na noite anterior houvera demasiadas

vibrações negativas flutuando naquela cozinha, para que me sentisse

tentado pelo costumeiro café com biscoitos, antes

de ir trabalhar.



Arnie demorou quase cinco minutos para sair e comecei a pensar se

ele não cumprira a ameaça de ir realmente embora. Então a porta dos

fundos se abriu e ele veio descendo pela entrada de carros, a marmita do

almoço balançando contra sua per

na.



Ele entrou no carro, bateu a porta e disse:







Vamos rodando, Jeeves.



Este era um dos chistes padronizados de Arnie, quando estava de

bom humor.



Comecei a rodar e olhei para ele cautelosamente, quase decidido a

falar alguma coisa, mas em seguida decidin

do ser melhor esperar que ele

começasse... se é que tinha alguma coisa para dizer.



Durante bastante tempo, pareceu que ele não tinha. Fizemos a maior

parte do caminho para o trabalho sem qualquer conversa entre nós, a não

ser o som da WMDY, a estação local



de rock e soul. Arnie marcava o

compasso distraidamente, batendo na perna.



Por fim, ele disse:










Lamento que você tenha se envolvido naquilo a noite passada,

cara.







Está tudo certo, Arnie.







Nunca lhe ocorreu





disse ele, abruptamente





que os pais não

p

assam de crianças desenvolvidas, até que os filhos os empurrem para

que se tornem adultos? Geralmente esperneando e chorando?



Sacudi a cabeça.







Vou lhe dizer o que penso





continuou ele. Estávamos agora

chegando ao local da construção; o trailer da Garson



Brothers ficava a

apenas duas rampas além. Naquela manhã, o trânsito era leve e sonolento.

O céu tinha uma suave cor de pêssego.





Acho que uma das funções de

ser pai é destruir os filhos.







Parece bastante racional





respondi.





Os meus estão sempre

quer

endo destruir

-

me. Esta noite, mamãe esgueirou

-

se com um

travesseiro e o segurou contra meu rosto. Na véspera, foi papai, correndo

atrás de mim e de minha irmã com uma chave de fenda.



Eu estava brincando, mas me perguntei o que Michael e Regina

diriam, se p

udessem ouvir nossa conversa.







A princípio, sei que parece um tanto louco





disse Arnie,

imperturbável



, mas muita coisa é esquisita, antes de começarmos a

considerá

-

las. Complexo de pênis. Conflitos edipianos. O sudário de

Turim.







Para mim, é tudo best

eira





respondi.





Você teve uma

discussão com seus pais, só isso.







Acredito nisso, realmente





disse Arnie, com ar pensativo.





Não que eles soubessem o que faziam; não acredito nisso. E sabe por quê?







Diga.







Porque assim que se tem um filho, a gente t

em certeza de que irá

morrer. Quando temos um filho, vemos nossa própria sepultura.







Sabe de uma coisa, Arnie?







O quê?







Acho que isso é uma merda de macabro. Nós dois explodimos em

gargalhadas.










Não falei nesse sentido





replicou ele.



Paramos no local

de estacionamento e desliguei o motor. Ficamos ali,

ainda por um momento.







Eu disse a eles que não seguiria mais os cursos do colégio





declarou Arnie.





Disse que me matricularia em T.V. Do começo ao fim.



T.V. era treinamento vocacional. A mesma espécie

de coisa feita

pelos garotos dos reformatórios para menores, exceto, naturalmente, que

eles não voltam para casa à noite. Seguem o que se poderia chamar de

programa compulsório de internato.







Arnie...





comecei, sem saber bem como continuar. A forma

como

aquilo brotara do nada me dava a impressão de um capricho.





Você ainda é menor, Arnie. Eles têm que assinar o seu programa...







Claro, eu sei disso





respondeu Arnie. Sorriu para mim sem

humor e, àquela claridade fria da manhã, pareceu ao mesmo tempo mais



velho e muito, muito mais jovem... algo assim como uma criança cínica.





Eles têm o poder de cancelar todo o meu programa para o outro ano, se

quiserem, trocando

-

o por um de sua preferência. Querendo, podem

matricular

-

me em Economia Doméstica e Mundo da M

oda. A lei diz que

podem. Entretanto, não há nenhuma lei dizendo que podem me obrigar a

fazer o que quiserem.



Aquilo me abriu os olhos





quero dizer, mostrou a que distância ele

fora. Como era possível que um calhambeque caindo aos pedaços chegara

a signif

icar tanto para ele e tão depressa? Nos dias seguintes, essa

pergunta ficou insistindo comigo de maneiras diferentes, como eu sempre

imaginara que seria um desgosto recente. Quando Arnie disse a Michael e

Regina que ia ficar com o carro, falava sério. Ele

seguira diretamente para

aquele lugar onde eram mais fortes as suas expectativas e avançara com

uma impiedosa diligência que me surpreendia. Não creio que táticas

menores funcionassem com Regina, mas a verdade é que Arnie conseguira

surpreender

-

me. De fato

, ele me surpreendera um bocado. O que fervia

por baixo daquilo era que, se Arnie passasse seu último ano em T.V., a

universidade seria jogada pela janela. E, para Michael e Regina, isso era

uma impossibilidade.







Quer dizer que... então eles desistiram?






E

ra quase como extorquir

-

lhe as respostas, porém eu não podia

deixar as coisas assim, enquanto não soubesse tudo.







Não dessa maneira. Eu disse que encontraria um lugar para

guardar o carro e que não tentaria submetê

-

lo a uma vistoria ou registro

sem a apro

vação deles.







Acha mesmo que vai levar a melhor nisto?



Ele esboçou um breve e soturno sorriso, ao mesmo tempo confiante

e amedrontado. Era o sorriso de um operador de escavadeira, baixando a

lâmina de um Cat D

-

9, diante de um barranco especialmente difíci

l.







Levarei





respondeu Arnie.





Quando quero, eu levo a melhor.

E sabem de uma coisa? Acreditei que ele levaria mesmo.





A

RNIE

S

E

C

ASA



Recordo o dia



Quando o escolhi entre todo aquele ferro

-

velho,



Eu podia dizer que ele era ouro,



Debaixo daquela camada de



ferrugem,



E sem batidas...







The Beach Boys





Podíamos ter duas horas de trabalho extra naquela noite de sexta

-

feira, mas não quisemos. Recolhemos nossos cheques no escritório,

descemos até a filial de Libertyville do Banco de Empréstimos e Poupança

de Pit

tsburgh e os descontamos. Depositei a maior parte do meu em uma

conta de poupança, deixei cinqüenta na conta corrente (ter uma conta

corrente fazia com que me sentisse inquietantemente adulto





imagino

que a sensação se apague com o tempo) e fiquei com vin

te em dinheiro.



Arnie retirou todo o seu cheque em dinheiro vivo.







Tome





disse ele, estendendo

-

me uma nota de dez.










Não





respondi.





Fique com ela, cara. Vai precisar de cada

centavo, antes de terminar aquela lanternagem.







Aceite





insistiu ele.





Eu

pago minhas dívidas, Dennis.







Guarde o dinheiro. Sinceramente.







Aceite.



Ele estendia a nota, inexoravelmente. Apanhei

-

a, mas o obriguei a

ficar com o dólar que sobrava. Arnie não queria aceitar.



Ao cruzarmos a cidade em direção ao terreno da casa de LeBa

y,

Arnie ficou mais agitado, tocando o rádio alto demais, marcando um

improvisado compasso primeiro batendo nas coxas, depois no painel de

instrumentos. Foreigner começou a cantar

"Dirty White Boy

".







É a história da minha vida, Arnie meu chapa





falei.



El

e riu, muito alto e por muito tempo. Agia como homem esperando

que a mulher tenha um bebê. Por fim, percebi que estava assustado,

temendo que LeBay houvesse vendido o carro, fora do combinado.







Fique calmo, Arnie





falei.





Ele está lá.







Estou calmo, est

ou calmo





disse, oferecendo

-

me um largo,

brilhante e falso sorriso. Naquele dia, sua pele estava pior do que nunca, e

me perguntei (não pela primeira, nem pela



última vez) como se sentiria

sendo Arnie Cunningham, encurralado atrás daquele rosto gotejante,



de

segundo a segundo, minuto a minuto e...







Ora, pare de suar! Está agitado como se tivesse borrado as calças,

antes mesmo de chegarmos lá!







Não estou suando





disse ele.



Batucou outro nervoso compasso no painel de instrumentos,

justamente para me prova

r que não estava nervoso.

"Dirty White Boy"

, de

Foreigner, foi substituído por

"Jukebox Heroes"

, também cantado por ele.

Era um anoitecer de sexta

-

feira e o

Block Party Weekend



já começara, em

FM

-

104. Quando recordo aquele ano, meu último ano escolar, tenh

o a

sensação de que poderia medi

-

lo em quarteirões de rock... e uma

ascendente, uma fantástica sensação de terror.







O que significa isso exatamente?





perguntei.





O que há de

mais nesse carro?






Ele ficou olhando para Libertyville Avenue sem dizer nada, du

rante

um tempão. Depois desligou o rádio com um gesto rápido, cortando o vôo

de Foreigner pelo meio.







Não sei ao certo





respondeu.





Talvez seja porque, pela

primeira vez, desde que fiz onze anos e comecei a ficar com espinhas,

tenha visto uma coisa aind

a mais feia do que eu. Não é o que queria que

eu dissesse? Isto não o deixa em uma categoriazinha elegante?







Ei, Arnie, o que há?





falei.





Este aqui é o Dennis, lembra

-

se de

mim?







Claro que me lembro





replicou ele.





E ainda somos amigos,

certo?







Cer

to, pela última vez que chequei. Mas o que tem isso a ver

com...







Significa que não precisamos mentir um para o outro. Pelo menos,

é o que penso. Portanto, quero lhe dizer, talvez nem tudo seja legal. Sei o

que sou. Sou feio. Não faço amigos com facilidad

e. De certa forma...

afugento as pessoas. Não é minha intenção, mas acontece. Você entende?



Assenti com certa relutância, Como ele dissera, éramos amigos e isso

significava que as mentiras e tolices deviam ser reduzidas ao mínimo.



Ele assentiu de volta, co

m naturalidade.







Outras pessoas





disse, para então acrescentar,

cautelosamente



, você por exemplo Dennis, nem sempre entendem o

que isto significa. Quando a gente é feio e os outros riem de nós, a maneira

como vemos o mundo se modifica. E muito difícil

manter o senso de

humor. É uma coisa que se gruda por dentro. Às vezes, até é difícil

permanecer lúcido.







Bem, eu posso entender isso, mas...







Não





disse ele, calmo.





Você não pode entender. Pensa que

pode, mas não pode. Não mesmo! Mas você gosta de mi

m, Dennis...







Eu adoro você, cara





falei.





Sabe muito bem disso.







Talvez





respondeu ele



, e fico satisfeito. Se gosta de mim, é

porque sabe que existe algo mais... qualquer coisa por baixo das espinhas

e de meu rosto imbecil...










Seu rosto não é imbe

cil, Arnie





discordei.





Pode ser esquisito,

mas não imbecil.







Foda

-

se





disse ele, sorrindo.







Foda

-

se também o pangaré que vai montar, Cavaleiro da

Montanha.







De qualquer modo, aquele carro é assim. Há qualquer coisa por

baixo dele. Algo mais. Algo me

lhor. Eu sinto, é só isso.







Sente?







Exato, Dennis





disse ele, tranqüilo.





Eu sinto.



Dobrei para Main Street. Estávamos chegando à casa de LeBay. De

repente, tive uma idéia absolutamente idiota. E se o pai de Arnie tivesse

convocado alguns de seus amigo

s ou alunos para irem à casa de LeBay e

comprar aquele carro, tirando

-

o de seu filho? Poder

-

se

-

ia dizer que seria

um toque maquiavélico, só que a mente de Michael Cunningham era mais

do que ligeiramente tortuosa. Sua especialidade era História Militar.







E

u vi aquele carro e senti tal

atração

por ele... Nem mesmo para

mim sei explicar bem como foi, mas...



A voz se extinguiu, aqueles olhos cinzentos e sonhadores pareciam

ver o futuro.







Eu vi que poderia melhorá

-

lo





concluiu.







Consertá

-

lo, quer dizer, não

é?







Sim... bem, não. Assim, seria muito impessoal. A gente conserta

mesas, cadeiras, essas coisas. O cortador de grama, quando não quer

funcionar. E carros comuns.



Talvez ele tivesse visto minhas sobrancelhas erguidas. De qualquer

modo, deu uma risada





u

ma risadinha defensiva.







Certo, percebo como a coisa soa





disse.





Nem mesmo gostaria

de colocar em palavras, porque sei como soa, mas você é um amigo,

Dennis. E isto significa um mínimo de conversa fiada. Não acredito que

aquele seja um carro comum. Não



sei por que penso assim, mas... é o que

penso.



Abri a boca para dizer algo que mais tarde poderia lamentar, algo

sobre tentar olhar as coisas de outra forma ou mesmo evitar um




comportamento obsessivo. Entretanto, naquele exato momento, dobramos

a esquina

e entramos na rua de LeBay.



Arnie encheu os pulmões de ar, em uma inspiração rude e dolorida.



No gramado de LeBay, havia um retângulo ainda mais amarelado,

mais pelado e feio do que o resto do terreno. Perto de uma extremidade

do retângulo, havia uma manch

a de óleo com aparência doentia, que

mergulhara no solo, matando tudo que ali crescera antes. Aquele pedaço

retangular de terreno era tão infernalmente extenso que, acho, quem

olhasse para ele por muito tempo ficaria cego.



Era ali que estivera o Plymouth 5

8, no dia anterior.



O chão continuava lá, mas o Plymouth se fora.







Arnie





falei, quando encostei o carro no meio fio



, vá com

calma. Não se descontrole, pelo amor de Deus!



Ele não me deu a menor atenção e até duvido que me tivesse ouvido.

Seu rosto fica

ra lívido. As equimoses que o cobriam tornaram

-

se

purpúreas, ganhando relevo. Antes mesmo que eu freasse, ele já

escancarava a porta de meu Duster, no lado do passageiro, e mergulhava

para fora.







Arnie...







Foi meu pai





disse ele, com raiva e desgosto.





Posso farejar

aquele filho da mãe em

tudo

isto!



Disparou em seguida, correndo pelo gramado até a porta de LeBay.



Saí do carro e corri atrás dele, refletindo que aquela merda nunca

mais teria fim. Mal podia acreditar que acabara de ouvir Arnie

Cunningham c

hamar Michael de filho da mãe.



Arnie erguia o punho para martelar a porta, quando ela se abriu.

Roland D. LeBay, em pessoa, surgiu à vista. Agora usava uma camisa

sobre o colete para as costas. Olhou para o rosto enfurecido de Arnie com

um sorriso benignam

ente cobiçoso.







Olá, filho





disse.







Onde está ele?





perguntou Arnie, fora de si.





Nós fizemos um

negócio! Droga, fizemos um negócio! Entregou

-

me um recibo!










Baixe a fervura





disse LeBay. Então me viu, parado junto ao

último degrau, com as mãos enfia

das nos bolsos.





O que há de errado

com seu amigo, filho?







O carro sumiu





falei.





É o que há de errado com ele.







Quem o comprou?





gritou Arnie.



Eu nunca o vira tão enfurecido. Se tivesse uma arma naquele

momento, creio que a teria encostado à têmpora



de LeBay. Fiquei

fascinado, mesmo sem querer. Aquilo era como se um coelho tivesse

ficado subitamente carnívoro. Que Deus me perdoe, mas cheguei a pensar,

em um relance, se Arnie não teria um tumor no cérebro.







Quem o comprou?





repetiu LeBay brandamente

.





Até agora,

ninguém, filho. Bem, você deu um sinal pelo carro. Eu o levei para a

garagem, eis tudo. Coloquei o pneu sobressalente e troquei o óleo.



O velho empertigou

-

se e então ofereceu

-

nos um sorriso

absurdamente magnânimo.







Você é um grande sujeito





falei.



Arnie o fitou com incerteza, depois girou bruscamente a cabeça para

a porta fechada da modesta garagem para um carro, anexada à casa por

um corredor coberto. Um corredor que, como tudo o mais na propriedade

de LeBay, já vira melhores dias.







Por o

utro lado, não quis deixá

-

lo aqui fora, já que você tinha

dado um sinal de compra





disse ele.





Um ou dois caras desta rua

podiam criar problemas. Certa noite, um garoto atirou uma pedra em meu

carro. Oh, claro, tenho alguns vizinhos saídos diretamente da



B.E.P.







O que é isso?





perguntei.







É a Brigada dos Espíritos de Porco, filho.



Ele varreu o lado oposto da rua com um maligno olhar de caçador à

espreita, abrangendo os carros simples e econômicos que agora tinham

retomado do trabalho para casa, as cria

nças brincando de pique e pulando

corda, as pessoas sentadas à porta de casa e bebericando, à primeira brisa

da noite fria.







Eu gostaria de saber quem jogou aquela pedra





disse ele, em

voz branda.





Sim, senhor, eu gostaria de saber quem foi.






Arnie pigar

reou.







Sinto muito ter

-

lhe falado daquela maneira.







Não tem importância





respondeu LeBay vivamente.





Gosto

de ver um sujeito exigir o que é seu... ou quase seu. Trouxe o dinheiro,

garoto?







Sim, trouxe.







Muito bem, entrem. Você e seu amigo também. Vou



passar um

recibo de compra em seu nome e tomaremos um copo de cerveja para

comemorar.







Não, obrigado





falei.





Eu fico aqui fora, se não se importa.







Isso é com você, filho





disse LeBay... e me piscou o olho.



Até hoje não sei bem o que significaria aq

uela piscadela. Os dois

entraram e a porta bateu, fechando

-

se atrás deles. O peixe caíra na rede e

agora ia ser escamado.



Sentindo

-

me deprimido, caminhei pelo corredor coberto até a

garagem e tentei abrir a porta. Ela deslizou para cima com facilidade e

as

pirei os mesmos odores já sentidos, quando abrira a porta do Plymouth,

na véspera: óleo, estofamento antigo, o calor acumulado de um longo

verão.



Ancinhos e alguns velhos apetrechos de jardim alinhavam

-

se ao

longo de uma parede. Na outra, uma mangueira vel

híssima, uma bomba

de bicicleta e um antigo saco de golfe, cheio de tacos enferrujados. No

meio da garagem, com a proa virada para a saída, estava Christine, o carro

de Arnie, parecendo ter um quilômetro de comprimento naquela época,

em que os próprios Cad

illacs davam uma idéia de comprimidos e

semelhantes a caixotes. A confusa teia de aranha de rachaduras a um lado

do pára

-

brisa captou a claridade, transformando

-

a em um prateado sujo.

Um garoto com uma pedra





tinha dito LeBay



, ou talvez um ligeiro

acide

nte, ao voltar para casa, vindo de uma reunião com os VFW (os

veteranos de guerras no estrangeiro), após uma noite bebendo uísque

misturado a cerveja e contando histórias sobre a Batalha do Bulge ou de

Pork Chop Hill. Os bons e velhos tempos, quando um hom

em podia ver a

Europa, o Pacífico e o misterioso Oriente de trás da mira de uma bazuca.

Quem podia saber... e o que importava? De qualquer modo, não ia ser

fácil encontrar um pára

-

brisa para reposição tão grande como aquele.






E nem ia ser barato.



Oh, Arnie!



pensei. Cara, você está indo muito fundo.



O pneu que LeBay trocara descansava contra a parede. Agachei

-

me

sobre as mãos e os joelhos, para uma espiada debaixo do carro. Uma

recente mancha de óleo começava a formar

-

se ali, negra contra o fantasma

acastanha

do de outra mais antiga e mais larga, que se infiltrara no

cimento, durante um período de anos. Aquilo não diminuiu minha

depressão. Sem dúvida, o bloco do motor devia estar rachado.



Dei a volta até o lado do motorista e, ao segurar o volante, avistei

uma

lata de lixo no canto mais distante da garagem. Por sobre a borda,

assomava uma enorme garrafa de plástico. As letras SAPPH eram visíveis

acima da borda.



Grunhi. Muito bem, ele trocou o óleo. Quanta gentileza. Retirara o

velho





o que quer que houvesse sob

rado dele





e despejara alguns

quartos de Sapphire Motor Oil. É o troço que se consegue a 3 dólares e

cinqüenta em Mammoth Mart, por lata de cinco galões reciclados. Roland

D. LeBay era um verdadeiro príncipe, sem dúvida. Roland D. LeBay era

um sujeito for

midável.



Abri a porta do carro e deslizei para trás do volante. Agora, o cheiro

na garagem não parecia tão pesado ou tão carregado com impressões de

desuso e fracasso. O volante era amplo e vermelho





um volante de

confiança. Tornei a olhar para aquele esp

antoso velocímetro, aquele

velocímetro calibrado, não para 70 ou 80, mas todo o caminho até 120

milhas por hora. Não havia a marcação por quilômetro, em pequenos

números vermelhos, abaixo das milhas; quando aquele bebê rodara para

fora da linha de montagem

, a idéia do sistema métrico ainda não ocorrera

a ninguém em Washington. Tão pouco vi qualquer grande 55 em

vermelho no velocímetro. Naquele tempo, a gasolina saía por 29,9 o galão,

talvez menos, se em sua cidade estivesse em prática o preço de guerra. Os

embargos ao petróleo árabe e as penalidades quanto ao limite de

velocidade, ainda estavam a quinze anos de distância.



Os bons e velhos tempos,

pensei, e tive que sorrir um pouco. Remexi

no lado esquerdo do assento, embaixo, e encontrei o pequeno console co

m

o botão que movia o banco para diante e para trás, para cima e para baixo

(se ainda funcionava, claro). Mais poder para você, como se diz por aí.

Havia um condicionador de ar (com

toda certeza,

aquilo não funcionava),




controle para velocidade de cruzeiro



e um enorme rádio com botões de

apertar e montanhas de cromados





AM apenas, é claro. Em 1958, a FM

era principalmente um deserto vazio.



Segurei o volante com as duas mãos e algo aconteceu.



Mesmo hoje, depois de muito refletir, não imagino exatamente o qu

e

fosse. Uma visão, talvez







mas se fosse, talvez não tivesse grande

importância. Acontece que, por um momento, aquele estofamento rasgado

parecia ter desaparecido. Agora estava inteiro, desprendendo um cheiro

agradável de vinil... ou talvez aquele cheiro

fosse de couro verdadeiro. As

partes gastas da direção haviam sumido; o cromado piscava alegremente

à claridade noturna do verão, entrando pela porta da garagem.



Vamos sair daqui e dar uma volta, garotão,

Christine pareceu sussurrar,

em meio ao quente silê

ncio estivai da garagem de LeBay.

Vamos rodar por

aí.



Então, só por um instante, pareceu que

tudo

mudara. Aquela

horrorosa confusão de rachaduras no pára

-

brisa sumira





ou era esta a

impressão. O pequeno trecho do gramado de LeBay, que eu podia ver dali,

n

ão estava amarelado, ralo e maltratado, mas ficara de um verde

exuberante e farto, recentemente aparado. A calçada mais além estava

cimentada de fresco, sem uma fenda no piso à vista. Eu vi (pensei ou

sonhei ter visto) um motor de Cadillac 57 à minha frent

e. Aquele cavalo

empinado GM era de um verde

-

hortelã, não havia o menor salpico de

ferrugem na lataria, os pneus eram enormes, de banda branca, com calotas

refletindo mais que espelhos. Um Cadilac do tamanho de um iate, por que

não? A gasolina era quase tã

o barata como a água da torneira.



Vamos sair daqui e dar uma volta, garotão... Vamos rodar por aí.



Claro, por que não? Eu podia ligar o motor e rumar para o centro da

cidade, em direção ao antigo ginásio que ainda estava de pé





ele só se

incendiaria seis

anos mais tarde, em 1964





e eu poderia ligar o rádio,

para ouvir Chuck Berry cantando

"Maybelline"

ou os Everlys em "

Wake up

little Susie".

Talvez Robin Luke, gemendo "

Susie Darling

'. E então, eu...



E então saí daquele carro, o mais depressa que pude. A

porta se

abriu com um infernal rangido enferrujado e arranhei fundo o cotovelo,

em uma das paredes da garagem. Empurrei a porta para que se fechasse

(falando francamente, eu nem queria tocar nela) e então fiquei lá parado,

contemplando o Plymouth que, salv

o algum milagre, logo pertenceria a




meu amigo Arnie. Esfreguei o osso arranhado do cotovelo. Meu coração

batia aceleradamente.



Nada. Não havia cromados novos nem novo estofamento. Ao

contrário, havia uma profusão de amassaduras e ferrugem, faltava um

farol



dianteiro (detalhe que, na véspera, me passara despercebido) e a

antena do rádio se inclinava em um ângulo esquisito. Mais aquela poeira,

o cheiro sujo de velhice.



Naquele momento, decidi que não gostava do carro de meu amigo

Arnie.



Saí da garagem, olhand

o constantemente para trás por sobre o

ombro





sei lá por quê, mas não gostava daquilo às minhas costas. Sei

que pode parecer absurdo, mas era como me sentia. E lá estava o carro,

com o radiador amassado e enferrujado, sem nada de sinistro e nem

mesmo estr

anho, apenas um velho automóvel Plymouth, com uma

etiqueta adesiva de inspeção, que caducara em 1º de junho de 1976 muito

tempo atrás.



Arnie e LeBay saíam da casa. Arnie tinha na mão um pedaço de

papel, que deduzi ser seu recibo de compra. As mãos de LeBay



estavam

vazias; ele já fizera o dinheiro desaparecer.







Espero que desfrute bastante da máquina





dizia LeBay,

fazendo

-

me pensar em um gigolô muito idoso, engambelando um rapaz

muito novo. Senti uma onda de pura aversão por ele... ele com sua

psoríase no

crânio e seu suado colete ortopédico.





Creio que a desfrutará.

Com o tempo.



Seus olhos ligeiramente remelosos encontraram os meus, fixaram

-

se

neles por um segundo e depois deslizaram de volta a Arnie.







Com o tempo





repetiu.







Sim, senhor, tenho certeza

disso





respondeu Arnie, alheiamente.

Moveu

-

se para a garagem como um sonâmbulo e ficou parado, olhando

seu carro.







As chaves estão nele





disse LeBay.





Terá que levá

-

lo daqui.

Compreende, não?







E o motor dará partida?










Deu partida ontem para mim, à no

ite





disse LeBay, mas seus

olhos se voltaram para o horizonte. Depois em um tom de quem lavou as

mãos em todo aquele negócio, acrescentou:





Seu amigo aqui deve ter

algum cabo no porta

-

mala.



Bem, para dizer a verdade, eu

tinha

o cabo no porta

-

mala, porém

não gostei muito de LeBay ter adivinhado isso. Não gostei que ele

adivinhasse, porque... Suspirei de leve. Porque não queria ser envolvido

no futuro relacionamento de Arnie com o calhambeque que havia

comprado. No entanto, estava me vendo ser arrastado par

a aquilo, passo a

passo.



Arnie cessara inteiramente a conversa. Caminhou para a garagem e

entrou no carro. O sol do fim da tarde agora batia em cheio sobre o carro e

vi a pequena nuvem de poeira que subiu quando Arnie se sentou, e sacudi

automaticamente os



meus fundilhos. Por um instante, ele ficou apenas

parado diante do volante, as mãos segurando

-

o frouxamente, e senti que

minha inquietação voltava. De certa forma, era como se o Plymouth o

tivesse engolido. Disse a mim mesmo para parar com aquilo, que não



havia nenhuma maldita razão para que continuasse agindo como uma

menininha imbecil da sétima série.



Então, Arnie inclinou

-

se ligeiramente. O motor começou a dar

partida, depois morreu. Virando

-

me, atirei um olhar irritado e acusador

para LeBay, porém ele

voltara a estudar o céu, como que em busca de

chuva.



Aquele motor não ia pegar, não ia pegar de maneira alguma. Meu

Duster estava em ótimo estado, mas os dois carros que eu tivera antes

eram calhambeques (calhambeques

recauchutados

e nenhum deles

pertencen

do à mesma categoria de Christine), portanto, ficara bem

familiarizado com aquele som nas manhãs frias de inverno, aquele lento e

cansado ruído desconjuntado, indicando que a bateria arranhava o fundo

do barril.



Rurr

-

rurr

-

rurr... rurr... ru

rr

... ru

rr

... ru

rr...







Não se preocupe, Arnie





falei.





Não vai pegar nunca.



Ele nem mesmo ergueu a cabeça. Desligou e tornou a girar a chave

na ignição. O motor resmungou, com dolorosa e difícil lentidão.

Encaminhei

-

me para LeBay.










Não podia tê

-

lo deixado trabalhar o

tempo suficiente para

carregar um pouco a bateria, pelo menos?





perguntei.



LeBay me fitou com seus olhos remelentos e amarelados, sem nada

dizer. Depois começou a perscrutar novamente o céu, pesquisando chuva.







O mais provável é que nem tenha chegado a t

rabalhar. Talvez

você tenha arranjado uns dois amigos que o ajudaram a empurrá

-

lo até a

garagem. Se é que um velho imbecil como você tem amigos.



Ele baixou os olhos para mim.







Você não sabe tudo, filho





disse.





Ainda nem aprendeu a

enxugar atrás das ore

lhas. Quando tiver passado por duas guerras, como

eu...







Suas duas guerras que se fodam!





repliquei deliberadamente.



Caminhei para a garagem, onde Arnie continuava tentando ligar o

motor de seu carro. Pensei que seria mais fácil secar o Atlântico com um

canudinho de palha ou ir até Marte em um balão de ar quente.



Rurr... rurr... rurr...



Logo o último ohm, o último erg, seriam sugados daquela velha

bateria da Sears, não restando senão o mais desanimador de todos os sons

automotrizes, ouvidos tão comumente

em estradas secundárias

encharcadas de chuva e auto

-

estradas desertas: o clique estéril e

monótono do solenóide, seguido por um terrível som semelhante a um

chocalho.



Abri a porta do lado do motorista.







Vou apanhar meus cabos





falei. Ele ergueu os olhos.







Acho que ele vai pegar para mim





respondeu.



Senti meus lábios se distenderem em um largo sorriso de dúvida.







De qualquer modo, vou buscar os cabos.







Está bem, já que você quer





Arnie respondeu com ar ausente.

Então, em uma voz quase inaudível, acres

centou:





Vamos, Christine! O

que me diz?






No mesmo instante, aquela voz despertou em minha cabeça e

tornou a falar:

Vamos sair daqui e dar uma volta, garotão... Vamos rodar por aí...

e estremeci.



Ele tornou a girar a chave. Esperei o clique seco do solenói

de e o

chocalhar que logo engasgaria. No entanto, o que ouvi foi o lento

estertorar do motor, de repente ganhando velocidade. O motor pegou,

ficou assim um instante, depois morreu. Arnie girou a chave novamente.

O motor trabalhou mais depressa. O arranque

soava tão alto como uma

bomba usada, mas em bom estado, naquele confinado espaço da garagem.

Sobressaltei

-

me. Arnie continuou quieto, perdido em seu próprio mundo.



A essa altura, eu já teria praguejado umas duas vezes, apenas para

dar força, para ajudar a

máquina:

Vamos, filha da puta,

sempre é uma boa

pedida;

Pegue, porra!

também tem seus méritos e, às vezes, apenas um

bom e saudável

merda

-

PEGUE!

realiza o milagre. A maioria dos caras que

conheço faria o mesmo; penso que isto é apenas uma das coisas que

ap

rendemos com nosso pai.



O que nos fica da mãe, em geral, são conselhos práticos e insistentes:

se cortar as unhas dos pés duas vezes por mês, não ficará com tantos

buracos nas meias; largue uma coisa no chão, e não vai saber onde ela está;

coma sua cenoura

, porque faz bem





mas é com o pai que aprendemos as

palavras mágicas, os talismãs do poder. Se o carro não pega, xingue

-

o... e

certifique

-

se de que o xingamento seja no feminino. Se recuássemos sete

gerações, provavelmente veríamos um de nossos tataravós

xingando a

maldita cadela daquele burro que parou na metade da ponte em que se

pagava pedágio, em algum lugar do Sussex ou de Praga.



Arnie, entretanto, não xingou em absoluto. Murmurou baixinho:







Vamos, boneca, o que me diz?



Girou a chave. A máquina estre

meceu duas vezes, o arranque

tornou a soar e então pegou. Era um som horrível, como se quatro dos oito

êmbolos houvessem tirado folga naquele dia, mas o motor continuou

funcionando. Eu mal podia acreditar, porém não pretendia ficar por ali e

discutir o cas

o com Arnie. A garagem se enchia rapidamente de fumaça

azul e vapores. Fui para fora.







Afinal, o motor pegou direitinho, não foi?





disse LeBay.





E

você não precisará arriscar sua preciosa bateria.






Ele deu uma cusparada. Não pude pensar em algo como resp

osta.

Para ser franco, fiquei um pouco constrangido.



O carro saiu lentamente da garagem, parecendo tão absurdamente

comprido que dava vontade de rir, chorar, fazer qualquer coisa. Era difícil

acreditar que pudesse ser tão grande. Parecia uma ilusão de ótic

a. E Arnie

ficara ainda menor, atrás do volante.



Ele arriou o vidro da janela e acenou para mim. Tínhamos que gritar,

para que nossas vozes fossem ouvidas





era outro detalhe sobre Christine,

a garota de Arnie: tinha uma voz extremamente alta e rouca, que

exigiria

um pronto controle. O que sobrara do sistema exaustor, ao qual se poderia

adaptar um silencioso, não passava de um monte de rendilhado

ferruginoso. Desde que Arnie tomara posição ao volante, a pequena caixa

registradora na seção de automóveis de m

eu cérebro já totalizara as

despesas em cerca de seiscentos dólares





nisto não incluído o pára

-

brisa

estilhaçado. Só Deus sabia quanto poderia custar aquela reposição.







Vou levá

-

lo para a Darnell's!





gritou Arnie.





Seu anúncio no

jornal diz que posso e

stacioná

-

lo nos boxes traseiros por vinte dólares a

semana!







Arnie, vinte dólares por semana em um daqueles boxes dos

fundos é demais!





gritei em resposta.



Aí vinha mais roubalheira contra os jovens e inocentes. A Garagem

de Darnell fica contígua a um te

rreno baldio de quatro acres, ocupado por

automóveis usados, sob o falsamente animador nome de

Darnell's Used

Auto Parts





Peças Usadas de Carro do Darnell. Eu estivera lá algumas

vezes, uma delas a fim de comprar um acionador de arranque para o meu

Duster

, outra em busca de um carburador recondicionado para o Mercury

que havia sido meu primeiro carro. Will Darnell era um sujeito grande e

gordo como um porco, que bebia um bocado e fumava compridos

charutos, um atrás do outro, embora se dissesse que sua cond

ição de

asmático não era das melhores. Ele declarava odiar quase todo

adolescente dono de carro em Libertyville... embora isso não o privasse de

fazer negócios com eles e enrolá

-

los.







Eu sei





berrou Arnie, acima do barulhento motor



, mas será

apenas por



uma semana ou duas, até eu encontrar um lugar mais barato.

Não posso levá

-

lo para casa do jeito como está, Dennis. Papai e mamãe

iam armar uma discussão dos diabos!






Sem a menor dúvida, ele tinha razão. Abri a boca para dizer

qualquer coisa mais





talvez p

edir

-

lhe para acabar com aquela loucura,

antes que fosse tarde. Então, tornei a fechá

-

la. O negócio estava feito. Por

outro lado, eu não queria mais competir com aquele barulhento cano de

descarga e muito menos ficar ali, enviando para os pulmões um bocado



da

empesteada fumaceira de carbono que o carro cuspia para fora.







Está bem





falei.





Irei atrás de você.







Boa idéia





disse ele, sorridente.





Vou por Walnut Street e

Basin Drive. Prefiro ficar fora das ruas principais.







Certo.







Obrigado, Dennis.



Ele



baixou novamente a transmissão hidramática e o Plymouth

saltou um metro para diante, quase se desconjuntando. Arnie desacelerou

um pouco e Christine soprou vento e terra para os lados. O Plymouth

desceu a entrada para carros de LeBay, até a rua. Quando Ar

nie puxou o

freio, somente uma lanterna traseira se acendeu. Minha calculadora

automotiva mental somou impiedosamente mais cinco dólares.



Ele girou o volante para a esquerda e manobrou para a rua. Os

remanescentes do silencioso arranharam ferruginosamente

o ponto mais

baixo da calçada. Arnie deu mais combustível e o carro rugiu como um

refugiado de uma convenção Democrata em Philly Plains. Do outro lado

da rua, as pessoas se debruçavam na entrada das casas ou chegavam à

porta, para verem o que estava aconte

cendo.



Resfolegando e grunhindo, Christine rodou pela rua, a uns quinze

quilômetros horários, expelindo espessas e fedorentas nuvens de azulado

óleo queimado, que ficavam suspensas no ar e então se diluíam

lentamente, ao suave anoitecer de agosto.



No sinal

, uns quarenta metros adiante, o motor afogou. Um garoto

passou pelo calhambeque em seu Raleigh e, até meus ouvidos, chegou seu

grito insolente, debochado:







Leve pro ferro

-

velho,

mister!



O punho fechado de Arnie assomou fora da janela. Seu dedo médio

ergu

eu

-

se no ar, quando fez o gesto obsceno para o guri. Mais uma

primeira vez. Eu nunca tinha visto Arnie fazer aquilo para ninguém, em

toda a minha vida.






O arranque uivou, o motor tossiu e pegou. Desta feita, houve toda

uma série de sons chocalhantes. Era co

mo se alguém começasse a disparar

uma metralhadora em Laurel Drive, Libertyville, EUA.



Alguém logo chamaria os tiras, denunciando desordem na via

pública e eles enquadrariam Arnie, por dirigir um veículo não

-

registrado

e não

-

vistoriado





bem como, talvez,

pela provocação em público

também. Em casa, a situação não iria ficar exatamente uma beleza.



Houve o eco de um tiro final





que reverberou pela rua abaixo

como a explosão de um morteiro





e então o Plymouth virou à esquerda,

para Martin Street, o que o lev

aria à Walnut, uns dois quilômetros acima.

O sol que se punha transformou ligeiramente em ouro a vetusta lataria

vermelha, quando o carro desapareceu de vista. Vi que Arnie tinha o

cotovelo dobrado sobre a janela.



Virei

-

me para LeBay, revoltado novamente,

disposto a dizer

-

lhe

mais algumas palavras ásperas. Confesso que estava fervendo por dentro.

No entanto, o que vi me tirou prontamente aquela idéia da cabeça.



Roland D. LeBay estava chorando.



Era horrível e grotesco, lamentável acima de tudo. Quando estava



com nove anos, tínhamos um gato chamado Capitão Beefheart, que foi

atropelado por um caminhão da Limpeza Urbana. Nós o levamos ao

veterinário





mamãe precisou dirigir devagar, porque chorava e não

conseguia ver direito, enquanto eu estava no banco traseir

o, com o

Capitão Beefheart. Ele estava em uma caixa e eu lhe dizia que o

veterinário ia salvá

-

lo, que tudo ia ficar bem, mas mesmo um garotinho

cabeça oca de nove anos como eu podia ver que nunca mais tudo ia ficar

novamente certo para o Capitão Beefheart,



porque algumas de suas tripas

estavam para fora, havia sangue saindo de seu ânus, fezes na caixa e em

seu pêlo, e ele estava morrendo. Tentei afagá

-

lo e ele me mordeu a mão,

bem nas peles sensíveis entre o polegar e o indicador. Foi uma dor forte e

aument

ou aquela sensação de pena. Eu nunca mais sentira nada igual,

desde então. Não que eu me queixasse, compreendam; não creio que as

pessoas sintam isso muitas vezes. Se alguém experimentar muitas dessas

sensações, é levado para fazer cestas no hospício.



LeBa

y estava de pé em seu relvado careca; não muito distante do

lugar em que aquela enorme mancha de óleo havia desfolhado tudo.

Puxara um lenço enorme e, de cabeça baixa, enxugava os olhos com ele.




As lágrimas brilhavam gordurosas em suas faces, mais como suo

r, do que

lágrimas verdadeiras. Seu pomo

-

de

-

adão subia e descia.



Virei a cabeça, para não ter de vê

-

lo chorando e, por acaso, meus

olhos se fixaram em sua garagem para um carro. Antes ela parecera

entulhada





com os apetrechos ao longo da parede, claro, po

rém

principalmente por causa daquele imenso carro velho, com seus faróis

dianteiros duplos, o pára

-

brisa panorâmico e o capô de um acre. Agora, as

coisas encostadas à parede serviam apenas para acentuar o vazio essencial

da garagem, boquiaberto como uma bo

ca desdentada.



Aquilo era quase tão horrível quanto LeBay. No entanto, quando

olhei de novo, o velho filho da puta já se controlara





bem, quase. Parara

de enxugar os olhos e enfiara o lenço no bolso traseiro de suas práticas

calças de velho. O rosto, cont

udo, continuava desolado. Muito desolado.







Bem, aí está





comentou, em voz roufenha.





Fiquei sem a

minha máquina, filho.







Eu só queria que meu amigo pudesse dizer a mesma coisa





repliquei.





Se soubesse o problema que ele vai ter com seus velhos, por

c

ausa daquela lata enferrujada...







Saia daqui!





ordenou o velho.





Você parece um maldito

carneiro! É só béé, béé, béé, que ouço saindo de sua goela! Acho que

aquele seu amigo sabe muito mais do que você. Vá ver se ele precisa de

ajuda!



Desci o gramado at

é meu carro. Não queria ficar por ali, perto de

LeBay, nem mais um segundo.







É só béé, béé, béé!





gritou ele as minhas costas, rabugentamente,

fazendo

-

me pensar naquela antiga canção dos Youngbloods:

Sou um cara

de uma só nota, nela toco tudo o que posso

.





Você não sabe metade do que

pensa que sabe!



Entrei em meu carro e afastei

-

me dali. Ao dobrar para a Martin

Street, olhei para trás ainda uma vez e o vi de pé em seu terreno, com o sol

brilhando em sua calva.



Da maneira como aconteceram as coisas, LeBay



estava certo. Eu não

sabia metade do que imaginava saber.






C

OMO

C

HEGAMOS À

D

ARNELL

'

S



Tenho um calhambeque 34



E o chamamos de biruta,



Compreendam, n

ão tem nada de jovem,



At

é já é bem velho, mas ainda muito bom...







Jan and Dean





Desci pela Martin até Walnut



e dobrei para a direita, em direção a

Basin Drive. Não demorei muito a emparelhar com Arnie. Ele havia

parado junto ao meio

-

fio e a tampa do capô de Christine estava erguida.

Um macaco de automóvel, tão velho que quase parecia ter sido usado

outrora para

trocar rodas dos carroções Conestoga, jazia contra o

empenado pára

-

choque traseiro. O pneu traseiro da direita estava murcho.



Freei atrás dele, e mal tinha saído do carro quando uma mulher

nova saiu de sua casa em nossa direção, esgueirando

-

se por entre um

a boa

coleção de objetos de plástico fincados em sua grama (dois flamingos cor

-

de

-

rosa, quatro ou cinco patinhos enfileirados atrás da grande mãe pata e

um poço dos desejos bastante apresentável, com flores de plástico

brotando do balde de plástico). A mul

her precisava urgentemente de

orientação dos Vigilantes de Peso.







Não podem deixar esse lixo aqui!





avisou, mascando boa

quantidade de chicletes.





Não podem deixar esse lixo parado diante da

nossa casa, espero que saibam disso.







Foi apenas um pneu vazi

o, madame





disse Arnie.





Vou tirar o

carro daqui, assim que...







Não pode deixá

-

lo aí e espero que saiba disso!





insistiu ela,

como que em louca circularidade.





Meu marido logo estará chegando e

não quer nenhuma lata velha diante da casa.







Não é uma l

ata velha!





exclamou Arnie, e algo em seu tom a fez

recuar um passo.







Não fale comigo nesse tom de voz, filho





disse insolentemente

aquela obesa rainha do

be

-

bop.





Não é preciso muita coisa para meu

marido ficar furioso!










Escute aqui





começou Arnie.



Era a mesma voz inexpressiva e perigosa que usara quando Michael

e Regina tinham começado a discutir com ele. Agarrei

-

lhe o ombro com

força. Não havia necessidade de mais confusão.







Obrigado, madame





falei.





Tiraremos o carro daqui em um

instante. Vamos



dar um jeito nele tão depressa, que nem vai acreditar.







Acho melhor





disse ela, e então apontou um polegar para o

meu Duster.





E o

seu

carro está parado diante da entrada da minha

garagem.



Fiz meu carro recuar. Ela espiou a manobra e depois também recu

ou

sacolejando para a casa, onde um garotinho e uma garotinha se

espremiam na porta. Também eram gorduchos. Cada um deles comia um

belo e nutritivo sanduíche.







O que foi, mãe?





perguntou o garotinho.





O que foi com o

carro daquele homem, mãe? O que foi?







Cale a boca!





ordenou a rainha do

be

-

bop,

empurrando as duas

crianças para dentro. Sempre gostei de ver pais esclarecidos como aquela

mulher; isso me enche de esperanças no futuro. Virei

-

me para Arnie.







Muito bem





falei, dizendo a única coisa intelig

ente em que

pude pensar



, no fundo, foi apenas um pneu furado, Arnie. Certo?



Ele sorriu aereamente.







Estou com um probleminha, Dennis





disse.



Eu sabia qual era o seu problema: não tinha sobressalente. Arnie

tornou a puxar a carteira





dava pena vê

-

lo fa

zendo aquilo





e olhou em

seu interior.







Preciso de um pneu novo





continuou.







Claro, acho que precisa. Um recauchutado...







Nada de recauchutados. Não é assim que quero começar.



Fiquei calado, mas olhei para meu Duster. Tinha dois recauchutados

nele e d

ecidi que eram ótimos.







Quanto acha que custariam um Goodyear ou Firestone novos,

Dennis?






Dei de ombros e consultei a pequena calculadora automotiva. Ela

concluiu que Arnie talvez conseguisse um pneu simples, sem banda

branca, por uns trinta e cinco dólar

es. Ele puxou duas notas de vinte da

carteira e as estendeu para mim.







Se for mais, com o imposto e tudo, pagarei a diferença.





Olhei

para ele com tristeza.







Quanto sobrou de seu pagamento da semana, Arnie? Seus olhos

estreitaram

-

se, desviando

-

se dos me

us.







O bastante





respondeu.



Decidi tentar mais uma vez





lembrem

-

se de que eu tinha apenas

dezessete anos, ainda acreditando que devemos mostrar aos outros como

agir melhor.







Você não conseguiria tomar parte em um jogo de pôquer de um

níquel





falei.





Enfiou neste carro o que ganhou em toda a semana.

Esvaziar a carteira vai ser um gesto muito familiar para você, Arnie. Por

favor, cara. Reflita bem!



Seus olhos eram pétreos. Eu nunca lhe vira antes aquela expressão e,

embora talvez me considerem o mais in

gênuo adolescente da América,

não me lembrava de tê

-

la visto em

qualquer outro

rosto. Estava surpreso e

desalentado





era como se, de repente, descobrisse que procurava ter

uma conversa racional com um indivíduo simplesmente lunático. Mais

tarde, tornei a

ver tal expressão e imagino que o mesmo lhes tenha

sucedido. Hermetismo absoluto. É a expressão facial do sujeito ao qual

dizemos que a mulher a quem ama o anda corneando pelas costas.







Pare com isto, Dennis





disse ele. Levantei as mãos, exasperado.







Es

tá bem! Está bem!







E também não precisa ir ver o maldito pneu, se não quiser.





Ainda aquela expressão pétrea, obstinada em seu rosto, e estupidamente

inflexível, posso jurar.





Eu dou um jeito!



Eu ia responder, e bem poderia ter dito algo bem desaforado,



mas

aconteceu que olhei para a esquerda. As duas criancinhas roliças estavam

lá, nos limites de seu gramado. Montadas em dois velocípedes idênticos,

gêmeos, com os dedos manchados de chocolate. Olhavam para nós,

solenes.










Não precisa se exaltar, cara





f

alei.





Vou arranjar o pneu.







Só vá se quiser mesmo ir, Dennis





disse ele.





Sei que já está

ficando tarde.







Está esfriando





respondi.







Moço?





chamou o garotinho, lambendo o chocolate dos dedos.







Mamãe disse que esse carro é um cocô.







Isso mesmo





ecoou a garotinha.





Cocô

-

bosta.







Cocô

-

bosta





disse Arnie.





Ora, isto é muito inteligente, não é,

crianças? Sua mãe é filósofa?







Não





respondeu o garotinho.





Ela é Capricórnio. Eu sou Libra.

Minha irmã é...







Volto o mais depressa que puder





falei,

desajeitadamente.







Certo.







Fique calmo.







Não se preocupe. Não vou agredir ninguém.



Corri para meu carro. Enquanto deslizava para trás do volante, ouvi

a garotinha perguntar a Arnie, bem alto:







Por que a sua cara é tão suja, moço?





Dirigi uns dois quilô

metros até JFK Drive que





segundo minha

mãe, criada em Libertyville





havia sido o centro de uma das zonas mais

apreciadas da cidade, na época em que Kennedy fora assassinado, em

Dallas. Talvez tivesse dado azar, rebatizar Barnswallow Drive em

homenagem a

o Presidente morto, porque desde os primeiros anos da

década de 60 a área nos arredores da rua degenerara para uma faixa ex

-

urbana. Havia um cinema

drive

-

in,

um McDonald's, um Burger King, um

Arby's e o Big Twenty Lanes. Havia ainda uns oito ou dez postos

de

gasolina, uma vez que a JFK Drive leva à Pennsylvania Turnpike, auto

-

estrada com pedágio.



Conseguir o pneu de Arnie devia ser coisa de minutos, mas os dois

primeiros postos onde parei eram daqueles de auto

-

serviço, que nem ao

menos vendem óleo, mas apen

as gasolina; tinham uma garota com ar de




retardada atrás de uma cabine de vidro à prova de bala, dessas que ficam

sentadas diante de um console de computador, lendo um

National

Enquirer e

mascando um punhado de goma, suficientemente grande para

asfixiar um

a mula do Missouri.



O terceiro era um posto Texaco, com uma liquidação de pneus. Pude

comprar para Arnie um pneu comum que se encaixaria em seu Plymouth

(eu não conseguia chamar o carro de Christine e nem pensar nele





nela?





por aquele nome), por apenas

vinte e oito e cinqüenta, mais o

imposto, porém só havia um sujeito trabalhando lá





e tinha que colocar

o pneu novo no aro de roda de Arnie, ao mesmo tempo em que bombeava

gasolina. A operação durou mais de quarenta e cinco minutos. Ofereci

-

me

para bombea

r a gasolina em seu lugar, enquanto ele ajeitava o pneu, mas

o sujeito disse que o patrão o mataria, se soubesse disso.



Quando finalmente pude colocar o pneu montado em meu porta

-

mala, pagando duas pratas ao cara pelo serviço, as primeiras luzes do

crepúsc

ulo se tinham transformado nas primeiras sombras de um

purpúreo anoitecer. Cada arbusto lançava sombras alongadas e

aveludadas e, ao rodar devagar subindo a rua, vi as últimas luzes do dia

espalhando

-

se quase horizontalmente, através do espaço entulhado de



lixo entre o Arby's e o boliche. Aquela claridade, tanto ouro flutuante no

céu, chegava a ser terrível, em sua estranha e inesperada beleza.



Fiquei surpreso pelo sufocante pânico que me subiu da garganta

como fogo seco. Era a primeira vez que experimentav

a tal sensação

naquele ano





aquele longo e estranho ano



, porém não seria a última.

Entretanto, é difícil explicar, inclusive, defini

-

la. Tinha algo a ver com a

certeza de ser 11 de agosto de 1978, de que no mês seguinte eu passaria

para meu último perío

do letivo no ginásio e que, quando as aulas

recomeçassem, aquilo significaria o final de uma longa e tranqüila fase de

minha vida. Eu me preparava para ser adulto, e via isso de algum

modo





tinha certeza de vê

-

lo, pela primeira vez, naquela maravilhosa,

m

as de certa forma antiga exibição de luminosidade dourada, flutuando

além da passagem entre o campo de futebol e um restaurante de segunda.

Compreendi que o que realmente assusta a gente sobre crescer: é que

paramos de experimentar a máscara da vida, começ

ando a experimentar

uma outra. Se ser criança quer dizer aprender a como viver, então, ser

adulto significa aprender a como morrer.






A sensação passou, mas em sua esteira eu me senti estremecido e

melancólico. Nenhuma das duas sensações fazia parte do meu e

u habitual.



Quando retornei a Basin Drive, via

-

me repentinamente alheio aos

problemas de Arnie e procurando enfrentar os meus





idéias sobre

tornar

-

me adulto, que tinham desembocado naturalmente em idéias como

universidade, viver fora de casa e tentar entr

ar para o time de futebol na

State, disputando minha posição com mais sessenta pessoas qualificadas,

em vez de apenas dez ou doze. Então, talvez a gente diga: 'Grande droga,

Dennis, tenho algumas novidades para você: um bilhão de chineses

vermelhos pouco e

stão se lixando se você entrar para o primeiro time,

como calouro universitário.' Muito justo. Estou apenas querendo dizer

que tais coisas pareciam francamente reais pela primeira vez... e

francamente aterradoras. Por vezes, a mente nos leva em viagens com

o

essa, mesmo que não queiramos.



Ver que o marido da rainha do

be

-

bop já

chegara em casa e que ele e

Arnie estavam quase frente a frente, parecendo dispostos a desgraçar tudo

a qualquer segundo, não contribuiu em nada para modificar meu ânimo.



Os dois garo

tinhos continuavam escarranchados solenemente em

seus velocípedes, os olhos viajando de modo alternado de Arnie para

Papai e de novo para Arnie, como espectadores de alguma apocalíptica

partida de tênis, em que o juiz abate alegremente o derrotado com um t

iro.

Pareciam esperar o momento de combustão, quando Papai achataria meu

esquelético amigo e transformaria seu corpo quebrado em gelatina.



Freei rapidamente e saí do carro, quase correndo para eles.







É o que lhe estou dizendo!





rugiu Papai.





Estou lhe d

izendo

que quero isso fora daqui e agora mesmo!



O homem tinha um enorme nariz achatado, repleto de veias

arrebentadas. As bochechas afogueadas eram cor de tijolo novo e, acima

da camisa de trabalho em sarja cinzenta, veias encordoadas sobressa

íam

no pescoç

o.







Não vou dirigir em cima do aro





disse Arnie.





Já lhe falei isso.

O senhor não dirigiria, se o carro fosse seu.







Dirigirei

você

sobre o aro, Cara de pizza!





exclamou Papai, sem

dúvida querendo mostrar a seus filhos como a gente grande resolve seus

problemas, no Mundo Real.





Não vai estacionar seu horroroso




calhambeque envenenado em frente da minha casa. Não me provoque,

garoto, ou vai sair machucado!







Ninguém vai sair machucado





falei.





Vamos, senhor. Dê

-

nos

algum tempo.



Os olhos de Arnie se vol

taram agradecidos para mim e percebi o

quanto estivera amedrontado





quão amedrontado ainda estava. Sempre

um pária, ele sabia que existia algo em si mesmo





só Deus sabia o quê





que fazia certo tipo de indivíduo querer acabar com ele. Devia estar certo

d

e que isso ia acontecer novamente





mas agora ele enfrentava o perigo.



Os olhos do homem pousaram em mim.







Mais um





disse, como que admirado por existirem tantos

imbecis no mundo.





Querem que acabe com os dois? É o que querem?

Pois acreditem, eu posso f

azer isso.



Sim, eu conhecia o tipo. Dez anos antes, teria sido um dos caras no

col

égio que achavam muito divertido arrancar os livros dos braços de

Arnie, quando ele seguia para sua sala de aulas, ou atirá

-

lo no chuveiro

com todas as roupas no corpo, depoi

s da educação física. Nunca

mudavam, aqueles caras. Apenas ficavam mais velhos e ganhavam um

câncer pulmonar, ao fumarem tantos Luckies, quando não eram vítimas

de uma embolia cerebral aos cinqüenta e três ou coisa assim.







Ninguém está querendo provocá

-

lo







falei.





Ele está com um

pneu arriado, pelo amor de Deus! Nunca teve um pneu arriado?







Quero esses dois fora daqui, Ralph!



A mulher com focinho de porco estava de p

é na entrada. Sua voz era

aguda e excitada. Aquilo era ainda melhor que o

Phil Donahue S

how.

Outros vizinhos tinham

-

se aproximado para ver os acontecimentos e

tornei a pensar, com grande angústia, que se já não tivessem chamado os

tiras, alguém logo os chamaria.







Nunca tive um pneu arriado e nem deixei um calhambeque em

pedaços diante da cas

a de alguém, durante três horas





disse Ralph, bem

alto.



Seus l

ábios estavam repuxados para trás e pude ver a saliva

brilhando em seus dentes, à claridade do sol que se punha.







Foi uma hora





repliquei, tranqüilo



, se tanto.










Não me venha com suas graci

nhas, garoto





disse Ralph. Não

estou interessado. E não gosto de vocês. Trabalho para viver. Volto para

casa cansado e não tenho tempo para discussões. Quero que tirem isso

daqui e

agora!







Tenho um sobressalente em meu porta

-

mala





falei.





Se, ao

menos,



pudéssemos colocá

-

lo...







E se o senhor tivesse um pouco de compostura





começou Arnie,

irritado.



Aquilo quase fez efeito. Se havia alguma coisa que o nosso chapa

Ralph n

ão ia admitir diante dos filhos, era ser chamado de sem

compostura. Avançou para Arni

e. Não sei como a coisa terminaria





com

Arnie na cadeia, talvez, seu precioso carro apreendido





mas de algum

modo fui capaz de erguer a mão e agarrar a de Ralph pelo pulso. O

encontro das duas provocou um nítido som de tapa, dentro do crepúsculo.



A garot

inha com focinho de porco debulhou

-

se em lamurientas

l

ágrimas.



O garotinho com focinho de porco ficou montado em seu veloc

ípede,

com o queixo quase batendo no peito.



Arnie, que sempre se esgueirava como um fantasma pela

área de

fumar da escola, nem ao meno

s se encolheu. Em verdade, parecia

querer

que aquilo acontecesse.



Ralph se voltou contra mim, os olhos esbugalhados de f

úria.







Muito bem, merdinha





disse.





Você primeiro! Sustive sua

mão, pressionando

-

a.







Vamos com calma, cara





falei, em voz baixa.





O pneu está em

meu porta

-

mala. Dê

-

nos cinco minutos para mudá

-

lo e sair de sua vista.

Por favor.



Pouco a pouco, foi diminuindo a pressão para suster

-

lhe a mão. Ele

olhou para os filhos, a garotinha choramingando, o garotinho de olhos

arregalados, e isso pa

receu decidi

-

lo.







Cinco minutos





assentiu. Olhou para Arnie.





Teve muita sorte

por eu não chamar a polícia. Essa coisa não foi vistoriada e também está

sem a placa de licença.






Esperei que Arnie dissesse algo também inflamado e acabasse de

vez com a trég

ua, mas talvez ele não houvesse esquecido tudo quanto

sabia sobre prudência.







Obrigado





disse.





Sinto muito ter

-

me exaltado.



Ralph grunhiu e enfiou a camisa de volta nas calças, em pequenos

gestos bruscos. Tornou a olhar para os filhos.







Vão para casa!







vociferou.





O que estão fazendo aqui?

Querem que lhes dê um chuta

-

bunda? Céus, que família criativa, pensei.

Pelo amor de Deus, não dê um chuta

-

bunda neles, Papai





os dois podem

fazer cocô

-

bosta nas calças.



As crianças voaram para junto da mãe, abando

nando os velocípedes.







Cinco minutos





repetiu Ralph, encarando

-

nos malignamente.



Mais tarde, nessa noite, quando estivesse batendo um papo com os

rapazes, poderia contar

-

lhes como fizera o seu papel, mantendo os limites

entre a geração das drogas e do se

xo. Sim, senhor, rapazes, eu disse a eles

para tirarem a droga daquele lixo da frente da minha casa, antes que eu

lhes desse um chuta

-

bunda. E, podem acreditar, eles voaram como se

tivessem os pés em fogo e os traseiros doloridos. Então, ele acenderia um

L

ucky. Ou um Camel.



Pusemos o macaco de Arnie debaixo do pára

-

choque. Arnie mal

movera a alavanca umas três vezes quando o macaco se partiu em dois.

Fez um som poeirento quando se dividiu e a ferrugem esvoaçou em torno.

Arnie me fitou, seus olhos humildes e



doridos ao mesmo tempo.







Não se incomode





falei.





Usaremos o meu.



Já começava a escurecer. Meu coração ainda batia acelerado e a boca

estava amarga, pela confrontação com o Grande Chefão de Basin Drive,

119.







Sinto muito, Dennis





disse Arnie, em voz

baixa.





Não tornarei

a envolvê

-

lo nisto.







Esqueça. Vamos logo colocar esse pneu.



Usamos o meu macaco para levantar o Plymouth (por vários e

terríveis segundos pensei que o pára

-

choque traseiro fosse desconjuntar

-

se,

em um rangido de metal podre, e retira

mos o pneu avariado. Colocamos o

novo, apertamos as porcas mais ou menos e então arriamos o carro. Foi




um alívio imenso vê

-

lo novamente equilibrado sobre a rua; a maneira

como o pára

-

choque empenado se inclinara debaixo do macaco chegara a

assustar

-

me.







P

ronto





disse Arnie, encaixando a antiga e amassada calota

sobre as porcas.



Fiquei olhando para o Plymouth e, de repente, voltou a sensação

que eu experimentara na garagem de LeBay. Senti isso quando observei o

novo Firestone na traseira direita. A banda n

egra ainda conservava um

dos adesivos do fabricante e as vivas marcas de giz amarelo, da apressada

calibragem no posto de gasolina.



Estremeci ligeiramente





mas era impossível transmitir a fantástica

sensação que me dominava. Era como se eu tivesse visto u

ma serpente

quase pronta a livrar

-

se da pele antiga, uma serpente que já se desfizera

de parte dessa pele, revelando o que havia de novo e cintilante por baixo...



Ralph estava de pé à entrada de sua casa, espiando para nós. Em

uma das mãos segurava um gote

jante hambúrguer com Pão Maravilha. A

outra mão enrolava

-

se em torno de uma lata de cerveja.







Simpático, ele, não?





murmurei para Arnie, quando joguei seu

macaco espatifado no porta

-

mala do Plymouth.







Um grande sujeito





murmurou Arnie, em resposta.



Bas

tou isso e começamos a rir contidamente, da maneira que ríamos,

ao superar uma situação tensa. Arnie jogou o pneu velho dentro do porta

-

malas, em cima do macaco, depois ficou rindo alto, com as mãos sobre a

boca. Ele parecia um garoto, apanhado em flagrant

e, na investida contra o

pote da geléia. Só em pensar nisso, comecei a rir com vontade agora.







De que estão rindo, seus vadios?





rugiu Ralph. Ele desceu os

degraus da entrada.





Hein? Querem rir com a cara virada do avesso por

um instante? Posso mostrar

como se faz, acreditem!







Saia daqui

depressa





falei para Arnie.



Corri de volta a meu Duster. Nada conseguia conter nosso riso

agora, as gargalhadas saíam naturalmente. Joguei

-

me no banco da frente e

liguei a chave, me torcendo de rir. À minha frente, o P

lymouth de Arnie

entrou em movimento com um rugido e uma espessa, fedorenta nuvem

de descarga azul. Mesmo acima da barulheira, eu conseguia ouvir suas

risadas incontidas, um som que beirava a histeria.






Ralph investiu através do gramado, ainda segurando o h

ambúrguer

gotejante e a lata de cerveja.







De que estão rindo, seus vadios? Hein?







Seu, seu careta! Quadradão!





gritou Arnie, triunfante, partindo

entre uma chocalhante fuzilaria de estouros.



Pisei no acelerador e tive que manobrar bruscamente, para evita

r

Ralph que, agora, aparentemente, partia para o homicídio. Eu continuava

rindo, porém não era mais um riso satisfeito, se é que chegara a sê

-

lo





era um som agudo e arquejante, quase como um grito.







Eu mato você, vagabundo!





rugiu Ralph.



Tornei a pisar n

o acelerador e, desta feita, quase engatei na traseira

de Arnie. Fiz a Ralph o mesmo gesto obsceno que Arnie fizera aquela

tarde, depois gritei:







Enfie!



Então, ele começou a correr atrás de nós. Tentou emparelhar e, por

alguns segundos, seus pés ressoaram



na calçada. Depois parou,

respirando com dificuldade e grunhindo.







Que dia mais louco!





exclamei em voz alta, algo amedrontado

pela trêmula e lacrimosa qualidade de minha voz. O gosto amargo me

voltara à boca.





Que dia mais infernalmente louco!





Em Ham

pton Street, a Garagem de Darnell era uma construção

alongada, com as laterais em folhas de zinco corrugado e um teto

enferrujado, também de zinco corrugado. Na fachada havia uma tabuleta

com letras ensebadas onde se lia: POUPE SEU DINHEIRO! SEU

KNOW

-

HOW,

NOSSAS FERRAMENTAS! Mais abaixo, em letras menores, lia

-

se:

Vaga na Garagem, Alugada por Semana, Mês ou Ano.



O depósito de automóveis velhos ficava atrás da Darnell's. Era uma

área com o comprimento de um quarteirão, encerrada entre muros

formados por lâmi

nas do mesmo zinco corrugado, com metro e meio de

altura, o indiferente assentimento de Will Darnell aos regulamentos do

Conselho de Zoneamento da Cidade. Não que houvesse alguma forma de

o Conselho fazer Will Darnell andar na linha, nem porque dois dos tr

ês

membros do Conselho de Zoneamento eram seus amigos. Em Libertyville,




Will Darnell conhecia todos que lhe interessavam. Era um daqueles tipos

encontrados em qualquer cidade, grande ou pequena, que se

movimentam silenciosamente por trás de qualquer número



de cenários.



Eu ouvira dizer que ele estava envolvido no ativo tráfico de drogas

entre os alunos do Ginásio de Libertyville e do Ginásio Darby. Também

ouvira dizer que era bem conhecido entre os escroques importantes de

Pittsburgh e Filadélfia. Eu não acr

editava nessa história





pelo menos,

penso

que não acreditava



, mas sabia que quem quisesse fogos de

artifício, bombas de segunda mão ou foguetes de qualidade inferior para o

Quatro de Julho, Will Darnell tinha para vender. Por meu pai, também

ficara sabe

ndo que Will fora acusado doze anos antes, quando eu era

apenas um guri de cinco anos, de ser um dos chefes de uma quadrilha de

carros roubados, que se estendia daquela nossa parte do mundo para leste,

até a Cidade de Nova Iorque e em toda a longitude para



cima, até Bangor,

no Maine. Finalmente, as acusações foram retiradas. No entanto, meu pai

dizia ter certeza de que Will Darnell devia estar atolado até as orelhas em

outras bandalheiras, o que quer que fosse, desde roubo da carga de

caminhões, a falsifica

ção de antigüidades.



Fique longe daquele lugar, Dennis,

dissera meu pai. Isto fora um ano

antes, não muito depois de eu ter adquirido meu primeiro calhambeque e

investido vinte dólares no aluguel de um dos boxes da Garagem Faça

-

você

-

mesmo, de Darnell, para



tentar trocar o carburador, em uma

experiência que terminara em total fracasso.



Eu devia ficar longe daquele lugar





mas lá estava, penetrando pela

entrada principal, atrás de meu amigo Arnie, depois do escurecer, nada

restando do dia senão uma mancha ave

rmelhada de fornalha no horizonte.

Os faróis dianteiros iluminaram um número suficiente de peças de carro

rejeitadas, destroços inaproveitáveis e sucata por toda parte, o que me

deixou mais deprimido e cansado do que nunca. Lembrei que não havia

telefonado



para casa e que meus pais certamente estariam se perguntando

em que diabo de lugar eu estaria.



Arnie rodou até uma imensa porta de garagem, com um cartaz ao

lado, dizendo BUZINE PARA ENTRAR. Uma claridade esmaecida

brotava de uma janela coberta de sujeira

, ao lado da porta





havia

alguém em casa





e mal contive um impulso de debruçar

-

me para fora

do carro e dizer a Arnie para levar o Plymouth até minha casa, por aquela

noite. Tive uma visão de nós dois dando com Will Darnell e seus




companheiros inventarian

do televisões coloridas contrabandeadas ou

repintando Cadillacs roubados. Os garotos detetives chegam a Libertyville.



Arnie ficou quieto, sem buzinar ou fazer coisa alguma. Eu já me

dispunha a sair e perguntar

-

lhe o que havia, quando ele caminhou até

onde

eu estacionara. Mesmo àquela débil claridade do lusco

-

fusco, ele

parecia profundamente constrangido.







Quer buzinar para mim, Dennis?





pediu, com humildade.





Parece que a buzina de Christine não funciona.







Claro.







Obrigado.



Buzinei duas vezes e, após u

ma pausa, a enorme porta da garagem

se ergueu, com um ruído chocalhante. O próprio Will Darnell estava

parado lá, com a pança sobrando acima do cinto. Acenou

impacientemente para que Arnie entrasse.



Manobrei meu carro, colocando

-

o de frente para a saída e

entrei

também.



O interior era imenso, abobadado e terrivelmente silencioso no fim

do dia. Havia pelo menos uns sessenta compartimentos para carros, cada

um equipado com sua própria caixa de ferramentas, aparafusada por

baixo, a fim de que os amadores com c

arros avariados, mas sem

ferramentas, fizessem eles mesmos os consertos. O teto era alto, cruzado

por vigas nuas e parecendo oscilantes.



Havia avisos pregados por toda parte: TODAS AS FERRAMENTAS

DEVEM SER INSPECIONADAS ANTES DE SUA PARTIDA e MARQUE

ANTECI

PADAMENTE SUA HORA PARA O ELEVADOR e SOLICITE

UM MANUAL DE MOTORES e NÃO ADMITIMOS LINGUAGEM

IMPRÓPRIA E PALAVRÕES. Vi dúzias de outros





para cada canto que

me virasse, um aviso parecia saltar em minha direção. Um enorme

homem

-

aviso era Will Darnell.







Bo

xe vinte! Boxe vinte!





gritou Darnell para Arnie, em sua voz

irritante e resfolegante.





Ponha o carro lá e desligue o motor, antes que

fiquemos todos asfixiados!



"Todos" parecia ser um grupo de homens em uma enorme mesa de

jogo, no canto mais distante. F

ichas de pôquer, cartas de baralho e

garrafas de cerveja espalhavam

-

se por sobre a mesa. Eles observavam a




nova aquisição de Arnie, com expressões que variavam da aversão ao

divertimento.



Arnie dirigiu o Plymouth para o boxe vinte, estacionou

-

o e desligou

o motor. Uma fumaceira azulada foi expelida para o imenso e cavernoso

recinto.



Darnell se virou para mim. Usava uma camisa branca semelhante a

um velame e calças cáqui marrons. Enormes rolos de gordura

destacavam

-

se em seu pescoço e caíam em babados, abaix

o do queixo.







Garoto





disse ele, naquela mesma voz resfolegante



, se

vendeu para ele aquele pedaço de merda, devia ter vergonha do que fez.







Não fui eu que vendi.





Por alguma absurda razão, senti que

devia justificar

-

me com aquela baleia, de uma forma



como jamais fizera

com meu pai.





Até procurei convencê

-

lo a cair fora do negócio.







Devia ter sido mais insistente.



Ele caminhou até Arnie, que então saía do carro. Arnie bateu a porta;

a ferrugem caiu em flocos, do painel oscilante daquele lado, em um f

ino

chuveiro vermelho.



Com ou sem asma, Darnell caminhava com os movimentos

graciosos e quase femininos do homem que é gordo há muito tempo e vê

um longo futuro de obesidade pela frente. E gritava para Arnie, antes

mesmo que meu amigo se virasse de frente,



com ou sem asma. Penso que

se poderia dizer ser ele um homem que não se deixava abater pela doença.



Como os caras na área de fumantes da escola, como Ralph, da Basin

Drive, ou como Buddy Repperton (penso que logo estaremos falando a

seu respeito), ele log

o sentia uma aversão por Arnie





era um caso de

antipatia à primeira vista.







Muito bem, esta foi a última vez que ligou essa merda mecânica

aqui dentro, sem o cano de descarga!





berrou ele.





Se o pegar fazendo

isso, será posto na rua, entendido?







Está

bem.





Arnie parecia pequenino, cansado e exaurido. Fosse

qual fosse a selvagem energia que o impelira até então, agora havia

desaparecido. Senti pena, uma pena ligeira, ao vê

-

lo daquele jeito. Eu...



Darnell não o deixou ir em frente.










Você quer um cano d

e descarga, que custa dois e cinqüenta a

hora, se fizer uma reserva antecipada. E vou lhe dizer uma coisa, neste

exato momento, que vai ter que decorar, meu amiguinho. Não sou

obrigado a ficar com merda nenhuma de vocês, garotos. Não sou. Este

lugar é para



caras trabalhadores, que precisam manter os carros andando

e botar pão na mesa, não para garotos ricos de universidade, que querem

sair apostando corridas no Orange Belt. É proibido fumar aqui dentro. Se

quiser uma tragada, tem que ir lá para trás, no dep

ósito.







Eu não fum...







Não me interrompa, garoto. Não me interrompa e nem venha

bancar o espertinho





disse Darnell.



Estava agora em pé diante de Arnie. Sendo mais alto e mais largo,

encobria meu amigo inteiramente.



Comecei a ficar irritado de novo. Na v

erdade, podia sentir meu

corpo gemer de protesto contra o barbante de ioiô em que minhas

emoções haviam estado, desde nossa chegada à casa de LeBay, quando

vimos que o maldito carro não estava mais sobre o gramado.



Adolescentes são uma classe tiranizada; a

pós alguns anos,

aprendemos a nossa própria versão de uma rotina de Pai Tomás quanto a

inimigos da gente, como Will Darnell.

Sim, senhor; não senhor; está bem;

fique certo.



Agarrei repentinamente o braço de Darnell.







Senhor?



Ele girou para mim. Descobri q

ue, quanto maior a minha antipatia

por adultos, mais apto me sinto a tratá

-

los por Senhor.







O que é?







Aqueles homens lá estão fumando. Seria melhor dizer a eles que

parem.



Apontei para os sujeitos à mesa de pôquer. Eles haviam distribuído

cartas para uma



nova mão. A fumaça pairava acima da mesa, em um halo

azulado. Darnell fitou os companheiros, depois olhou para mim. Seu rosto

era muito solene.







Está querendo ajudar seu amigo a ser mandado embora daqui,

Júnior?










Não





respondi.





Não, senhor.







Então,

feche sua matraca!



Voltando

-

se para Arnie, ele pousou as mãos carnudas sobre os

quadris avantajados e bem acolchoados.







Conheço um cara desagradável assim que o vejo





disse ele



, e

acho que estou vendo um, neste exato momento. Estou de olho em você,

gar

oto. Banque o engraçadinho comigo, uma só vez, e eu o farei cair

sentado sobre o traseiro, pouco importando quanto tenha pago adiantado!



Uma fúria cega subiu de meu estômago para a cabeça, fazendo

-

a

latejar. Por dentro, suplicava a Arnie para dizer àquele

gordo imbecil que

não chateasse, queria que ele o agredisse e depois corresse com seu

calhambeque para fora dali, o mais depressa possível. Claro que os

companheiros de pôquer de Darnell se meteriam e nós provavelmente

terminaríamos aquela maravilhosa noit

e no pronto

-

socorro do Hospital

Comunitário de Libertyville, enquanto nos costurariam a cabeça... mas

aquilo quase que valia a pena.



Arnie,

pedi mentalmente,

diga a ele que se foda e vamos dar o fora daqui.

Revide, Arnie! Não deixe que ele pise em você! Nã

o seja um perdedor, Arnie





se

enfrentou sua mãe, pode enfrentar também esse filho da puta. Faça isso apenas

esta vez, não seja um perdedor!



Arnie ficou calado por muito tempo, cabisbaixo, para então dizer:







Sim, senhor.



Foi tão baixo, que era quase inaud

ível. Como se ele estivesse

sufocado.







Como disse?



Arnie ergueu a cabeça. Tinha o rosto lívido. Os olhos estavam

marejados de lágrimas. Não agüentei olhar para aquilo. Doía demais.

Virei

-

me. Os jogadores de pôquer tinham parado de jogar e observavam

os ac

ontecimentos que se desenrolavam no boxe vinte.







Eu disse "sim, senhor"





repetiu Arnie, com voz trêmula.



Era como se tivesse assinado alguma terrível confissão. Tornei a

olhar para o carro, o Plymouth 58, estacionado ali, quando deveria estar

no depósito



de ferro

-

velho dos fundos, com o restante dos destroços




inúteis e enferrujados de Darnell





e o odiei novamente, pelo que estava

causando a Arnie.







Muito bem, caiam fora





disse Darnell.





Já fechamos.



Arnie caminhou cegamente, aos tropeções. Teria avanç

ado em linha

reta para uma pilha de velhos pneus carecas, se eu não o agarrasse pelo

braço e o guiasse. Darnell seguiu em direção contrária, rumando para a

mesa de pôquer. Quando chegou lá, disse algo aos outros, em sua voz

chiada. Todos riram grosseiramen

te.







Estou bem, Dennis





falou Arnie, como se eu lhe tivesse

perguntado. Os dentes estavam cerrados e o peito se movia em rápidas,

fundas inspirações.





Estou bem, me solte. Está tudo certo comigo.



Larguei seu braço. Cruzamos a porta e Darnell berrou para



nós:







E não me traga seus amigos vagabundos para cá ou o ponho para

fora daqui! Um dos outros acrescentou, em concordância:







E deixe sua droga em casa!



Arnie encolheu

-

se. Era meu amigo, porém eu o odiava quando se

encolhia daquele jeito. Escapamos para

a fria escuridão do exterior. A

porta chocalhou, quando foi arriada às nossas costas. Foi assim que

levamos Christine para a Garagem de Darnell. Um bocado divertido, não?





N

O

L

ADO DE

F

ORA



Estou com um carro e alguma gasolina,





Diga a todos que podem puxar

meu saco...







Glenn Frey





Entramos em meu carro e rodei para fora do pátio da garagem. Não

sei como, mas estava passando de nove da noite. Como o tempo voa,

quando a gente está se divertindo! Uma meia

-

lua já pairava no céu. Isso e

as luzes alaranjadas, no

parque de estacionamento do Monroeville Mall,

bastavam para eclipsar quaisquer possíveis estrelas cadentes a que se

pudesse fazer um pedido.






Rodamos os dois ou três primeiros quarteirões em silêncio total.

Então, de repente, Arnie desatou em um pranto furi

oso. Eu achava que ele

iria chorar, mas a força de seu choro assustou

-

me. Tentei intervir.







Arnie...



Desisti na hora. Ele ia chorar, até a vontade passar. As lágrimas e

soluços brotaram em um jato estridente e amargo, descontroladamente





Arnie já esgotar

a sua quota de controle para o dia. A princípio, pareceu

-

me ser apenas uma reação; eu sentia mais ou menos a mesma coisa, só que

minha raiva subira para a cabeça, fazendo

-

a latejar como um dente

cariado, e para o estômago, que se enovelava doentiamente.



Si

m, de início pensei que fosse tão

-

somente uma espécie de reação,

uma liberação espontânea e, no começo, talvez assim acontecesse. No

entanto, após um ou dois minutos, percebi que era muito mais do que isso,

que a coisa ia muito mais fundo. Então, comecei a



decifrar palavras, entre

os sons que ele emitia. Poucas a princípio, depois séries delas.







Eles me pagam!





gritou ele, engroladamente, entre os soluços.





Vou mostrar àqueles fodidos filhos da puta que vão me pagar, Dennis, farei com

que se arrependam,

os cretinos vão engolir... ENGOLIR... ENGOLIR!







Pare com isso





falei, assustado.





Esqueça, Arnie.



Arnie não queria esquecer. Começou a dar com os punhos no painel

de instrumentos acolchoado de meu Duster, com força bastante para

marcá

-

lo.







Eles me paga

m, você vai ver!



À claridade pálida da lua e de uma lâmpada em um poste próximo,

seu rosto parecia devastado e feroz. Naquele momento, Arnie era como

um estranho para mim. Estava longe, caminhando por algum dos frios

lugares do universo, que um Deus amante



de gracejos reserva para

pessoas como ele. Eu não o conhecia mais. Não queria conhecê

-

lo. Limitei

-

me a ficar ali, sentado, impotente e esperando pela volta do Arnie que eu

conhecia. Após um momento, ele voltou.



As palavras histéricas confundiram

-

se novame

nte com soluços. O

ódio se fora e ele apenas chorava. Era um som alto, penetrante e

desnorteado.



Fiquei parado ao volante do carro, não muito certo sobre o que

deveria fazer, mas desejando estar em outro lugar, qualquer lugar,




experimentando sapatos na Tho

m McAn's, preenchendo uma solicitação

de crédito em uma loja que vendesse com desconto, parado diante de um

cubículo de banheiro pago, com diarréia e sem um centavo no bolso.

Qualquer lugar, cara. Não precisava ser Monte Cario. Acima de tudo,

fiquei ali de

sejando ser mais velho. Desejando que ambos fôssemos mais

velhos.



Isto, no entanto, era fugir aos acontecimentos. Eu sabia o que fazer.

Relutantemente, contra a vontade, deslizei no assento, passei os braços em

torno dele e o abracei. Podia sentir seu rost

o, quente e febril, esmagado

contra meu peito. Ficamos assim por talvez uns cinco minutos. Depois o

levei de carro para casa. Então, fui para casa também. Nenhum de nós

dois comentou o assunto mais tarde, aquilo de abraçá

-

lo daquele jeito.

Ninguém passou p

ela calçada e nos viu estacionados junto ao meio

-

fio. Se

aparecesse alguém, sem dúvida pensaria que éramos um casal de

gays.

Dentro do carro, eu o abraçara e tentara demonstrar minha estima mais

que podia, perguntando

-

me como era possível eu ser o único am

igo de

Arnie Cunningham. Porque naquele momento, acreditem, eu não queria

ser seu amigo.



Não obstante, havia algo





percebi naquele momento, embora de

maneira muito vaga





talvez Christine se tornasse amigo





amiga?





dele. Não estava bem certo se gostava

disso, embora naquele longo e

alucinado dia houvéssemos passado os mesmos maus pedaços por causa

do Plymouth.



Quando paramos junto à calçada fronteira à sua casa, perguntei:







Tudo bem com você, cara? Ele forçou um sorriso.







Sim, está tudo bem.





Fitou

-

me



com tristeza.





Sabe de uma

coisa? Você deveria procurar outro tipo de caridade para fazer. Fundo

Cardíaco. Sociedade do Câncer. Qualquer coisa.







Ora, vá caindo fora!







Você sabe o que estou dizendo.







Se quer dizer que é um chorão, qual a novidade?



A lu

z da entrada foi acesa. Michael e Regina dispararam para fora,

sem dúvida querendo verificar se éramos nós ou a Polícia Estadual, vindo

comunicar

-

lhes que seu filho único fora atropelado na auto

-

estrada.







Arnold?





chamou Regina, em voz estridente.










É me

lhor dar o fora, Dennis





disse Arnie, sorrindo agora com

mais honestidade.





Você não precisa desta merda.





Saiu do carro e

disse obedientemente:





Olá, mamãe. Olá, papai.







Onde foi que esteve?





perguntou Michael.





Deixou sua mãe

terrivelmente preocup

ada, rapazinho!



Arnie tinha razão. Eu podia dispensar a cena. Olhei para trás, pelo

espelho retrovisor, apenas de relance, e o vi parado na calçada, parecendo

solitário e vulnerável





e então os dois o abraçaram e o guiaram de volta

ao ninho de 60.000 dóla

res. Na certa, lançavam sobre ele toda a influência

de sua última jornada paterna





o Treinamento para Eficiência Paterna, e

sabe

-

se lá o que mais. Michael e Regina eram absolutamente racionais

nesse sentido, aí estava a coisa. Haviam desempenhado papel

fu

ndamental para que Arnie se tornasse como era, mas eram racionais

demais para perceber isso.



Liguei o rádio na FM

-

104, onde continuava o

Block Party Weekend e

peguei Bob Seger e a Silver Builet Band cantando '

Still the Same'.

Aquilo

estava horrendamente pe

rfeito demais e passei para o jogo dos Phillies.



Os Phillies perdiam. Ainda bem. Combinava com o resto.





P

ESADELOS



Sou um corredor de estrada, meu bem,



E você não pode me alcançar.



Sim, sou um corredor de estrada, meu bem,



E você não consegue emparelhar co

migo.



Venha para cá e corra,



Querida, querida, você verá.



Chegue mais perto, meu bem! Pare atrás!



Vou jogar poeira nos seus olhos!







Bo Diddley








Quando cheguei em casa, papai e minha irmã estavam sentados na

cozinha, comendo sanduíches de açúcar mascavo. C

omecei

imediatamente a sentir fome e recordei que nem ao menos jantara.







Por onde andou, chefe?





perguntou Elaine.



Nem levantou os olhos da revista que lia





16, Creem

ou

Tiger Beat,

não sei qual era. Começara a chamar

-

me de chefe desde que eu descobrira



Bruce Springsteen, um ano antes, e ficara fanático. Evidentemente, aquele

tratamento era com a finalidade de irritar

-

me.



Aos quatorze anos, Elaine deixava a meninice para trás e se

transformava em uma futura beldade americana





alta, cabelos escuros e

olh

os azuis. Entretanto, no final daquele verão de 1978, era uma

adolescente agressiva, como uma multidão de tantos outros. Começara

com Donny e Marie Osmond aos nove anos, apaixonando

-

se por John

Travolta aos onze (cometi o erro de chamá

-

lo de John Revolta c

erto dia, e

ela me arranhou tanto que quase precisei levar um ponto no rosto





afinal, acho que eu merecia). Aos doze, ela gamou por Shaun. Depois foi

Andy Gibb. Só ultimamente vinha demonstrando gostos mais sinistros:

roqueiros da barulhenta música eletrô

nica, como Deep Purple e Styx, um

grupo novo.







Estive ajudando Arnie a levar o carro dele





falei, tanto para

meu pai, como para ela. Era mais do que isso, de fato.







Aquele asqueroso





suspirou Ellie, virando uma página de sua

revista.



De repente, senti

um súbito e espantoso ímpeto de arrancar a revista

de suas mãos, rasgá

-

la em duas e jogar

-

lhe os pedaços na cara. Isso me

deixou perceber, exatamente, como a tensão daquele dia fora mais forte

do que tudo o mais. Na verdade, Elaine não achava Arnie asquero

so; ela

apenas aproveitava qualquer oportunidade para irritar

-

me. Enfim, talvez

eu tivesse ouvido Arnie ser chamado de asqueroso vezes demais, nas

últimas horas. As lágrimas dele ainda secavam no peito de minha camisa

e é possível que também me sentisse um



pouco asqueroso.







O que "Beijinho" esteve fazendo estes dias, queridinha?





perguntei

-

lhe docemente.





Escrevendo algumas cartas de amor para

Erik Estrada? "Oh, Erik, eu morro por você, meu coração dispara como

louco, a cada vez que penso em seus lábios

grossos e melosos esmagando

os meus..."










Você é um animal





disse ela, friamente.





Um animal, é isso

que você é!







E não conheço ninguém melhor.







Está legal.



Ela pegou o sanduíche de açúcar mascavo, a revista, e disparou

bruscamente para a sala de estar

.







Não deixe essa coisa cair no chão, Ellie





avisou papai,

prejudicando um pouco sua retirada. Fui até a geladeira, mas rejeitei um

salsichão e um tomate, que não me agradaram muito. Havia



também meia embalagem de queijo pasteurizado, mas eu exagerara

ta

nto naquela porcaria quando na escola primária que, aparentemente,

esse exagero eliminara meu desejo por ele. Preferi meio litro de leite para

acompanhar meu sanduíche e abri uma lata de sopa Campbell com carne

picada.







Ele conseguiu?





perguntou papai.



M

eu pai é assessor tributário para a H & R Block. Como autônomo,

faz outros trabalhos sobre impostos. Antigamente era contador em tempo

integral para a maior firma de arquitetura de Pittsburgh, mas sofreu um

ataque cardíaco e deixou o cargo. É um excelente

sujeito.







Sim, conseguiu.







E você achou tão ruim como antes?







Pior ainda. Onde está mamãe?







Estudando





disse ele.



Seus olhos encontraram os meus e quase começamos a rir

sufocadamente. Olhamos, para outras direções logo em seguida,

envergonhados





embo

ra o fato de nos envergonharmos não ajudasse

muito. Minha mãe está com quarenta e três anos e trabalha como

higienista dentária. Durante muito tempo não trabalhou em sua

especialidade, mas voltou a ela quando papai teve o ataque cardíaco.



Quatro anos antes

, ela concluíra ser uma escritora latente e começou

a compor poemas sobre flores e a escrever contos sobre doces velhinhos

no outono de suas vidas. De vez em quando ficava francamente realista e

escrevia uma história sobre uma jovem tentada a "arriscar

-

se"

, mas então




decidia ser muito melhor que ela continuasse Pura para o Leito Nupcial.

Naquele verão, matriculara

-

se em um curso rápido para escritores, em

Horlicks





onde Michael e Regina lecionavam, lembrem

-

se





e

colecionava todos os seus temas e contos em



um livro a que dera o nome

de Rascunhos de Amor e Beleza.



Vocês podem estar pensando (e parabéns, se pensaram) que nada há

de engraçado sobre uma mulher que consegue manter um emprego,

cuidar da família e, ao mesmo tempo, desejar algo novo, querer expandi

r

um pouco seus horizontes. Claro que estão certos nisso. Também poderão

pensar que eu e meu pai tínhamos todos os motivos para envergonhar

-

nos,

que não passávamos de uma dupla de porcos discriminadores grunhindo

em nossa cozinha e, mais uma vez, têm toda

razão. Não quero discutir

este ponto, embora diga que, se tivessem sido obrigados a ouvir

constantes leituras extraídas de Rascunhos de Amor e Beleza, como eu e

papai





e também Elaine





poderiam compreender um pouco melhor a

origem de nossas risadinhas su

focadas.



Bem, ela foi e é uma excelente mãe. Creio que também tem sido uma

grande esposa para meu pai





pelo menos, nunca o ouvi queixar

-

se e ele

tampouco já passou toda a noite fora de casa, bebendo



, de maneira que

tudo quanto posso alegar em nossa defe

sa é que nunca rimos diante dela,

nenhum de nós dois. É uma desculpa esfarrapada, bem sei, porém melhor

do que nada. Nós não a magoaríamos, por nada do mundo.



Apertei a mão contra a boca, tentando estancar o riso. Papai pareceu

subitamente engasgado com se

u pão e o açúcar mascavo. Ignoro o que ele

pensava, mas o que eu tinha em mente era um artigo mais ou menos

recente, intitulado "Jesus Tinha um Cão?".



Somando

-

se ao que já acontecera naquele dia, isso era quase demais.



Fui até os armários em cima da pia e

peguei um copo para o leite.

Quando olhei para trás, papai já se controlara e isso me ajudou a

controlar

-

me também.







Você parecia meio aborrecido quando entrou





disse ele.





Está

tudo bem com Arnie, Dennis?







Tranqüilo





respondi, despejando a sopa em um

a frigideira, que

coloquei sobre o fogo.





Ele acabou de comprar um carro, uma boa droga,

mas está legal.






Claro que Arnie não estava legal, mas há certas coisas que não nos

dispomos a contar a nossos pais, pouco importando o quanto eles tenham

tido êxito n

a grande tarefa americana da paternidade.







Certas pessoas só enxergam as coisas quando as vêem com os

próprios olhos





disse ele.







Bem, espero que ele enxergue logo





falei.





Deixou o carro na

Darnell's, a vinte por semana, porque seus pais não deixaram



que o

estacionasse em casa.







Vinte por semana? Apenas por um boxe? Ou um boxe e

ferramentas?







Só o boxe.







Isto é um assalto!







Exato





respondi, percebendo que meu pai não entendera o

comentário como uma oferta para que Arnie estacionasse o carro em no

ssa

casa.







Quer jogar uma rodada de

cribbage?



*







Acho que sim





respondi.







Anime

-

se, Dennis! Não pode cometer erros por outras pessoas.







Sim, acho que tem razão.



Jogamos três ou quatro rodadas de

cribbage,

todas ganhas por ele





meu pai geralmente ganh

a, a menos que esteja muito cansado ou tenha

bebido uns dois drinques. De qualquer modo, não me incomodo. As vezes

que o derroto ficam valendo mais. Jogamos

cribbage

e mamãe apareceu

pouco depois, alegre, com os olhos brilhantes, parecendo jovem demais

par

a ser minha mãe, com o livro de contos e rascunhos apertado contra o

busto. Beijou meu pai





não o beijo leve costumeiro, mas um beijo de

verdade que, de repente, me fez perceber que eu devia estar em outro

lugar.



Ela fez as mesmas perguntas sobre Arnie e

seu carro, algo que

rapidamente começava a tornar

-

se o ponto alto das conversas naquela

casa, desde que Sid, irmão de mamãe, ficara arruinado e pedira um

                                        

             



*



Jogo de cartas (N.T.)






empréstimo a papai. Repeti a mesma lengalenga. Depois subi para meu

quarto. Eu me movia vagarosamente,



com a impressão de que papai e

mamãe tinham assuntos pessoais para cuidar... embora essa fosse uma

questão em que nunca me concentrara muito, como certamente vocês

compreenderão.



Elaine estava em seu quarto, ouvindo sua nova coleção de sucessos.

Pedi que

baixasse um pouco o volume, porque queria dormir. Ela me

espichou a língua. Eu não ia admitir aquilo, em absoluto. Entrei e fiz

-

lhe

cócegas, até ela dizer que ia vomitar. Falei, vá em frente, vomite, a cama é

sua





e fiz mais cócegas ainda. Ela então assum

iu sua expressão de "por

favor, Dennis, não ria de mim, porque isto é

terrivelmente

importante", e

ficando muito solene perguntou se era mesmo verdade que se podia atear

fogo a peidos. Carolyn Shambliss, uma de suas amigas, dissera ser

possível, mas Caroly

n mentia sobre quase

tudo.



Respondi

-

lhe que perguntasse a Milton Dodd, seu namoradinho

com cara de pênis. Foi quando Elaine ficou furiosa e tentou agredir

-

me,

perguntando por que você sempre tem que ser tão

nojento.

Dennis? Então

eu disse sim, era verdade

que se podia atear fogo a peidos, mas

aconselhei

-

a a não tentar. Fiz

-

lhe um ligeiro afago (o que se tornara

bastante raro em mim





aquilo sempre me deixava sem jeito,

depois

que

ela ficara com

seios,

de modo que

preferia as cócegas) e depois fui para meu

q

uarto.



Enquanto me despia, pensei: afinal, o dia não terminou tão ruim.

Por aqui há gente que me considera um ser humano, e também a Arnie.

Vou chamá

-

lo para vir amanhã ou no domingo. Ficaremos por aí, talvez

vejamos os Phillies jogando pela TV, podemos ai

nda nos divertir com um

jogo de damas idiota ou outra coisa qualquer, até mesmo o infalível jogo

de siga

-

a

-

pista, e nos livramos dessa sensação esquisita. Voltaremos a nos

sentir decentes outra vez.



Fui para a cama com tudo decidido na cabeça e devia ter p

egado no

sono em seguida, mas não foi assim. Eu não estava legal e sabia disso. As

coisas começaram a acontecer e, às vezes, não sabemos que droga elas são.



Motores. Eis aí algo mais, sobre a gente ser um adolescente. Há

todas aquelas máquinas e, de algum

modo, terminamos com as chaves de

ignição para uma delas, damos partida, mas ignoramos que merda

poder

ão ser ou o que se supõe que façam. Existem apenas pistas, mais

nada. O negócio da droga é assim, da mesma forma que o negócio da




bebida e o negócio do se

xo, por vezes outros negócios também





um

emprego de verão que gera um novo interesse, uma viagem, um curso no

colégio. Máquinas. Eles nos dão as chaves, algumas pistas e dizem: dê

partida, veja o que acontece, e, às vezes, isso pode levar

-

nos para uma

vid

a boa e satisfatória, mas em outras nos coloca direitinho na auto

-

estrada para o inferno, deixando

-

nos triturados e sangrando pela pista

afora.



M

áquinas.



Enormes. Como os motores 382, que eles costumavam colocar

naqueles carros antigos. Como Christine.



Fiq

uei acordado no escuro, virando

-

me de um lado para outro, at

é o

lençol desprender

-

se, ficar amarfanhado e embolado, enquanto eu

pensava em LeBay dizendo: O

nome da máquina é Christine.

De alguma

forma, Arnie captara o sentido da coisa. Quando éramos crianç

as,

havíamos tido patinetes e depois bicicletas. Dei um nome para a minha,

porém Arnie nunca batizou a sua





dizia que nomes eram para gatos,

cachorros e peixes. Só que isso fora antes, não agora. Agora ele chamava

aquele Plymouth de Christine e, pior aind

a, tratava

-

a sempre no feminino.



Eu n

ão gostava daquilo, embora sem saber por quê.



At

é meu pai falara no caso como se, em vez de comprar um

estropiado calhambeque, Arnie tivesse casado. Não era bem assim. De

modo algum. Seria?



Pare o carro, Dennis. Volte..

. Quero olhar para ela outra vez.



T

ão simples assim.



Sem nenhuma pondera

ção, e isso era incomum em Arnie, que em

geral costumava ponderar tudo cuidadosamente





sua vida o tinha

tornado dolorosamente cônscio do que acontecia a caras como ele, quando

ficavam



um pouco tocados e faziam algo (poxa!) no impulso do momento.

Desta vez, no entanto, ele agira como o homem que conhece uma corista,

envolve

-

se em um namoro tempestuoso, para terminar de ressaca e esposa

nova, na manhã de segunda

-

feira.



Aquilo tinha sido.

.. bem... como amor

à primeira vista.



N

ão importa, pensei. Começaremos tudo outra vez. Começaremos

amanhã. Então, obteremos alguma perspectiva sobre isto.






Por fim, peguei no sono. E sonhei.



A uivante rota

ção de um motor de arranque na escuridão.



Sil

êncio.



O motor de arranque uivando novamente.



O motor em funcionamento, morrendo, depois pegando.



A m

áquina correndo na escuridão.



Ent

ão, os faróis acesos, faróis enormes, faróis duplos e antigos, varando

-

me

como uma lanterna de mão contra o vidro.



Eu estava para

do aporta da garagem de LeBay e Christine l

á dentro





uma

nova Christine, sem nenhum amassado ou salpico de ferrugem. O pára

-

brisa

incólume, sombreado para um azul polarizado no alto. Do rádio brotavam os sons

rítmicos de Dale Hawkins em "Susie

-

Q "





uma v

oz de uma época morta,

impregnada de aterrorizante vitalidade.



O motor murmurando palavras de pot

ência, através de silenciosos duplos,

em envoltórios de vidro. Não sei como, eu sabia haver uma caixa de mudança

Hurst no interior e caixas de ligação Feully:

o óleo Quaker State acabara de ser

trocado





era agora de clara cor ambarina, o sangue vital automotivo.



Os limpadores de p

ára

-

brisa se ergueram de repente, uma coisa estranha,

porque não há ninguém atrás do volante, o carro está vazio.







Vamos garotão. Vam

os dar uma volta. Vamos rodar.



Sacudo a cabe

ça. Não quero entrar lá. Tenho medo de entrar lá. Não quero

dar uma volta. De repente, o motor começa a acelerar e morrer, acelerar e morrer;

é um som faminto, aterrador, como um cão feroz em uma correia fraca...



e eu

quero andar... porém meus pés parecem pregados ao pavimento gretado da calçada.







É a última chance, garotão.



E antes que eu possa responder





ou mesmo pensar em uma resposta







o guincho terrível da borracha desligando

-

se do concreto e Christine i

nveste

contra mim, seu radiador escancarado como uma boca aberta, cheio de dentes

cromados, os faróis ofuscantes...





Grito e acordo na escuridão morta das duas da madrugada,

assustado com o som de minha voz, o ruído apressado de pés descalços

correndo pelo



corredor assustando

-

me ainda mais. Minhas mãos




aferravam punhados do lençol. Puxei

-

o, estava todo embolado no meio da

cama. Um suor escorregadio envolvia meu corpo.



No fundo do corredor, Ellie gritou: "O que foi isso?", em seu próprio

terror.



A luz de meu



quarto iluminou tudo e lá estava mamãe, em uma

curta camisola que revelava mais do que ela permitiria, exceto na mais

extrema emergência. Logo atrás dela, papai amarrava o cinto do roupão,

fechado sobre absolutamente nada.







O que foi, meu bem?





pergunto

u mamãe.



Tinha os olhos arregalados e assustados. Eu não recordava a última

vez em que me chamara "meu bem" daquele jeito





aos quatorze anos?

Doze? Talvez dez? Não sei dizer.







Dennis?





chamou papai.



Então, surgiu Elaine mais atrás, depois entre eles, tr

emendo.







Voltem para a cama





falei.





Foi apenas um sonho. Nada mais.







Nossa!





disse Elaine, chocada pelo respeito à hora e à

ocasião.





Deve ter sido um verdadeiro filme de horror. Não foi, Dennis?







Sonhei que você tinha casado com Milton Dodd e veio



morar

comigo





respondi.







Não aborreça sua irmã





disse mamãe.





O que foi, Dennis?







Não me lembro.



De repente, percebi que o lençol era uma confusão, que havia um

tufo de pêlos púbicos aparecendo. Ajeitei tudo depressa, entre culpados

pensamentos de ma

sturbação, polução noturna e sabe

-

se mais lá o que,

martelando minha cabeça. Um deslocamento total. Nos primeiros dois ou

três vertiginosos momentos, eu nem mesmo tinha certeza se era grande ou

pequeno





havia apenas aquela imagem terrível, sombria e onipo

tente do

carro investindo para diante, um pouquinho a cada vez que o motor

funcionava, recuando, avançando de novo, o capô vibrando acima do

motor, o radiador semelhante a dentes de aço...



É a última chance garotão

.



Em seguida, a mão fria e seca de mamãe e

stava em minha testa, em

busca de febre.










Está tudo bem, mamãe





falei.





Não foi nada. Apenas um

pesadelo.







E você não se lembra...







Não. Esqueci tudo agora.







Fiquei assustada





disse ela, depois dando uma risadinha

trêmula.





Você só saberá o quanto

a gente se assusta, quando um de

seus filhos gritar no escuro.







Hum, nem me fale nisso





disse Elaine.







Vá para a cama, garotinha





disse papai, dando um tapinha leve

em sua nádega.



Ela obedeceu, não parecendo muito satisfeita. Talvez, superado o

medo in

icial, esperasse que eu tivesse um acesso de histeria. Isso lhe daria

um bom motivo de comentários, enfiada em seu sutiã de treinamento, no

programa matinal de discussões sobre o fato.







Você está bem mesmo?





perguntou mamãe.





Está, benzinho?



Aquela pala

vra novamente, trazendo antigas lembranças de joelhos

esfolados, ao cair de meu carrinho vermelho; seu rosto inclinado para

minha cama era o mesmo que eu vira nos febris acessos de todas aquelas

doenças infantis





caxumba, catapora, um ataque de escarlatin

a. Dando

-

me uma vontade absurda de chorar. Eu tinha nove anos e trinta e cinco

quilos em seu colo.







Claro que estou





respondi.







Muito bem





disse ela.





Deixe a luz acesa. Ajuda um pouco.



Com um último e hesitante olhar para meu pai, ela se foi. Eu tinh

a

algo para me deixar confuso





a idéia de que minha mãe jamais tivera

um pesadelo. Deve ser uma daquelas coisas que nunca nos ocorrem. E

quaisquer que fossem seus pesadelos, nenhum deles se transmitiria para

os Rascunhos de Amor e Beleza.



Papai se sentou

na beira da cama.







Não se lembra mesmo do que foi? Meneei a cabeça.







Deve ter sido horrível, para fazê

-

lo gritar daquele jeito, Dennis.






Seus olhos se fixavam nos meus, perguntando gravemente se

haveria alguma coisa que ele devesse saber. Quase lhe contei







o carro,

era o maldito carro de Arnie, Christine, a Rainha da Ferrugem, com vinte

anos de idade, aquela velharia fodida. Quase contei. Entretanto, sei lá

como, aquilo ficou engasgado em minha garganta, quase como se, falando,

eu traísse meu amigo. O bom



e velho Arnie, a quem um Deus amante de

gracejos decidira espancar com umas boas varadas.







Tudo bem





disse ele, e beijou meu rosto.



Pude sentir sua barba, diminutas cerdas espetando e que s

ó brotam

à noite. Senti também seu cheiro de suor e seu amor. Fi

z

-

lhe um afago

brusco e ele me afagou de volta.





Quando me vi sozinho, fiquei com o abajur da cabeceira aceso,

temendo voltar a dormir. Deitado de costas, peguei um livro, sabendo que

meus velhos estavam acordados em seu quarto, perguntando

-

se se eu

estari

a envolvido em alguma esp

écie de confusão ou se envolvera alguém

mais





talvez a chefe de torcida com corpo espetacular





em qualquer

tipo de problema.



Decidi que dormir era uma impossibilidade. Ficaria lendo at

é o dia

clarear e tiraria um cochilo na tarde



do dia seguinte, de preferência na

parte mais monótona do futebol. E, assim pensando, adormeci e acordei

na manhã seguinte, com o livro fechado e caído no chão, ao lado da cama.





P

RIMEIRAS

M

UDANÇAS



Eu lhe direi o que faria se tivesse dinheiro,



Eu iria

à c

idade e compraria um ou dois Mercurys,



Compraria um Mercury para mim



E cruzaria esta estrada para cima e para baixo.







The Steve Miller Band








Pensando que Arnie fosse aparecer naquele sábado, fiquei

perambulando pela casa





aparei a grama, limpei a garagem

, até mesmo

lavei todos os três carros. Mamãe observou com algum espanto toda

aquela diligência e, à hora do almoço de cachorro

-

quente com salada de

verduras, comentou que talvez eu devesse ter pesadelos com mais

regularidade.



Eu não queria telefonar para

a casa de Arnie, depois de todo aquele

desagradável ambiente que havia presenciado, mas quando chegaram as

preliminares do jogo e ele não apareceu, ganhei coragem e liguei. Regina

atendeu e, embora estivesse fazendo uma boa imitação do nada

-

mudou,

imaginei



detectar uma recente frieza em sua voz. Aquilo me entristeceu.

Seu único filho fora seduzido por uma velha e pelancuda prostituta

chamada Christine e seu cúmplice devia ter sido o velho chapa Dennis.

Talvez ele tivesse, inclusive, alcovitado o negócio. Ar

nie não estava em

casa, disse Regina. Estava na garagem de Darnell. Fora para lá desde nove

da manhã.







Oh!





murmurei, sem jeito.





Oh, poxa, eu não sabia disso.





Minha voz soava mentirosa e, pior ainda, eu a

sentia

mentir.







Não mesmo?





replicou Regina

, em sua nova voz fria.





Adeus,

Dennis.



O fone emudeceu em minha mão. Fiquei olhando para ele durante

um instante, depois o coloquei no gancho.



Papai se aboletara diante da TV, com sua frouxa bermuda púrpura,

calçando sapatos de lona e com seis latas de c

erveja na geladeira portátil a

seu lado. Os Phillies estavam tendo um dia ótimo, encurralando Atlanta

inteiramente. Mamãe saíra para visitar uma colega (acho que uma lia seus

rascunhos e poemas para a outra, exaltando

-

se juntas). Elaine fora para a

casa de



sua amiga Delia. Estava tudo quieto; lá fora, o sol brincava de

pique com algumas nuvens brancas. Papai me passou uma cerveja, o que

só faz quando se sente extraordinariamente bem

-

humorado.



Não obstante, o sábado ainda parecia desinteressante. Fiquei

pens

ando em Arnie, que não estava vendo o jogo ou aproveitando os raios

do sol, nem ao menos aparando a grama em sua casa e ficando com os pés

esverdeados. Arnie, nas sombras oleosas da Garagem Faça

-

Você

-

Mesmo

de Will Darnell, às voltas com aquela silenciosa b

anheira enferrujada,

enquanto homens gritavam e ferramentas caíam no cimento com




penetrante som metálico, a broca de ar comprimido afrouxando velhos

parafusos, a voz resfolegante e a tosse asmática de Will Darnell...



Que merda, eu estaria

enciumado? O

que

significava aquilo?



No sétimo turno do jogo, levantei

-

me e caminhei para a saída.







Aonde vai?





perguntou meu pai.



Isso mesmo, para onde eu ia? Para lá? Ficar espiando Arnie,

grudado a ele, ouvindo as implicâncias de Will Darnell? Procurando mais

uma dose



de sofrimento? Droga! Arnie já era um cara crescidinho.







A lugar nenhum





respondi.



Achei uma embalagem de biscoito na caixa do pão, cuidadosamente

empurrada para o fundo. Apanhei

-

a com certo prazer lúgubre, sabendo o

quanto Elaine ficaria enfurecida, ao



vir procurá

-

la durante um dos

comerciais de

Animada Noite de Sábado

e nada mais encontrar ali.



Voltei para a sala de estar. Sentei

-

me, filei outra cerveja de papai e

comi o biscoito de Elaine, inclusive rasgando a embalagem de papelão.

Ficamos vendo os Ph

illies acabarem com Atlanta. ("Deram uma surra

neles, Denny", eu podia ouvir meu avô, falecido cinco anos antes, dizendo

com sua voz esganiçada de velho, "uma surra pra valer!") e não pensei

mais em Arnie Cunningham.



Não muito.



Na tarde seguinte, ele apare

ceu em sua velha e desconjuntada

bicicleta de três velocidades, quando eu e Elaine jogávamos croqué no

gramado dos fundos. Ela insistia em acusar

-

me de estar roubando o jogo.

Vestia um

short,

cortado de calças velhas. Sempre o usava quando "estava

tendo su

as regras mensais". Minha irmã sentia grande orgulho daquelas

regras, que vinha tendo regularmente nos últimos quatorze meses.







Olá





disse Arnie, surgindo por uma esquina da casa.





Vocês

devem ser o Monstro da Lagoa Negra e a Noiva do Frankenstein, ou

D

ennis e Ellie.







O que você acha, cara?





falei.





Pegue um taco.







Não estou mais jogando





disse Elaine, deixando cair o seu taco

de jogar croqué.





Ele rouba ainda mais do que você.

Homens!



Depois que ela se foi, Arnie disse, em voz trêmula e afetada:










É a primeira vez que ela me chama de homem, Dennis.



Caiu de joelhos, com uma expressão de exaltada adoração no rosto.

Comecei a rir, Arnie sabia ser divertido, quando queria. Aquele era um

dos motivos de apreciá

-

lo tanto. Uma espécie de segredo, compreend

a.

Acho que ninguém mais percebia aquilo, além de mim. Certa vez, ouvi

falar de um milionário que roubara um Rembrandt e o guardara em seu

porão, onde ninguém mais podia vê

-

lo, além dele. Eu podia entender esse

sujeito. Não digo que Arnie fosse um Rembrand

t ou algum campeão de

inteligência, mas compreendia a atração de saber sobre algo bom... algo

que era bom, mas permanecendo em segredo.



Divertimo

-

nos com o croqué por alguns momentos, não jogando

para valer, mas tirando o máximo proveito de nossas boladas.



Finalmente,

uma bola atravessou a cerca viva até o quintal dos Blackfords e, após eu

ter rastejado até lá para recuperá

-

la, desistimos de jogar. Ficamos sentados

nas cadeiras do quintal. Dentro em pouco, Jay Hawkins Miador, nosso

gato substituto do Capitã

o Beefheart, deslizou furtivamente da porta, sem

dúvida esperando encontrar algum bom esquilinho, que assassinaria lenta

e malevolamente. Seus olhos verde

-

âmbar cintilaram à luz da tarde, agora

nublada e quieta.







Pensei que você viesse ver o jogo ontem





falei.





Foi uma boa

partida.







Estive na Darnell's





disse ele.





De qualquer modo, ouvi o jogo

pelo rádio.





Sua voz elevou

-

se três oitavas e fez uma boa imitação de

meu avô:





"Deram uma surra neles! Uma surra pra valer, Denny!".



Ri e assenti. Naquele d

ia, havia algo nele parecendo diferente talvez

fosse apenas por causa da claridade, bastante forte, mas ainda assim

sombria e crepuscular. Em primeiro lugar, Arnie parecia cansado, estava

com olheiras





mas, ao mesmo tempo, a pele estava um pouco melhor do



que ultimamente. Andara bebendo um bocado de Cocas no trabalho,

mesmo sabendo que não devia, é claro, mas incapaz de resistir à tentação,

de vez em quando. Seus problemas de pele tendiam a surgir em ciclos,

como na maioria dos adolescentes, dependendo do

estado de ânimo. No

caso de Arnie, contudo, os ciclos geralmente iam de ruim para pior, e

retornavam ao ruim.



Talvez fosse apenas a claridade.







O que fez no carro?





perguntei.










Não muita coisa. Troquei o óleo. Dei uma espiada no bloco do

motor. Enfim, n

ão está rachado, Dennis. LeBay ou alguém mais deixou o

bujão de drenagem em algum lugar ao longo da linha, eis tudo. Um

bocado do óleo velho tinha vazado para fora. Tive sorte em não soltar um

pistão, dirigindo na tarde de sexta

-

feira.







Como conseguiu hor

a com o elevador? Pensei que era preciso

uma reserva antecipada. Seus olhos desviaram

-

se dos meus.







Não houve problema





disse, mas havia desapontamento em sua

voz.





Fiz uns dois favores para o Sr. Darnell.



Abri a boca para perguntar que tipo de favores,



mas decidi que n

ão

queria saber. Provavelmente, os "dois favores" se reduziriam apenas a

uma ida à Schirmer's Lanchonete, na primeira esquina, a fim de trazer café

puro para os

habitués

da garagem, ou então juntar várias partes de carros

usados, para vend

a posterior. O que não me interessava era envolver

-

me

na extremidade Christine da vida de Arnie





e isso incluía saber como ele

estava se saindo (ou não saindo) na garagem de Darnell.



Havia ainda algo mais





uma sensação de perda. Eu não conseguia

definir

muito bem tal sensação, ou não queria defini

-

la. Hoje, posso

afirmar que se tratava da maneira como nos sentimos quando um amigo

nosso se apaixona por uma vagabunda experiente e metida a sebo. A

gente não gosta da vagabunda e, em noventa e nove por cento d

os casos,

ela também não vai com a nossa cara, de maneira que nos limitamos a

fechar a porta para aquele compartimento da antiga amizade. Feita a coisa,

tanto podemos esquecer o assunto... como descobrir que o amigo nos

esqueceu, em geral com entusiástica

aprovação da vagabunda.







Vamos ao cinema





disse Arnie, inquieto.







O que está passando?







Bem, há um daqueles violentos filmes Kung

-

fu, no State Twin, o

que acha disso?

Hiii

-

iah!





Ele fingiu dar um selvagem chute de caratê em

Jay Hawkins Miador, e o gato



saltou para longe como uma flecha.







Parece bom. Bruce Lee?







Não. Outro cara.







Como é o nome dele?










Não sei. Punhos Perigosos. Mãos Voadoras Mortais. Talvez seja

Genitais Furiosos, sei lá. O que me diz? Quando voltarmos, podemos

contar as partes mais v

iolentas para Ellie e fazê

-

la vomitar.







Está bem





falei.





Isto, se ainda pudermos entrar, pagando

uma prata cada um.







Claro. Podemos entrar até as três.







Vamos embora.



Fomos. Afinal, era um filme de Chuck Norris, n

ão ruim de todo.



Na segunda

-

feira, co

ntinuamos a constru

ção do alongamento da

Interestadual. Esqueci meu sonho. Aos poucos, percebi que não

continuaria vendo Arnie tanto tempo como antes; de novo, era como nos

sentimos se vamos perdendo contato com um cara recém

-

casado. Por

outro lado, meu ne

gócio com a chefe de torcida começou a esquentar.

Havia também outra coisa que esquentava como o diabo





por várias

noites, levei

-

a das corridas de submarinos no

drive

-

in

para casa, sentindo

os colhões latejarem de tal modo, que mal podia caminhar.



Nesse

í

nterim, Arnie passava na Darnell's a maioria do tempo livre,

depois que saía do trabalho.





BUDDY



REPPERTON



E eu sei, pouco importa quanto custe,



Oooooh, aquele duplo exaustor



Faz o meu motor berrar,



E o meu carro ent

ão terá



Uma descarga Cadillac.







Moon Ma

rtin





Nossa

última semana de trabalho corrido, antes do início das aulas,

foi a que precedeu o Dia do Trabalho. Quando passei pela casa de Arnie

para apanhá

-

lo aquela manhã, ele apareceu com uma enorme mancha




negro

-

azulada em torno de um olho e um feio cor

te na parte superior da

face.







O que houve com você?







Não quero falar sobre isso





respondeu ele, carrancudo.







tive que explicar tanto a meus pais, que quase fiquei maluco.



Atirou sua maleta do lanche no assento traseiro e mergulhou em um

sombrio sil

êncio, que durou todo o trajeto até o trabalho. Alguns

companheiros o interrogaram sobre o corte, mas Arnie apenas deu de

ombros.



Nada comentei ao voltarmos para casa; apenas liguei o r

ádio e fiquei

entregue a mim mesmo. E talvez ficasse sem jamais ouvir a



história, se não

houvesse sido "atacado" por aquele seboso ítalo

-

irlandês chamado Gino,

pouco antes de deixarmos a Main Street para trás.



Naquela

época, Gino estava sempre me atocaiando





ele podia

esgueirar

-

se através do vidro fechado de um carro e reali

zar a façanha. O

estabelecimento Gino's Fine Italian Pizza (Deliciosa Pizza Italiana do Gino)

fica na esquina da Main com Basin Drive, e sempre que eu via o anúncio

com a pizza elevando

-

se no ar, com todos aqueles ii pontilhados por copos

de bebida (aquilo



piscava noite adentro, como é que se pode fugir?), sentia

a cilada funcionando novamente. Aquela noite, minha mãe estaria em

aula, isto significando que teríamos um jantar de sobras em casa. A

perspectiva não me deixava nem um pouco alegre. Eu e meu pai n

ão

éramos muito chegados a cozinhar e, quanto a Ellie, seria capaz até de

queimar água pura.







Vamos comer uma pizza





falei, manobrando para o pátio de

estacionamento do Gino's.





O que me diz? Uma bem grande e

gordurosa, cheirando como sovacos.







Que vio

lência, Dennis!







Sovacos

limpos





emendei.





Vamos.







Negativo. Estou de caixa baixa





disse Arnie, em um murmúrio.







Eu pago. Pode até ficar com aquelas horríveis e fodidas enchovas

em sua metade. E então, vamos?







Dennis, acho que eu não...







Com uma Pep

si





acrescentei.










Pepsi me acaba com a pele, você sabe disso.







Sim, eu sei. Um copo

grande

de Pepsi, Arnie.



Seus olhos cinzentos iluminaram

-

se pela primeira vez no dia.







Um copo

grande





repetiu.





Olha só! Você é mesmo pão

-

duro,

Dennis.







Dois, se pre

ferir





falei.



Era uma grande pedida, francamente





como oferecer barras de

chocolate à mulher gorda do circo.







Dois





ele disse, apertando meu ombro.





Dois copões de Pepsi,

Dennis!





Arnie começou a estirar

-

se no assento, com as duas mãos em

torno da ga

rganta e gritando:





Dois! Depressa! Dois! Depressa!



Eu ria tanto que quase embiquei com o carro para cima da parede

cinzenta de concreto. Quando sa

ímos de meu Duster, pensei, por que ele

não beberia duas sodas? Sem dúvida, andou afastado delas

ultimamente

.

A pequena melhora que eu percebera em seu rosto, naquele domingo

nublado de duas semanas atr

ás, agora era definitiva. Ele continuava

exibindo uma profusão de caroços e crateras, mas nem tantos estavam





perdoem

-

me, mas preciso dizer





gotejando. Arnie pa

recia melhor,

também em outros sentidos. Um verão inteiro trabalhando na estrada o

tinha bronzeado profundamente e o deixara na melhor forma física que já

estivera na vida. Assim, pensei que ele merecia sua Pepsi. Ao vencedor os

despojos.



O Gino's

é dirigi

do por um cara italiano formidável, chamado Pat

Donahue. Em sua caixa registradora, ele tem um adesivo dizendo MÁFIA

IRLANDESA, serve cerveja verde no Dia de São Patrício (em 17 de março

a gente nem pode chegar perto do Gino's, e uma das pedidas na vitrola



automática é Rosemary Clooney cantando "Quando os Olhos Irlandeses

Sorriem") e impressiona com um chapéu

-

coco reto que, em geral, usa

empurrado bem para trás.



A vitrola autom

ática é um antigo modelo Wurlitzer, com a parte

frontal em forma de bolha, um rem

anescente dos finais dos anos 40, e

todos os discos





não apenas Rosemary Clooney





têm etiquetas pré

-

históricas. Talvez seja a última vitrola automática do país em que se

consegue três músicas por uma moeda de 25 centavos. Nas raras ocasiões

em que fumo u

m baseado, é sobre o Gino's que fantasio





vejo

-

me




entrando lá, pedindo três pizzas caprichadas, uma garrafa de Pepsi e seis

ou sete daqueles doces de chocolate feitos em casa, especialidade de Pat

Donahue. Entào, imagino

-

me apenas sentado ali e devorando

tudo,

enquanto daquela vitrola sai uma firme torrente de Beach Boys e Rolling

Stones.



Entramos, fiz o pedido e ficamos sentados, vendo os tr

ês cozinheiros

de pizza jogando a massa no ar e tornando a pegá

-

la. Estavam trocando

amenidades em espirituoso estil

o italiano, como: "Vi você a noite passada

na pista de dança do Shriners's, Howie, quem era aquela coisa desajeitada

que estava com seu irmão?". "Oh,

ela?



Era sua irmã."



Quero dizer, parecia algo como Velho Mundo, como se pode

ag

üentar?



As pessoas entravam



e sa

íam, muitas delas estudantes de meu

colégio. Dentro em breve tornaria a vê

-

las pelos corredores e senti uma

repetição daquela forte nostalgia antecipada, aquela sensação de medo.

Em minha cabeça, ouvia o sinal de ir para casa, porém de algum modo

aque

le prolongado uivo soava como um alarma.

Lá vamos nós de novo,

Dennis, esta é a última vez, porque depois deste ano terá que aprender a ser adulto.

Eu podia ouvir as portas de armários batendo com força no vestiário,

ouvia o firme

ka

-

chonk, ka

-

chonk, ka

-

ch

onk

dos atacantes, cujas bastonadas

perturbavam os adversários mais fracos, e também ouvia Marty Bellerman

gritar rigorosamente: "Vamos em frente. Pedersen! Não esqueça disso!

Vamos em frente! É melhor dizer a esses cretinos dos gêmeos Bobbsey que

se separ

em!". O cheiro seco da poeira de giz na sala de aula, na Ala de

Matemática. O som das máquinas de escrever, nas grandes salas de aulas

de secretariado, no segundo andar. O Sr. Meecham, o diretor, fazendo os

comunicados do fim do dia, em sua voz monótona e

exigente. O almoço

ao ar livre, nas arquibancadas do campo de esportes, quando o tempo era

bom. Uma nova safra de calouros, parecendo desajeitados e perdidos. E,

tudo encerrado, a gente caminha corredor abaixo, vestindo aquele enorme

roupão de banho púrpur

a





e pronto. Terminou o ginásio. Liberam

-

nos

para um mundo inimaginável.







Você conhece Buddy Repperton, Dennis?





perguntou Arnie,

despertando

-

me de meu sonho. Nossa pizza já chegara.







Buddy o quê?







Repperton.






O nome era familiar. Trabalhei no meu lado



da pizza e me forcei a

recordar, enquanto isso. Lembrei, ap

ós um momento. Eu havia tido uma

discussão com ele, quando era ainda um dos desajeitados e pequenos

calouros. Acontecera em um baile de confraternização. A banda tirava

uma folga e eu esperava na

fila de bebidas, para conseguir uma soda.

Repperton empurrou

-

me, dizendo que calouros tinham que esperar, até

que todos os mais adiantados tivessem suas bebidas. Ele era então um

segundanista do ginásio, grande e corpulento, um significativo

segundanista.

Tinha um queixo em forma de lanterna, cabelos negros,

espessos e gordurosos, e olhos pequeninos, muito juntos. Entretanto,

aqueles olhos não eram totalmente estúpidos, deixando entrever um

desagradável brilho de inteligência. Repperton era um daqueles tipo

s que

passam a maior parte do tempo no ginásio na área de fumar.



Eu ousara emitir a her

ética opinião de que, na fila de bebidas, nada

significava ser veterano. Repperton convidou

-

me a ir lá fora com ele. A

esta altura, a fila se desfizera, tornando a organ

izar

-

se em um daqueles

cautelosos porém ansiosos pequenos círculos, que geralmente prenunciam

uma briga.



Uma recepcionista apareceu então, pondo um final naquilo.

Repperton prometeu que me pegaria, mas nunca o fez. Aquele havia sido

meu único contato com e

le, exceto quando via seu nome de vez em

quando na lista de detidos no final do dia, convocando

-

os para uma ida à

secretaria do colégio. Parecia

-

me que ele fora suspenso umas duas vezes,

além disso





e quando tal acontece, em geral é um bom sinal de que o

sujeito não fazia parte da Liga de Jovens Cristãos.



Contei a Arnie meu único contato com Repperton e ele assentiu

abatido. Tocou a equimose em torno do olho, que agora adquiria uma

horrível tonalidade esverdeada.







Foi ele.







Foi Repperton quem fez isso em



seu rosto?







Hum

-

hum.



Arnie contou que conhecia Repperton dos cursos de Mecânica de

Motores. Uma das ironias da perseguida e evidentemente infeliz vida

escolar de Arnie era o fato de seus interesses e aptidões o encaminharem

precisamente para um contato d

ireto com o tipo de gente que sentia ser




seu obrigatório dever chutar para fora o recheio dos Arnie Cunningham

deste mundo.



Quando estava no segundo ano secundário, fazendo um curso

chamado Motores Fundamentais (que nada mais era senão o simples e

velho Me

cânica de Motores 1, antes que a escola conseguisse do governo

federal um bom dinheiro para treinamento vocacional), um garoto

chamado Roger Gilman fizera Arnie pôr para fora toda a merda que tinha

no corpo. Sei que isso é francamente vulgar, porém não exi

ste forma mais

delicada e elegante de expor o fato. Gilman o fez espirrar o recheio. Foi

uma surra tão contundente





que Arnie precisou faltar dois dias à escola,

enquanto Gilman tirava uma semana de férias





cortesia da direção.

Atualmente, Gilman estava

preso, acusado de roubo de automóvel. Buddy

Repperton fizera parte do círculo de amigos de Roger Gilman e, de certa

forma, herdara a liderança de seu grupo.



Para Arnie, ir à aula na Classe de Motores, era como visitar uma

zona despoliciada. Então, se conse

guia sobreviver, corria todo o trajeto até

a outra extremidade da escola, com seu tabuleiro de xadrez debaixo do

braço, para uma reunião ou jogo no clube de xadrez.



Recordo a vez em que fui a um torneio de xadrez da cidade, em

Squirrel Hill, certo dia do a

no anterior, e então vi algo que, para mim,

simbolizava a esquizofrênica vida escolar de meu amigo. Lá estava ele,

inclinado gravemente sobre seu tabuleiro, em meio àquele profundo e

palpável silêncio que é, principalmente, o que se ouve em tais ocasiões.

Após uma longa e meditativa pausa, ele moveu a pedra, com a mão tão

profundamente impregnada de graxa e óleo que nem mesmo uma lixa

conseguiria limpar.



Claro está, que nem todos os colegas de curso eram contra ele; havia

muitos rapazes que não se metiam, p

orém muitos deles permaneciam em

seus próprios e firmes círculos de amigos ou permanentemente

indiferentes. Os que se reuniam em grupos fechados, em geral provinham

da zona mais pobre de Libertyville (e não me venham dizer que

estudantes secundários não se



portam de acordo com a zona da cidade de

onde se originam; eles se portam), sendo tão sérios e calados, que se

poderia cometer o engano de classificá

-

los como imbecis. Em sua maioria,

pareciam remanescentes de 1968, com cabelos compridos amarrados em

rabo

s

-

de

-

cavalo, seus

jeans

e camisetas tingidos, mas, em 1978, nenhum




desses caras queria derrubar o governo; eles queriam crescer e tornar

-

se

Mr. Goodwrench

1

.



E as salas de aulas profissionalizantes ainda são o destino final de

alunos desajustados e durões,



que não só freqüentavam a escola





ela

lhes servia como prisão. Então, agora que Arnie mencionava o nome de

Repperton, pude pensar em vários caras que circulavam em torno dele,

como um sistema planetário. Em sua maioria, andavam pelos vinte anos e

continu

avam lutando para terminar os estudos. Don Vandenberg, Sandy

Galton, "Penetra" Welch. O verdadeiro nome de "Penetra" era Peter, mas

os outros o chamavam assim, porque era visto farejando os concertos de

rock

em Pittsburgh, à espera de conseguir entrar.



Bud

dy Repperton se tornara dono de um Camaro azul, com dois

anos de fabricação, que havia capôtado umas duas vezes para fora da Rota

46, perto do Parque Estadual das Squantic Hills





segundo Arnie, ele o

adquirira de um dos companheiros de pôquer de Darnell.

A máquina

estava legal, porém

a carroceria mostrava amplamente os tristes efeitos da

capo

tagem. Repperton o levara para a garagem de Darnell, uma semana

após Arnie ter levado Christine, embora Buddy costumasse rondar por lá

ainda antes disso.



Nos primeiros



dois dias, Repperton parecera n

ão ter dado por Arnie

em absoluto. E Arnie, naturalmente, ficava muito feliz em não ser

percebido. Entretanto, Repperton mantinha

-

se em boas relações com

Darnell, parecendo não haver qualquer problema para conseguir

ferramen

tas muito requisitadas que, em geral, só eram acessíveis em

termos de reserva.



Ent

ão, Repperton começara a envolver

-

se com Arnie. Quando

voltava da vendedora automática de Coca ou do banheiro, derrubava e

espalhava por todo o piso do boxe de Arnie uma caix

a cheia de acessórios,

chave inglesa e juntas esféricas que ele estava usando. Ou então, se Arnie

tinha um café em sua prateleira, Repperton dava um jeito de atingi

-

lo com

o cotovelo e derramá

-

lo. Depois soltava um "Bem... me descuuuulpe...!",

como Steve M

artin, com seu largo sorriso perverso no rosto. Darnell, em

                                        

             



1



Elemento especializado, em uma oficina mecân

ica e postos de serviço, com estágio em

fábricas de automóveis e apto, entre outras coisas, a orientar o cliente sobre consertos em

seu veículo, reposição de peças genuínas e orçamento definitivo do trabalho. (N.T.).






seguida, berrava para Arnie recolher todos aqueles acessórios, antes que

algum deles sumisse por um ralo no chão ou coisa assim.



Em breve, Repperton se desviava de seu caminho para dar um

vigoroso



tapa nas costas de Arnie, acompanhado por um estrondoso:

"Como est

á se saindo, Cara de Cona?".



Arnie suportou aqueles ataques com o estoicismo do sujeito que j

á

viu algo igual antes, que já passou por tudo aquilo. Provavelmente,

esperava que Buddy Reppert

on se cansasse de amolá

-

lo ou que

encontrasse alguma outra vítima para substituí

-

lo. Havia ainda uma

terceira possibilidade, quase boa demais para acontecer





sempre havia a

esperança de que Buddy fosse justamente afetado por alguma coisa e

desaparecesse d

o cenário, como seu velho companheiro Roger Gilman.



Ent

ão, a coisa chegara às vias de fato, na tarde do último sábado.

Arnie estava lubrificando o carro, principalmente porque ainda não

acumulara fundos suficientes para as centenas de outros reparos que o

Plymouth exigia. Repperton aproximou

-

se, assobiando alegremente, com

uma Coca e um saco de amendoins em uma das mãos, um macaco de mão

na outra. Ao passar pelo boxe vinte, moveu brusca e vigorosamente o

macaco à altura da cintura e quebrou um dos faróis di

anteiros de

Christine.







Arrebentou

-

o em pedacinhos





contou

-

me Arnie, sobre nossa

pizza.



Ent

ão, mostrando no rosto uma exagerada expressão de tragédia,

Buddy Repperton dissera: "Oh, poxa, veja só o que fiz! Bem... me

descuuuulpe...".



Aquilo, entretanto, e

ra o m

áximo que Arnie podia suportar. O

ataque a Christine desencadeou as ações que ele ainda não fora capaz de

liberar





impeliu

-

o à retaliação. Deu a volta ao Plymouth, com os punhos

fechados, e atacou às cegas. Em um livro ou filme, talvez ele houvesse

esmurrado Repperton certeiramente, derrubando

-

o ao chão para uma

contagem de nocaute. Uma contagem até dez.



N

ão obstante, isso raramente acontece na vida real. Arnie nem

mesmo conseguiu chegar perto do queixo de Repperton. Atingiu

-

lhe

apenas a mão, derruba

ndo ao chão o saco de amendoins e despejando a

Coca

-

Cola inteiramente no rosto e camisa de Repperton.










Muito bem, seu filho da puta!





bradou Repperton. Parecia

quase comicamente surpreso.





Vou virar seu traseiro pelo avesso!



Avan

çou para Arnie empunhand

o o macaco. Vários dos outros

homens se aproximaram às carreiras e um deles disse a Repperton que

largasse o macaco e brigasse sem vantagens. Repperton atirou o macaco

para um lado e avançou.







Darnell não tentou pôr um fim à briga?





perguntei a Arnie.







Ele não estava lá, Dennis. Desapareceu uns quinze minutos ou

meia hora antes de tudo começar. Como se

soubesse

o que ia acontecer.



Arnie contou que Repperton havia feito a maior parte do estrago

logo de sa

ída. Primeiro o olho preto; o corte no rosto (feito



pelo anel do

colégio, adquirido por Repperton durante um de seus vários últimos anos

como veterano) aconteceu logo em seguida.







Além de várias outras coisas mais





acrescentou Arnie.







Que outras coisas?



Est

ávamos sentados em uma das cabinas do fundo. Ar

nie olhou em

torno, para certificar

-

se de que ninguém olhava para nós, e então ergueu a

camiseta. Respirei de maneira sibilante, quando vi aquilo. Era um terrível

pôr

-

do

-

sol em equimoses





amarelas, vermelhas, purpúreas, marrons





cobrindo

seu peito e est

ô

mago. Estavam apenas começando a esmaecer.

Não consegui entender como ele pudera ir trabalhar, massacrado daquele

jeito.







Tem certeza de que ele não lhe quebrou alguma costela, cara?





perguntei.



Eu estava francamente horrorizado. O olho preto e o corte d

o rosto

eram caf

é pequeno, perto de toda aquela coisa. Já vira o resultado de

brigas no colégio, estivera metido em algumas, porém agora contemplava

as conseqüências de uma surra em regra, pela primeira vez na vida.







Certeza absoluta





disse Arnie, com ca

lma.





Tive sorte.







Se teve!



Arnie n

ão contou muito mais, porém um garoto que eu conhecia,

chamado Randy Turner, estava lá e me contou o sucedido com mais

detalhes, quando as aulas começaram. Segundo ele, Arnie podia ter




apanhado muito mais, porém avançar

a para Buddy com muito mais

empenho e muito mais furioso do que ele esperara.



De fato, disse Randy, Arnie saltara para Buddy Repperton como se o

diabo lhe tivesse jogado um punhado de pimenta no traseiro. Seus bra

ços

se moviam como pás de moinho, os punhos



estavam em todos os lados.

Ele gritava, praguejava e babava. Tentei imaginar o quadro e não pude





em vez disso, via apenas Arnie socando meu painel de instrumentos, com

força apenas para deixar marcas, gritando que eles pagariam.



Arnie fizera Repperton r

ecuar at

é o meio da garagem, com o nariz

sangrando (mais por puro acaso, do que por boa pontaria), tendo

-

lhe

esmurrado o peito com tal violência que ele começou a tossir,

engasgando

-

se e terminando por perder o interesse em liquidar meu

amigo.



Buddy se vir

ara, segurando a garganta e tentando vomitar. Arnie

assestara um pontap

é nos fundilhos de Repperton, com sua bota de

trabalho de biqueira de aço, derrubando

-

o espalhafatosamente sobre a

barriga e os braços. Repperton ainda arquejava e segurava a garganta c

om

uma das mãos, o nariz jorrava sangue aos borbotões e (novamente,

segundo Randy Turner) Arnie parecia disposto a chutar o filho da puta

até acabar com ele quando Will Darnell magicamente reapareceu,

gritando em sua voz resfolegante que parassem com aquel

a merda,

parassem aquela merda, aquela

merda.







Arnie pensava que a briga estava para acontecer





falei a

Randy.





Pensou que fosse coisa combinada.



Randy deu de ombros.







Talvez fosse. Podia ser. Engraçado foi a maneira como Darnell

apareceu, quando Reppe

rton começou realmente a perder.



Uns sete sujeitos agarraram Arnie e o afastaram. A princ

ípio, ele

lutou como um demônio para libertar

-

se, gritando que o soltassem,

gritando que se Repperton não pagasse o farol quebrado, ele o mataria.

Depois se deixou sub

jugar, espantado e sem consciência de como podia

ter acontecido aquilo: Repperton caído e ele ainda de pé.



Repperton finalmente levantou

-

se, a camiseta branca suja de poeira

e graxa, o nariz ainda borbulhando sangue. Mergulhou na dire

ção de

Arnie. Randy co

ntou que mais parecia um ensaio de mergulho, quase por




amor às aparências. Outros sujeitos o contiveram e o afastaram dali.

Darnell aproximou

-

se de Arnie, dizendo que lhe entregasse a chave de sua

caixa de ferramentas e desse o fora.







Céus, Arnie! Por que



não me telefonou na tarde de sábado? Ele

suspirou.







Estava deprimido demais.



Terminamos nossa pizza e comprei uma terceira Pepsi para ele. Esse

tipo de refrigerante

é um veneno para a pele, mas um alívio para a

depressão.







Não sei se ele me mandou dar o



fora por aquele sábado ou para

sempre





comentou Arnie, quando voltávamos para casa.





O que você

acha, Dennis? Será que ele me chutou de lá definitivamente?







Você disse que ele lhe pediu a chave da caixa de ferramentas.







Exato, exato, foi o que ele fez

. Nunca fui chutado de

nenhum lugar

antes.

Arnie dava a impressão de que ia chorar.







Seja como for, aquele lugar é uma droga. E Will Darnell é um

filho da puta.







Acho que seria estupidez tentar continuar lá





disse ele.





E

mesmo que Darnell me deixe vol

tar, Repperton continua lá. Eu acabaria

brigando com ele outra vez e...



Comecei a cantarolar baixinho o tema de

Rocky.







Vá para o inferno, você e o garanhão que monta, Cavaleiro da

Montanha





disse ele, sorrindo ligeiramente.





Eu lutaria

realmente

com

el

e. Só que Repperton pode atacá

-

la novamente com aquele macaco,

quando eu não estiver lá. E, se fizesse isso, não creio que Darnell o

impedisse.



Como não respondi, talvez Arnie pensasse que eu era de sua mesma

opinião. Entretanto, não me entrava na cabeça q

ue seu velho calhambeque

enferrujado, aquele Plymouth Fury, fosse o alvo principal. E, se Repperton

não pudesse completar sozinho a demolição do alvo principal, bastaria

pedir ajuda a seus amigos





Don Vandenberg, "Penetra" Welch, etc.

Calcem suas botas fe

rradas, rapazes, vamos ter uma boa diversão esta

noite.






Ocorreu

-

me que eles poderiam acabar com ele. Não apenas arrasá

-

lo,

mas

matá

-

lo

mesmo. Sujeitos como eles às vezes fazem isso. As coisas

apenas passam de um certo limite e algum garoto termina morto. V

olta e

meia, a gente lê isso nos jornais.





... deixá

-

la?







Como?



Eu não seguira o fio de sua conversa. Mais acima, a casa de Arnie

estava à vista.







Perguntei se você tinha alguma idéia sobre onde eu poderia

deixá

-

la.



O carro, o carro, o carro, era tudo so

bre o que ele falava. Arnie

começava a soar como um disco rachado. E, pior ainda, era sempre ela, ela,

ela. Era inteligente o bastante para sentir sua crescente obsessão por ela





ele, maldição, ele



, mas não dava pela coisa. Nem se mancava.







Arnie





fal

ei.





Escute aqui, cara. Você tem coisas mais

importantes com que se preocupar, em vez de espremer os miolos

imaginando onde vai deixar o carro. Onde o guardará. Quero saber onde

você vai se guardar.







Como? De que está falando?







Pergunto o que fará, se B

uddy e seus capangas decidirem que vão

fazer você dançar.



Seu rosto subitamente adquiriu uma expressão consciente





tão

subitamente que dava medo ver. Consciente, impotente e sofrido. Era um

rosto que eu podia reconhecer, pois o vira nos noticiários, quand

o tinha

apenas oito ou nove anos





o rosto de todos aqueles soldados de pijamas

negros que tinham feito o diabo com o mais bem equipado e aguerido

exército do mundo.







Farei o que puder, Dennis





disse ele.





L

E

B

AY

M

ORRE



Não tenho carro e isso me corta o co

ração,








Mas tenho um motorista e já é um começo...







Lennon e McCartney





Tinham começado a passar o filme

Nos Tempos da Brilhantina

e levei

a chefe de torcida para vê

-

lo, aquela noite. Achei uma chatura, mas ela

adorou. Fiquei lá, vendo aqueles adolescente

s completamente irreais,

dançando e cantando (se eu quisesse adolescentes

realistas





bem, mais

ou menos





veria O

Balanço das Horas,

em alguma reapresentação), de

modo que minha mente se desligou do filme. De repente, fui acometido

por uma súbita idéia, c

omo às vezes costuma acontecer quando não

estamos concentrados em nada particular.



Desculpei

-

me e fui até o saguão, para usar o telefone público. Liguei

para a casa de Arnie, com rapidez e segurança. Decorara o número dele

desde que andava pelos oito anos,



ou coisa assim. Podia ter esperado até o

filme terminar, mas aquela idéia me pareceu diabolicamente boa, para

esperar tanto tempo. O próprio Arnie atendeu.







Alô?







Aqui é Dennis, Arnie.







Oh, Dennis!



Sua voz era tão inexpressiva e alheia que fiquei um po

uco assustado.







Você está bem, Arnie?







Como? Oh, claro que estou. Pensei que você tivesse levado

Roseanne ao cinema.







É do cinema que estou ligando.







Então, o filme não deve ser tão legal assim





disse Arnie, com

aquela voz ainda monótona, monótona e t

errível.







Roseanne está achando um barato.



Pensei que aquilo arrancasse o riso de Arnie, mas houve apenas

aquele silêncio paciente, aguardando.







Escute





falei



, encontrei a resposta.







Que resposta?







LeBay





respondi.





LeBay é a resposta.










Le...





d

isse ele, em voz estranha e aguda... para então silenciar

novamente. Aquilo começava a ser mais do que um susto para mim. Eu

nunca o vira desse jeito.







Exatamente





insisti.





LeBay. LeBay tem uma garagem e me

veio a idéia de que ele comeria um sanduíche

de rato morto se a margem

de lucro fosse suficientemente alta. Se você o procurar oferecendo uma

base, digamos, de dezesseis ou dezessete pratas por semana...







Muito engraçado, Dennis.



A voz de Arnie era gélida e odiosa.







Arnie, o que... Ele desligou.



Fi

quei parado, contemplando o fone e me perguntando que diabo

estava acontecendo. Alguma nova investida de seus pais? Teria ele

voltado à garagem e descoberto um novo dano em seu carro? Ou...



Uma súbita intuição





quase uma certeza





me colheu de súbito.

Rec

oloquei o fone no gancho e caminhei para o balcão onde vendiam

doces e pipocas e perguntei se tinham o jornal daquele dia. A garota que

atendia finalmente o pescou e voltou a estourar sua goma de mascar,

enquanto eu folheava a parte final do jornal, onde p

ublicam os obituários.

A garota me vigiava, talvez querendo ter certeza de que eu não usaria o

jornal para alguma estranha perversão ou possivelmente o comesse.



Nada encontrei





ou foi o que imaginei a princípio. Então, virando

a página, vi o cabeçalho. VE

TERANO DE LIBERTYVILLE FALECE AOS

71 ANOS. Havia uma foto de Roland D. LeBay em seu uniforme do

Exército, parecendo vinte anos mais jovem e com olhos muito mais vivos

do que nas ocasiões em que eu e Arnie o tínhamos visto. A notícia era

breve. LeBay falece

ra subitamente, na tarde de sábado. Deixava um irmão,

George, e uma irmã, Márcia. Os serviços funerários estavam marcados

para terça

-

feira, às duas da tarde.



Subitamente.



Nas notícias de falecimentos, sempre lemos: "após prolongada

enfermidade," "após brev

e enfermidade" ou "subitamente". Subitamente

pode significar qualquer coisa, desde embolia cerebral a uma eletrocussão

na banheira. Recordei algo que tinha feito a Ellie, quando ela não passava

de um bebê





teria uns três anos, talvez. Eu quase a matara de



susto, com

um boneco de molas. A mão de Dennis, seu grande irmão mais velho,




girava a pequena manivela que produzia música. Nada mau. Muito

interessante. E de repente





ploft!

De dentro da caixa saltava aquele

sujeito de rosto risonho e feio nariz de ganc

ho, quase lhe atingindo o olho.

Ellie abriu um berreiro e disparou em busca da mãe, enquanto eu ficava lá,

olhando sombriamente para o boneco que oscilava de um lado para outro,

sabendo que provavelmente seria repreendido, sabendo que

provavelmente

merecia



ser repreendido





eu sabia antecipadamente que o

boneco a assustaria, brotando da música daquele jeito, de repente, com

um terrível ruído.



Brotando tão subitamente.



Devolvi o jornal e fiquei lá, olhando apaticamente para os cartazes

que anunciavam PRÓXIMA



ATRAÇÃO e PARA BREVE.



Tarde de sábado.



Subitamente.



É engraçado como as coisas às vezes acontecem. Minha repentina

idéia havia sido de que talvez Arnie pudesse levar Christine de volta para

o lugar de onde viera, pagando a LeBay por isso. Agora, no entant

o,

LeBay estava morto. De fato, morrera no mesmo dia da briga de Arnie

com Buddy Repperton





o mesmo dia em que Buddy estraçalhara o farol

de Christine.



Tive imediatamente um retrato irracional de Buddy Repperton

movimentando aquele macaco





e, no mesmo ex

ato momento,

o olho de

LeBay espirra sangue, ele emborca de pernas para o ar e, subitamente,

muito subitamente...



Pare com isso, Dennis,

me adverti.

Pare com...



Então, em algum lugar lá no fundo de minha mente, algum ponto

perto do centro, uma voz sussurro

u:

Vamos garotão, vamos rodar por aí





e

silenciou.



A garota atrás do balcão explodiu sua goma de mascar e disse:







Você está perdendo o fim do filme. É a melhor parte.







Oh, sim, obrigado.



Comecei a caminhar para a porta do cinema e então mudei o rumo,

di

reto ao bebedouro. Minha garganta estava muito seca.






Antes de terminar de beber, as portas se abriram e todos começaram

a sair. Além e acima de suas cabeças em movimento, pude ler o nome dos

participantes do filme. Roseanne surgiu à vista, olhando em torno



à minha

procura. Atraiu muitos olhares de admiração e os devolveu com

simplicidade, naquele seu jeito sonhador e contido.







Den

-

Den





disse ela, tomando meu braço. Ser chamado Den

-

Den

não é a pior coisa do mundo, ter os olhos inutilizados por um rubro

ati

çador de brasas ou uma perna amputada por uma serra elétrica deve

ser muito mais terrível, mas nunca me importei muito com aquilo.





Onde é que você esteve? Perdeu o final do filme. E o fim é...





... a melhor parte





completei para ela.





Sinto muito. Houv

e

uma necessidade fisiológica. Aconteceu quando menos esperava.







Vou te contar tudinho, se me levar até a beira do rio, por um

momento





disse ela, pressionando meu braço contra o lado macio de seu

seio.





Se estiver querendo conversar, lógico.







Foi um f

inal feliz?



Ela sorriu para mim, os olhos grandes e doces, um pouco

atordoados, como sempre. Segurou meu braço ainda mais apertadamente

contra o seio.







Muito feliz





disse.





Gosto de finais felizes. E você?







Adoro





respondi.



Eu devia estar pensando na

promessa de seus seios, mas a verdade é

que voltara a concentrar

-

me em Arnie.



Naquela noite, tive um sonho novamente, porém neste Christine era

velha





não, não apenas velha; era anciã, um terrível carro de carroceria

desmantelada, algo que se esperaria ve

r em um baralho Tarot: em vez do

Homem Enforcado, o Carro Morto. Algo que se poderia quase acreditar

ser tão velho como as pirâmides. O motor rugia, morria e expelia uma

fedorenta fumaça azulada de óleo queimado.



Ele não estava vazio: Roland D. LeBay estav

a refestelado ao volante.

Seus olhos abertos eram vítreos e mortos. A cada vez que o motor pegava,

a carroceria carcomida de ferrugem vibrava, Christine se sacudia como

uma boneca de trapos. Seu crânio descascado assentia, para diante e para

trás.






Então, o

s pneus deram seu grito terrível, o Plymouth saltou da

garagem para cima de mim e, ao fazer isso, a ferrugem dissolveu

-

se, os

vidros antigos e rachados ficaram cristalinos, os cromados cintilaram com

selvagem frescor e os velhos pneus carecas subitamente f

loresceram em

carnudos Firestones de banda branca, cada reentrância da banda de

rolamento parecendo tão funda como o Grand Canyon.



Ele estrondeou para mim, os faróis despejando círculos brancos de

ódio, e então ergui as mãos, em um gesto estúpido e inútil

de defesa,

pensando:

Céus, essa fúria interminável...





Acordei.



Não gritei. Naquela noite, sufoquei o grito na garganta.



Com grande esforço.



Sentei

-

me na cama, uma poça fria de luar batia em um pedaço do

lençol e pensei:

Falecido subitamente...



Nessa noite

, não consegui tornar a dormir tão depressa.





O



F

UNERAL



Rabo

-

de

-

peixe branco, de ponta a ponta,



E roda como algo do paraíso aqui na terra,



Bem, cara, quando eu morrer,



Jogue meu corpo na traseira



E me leve para o ferro

-

velho em meu Cadillac.







Bruce Spring

steen





Brad Jeffries, nosso capataz de turma na estrada, andava pelos

quarenta e tantos anos, era careca, atarracado, permanentemente

queimado de sol. Gostava muito de gritar





principalmente quando

estávamos atrasados nos prazos de construção





mas era um



bocado




legal como pessoa. Fui procurá

-

lo na folga do café, para saber se Arnie

pedira algumas horas livres ou a tarde inteira.







Ele pediu duas horas, para ir a um enterro





disse Brad. Tirou os

óculos de aros metálicos e massageou os pontos vermelhos que



haviam

deixado, nos lados do nariz.





Bolas, não vá

pedir

também... vou perder

vocês dois no fim da semana, de qualquer jeito, e todos os imbecis ficam

aqui.







Tenho que pedir, Brad.







Por quê? Quem é o cara? Cunningham disse que ele lhe vendera

um carro,



foi tudo. Céus, nunca pensei que alguém fosse ao enterro de um

vendedor de carros usados, além dos parentes.







Não era um vendedor de carros usados, apenas um cara. Arnie

está tendo problemas nessa área, Brad. Acho que eu devia estar com ele.



Brad suspiro

u.







Certo. Certo, certo, certo! Pode tirar uma folga, de uma às três,

como ele. Se concordar em trabalhar durante a hora do almoço e ficar até

as seis, na sexta

-

feira.







Tudo bem, Brad. Obrigado.







Vou fazer de conta que trabalharam o horário normal





dec

larou

Brad.





Se alguém da Penn

-

DOT, em Pittsburgh, descobrir, minha cabeça

vai rolar.







Ninguém descobrirá.







Será uma pena perder vocês dois, rapaz.



Pegou o jornal e procurou a parte esportiva. Vindo de Brad, aquilo

era um elogio e tanto.







Foi um bom ve

rão para nós também.







Fico satisfeito em saber, Dennis. Agora dê o fora daqui e me deixe

ler o jornal. Obedeci.



Era uma da tarde quando peguei carona em uma niveladora até o

barracão principal da construção. Ar

n

ie estava lá dentro, pendurando seu

capacete



amarelo e vestindo uma camisa limpa. Olhou para mim com

espanto.










Dennis! O que está fazendo aqui?







Vim me aprontar para um enterro





falei.





O mesmo que você.







Não





disse ele prontamente.



Naquela palavra, encerrava

-

se tudo





os sábados que não passa

va

mais em casa, a frieza de Michael e Regina ao telefone, a maneira como ele

se portara, quando lhe ligara do cinema



, fazendo

-

me perceber o quanto

me isolara de sua vida e como aquilo acontecera da mesma forma como

LeBay tinha morrido. Subitamente.







Si

m





falei.





Sonhei com o sujeito, Arnie. Está me ouvindo?

Eu

sonhei

com ele. Vou ao enterro. Podemos ir juntos ou separados, mas eu

vou também.







Não estava brincando, estava?







Quê?







Quando ligou para mim, do cinema. Ainda não sabia que ele

estava morto

, sabia?







Droga! Acha que eu ia brincar com uma coisa dessas?







Não





respondeu ele, mas demorou um pouco.



Só respondeu depois de refletir cautelosamente. Via a possibilidade

de todas as mãos agora se voltarem contra ele. Will Darnell agira assim,

bem com

o Buddy Repperton. Imagino que também seu pai e sua mãe.

Contudo, não se tratava somente deles, nem mesmo principalmente deles,

porque nenhum era a causa primordial. Era o carro.







Você sonhou com ele?







Sonhei.



Ele ficou parado, segurando a camisa limpa,

meditando naquilo.







O jornal disse Cemitério de Libertyville Heights





comentei

finalmente.





Vai pegar o ônibus ou prefere ir comigo?







Vou com você.







Boa idéia.








Postamo

-

nos em uma elevação, um pouco acima da cerimônia à

beira da sepultura, não ousando



ou não querendo descer e juntar

-

nos ao

punhado das pessoas ali presentes. Ao todo, eram menos de uma dúzia,

metade composta de velhos sujeitos vestindo uniformes que pareciam

velhos e cuidadosa

mente preservados





quase se podia sentir o cheiro da

naftali

na. O ataúde de LeBay estava em deslizadores sobre a sepultura.

Havia uma bandeira sobre ele. As palavras do pregador chegaram até nós,

levadas pela brisa quente de um final de agosto: "O homem é como a relva,

que cresce e depois é aparada, o homem é como

a flor, que desabrocha na

primavera e esmaece no verão, o homem é amor, e ama o que desaparece.



Terminada a cerimônia, a bandeira foi removida e um homem

aparentando mais de sessenta anos jogou um punhado de terra sobre o

caixão. Pequenos fragmentos saltit

aram e caíram na fossa abaixo. O

noticiário do óbito dizia que ele deixara um irmão e uma irmã. Aquele

devia ser o irmão; a semelhança não era espantosa, mas existia.

Evidentemente, a irmã não comparecera; ali havia apenas homens, em

torno do buraco no chã

o.



Dois dos sujeitos da Legião Americana dobraram a bandeira em

formato de quepe e um deles a entregou ao irmão de LeBay. O pregador

pediu ao Senhor para abençoá

-

los e guardá

-

los, que Seu rosto fulgurasse

sobre eles e lhes desse paz. Em seguida, todos come

çaram a dispersar

-

se.

Olhei em torno, procurando Arnie, porém ele não estava mais ao meu

lado. Tinha

-

se afastado um pouco e o vi de pé sob uma árvore. Havia

lágrimas em suas faces.







Você está bem, Arnie?





perguntei.



Tive absoluta certeza de não ter visto



uma só maldita lágrima

vertida pelos que circundavam a sepultura. Pensei que, se Roland D.

LeBay soubesse que Arnie Cunningham seria o único a derramar lágrimas

por ele, na cerimônia simples junto à sepultura, em um dos mais

anônimos cemitérios do oeste d

a Pensilvânia, bem poderia ter rebaixado

cinqüenta pratas do preço de seu nojento carro. Afinal de contas, Arnie

ainda estaria pagando cento e cinqüenta a mais do que o calhambeque

valia.



Ele limpou o rosto com as palmas das mãos, em um gesto quase

selvage

m.







Estou ótimo





disse.





Vamos.










Está bem.



Pensei que ele se referia à hora de irmos embora, porém Arnie não

caminhou para onde eu estacionara meu Duster, começando, em vez disso,

a descer a elevação. Comecei a perguntar

-

lhe aonde ia, mas fechei a boca

;

eu o conhecia bem, sabia que pretendia falar com o irmão de LeBay.



O irmão estava parado com dois daqueles sujeitos com tipo de

Legionários, conversando tranqüilamente, com a bandeira debaixo do

braço. Usava o terno do homem que se aproxima da aposentado

ria, com

um rendimento insuficiente. Era um tecido com fino listrado azul, os

fundilhos ligeiramente brilhantes. A gravata aparecia com a ponta

amarrotada e a camisa branca estava amarelada no colarinho.



Ele nos viu chegando.







Com licença





disse Arnie



,



mas o senhor é o irmão do Sr.

LeBay, não?







Sim, sou eu mesmo.



Ele fitou Arnie de modo inquisitivo e, pensei, um tanto desconfiado.

Arnie estendeu a mão.







Meu nome é Arnold Cunningham. Conheci seu irmão

ligeiramente. Comprei um carro dele, não faz muito

tempo.



Quando Arnie estendeu a mão, LeBay a procurou

automaticamente





entre homens americanos, o único gesto que parece

mais arraigado do que o aperto de mão é observar a braguilha, para

certificar

-

se de que o zíper foi fechado, após a saída de um toalete



público.

Entretanto, quando Arnie acrescentou que comprara um carro de LeBay, a

mão vacilou no trajeto. Por um momento, pensei que não ia haver

qualquer aperto de mãos, que ele recuaria com a sua, deixando a de Arnie

boiar no vazio.



Entretanto, ele não fe

z tal coisa... pelo menos, não de todo. Apertou

superficialmente a mão de Arnie e depois a soltou.







Christine





disse ele, em voz inexpressiva. Sim, a semelhança do

parentesco era patente: na maneira como as sobrancelhas formavam uma

prateleira acima dos

olhos, na forma do queixo, nos olhos de um azul

-

claro. Este homem, no entanto, tinha o rosto mais suave, quase gentil;

duvido que um dia fosse ficar com a aparência magra e astuta de Roland




D. LeBay.





Na última notícia sua que me enviou, Rollie disse que

a

vendera.



Deus meu, também ele usava o maldito pronome feminino. E

Rollie!

Era difícil imaginar LeBay, com seu crânio pelado e o fedorento colete

ortopédico, sendo Rollie para alguém. Seu irmão, contudo, pronunciara o

diminutivo na mesma voz seca e indife

rente. Não havia amor naquela voz,

pelo menos nenhum que eu pudesse captar.



LeBay prosseguiu:







Meu irmão não escrevia com freqüência, Sr. Cunningham, mas

tinha uma tendência a vangloriar

-

se. Eu desejaria ter para ele uma palavra

mais delicada, porém creio



que não existe. Em seu bilhete, Rollie falava do

senhor como um "pato" e disse que lhe passara o que considerava "um

conto

-

do

-

vigário".



Fiquei de boca aberta. Virei

-

me para Arnie, quase esperando outro

acesso de fúria. Seu rosto, contudo, não se modificou



em absoluto.







Um conto

-

do

-

vigário





disse brandamente





é sempre a opinião

do espectador. Acredita nisso, Sr. LeBay?



LeBay riu... com certa relutância, observei.







Este é meu amigo. Estávamos juntos, no dia em que comprei o

carro. Fui apresentado e apert

ei a mão de George LeBay.



Os soldados já se tinham ido. Nós três, eu, Arnie e LeBay,

entreolhamo

-

nos desconfortavelmente. LeBay passou a bandeira do irmão

de uma para a outra mão.







Posso ser

-

lhe útil em alguma coisa, Sr. Cunningham?





perguntou LeBay fina

lmente. Arnie pigarreou.







Eu estava pensando na garagem





disse por fim.





Compreenda,

estou consertando o carro, tentando deixá

-

lo em condições de rodar

novamente pelas ruas. Meus pais não o querem em nossa casa e, desta

forma, eu estava pensando se...







Nada feito.







... talvez pudesse alugar a garagem.







O assunto está fora de discussão. De fato, é...










Eu pagaria vinte dólares por semana





disse Arnie.





Até vinte

e cinco, se quiser. Pestanejei. Arnie se portava como um menino, preso em

areia movediça,



que decide divertir

-

se comendo alguns bombons com

arsênico.







Impossível.





LeBay parecia cada vez mais constrangido.







Apenas a garagem





disse Arnie, sua calma começando a

fraquejar.





Apenas a garagem onde o carro

estava antes.







Não é possível





disse



LeBay.





Ainda esta manhã, registrei a

casa com os corretores da Century 21, Libertyville Realty e Pittsburg

Homes. Eles ficaram incumbidos de mostrá

-

la...







Claro, dentro de algum tempo, mas até lá...







...e eu não gostaria de tê

-

lo na propriedade. Compr

eende, não?





Ele se inclinou ligeiramente para Arnie.





Por favor, não me interprete

mal. Nada tenho contra adolescentes em geral... Se tivesse, provavelmente

estaria agora em um hospício, porque lecionei no ginásio de Paradise Falls,

Ohio, durante quase

quarenta anos, e você me parece um cortês e

inteligente exemplo do gênero adolescente. De qualquer modo, tudo

quanto pretendo fazer aqui, em Libertyville, é vender a casa e dividir

qualquer que seja o produto obtido, com minha irmã em Denver. Quero

ver

-

me

livre daquela casa, Sr. Cunningham, e também livre da vida de

meu irmão.







Entendo





disse Arnie.





Faria muita diferença se eu lhe

prometesse cuidar da propriedade? Aparar a grama? Repintar as portas e

janelas? Fazer pequenos reparos? Tenho muito jeito pa

ra essas coisas.







Ele é realmente bom nisso





falei.



Para Arnie, seria bom recordar, mais tarde, que eu estivera do seu

lado... mesmo não estando.



Já contratei um homem para ficar de olho

por lá e fazer um pequeno trabalho de conservação. Aquilo soava

pl

ausível mas, de repente, tive certeza absoluta de que era mentira. E

Arnie sabia também, pensei.







Está certo. Sinto muito sobre seu irmão. Ele parecia um... um

homem de grande força de vontade.



Quando Arnie disse isso, recordei o momento em que me virara

e

tinha visto LeBay com compridas e gordurosas lágrimas nas faces.

Bem, aí

está. Fiquei sem a minha máquina, filho.










Força de vontade?





LeBay sorriu cinicamente.





Oh, sim. Ele

era um filho da mãe com força de vontade.





Pareceu não notar o ar

chocado de



Arnie.





Com licença, senhores. Creio que o sol perturbou um

pouco o meu estômago.



Começou a caminhar. Ficamos parados, não muito longe da

sepultura, vendo

-

o afastar

-

se. LeBay parou subitamente e o rosto de Arnie

iluminou

-

se, sem dúvida pensando que o hom

em mudara de idéia de

repente. Por um momento, LeBay ficou parado sobre a grama, a cabeça

baixa, na postura de quem reflete profundamente. Então tomou a

caminhar para nós.







Se quer um conselho, esqueça aquele carro





disse a Arnie.





Venda

-

o. Se ninguém o



quiser comprar inteiro, venda

-

o por peças. E se

ninguém se interessar assim mesmo, leve para o ferro

-

velho. Faça isso, o

mais rápido possível. Como quem se livra de um vício. Creio que você

seria mais feliz.



Ficou olhando para Arnie, esperando que ele dis

sesse alguma coisa,

mas não houve resposta. Meu amigo apenas o encarou fixamente. Seus

olhos tinham aquela peculiar e estranha tonalidade que adquiriam

quando a mente de Arnie estava decidida em alguma coisa, os pés bem

firmes no chão. LeBay entendeu e ass

entiu. Pareceu angustiado e um

pouco indisposto.







Bom dia, senhores. Arnie suspirou.







Bem, suponho que isto encerra tudo.



Olhou para Lebay que se afastava, com certo ressentimento.







Certo





concordei, esperando soar mais infeliz do que me sentia.



Era o

sonho. Eu não gostava da idéia de Christine novamente

naquela garagem. Era semelhante demais ao meu sonho.



Em silêncio, começamos a caminhar de volta para meu carro. LeBay

piscou para mim. Os dois LeBays tinham piscado para mim. Tomei uma

súbita, impulsiva



decisão





só Deus sabe como as coisas podiam ter sido

muito diferentes, se eu não tivesse seguido meu impulso.







Ei, cara





falei.





Tenho que dar uma mijada. Será só um ou

dois minutos, certo?







Certo





disse ele, mal erguendo os olhos.






Continuou caminha

ndo, com as mãos enfiadas nos bolsos e os olhos

cravados no chão. Caminhei para a esquerda, onde um pequeno e discreto

aviso, com uma flecha ainda menor, indicava o trajeto para os toaletes.

Entretanto, quando escalei a primeira elevação e fiquei fora da v

ista de

Arnie, dobrei para a direita e corri para o pátio de estacionamento.

Alcancei George LeBay quando ele deslizava lentamente para trás do

volante de um diminuto Chevette, com um adesivo Hertz colado no pára

-

brisa.







Sr. LeBay!





chamei, arquejante.





Sr. LeBay!





Ele ergueu os

olhos, curiosamente.





Desculpe

-

me





falei.





Sinto muito incomodá

-

lo

novamente.







Não tem importância





respondeu ele



, mas continuo firme no

que disse a seu amigo. Não posso deixá

-

lo guardar o carro na garagem.







Faz muito be

m





falei.



Suas espessas sobrancelhas se elevaram.







Aquele carro





continuei



, aquele

Fury,

não gosto dele. Ele

continuou a olhar para mim, sem dizer nada.







Não creio que aquele carro tenha feito bem a meu amigo. Talvez,

em parte seja porque... Oh, eu n

ão sei como dizer...







Está com ciúmes?





perguntou ele, brandamente.





O tempo

que seu amigo passava com você agora é dedicado a... Christine?







Bem, acho que é isso





falei.





Somos amigos há muito tempo...

Só que... bem, não creio que se trate apenas di

sso.







Não?







Não.





Olhei em torno, para ver se avistava Arnie e, nesse meio

tempo, consegui concatenar os pensamentos.





Por que disse a ele para

levar o carro ao ferro

-

velho e esquecê

-

lo? Por que disse que era como um

vício?



Ele ficou calado e receio qu

e nada tivesse a dizer





pelo menos, não

a mim. Então, quase baixo demais para eu ouvir, perguntou:







Tem certeza de que isto é da sua conta, filho?







Não sei.





De repente, parecia muito importante fitá

-

lo nos

olhos.





No entanto, eu me preocupo com Arnie

, entende? Não quero vê

-




lo sofrer. Aquele carro já lhe trouxe problemas. Não quero que a situação

fique pior.







Venha a meu hotel esta noite. Fica logo depois da Western

Avenue, na saída da 376. Acha que pode encontrar?







Ajudei a compactar os lados da ram

pa





falei, estendendo

-

lhe as

mãos.





Ainda tenho bolhas.



Sorri, mas ele não correspondeu ao sorriso.







Rainbow Hotel. Há dois, na cabeceira daquela saída. O meu é o

mais barato.







Obrigado





falei, desajeitadamente.





Ouça, acha mesmo que...







Talvez não

seja da sua conta, da minha, nem da de ninguém





disse LeBay, em sua voz macia de professor, tão diferente do selvagem

cacarejo de seu falecido irmão (porém, de certo modo, tão fantasticamente

similar).



(e este é o melhor cheiro do mundo... excetuando talv

ez o de uma cona)







No entanto, vou lhe dizer uma coisa





prosseguiu ele.





Meu

irmão não era um bom homem. Em minha opinião, a única coisa que ele

realmente amou na vida foi esse Plymouth Fury que seu amigo comprou.

Portanto, o assunto deve ser entre eles

, apenas entre eles, pouco importa o

que me diga ou o que eu lhe possa dizer.



Ele sorriu para mim. Não era um sorriso agradável e, naquele

instante, pareceu

-

me ver Roland D. LeBay espiando através de seus olhos.

Fiquei arrepiado.







Filho, você talvez ainda



seja jovem demais para buscar sabedoria

nas palavras de alguém, preferindo as suas próprias, porém eu lhe digo

isto: o inimigo é o amor.





Assentiu lentamente para mim.





Exatamente.

Os poetas se enganam com o amor, de maneira contínua e por vezes

deliber

adamente. O amor é o velho carniceiro. O amor não é cego. O amor

é um canibal com visão extremamente apurada. O amor é como os insetos:

sempre faminto.







E o que ele come?





perguntei, inconscientemente.



Não tinha idéia de perguntar coisa alguma. Cada part

e minha,

exceto a boca, considerava insana toda aquela conversa.










A amizade





disse George LeBay.





Ele come a amizade. Se

fosse você, Dennis, eu agora me prepararia para o pior.



Fechou a porta do Chevette com um pluft! macio e ligou seu motor

de máquina

de costura. O carro afastou

-

se, deixando

-

me parado no final

do piso acimentado. De repente, lembrei que Arnie podia avistar

-

me

vindo daqueles lados e então saí dali o mais depressa que pude.



Enquanto me afastava, refleti que os coveiros, enterradores,

enge

nheiros perpétuos ou fosse lá que nome tivessem nos dias atuais,

naquele momento deviam estar baixando o caixão de LeBay à sepultura. A

terra atirada por George LeBay no final da cerimônia estaria dispersa

sobre a tampa, à maneira de uma cartada vitoriosa.



Tentei afastar a

imagem, porém outra ainda pior a substituiu: Roland D. LeBay, dentro do

ataúde forrado de seda, envergando seu melhor terno e sua melhor roupa

de baixo





sem

o nauseabundo e encardido colete ortopédico,

naturalmente.



LeBay estava debaixo

da terra, LeBay estava em seu caixão, com as

mãos cruzadas sobre o peito... e por que eu tinha tanta certeza de haver

em seu rosto um largo e debochado sorriso?





U

M

H

ISTÓRICO DE

F

AMÍLIA



Não ficou sabendo em Needham?



A Rota 128 está em suas linhas de força.

..



É tão frio aqui no escuro.



É tão excitante no escuro...



-



Jonathan Richmond e os Modern Lovers





O Rainbow Hotel era bastante ruim, sem dúvida. Tinha apenas um

andar, a pavimentação do pátio de estacionamento estava rachada e duas

das letras no anúncio d

e néon estavam avariadas. Era exatamente o tipo

de lugar onde se espera encontrar um idoso professor inglês. Sei o quanto

isto pode parecer deprimente, porém é a pura verdade. E, no dia seguinte,




ele devolveria seu carro à Agência Hertz, no aeroporto, para



em seguida

tomar o avião de volta a casa, em Paradise Falls, Ohio.



O Rainbow Hotel parecia uma enfermaria geriátrica. Havia vários

grupos sentados do lado de fora de seus aposentos, nas espreguiçadeiras

de jardim que a gerência fornecia para tal finalidad

e, cruzados os joelhos

ossudos, as meias brancas puxadas para cima, sobre as canelas peludas.

Todos os homens tinham uma aparência de alpinistas envelhecidos, eram

magricelas e rijos. Em sua maioria, as mulheres desabrochavam com a

macia gordura do pós

-

cin

qüenta, uma gordura sem esperanças de

desaparecer. Desde então, comecei a perceber a existência de hotéis que

parecem cheios apenas de pessoas com mais de cinqüenta anos como se

eles ficassem sabendo desses lugares através de um Telefone de

Emergência para



Idosos, mas Decentes. Traga a sua Histerectomia e

Próstata Dilatada para o Não

-

Tão

-

Cênico Rainbow Hotel. Sem Televisão,

mas Temos Dedos Mágicos, Apenas 25 Centavos a Injeção. Não vi

qualquer pessoa jovem no exterior das unidades e, a um lado, o

enferrujad

o equipamento do

playground

permanecia vazio, os balanços

lançando compridas sombras imóveis no chão. Em cima, um arco

-

íris de

néon, justificando o nome do lugar (Rainbow), arqueava

-

se sobre o

anúncio. Zumbia como um punhado de moscas presas em uma garrafa

.



LeBay estava sentado fora da Unidade 14, com um copo na mão.

Caminhei até lá e troquei um aperto de mão com ele.







Gostaria de um refrigerante?





perguntou ele.





No escritório

há uma máquina automática que os fornece.







Não, obrigado





respondi.



Peguei

uma das espreguiçadeiras que vi diante de uma unidade

vazia e me sentei ao lado dele.







Então, deixe

-

me contar

-

lhe o que posso





disse ele, em sua voz

culta e suave.





Sou onze anos mais novo que Rollie e um homem que

ainda está aprendendo a envelhecer.



Re

mexi

-

me desajeitadamente no assento e não disse nada.







Éramos quatro





disse ele.





Rollie o mais velho, eu o mais novo.

Nosso irmão Drew morreu na França, em 1914. Ele e Rollie fizeram

carreira no Exército. Fomos criados aqui, em Libertyville. Só que, na

quela,

época, Libertyville era muito, muito menor, compreenda, apenas uma




aldeia. Pequena o bastante para ter seus endinheirados e seus párias. Nós

pertencíamos aos párias. Éramos uma família pobre. Gente sem iniciativa.

Do lado errado dos trilhos. Escolha



o clichê.



Ele deu uma risadinha contida e despejou mais cerveja em seu copo.







Em verdade, só consigo recordar uma coisa constante sobre a

infância de Rollie, afinal, ele estava no quinto ano quando nasci mas é algo

de que me lembro perfeitamente.







O que



é?







Sua raiva





disse LeBay.





Rollie estava sempre furioso.

Irritava

-

se por ter de ir à escola com roupas velhas, irritava

-

se por nosso

pai ser um bêbado que não conseguia manter um emprego fixo em

nenhuma das metalúrgicas, irritava

-

se por nossa mãe não



conseguir fazer

com que nosso pai deixasse de beber. Ficava também irritado com as três

crianças menores





Drew, Márcia e eu



, pois tornávamos a pobreza

insustentável.



Ele estendeu o braço para mim e arregaçou a manga da camisa, a

fim de mostrar

-

me os du

ros e esbranquiçados tendões de seu braço de

velho, jazendo logo abaixo da superfície da pele luzidia e estirada. Uma

cicatriz alastrava

-

se do cotovelo até o pulso, onde finalmente se desfazia.







Isto foi um presente de Rollie





disse.





Eu tinha três anos



e ele

quatorze. Eu brincava com alguns blocos de madeira pintados, que fingia

serem carros e caminhões, na calçada diante de uma casa, quando ele

apareceu, a caminho da escola. Imagino que eu estivesse em seu caminho.

Ele me empurrou, ganhou a calçada e e

ntão voltou, para empurrar

-

me de

novo. Caí com o braço sobre as estacas pontiagudas do gradil que cercava

um punhado de plantas e girassóis, que minha mãe insistia em chamar de

"jardim". Sangrei o bastante para assustá

-

los até as lágrimas todos eles,

excet

o Rollie, que se limitou a ficar gritando: "De agora em diante, fique

fora do meu caminho, seu maldito imbecil, fique fora do meu caminho,

ouviu?".



Fascinado, contemplei a antiga cicatriz que agora parecia tortuosa,

porque o pequeno e rechonchudo braço de

três anos, no decorrer dos anos,

se transformara naquele outro, um braço de velho, magro e reluzente,

para o qual então olhava. Um ferimento que fora uma feia cratera

expelindo sangue, em algum momento de 1921, alongara

-

se pouco a




pouco naquela prateada pr

ogressão de marcas, como degraus de escada

de mão. O ferimento se fechara, mas a cicatriz... se espalhara.



Um terrível e impotente estremecimento sacudiu

-

me por dentro.

Recordei Arnie, esmurrando o painel de instrumentos de meu carro, Arnie

gritando roucam

ente que ia fazê

-

los pagar, que eles pagariam, eles

pagariam.



George LeBay olhava para mim. Ignoro o que viu em meu rosto,

mas baixou a manga lentamente e, quando a abotoou com firmeza sobre a

cicatriz, foi como se tivesse fechado as cortinas sobre um pass

ado quase

intolerável.



Ele bebericou mais cerveja.







Quando meu pai chegou em casa aquela noite, estivera em uma

das bebedeiras a que chamava de "caçar um emprego", e ouviu o que

Rollie tinha feito, quase lhe arrancou a pele com uma bruta surra. Rollie,

en

tretanto, não se retratava. Chorava, mas não se retratava.





LeBay

sorriu de leve.





Por fim, aterrorizada, minha mãe gritou para meu pai

acabar com aquilo, antes que o matasse. As lágrimas rolavam pelo rosto

de Rollie, mas ainda assim, ele não se retratav

a. "Ele estava em meu

caminho", dizia, por entre as lágrimas. "E se ficar no meu caminho outra

vez, torno a fazer a mesma coisa e ninguém pode impedir

-

me, nem

mesmo você, seu maldito velho beberrão!". Então meu pai lhe bateu no

rosto, fazendo seu nariz san

grar, e Rollie caiu no chão, com o sangue

fluindo por entre seus dedos. Minha mãe gritava, Márcia chorava, Drew

estava encolhido a um canto e eu berrava em desespero, amparando o

braço enfaixado. Pois Rollie continuava dizendo: "Eu farei a mesma coisa,

seu



beberrão

-

beberrão

-

maldito

-

velho

-

beberrão!".



Sobre nós, as estrelas começavam a despontar. Uma mulher idosa

saiu de uma unidade mais abaixo, apanhou uma mala surrada em um

Ford e a levou para seus aposentos. Um rádio tocava em algum lugar. Não

estava sinto

nizado para os

rocks

em FM

-

104.







É daquela sua fúria inesgotável que mais me lembro





repetiu

LeBay, com voz macia.





Na escola, ele brigava com todos que

zombavam de suas roupas ou da maneira como seu cabelo era coitado. Ele

brigava com qualquer um, se

s

uspeitasse

que queria fazê

-

lo de vítima. Era

suspenso vezes sem conta. Por fim, saiu da escola e entrou para o Exército.






"Os anos 20 não foram uma boa época para alguém estar no Exército.

Não havia dignidade, promoções, divisas e condecorações. Não havia

n

obreza. Ele vagou de base em base, primeiro no Sul, depois no Sudoeste.

Recebíamos uma carta mais ou menos de três em três meses. Ele

continuava furioso. Enfurecia

-

se contra os que chamava de 'bostas'. Tudo

acontecia por culpa dos 'bostas'. Os bostas não l

he davam a promoção que

merecia, os bostas tinham cancelado uma licença, os bostas não

conseguiam achar o próprio traseiro, com as duas mãos e uma lanterna.

Em duas ocasiões, pelo menos, os bostas o puseram atrás das grades.



"O Exército o suportou, porque

ele era um excelente mecânico,

conseguia manter rodando os velhos e decrépitos veículos que eram tudo

quanto o Congresso permitia que tivessem."



Constrangido, vi

-

me pensando em Arnie novamente





Arnie, que

era tão hábil com as mãos.



LeBay inclinou

-

se para

diante.







Mas o talento era apenas outra fonte para a cólera de Rollie, meu

rapaz. Uma cólera que só terminou quando ele comprou aquele carro, que

agora é de seu amigo.







O que quer dizer?



LeBay deu uma risadinha seca.







Rollie consertou caminhões de combo

io do Exército, carros dos

grandões do Exército, veículos para suprimento de armas do Exército.

Consertou

bulldozers e

manteve rodando os automóveis oficiais, com cuspo

e arame de enfardar. Certa vez, quando um congressista

-

visitante

apareceu para visitar

Fort Arnold, a oeste do Texas, e teve um problema

com seu carro, o oficial

-

comandante de Rollie, que estava louco para

causar boa impressão, ordenou

-

lhe que consertasse o luxuoso Bentley do

sujeito. Oh, claro, recebemos uma carta de quatro páginas sobre aq

uele

"bosta" em particular, uma arenga de quatro páginas, destilando o ódio e

o veneno de Rollie. Era de admirar que as palavras não queimassem o

papel.



"Todos aqueles veículos... e Rollie nunca teve um carro seu, senão

após a Segunda Guerra Mundial. Mesmo



então, o único que pôde adquirir

foi um velho Chevrolet, que mal podia correr e estava corroído pela




ferrugem. Nos anos 20 e 30 mal havia dinheiro suficiente, e durante os

anos de guerra ele estava ocupado demais, procurando manter

-

se vivo.



"Permaneceu na



oficina mecânica por todos aqueles anos e

consertou milhares de veículos para os bostas, sem nunca possuir um, que

fosse todo seu. Era novamente como estar em Libertyville. Nem mesmo o

velho Chevrolet conseguia amenizar a sensação ou o velho Hudson

Hornet



usado que ele comprou, um ano depois de casado."







Casado?







Ele não lhe contou isso, contou?





disse LeBay.





Ficaria

satisfeito rememorando incessantemente suas experiência no Exército suas

experiências na guerra e suas intermináveis confrontações com o

s bostas,

enquanto você e seu amigo pudessem ouvi

-

lo, sem pegar no sono... e ele

com a mão em seu bolso, apalpando

-

lhe a carteira o tempo todo. Rollie

não se daria ao trabalho de falar

-

lhes sobre Verônica ou Rita.







Quem foram elas?







Verônica foi sua espo

sa





disse LeBay.





Casaram

-

se em 1951,

pouco antes de Rollie partir para a Coréia. Poderia ter ficado em Stateside,

compreenda. Estava casado, a mulher esperava um filho e ele se

aproximava da meia

-

idade. No entanto, preferiu ir.



LeBay contemplou pensativ

amente o equipamento sem uso do

play

-

ground.







Foi bigamia, entenda. Em 1951, ele tinha quarenta e quatro anos e

já era casado. Casado com o Exército. E com os bostas.



LeBay tornou a calar

-

se. Seu silêncio tinha algo mórbido.







O senhor está bem?





pergunt

ei por fim.







Estou





disse ele.





Apenas pensava. Tinha maus pensamentos

sobre os mortos.





Olhou para mim com serenidade, exceto no tocante

aos olhos, que pareciam sombrios e magoados.





Compreenda, meu

rapaz, tudo isso me dói muito. Como disse que se ch

amava? Não quero

ficar aqui sentado, contando todas estas tristes e velhas cantigas para

alguém que não posso chamar pelo primeiro nome. Seria Donald?







Dennis





falei.





Escute, Sr. LeBay...







Dói mais do que eu poderia imaginar





prosseguiu ele.





No

ent

anto, já que começamos, vamos terminar, não? Só vi Verônica duas




vezes. Ela era da Virgínia Ocidental. Perto de Wheeling. Era o que se

poderia chamar uma sulista do interior e não muito inteligente. Rollie foi

capaz de dominá

-

la e não lhe dava valor, o que



parecia ser seu desejo. No

entanto, creio que ela o amava, pelo menos, até acontecer aquela coisa

horrível com Rita. Quanto a Rollie, não acredito que se tenha realmente

casado com uma mulher. Ele se casou com uma espécie de... muro das

lamentações.



"As c

artas que nos mandava... bem, você deve lembrar que ele

deixou a escola muito cedo. Aquelas cartas mal escritas significavam um

tremendo esforço para meu irmão. Eram a sua ponte suspensa, sua novela,

sua sinfonia, seu grande esforço. Não creio que as escre

vesse para livrar

-

se

do veneno que tinha no coração. Acho que as escrevia para transmiti

-

lo.



"Então, quando teve Verônica, as cartas cessaram. Ele agora contava

com dois ouvidos permanentes, não precisava mais preocupar

-

se conosco.

Suponho que tenha escrit

o para ela, nos dois anos que ficou na Coréia. Em

todo esse período, recebi apenas uma, e creio que Márcia recebeu duas.

Ele não ficou feliz com o nascimento da filha, em começos de 1952; houve

apenas um comentário azedo sobre ter em casa mais uma boca par

a

alimentar e a queixa de que os bostas arrancavam dele um pouco mais."







Ele nunca subiu de posto?





perguntei.



No ano anterior, eu tinha visto parte de um longo seriado para a TV,

uma daquelas novelas de televisão, chamado

A Antiga Águia. No

dia

seguinte

, encontrando uma brochura da história no

drugstore,

comprei

-

a

esperando uma boa novela de guerra. Acabei lendo sobre guerra e paz e

fiquei com algumas idéias novas sobre as Forças Armadas. Uma delas,

que a velha questão de promoções realmente continuava f

luindo, nos

tempos de guerra. Era

-

me difícil compreender como LeBay permanecera

no Exército desde inícios da década de 20, atravessara duas guerras e

ainda era um reles meganha, quando Ike se tornou presidente.



LeBay riu.







Ele era como Prewitt, em

A Um Pa

sso da Eternidade.

Quando

avançava de posto, depois era rebaixado por alguma coisa,

insubordinação, insolência ou embriaguez. Já lhe disse que ele foi detido?

Uma das vezes foi quando urinou na terrina do ponche, no Clube dos

Oficiais em Fort Dix antes de

uma reunião. Ele pegou apenas dez dias por

este desacato; acho que eles amoleceram, acreditando que aquilo não




passasse de uma brincadeira de bêbado, exatamente como alguns dos

próprios oficiais, sem dúvida, já tinham feito como membros de

associações estu

dantis... eles não faziam, não

podiam

fazer a menor idéia

sobre o ódio e mortal desprezo que jaziam por trás daquele gesto.

Contudo, imagino que, a essa altura, Verônica poderia ter contado a eles.



Olhei para meu relógio. Nove e quinze da noite. LeBay esti

vera

falando por quase uma hora.







Meu irmão voltou da Coréia em 1953; foi quando viu a filha pela

primeira vez. Imagino que a tenha contemplado por um ou dois minutos,

para em seguida devolvê

-

la à esposa e ir remendar seu velho Chevrolet

pelo resto do dia

... entediado, Dennis?







Não





respondi, e era verdade.







Durante todos aqueles anos, a única coisa que Rollie desejava

realmente era ter um carro novo em folha. Não um Cadillac ou um

Lincoln; ele não queria nivelar

-

se à classe superior, aos oficiais, aos

bostas.

Meu irmão queria um Plymouth novo, talvez um Ford ou um Dodge.



"Verônica escrevia de vez em quando, contando que eles passavam a

maior parte de seus domingos à procura de vendedores de carros, onde

quer que Rollie estivesse servindo. Ela e o bebê a

boletavam

-

se no velho

Hornet que meu irmão possuía no momento e Verônica lia pequenos

livros de histórias para Rita, enquanto Rollie visitava pátios empoeirados,

um atrás do outro, falando com vendedor após vendedor, discutindo

sobre compressão e cavalos d

e força, cabeçotes e relação de engrenagens...

Às vezes, penso na garotinha crescendo com o fundo musical daquelas

flâmulas açoitadas pela ventania ardente de meia dúzia de blindados do

Exército, e não sei se devo rir ou chorar.



Meus pensamentos voltaram n

ovamente para Arnie.







O senhor diria que ele estava obcecado?







Sim, eu diria isso. Rollie começou a dar dinheiro a Verônica para

ela guardar. Além de sua impossibilidade de ser promovido em sua

carreira além de suboficial, meu irmão tinha um problema com



o álcool.

Não era um alcoólatra, mas mergulhava em bebedeiras periódicas, a cada

seis ou oito meses. E, terminada a bebedeira, lá se fora o dinheiro que

conseguira economizar. Nunca tinha certeza de onde o gastara.






"Supostamente, cabia a Verônica pôr um p

aradeiro nisso. Era um

dos motivos pelos quais casara com ela. Iniciada a fase da bebedeira,

Rollie exigia que ela lhe entregasse o dinheiro. Ameaçou

-

a com uma faca,

certa vez, ferindo

-

lhe a garganta. Fiquei sabendo disso por minha irmã,

que volta e meia f

alava com ela ao telefone. Verônica não entregou o

dinheiro que, naquela época





1955





chegava a cerca de oitocentos

dólares, lembre

-

se do carro, meu bem', disse ela, com a ponta da faca

encostada ao pescoço. 'Se gastar o dinheiro em bebida, nunca terá aq

uele

carro novo'."







Acho que ela o amava





falei.







É possível. Entretanto, não fique com a romântica suposição de

que o amor de Verônica modificou Rollie de algum modo. A água pode

furar a pedra, mas somente após centenas de anos. Pessoas são mortais.



El

e pareceu vacilar, quanto a acrescentar algo mais naquele sentido,

e decidiu contra. O lapso me pareceu peculiar.







De qualquer modo, Rollie nunca as agrediu





disse ele.





Lembre

-

se, ainda, de que ele estava bêbado, quando encostou a faca na

garganta da e

sposa. Hoje em dia, há um terrível falatório nas escolas sobre

drogas, e não sou contra isso, porque acho obsceno pensar em crianças de

quinze e dezesseis anos andando por aí cheias de droga, mas continuo

acreditando que o álcool é a mais vulgar, a mais pe

rigosa droga que já se

inventou... e é legal.



"Quando meu irmão finalmente deixou o Exército, em 1957,

Verônica tinha posto de lado pouco mais de mil e duzentos dólares.

Adicionável a isto, havia uma substancial pensão de invalidez, pelo

problema que ele f

icou nas costas. Rollie moveu céus e terras por essa

pensão e venceu, segundo disse.



"Assim, finalmente havia dinheiro. Compraram a casa que você e

seu amigo visitaram; mas antes mesmo que fosse considerada a idéia de

uma moradia, naturalmente havia o carr

o. O carro era sempre primordial.

As visitas aos vendedores de automóveis atingiram o auge. Por fim, ele

escolheu Christine. Recebi uma longa carta a respeito. Era um cupê

esporte Fury, ele me forneceu todos os detalhes e números em sua carta.

Não me lembr

o deles, mas garanto como seu amigo poderia citar as

estatísticas vitais de Christine, ponto por ponto."







Suas medidas





falei.






LeBay sorriu, sem o menor humor.







Exato, suas medidas. Lembro

-

me de Rollie ter escrito que o preço

afixado era pouco abaixo de



3.000 dólares, mas ele "pechinchou", segundo

disse, até chegar a 2.100 com o vendedor. Fez a encomenda, pagou dez

por cento como entrada e, quando o carro chegou, saldou o resto da

dívida em dinheiro vivo... notas de dez e de vinte dólares.



"No ano seguin

te, Rita, que então estava com seis anos, morreu

asfixiada." Saltei na cadeira e quase a derrubei. Aquela voz macia de

professor era acariciante e eu estava cansado, quase chegara a cochilar. A

última frase fora como um balde de água fria em meu rosto.







S

im, foi exatamente isso





disse ele, vendo meu ar assustado e

questionador.





Eles tinham estado "motorando" o dia inteiro. Isso havia

substituído as expedições à caça de carros. "Motorando." Foi a palavra que

ele escolheu para tais excursões. Tirara

-

a de

uma daquelas músicas de

rock

and roll

que estava sempre escutando. Todos os domingos, os três saíam

"motorando". Havia bolsas para lixo nos assentos traseiro e dianteiro. A

garota não podia deixar nada cair no piso. Não podia fazer nenhuma

sujeira. Ela apr

endera bem a lição. Ela...



LeBay recaiu novamente naquele pensativo e peculiar silêncio, para

então prosseguir.







Rollie mantinha os cinzeiros limpos. Sempre. Era um fumante

inveterado, mas batia a cinza do cigarro fora da janela, em vez de dentro

do cinze

iro. Quando terminava de fumar, jogava o toco de cigarro

também pela janela. Se tivesse alguém com ele que usasse o cinzeiro,

assim que terminava a corrida retirava o cinzeiro e o limpava com um

lenço de papel. Lavava o carro duas vezes por semana e aplica

va polidor

duas vezes ao ano. Ele próprio o consertava, alugando tempo em uma

garagem local.



Perguntei

-

me se a garagem não seria a Darnell's.







Naquele particular domingo, pararam em um

stand

de beira de

estrada para alguns hambúrgueres, a caminho de casa.



Sabe como é, não

havia nenhum McDonald's naqueles tempos, apenas

stands à

beira da

estrada. E o que aconteceu foi... bastante simples, imagino...






Novamente aquele silêncio, como se ele procurasse decidir sobre o

que devia contar

-

me ou como separar de suas



especulações o que

realmente sabia.







Ela se engasgou com um pedaço de carne





disse ele por fim.





Quando a menina começou a sufocar

-

se e levou as mãos à garganta, Rollie

parou o carro e desceu com ela. Então, deitou

-

a de costas, tentando extrair

o que a



sufocava. Claro, hoje existe um novo método, a Manobra Heimlich,

que funciona bastante bem, em situações semelhantes. De fato, uma jovem

estudante para professora salvou um menino que se asfixiava na cantina

de minha escola, ainda o ano passado, empregand

o a Manobra Heimlich.

Só que, naquele tempo...



"Minha sobrinha morreu à beira da estrada. Acho que foi uma

horrenda, assustadora maneira de morrer."



Sua voz retomara aquela sonolenta cadência professoral, porém eu

não sentia mais sono. Em absoluto.







Ele t

entou salvá

-

la. Acredito nisso piamente. Como também

acredito que foi somente a má sorte que a fez morrer. Rollie estivera em

um ambiente desumano por muito tempo e não creio que amasse

demasiadamente a filha, se é que a amava. Contudo, em questões mortais

,

algumas vezes a falta de amor pode ser uma graça salvadora. Por vezes, o

necessário é apenas a desumanidade.







Mas não daquela vez





falei.







Por fim, ele a virou de cabeça para baixo, segurando

-

a pelos

tornozelos, com isto esperando fazê

-

la vomitar. Ach

o que tentaria uma

traqueotomia com seu canivete, se tivesse a mais leve idéia de como agir.

Só que, evidentemente, ele não sabia como. Ela morreu.



"Márcia, o marido e os filhos foram ao funeral. Eu também. Aquela

foi nossa última reunião familiar. Na ocas

ião, pensei que ele teria vendido

o carro. Estranhamente, fiquei um tanto desapontado. Aquele carro

figurara tanto nas cartas de Verônica e nas poucas escritas por Rollie, que

eu já o considerava quase um membro da família deles. Entretanto, Rollie

não o v

endera. Foram nele à Igreja Metodista de Libertyville, e Christine

estava polida... reluzente... e odiosa. Estava

odiosa.





LeBay se virou e

olhou para mim.





Pode acreditar nisso, Dennis?"



Tive que engolir em seco, antes de poder responder.










Sim, posso





respondi. LeBay assentiu soturnamente.







Verônica estava no assento do passageiro, como uma boneca de

cera. O que quer que ela tivesse sido, o que quer que houvesse em seu

íntimo, desaparecera. Rollie tivera o carro, ela tivera a filha. Não se

limitou a c

horar a perda. Morreu.



Fiquei quieto, tentando imaginar





procurando pensar no que faria,

se fosse eu. Minha filha começa a engasgar e sufoca no banco traseiro de

meu carro, depois morre à beira da estrada. Eu me desfaria daquele carro?

Por quê? Não havia

sido o

carro

que a matara, mas sim aquilo que a

sufocara, um pedaço de hambúrguer e a bebida, obstruindo sua traquéia.

Então, por que desfazer

-

me do carro? Restava apenas a leve questão de

que não poderia mais olhar para ele, nem mesmo pensar nele, sem hor

ror

e tristeza. Ei, cara, um urso se queixa da floresta?







O senhor o interrogou a respeito?







Claro que sim. Márcia estava comigo. Foi depois da cerimônia. O

irmão de Verônica viera de Glory, na Virgínia Ocidental, e a levou para

casa, após o serviço fúne

bre à beira da sepultura, ela estava em uma

espécie de profundo torpor, afinal.



"Ficamos sozinhos com ele, eu e Márcia. Aquela foi a verdadeira

reunião. Perguntei

-

lhe se pretendia desfazer

-

se do carro. Ficara

estacionado logo atrás do carro fúnebre que tro

uxera sua filha para o

cemitério, o mesmo cemitério em que Rollie foi sepultado hoje. Era

vermelho e branco... a Chrysler nunca ofereceu o Plymouth Fury 1958

naquelas cores; Rollie o conseguira com tal pintura, por encomenda.

Estávamos a uns quinze metros

dele e tive uma estranha sensação... a mais

estranha

ânsia...

de afastar

-

me ainda mais, como se ele pudesse ouvir

-

nos."







O que disse o senhor?







Perguntei

-

lhe se ia vender o carro. Em seu rosto surgiu aquela

expressão dura e obstinada que eu conhecia tão

bem, desde os tempos de

criança. Era a mesma expressão de quando me atirara contra o gradil

pontiagudo. A expressão que mostrara ao chamar meu pai de beberrão,

mesmo depois dele lhe ter feito o nariz sangrar. Rollie respondeu, 'Eu

seria louco se o vendesse

, George. Christine só tem um ano de uso e rodou

somente 11.000 milhas. Sabe que nunca se consegue o preço adequado em

uma venda, a menos que um carro tenha mais de três anos'.






"Respondi: 'Se isto significa uma questão de dinheiro para você,

Rollie, alguém



roubou o que restou de seu coração e colocou uma pedra

no lugar. Quer que sua esposa veja esse carro todo dia? Que

ande

nele?

Deus do céu, homem!'



"Aquela expressão não se modificou. Não, até ele contemplar o

automóvel, estacionado ao sol... junto ao carr

o funerário. Foi o único

momento em que suas feições se suavizaram. Recordo que me perguntei

se ele algum dia olhara para Rita daquele jeito. Não creio que o tenha feito.

Não estava nele ser assim."



LeBay ficou calado por um instante, antes de continuar.







Márcia disse para ele a mesma coisa. Sempre o temera, mas

naquele dia estava mais fora de si do que amedrontada... havia recebido

as cartas de Verônica, lembre

-

se, sabia o quanto a cunhada adorava a filha.

Disse para ele que, quando alguém morre, queima

-

s

e o seu colchão,

doam

-

se suas roupas ao Exército da Salvação, seja como for, aquilo fica

liquidado de algum modo, para que os vivos possam seguir em frente. Ela

lhe disse que Verônica nunca mais poderia seguir em frente, enquanto o

carro onde a filha morre

ra continuasse na garagem.



"Com aquele seu jeito sarcástico e hediondo, Rollie perguntou se

queria que encharcasse seu carro de gasolina e acendesse um fósforo, só

porque sua filha morrera sufocada. Minha irmã começou a chorar e

respondeu que era uma excel

ente idéia. Por fim, tomei

-

a pelo braço e a

levei dali. Não houve mais diálogo com Rollie, naquela época ou mais

tarde. O carro era dele e ele ficaria insistindo em conservá

-

lo durante três

anos, antes de poder vendê

-

lo, falaria sobre as milhas rodadas até



ficar

roxo, mas o simples fato acima de tudo era que pretendia mantê

-

lo,

porque assim queria.



"Márcia e os seus voltaram de ônibus para Denver e, que me conste,

nunca mais tornou a ver Rollie e nem mesmo escreveu

-

lhe um bilhete.

Não foi ao sepultamento de



Verônica."



A esposa dele. Primeiro a filha, depois a esposa. De certa forma, eu

sabia que fora exatamente assim. Bangue

-

bangue. Uma espécie de

entorpecimento me subiu das pernas até a boca do estômago.







Ela morreu seis meses depois. Em janeiro de 1959.










Mas nada tinha a ver com o carro





falei.





Nada a ver com o

carro, certo?







Teve tudo a ver com o carro





disse ele, suavemente.



Eu não queria ouvir mais aquilo, pensei. Só que, naturalmente,

acabei ouvindo. Meu amigo era agora o dono daquele carro e, po

r causa

do carro, algo em sua vida ganhara proporções descomunais, algo que

jamais deveria ter acontecido.







Depois que Rita morreu, Verônica entrou em depressão.

Simplesmente, nunca se recuperou disso. Tinha alguns amigos em

Libertyville, e eles tentaram

ajudá

-

la... ajudá

-

la a encontrar seu caminho

novamente, como se diz. Contudo, ela não conseguiu encontrá

-

lo. De

maneira alguma.



"Fora isso, tudo ia muito bem. Pela primeira vez na vida, meu irmão

tinha bastante dinheiro. Tinha sua pensão do Exército, sua p

ensão por

incapacidade física, e conseguira um emprego de vigia noturno, na fábrica

de pneus lá para o lado oeste da cidade. Fui de carro até lá, depois do

enterro, porém não existe mais."







Ela foi à falência, faz uns doze anos





comentei.





Eu ainda era

criança. No lugar, existe hoje uma lanchonete de comida chinesa.







Eles estavam saldando as prestações da casa, na proporção de

dois pagamentos mensais. E, naturalmente, agora não tinham mais

nenhuma filhinha com que se preocupar. Para Verônica, no entanto

,

nunca houve a mínima possibilidade, o menor impulso para a

recuperação.



"Ela se dispôs ao suicídio com incrível sangue

-

frio, por tudo o que

consegui descobrir. Se houvesse manuais para aspirantes ao suicídio, ela

devia ser incluída, como exemplo a ser im

itado. Foi à loja Western Auto,

aqui na cidade, a mesma onde comprei minha primeira bicicleta, há

muitos e muitos anos, e comprou seis metros de mangueira de borracha.

Adaptou uma extremidade ao cano de descarga de Christine e colocou a

outra em uma das ja

nelas traseiras. Nunca tirara carteira de motorista,

mas sabia como ligar o motor. De fato, era tudo quanto precisava saber."



Apertei os lábios, molhei

-

os com a ponta da língua, e ouvi minha

voz, pouco mais que um roufenho lamento:







Acho que vou querer ag

ora aquela soda.










Talvez fosse melhor trazer uma para mim também





disse ele.





A soda me mantém acordado, sempre foi assim, mas acho que, de

qualquer modo, passarei acordado a maior parte desta noite.



Desconfiei que eu também. Fui apanhar as sodas no esc

ritório do

hotel e, quando voltava, parei a meio caminho, no pátio de

estacionamento. Ele era apenas uma sombra mais forte diante de sua

unidade no hotel, as meias brancas reluzindo como pequenos fantasmas.

Pensei:

Talvez o carro seja amaldiçoado. Talvez s

eja isso. Parece uma perfeita

história de fantasmas. Há um poste indicador mais adiante... próxima parada, a

Zona Crepuscular!



Bem, era ridículo, não?



Claro que era. Recomecei a caminhar. Nem carros nem pessoas

podiam ser amaldiçoados, isso era coisa de fi

lmes de terror, muito

interessante para uma noite de sábado no

drive

-

in,

porém nada tinha em

comum, absolutamente nada, com os fatos corriqueiros de vida diária, que

formam a realidade.



Entreguei a ele sua lata de soda e ouvi o resto da história, a qual

po

deria ser resumida em uma linha: e ele viveu infeliz para sempre.

Agora sozinho, Roland D. LeBay conservara sua pequena casa e o terreno,

como conservara o Plymouth 1958. Em 1965, pendurara seu quepe de

vigia e o relógio de ponto de trabalho. Mais ou menos



na mesma época,

abdicara de seus penosos esforços para manter Christine parecendo e

rodando como nova, deixara

-

a desandar, da mesma forma que alguém

pode deixar um relógio parar.







Quer dizer que o carro ficou estacionado lá fora?





perguntei.





Desde 196

5? Durante treze anos?







Não. Ele o deixou na garagem, claro





disse LeBay.





Os

vizinhos jamais admitiram um carro apenas se deteriorando, no gramado

de alguém. No campo, talvez, mas não em Suburbia, EUA.







Certo, mas estava lá fora, quando nós...







Eu se

i. Ele o colocou no gramado com um aviso À VENDA,

pregado na janela. Fiz perguntas a respeito. Estava curioso, então

perguntei. Na Legião. Em sua maioria, os antigos companheiros tinham

perdido o contato com Rollie, mas um deles contou que vira o carro no

gramado, pela primeira vez, em maio deste ano.






Eu ia dizer algo, mas me calei. Uma terrível idéia me viera à cabeça,

uma idéia que consistia simplesmente nisto:

Era muito conveniente.

Conveniente demais. Christine ficara naquela garagem escura durante

anos







quatro, oito, doze, talvez mais. Então





meses antes de eu e Arnie

passarmos por lá, de Arnie vê

-

lo





Roland LeBay subitamente o tirara da

garagem e pregara nele um aviso de À VENDA.



Mais tarde





muito mais tarde





consultei exemplares atrasados

dos jor

nais de Pittsburgh e do

Keystone,

o jornal de Libertyville. LeBay

nunca anunciara o Fury, pelo menos nos jornais, que geralmente é onde se

anuncia um carro que se quer vender. Ele apenas o deixou em sua rua

suburbana





nem mesmo era uma rua principal





e e

sperou que o

comprador aparecesse.



Naquele momento, não entendi inteiramente o resto do

pensamento





pelo menos, não de qualquer modo lógico e racional



,

mas já tivera suficiente daquilo, para sentir uma repetição daquela fria,

perturbadora sensação de me

do. Era como se ele soubesse que um

comprador estava a caminho. Se não em maio, então em junho. Ou julho.

Ou agosto. De algum modo, em breve.



Não, tal pensamento não me viera de maneira lógica ou racional. Em

vez disso, o que imaginei foi um quadro inteira

mente visceral: uma planta

carnívora, à beira de um pântano, com suas verdes mandíbulas abertas,

esperando que algum inseto pousasse nelas.



O inseto

exato.







Recordo ter pensado que ele talvez desistira temendo não ter

chance de ser aprovado no exame de mo

torista





falei por fim.





Quando o sujeito envelhece, eles exigem que faça um ou dois exames por

ano. A renovação da licença deixa de ser automática.



LeBay assentiu.







Isto me parece bem próprio de Rollie





comentou.





Contudo...







O quê?







Li em algum lu

gar, e não me lembro quem disse ou escreveu isso,

que existem "épocas" na existência humana. Chegada a "época da

máquina a vapor", uns doze homens inventaram máquinas a vapor.

Talvez apenas um deles tenha conseguido a patente ou o crédito nos

livros de His

tória, porém, de repente, lá estavam todas aquelas pessoas,




trabalhando em uma única idéia. Como explicar o fato? Apenas que é a

época da máquina a vapor.



LeBay tomou um gole de sua soda e olhou para o céu.







Chega a Guerra Civil e então, imediatamente, é

"época do navio

blindado de ferro". Depois vem a "época da metralhadora". A seguinte que

conhecemos é a "época da eletricidade", seguida pela "época do sem

-

fio".

Finalmente, a "época da bomba atômica" Como se todas essas idéias não

viessem de indivíduos, m

as de alguma grande onda de inteligência, que

flui permanentemente... alguma onda de inteligência que reside fora da

humanidade.



Ele me encarou.







Essa idéia me assusta e tenho pensado muito nisso, Dennis.

Parece haver qualquer coisa... bem, decididamente

não

-

cristã a respeito.







E, para seu irmão, havia a "época de vender Christine"?







É possível. No Eclesiastes, diz que há um tempo para tudo: tempo

para plantar e tempo para colher, tempo para a guerra e tempo para a paz,

tempo de abandonar o estilingue e

tempo de juntar pedras. Um negativo

para cada positivo. Portanto, se houve uma "época de Christine" na vida

de Rollie, deve ter havido também uma época de abandonar Christine.



"Se foi assim, ele deve ter sabido. Rollie era um animal, e os animais

ouvem per

feitamente seus instintos.



"É ainda possível que ele finalmente se cansasse dela", concluiu

LeBay.



Concordei que podia ser isso, principalmente porque me sentia

ansioso para encerrar o assunto, embora a explicação não me deixasse

plenamente satisfeito. Geo

rge LeBay não tinha visto aquele carro, no dia

em que Arnie gritara para eu voltar atrás. Contudo, eu o vira. O 58 não

parecia um carro que estivera repousando tranqüilamente em uma

garagem. Estava sujo de poeira e amassado, com o pára

-

brisa rachado, um



ra

-

choque entortado. Parecia um cadáver, que tivesse sido desenterrado

e deixado apodrecer ao sol.



Pensei em Verônica LeBay e estremeci.



Como se lesse meus pensamentos





parte deles, pelo menos



,

LeBay disse:










Pouco sei a respeito de como meu irmão viveu



ou se sentiu

durante seus últimos anos de vida, porém estou certo de uma coisa,

Dennis: quando ele achou, em 1965 ou seja lá quando foi, que era chegado

o momento de abandonar o carro, ele o abandonou. E quando achou que

era a hora de colocá

-

lo à venda, e

le o colocou à venda.



LeBay fez uma pausa.







Penso que nada mais tenho a lhe dizer... exceto quanto a acreditar,

sinceramente, que seu amigo seria mais feliz desfazendo

-

se daquele carro.

Olhei bem para ele, o seu amigo. No presente momento, não me pareceu

um jovem particularmente feliz. Estarei enganado?



Considerei a pergunta cuidadosamente. Não, felicidade não era e

nunca fora algo que se aplicasse a Arnie. No entanto, ele pelo menos

parecera contente, até ter começado a coisa com o Plymouth. Antes, era

co

mo se... tivesse alcançado um

modus vivendi

com a vida. Não era um

cara completamente feliz, mas dava para o gasto.







Não





respondi.





Não se enganou.







Não creio que o carro de meu irmão o faça feliz. Pelo contrário,

penso exatamente o oposto.





E, como

se tivesse lido meus pensamentos

alguns minutos antes, ele prosseguiu:





Não acredito em maldições, é

bom que saiba. Muito menos em fantasmas ou qualquer coisa

precisamente sobrenatural. Entretanto, acredito que emoções e eventos

possam ter uma certa... pr

olongada ressonância. Talvez as emoções

possam comunicar

-

se entre si, sob determinadas circunstâncias, caso tais

circunstância sejam suficientemente peculiares... da maneira como uma

caixa de leite adquire o sabor de certos alimentos muito condimentados,

q

ue foram deixados destampados na geladeira. Bem, pode ser apenas uma

fantasia ridícula de minha parte. Talvez fosse o caso de eu me sentir

melhor, sabendo que o carro em que minha sobrinha foi asfixiada e onde

minha cunhada suicidou

-

se tivesse sido prensad

o em um cubo de metal

sem valor. Talvez tudo quanto eu sinta seja uma sensação de decoro

ultrajado.







Sr. LeBay, o senhor disse que contratou alguém para cuidar da

casa de seu irmão, até que ela seja vendida. É verdade?



Ele se ergueu ligeiramente no assent

o.










Não, não é. Menti no impulso do momento. Não gostei da idéia

daquele carro de volta àquela garagem... como se houvesse reencontrado

o caminho de casa. Se existem emoções e sentimentos que permanecem

vivos, eles estarão lá, assim como na própria Christ

ine.





Então,

rapidamente, ele se emendou:





No

próprio

carro.





Não muito tempo depois, me despedi e segui meus faróis para casa,

através da noite, refletindo em tudo quanto LeBay me dissera. Perguntei

-

me se, para Arnie, faria alguma diferença contar

-

lhe q

ue uma pessoa

sofrera um acidente mortal em seu carro e outra, realmente, morrera

dentro dele. Eu sabia muito bem que não adiantava; à sua maneira, Arnie

podia ser tão obstinado quanto o próprio Roland LeBay. A encantadora

cena com seus pais, a respeito do



carro, demonstrara isso perfeitamente. O

fato de que ele continuava seguindo o curso de Mecânica de Motores, no

Ginásio de Libertyville, indicava a mesma coisa.



Pensei em LeBay dizendo:

Não gostei da idéia daquele carro de volta

àquela garagem... como se

houvesse reencontrado o caminho de casa.



Ele também dissera que o irmão levara o carro a algum lugar, a fim

de consertá

-

lo. Atualmente, existia em Libertyville apenas a Will Darnell's,

como garagem faça

-

você

-

mesmo. Poderia ter havido outra, nos anos 50,

ma

s eu não acreditava. No fundo, achava que Arnie estava consertando

Christine no lugar em que já tinha sido consertada antes.



Tinha

sido. Essa era a frase correta. Devido à briga com Buddy

Repperton, Arnie receava deixar o carro lá por mais tempo. Desta for

ma,

era possível que aquela via para o passado de Christine também estivesse

bloqueada.



E, naturalmente, não existem maldições. Mesmo a idéia de LeBay,

sobre emoções que se prolongam, era completamente absurda. Ele próprio

nem devia acreditar nisso. Exibir

a

-

me uma antiga cicatriz e usara a

palavra vingança. Sem dúvida, aquilo era bem mais próximo da verdade

do que qualquer falsa tolice sobrenatural. Sem dúvida.



Era isso. Eu tinha dezessete anos, iria para a universidade no ano

seguinte e não acreditava em c

oisas tais como maldições e emoções que

perduram, azedando o leite derramado dos sonhos. De modo algum

acreditava no poder do passado em estender suas horrendas mãos mortas

para os vivos.






Entretanto, agora sou um pouco mais velho.





M

AIS

T

ARDE

,



N

AQUELA

N

OIT

E



Quando eu estava motorando na montanha



Vi Maybelline em um Cupê de Ville,



Um Cadillac, disparando estrada afora,



Mas nada ultrapassava meu Ford V8...







Chuck Berry





Mamãe e Elaine já tinham ido dormir, porém papai estava acordado,

assistindo ao noticiári

o das 23 horas na TV.







Por onde andou, Dennis?





perguntou.







Jogando boliche





respondi.



A mentira veio natural e instintivamente a meus lábios. Não queria

que papai soubesse de nada daquilo. Embora fosse peculiar, não o era o

bastante para ser mais do q

ue moderadamente interessante. Pelo menos,

foi assim que racionalizei.







Arnie telefonou





disse ele.





Pediu que você ligasse, se voltasse

antes das onze e meia, mais ou menos.



Olhei para o meu relógio. Apenas onze e vinte. Entretanto, será que

já não tiv

era o bastante de Arnie e seus problemas para um dia?







E então?







Então, o quê?







Não vai telefonar para ele? Suspirei.







Está certo, acho que vou.



Fui até a cozinha, preparei um sanduíche de frango frio, enchi um

copo de Ponche Havaiano





um negócio espe

sso, mas eu adoro





e

disquei para a casa de Arnie. Ele mesmo atendeu, ao segundo toque.

Parecia alegre e excitado.










Dennis! Onde foi que esteve?







Jogando boliche





falei.







Escute, voltei à garagem de Darnell esta noite, sabe? E... escute só,

Dennis...

ele chutou Repperton! Repperton saiu e eu posso ficar!



Senti novamente aquele medo tomando forma em meu estômago.

Larguei o sanduíche. De repente, não o queria mais.







Arnie, acha que continuar lá é mesmo uma boa idéia?







O que quer dizer com isso? Reppert

on se foi. Não

acha

que é uma

boa idéia?



Pensei em Darnell, ordenando a Arnie que tirasse o carro de lá, antes

que poluísse sua garagem imunda. Darnell, dizendo a Arnie que não

explorava merda nenhuma de garotos como ele. Pensei na maneira

envergonhada com

o ele desviara os olhos, ao contar que conseguira hora

no elevador, para trocar seu óleo, fazendo "uns dois favores". Tive a

impressão de que Darnell talvez achasse divertido transformá

-

lo em seu

empregadinho de estimação. Sem dúvida, isso também divertiri

a bastante

os

habitués

e seus companheiros de pôquer. Arnie, vá buscar café, Arnie,

traga biscoitos, Arnie, mude os rolos de papel sanitário da privada e encha

o toalheiro com toalhas de papel.

Ei, Will, quem é o quatro olhos rondando lá

pelo banheiro?...

Oh, aquele? Seu nome é Cunningham. Os velhos dele lecionam

na universidade. Ele está aqui fazendo uma merda de curso de pós

-

graduação.

E

eles riram. Arnie se transformaria na piada local da garagem de Darnell,

em Hampton Street.



Pensei isso tudo, mas nada

disse. Achei que Arnie poderia muito

bem decidir se estava caminhando pela água ou pisoteando merda.

Aquilo não podia durar muito





ele era bastante esperto para ver. Bem,

assim esperava eu. Arnie era feio, mas não debilóide.







Se Repperton caiu fora, acho



que é uma excelente idéia





respondi.





Apenas pensei que a garagem de Darnell fosse uma medida

temporária. Quero dizer, vinte por semana, Arnie, é muita grana, sem

falar no aluguel de ferramentas, do elevador e tudo o mais.







Por isso pensei que seria fo

rmidável alugar a garagem do Sr.

LeBay





disse ele.





Achei que, mesmo pagando vinte e cinco por

semana, estaria em melhor situação.










Bem, isso é com você. Se pusesse um anúncio no jornal,

procurando vaga em uma garagem, aposto como...







Um momento, deixe

-

me terminar, Dennis





disse Arnie, ainda

excitado.





Quando fui lá esta tarde, Darnell me chamou de lado

imediatamente. Disse que lamentava o que Repperton fizera comigo.

Disse também que me julgara erradamente.







Darnell disse isso?



Acho que acreditei, m

as não confiei muito.







Exato. Perguntou se eu gostaria de trabalhar para ele, em horas

extras. Dez, talvez vinte horas por semana, durante as aulas. Separando

peças, manobrando o elevador, coisas assim. E posso ficar com o boxe por

dez dólares semanais, p

agando metade do aluguel pelas ferramentas e o

elevador. O que acha disso?



Pensei que era infernalmente bom demais, para ser verdade.







Veja bem onde põe o traseiro, Arnie.







O quê?







Meu pai diz que ele é um escroque.







Não vi o menor sinal disso por lá.

Acho que tudo não passa de

boato, Dennis. Darnell faz muito barulho, mas creio que é tudo.







Estou apenas dizendo para você ficar prevenido.





Passei o fone

para o outro ouvido e bebi um pouco de Ponche Havaiano.





Fique de

olhos bem abertos e caia fora de

pressinha, se a barra começar a ficar

pesada demais.







Está falando de alguma coisa específica?



Pensei nas vagas histórias sobre drogas e nas mais específicas sobre

carros roubados.







Não





respondi.





Apenas não confio nele.







Bem...





disse Arnie, hesita

nte. Pareceu refletir, mas retornou ao

tema original: Christine. Com ele, o tema sempre voltava a Christine.





De qualquer modo, vai ser legal, muito legal para mim, Dennis, se der

certo. Christine... está realmente mal. Consegui fazer algumas coisas nela,



mas para cada uma que faço, parece que tem mais quatro. Algumas que

ainda não sei resolver, mas vou aprender.










Hum

-

hum





falei, dando uma dentada no sanduíche.



Após minha conversa com LeBay, o entusiasmo por Christine, a

garota de Arnie, passara do zero

e penetrara em regiões negativas.







Ela precisa de um alinhamento das rodas dianteiras... Diabo, ela

precisa de pneus dianteiros novos, e novas sapatas de freios... anéis de

segmento... Posso tentar retificar os pistons... mas não conseguirei nada

disso co

m meu estojo de ferramentas Craftsman, de cinqüenta e quatro

pratas. Entende o que quero dizer, Dennis?



Era como se ele estivesse suplicando a minha aprovação. Com vazio

no estômago, lembrei

-

me de repente de um sujeito que tinha sido nosso

colega na escola

: Freddy Darlington, era o seu nome. Fred nada tinha de

excepcional, mas era um bom sujeito, com um senso de humor legal.

Então, conheceu uma prostituta de Penn Hills





estou querendo dizer

uma puta de verdade, a mais feliz em dar para todos, a maria

-

batal

hão,

escolha o seu pejorativo predileto. Tinha uma cara bronca e idiota, que me

fazia lembrar a traseira de um caminhão Mack, e não parava de mastigar

chicletes. O cheiro de Tutti

-

Frutti pairava em torno dela, numa nuvem

constante. Ficou grávida mais ou me

nos na época em que Freddy lhe

botou as mãos. De certa forma, sempre imaginei que ele a tivesse

apanhado, porque fora a primeira garota a deixá

-

lo ir até o fim. Aconteceu,

em seguida, que ele saiu da escola, arranjou emprego em um depósito, a

princesa teve



o bebê e Freddy apareceu com ela no baile de encerramento

do ginásio, no último mês de dezembro, querendo que tudo fosse o

mesmo, quando nada é mais o mesmo; e lá está ela, olhando para todos

nós, os rapazes, com aqueles olhos mortos e desdenhosos, as man

díbulas

subindo e descendo como as de uma vaca ruminando algo

particularmente saboroso, enquanto tínhamos que ouvir as novidades: ela

está de volta à pista de boliche, de volta à cantina de Libertyville, de volta

ao Gino's, andando de carro enquanto Freddy



trabalha, retornou ao

trabalho duro, dando para todos e divertindo a tropa. Sei que se costuma

dizer que um pau não tem consciência, mas eu lhe digo agora que certas

conas têm dentes, e então, ao olhar para Freddy, que parecia dez anos

mais velho, tive vo

ntade de chorar. Depois, quando Freddy falou sobre ela,

foi naquele mesmo tom suplicante que eu captava na voz de Arnie,

soando ao telefone em meu ouvido, naquele exato momento...

Vocês

gostaram mesmo dela, não foi, caras? Ela não é legal, caras? Não me sa

í tão mal,

hein, caras? Quero dizer, talvez seja apenas um pesadelo e logo estarei acordado,

certo? Certo? Certo?










É claro que entendo





falei ao telefone.





Tem razão, Arnie.



Toda aquela horrível, nojenta história de Freddy Darlington levara

talvez dois

segundos passando por meu cérebro.







Ótimo





disse ele, aliviado.







Apenas veja onde mete o traseiro, cara. E isto vale dobrado, para

quando voltar às aulas. Fique longe de Buddy Repperton.







Certo. Pode apostar que sim.







Arnie...







O quê?



Fiz uma pausa.

Queria perguntar

-

lhe se Darnell mencionara alguma

coisa sobre Christine ter estado antes em sua oficina, se a reconhecera.

Ainda mais, eu queria dizer

-

lhe o que acontecera à Sra. LeBay e sua

filhinha, Rita. Só que não pude. Ele adivinharia imediatamente de



onde

viera a informação. E, em seu estado emocional sobre o maldito carro,

poderia muito bem pensar que eu estivera agindo por trás de suas costas e,

de certo modo, fora isso mesmo. Contar tudo a ele talvez significasse o fim

de nossa amizade.



Eu já me en

chera de Christine, mas ainda me preocupava com Arnie.

Isto significava que aquela porta devia ser fechada para sempre. Nada

mais de andar me esgueirando e fazendo perguntas. Nada mais de

sermões.







Nada





respondi.





Ia apenas dizer que você parece ter

en

contrado um lar para sua banheira enferrujada. Parabéns.







Está comendo alguma coisa, Dennis?







Estou: um sanduíche de frango. Por quê?







Porque está mastigando em meu ouvido. É grosseiro demais.



Comecei a mastigar o mais ruidosamente que pude. Arnie imito

u

arrotos. Começamos a rir e aquilo foi bom





era como nos velhos tempos,

antes de seu casamento com aquele maldito e fodido carro.







Você é um filho da mãe, Dennis.







Certo. Aprendi com você.







Viado





disse ele e desligou.








Terminei o sanduíche e o Ponch

e Havaiano, lavei o prato e o copo e

voltei para a sala, disposto a tomar uma ducha e ir para a cama. Estava

exausto.



A certa altura de minha conversa ao telefone, ouvira a TV ser

desligada, o que me fez supor que papai tivesse subido. Não subira.

Continua

va ali, em sua poltrona reclinável, com a camisa aberta. Um tanto

desconcertado, reparei como os pêlos de seu peito estavam ficando

grisalhos, a maneira como o abajur de leitura, ao lado dele, penetrava

através de seus cabelos e mostrava o rosado do couro

cabeludo. O cabelo

estava rareando ali. Meu pai não era mais uma criança. Com maior

desconcerto ainda, refleti que em mais cinco anos, à época em que,

teoricamente, eu terminaria a faculdade, ele estaria com cinqüenta anos e

ficando calvo, o estereótipo do



guarda

-

livros. Cinqüenta anos em cinco, se

antes não caísse duro, com outro ataque cardíaco. O primeiro não tinha

sido grave





nenhuma cicatriz miocardiana, respondeu ele certa vez,

quando lhe perguntei. Entretanto, ele não tentara dizer que seria

imprová

vel um segundo ataque. Eu sabia dessa possibilidade, mamãe

sabia e ele também. Somente Ellie ainda o considerava invulnerável





mas eu não percebera uma pergunta em seus olhos, uma ou duas vezes?

Eu tinha quase certeza disso.



Falecido subitamente.



Senti os



cabelos se eriçarem em minha cabeça.

Subitamente.

Retesando

-

se em sua mesa de trabalho, apertando o peito.

Subitamente.

Deixando cair a raquete na quadra de tênis. Ninguém gosta de ter tais

pensamentos sobre o próprio pai, mas às vezes eles aparecem. Deus



sabe

que sim.







Não pude deixar de ouvir parte do que falou





disse ele.







É mesmo?





falei, prudentemente.







Arnie Cunningham meteu o pé em um balde de algo quente e

sujo, Dennis?







Eu... eu não tenho certeza





falei, lentamente.



Bem, afinal de contas, o



que eu tinha para confirmar? Noções vagas,

nada mais.










Quer falar a respeito?







Agora não, papai, se você não se importa.







Está bem





disse ele.





No entanto, se... como você disse ao

telefone, se a barra ficar muito pesada, pelo amor de Deus, quer me c

ontar

o que estiver acontecendo?







Certo, contarei.







Muito bem.



Comecei a caminhar para a escada e estava quase lá, quando ele me

deteve, ao dizer:







Fiz a contabilidade de Will Darnell e suas declarações de imposto

de renda durante quase quinze anos, voc

ê sabe.



Virei

-

me para ele, francamente surpreso.







Não. Eu não sabia.



Meu pai sorriu. Era um sorriso. Eu nunca o vira antes, podia

imaginar que mamãe o vira apenas algumas vezes e minha irmã talvez

nunca. Poder

-

se

-

ia pensar, a princípio, que fosse uma espé

cie de sorriso

sonolento, mas uma observação melhor diria que nada tinha de

sonolento





era cínico, rude e totalmente consciente.







Pode ficar de boca fechada sobre uma coisa, Dennis?







Posso





falei.





Acho que posso.







Não adianta apenas achar que pode.







Está bem. Eu posso.







Ótimo. Fiz a contabilidade de Darnell até 1975 e então ele

contratou Bill Upshaw, lá de Monrolville.



Meu pai me fitou atentamente.







Eu não diria que Bill Upshaw é um escroque, mas posso dizer

que seus escrúpulos são bastante transp

arentes para que se leia um jornal

através deles. E, no ano passado, ele comprou uma casa em Sewickely, no

estilo Tudor inglês, valendo 300 mil dólares. Pagamento à vista.



Fez um gesto para nossa casa, com um pequeno aceno do braço

direito e o deixou cair

de novo em seu colo. Ele e mamãe a tinham




comprado no ano em que nasci, por 62 mil dólares





agora devia valer

uns 150 mil





e só recentemente tinham conseguido resgatar a última

promissória do banco. Tivemos uma festinha no quintal, no fim do verão

passad

o. Papai acendeu a churrasqueira, espetou o pequeno papel rosa na

ponta do espeto mais comprido e cada um de nós teve a chance de segurá

-

lo sobre as brasas, até ele desaparecer por completo.







Nada de Tudor inglês por aqui, hein, Dennis?





comentou.







Esta



casa é legal





falei. Recuei e sentei

-

me no sofá.







Eu e Darnell nos separamos amistosamente





prosseguiu meu

pai



, não que eu me preocupasse muito com ele, em termos pessoais.

Sempre o achei um vigarista.



Assenti de leve, porque gostava daquilo; express

ava meus

sentimentos sobre Will Darnell, melhor do que qualquer palavrão.







No entanto, há toda uma diferença entre um relacionamento

pessoal e um relacionamento profissional. Deve

-

se aprender bem depressa

nesse assunto, ou a gente desiste e passa a vender



escovas e vassouras de

porta em porta. Nosso relacionamento profissional era bom, enquanto

durou... porém não durou muito. Então, decidi acabar com aquilo.







Não compreendo.







Havia sempre dinheiro aparecendo





disse ele.





Grandes

quantidades de dinheiro

, sem uma procedência limpa. A pedido de

Darnell, investi em duas sociedades anônimas, Aquecimento Solar

Pensilvânia e Gráfica Nova Iorque, que pareciam as firmas mais falsas

dentre todas que eram de meu conhecimento. Por fim, procurei

-

o, porque

queria ter



todas as minhas cartas na mesa. Comuniquei

-

lhe qual era a

minha opinião profissional: se houvesse uma auditoria do pessoal do

Imposto de Renda ou do Estado da Pensilvânia, era bem provável que ele

tivesse muitas explicações a dar e que logo eu estaria sab

endo demais para

lhe ser útil.







O que ele disse?







Começou a ficar inquieto





respondeu meu pai, ainda

mostrando aquele sorriso sonolento e cínico.





Na minha profissão, a

gente fica familiarizado com os sinais da inquietação, aos trinta e oito anos,

mais



ou menos... quero dizer, se formos bons no que fazemos. E eu não

sou dos piores. A intranqüilidade começa com o sujeito perguntando se




estamos satisfeitos com o trabalho, se o pagamento é suficiente. Se

respondemos que gostamos do trabalho mas, sem dúvida

, podíamos estar

ganhando mais, o sujeito nos encoraja a contar o que nos está pesando nas

costas: a casa, o carro, o colégio dos filhos, talvez uma esposa que goste de

roupas um pouco mais elegantes do que o orçamento doméstico permite...

Você entende?







Uma sondagem, certo?







É mais como apalpar

-

nos





disse ele, e então riu.





Pois bem, a

dança é semelhante a um minueto, ponto por ponto. Há todos os tipos de

frases, de passos e pausas. Depois que o sujeito confessa quais as cargas

financeiras de que gosta

ria de livrar

-

se, ele começa perguntando que tipo

de coisas gostaria de ter. Um Cadillac, uma casa de verão nas Catskills ou

Poconos, talvez um barco.



Sobressaltei

-

me ao ouvi

-

lo, sabendo o quanto meu pai sonhava com

um barco





era o que mais desejava naque

la época





por duas vezes,

fora com ele a marinas, ao longo do lago Rei George e do lago

Passeeonkee, em tardes ensolaradas de verão. Perguntava o preço dos

iates menores e eu vira um brilho cobiçoso em seus olhos. Agora,

começava a entender. Estavam fora

do nosso alcance. Sua vida talvez

tivesse tomado um rumo diverso se ele não tivesse de pensar em uma

universidade para os filhos, por exemplo.







E você recusou?





perguntei. Meu pai deu de ombros.







Já no início da conversa, deixei bem claro que não queria



dançar.

Antes de mais nada, porque isso significaria envolver

-

me mais com ele em

nível pessoal e, como disse, considerava

-

o um trapaceiro. Por outro lado,

tais sujeitos são fundamentalmente ignorantes no tocante a números, um

dos motivos pelos quais muito

s deles foram apanhados por sonegação de

impostos. Eles acham que a gente pode camuflar um rendimento ilegal.

Estão certos disso.





Papai riu.





Enfiaram na cabeça essa idéia mística

de que podemos lavar dinheiro como lavamos roupas, quando tudo

quanto pod

emos realmente fazer é um malabarismo, até que isso

desmorone e nos caia na cabeça.







Foram esses os motivos?







Dois ou três deles.





Papai me fitou dentro dos olhos.





Não sou

nenhum maldito trapaceiro, Dennis.






Houve um momento de instantânea comunicação

entre nós





ainda

agora, quatro anos mais tarde, fico arrepiado ao pensar nisso, embora não

possa afirmar que sou capaz de transmitir a vocês a sensação. Não porque

ele me tratasse como igual aquela noite, pela primeira vez; não porque

estivesse me mostran

do o ansioso cavaleiro errante, ainda escondido

dentro do homem que, de cabeça baixa, lutava pela vida em um mundo

sujo e desonesto. Creio que o percebia como uma

realidade,

alguém que

existia muito antes de minha chegada ao palco, uma pessoa que tivera su

a

ração de sofrimento. Nesse momento, acho que poderia tê

-

lo imaginado

fazendo amor com minha mãe, ambos suados e esforçando

-

se pelo final





e não ficaria embaraçado.



Então ele baixou os olhos, esboçou um sorriso defensivo e fez aquela

voz seca e vigorosa

de Nixon, uma imitação em que era muito bom:







Vocês merecem saber se seu pai é um trapaceiro. Bem, eu não sou

um trapaceiro, podia ter aceitado o dinheiro, mas isso...

ha

-

rrrã...

teria sido

errado.



Ri alto demais, uma liberação da tensão





e senti o momen

to passar;

embora parte de mim não o desejasse, a outra parte queria isso era

demasiado intenso. Penso que ele devia sentir o mesmo.







Pssst! Vai acabar acordando sua mãe e ela fará o diabo conosco,

por ficarmos acordados até tão tarde.







Desculpe. Escute,



papai, você sabe em que ele está metido? Estou

falando de Darnell.







Naquele tempo eu não sabia e nem queria saber, porque então

seria uma parte da coisa. Tinha minhas idéias e ouvi algumas coisas.

Carros roubados, imagino. Não que Darnell os tenha levado



para aquela

garagem da Hampton Street; ele não é totalmente imbecil, e só mesmo um

idiota sujaria o prato onde come. Talvez esteja também envolvido em

contrabando.







Armas e munições?





perguntei, em voz algo rouca.







Nada tão romântico. Se eu fosse capaz



de adivinhar, diria que

principalmente cigarros... cigarros e bebidas, os dois velhos e infalíveis

produtos. O contrabando é como um delírio. Talvez um carregamento de

fornos de microondas ou televisões coloridas, de vez em quando, se o

risco for baixo. O



suficiente para mantê

-

lo ocupado durante tantos anos.






Papai me fitou com ar grave.







Ele tem enfrentado bem os riscos e teve sorte por muito tempo,

Dennis. Bem, nesta cidade, talvez não precisasse realmente de sorte. Se

tudo fosse exatamente como em Lyber

tyville, acho que ele poderia

continuar para sempre ou, pelo menos, até cair morto com um ataque do

coração, mas os rapazes dos impostos estaduais são cações, enquanto os

federais são as grandes baleias brancas. Ele teve sorte, mas qualquer dia os

agentes

vão cair em cima dele, como a Grande Muralha da China.







Você... você soube de alguma coisa?







Nem um sussurro. Aliás, não estou em posição de saber nada.

Acontece, apenas, que gosto muito de Arnie Cunningham e sei que você

anda preocupado com essa históri

a do carro.







Certo. Ele está... bem, ele não está se portando com muita lucidez

com relação a isso, papai. Tudo para Arnie é o carro, o carro, o carro.







Pessoas sem muitas chances tendem a agir assim





disse ele.





Às vezes é um carro, em outras uma namo

rada, uma carreira ou

instrumento musical, quando não, uma obsessão doentia por alguma

figura famosa. Tive um colega alto e feio, a quem chamávamos de

Cegonha. Com Cegonha, foi o trenzinho elétrico. Ele foi apaixonado por

trenzinhos desde o segundo grau, e



seu conjunto era quase a oitava

maravilha do mundo. Ele deixou Brown no segundo semestre de seu ano

de calouro. Estava com notas péssimas, e teve que escolher entre o colégio

e seus trens Lionel. Cegonha preferiu os trens.







O que aconteceu com ele?







Mat

ou

-

se em 1961





disse meu pai e levantou

-

se.





Minha

opinião é que pessoas decentes às vezes podem ficar cegas e nem sempre

por culpa delas. Talvez Darnell acabe deixando Arnie de lado. Passará a



-

lo apenas como outro cara qualquer, escorregando para bai

xo de seu

carro em um deslizador. Entretanto, se Darnell tentar usá

-

lo, olhe por ele,

Dennis. Não o deixe ser puxado para a dança.







Está bem, vou tentar, mas talvez não possa fazer grande coisa.







Hum

-

hum. Sei disso muito bem. Vai subir?







Claro.








Subimos



e, embora cansado como estava, fiquei muito tempo

acordado. Aquele fora um dia movimentado. Lá fora, um vento noturno

agitava suavemente um ramo contra o lado da casa e, muito distante, no

centro da cidade, ouvi garotos fazendo chiar os pneus no asfalto u

m som

que, dentro da noite, assemelhava

-

se ao gargalhar desesperado de uma

mulher histérica.





C

HRISTINE E

D

ARNELL



Ele soube de um casal



vivendo nos EUA,



Contou que eles trocaram seu bebê por um Chevrolet:



Falemos agora do futuro,



Esqueçamos o passado...







Elvis Costello





Entre trabalhar durante o dia no projeto da construção da estrada e

trabalhar em Christine à noite, Arnie não estivera muito tempo com seus

pais. As relações haviam ficado bastante tensas e desgastantes. O lar dos

Cunningham, que sempre for

a agradável e relaxante no passado, agora

era um campo armado. Esta é uma situação que muita gente lembra de

sua adolescência, imagino; talvez, gente demais. O adolescente é egoísta

bastante para considerar

-

se a primeira pessoa do mundo a descobrir certa

c

oisa em particular (geralmente é uma garota, mas nem sempre tem que

ser assim), e os pais são demasiado broncos e possessivos, têm medo de

soltar o cabresto. Ambos os lados pecam. Algumas vezes, isso se torna

doloroso e ultrajante





nenhuma guerra é tão su

ja e amarga como uma

guerra civil. Tal situação era particularmente penosa no caso de Arnie,

porque a separação acontecera muito tarde, seus pais já estavam

demasiado acostumados a manejar tudo à sua maneira. Não seria injusto

afirmar que haviam programado



a vida do filho.



Assim, quando Regina e Michael propuseram um fim de semana de

quatro dias em sua casa do lago, ao norte do Estado de Nova Iorque, antes

do reinicio das aulas, Arnie concordou, embora desejasse ardentemente




aqueles últimos quatro dias para



trabalhar em Christine. Passando cada

vez mais horas trabalhando, ele me contara como ia "mostrar a eles", ia

transformar Christine em um carro de verdade e "mostrar a todos eles". Já

planejara restaurar o vermelho brilhante e marfim original do Plymouth,



após terminado o trabalho na carroceria.



Contudo, lá se foi com os pais, determinado a ser obediente e afável

durante aqueles quatro dias inteiros e divertir

-

se com eles





em um fac

-

símile racional. Apareci em sua casa, na véspera de partirem, e fiquei

al

iviado ao perceber que ambos me tinham absolvido de culpa no assunto

do carro de Arnie (que ainda não tinham nem mesmo visto).

Aparentemente, haviam decidido ser aquilo uma obsessão particular. Para

mim, foi ótimo.



Regina estava ocupada, fazendo as malas.

Ajudei Arnie e Michael a

amarrarem sua velha canoa Oldtown na capota do Scout, o carro da

família. Terminado o trabalho, Michael sugeriu ao filho





com o ar de um

rei poderoso, concedendo um favor quase inacreditável a dois de seus

vassalos favoritos





que



ele entrasse e pegasse algumas cervejas para nós.



Fingindo a expressão e o tom de admirada gratidão, Arnie

respondeu que seria formidável. Ao afastar

-

se, piscou

-

me um olho.



Michael recostou

-

se contra o Scout e acendeu um cigarro.







Arnie já está se cansan

do dessa história do carro, Dennis?







Não sei





respondi.







Quer me fazer um favor?







Claro, se eu puder





respondi cauteloso.



Tinha certeza de que ele me pediria para procurar Arnie, bancar o

conselheiro e tentar convencê

-

lo a "parar com aquilo". No entan

to, ele

disse:







Se tiver tempo, vá até a Darnell's enquanto estivermos fora e veja

que tipo de progresso ele está fazendo. Fiquei interessado.







Por que esse interesse?



Mal fiz a pergunta, pensei imediatamente que fora bastante rude,

mas era tarde demais.










Porque desejo que ele seja bem

-

sucedido





disse Michael com

simplicidade e olhou para mim.





Oh, Regina continua absolutamente

contrária a isso. Se Arnie tiver um carro, significa que está crescendo. E, se

está crescendo, isso significa... bem, toda uma



série de coisas





terminou

ele, desajeitadamente.





Você poderia considerar

-

me também contra essa

história, porém isso foi antes. Claro, a princípio ele me pegou de

surpresa.... Tive visões de uma lata

-

velha estacionada diante de nossa casa,

até Arnie ir

para a universidade, ou dele asfixiando

-

se até a morte com o

cano de descarga, qualquer noite.



O pensamento de Verônica LeBay saltou em minha cabeça,

involuntariamente.







Agora, no entanto...





Michael deu de ombros, olhou para a

porta entre a garagem e a

cozinha, deixou o cigarro cair e o esmagou com

o salto.





Ele está visivelmente empenhado. Adquiriu um senso de

respeito próprio nesse assunto. Eu gostaria de, pelo menos, vê

-

lo pôr o

carro rodando.



Talvez ele percebesse algo em meu rosto, porque ao prosse

guir, o

tom era defensivo.







Não esqueci inteiramente o que significa ser jovem





disse.





Sei que um carro é importante para um rapaz como Arnie. Regina é que

não consegue ver isso tão claramente. Sempre teve a primeira e última

palavra e não se conforma

em ser passada para trás. Recordo que um

carro é importante... se um rapaz tem que sair com garotas.



Então, era assim que ele pensava. Encarava Christine como o meio

para uma finalidade, não a própria finalidade. Perguntei

-

me o que

pensaria, se lhe contass

e que a única idéia de Arnie era colocar aquele

Fury rodando e legalizado. Perguntei

-

me, também, se isso não o deixaria

um tanto ou quanto inquieto.



Ouvimos o baque da porta da cozinha ao se fechar.







Você daria uma espiada?







Está bem





respondi.





Se é o



que você quer.







Obrigado.



Arnie voltava com as cervejas.







O que estava agradecendo?





perguntou a Michael.






Falava em tom jovial e despreocupado, mas seus olhos se moveram

entre nós com rapidez, desconfiadamente. Tornei a reparar que sua pele

estava fica

ndo muito melhor e que seu rosto parecia ter

-

se revigorado.

Pela primeira vez,

Arnie e garotas

foram dois pensamentos que não me

pareceram mutuamente excludentes. Ocorreu

-

me que Arnie tinha um

rosto quase atraente, não como o de um peitudo salva

-

vidas, rei

-

do

-

baile

-

estudantil, porém de um modo diferente, interessante e suave. Ele jamais

seria o tipo de Roseanne, mas...







Por ele ajudar com a canoa





disse Michael, com naturalidade.







Ah.



Bebemos nossas cervejas e depois fui para casa. No dia seguinte, o

fel

iz trio partiu para Nova Iorque, presumidamente a fim de redescobrir a

unidade familiar, perdida durante o último terço daquele verão.





Um dia antes de eles voltarem, fui de carro até a garagem de

Darnell





tanto para satisfazer minha curiosidade como a de



Michael

Cunningham.



Situada à frente do depósito de carros velhos, este do comprimento

do quarteirão, a garagem parecia tão atraente à luz do dia, como na noite

em que havíamos trazido Christine





tinha todo o encanto de uma

ratazana morta.



Estacionei em

uma vaga diante da loja de acessórios que pertencia

também a Darnell





muito bem provida de peças, como cabeçotes Feully,

caixas de mudança Hurst e supercompressores Ram

-

Jett (para todos

aqueles trabalhadores que precisavam manter seus velhos carros rodand

o

a fim de poderem pôr pão na mesa, sem dúvida), para não mencionar

uma vasta seleção de compactos pneus e uma imensa variedade de calotas

especiais. Espiar pela janela da loja de acessórios para alta velocidade de

Darnell era como observar uma louca Disne

ylândia automotiva.



Afastei

-

me dali e cruzei o piso alcatroado para a garagem e para os

sons ruidosos de ferramentas, gritos, rajadas de metralhadoras das chaves

de boca pneumáticas. Um indivíduo de aparência desmazelada, com uma

surrada jaqueta de couro,

estava às voltas com uma velha bicicleta, junto a

um dos boxes da garagem, desmontando a tubuladora ou tornando a

montá

-

la. Havia um fundo arranhão interrompido, descendo por sua face




esquerda. As costas da jaqueta do sujeito exibiam uma caveira' usando

um

a boina verde e o fascinante lema MORRAM TODOS ELES E QUE

DEUS OS DIVIDA.



Fitou

-

me com olhos injetados de sangue, como um lunático

Rasputin, depois voltou a atenção para o que fazia. As ferramentas à sua

volta se dispunham em ordenação cirúrgica, havendo e

m cada uma,

estampadas a tinta, as palavras DARNELL'S GARAGE.



Lá dentro, o mundo se enchia do barulho reverberante e evocativo

de ferramentas e do som de homens trabalhando nos carros, gritando

palavrões para aquele em que trabalhavam. Sempre os palavrões

e sempre

do gênero feminino: "Vamos, sua filha da puta", "Afrouxe, sua cona",

"Venha cá, Rick, e me ajude a tirar fora esta racha".



Olhei em torno, procurando Darnell, mas não o vi em parte alguma.

Ninguém prestou muita atenção em mim, de maneira que camin

hei até o

boxe vinte, onde estava Christine, agora apontando o focinho para fora,

como se tivesse todo o direito de estar ali. No boxe à direita, dois caras

gordos, ambos vestindo camisas da associação de boliche, estavam

colocando um toldo na carroceria d

e uma camioneta

pickup,

que já vira

dias melhores. O boxe do outro lado estava deserto.



Quando me aproximei de Christine, senti que voltava aquele arrepio.

Não havia motivos para isso, mas era impossível controlá

-

lo





e, sem

pensar, movi

-

me um pouco para a



esquerda, em direção ao boxe vazio.

Não queria ficar na frente dela, de Christine.



Meu primeiro pensamento foi de que a pele de Arnie havia

melhorado ao mesmo tempo que a de Christine. O segundo, que ele

estava fazendo seus melhoramentos de modo curiosame

nte ao acaso...

quando, em geral, meu amigo costumava ser muito metódico.



A antena empenada e caída fora substituída por uma nova e

retilínea, que cintilava à luz das lâmpadas fluorescentes. Metade da grade

do radiador do Fury havia sido trocada; a outra m

etade continuava

amassada e salpicada de ferrugem. Havia também algo mais...



Caminhei ao longo do lado direito do carro, até o pára

-

choque

traseiro, com o cenho franzido.



Bem, era no outro lado, sem dúvida,

pensei.



Assim, dei a volta pelo outro lado, mas t

ambém não estava lá.






Fiquei em pé junto à parede dos fundos, ainda de cenho franzido,

procurando lembrar. Estava absolutamente certo de que quando vira

aquele carro no gramado de LeBay, com um aviso À VENDA colado ao

pára

-

brisa, havia um amassado enferruja

do, de bom tamanho, em um ou

outro lado do veículo, perto da traseira





a espécie de marca de batida

funda que meu avô sempre chamava de "coice de mula". Estávamos

rodando ao longo da estrada de pedágio, quando passamos por um carro

com um amassado enorme

em alguma parte da lataria. Vovô então disse:

"Ei, Denny, dê uma espiada naquilo! Foi um coice de mula!". Meu avô era

do tipo que sempre tem uma frase pronta para tudo.



Comecei a pensar que imaginara aquilo e abanei a cabeça de leve.

Aquilo era uma idéia s

em sentido. O amassado estivera lá, podia recordá

-

lo perfeitamente. Só porque não estava agora, não significava que nunca

estivera antes. Sem dúvida, Arnie fizera uma lanternagem no local, uma

excelente lanternagem, para fazê

-

lo desaparecer.



Exceto que...



Bem, não havia o menor

sinal

de que ele houvesse feito qualquer

coisa ali. No lugar não havia pintura, nenhuma massa cinzenta para

nivelar a superfície da lataria, qualquer mancha de tinta. Apenas o

vermelho opaco e o branco sujo de Christine.



No entanto,

havia um maldito

amassado ali!

Um amassado fundo e

coberto de poeira, em um ou outro lado do carro.



De qualquer modo, ele agora desaparecera.



Fiquei ali, entre a barulheira ensurdecedora de ferramentas e

maquinismos, sentindo

-

me muito solitário e, de repen

te, muito assustado.

Estava tudo errado, tudo louco. Ele substituíra a antena do rádio, quando

o cano de descarga praticamente se arrastava pelo chão. Substituíra

metade do radiador, mas não a outra. Falara comigo sobre um conserto

geral na traseira, mas d

entro do carro; substituíra o rasgado e empoeirado

estofamento do banco de trás por um outro, novo e brilhante. O

estofamento do banco dianteiro continuava um destroço empoeirado, com

uma mola assomando para fora, no banco do passageiro.



Não gostei daquilo



nem um pouco. Era loucura, sem nenhum traço

da meticulosidade de Arnie.






Algo me acudiu à mente, uma lembrança fugaz e, sem mesmo

analisá

-

la, fiquei atrás do carro e olhei para todo ele





não apenas para

um detalhe aqui e outro acolá, mas abrangendo tudo.

Então, consegui:

tudo se encaixava no lugar e o arrepio voltou.



Aquela noite, quando tínhamos levado Christine para a garagem. O

pneu arriado. A substituição. Eu olhara para o pneu novo no carro velho e

havia pensado que um pouquinho daquela velhice toda f

ora retirada, que

o automóvel novo





recente, cintilante, acabado de sair da linha de

montagem, em um ano quando Ike ainda era presidente e Batista

continuava mandando em Cuba





reaparecia um pouquinho, através

daquele pneu.



O que eu via agora era mais ou

menos isso... só que, em vez de um

mero pneu novo, havia todos os tipos de coisas





a antena, a grade do

radiador cintilando pela metade, um lado traseiro em reluzente vermelho

-

escuro, aquele novo estofamento no banco de trás.



Por sua vez, isto me fez reco

rdar algo da infância. Eu e Arnie

freqüentávamos a Escola Bíblica de Férias durante uma quinzena a cada

verão e, todos os dias, a professora contava uma história da Bíblia,

deixando

-

a por terminar. Então, ela dava a cada garoto uma folha em

branco de "pape

l mágico". Quando a gente passava a borda de uma

moeda ou o lado do lápis sobre o papel, de sua brancura ia gradualmente

emergindo uma ilustração





a pomba trazendo o ramo de oliveira para

Noé, as muralhas de Jerico desmoronando, coisas milagrosas assim.

A

quilo nos deixava fascinados, vendo as ilustrações irem surgindo pouco

a pouco. A princípio, apenas linhas flutuando no vazio... depois, essas

linhas se ligavam a outras... ganhavam coerência... ganhavam

significado.



Olhei para a Christine de Arnie com cre

scente horror, tentando

afugentar a sensação de que, nela, via algo terrivelmente similar àquelas

mágicas frustrações de milagres.



Tive vontade de espiar debaixo do capô.



De repente, parecia muito importante espiar o que havia lá.



Caminhei para a frente do



carro (não queria ficar diante dele, não

havia um bom motivo para isso, apenas eu não queria) e remexi no capô,

em busca do trinco. Não consegui abri

-

lo. Então, percebi que devia estar

dentro do carro.






Comecei a dar a volta, quando vi algo mais, algo que

me deixou

mais assustado ainda. Eu podia estar enganado sobre o coice de mula.

Sabia que não estava mas, pelo menos

tecnicamente..



Só que isto era completamente outra coisa.



A teia de aranha das rachaduras no pára

-

brisa diminuíra.



Estava positivamente meno

r.



Minha mente recuou at

é o dia, um mês atrás, quando eu

perambulara pela garagem de LeBay, a fim de dar uma espiada no carro,

enquanto Arnie entrava na casa para fechar negócio com o velho. Todo

lado esquerdo do pára

-

brisa era uma imensa teia de aranha de



rachaduras,

que se espraiavam de uma ziguezagueante fenda central, provavelmente

causada por uma pedrada.



Agora, a teia de aranha parecia menor e mais simples





por aquele

lado, era possível enxergar

-

se dentro do carro, o que eu não pudera fazer

antes, ti

nha certeza (apenas uma ilusão devido à luz, eis tudo, cochichou

minha mente).



No entanto, eu tinha que estar enganado





porque isso era

impossível. A gente substitui um pára

-

brisa, isto não é problema, havendo

dinheiro para a despesa. No entanto, fazer um

a teia de aranha de

rachaduras encolher...



Ri um pouco. Era um som tr

êmulo, e um dos sujeitos que trabalhava

com a lona da camioneta olhou para mim com curiosidade, em seguida

comentando algo com o companheiro. Era um som trêmulo, porém talvez

melhor do qu

e nenhum som. Claro que era a luz nada mais. Eu vira o

carro, pela primeira vez, com o sol brilhando em cheio sobre o pára

-

brisa

estilhaçado e o vira, pela segunda vez, nas sombras da garagem de LeBay.

Via

-

o, agora, sob a luz fluorescente daqueles tubos co

locados muito no

alto. Três momentos diferentes e, tudo somado, traduzia

-

se em uma ilusão

de ótica.



Ainda assim, eu queria olhar debaixo do cap

ô. Mais do que nunca.



Cheguei at

é o lado do motorista e sacudi a porta. Ela não se abriu.

Estava trancada. Claro

que estava: via abaixados todos os quatro botões

que trancavam as portas. Arnie não deixaria seu carro aberto ali, para que

alguém chegasse e ficasse remexendo em tudo. Repperton podia ter ido

embora, mas a espécie sordidus é uma erva daninha comum. Tornei



a rir.




O tolo e velho Dennis





mas agora meu riso soou ainda mais agudo e

trêmulo. Eu começava a sentir

-

me aéreo, como me sentia às vezes de

manhã, após ter fumado um pouco de erva além da conta.



Trancar as portas do Fury era uma atitude muito natural, cl

aro.

Exceto que, ao dar a volta ao carro pela primeira vez, julguei perceber

levantados todos os bot

ões que fechavam as portas.



De novo, caminhei lentamente para a traseira do carro. Aquela

velharia, pouco mais que uma carca

ça enferrujada. Eu não pensava e

m

nada específico





tenho certeza disso





exceto, talvez, que era como se

Christine soubesse que eu queria entrar e puxar a alavanca de liberação do

capô.



Ent

ão, por não querer que eu entrasse, o carro trancara as próprias

portas?



Francamente, era uma id

éi

a hilariante. Tão hilariante que tomei a rir

(várias pessoas agora olhavam para mim, de maneira como os outros

sempre olham para quem está sozinho e ri, sem qualquer motivo

aparente).



Foi quando aquela m

ão enorme caiu em meu ombro e me fez girar.

Era Darne

ll, com um toco apagado de charuto enfiado no meio da boca. A

outra extremidade estava molhada, com uma aparência lamentável. Ele

usava pequenos óculos com lentes até a metade, e os olhos atrás delas

eram friamente especulativos.







O que está fazendo, garo

to?





perguntou.





Isto aqui não é seu.



Os caras da camioneta olhavam avidamente para n

ós. Um deles

cutucou o outro e sussurrou algo.







É de um amigo meu





respondi.





Eu o trouxe para cá com ele.

Talvez se lembre de mim. Eu era aquele com o enorme tumor n

a ponta do

nariz e o...







Pouco me importa se vocês trouxeram o carro para cá em um

skate





disse ele.





Não lhe pertence. Guarde suas piadas sem graça e dê

o fora, garoto. Caia fora daqui!



Meu pai estava certo





ele era um miserável. E eu ficaria mais do

q

ue feliz em dar o fora dali; podia pensar em seis mil lugares, pelo menos,

onde preferiria estar, naquela antevéspera do fim das férias de verão. A

própria Caverna Negra, em Calcutá, seria superior. Não muito, mas




sempre superior. No entanto, o carro me pe

rturbava. Um monte de

coisinhas que, somadas, formavam uma baita erupção que precisava ser

coçada. Olhe por ele, meu pai dissera, e fora um bom conselho. O

problema é que eu não conseguia

-



acreditar no que via.







Meu nome é Dennis Guilder





falei.





Meu pa

i já fez sua

contabilidade, não foi?



Ele me fitou por um tempo imenso, sem qualquer express

ão em seus

olhinhos de porco. De repente, tive a impressão de que ia dizer que pouco

se lixava quem fosse meu pai, que era melhor eu

dar o fora dali e deixar

que aqu

eles homens continuassem consertando seus carros para poderem

continuar pondo p

ão em suas mesas. Et cetera.



Ent

ão, Darnell sorriu, mas o sorriso nem tocou seus olhos.







Você é o filho de Kenny Guilder?







Sou eu mesmo.



Ele deu tapinha no cap

ô do carro de Ar

nie com uma gorda e pálida

mão





havia dois anéis nos dedos e um deles parecia um diamante de

verdade. No entanto, o que pode saber um garoto como eu?







Sendo assim, acho que tudo está bem com você. Se for o filho de

Kenny. Por um segundo, pensei que ele i

a pedir minha identidade.



Os dois sujeitos do lado voltaram a trabalhar em sua camioneta e,

aparentemente, decidiram que nada mais transpiraria de interessante.







Vamos até o escritório, conversar um pouco





disse ele.



Virou

-

se e come

çou a caminhar, sem ao



menos olhar para trás.

Parecia certo de que eu o seguiria. Caminhava como um barco de velas

enfunadas, a camisa branca esvoaçando, com uma circunferência

impressionante de quadris e costas, inverossímil. Muitas pessoas gordas

sempre me afetam dessa maneir

a, com nítida impressão de

inverossimilhança, como se eu estivesse olhando para uma fantástica

ilusão de ótica. Acontece, no entanto, que provenho de uma longa linha de

pessoas magras. Para minha família, sou um peso

-

pesado.



Darnell fez uma pausa aqui e al

i, a caminho de seu escrit

ório, o qual

tinha uma parede envidraçada, dando para o interior da garagem. Fazia

-

me recordar ligeiramente o deus Moloch, sobre quem havia lido em

minha aula de Origens de Literatura





era o deus que se supunha capaz




de ver tudo,



com seu único olho vermelho. Darnell gritou para um sujeito

colocar o silencioso em seu cano de descarga, antes que ele o expulsasse

dali; gritou para outro indivíduo algo sobre como "as costas de Nicky o

estavam atrapalhando novamente" (isto provocou uma



série de ferozes e

ruidosas gargalhadas dos dois); berrou para outro que ajuntasse aquelas

fodidas latas de Pepsi

-

Cola, será que ele nascera em um monturo de lixo?

Aparentemente, Will Darnell nada sabia sobre o que minha mãe sempre

denominava "um tom norm

al de voz".



Eu hesitei por um momento, mas depois o segui. Acho que a

curiosidade matou o gato.





O escrit

ório dele era em estilo Primitivo Carburador Americano,

uma cópia de todo infecto escritório de garagem, de costa a costa, em um

país que corre sobre b

orracha e ouro ambarino. Havia um calendário

sebento com uma deusa loura em shorts curtíssimos e blusa aberta,

trepada em uma cerca, no campo. Havia placas ilegíveis de meia dúzia de

companhias que vendiam peças para carros. Pilhas de livros de

contabilida

de. Uma antiga máquina de somar. Havia uma foto





que

Deus nos perdoe!





de Will Darnell usando um fez e montado em uma

motocicleta miniatura, que parecia quase arriada sob seu corpo volumoso.

Havia ainda o cheiro de charutos há muito usados e de suor.



Dar

nell sentou

-

se em uma cadeira girat

ória, com braços de madeira.

A almofada gemeu debaixo dele, com um som cansado, mas conformado.

Ele se reclinou para trás. Tirou um fósforo da cabeça oca de um jóquei

negro de cerâmica. Depois o riscou em uma tira de lixa



que cobria uma

beirada da mesa e acendeu com ele o toco de charuto. Tossiu, fundo e

demoradamente, o peito largo e flácido sacudindo

-

se para cima e para

baixo. Diretamente atrás dele, pregado à parede, havia um quadro de

Garfield, o Gato. "Quer uma viagem



para a Cidade de Dentes Frouxos?",

perguntava Garfield, sobre uma pata erguida. Aquilo parecia uma perfeita

síntese de Will Darnell: Miserável na Residência Oficial.







Quer uma Pepsi, garoto?







Não, obrigado





falei.



Sentei

-

me na cadeira de espaldar reto,



oposta a ele. Darnell olhou

para mim





novamente aquele olhar frio e calculista





e então assentiu.










Como vai seu pai, Dennis? Continua às voltas com a Bolsa?







Vai muito bem. Quando lhe contei que Arnie trouxera o carro

para cá, ele logo se lembrou do s

enhor. Disse que Bill Upshaw é que faz

sua contabilidade agora.







Hum

-

hum. Um bom homem. Um bom homem. Não tanto quanto

seu pai, mas bom.



Assenti. Um silêncio caiu entre nós e comecei a sentir

-

me inquieto.

Will Darnell não parecia pouco à vontade, não olha

va para nada em

particular. Aquele frio olhar de apreciação nunca mudava.







Seu companheiro o mandou aqui para descobrir se Repperton foi

mesmo embora?





perguntou ele, tão de repente, que me sobressaltei.







Não





respondi.





De maneira nenhuma.







Bem, dig

a a ele que foi mesmo embora





prosseguiu Darnell,

ignorando o que eu acabara de dizer.





Um burro metido a sebo. Sempre

digo a eles, quando vêm com seu lixo para cá: andem na linha ou caiam

fora. Ele trabalhava para mim, fazendo um pouquinho disto e um

po

uquinho daquilo, mas talvez tenha pensado que era dono da chave de

ouro para a privada ou coisa assim. Um sabe

-

tudo

novato.



Ele começou a tossir novamente e demorou muito a parar o acesso

de tosse. Era um som doentio. Eu começava a sentir claustrofobia,

co

nfinado naquele escritório, mesmo com a janela se abrindo para a

garagem.







Arnie é um bom rapaz





disse Darnell finalmente, ainda me

avaliando com os olhos. Mesmo quando tossia, a expressão não

mudava.





Ele se vira muito bem. Sabe fazer as coisas.



Fazer

o quê? Eu quis perguntar, mas faltou coragem.



Darnell acabou contando. Excetuando

-

se o olhar frio, aparentemente

ele se sentia expansivo.







Ele limpa o chão, recolhe a tralha dos boxes da garagem no fim

do dia, mantém as ferramentas inventariadas, juntamen

te com Jimmy

Sykes... Preciso ter muito cuidado com as ferramentas por aqui, Dennis.

Elas costumam fugir quando viro as costas.





Ele riu e sua risada

transformou

-

se em um chiado.





Botei o Arnie também desmontando




peças, lá nos fundos. O garoto tem boas m

ãos. Boas mãos e mau gosto

para carros. Há anos não vejo uma carcaça pior do que aquele 58.







Acho que Arnie o encara como um passatempo





comentei.







Claro





disse Darnell, expansivamente.





Claro que sim. Até o

dia em que não quiser bancar o mandão com a

quilo, aqui dentro. Como

aquele imbecil, aquele Repperton. Bem, acho que não há muita

possibilidade disso por algum tempo, hein?







Penso que não. Aquele carro está um bocado ruim.







Que merda ele pretende fazer?





perguntou Darnell. Inclinou

-

se

para diante

, subitamente, os ombros enormes subindo até a raiz dos

cabelos. Franziu as sobrancelhas e os olhos desapareceram, exceto por

dois pequenos botões gêmeos.





Que merda ele pretende? Estive metido

nesse ramo a vida inteira e

nunca

vi ninguém consertar um car

ro da

maneira louca como ele está fazendo. Uma piada? Uma brincadeira?







Não estou entendendo





falei, embora estivesse, e perfeitamente

bem.







Pois eu lhe dou a dica





replicou Darnell.





O garoto traz o

carro para cá e, a princípio, faz nele tudo o que e

u esperava que fizesse.

Que diabo, ele não tem dinheiro escapando pelo traseiro, certo? Se tivesse,

não estaria aqui. Ele troca o óleo. Muda o filtro. Graxa, lubrificante, um

dia vi os dois Firestones novos que ele trouxe para as rodas dianteiras, a

fim de



combinarem com as duas traseiras.



Duas traseiras? Fiz a pergunta a mim mesmo e então concluí que ele

comprara três pneus novos, para combinarem com o original que eu lhe

levara, na noite em que trazíamos Christine para a garagem.







Então, um belo dia cheg

o aqui e vejo que ele substituiu os

limpadores de pára

-

brisa





continuou Darnell.





Nada estranho, exceto

que o carro não irá a lugar nenhum, com chuva ou com sol, durante muito

tempo. Depois, uma antena nova para o rádio e pensei: ele vai ficar

ouvindo o

rádio enquanto trabalha, arriando a bateria. Agora, o garoto me

vem com um novo assento coberto e metade da grade do radiador. Afinal,

o que significa tudo isto? Uma brincadeira?







Não sei





respondi.





Ele comprou as peças de reposição com o

senhor?










Não







disse Darnell, parecendo ofendido.





Não sei onde as

conseguiu. Aquela grade... não tem nem sinal de ferrugem! Ele deve ter

encomendado de algum lugar. Da Custom Chrysler, em Nova Jersey, ou

outro lugar semelhante. Só que... e a outra metade? Enfiada em



seu rabo?

Nunca ouvi falar de uma grade para radiador que chegasse em duas

partes.







Não sei de nada. Sinceramente. Ele esmagou o toco do charuto.







E não me venha dizer que não está curioso. Via a maneira como

olhava para aquele carro. Dei de ombros.







A

rnie não fala muito sobre ele





respondi.







Oh, não, aposto como não fala. É um filho da mãe de boca

fechada. No entanto, é um batalhador. Aquele Repperton apertou o botão

errado, quando se meteu com Cunningham. Se trabalhar legal este outono,

posso arranj

ar

-

lhe um emprego fixo para este inverno. Jimmy Sykes é um

bom garoto, mas não muito chegado ao departamento cerebral.





Seus

olhos me avaliaram.





Acha que ele é bom trabalhador, Dennis?







Arnie é legal.







Tenho um bocado de carros no fogo





comentou ele.







Um

bocado. Alugo caminhões sem grades na carroceria para sujeitos que

precisam transportar seus carrões envenenados até Filadélfia. Recolho a

tralha depois das corridas. Estou sempre necessitando de gente nesse

negócio. Bem, gente de confiança.



Comecei

a ter a desagradável suspeita de que estava sendo

convidado a dançar. Levantei

-

me precipitadamente, quase derrubando a

cadeira.







Tenho mesmo que ir andando





falei.





E... Sr. Darnell... ficaria

muito grato se não dissesse a Arnie que estive aqui. Ele é..

. um pouco

suscetível sobre o carro. Para ser franco, seu pai andava curioso e queria

saber como ele está se saindo.







O garoto tirou um monte de bosta da porta de casa, não foi?





O

olho direito de Darnell se fechou astutamente em algo que não era bem

uma



piscadela.





Seus velhos engolem alguns quilos de laxativo e depois

ficam em cima dele, de pernas bem abertas, não é assim?







Bem... o senhor sabe como é.










Pode apostar que sei.



Ele se levantou em um movimento flexível e bateu em minhas costas,

com força



bastante para fazer

-

me vacilar sobre os pés. Com ou sem

respiração chiada e tosse, ele era um sujeito forte.







Não direi nada





prometeu, caminhando comigo até a porta.



Sua mão continuava em meu ombro, o que me deixava nervoso e

também um pouco irritado.







Quero lhe confessar uma coisa que também me preocupa





falou.





Devo ver uns cem carros por aqui, a cada ano... bem, não tantos,

mas entende o que quero dizer, e preciso ficar de olho neles. Pois quase

juraria que já vi aquele antes. Quando não era a vel

haria que está agora.

Onde foi que o garoto o conseguiu?







Com um homem chamado Roland LeBay





respondi, pensando

no irmão de LeBay, ao me contar que ele próprio fazia a manutenção, em

alguma garagem do tipo faça

-

você

-

mesmo.





Está morto agora.



Darnell est

acou subitamente.







LeBay?

Rollie

LeBay?







Isso mesmo.







Do Exército? Reformado?







Exato.







É isso mesmo, raios! Durante seis, talvez oito anos, ele trouxe o

carro para cá, tão regular como um relógio. Depois parou de vir. Isso foi

há muito tempo. Aquele s

ujeito era um filho da puta. Se a gente

despejasse água fervendo por sua maldita garganta abaixo, ele mijaria

cubos de gelo. Não se dava com ninguém.





Darnell apertou meu ombro

com mais força.





Seu amigo Cunningham sabe que a mulher de LeBay

suicidou

-

se

naquele carro?







É mesmo?





exclamei, fingindo surpresa.



Eu não queria deixá

-

lo saber que meu interesse fora suficiente para

procurar o irmão de LeBay, após o funeral. Receava que Darnell pudesse

repetir a informação para Arnie





completa, com a fonte. Dar

nell me

contou a história toda. Primeiro a filha, depois a mãe.










Poxa!





tornei a exclamar, quando ele terminou.





Tenho

certeza de que Arnie não sabe disso. Vai contar a ele?



Aquele olhar avaliador novamente.







Você vai?







Não





respondi.





Não vejo moti

vos para contar.







Nem eu.





Ele abriu a porta, e o ar cheirando a graxa pareceu

quase purificado, depois da fumaça de charuto no escritório.





Aquele

filho da puta do LeBay, maldito seja! Espero que esteja oferecendo a face

direita e depois a esquerda lá

no inferno. E dando o traseiro.





Sua boca

se encurvou perversamente por um instante e depois ele olhou na direção

do boxe vinte, onde repousava Christine com sua velha pintura

enferrujada, a antena e metade da grade do radiador reluzindo de novas.







Essa

cadela

aqui outra vez





continuou ele, e então olhou para

mim.





Bem, dizem que o centavo falso sempre aparece, não é?







Sim, acho que dizem





respondi.







Até logo, garoto





disse, enfiando um novo charuto na boca.





Diga alô a seu pai por mim.







Eu direi.







E diga a Cunningham para ficar de olho naquele traste do

Rupperton. Tenho a impressão de que ele não aceita fácil uma derrota.







Eu também





falei.



Saí da garagem, parando uma vez a fim de olhar para trás





contudo, vista da claridade, Christine era pou

co mais do que uma sombra

entre sombras. O

centavo falso sempre aparece,

tinha dito Darnell. Fui para

casa com aquela frase na cabeça.





C

ALAMIDADES DO

F

UTEBOL



Aprender a tocar saxofone,



Só tocar o que eu gostar,



Beber uísque escocês






A noite inteira



E morre

r atrás do volante...







Steely Dan





As aulas começaram, e nada de importante aconteceu por uma

semana ou duas. Arnie não soube que eu estivera na garagem, o que me

alegrou, pois não creio que aceitasse a notícia com muita satisfação.

Darnell ficou de boca

fechada, como prometera (talvez por questões

pessoais). Telefonei para Michael certa tarde, depois das aulas, sabendo

que Arnie já teria ido para a garagem, e lhe contei que ele fizera alguma

coisa no carro, mas que este ainda estava longe de poder andar l

egalmente

pelas ruas. Comentei minha impressão de que seu filho apenas procurava

distrair

-

se na garagem. Michael acolheu as notícias com um misto de

alívio e surpresa. Isto encerrou a questão... por algum tempo.



Eu via Arnie de vez em quando, assim como al

go que entra em

nosso campo visual, pelo canto do olho. Ele perambulava pelos corredores,

tínhamos aulas de três matérias juntos e, por vezes, aparecia lá em casa,

depois das aulas ou nos fins de semana. Em certas ocasiões, parecia que

nada mudara realment

e, porém Arnie ficava mais tempo na Darnell's do

que em minha casa, e seguia para Philly Plains





a pista de corridas para

automóveis





nas noites de sexta

-

feira, juntamente com Jimmy Sykes, o

empregado meio idiota de Darnell. Lá corriam carros esportes e

outros

modelos de classe, envenenados, em sua maioria Camaros e Mustangs,

com todos os vidros retirados e com fechos corrediços. Arnie e Jimmy

Sykes os recolhiam ao caminhão de carroceria aberta de Darnell e

voltavam com o lixo recente para o cemitério de

automóveis.



Foi mais ou menos nessa época que Arnie machucou as costas. Não

foi nada sério





pelo menos, era o que dizia



, mas minha mãe percebeu

que havia algo errado com ele, quase em seguida. Arnie apareceu um

domingo para ver o jogo dos Phillies, que

naquele ano abriam caminho

para uma glória moderada, e durante o terceiro tempo levantou

-

se para

pegar um copo de suco de laranja para cada um de nós. Mamãe estava

sentada no sofá com papai, lendo um livro. Ergueu os olhos quando Arnie

retomava e disse:







Você está mancando, Arnie.






Penso ter visto uma expressão inesperada de surpresa no rosto dele,

por um ou dois segundos







um ar furtivo, quase culpado. Talvez me enganasse. Se

aconteceu,

um segundo depois havia desaparecido.







Acho que forcei as costas em P

lains, a noite passada





disse ele,

entregando

-

me o suco de laranja.





Jimmy Sykes deixou escorregar a

última das peças batidas que carregávamos, quando ela estava

praticamente em cima do caminhão. Pude vê

-

la escorregando para fora, e

então levamos umas du

as horas fazendo força para endireitar tudo.

Empurrei com as costas. Acho que não devia ter forçado tanto.



Parecia uma explicação muito minuciosa para um simples coxear,

porém eu talvez estivesse enganado sobre isso também.







Precisa ter mais cuidado com s

uas costas





disse mamãe,

severamente.





O Senhor...







Podemos ver o jogo agora, mãe?





falei.



...só lhe dá uma





concluiu ela.







Sim, Sra. Guilder





respondeu Arnie, obedientemente. Elaine

entrou na sala.







Ainda tem um resto de suco ou os dois cabeças

-

d

e

-

pepino

beberam tudo?







Por favor, me dê uma folga!





gritei.



Tinha havido uma grande jogada naquele segundo e perdi toda a

seqüência.







Não grite com sua irmã, Dennis





murmurou papai, das

profundezas de

The Hobbyist,

a revista que estava lendo.







Sobrou



muita coisa, Ellie





disse Arnie para ela.







Às vezes, Arnie





retrucou Elaine



, você me surpreende como

um ser quase humano. Ela foi para a cozinha.







Quase humano, Dennis!





sussurrou Arnie, aparentemente à

beira de lágrimas de gratidão.







Você ouviu i

sso? Quase

humaaaano!






Talvez seja apenas uma lembrança retrospectiva





ou a

imaginação





levando

-

me a crer que seu humor fosse forçado, irreal,

apenas uma fachada. Seja ou não verdadeira a recordação, o assunto sobre

suas costas encerrou

-

se, embora ele vol

ta e meia mancasse, durante aquele

outono.



Pessoalmente, eu andava muito ocupado. Havia rompido com a

chefe de torcida, mas em geral sempre encontrava alguém para uma volta

nas noites de sábado... se não estivesse esgotado pelo treino constante de

futebol.



O treinador Puffer nada tinha do miserável que era Will Darnell,

porém estava longe de ser uma flor; como metade dos treinadores de

ginásio nas cidades pequenas da América, ele moldava suas técnicas de

treinamento pelas do falecido Vince Lombardi, cujo le

ma principal era de

que ganhar não significava tudo, era

a única coisa.

Vocês ficariam

surpresos, se soubessem quanta gente





que deveria entender melhor do

assunto





acredita nessa mentira deslavada.



Um verão de trabalho para a Carson Brothers me deixara

em

excelente forma, e creio que poderia valer

-

me para toda a temporada





se

aquela houvesse sido uma temporada vitoriosa. Entretanto, por ocasião da

briga feia que eu e Arnie tivemos com Buddy Repperton, perto da área de

fumar, nos fundos da oficina





e cr

eio que aconteceu durante a terceira

semana de aula



, já era francamente visível que não teríamos uma

temporada de vitórias. Isso tornou extremamente difícil a convivência

com o treinador Puffer, porque em seus dez anos no Ginásio Libertyville

ele

jamais

tivera uma temporada de derrotas. Aquele foi o ano em que

Puffer teve que se sujeitar a uma amarga humildade. Foi uma dura lição

para ele... e também para nós.



Nosso primeiro jogo, contra os Tigres de Luneburg, foi em setembro.

Bem, Luneburg não passa de u

m vilarejo. Trata

-

se de uma merdinha de

ginásio rural no extremo oeste de nosso distrito, e durante meus anos no

Libertyville o grito de guerra costumeiro, após a convencida defesa de

Luneburg ter permitido mais um

touchdown,

um ponto para nós, era:

CONTEM

-

PRA

-

NÓS

-

COMO

-

É

-

BOSTA

-

DE

-

VACA

-

NO

-

SEU

-

PÉ!

Seguido

por um estrondoso, sarcástico aplauso:

HUUURRRAAAA,

LUUUUNEBURG!



Fazia vinte anos que Luneburg não conseguia derrotar um time de

Libertyville, mas nesse ano eles se levantaram e acabaram conosco




completament

e. Eu jogava na extrema

-

esquerda e, chegado o meio tempo,

estava moralmente convicto de que carregaria nas costas, pelo resto da

vida, cicatrizes de marcas de travas. O escore era então de 17

-

3. Terminou

com 30

-

10. A torcida do Luneburg delirava. Eles derr

ubaram as traves do

gol, como se aquele fosse um jogo pelo Campeonato Regional, e

carregaram nos ombros seus jogadores para fora do campo.



Nossa torcida, que viera em ônibus fretados especialmente para a

ocasião, ficou encolhida nas arquibancadas de visita

ntes, parecendo

perdida sob um forte e prematuro calorão de setembro. No vestiário,

atordoado e pálido, o treinador Puffer sugeriu que ficássemos de joelho e

rezássemos, pedindo orientação para as semanas vindouras. Percebi então

que a calamidade não termi

nara, que apenas começava.



Caímos sobre os joelhos doloridos, arranhados e cansados,

desejando apenas uma chuveirada que nos lavasse aquele cheiro de

derrota, enquanto ouvíamos Puffer explicar a situação a Deus, em uma

peroração de dez minutos, encerrada c

om a promessa de que faríamos a

nossa parte, se Ele fizesse a Sua.



Na semana seguinte, treinamos três horas diárias (em vez dos

costumeiros noventa minutos a duas horas), sob o sol escaldante. À noite,

eu caía na cama e sonhava com seus berros:

"Ataque aqu

ele otário! Ataque!

Ataque!".

Eu partia em desabalada carreira, até começar a sentir que

minhas pernas sofreriam uma decomposição espontânea (provavelmente,

no mesmo instante em que meus pulmões explodiriam em chamas).

Lenny Barongg, um de nossos

tailbacks

,

tivera um ataque brando de

insolação e, misericordiosamente





para ele, pelo menos foi dispensado

pelo resto da semana.



Eu só via Arnie quando ele aparecia para jantar comigo, meus pais e

Ellie nas noites de quinta ou sexta

-

feira. Às vezes aparecia para

ver um ou

dois jogos conosco, nas tardes de domingo, mas, além disso, perdi

-

o de

vista por completo





ou quase isso. Naquela época, andava ocupado

demais em arrastar minhas dores e sofrimentos até as salas de aula,

treinando e voltando para casa, a fim de

fazer os deveres de casa em meu

quarto.



Voltando às calamidades do futebol, acho que o pior de tudo era a

maneira como os outros olhavam para mim, Lenny e o resto do time pelos

corredores. Hoje em dia, esse "espírito de colégio" se compõe

principalmente de



besteiras inventadas pelos administradores de escolas,




ao recordarem o inferno das disputas de futebol nas tardes de sábado,

quando jovens, mas esquecendo convenientemente que muito disso

resultava de estarem bêbados, no cio ou as duas coisas. Quando há u

m

comício em favor da legalização da maconha, é possível ver

-

se um pouco

desse espírito de colégio. No entanto, em se tratando de futebol, basquete

ou atletismo, a maioria dos alunos não dá nenhuma banana. Estão todos

ocupados demais em conseguir entrar pa

ra a universidade, em chegar ao

ponto final com alguma garota ou procurando confusão. Muito ocupados,

em geral.



Ainda assim, ficamos acostumados à vitória





começamos a

acreditar que ela nos pertence por direito. Libertyville estivera formando

equipes venc

edoras por muito tempo; a última vez que o colégio havia

sido derrotado





pelo menos, até meu último ano lá





fora doze anos

antes, em 1966. Assim, na semana após a derrota para Luneburg, embora

não houvesse choro nem ranger de dentes, havia aqueles olhare

s atônitos

nos corredores e alguns comentários na habitual reunião da tarde de

sexta

-

feira, no final do sétimo tempo. Os comentários deixaram o

treinador quase púrpura e ele convidou aqueles "esportistas

-

de

-

meia

-

tigela e amigos

-

das

-

horas

-

boas" a aproveitar

em a tarde de sábado para

verem a reabilitação do século.



Não sei se os esportistas

-

de

-

meia

-

tigela e os amigos

-

das

-

horas

-

boas

apareceram ou não, mas eu estava lá. Jogávamos em casa e nossos

adversários eram os Ursos de Ridge Rock. Ridge Rock é uma cidade d

e

mineração e, embora os garotos que freqüentam o Ginásio de Ridge Rock

sejam caipiras, não são caipiras frouxos. São caipiras durões, ferozes e

decididos. No ano anterior, o time de futebol de Libertyville os vencera

por pouco, na disputa do título region

al, e um dos comentaristas

esportivos locais comentara que a vitória não acontecera porque o time de

Libertyville era melhor, mas porque sua torcida era mais animada. Posso

afirmar que isso também fez o treinador arrancar os cabelos.



De qualquer modo, aque

le foi o ano dos Ursos. Foram como um rolo

compressor contra nós. Fred Dann saiu do jogo com uma concussão, no

primeiro tempo. No segundo, Norman Aleppo foi levado para o Hospital

Comunitário de Libertyville com um braço quebrado. E, no último

período, os

Ursos marcaram três

touchdowns

consecutivos, dois deles como

punt returns.

O escore final foi de 40

-

6. Deixando de lado a falsa modéstia,

eu lhes confesso que marquei o sexto ponto. Entretanto, não ponho o

realismo ao lado da modéstia: o que tive foi sorte

.






Assim sendo... mais uma semana de infernal treinamento no campo.

Outra semana com o treinador gritando:

"Ataque aquele otário."

Certo dia,

treinamos durante quase quatro horas, e quando Lenny sugeriu ao

treinador que seria ótimo termos algum tempo de sob

ra para os trabalhos

de casa, cheguei a pensar





apenas por um instante





que Puffer ia

surrá

-

lo com o cinto. Ele passara a ficar jogando seu molho de chaves

constantemente, de uma das mãos para a outra, recordando

-

me o Capitão

Queeg, no filme

Motim.

Supon

ho que a maneira como você perde é um

indicador muito melhor para o caráter do que a forma como vence. Puffer,

que nunca vira um 0

-

2 em sua carreira de treinador, reagia com uma fúria

cega e inútil, como um tigre enjaulado e acuado pelos filhotes cruéis.



N

a tarde da sexta

-

feira seguinte





que seria 22 de setembro





foi

cancelada a reunião costumeira, durante os últimos quinze minutos do

sétimo tempo. Nenhum jogador se preocupava com aquilo; ficar ali de pé

e ser apresentado por doze gigantes chefes de torci

da, pela décima

milionésima vez, era bem tedioso. Nessa noite, fomos convidados pelo

treinador a voltar ao ginásio e ficamos duas horas vendo os filmes,

testemunhando nossa humilhação infligida pelos Tigres e Ursos, nos jogos

filmados. Talvez aquilo tivess

e a finalidade de levantar nosso moral,

porém eu fiquei apenas deprimido.



Nessa noite, antes de nosso segundo jogo do ano em casa, tive um

sonho singular. Não foi bem um pesadelo, não como aquele em que eu

acordara a casa com meus gritos, claro, mas ainda

assim foi...

desconfortável. Estávamos jogando contra os Dragões da cidade de

Filadélfia, e soprava um vento forte. Os sons dos gritos da torcida, a voz

estridente e distorcida de Chubby McCarhy, brotando do alto

-

falante,

quando anunciava os

downs

e

yards

do jogo, o próprio som dos jogadores

atacando

-

se entre si, tudo tinha um toque fantástico, que ecoava naquele

vento firme e constante.



Nas arquibancadas, os rostos apareciam amarelados e

estranhamente sombreados, como máscaras chinesas. As chefes de torcid

a

dançavam e cabriolavam como autômatos de corda. O céu tinha um

cinzento esquisito, coberto de nuvens. Estávamos apanhando em toda a

linha. O treinador gritava suas ordens, mas ninguém conseguia ouvi

-

lo.

Os Dragões afastavam

-

se de nós rapidamente e a bola



estava sempre com

eles. Lenny Barongg" parecia estar jogando em meio a uma dor terrível:

tinha a boca repuxada para baixo, em trêmula meia circunferência, como

uma máscara de tragédia.






Fui atacado, derrubado e atropelado. Fiquei caído, muito atrás da

linh

a de formação dos jogadores, encolhido, tentando recuperar a

respiração. Olhei para cima e lá, parada no meio da pista de atletismo,

atrás das arquibancadas dos visitantes, estava Christine. Novamente se

mostrava cintilante, como recém

-

saída da fábrica, pa

recendo ter deixado o

salão de exibição apenas uma hora antes.



Arnie estava sentado no teto do carro, as pernas cruzadas como

Buda, fitando

-

me inexpressivamente. Gritou alguma coisa para mim,

porém o ruído do vento quase sobrepujou o que dissera. Tive a im

pressão

de ouvir algo assim:

Não se preocupe, Dennis! Cuidaremos de tudo, portanto,

fique calmo! Está tudo sob controle!



Cuidariam de quê? Foi o que me perguntei, caído no campo de jogo

do sonho (que, por algum motivo, meu eu onírico transformara em pista

de corrida de cavalos), lutando para recuperar o fôlego, a cueca

penetrando cruelmente na junção das coxas, logo abaixo dos testículos.

Cuidariam de quê?



De quê?



Não houve resposta. Apenas o brilho malévolo dos faróis amarelos

de Christine, e Arnie sentado



tranqüilamente, de pernas cruzadas sobre a

capota, naquele vento forte e barulhento.





No dia seguinte, partimos para a luta novamente, em benefício do

bom e velho Ginásio de Libertyville. Não foi tão ruim como em meu

sonho





ninguém saiu ferido naquele sá

bado, e por um breve momento

do terceiro

quarter

até pareceu que teríamos uma chance





mas então

o

quarterback

da cidade de Filadélfia deu sorte com uns dois passes

longos





quando a situação começa a perigar,

tudo

dá errado





e

tornamos a perder.



Depois d

o jogo, o treinador Puffer limitou

-

se a ficar sentado no

banco. Não olhou para nenhum de nós. Restavam onze jogos em nosso

calendário, mas ele já era um homem derrotado.








E

NTRA

L

EIGH

,



S

AI

B

UDDY



Não lhe contei vantagem, meu bem,



Então, não me venha humilhar

,



Tenho as rodas mais velozes da cidade,



Quem quiser passar à frente, nem adianta tentar,



Porque também tenho asas, cara,



Minha máquina pode voar,



É o meu cupê endoidado,



Você nem sabe o que tenho...







The Beach Boys





Tenho absoluta certeza de que foi na t

er

ça

-

feira seguinte à nossa

derrota diante dos Dragões da cidade de Filadélfia que as coisas

começaram a agitar

-

se outra vez. Devíamos estar a 26 de setembro.



Eu e Arnie assistimos a tr

ês aulas juntos, sendo uma delas Tópicos

da História Americana, um curs

o seriado, no quarto período. Nas

primeiras nove semanas, o professor fora o Sr. Thompson, chefe do

departamento. Então, o tema era Duzentos Anos de Desenvolvimento e

Crise. Arnie dizia que aquela era a aula do tchau

-

tchau, porque ficava

justamente antes d

a hora do almoço e os estômagos da gente pareciam ter

coisas mais interessantes para fazer.



Terminada a aula daquele dia, uma garota aproximou

-

se de Arnie e

perguntou

-

lhe se tinha o trabalho de Ingl

ês para casa. Ele tinha. Folheou

com cuidado seu caderno d

e anotações e, enquanto isso, ela o observava

seriamente com olhos azul

-

escuros, nunca os desviando do rosto dele.

Tinha cabelos louro

-

escuros, cor de mel fresco





não do tipo refinado,

mas daquele que sai direto da colméia



, mantidos presos para trás por



uma fita azul, combinando com os olhos. Ao vê

-

la, meu estômago deu

uma reviravolta de felicidade. Depois que a garota terminou de copiar o

trabalho, Arnie olhou para ela.



Aquela n

ão era a primeira vez que eu via Leigh Cabot, é claro, ela

havia sido transf

erida de uma cidade em Massachusetts para Libertyville,

três semanas antes, de modo que já ficara conhecida. Alguém me contara




que seu pai trabalhava para a 3M, o pessoal que fabrica a fita adesiva

Scotch.



N

ão era a primeira vez também que eu reparava nela

, porque Leigh

Cabot era





usando os termos mais simples





uma bela garota. Em uma

obra de ficção, percebi que os escritores sempre inventam um pequeno

defeito aqui ou acolá nas mulheres e jovens que criam, talvez por

pensarem que a beleza real seja um est

ereótipo ou por acharem que um ou

dois senões tornam a dama mais real. Assim, a heroína é bonita, com

exceção do lábio inferior um pouco longo demais, ou apesar de ter o nariz

ligeiramente afilado. Talvez tenha o busto achatado. Sempre há alguma

coisa.



Com



Leigh, no entanto, era beleza pura. Tinha a pele clara e perfeita,

em geral com um toque de cor perfeitamente natural. Mediria um metro e

setenta, mais ou menos, alta para uma garota, mas n

ão em excesso, com

um corpo adorável





seios bonitos e firmes, uma



cinturinha que quase se

poderia contornar com as mãos (pelo menos, dava vontade de tentar),

quadris bem feitos, pernas bem torneadas. Uma garota bonita,

sexy,

de

belo corpo





artisticamente sem graça, imagino, sem o lábio inferior

demasiado longo, o nariz



afilado, uma reentrância ou saliência erradas em

algum lugar (nem ao menos um gracioso dentinho torto





ela devia ter

tido um excelente ortodontista, também), mas o caso é que ela

nada

tinha

de sem graça, quando a gente a contemplava.



Alguns caras j

á tinh

am dado em cima dela, mas haviam sido

delicadamente afastados. Imaginava

-

se que, provavelmente, Leigh Cabot

estava com dor

-

de

-

cotovelo por causa de algum sujeito de Andover,

Braintrese ou seja lá de onde viera, mas que o tempo a faria recuperar

-

se.

Em duas



das aulas a que eu assistira com Arnie, ela também estivera

presente, de maneira que minha idéia era apenas aguardar um pouco,

antes de tentar uma aproximação.



Agora, observando os olhares roubados entre os dois, quando Arnie

procurara o dever e depois, q

uando ela o anotava cuidadosamente,

perguntei

-

me se chegaria a ter chance daquela aproxima

ção. Então, ri para

mim mesmo. Arnie Cunningham, o próprio e velho Cara de Pizza e Leigh

Cabot. Era totalmente ridículo. Era...



O sorriso interior quase secou de repe

nte. Pela terceira vez





a

definitiva





eu percebia que a pele dele estava se curando sozinha, com

uma rapidez quase impressionante. As equimoses haviam desaparecido.




Algumas ainda tinham deixado mínimas cicatrizes reentrantes ao longo

das faces, é verdade

, mas se um cara tem feições fortes, aquelas pequenas

reentrâncias não parecem significar muito. De uma forma um tanto louca,

até parecem dar mais caráter.



Leigh e Arnie estudaram

-

se disfar

çadamente. Também estudei

Arnie disfarçadamente, perguntan

do

-

me qu

ando e como aquele milagre

acontecera. A luz do sol penetrava com força pelas janelas da sala do Sr.

Thompson, delineando claramente as linhas do rosto de meu amigo. Ele

parecia... mais velho. Como se tivesse vencido as equimoses e a acne, não

somente com

lavagens ou aplicações regulares de qualquer creme especial,

mas conseguindo algum meio de adiantar o relógio por três anos.

Também estava usando o cabelo de modo diferente





agora era mais

curto, e as costeletas que cismara de usar, desde que pudera culti



-

las

(uns dezoito meses atrás), tinham desaparecido.



Fiquei pensando naquela tarde encoberta, quando t

ínhamos ido ver

o filme Kung

-

fu de Chuck Norris. Fora a primeira vez em que eu notara

alguma melhora, concluí. Mais ou menos na época em que ele havia

c

omprado o carro. Sim, devia ser isso. Adolescentes do mundo, rejubilem

-

se! Resolvam dolorosos problemas de acne para sempre! Comprem um

carro velho e ele fará com que...



O sorriso interior, que voltara a aflorar, de repente azedou.



Comprem um carro velho e



ele far

á... o quê? Será que ele irá

modificar suas cabeças, suas maneiras de pensar, desta forma alterando o

metabolismo? Liberando o eu real? Tive a sensação de ouvir Stukey James,

nosso antigo professor de Matemática, sussurrando em minha cabeça seu

ins

istentemente repetido refrão:

Se seguirmos esta linha de raciocínio até o

amargo fim, senhoras e senhores, aonde isso nos levará?



Certo





aonde?







Obrigada, Arnie





disse Leigh, em sua voz doce e clara.



J

á havia copiado o dever de casa em seu caderno de ap

ontamentos.







Tudo bem





disse ele.



Os olhos dos dois se encontraram





agora entreolhavam

-

se, em vez

de se observarem furtiva

mente



, e até eu pude sentir a fagulha saltar.







Vejo você no sexto tempo





disse ela.






Depois se afastou, os quadris ondulando su

avemente sob uma saia

verde de tric

ô, os cabelos oscilando contra as costas do suéter.







O que tem você a ver com o sexto tempo dela?





perguntei.



Eu tinha tempo vago naquele per

íodo. Estudaria os corredores

fiscalizados pela terrível Srta. Raypach, a quem



todos nós chamávamos de

Sita. Rat

-

Pack (Trouxa

-

de

-

Ratos), só que nunca em presença dela, como é

fácil imaginar.







Cálculo





respondeu ele, naquela voz sonhadora e melosa, tão

diferente da que eu conhecia, que me provocou o riso. Arnie olhou para

mim, de c

enho franzido.







De que está rindo, Dennis?







Cal

-

Q

-

luuuu





respondi.



Revirei os olhos, agitei as m

ãos como asas e ri mais alto. Ele fingiu

que ia me esmurrar.







É bom tomar cuidado, Guilder





falou.







Desgrude, Cara de barata!







Eles botam você na univers

idade e vamos ver o que acontece ao

fodido time de futebol!



O Sr. Hodder, que ensina aos calouros os mais primorosos detalhes

gramaticais (e tamb

ém como masturbar

-

se, no dizer de certos

espirituosos), ia passando por nós nesse exato momento.







Cuidado com

sua linguagem nos corredores!





disse

significativamente para Arnie, franzindo o cenho.



Depois seguiu em frente, com uma pasta em uma das m

ãos e, na

outra, um hambúrguer apanhado na fila do almoço. Arnie ficou vermelho

como uma beterraba; sempre enrubescia



se um professor lhe

dizia alguma

coisa (tratava

-

se de uma rea

ção tão automática que quando estávamos no

primário acabava castigado por coisas que não fizera, apenas porque

parecia

culpado). Suponho que isso tenha algo a ver com a maneira como

foi criado p

or Regina e Michael





eu sou legal, você é legal, eu sou uma

pessoa, você é uma pessoa, nós nos respeitamos profundamente, e quando

alguém fizer algo errado sentiremos uma reação alérgica de culpa.

Acredito que isso faça parte da criação liberal de filhos

na América.










Cuidado com sua linguagem, Cunningham





falei.





Tu



envorvido

num monte

de probrema.

Ele começou a rir também. Descemos o

corredor reverberante de ruídos. As pessoas caminhavam



depressa de um lado para outro ou se apoiavam contra seus

arm

á

rios, comendo. Não se devia comer pelos corredores, mas muitos não

ligavam para isso.







Trouxe seu almoço?





perguntei.







Trouxe. Num saco de papel pardo.







Vá pegar. Vamos comer lá fora, nas arquibancadas.







A esta altura, ainda não se encheu daquele camp

o de futebol?





perguntou Arnie.





Se ficasse muito mais tempo deitado de barriga, no

sábado passado, acho que um dos zeladores o plantaria.







Não ligo. Vamos à forra essa semana. Além do mais, quero sair

daqui.







Certo. Encontro você lá fora.



Arnie afasto

u

-

se e rumei para meu arm

ário, a fim de pegar meu

almoço. Havia trazido quatro sanduíches, para começar. Desde que o

treinador iniciara suas sessões

-

maratonas de treinamento, eu vivia

faminto.



Segui ao longo do corredor, pensando em Leigh Cabot e em como

m

uita gente ficaria alvoro

çada se aqueles dois começassem a sair juntos.

Nos colégios, a sociedade é muito conservadora, como todos sabem. Nada

de grandes repressões, mas é assim. As garotas sempre usam as modas

mais loucas, os rapazes às vezes deixam o cab

elo chegar até o traseiro,

todos fumam uma maconhazinha ou cheiram um pouco de coca





mas

tudo não passa de uma camada externa de verniz, a defesa usada

enquanto fazemos experiências e procuramos imaginar o que acontecerá,

exatamente, em nossa vida. É como



um espelho





usado para refletir de

volta a luz do sol nos olhos de pais e professores, esperando confundi

-

los,

antes que nos tornem ainda mais confusos do que já estamos. No fundo, a

maioria dos estudantes de ginásio é quase tão careta como um bando de

b

anqueiros republicanos em uma reunião social da igreja. Há garotas que

podem ter todo álbum já produzido do conjunto Black Sabbath, mas se

Ozzy Osbourne for à escola que elas freqüentam e convidar uma delas




para sair, essa garota (e todas as suas amigas) s

eria capaz de arrebentar de

rir apenas ante tal idéia.



Agora sem espinhas, Arnie estava legal





de fato, parecia mais do

que isso. Contudo, nenhuma garota que freqüentasse a escola quando ele

ainda tinha o rosto em sua pior aparência aceitaria sair com ele

, creio eu.

De fato, não o viam como era agora, mas apenas a lembrança do que

Arnie havia sido. Com Leigh, no entanto, era diferente. Sendo uma aluna

transferida, não fazia idéia de como era horrível a aparência dele, em seus

três primeiros anos no Ginásio



de Libertyville. Bem, poderia ter uma

noção, se folheasse o

Libertonian

do ano anterior e visse a foto de Arnie no

clube de xadrez, mas, curiosamente, aquela mesma tendência republicana

certamente a faria passar por cima do detalhe. O

de agora é eterno





interrogue qualquer banqueiro republicano e ele lhe dirá que o mundo

deve ser governado exatamente assim.



Ginasianos e banqueiros republicanos... Em crian

ça, todos aceitamos

como fato consumado que tudo se modifica constantemente. Quando

adulto, o indivídu

o acredita seriamente que tudo irá mudar, pouco

importando o esforço para ser mantido o

status quo

(os próprios

banqueiros republicanos sabem disso





podem não gostar, mas sabem).

Apenas quando se é adolescente é que se fala o tempo todo em modificar,

mas

acreditando, no fundo do coração, que isso nunca acontece realmente.



Sa

í com minha gigantesca sacola de lanche na mão e caminhei em

diagonal pelo pátio de estacionamento, rumando para o edifício em que

ficavam as oficinas. É uma estrutura alongada, com lat

erais metálicas

corrugadas e pintadas de azul





em formato não muito diferente da

garagem de Will Darnell, porém muito mais limpa. Ali dentro ficam as

oficinas para trabalhos em madeira, as oficinas para mecânica de motores

e o departamento de artes gráfic

as. A área de fumar fica, em princípio, nos

fundos da edificação, mas nos dias de bom tempo, durante a folga para o

almoço, em geral se vê

alunos das oficinas alinhados em ambos os lados

do pr

édio, com suas botas de motoqueiros ou sapatos de biqueira,

reco

stados contra a parede, rumando e conversando com as namoradas.

Ou apalpando

-

as.



Nesse dia, n

ão havia uma alma no lado direito das oficinas, e isso

poderia ter

-

me alertado sobre algo anormal, mas não foi assim. Eu estava

concentrado em meus próprios e dive

rtidos pensamentos sobre Arnie e




Leigh, bem como na psicologia do Estudante Moderno do Ginásio

Americano.



A verdadeira

área de fumar





a área "designada" para fumar





fica

em um pequeno beco sem saída, atrás da oficina de mecânica de motores.

Além das ofic

inas, a cinqüenta ou sessenta metros de distância, está o

campo de futebol, dominado pelo grande painel elétrico da marcação de

pontos, com DURO NELES, TERRIERS, engalanando sua parte superior.



Havia um grupo de pessoas pouco al

ém da área de fumar, umas

vi

nte ou trinta, amontoadas em estreito círculo. Esse tipo de aglomeração

geralmente significa uma briga ou o que Arnie costuma chamar "puxa

-

empurra"





dois sujeitos, que não estão muito a fim de brigar, ficam

empurrando um ao outro, esmurrando

-

se nos ombros



com força, com isso

tentando proteger as respectivas reputações de machos.



Olhei para l

á, mas sem grande interesse. Não queria assistir a uma

briga, mas sim comer meu almoço e descobrir o que estava acontecendo

entre Arnie e Leigh Cabot. Se existisse algo



entre os dois, por menor que

fosse, isso talvez o livrasse daquela obsessão por Christine. Uma coisa era

certa: Leigh Cabot não tinha qualquer ferrugem na lataria.



Ent

ão, uma garota gritou e alguém mais bradou:







Ei, assim, não! Largue isso, cara!



Aquilo

n

ão soava muito normal. Mudei de rumo, para ver o que

havia. Abri caminho por entre o grupo apertado e vi Arnie no círculo, de

pé, com as mãos ligeiramente estiradas para diante, ao nível do peito.

Parecia assustado e pálido, mas não em pânico. Um pouco à

sua esquerda,

estava o seu saco de almoço, completamente achatado contra o solo. No

meio do saco, havia a impressão de uma sola de tênis. Em direção oposta a

Arnie, de

jeans

e camiseta justa sobre cada músculo e saliência do tórax,

estava Buddy Repperton.

Tinha um canivete de mola na mão direita e o

movia lentamente de trás para diante, à frente do rosto, como um mágico

fazendo passes místicos.



Buddy era alto e de ombros largos. Tinha cabelos longos e negros.

Usava

-

os amarrados atr

ás da cabeça, em rabo

-

de

-

c

avalo, com uma tira de

couro cru. As feições do rosto eram rudes e idiotas, com expressão

malévola. Sorria de leve. O que senti foi uma mistura covarde de puro

medo e angústia. Ele não parecia apenas idiota e malévolo, parecia louco.










Eu disse que ia pega

r você, cara





falou maciamente para Arnie.



Inclinou o canivete e o esgrimiu de leve no ar, na dire

ção de Arnie,

fazendo

-

o encolher

-

se um pouco. A lâmina retrátil tinha cabo de marfim,

com um pequeno botão cromado que o fazia saltar para fora ou recolher

-

s

e no punho. A lâmina parecia ter uns vinte centímetros de

comprimento





não era um canivete, em absoluto, mas uma maldita

baioneta.







Vamos, Buddy, marque ele!





gritou Dan Vandenberg

alegremente.



Senti a boca seca. Olhei para o garoto perto de mim, algum

calouro

careta, que eu n

ão conhecia. Ele parecia completamente hipnotizado, de

olhos arregalados.







Ei





falei. Como não olhasse para mim, cutuquei

-

o nas costelas

com o cotovelo.





Ei!

Ele saltou e olhou para mim aterrorizado.







Vá chamar o Sr. Casey. Está



almoçando na oficina de trabalhos

em madeira. Vá chamá

-

lo, agora mesmo!



Repperton olhou para mim, depois para Arnie.







Vamos, Cunningham





desafiou.





O que me diz, não está

querendo briga?







Largue o canivete primeiro, seu bosta





disse Arnie.



A voz era

perfeitamente calma. Bosta. Onde

é que eu ouvira aquilo

antes? Não fora dito por George LeBay? Sim, isso. Também ouvira a

palavra na boca de seu irmão.



Aparentemente, Repperton n

ão ligou muito. Enrubesceu e

aproximou

-

se mais de Arnie. Arnie girou, afastand

o

-

se. Pensei que

alguma coisa estava para acontecer ali, bem depressa





talvez daquelas

que exigem suturas e deixam cicatriz.







Vá chamar Casey,



!





falei para o calouro de jeito careta.



Ele se foi, mas pensei que, sem d

úvida, tudo já teria acontecido an

tes

do Sr. Casey chegar... a menos que eu pudesse retardar um pouco as

coisas.







Largue esse canivete, Repperton





falei. Seus olhos se voltaram

novamente para mim.










Você não sabe de nada





replicou.





O amigo de Cara de Cona.

Por que não vem tirar ele de



mim?







Você tem um canivete, mas ele não





falei.





Pelo meu manual,

isso faz de você uma fodida galinha covarde.



O vermelho de seu rosto aumentou. Agora, sua concentração se

rompera. Ele olhou para Arnie, depois para mim. Meu amigo dirigiu

-

me

um olhar de



pura gratidão





e moveu

-

se um pouco mais para perto de

Repperton. Não gostei daquilo.







Largue o canivete!





gritou alguém para Repperton.



Logo depois, alguém mais gritou também:

"Largue o

canivete!".

Então, todos começaram a cantar:

"Largue o

canivete,

l

argue o

canivete,

largue o

canivete!".



Repperton pareceu não gostar. Não se importava de ser o alvo das

atenções, mas aquele era o tipo errado de atenção. Seu olhar começou a

saltar nervosamente, primeiro para Arnie, depois para mim, em seguida

para os out

ros. Uma mecha de cabelo lhe caiu na testa e ele a jogou para

trás.



Quando tornou a olhar para mim, esbocei um movimento como se

fosse avançar para ele. O canivete girou agora em minha direção e Arnie

se moveu





moveu

-

se mais depressa do que eu poderia acr

editar. Foi

uma cutelada com a mão direita, em um golpe de caratê meio fajuto, mas

eficiente. Atingiu com força o pulso de Repperton e arrancou

-

lhe o

canivete da mão, fazendo

-

o cair com um som metálico no chão sujo.

Repperton abaixou

-

se, tentando recuperá

-

lo. Arnie cronometrou o

movimento com mortal precisão e, quando a mão de Repperton chegou ao

asfalto, pisou em cima dela. Com toda a força. Repperton gritou.



Don Vandenberg entrou rapidamente em cena. Com um tranco

brutal, atirou Arnie ao chão. Mal pensand

o no que fazia, entrei no círculo

e chutei o traseiro de Vandenberg com toda a força que tinha





levantei o

pé, em vez de arrastá

-

lo; chutei

-

o como chutaria uma bola.



Vandenberg, um cara alto e magro, que naquela época teria uns

dezenove ou vinte anos, com

eçou a gritar e saltitar, segurando os

fundilhos. Esqueceu toda sua idéia de socorrer Buddy, deixou de ser um

fator determinante na situação. Acho espantoso eu não ter aleijado




Vanderberg com aquele chute. Jamais chutei alguém ou alguma coisa com

tanta for

ça, e meus amigos, fiquem certos de que me senti ótimo.



De repente, um braço passou em torno de meu pescoço e havia uma

mão entre minhas pernas. Percebi o que ia acontecer, apenas um segundo

tarde demais para poder evitá

-

lo de todo. Meus colhões foram aper

tados

com firmeza e a dor espraiou

-

se, em um berro de pura agonia, subindo

das virilhas para o estômago, depois descendo até as pernas, tornando

-

as

tão frouxas e vacilantes, que quando o braço largou meu pescoço eu

simplesmente arriei como um trapo no piso



cimentado da área de fumar.







Gostou disso, cara de pica?





perguntou

-

me um sujeito

atarracado e de dentes estragados. Ele usava um daqueles pequenos e

delicados óculos com aros de arame, óculos que pareciam



absurdos em seu rosto grande e pesadão. Era "Pe

netra" Welch, outro

amigo de Buddy



De súbito o círculo de espectadores começou a diluir

-

se e ouvi uma

voz de homem gritando:







Afastem

-

se! Afastem

-

se,

imediatamente!

Vamos, rapazes, andando!

Andando, droga, estou mandando!



Era o Sr. Casey. Finalmente, Sr.

Casey.



Buddy Repperton recolheu seu canivete de mola do chão. Fez a

lâmina retrair

-

se e, com um gesto rápido, guardou

-

o no bolso traseiro da

calça. Tinha a mão arranhada e sangrando, com todos os sinais de que ia

inchar. Filho da puta miserável, pensei. De

sejei que aquela mão inchasse

como uma das luvas usadas pelo Pato Donald nas histórias em

quadrinhos.



"Penetra" Welch afastou

-

se de mim, olhou na direção em que soava

a voz do Sr. Casey e tocou delicadamente o canto da boca com o polegar.







Fica pra mais t

arde, cara de pica





disse.



Don Vandenberg agora dançava mais devagar, mas ainda esfregava

a parte afetada. Lágrimas de dor escorriam

-

lhe pelo rosto. Então, Arnie

estava ao meu lado, passando um braço ao redor de meu corpo, ajudando

-

me a levantar. Sua cami

sa estava um bocado suja, devido à queda, quando

Vandenberg o derrubara. Vi tocos de cigarros amassados contra os joelhos

de sua calça

jeans.










Você está bem, Dennis? O que foi que ele fez corn você?







Deu um apertãozinho em meu saco. Já estou melhor.



Pelo



menos, assim esperava. Se você é homem e já lhe deram um

bom apertão nos colhões alguma vez (e que homem não passou por isso?),

sabe o que estou dizendo. Se for mulher, não sabe





não pode saber. A

agonia inicial é apenas o começo; ela desaparece, substit

uída por uma

dorida e latejante sensação de pressão, que se enovela na boca do

estômago. Uma sensação que diz:

Ei, você! É bom estar aqui, rondando a boca

de seu estômago e fazendo com que você tenha vontade de vomitar o almoço e

borrar as calças ao mesmo

tempo! Acho que vou ficar por aqui algum tempo, certo?

Que tal uma meia hora ou coisa assim? Grande!

Levar um apertão nos colhões

não é um dos mais excitantes momentos da vida.



O Sr. Casey abriu caminho entre os espectadores que se

dispersavam e percebeu a



situação. Não era um sujeito grande, como o

treinador Puffer, nem mesmo parecia forte. Era de altura e idade

medianas, e começava a ficar careca. Os óculos enormes, de armação de

chifre, davam um ar conservador em seu rosto. Gostava de camisas

brancas e s

imples





sem gravata





e usava uma delas agora. Não era um

sujeito grande, mas impunha respeito. Ninguém o fazia de trouxa, porque

ele não tinha medo dos rapazes, aquele medo profundo que tantos

professores sentem. E os rapazes sabiam disso. Buddy e Don sa

biam.

"Penetra" também. Isso se refletia na maneira como baixaram os olhos e

moveram os pés inquietamente.







Dêem o fora





ordenou rispidamente o Sr. Casey, aos poucos

espectadores restantes. Eles começaram a afastar

-

se. "Penetra" Welch

decidiu dar o golpe



e acompanhá

-

los.





Você não, Peter





disse o Sr.

Casey.







Ora, Sr. Casey, eu não fiz nada





disse "Penetra".







Nem eu





emendou Don.





Por que está sempre acusando a

gente? O Sr. Casey aproximou

-

se de onde eu estava, ainda amparado por

Arnie.







Tudo bem c

om você, Dennis?



Finalmente eu estava conseguindo superar a crise





o que não

aconteceria, se uma de minhas coxas não tivessem bloqueado

parcialmente a mão de "Penetra". Assenti.






O Sr. Casey caminhou para onde Buddy Repperton, "Penetra" Welch

e Don Vandenb

erg se enfileiravam, zangados e remexendo os pés. Don

não estivera brincando, falara por todos eles. De fato, sentiam

-

se acusados.







Muito interessante, não?





disse finalmente o Sr. Casey.





Três

contra dois. É assim que costuma agir, Buddy? A desvantagem



não parece

importar

-

lhe muito.



Buddy ergueu o rosto, atirou a Casey um olhar maligno e enfurecido,

depois tornou a baixá

-

lo.







Foram eles que começaram. Esses dois.







Não é verdade...





começou Arnie.







Cale a boca, cara de cona





disse Buddy.



Ia acrescen

tar algo, mas antes que pudesse o Sr. Casey o agarrou e

atirou contra a parede dos fundos da oficina. Ali havia um pequeno aviso:

FUMAR SOMENTE AQUI. O Sr. Casey começou a bater Buddy

Repperton contra aquele aviso e, a cada vez que o sacudia, o aviso

balan

çava, como uma dramática marcação. Sacudia Repperton da maneira

como eu ou vocês sacudiríamos uma grande boneca de trapo. Acho que

tinha uma musculatura escondida em algum lugar.







Quer fechar sua bocarra?





disse ele, tornando a bater Buddy

contra o aviso

.





Vai

calar

esse boca ou vou ter de

limpá

-

la!

Porque não

vou ouvir coisas assim, ditas por

você,

Buddy!



Por fim, ele largou a camisa de Repperton, agora fora da calça,

mostrando seu estômago branco e sem cor. O Sr. Casey olhou para Arnie.







O que estava

dizendo?





perguntou.







Passei pela área de fumar a caminho das arquibancadas, onde ia

comer meu almoço





disse Arnie.





Repperton estava aqui, fumando

com seus amigos. Chegou para mim, arrancou o saco do almoço da minha

mão e o pisoteou. Esmagou

-

o.





Ele

pareceu prestes a dizer algo mais,

vacilou e desistiu.





Foi isso que começou a briga.



Entretanto, eu não ia deixar aquilo assim. Não sou dedo

-

duro nem

falador em circunstâncias normais. Repperton, contudo, aparentemente

decidira ser necessário mais do que



uma boa surra para vingar

-

se por ter

sido expulso da Darnell's. Poderia ter feito um buraco nos intestinos de

Arnie, talvez até o matasse.










Sr. Casey





falei.



Ele olhou para mim. Mais atrás, os olhos verdes de Buddy brilharam

malevolamente em minha direç

ão





era um aviso.

Fique de boca fechada,

isto é entre nós.

Até um ano antes, uma distorcida noção de orgulho

poderia forçar

-

me a fazer seu jogo e não ir em frente. Agora era diferente.







O que é, Dennis?







Ele está atrás de Arnie desde o verão. Tem um can

ivete e parecia

decidido a usá

-

lo.



Arnie olhava para mim, os olhos cinzentos opacos e herméticos.

Recordei quando ele chamara Repperton de bosta





a palavra de

LeBay





e senti um arrepio nas costas.







Seu fodido mentiroso!





gritou Repperton, dramaticament

e.





Não tenho canivete nenhum! Casey olhou para ele em silêncio.

Vandenberg e Welch agora pareciam muito pouco à vontade







assustados. Sua possível punição por aquele pequeno tumulto

progredira para além dos castigos





a que estavam acostumados





e da

sus

pensão





que já haviam experimentado





beirando os limites

extremos da expulsão.



Bastava eu dizer mais uma palavra. Pensei a respeito. Quase não

falei. No entanto, Arnie estava envolvido e ele era meu amigo. Além do

mais, eu não apenas

achava que

ele podia



usar aquele canivete







eu

sabia.

Falei.







É um canivete de mola.



Agora os olhos de Repperton não apenas brilharam, eles fulguraram,

prometendo o inferno, a danação e um longo período de inatividade,

fazendo tração para endireitar o corpo machucado.







É me

ntira dele, Sr. Casey





disse em voz rouca.





Ele está

mentindo, juro por Deus. O Sr. Casey nada disse. Virou

-

se lentamente

para Arnie.







Cunningham





perguntou



, Repperton puxou um canivete

para você?



A princípio, parecia que ele não ia responder. Depois

, em uma voz

tão baixa que mais parecia um suspiro, soltou:










Puxou.



O olhar cáustico de Repperton agora foi para nós dois.



Casey se virou para "Penetra" Welch e Don Vandenberg. Percebi

imediatamente uma mudança em seu método de resolver a situação.

Começa

ra a mover

-

se lenta e cautelosamente, como se testasse as próprias

pisadas com cuidado, antes de dar mais um passo. O Sr. Casey já havia

sentido as conseqüências.







Havia um canivete na briga?





perguntou a eles.



"Penetra" e Vandenberg olharam para os pés

e não responderam.

Seu gesto já era uma resposta suficiente.







Vire seus bolsos pelo avesso, Buddy





disse o Sr. Casey.







Uma merda que eu vou fazer isso!





exclamou Buddy, em voz

esganiçada.





Não pode me obrigar!







Se está querendo dizer que não tenho au

toridade, enganou

-

se





disse o Sr. Casey.





Se está querendo dizer que não posso virar seus

bolsos pelo avesso eu mesmo, se quiser, também enganou

-

se. Mas...







Muito bem, tente, tente!





gritou Buddy para ele.





Jogo você

através dessa parede, seu carequin

ha fodido!



Meu estômago contorcia

-

se, impotente. Eu odiava coisas como

aquela, horríveis cenas de confrontação





e nunca fizera parte de

nenhuma pior.



O Sr. Casey, no entanto, tinha a situação sob controle e não se

desviava de seu curso.







Mas, não farei i

sso





concluiu ele.





Você mesmo é que vai virar

seus bolsos pelo avesso.







Uma merda, se vou obedecer!





disse Buddy.



Estava de pé contra a parede dos fundos da oficina, de modo que o

volume no bolso da calça não aparecia. As fraldas da camisa pendiam em

duas abas amarrotadas sobre a frente do

jeans.

Seus olhos se moviam para

todos os lados, como os de um animal acuado.



O Sr. Casey se virou para "Penetra" e Don Vandenberg.










Vocês dois vão para o gabinete e fiquem lá até eu chegar





disse.





Não se atrevam



a ir para outro lugar, já estão com problemas de

sobra, para acrescentar mais um.



Os dois começaram a afastar

-

se lentamente, muito juntos, como por

medida de proteção. "Penetra" arriscou um olhar para trás. No prédio

principal soou o aviso de chamada para



as aulas. Todos começaram a

caminhar para lá, alguns deles envolvendo

-

nos em olhares curiosos.

Tínhamos perdido a hora do almoço, mas pouco importava. Eu não sentia

mais fome.



O Sr. Casey tornou a concentrar sua atenção em Buddy.







Você está dentro do col

égio agora





ele disse





e deve agradecer

a Deus por isso, porque se você está realmente com um canivete e se você

o sacou, isso é agressão à mão armada. Mandam você para a prisão por

causa disso.







Prove, prove que estou com um canivete





Buddy gritou.



Su

as bochechas chamejavam, a respiração saía em pequenos e

rápidos arquejos nervosos.







Se não virar seus bolsos para fora imediatamente, preencherei

uma ficha de dispensa para você. Depois vou chamar os tiras e, no minuto

em que puser os pés fora do portão

principal, eles o agarrarão. Percebe em

que enrascada se meteu?





Olhou severamente para Buddy.





Procuramos manter o nome desta casa





continuou



, mas se me forçar a

preencher uma dispensa, seu traseiro pertencerá a eles, Buddy. Se não

tiver um canivete

em seu poder, é claro que tudo estará certo com você,

mas se tiver e eles o encontrarem...



Houve um momento de silêncio. Nós quatro estávamos imóveis.

Achei que e

\

e não cederia, preferindo aceitar a dispensa e tentar enterrar

o canivete, rapidamente, em al

gum lugar. Então, deve ter percebido que

os tiras o procurariam e terminariam encontrando, porque o puxou do

bolso traseiro e o jogou no piso cimentado. O canivete bateu sobre o botão

de pressão. A lâmina soltou e cintilou malignamente ao sol da tarde: vin

te

centímetros de aço cromado!



Arnie olhou para ela e passou o dorso da mão sobre a boca.







Vá para o gabinete, Buddy





disse tranqüilamente o Sr. Casey



,

e espere até eu chegar lá.










O gabinete que se foda!





gritou Buddy. Sua voz era aguda e

histérica d

e raiva. O cabelo tornara a cair sobre a testa e ele o jogou para

trás.





O que vou fazer é dar o fora desse maldito chiqueiro!







Perfeitamente, tudo bem





disse o Sr. Casey.



A inflexão e excitamento de sua voz seriam os mesmos, se Buddy

lhe tivesse oferec

ido uma xícara de café. Compreendi, então, que Buddy

estava liquidado no Ginásio de Libertyville. Nada de suspensão ou três

dias de férias: seus pais receberiam pelo correio o rijo formulário azul de

expulsão, explicando por que ele fora expulso e informan

do sobre seus

direitos e opções legais quanto ao assunto.



Buddy olhou para mim e Arnie. Então sorriu.







Vocês me pagam





disse.





Ainda vamos ajustar contas. Vão

desejar nunca terem nascido, seus merdas.



Chutou o canivete e ele deslizou, girando e cintilan

do. Ele parou a

alguma distância e Buddy afastou

-

se, as travas nos tacões de suas botas de

motoqueiro dando estalidos e rangendo. O Sr. Casey se voltou para nós.

Tinha a expressão triste e fatigada.







Sinto muito





disse.







Está tudo bem





replicou Arnie.







Vocês querem cartões de dispensa? Posso preenchê

-

los para os

dois, se acharem melhor ficar em casa o resto do dia.



Olhei para Arnie, que sacudia a camisa para limpá

-

la. Ele abanou a

cabeça.







Não é preciso, está tudo bem





falei.







Certo. Preencherei ent

ão os cartões de atraso.



Fomos à sala do Sr. Casey e ele preencheu cartões de atrasados para

nossa aula seguinte, uma das que, por acaso, teríamos juntos





Física

Avançada. Quando entramos no laboratório de Física, um bocado de

gente olhou curiosamente par

a nós e ouvimos alguns cochichos.



A ficha de ausência da tarde circulou no final do sexto período.

Observei

-

a e vi os nomes de Repperton, Vandenberg e Welch, cada um

deles com um (S) após o nome. Pensei que eu e Arnie seríamos chamados




ao gabinete no fim d

as aulas, para contarmos o sucedido à Sra. Lothrop, a

chefe de disciplina. Não fomos.



Procurei Arnie depois das aulas, pensando que iríamos juntos para

casa em meu carro, a fim de comentarmos o caso, mas também me

enganei quanto a isso. Ele já se mandara p

ara a Garagem de Darnell, a fim

de trabalhar em Christine.





C

HRISTINE

O

UTRA

V

EZ NA

R

UA



Tenho um Ford Mustang 66, vermelho

-

cereja,



Com uma potência de 380 cavalos,



Compreenda, ele é potente demais



Para rastejar em rotas interestaduais.







Chuck Berry





De fat

o, só tive uma chance de falar com Arnie, depois da partida de

futebol do sábado seguinte. Também foi aquela a primeira vez que

Christine saiu para a rua, desde o dia em que ele a comprara.



O time foi para Hidden Hills, a uns vinte e cinco quilômetros de

d

istância, na viagem mais silenciosa que já vi, em nosso ônibus de

atividades escolares. Era como se rumássemos para a guilhotina e não

para uma partida de futebol. O próprio fato de a contagem deles (1

-

2) ser

ligeiramente melhor do que a nossa, era um fato

r que não levantava muito

o moral. Puffer, o treinador, ocupava o banco atrás do motorista, pálido e

silencioso, como se estivesse de ressaca.



Em geral, a viagem para uma partida em outro local era uma

combinação de caravana e circo. Um segundo ônibus, lot

ado com as

chefes de torcidas, a banda e todos os estudantes do Ginásio de

Libertyville que se alistassem como "torcedores" ("torcedores", meu Deus

do céu! quem acreditaria nisso, se não houvéssemos todos cursado o

ginásio?) rodava atrás do ônibus do time.



Após os dois ônibus, havia uma

fila de quinze ou vinte carros, em sua maioria repletos de adolescentes,

quase todos os veículos com DURO NELES, TERRIERS colado nos pára

-




choques, buzinando, de faróis acesos e todos aqueles detalhes que, sem

dúvida, vocês a

inda recordam de seus tempos escolares.



Naquela viagem, contudo, havia apenas o ônibus das chefes

-

de

-

torcida/banda (assim mesmo, nem inteiramente lotado quando, em um

ano vencedor, se você não se alistasse até terça

-

feira, não tinha chance de

ir) e três ou



quatro carros atrás dele. Os amigos dos bons tempos tinham

se mandado. Eu ia sentado no ônibus do time, perto de Lenny Barongg,

perguntando

-

me sombriamente se não me arrancariam a cueca naquela

tarde, e ignorando por completo que um dos poucos carros atrá

s de nós

era Christine.



Só a vi quando descemos do ônibus, no pátio de estacionamento do

Ginásio de Hidden Hills. A banda deles já estava no campo e ouvíamos

claramente a batida do bombo, amplificada de modo estranho, sob o céu

anuviado e sombrio. Aquele s

eria o primeiro sábado realmente bom para

futebol





frio, de céu fechado e outonal.



Já foi surpresa suficiente ver Christine estacionada ao lado do

ônibus da banda, mas quando Arnie saiu por um lado e Leigh Cabot pelo

outro, fiquei pasmo





e também um pouq

uinho enciumado. Ela usava

calças compridas justas de lã marrom e um pulôver branco de malha, os

cabelos alourados derramando

-

se maravilhosamente sobre os ombros.







Arnie!





chamei.





Ei, cara!







Oi, Dennis





respondeu ele, um pouco acanhado.



Eu percebia q

ue alguns jogadores saindo do ônibus também

estavam surpresos: ali estava Cunningham Cara de Pizza, com a

fascinante transferida de Massachusetts. Como, em nome de Deus,

aquilo

acontecera?







Como vai?







Bem





disse ele.





Conhece Leigh Cabot?







Sim, da sal

a de aulas





falei.





Oi, Leigh.







Oi, Dennis. Como é, vão vencer hoje? Baixei a voz para um

sussurro.







Vai ser um jogo combinado. Pode apostar o traseiro.



Arnie enrubesceu um pouco ao ouvir

-

me, mas Leigh levou a mão à

boca e deu uma risadinha.










Vamos fa

zer o possível, mas não sei dizer





continuei.







Torceremos por sua vitória





disse Arnie.





Até posso ver nos

jornais de amanhã: Transportado pelo Ar, Guilder Quebra o Recorde

de

Touchdown

da Associação.







Guilder Levado para o Hospital com Fratura de Crâ

nio, seria o

mais provável





repliquei.





Quantos rapazes vieram? Dez? Quinze?







Vai sobrar mais lugar nas arquibancadas para os que vieram





disse Leigh.



Ela tomou o braço de Arnie





acho que o surpreendendo e

agradando. Eu já gostava dela. Ela podia ser

uma garota sexualmente

provocante ou repugnante





em minha opinião, um bando de garotas

realmente bonitas é uma ou outra coisa



, mas ela não era nada disso.







Como vai o rodante?





perguntei, aproximando

-

me do carro.







Nada mau.



Arnie me seguiu, tentando

não rir de forma tão escandalosa. O

trabalho progredira e já havia muita coisa feita no Fury, de maneira que

não parecia mais tão absurdo e irremediável. A outra metade da grade

antiga e enferrujada do radiador fora substituída e desaparecera por

completo

o ninho de rachaduras no pára

-

brisa.







Você trocou o pára

-

brisa





comentei. Arnie assentiu.







E o capô.



O capô estava límpido, novo em folha, formando um chocante

contraste com as laterais pontilhadas de ferrugem. Era um vermelho vivo

de carro de bombeiros

. Aparência brilhante. Arnie o tocou

possessivamente e o toque se transformou em carícia.







Hum

-

hum. Eu mesmo o coloquei.



Algo daquilo penetrou em mim. Ele havia feito

tudo

sozinho, não?







Você disse que ia transformá

-

lo em peça de exposição





falei.





Ach

o que estou começando a acreditar.



Dei a volta, até o lado do motorista. A forração lateral das portas e

do piso continuava suja e surrada, mas agora o estofamento do banco

dianteiro fora substituído, bem como o do traseiro.










Vai ficar muito bonito





diss

e Leigh, mas havia uma nota falsa

em sua voz.



Seu tom não soara naturalmente brilhante e efervescente, como

quando estávamos falando sobre o jogo





e isso me fez observá

-

la. Um

olhar apenas foi suficiente. Ela não gostava de Christine. Adivinhei de

maneira



tão completa e absoluta, como se houvesse captado uma das

ondas cerebrais de Leigh no ar. Senti que faria o possível para gostar do

carro, porque gostava de Arnie. No entanto... ela não iria gostar

realmente

de Christine.







Quer dizer que já legalizou o c

arro para rodar na rua





falei.







Bem...





Arnie pareceu pouco à vontade.





Não consegui ainda.

A legalização completa.







O que quer dizer?







A buzina não funciona e, às vezes, as lanternas traseiras apagam,

quando piso no freio. Deve existir um curto em a

lgum lugar, mas até

agora ainda não descobri onde.



Olhei para o pára

-

brisa novo. Havia um adesivo recente de inspeção

sobre ele. Arnie seguiu meu olhar e conseguiu ficar constrangido e algo

agressivo ao mesmo tempo.







Will me arranjou o adesivo





explicou.







Ele sabe que o carro

está noventa por cento legal.

Além disso, pensei, você conseguiu sair com sua

garota, certo?







Não é perigoso, é?





perguntou Leigh.



A pergunta foi dirigida a nós dois. Ela franzira o cenho

ligeiramente





creio que captara a súbita

corrente fria entre Arnie e eu.







Não





respondi.





Creio que não. Quando estiver com Arnie e

ele na direção, estará em companhia do próprio anjo da guarda.



Meu comentário rompeu a estranha tensão que se formara. Do

campo chegou até nós um esganiçado disso

nante de metais, seguido pela

voz do instrutor da banda, perfeitamente nítida sob o céu carregado:







De novo, por favor! Isto é Rodgers e Hammerstein, não rock and ro

-

ool!

De novo, por favor!

Nós três nos entreolhamos. Eu e Arnie começamos a rir

e, após um



momento, Leigh riu também.






Ao fitá

-

la, tornei a sentir aquele ciúme momentâneo. Eu nada mais

queria senão o melhor para meu amigo Arnie, porém ela era realmente

alguma coisa





dezessete anos, caminhando para os dezoito, fascinante,

perfeita, saudável, viv

a para tudo em seu mundo. Roseanne era bonita à

sua maneira, porém Leigh a fazia parecer um bicho

-

preguiça tirando um

cochilo.



Foi então que comecei a querê

-

la? Que comecei a querer a garota de

meu melhor amigo? Sim, suponho que tenha sido. No entanto, eu

lhe juro,

nunca a teria assediado, se as coisas tivessem acontecido de modo

diferente. Apenas, eu não imaginava que pudessem ser diferentes. Talvez

fosse tão

-

somente uma questão de sentimentos.







É melhor irmos andando, Arnie, ou não encontraremos um bom

l

ugar nas arquibancadas dos visitantes





disse Leigh, com uma entonação

de grande dama.



Ele sorriu. Ela ainda lhe segurava o braço de leve, deixando

-

o

bastante desajeitado com aquilo. Por que não? Se fosse comigo, se tivesse

minha primeira experiência com u

ma garota daquelas, alguém tão bonita

como Leigh, já estaria três quartos apaixonado por ela. Desejei a ele o

melhor com ela. Gostaria que vocês acreditassem nisso, mesmo que não

acreditem em mais nada do que vou contar, daqui por diante. Se alguém

merecia



um pouco de felicidade, era Arnie.



O resto do time tinha ido para os vestiários dos visitantes, nos

fundos da ala do ginásio da escola, e agora Puffer mostrava a cabeça.







Será que pode nos favorecer com a sua presença, Sr. Guilder?





gritou ele.





Sei qu

e é pedir muito, mas espero que me perdoe, se tiver

algo mais importante a fazer. Se não tiver, poderia trazer seu rabo até este

vestiário?



Murmurei para Arnie e Leigh:







Isto é Rodgers e Hammerstein, não

rock and ro

-

ool





e corri na

direção do prédio. Cami

nhei para os vestiários





Puffer voltara para

dentro





e Arnie e Leigh afastaram

-

se para



as arquibancadas. A meio caminho para as portas, parei e voltei até

Christine. Aproximei

-

me dela em um círculo, ainda persistia aquele

absurdo preconceito contra camin

har à frente do carro.






Na traseira, vi uma placa de concessionário da Pensilvânia, mantida

no lugar por uma mola. Virei

-

a do outro lado e vi uma fita adesiva fosca,

com os dizeres: ESTA PLACA É DE PROPRIEDADE DA GARAGEM

DARNELL, LIBERTYVILLE, PA.



Deixei a

placa cair de volta e levantei

-

me, de cenho franzido. Então,

Darnell dera a Arnie um adesivo de inspeção, quando o carro ainda estava

longe de ter condições para trafegar; ele lhe emprestara uma placa de

concessionário, a fim de poder usar o carro e trazer



Leigh ao jogo. Além

do mais, deixara de ser "Darnell" para Arnie, que pouco antes o chamara

de "Will". Interessante, mas não muito confortador.



Perguntei

-

me se Arnie era idiota o bastante para pensar que os Will

Darnell do mundo algum dia prestavam favore

s por pura bondade.

Esperei que não fosse, mas não tinha certeza. Eu não tinha mais muita

certeza sobre Arnie. Ele mudara demais nas últimas semanas.



Nós pintamos o diabo no campo e conseguimos ganhar o jogo





como se viu mais tarde, foi um dos únicos dois



que ganhamos em toda a

temporada... embora eu não estivesse mais no time, quando ela terminou.



Não tínhamos direito algum de vencer: fomos para o campo já nos

sentindo derrotados e perdemos o lançamento. Os Hilmen Montanheses

(nome tolo para uma equipe, m

as o que há de tão inteligente em ser

conhecido como os

Terriers





cães de toca





se descemos a isto?)

avançaram quarenta metros em duas primeiras jogadas, penetrando em

nossa linha de defesa como queijo em goela de pato. Então, em sua

terceira jogada segu

ida, o zagueiro deles deixou a bola escapar. Gary

Tardiff a agarrou e rastejou sessenta metros para o escore, com um

enorme sorriso aberto no rosto.



Os Hilmen e seu treinador perderam a pose, protestando que a bola

estava impedida na linha do centro, mas o

s árbitros discordaram e

ganhamos por 6

-

0. De meu lugar no banco, eu podia olhar até as

arquibancadas dos visitantes e via que os poucos torcedores do

Libertyville estavam ficando alucinados. Acho que tinham todo o direito,

afinal era a primeira vez que le

vávamos a melhor em uma partida, em

toda a temporada. Arnie e Leigh sacudiam bandeirolas dos Terriers.

Acenei para eles. Leigh me viu, acenou de volta e depois cutucou Arnie.

Ele acenou também. Pareciam estar ficando muito íntimos, lá em cima, o

que me fez



sorrir.






Quanto ao jogo, não perdemos o entusiasmo, após aquela contagem

obtida na pura sorte. Havíamos conseguido para nós essa coisa mística, o

ímpeto





talvez pela última vez do ano. Não quebrei o recorde de

touchdown

da Associação, conforme Arnie previ

ra, mas fiz pontos três

vezes, uma delas em uma corrida de noventa metros, a mais longa que já

fizera. Chegado o meio tempo, a contagem era de 17

-

0 e o treinador se

tornara um novo homem. Ele entrevia uma grande reviravolta à nossa

frente, a maior arrancad

a na história da Associação. Claro está que era um

sonho louco, como se viu depois, porém ele tinha motivos para ficar

eufórico naquele dia, e gostei que assim fosse, como gostei do

aprofundamento da amizade de Arnie e Leigh.



O segundo tempo não foi tão bo

m; nossa defesa reassumiu a postura

cabisbaixa a maior parte do tempo, a mesma postura de nossos três

primeiros jogos, porém a contagem continuou bem a nosso favor.

Vencemos por 27

-

18.



O último quarto de hora ia pelo meio quando o treinador me

mandou sair

e entrou Brian McNally, que me substituiria no ano

seguinte





em realidade, ainda mais cedo do que isso, como se viu depois.

Tomei uma ducha, troquei de roupa e saí, no momento em que soava o

aviso para os dois últimos minutos de jogo.



O pátio de estaciona

mento estava repleto de carros, mas vazio de

gente. Uma gritaria selvagem vinha do campo, quando a torcida dos

Hilmen insistia com seu time para que fizesse o impossível, naqueles dois

últimos minutos da partida. Da distância em que me achava, tudo me

pare

cia tão sem importância, como indubitavelmente o era.



Caminhei em direção a Christine.



Lá estava ela, com sua lataria lateral pontilhada de ferrugem, o capô

novo e a traseira parecendo ter mil quilômetros de comprimento. Um

dinossauro dos soturnos dias do

bop

dos anos 50, quando todos os

milionários do petróleo eram do Texas e o dólar ianque tripudiava do iene

japonês, em vez de ser o contrário. De volta aos tempos em que Carl

Perkins cantava sobre calças três quartos cor

-

de

-

rosa e Johnny Horton

cantava sob

re dançar

-

se a noite inteira no piso de madeira dura de uma

espelunca, e o maior ídolo dos adolescentes no país era Edd "Kookie"

Byrnes.






Toquei em Christine. Tentei acariciá

-

la, como Arnie fizera. Queria

gostar daquele carro por causa de Arnie, como Leigh

havia feito.

Certamente, se alguém fosse capaz de forçar

-

se a gostar dele, esse alguém

era eu. Leigh conhecia Arnie a apenas um mês. Eu o conhecera a vida

inteira.



Deslizei a mão pela superfície enferrujada, pensando em George

LeBay, Verônica e Rita LeBay.



Em algum ponto de tais pensamentos, a

mão que supostamente devia acariciar fechou

-

se em um punho e esmurrei

subitamente o flanco de Christine, com quanta força pude, com violência

bastante para me machucar a mão e me fazer dar uma risadinha defensiva,

per

guntando

-

me que diabo eu pensava estar fazendo.



Ouvi o som de flocos de ferrugem desprendendo

-

se da lataria.



O som de um bombo, vindo do campo de futebol, como gigantesca

pulsação cardíaca.



O som de minhas próprias pulsações cardíacas.



Experimentei a porta



da frente.



Estava trancada.



Passei a língua pelos lábios e senti que estava assustado.



Era quase como se





aquilo era engraçado, era hilariante



, era

quase como se o carro não gostasse de mim, como se desconfiasse que eu

queria intrometer

-

me entre ele e

Arnie, como se soubesse que eu não

queria caminhar diante dele porque...



Tornei a rir, mas então recordei meu sonho e fiquei sério. Aquilo era

demais, para deixar

-

me sossegado. Não era Chubby McCarthy clamando

pelo rádio, claro, não em Hidden Hills, mas o

final daquilo provocou uma

sensação desagradável e fantástica de

déjà vu





o som dos gritos da

torcida, o som do contato de corpos acolchoados, o vento sibilando por

entre as árvores que pareciam recortadas, sob um céu encoberto.



O motor dispararia. O carr

o saltaria para diante, recuando,

avançando, recuando. E então os pneus chiariam, quando rugissem

diretamente para mim...



Afugentei o pensamento. Era tempo de parar de entulhar

-

me com

toda aquela merda idiota. Era tempo





mais do que tempo





de

controlar m

inha imaginação. Aquilo ali era um carro





não uma "ela" mas




um "ele", não realmente Christine, mas apenas um Plymouth Fury 1958,

que saíra de uma linha de montagem em Detroit, juntamente com mais

uns quatrocentos mil outros.



Isso funcionou... pelo menos t

emporariamente. Só para demonstrar

que não estava nem um pouco amedrontado, ajoelhei

-

me e espiei debaixo

do carro. O que vi lá era ainda mais louco do que a estranha maneira pela

qual o Plymouth estava sendo reconstruído no alto. Havia três

amortecedores n

ovos mas o quarto era uma ruína escura e suja de graxa,

parecendo ter estado ali desde sempre. O cano de descarga era tão novo

que ainda reluzia como prata, porém o silencioso tinha uma aparência de

meia

-

idade, pelo menos, enquanto que a junção do cano de

descarga se

mostrava em péssimo estado. Ao olhar para este último, pensei nas

emanações que poderiam passar para dentro do carro e isso me fez

novamente recordar Verônica LeBay. Porque emanações do cano de

descarga podem matar.



Elas...







O que está fazendo

, Dennis?



Creio que estava mais inquieto do que imaginava, porque me

levantei como uma flecha, o coração disparando no peito. Era Arnie. Ele se

mostrava frio e irritado.



Porque eu dava uma espiada em seu carro? Por que isso deveria deixá

-

lo tão

fora de si?



Uma boa pergunta. No entanto, era evidente que o deixara

furioso.







Examinava seu potente motor





falei, tentando aparentar

naturalidade.





Onde está Leigh?







Foi ao toalete





respondeu ele, encerrando este ponto. Os olhos

cinzentos permaneciam fixos em m

eu rosto.





Dennis, você é meu melhor

amigo, o melhor que já tive. Acho que me poupou uma viagem ao

hospital outro dia, quando Repperton puxou aquela faca para mim, mas

não gosto do que anda fazendo pelas minhas costas, Dennis. Você nunca

foi assim.



Houve

um tremendo rugido da torcida no campo





os Hillmen

tinham acabado de fazer o tento final do jogo, com menos de trinta

segundos de tempo restando.







Não sei de que diabo está falando, Arnie





respondi.






No entanto, sentia

-

me culpado. Culpado pela maneira co

mo me

sentira ao ser apresentado a Leigh, avaliando

-

a, desejando

-

a um

pouquinho





desejando a garota que, tão evidentemente, Arnie queria

para si. Contudo... fazer algo por trás de suas costas? Era isso que eu

estivera fazendo?



Suponho que ele poderia ter

encarado assim a questão. Eu estava

sabendo que seu irracional





interesse, obsessão, seja lá o que for



, sua

postura

irracional sobre o carro era o aposento trancado na casa de nossa

amizade, o lugar em que eu não poderia penetrar sem atrair todo tipo de



problemas. E, se ele não me surpreendera tentando arrombar a porta, pelo

menos me apanhara espiando pelo buraco da fechadura.







Acho que sabe

muito bem

do que estou falando





respondeu ele,

e não estava apenas irritado, mas enfurecido, conforme pude const

atar,

com certa apreensão.





Você, meu pai, minha mãe, estão todos me

espionando "para o meu bem", não é assim que se diz? Eles o mandaram à

Garagem de Darnell para bisbilhotar, não foi?







Escute aqui, Arnie, espere um pouco...







Cara, não pensou que eu ac

abaria descobrindo? Não disse nada

quando soube porque... bem, porque somos amigos. Só que não gosto

disso, Dennis. Tem que haver um limite e acho que o estou marcando. Por

que não deixa meu carro em paz e pára de se meter onde não foi chamado?







Em primei

ro lugar





respondi





não foram seu pai e sua mãe.

Michael me chamou de lado e pediu que desse uma espiada no que você

já tinha feito com o carro. Concordei, porque também estava curioso. Seu

pai sempre foi muito legal comigo. O que mais poderia responder

a ele?







Devia ter respondido "não".







Você não entende, Arnie. Ele está do seu lado. Sua mãe ainda

espera que tudo isto dê em nada, foi o que percebi, mas Michael tem

realmente esperança de que você ponha o carro rodando. Ele me disse isso.







Claro, era a



melhor maneira de convencer você.





Arnie estava

quase rosnando.





Na verdade, ele está interessado é em ter certeza de

que continuo atrapalhado com o carro. É só o que interessa a eles. Não

querem que eu cresça, porque então estariam enfrentando a própri

a

velhice.







Está sendo muito duro, cara.










Talvez você acredite nisso. Talvez o fato de vir de uma família

mais ou menos normal deixe você de miolo mole, Dennis. Eles me

ofereceram um carro novo quando eu tirasse o diploma, sabia?



Tudo o que eu devia faze

r era desistir de Christine, tirar A em todas

as matérias e concordar em matricular

-

me em Horlicks... onde os dois

poderiam manter

-

me sob sua vigilância direta por mais quatro anos.



Fiquei sem saber o que dizer. Aquilo era pura estupidez, claro.







Portanto

, fique fora disso, Dennis. É tudo quanto tenho a dizer.

Será melhor para nós dois.







De qualquer modo, não contei nada a ele





repliquei.





Falei

apenas que você estava consertando umas coisinhas, aqui e ali. Ele

pareceu ficar aliviado.







Oh, aposto que s

im!







Não fazia a menor idéia de que o carro estivesse quase no ponto

de poder rodar na rua. Mas falta ainda alguma coisa. Dei uma espiada por

baixo dele e vi que o cano de juntura da descarga está em terríveis

condições. Espero que esteja dirigindo com os



vidros arriados.







Não venha me dizer o que devo fazer! Conheço esse carro muito

melhor do que você!



Foi quando comecei a me encher daquilo. Não estava gostando do

rumo que o caso tomava





não queria discutir com Arnie, especialmente

agora, quando Leigh c

hegaria a qualquer momento



, mas pude sentir

alguém no compartimento cerebral do andar de cima, começando a

apertar aqueles botões vermelhos, um por um.







Talvez seja verdade





repliquei, controlando a voz



, mas não

estou muito certo sobre até que ponto

você conhece as pessoas. Will

Darnell lhe deu um adesivo de licença inadequado. Se você for apanhado,

Arnie, poderá perder seu certificado estadual de inspeção. Ele arranjou

também uma placa de concessionário. Por que Darnell fez isso, Arnie?



Pela primeira



vez, Arnie ficou na defensiva.







Eu já lhe disse. Ele sabe que estou trabalhando no carro.







Não seja imbecil! Aquele cara não daria uma muleta a um

caranguejo aleijado se não tirasse nisso algum proveito e você sabe.










Pelo amor de Deus, Dennis, quer faz

er o favor de ficar fora disso?







Escute aqui, cara





falei, dando um passo para ele.





Estou

pouco me lixando se você tem ou não um carro. Só não quero que se meta

em enrascadas por causa dele. Sinceramente.



Ele me fitou com incerteza.







E outra coisa: po

r que estamos aqui aos gritos, um para o

outro?





acrescentei.





Só porque espiei debaixo de seu carro, para ver

como o cano de descarga estava preso?



Enfim, aquilo não era tudo o que eu tinha feito. Não tudo. E penso

que ambos sabíamos disso.



No campo de

jogo, o tiro final soou com um "bangue" monótono.

Uma brisa ligeira começara a soprar e estava esfriando. Viramo

-

nos para o

som do tiro e avistamos Leigh, caminhando em nossa direção, trazendo

suas bandeirolas e as de Arnie. Ela acenou. Acenamos em respost

a.







Posso muito bem cuidar de mim, Dennis





avisou ele.







Está legal





respondi simplesmente.





Espero que possa.



De repente, senti vontade de perguntar

-

lhe até que ponto ia sua

amizade com Darnell. Foi uma pergunta que não pude fazer, porque

originaria u

ma discussão ainda mais amarga. Seriam ditas coisas que

talvez nunca mais fossem reparadas.







Claro que posso





disse ele.



Tocou seu carro e a expressão dura dos olhos suavizou

-

se.

Experimentei uma mistura de alívio e inquietação





alívio, por afinal não

a

cabarmos brigando, pois tínhamos conseguido controlar as palavras que,

se ditas, seriam o golpe final. Não obstante, tive a sensação de que não

fora fechado apenas um aposento em nossa amizade, mas toda uma

maldita ala. Ele rejeitara totalmente o que eu ti

nha para dizer e deixou

bem claras as condições para que nossa amizade continuasse: tudo estaria

bem, desde que eu não me atravessasse em seu caminho.



Se ele pudesse perceber, essa também era a atitude de seus pais. De

qualquer modo, Arnie teria que descob

rir isso em outra oportunidade.



Leigh chegou até nós, com gotas de chuva cintilando em seu cabelo.

Estava corada, os olhos brilhantes de boa saúde e saudável excitamento.

Exalava uma ingênua e não

-

testada sexualidade, que me deixou com a




cabeça ligeirament

e zonza. Não que eu fosse o objeto principal de sua

atenção





Arnie é que o era.







Como foi que terminou?





perguntou ele.







Vinte e sete a dezoito





disse ela, para acrescentar,

jovialmente:





Nós acabamos com eles. Onde estavam vocês dois?







Conversando

sobre carros, nada mais





falei.



Arnie dirigiu

-

me um olhar divertido





pelo menos, seu senso de

humor não havia desaparecido, juntamente com o senso comum. Pensei

que houvesse algum motivo de esperança, na maneira como olhava para

ela. Estava gamado por Le

igh, da cabeça aos pés. No momento, ainda era

uma queda lenta, mas certamente a velocidade aumentaria, com eles dois

saindo juntos. A pele de Arnie limpara completamente e sua aparência era

muito boa, apesar de um tanto intelectual, por causa dos óculos qu

e usava.

Não era o tipo de pessoa que se esperaria fosse do agrado de alguém

como Leigh Cabot; o que qualquer um imaginaria, era vê

-

la pendurada ao

braço da versão ginasial americana de Apolo.



As pessoas agora cruzavam o campo correndo, nossos jogadores e

os adversários, nossa torcida e a deles.







Apenas conversando sobre carros





repetiu Leigh, zombeteira.



Ergueu o rosto para Arnie e sorriu. Ele sorriu também, um sorriso

enternecido e satisfeito, que encheu meu coração de alegria. Bastava olhar

para ele e

eu poderia dizer que quando Leigh lhe sorria daquele jeito,

Christine era o assunto mais remoto em sua mente, ficava relegada ao seu

lugar exato, isto é, um meio de transporte.



Achei aquilo ótimo.





N

AS

A

RQUIBANCADAS



Ó Senhor, quer me comprar um Mercedes

-

Be

nz?



Todos os meus amigos dirigem Porsches,



Preciso ser compensado...







Janis Joplin








Nas primeiras duas semanas de outubro, vi Arnie e Leigh um

bocado de vezes pelos corredores, primeiro recostados contra seus

armários pessoais, o dele ou o dela, conversan

do antes do toque de ida

para casa; depois de mãos dadas; em seguida, saindo da escola enlaçados

pelos ombros. Tinha acontecido. No jargão escolar, eles estavam "saindo

juntos". Pensei que era bem mais do que isso. Pensei em como estavam

apaixonados.



Eu nã

o vira mais Christine desde o dia em que derrotamos o time de

Hidden Hills. Aparentemente, ela retornara à Darnell's para novos

reparos





talvez isso fizesse parte do acordo entre Arnie e Darnell,

quando este lhe emprestara a placa de concessionário e o ad

esivo ilegal

aquele dia. Não vi o Fury, mas vi Leigh e Arnie muitas vezes... e também

ouvi muito a respeito dos dois. Eram um assunto quente, nas fofocas da

escola. As garotas queriam saber o que Leigh

vira

nele, afinal; os rapazes,

sempre mais práticos e

vulgares, queriam apenas saber se meu amigo

tampinha já conseguira ir "até o fim do caminho" com sua garota. Eu não

me preocupava com nenhuma das duas coisas, mas de tempos em tempos

me perguntava o que pensariam Regina e Michael sobre o caso extremo de

pr

imeiro amor de seu filho.



Em certa segunda

-

feira de meados de outubro, eu e Arnie

almoçamos juntos nas arquibancadas, perto do campo de futebol, como

havíamos planejado fazer naquele dia em que Buddy Repperton exibira

sua faca. Aliás, Repperton fora realme

nte expulso por causa daquilo.

"Penetra" e Don saíram

-

se com três dias de suspensão. No momento,

comportavam

-

se como bons meninos. E, nesse ínterim não

-

tão

-

doce, o

time de futebol sofrera mais duas derrotas. Nossa contagem agora era de

1

-

5 e o treinador re

caíra em rabugento silêncio.



Meu saco de almoço não estava tão bem abastecido como no dia de

Repperton e da faca; o único ponto positivo que eu via em nossa contagem

de 1

-

5 era que agora nos mantínhamos tão atrás dos Ursos de Ridge Rock

(cuja contagem era

de 5

-

0

-

1) que somente se o ônibus da equipe deles

despencasse por um abismo conseguiríamos fazer alguma coisa na

Associação.



Estávamos sentados ao brando sol de outubro





não faltava muito

tempo para os fantasmas feitos de lençóis, as máscaras de borracha

e

fantasias compradas no Woolworth



, mastigando e falando pouco.




Arnie tinha um ovo grelhado com temperos picantes e o trocou por um de

meus sanduíches de carne fria. Os pais pouco sabem sobre as vidas

secretas dos filhos, penso eu. Desde o primeiro grau,



todas as segundas

-

feiras Regina Cunningham colocava um ovo

-

grelhado

-

picante na

lancheira de Arnie, e todos os dias, depois de havermos jantado carne

assada (em geral na ceia dos domingos), eu tinha uma fatia daquela carne

em meu sanduíche. Acontece que se

mpre detestei carne assada fria e

Arnie sempre detestou aqueles ovos picantes, embora eu nunca o tivesse

visto rejeitar um ovo preparado de outro modo. Muitas e muitas vezes me

perguntei o que pensariam nossas mães se soubessem que parte ínfima

das centena

s de ovos picantes e dúzias de sanduíches de carne assada fria,

postos em nossas respectivas lancheiras, tinham sido realmente comidos

por aqueles a quem eram destinados.



Comi meus biscoitos e Arnie seus doces de figo em barra. Ele me

olhou para certificar

-

se de que eu espiava e então enfiou todas as seis

barras de doce de figo na boca, ao mesmo tempo, começando a mastigá

-

las. Suas bochechas se incharam grotescamente.







Que falta de educação, raios!





exclamei.







Ung

-

un

-

guut

-

ung





replicou Arnie.



Comecei a

espetar meus dedos em suas costelas, onde ele sempre

sentira muita cócega, gritando:







Vou tocar piano em suas costelas! Ouviu bem, Arnie? Vou tocar

piano em suas costelas! Ele começou a rir, expelindo pequenos punhados

de massa de doce meio mastigada. Sei



o quanto isto pode parecer

detestável, mas era bastante divertido.







Pare, Dennis!





disse ele, com a boca ainda cheia de doce.







Como disse? Não consigo entender o que diz, seu filho da mãe!



Eu continuava a fazer

-

lhe cócegas, no estilo que denominávamos

"tocar piano" quando éramos crianças (por algum motivo hoje perdido nas

areias do tempo), enquanto ele ficava se torcendo, retorcendo e rindo.



Engoliu tudo o que tinha na boca e depois arrotou.







Nossa! Você é muito mal

-

educado, Cunningham!





exclamei.







E



eu não sei?






Ele parecia realmente satisfeito com aquilo. Talvez estivesse mesmo;

que eu soubesse, nunca fizera aquele truque das seis barras de doce

enfiadas na boca ao mesmo tempo, diante de mais ninguém. Se cometesse

tal atrocidade em presença dos pais,



acho que Regina pariria um gatinho e

Michael possivelmente teria uma trombose cerebral.







Quantas você já conseguiu enfiar na boca?





perguntei.







Uma vez já botei doze ao mesmo tempo





disse ele



, mas

pensei que fosse sufocar. Eu ri com vontade.







Já fe

z a demonstração para Leigh?







Estou reservando para a festa de fim de ano





disse.





Espero

também poder tocar piano nas costelas dela.



Rimos à beça com isso e percebi o quanto às vezes sentia falta de

Arnie





e eu tinha o futebol, o conselho de estudante

s, uma nova

namorada que (assim esperava) consentiria em masturbar

-

me, antes que

terminasse a temporada do

drive

-

in.

Minhas esperanças de que ela fosse

além disso eram mínimas: a garota parecia encantada demais consigo

mesma. De qualquer modo, seria uma ex

periência divertida.



Mesmo com tanta coisa acontecendo, eu ainda sentia falta de Arnie.

Primeiro havia sido Christine, agora eram Leigh e Christine. Nesta ordem,

era o que esperava.







Onde está ela hoje?





perguntei.







Indisposta





informou ele.





Ficou me

nstruada e parece que

não passa muito bem com suas regras.



Ergui as sobrancelhas mentalmente. Se ela discutia seus problemas

femininos com ele, é porque já estavam ficando muito íntimos.







Como foi que pediu a ela para ir ao jogo de futebol aquele dia?

Qua

ndo jogamos em Hidden Hills?



Ele riu.







O único jogo de futebol a que já fui, desde calouro. Demos sorte a

você, Dennis.







Foi só telefonar para ela e convidá

-

la?







Quase não tive coragem. Foi o primeiro encontro que tive.





Ele

me fitou com acanhamento.










Na véspera, acho que só dormi umas duas horas. Depois que

telefonei, e ela disse que iria comigo, fiquei em pânico, achando que tinha

feito um papel idiota ou que Buddy Repperton ia aparecer e querer brigar.

Pensei que ia acontecer qualquer coisa terrível

.







Você parecia ter tudo sob controle.







É mesmo?





Ele ficou satisfeito.





Hum, é bom ouvir isso, mas a

verdade é que estava apavorado. Ela já tinha conversado comigo nos

corredores, sabe como é, me perguntava sobre os deveres de casa e coisas

assim. Ent

rou para o clube de xadrez, mesmo não sendo muito boa...

Agora está ficando melhor. Estou ensinando como se joga.



Aposto que sim, vivaldino,

pensei, não ousando dizer em voz alta.

Ainda recordava a maneira como Arnie se voltara contra mim, naquele

dia do j

ogo em Hidden Hills. Por outro lado, eu queria ouvir aquilo,

estava morrendo de curiosidade. Conquistar uma garota fascinante como

Leigh Cabot devia ter sido uma dureza.







Então, depois de algum tempo, comecei a pensar que ela poderia

estar interessada em

mim





prosseguiu Arnie.





Talvez eu demorasse

mais a me convencer do que qualquer outro cara... estou falando de caras

como você, Dennis.







Lógico, sou uma fera





respondi.





Aquilo a que James Brown

costumava chamar de máquina sexual.







Bem, você não é ne

nhuma máquina sexual, mas entende de

garotas





disse Arnie, muito sério.





Você as compreende. Sempre tive

medo delas e nunca sabia o que dizer. E ainda não sei, acho. Leigh é

diferente.







Eu tinha receio de convidá

-

la para sair.





Ele continuou e

pareceu

considerar a questão.





Quero dizer, Leigh é uma garota bonita,

muito bonita mesmo. Você não acha, Dennis?







Acho. Que me conste, é a mais bonita da escola. Ele sorriu

satisfeito.







Eu também acho... mas pensei que só achasse porque a amo.



Olhei para meu a

migo, esperando que não se envolvesse em

problemas maiores do que poderia controlar. A esta altura, naturalmente,

eu não tinha idéia do significado da palavra problema.










Além do mais, ouvi dois caras conversando um dia, no

laboratório de química, Lenny Ba

rongg e Ned Stroughman. Ned contava a

Lenny que a convidava para sair e que ela se recusara, de maneira

delicada... como se talvez aceitasse um segundo convite. Quando imaginei

que ela poderia estar firme com Ned na primavera, comecei a ficar com

um ciúme

dos diabos. Você entende o que quero dizer?



Sorri e assenti. Lá fora, no campo, as chefes de torcida ensaiavam

novas rotinas. Não achei que fossem de grande ajuda para o nosso time,

mas era gostoso espiá

-

las. Suas sombras acumulavam

-

se em torno dos pés

sob

re a grama verde, à luz brilhante do meio

-

dia.







Outra coisa que me tocou, foi ver que Ned não parecia chateado...

nem tampouco envergonhado ou... rejeitado. Nada assim. Ele a convidou,

levou um fora e foi tudo. Decidi que também podia fazer aquilo. Mas

en

tão, quando liguei para a casa dela, suava pelo corpo todo. Cara, foi o

diabo! Fiquei imaginando Leigh rindo de mim e dizendo qualquer coisa

como

"Eu, sair com você, seu asqueroso? Deve estar sonhando! Ainda não estou

desesperada!".







É





concordei.





Não

sei como ela não disse isso. Ele me

esmurrou o estômago.







Vou tocar piano em suas tripas, Dennis! Vou fazer você vomitar!







Pare com isso





falei.





E depois? Arnie deu de ombros.







Não há muito mais para contar. A mãe dela atendeu, quando

liguei para lá,



e disse que ia chamá

-

la. Ouvi o barulho do fone sendo

colocado em cima da mesa e quase desliguei.





Arnie exibiu dois dedos,

afastados entre si por menos de um centímetro.





Faltou isto para que eu

desligasse. Sem brincadeira!







Conheço a sensação





falei

, e conhecia mesmo.



A gente se preocupa com as zombadas, o desprezo em qualquer

dose, pouco importando se jogamos futebol ou somos um nanico com

espinhas e de óculos, mas não creio que vocês possam avaliar o grau em

que Arnie deve ter sentido isso. Seu ges

to exigira uma coragem fenomenal.

Convidar uma garota para sair é algo insignificante, mas em nossa

sociedade existem todos os tipos de forças negativas, girando atrás de tão

simples conceito





quero dizer, há caras que cursam todo o ginásio e

nunca

reúnem



coragem bastante para convidar uma garota a um encontro.




Nem uma só vez,

em todos os quatro anos. E isto não acontece apenas com

um ou dois caras, mas com bandos deles. Como também há bandos de

garotas tristonhas que nunca foram convidadas. É uma merda de



maneira

de dirigir as coisas, quando se pára para refletir a respeito. Muita gente se

machuca. Eu podia imaginar perfeitamente o terror de Arnie, esperando

que Leigh viesse atender o telefone; a sensação de mortal espanto à idéia

de que não pretendia conv

idar uma garota qualquer, porém a

garota mais

bonita da escola.







Ela atendeu





continuou Arnie.





Disse: "Alô?" e, cara, eu não

conseguia falar nada! Tentei, mas nada saía da garganta além de ar

resfolegado. Então ela insistiu: "Alô, quem está falando?",

como se fosse

uma espécie de trote, sabe como é. Fiquei pensando: isto é ridículo! Se

pude conversar com ela no corredor, devia ser capaz de falar com ela pelo

maldito telefone. Tudo que Leigh pode dizer é não, quero dizer, não vai

me

matar,

nada disso, se



a convidar para sair. Então, falei: "oi, aqui é Arnie

Cunningham". Ela respondeu: "oi", e blablablá, conversa mole, conversa

mole, conversa mole, até eu perceber que nem mesmo, droga, sabia para

onde convidá

-

la. E logo ficaríamos sem assunto, ela ia desli

gar... Foi

quando lhe disse a primeira coisa que me passou pela cabeça, perguntei se

queria ir comigo ao jogo de futebol no sábado. Ela disse que adoraria ir,

foi bem assim, como se só estivesse esperando que eu a convidasse, você

saca?







Vai ver, ela esta

va mesmo esperando que você a convidasse.







Hum... Talvez sim.



Arnie meditou na questão, bestificado. O sinal tocou, significando

cinco minutos para o quinto tempo. Eu e Arnie nos levantamos. As chefes

de torcida correram para fora do campo, com seus saiot

es agitando

-

se

provocativamente.



Descemos as arquibancadas, jogamos os sacos vazios do almoço em

um dos barris de lixo, pintados com as cores da escola





laranja e preto,

falando

-

se do Dia das Bruxas





e caminhamos para a escola.



Arnie ainda sorria, record

ando a maneira como tudo havia

acontecido, naquela primeira vez com Leigh.







Convidá

-

la para ir ao jogo foi puro desespero.










Muito obrigado





repliquei.





É isso o que mereço por ter

botado os bofes pra fora a tarde toda do sábado, hein?







Você entende o

que eu quero dizer. Então, depois que ela

concordou em ir comigo, tive aquela idéia horrível e liguei para você

lembra

-

se?



Lembrei

-

me de repente. Ele ligara para saber se íamos jogar em casa

ou fora, tendo parecido absurdamente arrasado, quando lhe falei q

ue seria

em Hidden Hills.







Pois lá estava eu, prestes a sair com a garota mais bonita da escola,

doidão por ela, e fico sabendo que o jogo ia ser fora daqui. E com meu

carro emperrado na garagem de Will.







Podiam ter ido no ônibus.







Eu sei, mas na hora n

em pensei nisso. O ônibus sempre

costumava estar lotado, uma semana antes do jogo. Não podia imaginar

que tanta gente fosse deixando de assistir às partidas, com o time

perdendo.







Não me lembre isso





pedi.







Então, apelei para Will. Sabia que Christine a

güentaria a viagem,

mas ainda não tinha a papelada legal para a rua. Resumindo, eu estava

desesperado.



Desesperado, como?





perguntei

-

me, fria e repentinamente.







Ele foi muito legal comigo. Disse que compreendia o quanto

aquilo era importante e, se...





Ar

nie fez uma pausa, parecendo

considerar.





Bem, era a tal história do grande encontro





terminou,

desajeitadamente.



E se...



Bem, não era da minha conta.



Olhe por ele,

meu pai tinha dito.



Recusei também este pensamento.



Passávamos agora pela área de fumar,

deserta, exceto por três caras

e duas garotas, fumando apressadamente o que restava de um baseado.

Usavam o artifício de uma carteirinha de fósforos, dobrada como clipe

para segurar a minúscula guimba. O odor evocativo da maconha, tão




similar ao aroma das

folhas de outono queimadas lentamente, deslizou

por minhas narinas.







Tem visto Buddy Repperton?





perguntei.







Não e nem quero





respondeu ele.





E você?



Eu o vira apenas uma vez, quando ele aparecera no posto de

gasolina Happy Gas, de Vandenberg, na Rota



22, em Monroeville. O posto

tinha uma bomba apenas, pertencia ao pai de Vandenberg e vivia à beira

da falência, desde o embargo do petróleo árabe, em 73. Buddy não me

vira





eu estava apenas passando por perto.







Não cheguei a falar com ele.







Acha que el

e falaria?





perguntou Arnie, com um sarcasmo que

não lhe era costumeiro.





O grande bosta!



Sobressaltei

-

me. Aquela palavra novamente. Pensei a respeito, disse

a mim mesmo, que diabo, e então perguntei

-

lhe onde ouvira aquele termo

tão específico.







Lembra

-

se do dia em que comprei o carro?





perguntou.





Não

o dia em que dei o dinheiro de entrada, mas aquele em que paguei o

restante.







Claro que me lembro.







Entrei com LeBay em sua casa, enquanto você ficava do lado de

fora. Havia uma cozinha minúscula, com

uma toalha de xadrez vermelho

na mesa. Sentamo

-

nos e ele me ofereceu uma cerveja. Achei que devia

aceitar. Eu queria o carro e não pretendia ofendê

-

lo de modo algum,

entende? Assim, cada um bebeu uma cerveja, enquanto ele começava com

aquela interminável d

ivagação... como a chamaria? Acho que arenga.

Aquela arenga sobre todos os bostas estarem contra ele. Era o nome que

empregava, Dennis. Os bostas. Disse serem os bostas que o forçavam a

vender o carro.







O que queria dizer com isso?







Sem dúvida, queria da

r a entender que era velho demais para

dirigir, mas não se expressou em palavras. Era tudo culpa deles. Dos

bostas. Os bostas queriam que ele fizesse exame de estrada para motorista

a cada dois anos e um exame de vista todo ano. Era este último que o




preoc

upava. Alegou que não o queriam na rua, que ninguém o queria

dirigindo. Então, alguém atirou uma pedrada em seu carro.



"Sinceramente, eu compreendia tudo aquilo. Mas não compreendo

como ele pôde...





Arnie fez uma pausa rente à porta, esquecendo que já

est

ávamos atrasados para a aula. Tinha as mãos enfiadas nos bolsos

traseiros do

jeans

e franzia o cenho.





Não compreendo como ele pôde

deixar Christine ficar parada, arruinando

-

se daquela maneira, Dennis. Do

jeito como estava, quando a comprei. Principalment

e, se falava sobre ela

como se realmente a amasse... você talvez vá pensar que isso fazia parte

da conversa fiada para me vender o carro, mas não era. Então, já no fim,

quando ele contava o dinheiro, deu uma espécie de resmungo: 'Esse carro

de merda! Que m

e foda, se sei por que o quer, garoto. É o ás de espadas.'

Respondi qualquer coisa, alegando achar que eu poderia pôr Christine em

excelente estado. Ele respondeu: 'Tudo isso e ainda mais. Se os bostas

permitirem"'



Entramos. O Sr. Lehereux, professor de Fr

ancês, rumava

apressadamente para algum lugar, a cabeça calva luzindo sob as luzes

fluorescentes.







Estão atrasados, garotos





disse ele, em uma voz ofegante, que

me fez lembrar o coelho branco de

Alice no País das Maravilhas.



Ele caminhou mais depressa, a

té ficar fora de vista. Então, nós dois

voltamos a caminhar devagar.







Quando Buddy Repperton foi atrás de mim daquele jeito





disse

Arnie



, confesso que fiquei com medo de verdade.





Ele baixou a voz,

sorrindo, mas sério.





Quase borrei as calças, se que

r saber. Enfim, acho

que usei a palavra de LeBay sem sentir. Não acha que se aplica ao caso de

Repperton?







Tem razão.







Preciso ir agora





disse Arnie.





Cálculos primeiro, depois

Mecânica de Motores III. De qualquer modo, acho que fiz todo o curso

trabal

hando em Christine.



Arnie apressou

-

se e fiquei no corredor, parado por coisa de um

minuto, vendo

-

o afastar

-

se. Havia um período vago em meu horário, sob

a orientação da Srta. Trouxa

-

de

-

Ratos. Era o sexto período das segundas

-

feiras, e achei que podia esgue

irar

-

me para os fundos, sem ser visto. Já




havia feito isso antes. Por outro lado, os alunos do último ano sempre

levavam a melhor em muitas coisas, como eu ia rapidamente aprendendo.



Fiquei ali, tentando afastar uma sensação de medo, que nunca fora

tão amo

rfa, tão pouco concreta. Havia algo errado, qualquer coisa fora do

lugar, não combinado. Senti um calafrio, que nem todo o brilhante sol de

outubro, penetrando por todas as janelas do ginásio, conseguia desfazer.

As coisas eram as mesmas de sempre, mas est

avam se dispondo para uma

mudança





eu podia pressentir isso perfeitamente.



Fiquei ali, tentando pôr

-

me em movimento, dizer a mim mesmo que

o calafrio não passava de temores sobre meu próprio futuro, sendo essa a

mudança que me inquietava. Talvez o medo fi

zesse parte disso.

Possivelmente, mas não todo ele.

Esse carro de merda! Que me foda, se sei por

que o quer, garoto. É o ás de espadas.

Avistei o Sr. Lehereux, que voltava do

gabinete, e comecei a mover

-

me.



Penso que todos nós temos uma espécie de enxada a

trás da cabeça,

que, em momentos de tensão ou problemas, pode ser movimentada e

simplesmente introduzir tudo que nos preocupa em uma grande fenda no

solo de nossa mente consciente. Livrando

-

se de tudo. Enterrando

-

o. No

entanto, a tal fenda penetra no subco

nsciente e, às vezes, em sonhos, os

corpos despertam e caminham. Tornei a sonhar com Christine naquela

noite. Desta vez, Arnie estava ao volante e o cadáver em decomposição de

Roland D. LeBay oscilava obscenamente no banco do passageiro,

enquanto o carro r

ugia para fora da garagem e vinha contra mim,

espetando

-

me com os círculos selvagens de seus faróis.



Acordei com o travesseiro apertado contra a boca, para sufocar os

gritos.





O



A

CIDENTE



Mais depressa, mais depressa,



Amigão, ninguém te deixa pra trás.







Th

e Beach Boys








Até o Dia de Ação de Graças, aquela foi a última vez que conversei

com Arnie





que conversei realmente com ele



, porque fui posto fora

de circulação no sábado seguinte. Era o dia em que tornávamos a

enfrentar os Ursos de Ridge Rock e, desta

feita, perdemos pela contagem

verdadeiramente espetacular de 46



3. Entretanto, eu não estaria mais lá,

quando o jogo terminou. Já teria transcorrido uns sete minutos do terceiro

quarto de tempo, quando vi o campo livre, agarrei um passe e me

dispunha a cor

rer, no exato momento em que fui atingido

simultaneamente pelos três jogadores da linha de defesa dos Ursos.

Houve um instante de dor horrenda, um clarão ofuscante como se eu

houvesse sido apanhado na área zero de uma explosão nuclear... e depois

a escurid

ão. Uma escuridão total.



Tudo permaneceu escuro por um período razoavelmente longo,

embora eu não tivesse qualquer noção do fato. Fiquei inconsciente por

cerca de cinqüenta horas, e ao acordar no final da tarde de segunda

-

feira,

23 de outubro, estava no Ho

spital Comunitário de Libertyville. Vi papai e

mamãe por perto. Também Ellie, parecendo pálida e cansada. Havia

olheiras escuras em torno de seus olhos e fiquei absurdamente comovido;

minha irmã ainda tinha forças para chorar por mim, apesar das

guloseimas



que eu roubava da caixa de pão, depois que ela ia dormir,

apesar da caixinha de pílulas de vitaminas que lhe dera, quando ela estava

com doze anos e havia passado uma semana observando

-

se de perfil no

espelho, vestindo sua camiseta mais apertada, para ver



se seus peitinhos

estavam mais crescidos (Ellie prorrompera em lágrimas e mamãe ficara

irritada comigo por quase duas semanas) e apesar das irritantes

brincadeirinhas fraternas de eu sou melhor do que você.



Arnie não estava lá quando acordei, mas apareceu



pouco depois e se

juntou à minha família; ele e Leigh tinham ficado na sala de espera.

Naquela noite, meu tio e minha tia de Albany deram as caras e, pelo

restante da semana, houve um fixo desfilar de parentes e amigos





toda a

equipe de futebol esteve no



hospital para visitar

-

me, incluindo

-

se o

treinador Puffer, que parecia ter envelhecido vinte anos. Talvez tivesse

descoberto que existem coisas piores do que uma temporada de derrotas.

Foi o treinador que me deu a notícia de que eu nunca mais poderia volt

ar

ao futebol. A julgar pela expressão grave e tensa de seu rosto, não sei o

que ele esperava





que eu explodisse em choro ou tivesse um acesso de

histeria. Entretanto, quase não esbocei qualquer reação, interna ou




externamente. Já bastava a alegria de sab

er

-

me vivo e que, eventualmente,

tornaria a andar.



Se eu houvesse sido atingido apenas uma vez, sem dúvida escaparia

bem e pronto para outra. O corpo humano, no entanto, não foi feito para

ser comprimido de três ângulos diferentes, ao mesmo tempo. Eu estav

a

com as duas pernas quebradas, a esquerda em dois lugares. Meu braço

direito havia sido puxado para trás, quando caí, de maneira que ostentava

uma feia fratura parcial no antebraço. Entretanto, tudo isso era apenas o

enfeite do bolo. Também tive o crânio

fraturado, e mais o que o médico

incumbido de meu caso persistia em qualificar como "um acidente na

porção inferior da coluna", com isto querendo dizer que, por fração de

centímetro, eu escapava de ficar paralisado da cintura para baixo, pelo

resto da vida

.



Recebi montes de visitas, montes de flores, montes de cartões. De

certo modo, tudo isso era muito agradável





como estar vivo para ajudar

a comemorar a própria ressurreição.



Entretanto, houve também um bocado de dores e um bocado de

noites em que não pod

ia dormir; um de meus braços ficou suspenso acima

do corpo através de pesos e roldanas, o mesmo acontecendo a uma das

pernas (ambas comichavam o tempo todo, por sob o gesso) e houve

também mais uma carapaça de gesso temporária





conhecida como

"molde compr

essor"





em torno da parte inferior do torso. Além do mais,

havia a perspectiva de uma longa permanência no hospital e viagens

intermináveis de cadeira de rodas àquela câmara de horrores tão

inocentemente intitulada Ala de Terapia.



Oh, havia mais uma coisa







eu tinha um bocado de tempo.



Eu lia o jornal. Fazia perguntas aos que me visitavam. E por diversas

vezes, quando as coisas prosseguiram e minhas suspeitas começaram a

tomar proporções exageradas, interroguei

-

me sobre se não poderia estar

perdendo a razã

o.



Fiquei no hospital até o Natal, e ao voltar para casa aquelas

suspeitas já quase haviam adquirido sua moldagem final. A cada vez me

era mais difícil negar essa monstruosa configuração e eu sabia muitíssimo

bem que não estava perdendo o juízo. Em certos

sentidos, teria sido até

melhor





mais confortador





se pudesse ter acreditado nisso. Àquela




altura, no entanto, além de estar terrivelmente assustado, estava também

quase apaixonado pela garota de meu melhor amigo.



Havia tempo para pensar... tempo demais.



Tempo para xingar cem vezes a mim mesmo, pelo que vinha

pensando sobre Leigh. Tempo para contemplar o forro de meu quarto e

desejar jamais ter ouvido falar de Arnie Cunningham... de Leigh Cabot...

ou de Christine.





Arnie





Canções adolescentes sobre

amor





A



S

EGUNDA

D

ISCUSSÃO



O vendedor chegou pra mim e disse:



"D

ê seu Ford de entrada,



E lhe arranjo um carro que comer

á a estrada!



Basta me dizer o que deseja e assinar nesta linha,



Que lhe entregarei o carro novo dentro de uma hora.



Vou ficar com um carr

ão



E d

isparar estrada abaixo;



Ent

ão, adeus preocupações



Com aquele Ford caindo aos peda

ços.







Chuck Berry





O Plymouth 1958, de Arnie Cunningham, foi licenciado para

trafegar nas ruas, na tarde de 19 de novembro de 1978. Ali se encerrava o

processo





realmente in

iciado na noite em que ele e Dennis Guilder

trocaram aquele primeiro pneu arriado



, com o pagamento de uma taxa




de licença no valor de 8,50 dólares, uma taxa rodoviária municipal de 2

dólares (que também incluía a permissão de estacionamento grátis nos

pa

rquímetros do centro da cidade) e 15 dólares por uma placa de

matrícula. No Departamento de Veículos a Motor, em Monroeville, Arnie

recebeu a chapa da Pensilvânia HY

-

6241

-

J.



Ele voltou do DVM para Libertyville em um carro que Will Darnell

lhe emprestara e

saiu da Garagem Fa

ça

-

Você

-

Mesmo de Darnell atrás do

volante de Christine. Levou

-

a para casa.



Seu pai e sua m

ãe chegaram juntos da Universidade Horlicks, cerca

de uma hora mais tarde. A briga teve início quase imediatamente.







Vocês o viram?





perguntou Arn

ie, dirigindo

-

se aos dois, porém

principalmente ao pai.





Acabei de registrá

-

lo esta tarde.



Sentia

-

se orgulhoso e tinha motivos. Christine acabara de ser lavada

e polida, reluzia

à última claridade do sol da tarde de outono. Ainda tinha

um bocado de ferrug

em, mas parecia mil vezes melhor do que naquele dia

em que Arnie a trouxera. Os estofos das portas, como o capô e as traseiras

estavam novos em folha. O interior se apresentava impecável,

imaculadamente limpo. Os vidros e cromados cintilavam.







Sim, eu...





começou Michael.







É claro que o vimos!





explodiu Regina. Preparava um drinque,

que mexia com um misturador de coquetel em um copo de cristal,

formando furiosos círculos no sentido contrário ao movimento de um

relógio.





Quase o atropelamos. Não o quero



estacionado aqui. A casa vai

parecer um depósito de carros usados!







Mamãe!





exclamou Arnie, ofendido e espantado.



Olhou para o pai, mas Michael se afastara para preparar um

drinque





talvez decidindo que ia precisar de um.







Muito bem





disse Regina Cun

ningham. Seu rosto estava

ligeiramente mais pálido que de costume. O ruge nas faces salientava

-

se,

quase como a pintura de um palhaço. Engoliu metade de seu gim com

tônica, fazendo uma careta como quem sente o gosto de um remédio

amargo.





Leve

-

o de volta

para onde esteve. Não o quero aqui e não vou

admiti

-

lo aqui, Arnie. É a palavra final.










Levá

-

lo de volta?





disse Arnie, agora não só ofendido, como

também irritado.





Formidável, não? Lá ele me sai a vinte pratas por

semana!







Está lhe saindo a muito mai

s do que isso





replicou Regina.

Terminou de beber seu drinque e largou o copo. Virou

-

se e o encarou.





Estive dando uma espiada em seu talão de cheques outro dia...







Você fez

o quê?





exclamou Arnie, com olhos arregalados.



Ela enrubesceu ligeiramente, mas



n

ão baixou os olhos. Michael se

aproximou e parou junto à porta, olhando pesaroso da mulher para o filho.







Eu queria saber quanto você andou gastando nesse maldito

carro





disse ela.





Será alguma coisa demais? Você tem que ir para a

universidade o ano q

ue vem. Que me conste, na Pensilvânia não estão

dando estudo de graça nas universidades.







Então você apenas entrou em meu quarto e revirou tudo, até

encontrar meu talão de cheques, não foi?





disse Arnie. Seus olhos

cinzentos estavam frios de ódio.





Talv

ez estivesse procurando por

maconha também. Ou revistas pornográficas. Quem sabe, manchas de

esperma nos lençóis?



Regina ficou boquiaberta.

É possível que esperasse dele uma reação

de mágoa ou raiva, mas não aquela fúria total e descontrolada.







Arnie!





r

ugiu Michael.







E daí, por que não?





gritou Arnie, em resposta.





Pensei que o

assunto fosse coisa

minha!

Deus é testemunha do quanto vocês ficaram

dizendo que era minha responsabilidade!







Estou muito decepcionada por sua atitude, Arnold





disse

Regina.





Decepcionada e magoada. Você está se portando como...







Não venha me dizer como me porto! Como acha que me sinto?

Trabalhei como o diabo para conseguir licenciar o carro, trabalhei nele

mais de dois meses e meio, mas quando o trago para casa, a primeira

coisa

que ouço de você é para tirá

-

lo da entrada. Como é que deveria me sentir?

Feliz?







Não é motivo para usar esse tom com sua mãe





disse Michael.

A despeito das palavras, o tom era desajeitadamente conciliatório.





Ou

para empregar esse tipo de linguag

em.






Regina estendeu o copo para o marido.







Prepare

-

me outro drinque. Há uma garrafa fechada de gim na

despensa.







Fique aqui, papai





disse Arnie.





Por favor. Vamos resolver

isto!



Michael Cunningham olhou para a esposa, depois para o filho e em

seguida n

ovamente para ela. Ambos pareciam como que de pedra. Ele

recuou para a cozinha, apertando o copo de Regina.



Regina se virou implac

ável para o filho. A cunha estivera em sua

porta desde finais do último verão e talvez ela percebesse ser aquela sua

última ch

ance para chutá

-

la novamente.







Em julho, você tinha quase quatro mil dólares no banco





disse.





Cerca de três quartos de todo o dinheiro que conseguiu nos

últimos anos, mais os juros...







Oh, você esteve de olho o tempo todo, não?





disse Arnie.

Sentou

-

s

e de repente, encarando a mãe. Seu tom era de desgostosa

surpresa.





Mamãe, por que não retirou o maldito dinheiro e colocou em

uma conta em seu nome?







Porque até recentemente





disse ela





você parecia

compreender qual era a finalidade desse dinheiro. No

s últimos dois meses,

ele se foi diluindo em carro

-

carro

-

carro e, mais recentemente, em garota

-

garota

-

garota. Como se você tivesse enlouquecido, quanto a essas duas

coisas.







Muito bem, obrigado. Afinal, sempre posso receber uma bela

opinião sem preconceit

os, sobre a maneira como estou dirigindo minha

vida!







Este julho, você tinha quase quatro mil dólares. Para os seus

estudos,

Arnie. Para os seus

estudos.

Agora, tem apenas pouco mais de dois

mil e oitocentos. Pode esbravejar como quiser, e admito que dói

um pouco,

mas aí estão os fatos. Em dois meses, você deu cabo de mil e duzentos

dólares. Talvez seja por isso que não suporto ver aquele carro. Você devia

compreender meus sentimentos. Para mim, isso é como...







Ouça...







... como jogar fora uma enorme not

a de dólar.










Posso lhe dizer duas coisas?







Não, não creio que possa, Arnie





disse ela, como se encerrasse o

assunto.





Sinceramente, 118 não creio que possa.



Michael retornara com o copo de Regina, cheio de gim at

é a metade.

Acrescentou água tônica no b

ar e entregou a ela. Regina bebeu, tornando a

fazer aquela careta de repugnância. Arnie permaneceu sentado na

poltrona perto da TV, olhando pensativamente para a mãe.







E você leciona em uma universidade!





exclamou.





Leciona em

uma universidade e é essa

a sua atitude? "Tenho dito. Vocês agora se

limitem a ficar de boca fechada." Formidável! Sabe de uma coisa? Tenho

pena de seus alunos.







Veja lá o que diz, Arnie!





disse ela, apontando

-

lhe um dedo.





Veja lá como fala!







Posso dizer duas coisas ou não?







Fale, embora não faça qualquer diferença. Michael pigarreou.







Reg, acho que Arnie tem razão. Francamente, esta não é uma

atitude construt... Ela se voltou para o marido como um felino.







E nem uma palavra você também! Michael emudeceu.







A primeira coisa

que quero dizer é o seguinte





Arnie

começou.





Se você examinou minha poupança um pouco mais

atentamente, e tenho certeza disso, deve ter percebido que o total baixou

de uma só vez em dois mil e duzentos dólares na primeira semana de

setembro. Tive que co

mprar toda a parte dianteira nova para Christine.







E fala nisso como se estivesse orgulhoso do que fez!





exclamou

Regina, irritada.







É claro que estou.





Arnie fixou os olhos nos dela.





Eu mesmo

montei aquela parte dianteira, sem que ninguém me ajudass

e. Ninguém

seria capaz...





aqui sua voz pareceu vacilar momentaneamente, mas

depois se firmou.





Ninguém seria capaz de distingui

-

la da original.

Enfim, o que quero dizer é que o total daquele dinheiro aumentou em

seiscentos dólares, a partir daí. Porque

Will Darnell gostou do meu

trabalho e me conseguiu algo para fazer. Se eu puder acrescentar

seiscentos dólares à conta de poupança, de dois em dois meses, e posso

consegui

-

lo, se Will me contratar para ir a Albany, onde ele compra seus




carros usados, em mi

nha conta haverá quatro mil e seiscentos dólares

quando terminar o período escolar. E se eu trabalhar em horário integral

no próximo verão, estarei começando a universidade com quase sete mil

dólares. Então, você pode deixar todo o dinheiro à porta desse c

arro que

tanto odeia.







Isso de nada lhe adiantará, se não conseguir uma boa

universidade





contra

-

atacou ela, dissecando desafiadoramente o assunto,

como fazia tantas vezes nas reuniões do departamento, quando alguém

ousava questionar uma de suas opiniões

... algo não muito freqüente. Ela

não assentia, limitando

-

se a passar para outra faceta do caso.





Suas

notas baixaram.







Não tanto para criar problemas





disse Arnie.







O que quer dizer com "não tanto para criar problemas"? Você

teve um deficiente em Cálc

ulo! Recebemos o cartão com a nota vermelha

faz apenas uma semana!



Aqueles cart

ões vermelhos, às vezes conhecidos como cartões

-

de

-

bomba pelo corpo estudantil, eram despachados em meados de cada

período a estudantes com nota média 75 ou menos, durante as pr

imeiras

cinco semanas do trimestre.







Aquilo foi baseado em uma única prova





disse Arnie

tranqüilo.





O Sr. Fenderson é tão famoso por dar tão poucas provas na

primeira metade do trimestre que qualquer um pode levar para casa um

cartão vermelho com um F,

por não entender um conceito básico





e

terminar com um A, abrangendo todo o ano letivo. Eu poderia ter

-

lhes

dito tudo isto, se me tivessem perguntado. Só que não perguntaram. Aliás,

foi somente o terceiro cartão vermelho que recebi, desde que comecei o

gi

násio. Minha média continua sendo 93 e vocês dois sabem o quanto é

boa e...







Pois eu digo que irá baixar!





exclamou Regina em voz aguda,

dando um passo para ele.





É tudo por causa de sua maldita obsessão

com esse carro! Arranjou uma namorada; acho ótimo

, excelente,

formidável! Mas a mania por esse carro é insana! O próprio Dennis diz...



Arnie estava de p

é, tão depressa, tão próximo dela, que Regina

recuou um passo, sua fúria suplantada momentaneamente pela dele.










Deixe Dennis fora disto





disse Arnie, e

m voz malevolamente

gélida.





Isto é entre nós!







Está bem





respondeu Regina, pisando novamente em chão

firme.





O simples fato é que suas notas irão baixar. Eu sei disso, como

seu pai, e uma prova é aquele cartão vermelho em Matemática.



Arnie sorriu conf

iantemente e Regina pareceu desconfiada.







Bem, vou lhe dizer uma coisa





falou Arnie.





Deixe eu ficar

com o carro aqui, até terminar o período das provas. Se eu tiver alguma

nota mais baixa do que C, prometo vendê

-

lo a Darnell. Ele o comprará;

sabe que p

ode obter mil pratas pelo carro, no estado em que se encontra

agora. E o valor só tende a subir.



Arnie refletiu um pouco.







Farei ainda melhor





disse.





Se eu não estiver no quadro de

honra do semestre, também me livrarei dele. Isto significa que estou

ap

ostando meu carro como conseguirei um B em Cálculo, não apenas pelo

trimestre, mas por todo o semestre. O que me diz?







Não





respondeu Regina prontamente.



Lan

çou ao marido um olhar de:

Não se meta nisto.

Michael, que tinha

aberto a boca, fechou

-

a prontame

nte.







Por que não?





perguntou Arnie, com enganadora suavidade.







Porque é um truque seu, sabe muito bem!





gritou Regina para

ele, agora com fúria total e incontida.





E não vou mais ficar aqui

debatendo esta imbecilidade e ouvindo suas insolências! Eu..

. eu mudei

suas fraldas sujas! Já falei que quero aquele carro fora daqui, ande nele, se

quiser, mas não o deixe onde eu tenha que vê

-

lo! Pronto! Está decidido!







O que acha disto, papai?





perguntou Arnie, encarando Michael.

Seu pai tornou a abrir a boca

para falar.







Ele acha o mesmo que eu





disse Regina.



Arnie a fitou novamente. Os olhos de ambos encontraram

-

se, a

mesma tonalidade de cinza.







O que ele disser pouco importa, não?







Penso que isto já foi longe demais e...






Ela come

çou a dar meia

-

volta, a b

oca ainda dura e decidida, os olhos

estranhamente confusos. Arnie pegou seu braço, pouco acima do cotovelo.







Pouco importa, não é? Porque quando você decide algo, não quer

ver, não quer ouvir e nem

pensar.







Pare com isso, Arnie!





gritou Michael.



Arnie o

lhou para sua m

ãe e ela lhe devolveu o olhar. Os olhos de

ambos estavam gélidos, impenetráveis.







Pois eu vou dizer por que não quer nem considerar o assunto





continuou Arnie, naquela mesma voz suave.





Não se trata de dinheiro,

porque o carro me pôs em c

ontato com um trabalho em que sou bom, e no

qual terminarei ganhando dinheiro. Você sabe disso. Não são as minhas

notas, também. Elas não estão piores do que sempre foram. E você

também sabe disso. É porque você não admite que eu escape de sua

coleira, com

o faz com seu departamento, como faz com

ele!





Arnie

apontou o indicador para Michael, que tinha uma expressão irritada,

culpada e infeliz ao mesmo tempo.





Você não quer me ver fora da

coleira em que sempre estive!



O rosto de Arnie agora estava vermelho,



as m

ãos crispadas ao longo

do corpo.







Toda aquela asneira liberal sobre a família decidir as coisas,

discuti

-

las em reunião, fazê

-

las funcionar... No entanto, o fato é que

você

sempre escolheu minhas roupas para o colégio, meus sapatos para o

colégio, co

m quem eu podia andar e com quem não podia,

você

decidia

onde passaríamos as férias,

você

dizia a ele quando trocar de carro e por

qual carro. Bem, isto é uma coisa que você não pode dirigir e então fica

com um ódio desgraçado, não é mesmo?



Ela o esbofeteo

u no rosto. O som foi como um tiro de rev

ólver na

sala de estar. Lá fora, o crepúsculo se instalara e os carros passavam

indistintos, os faróis dianteiros semelhantes a olhos amarelos. Christine

estava estacionada na entrada asfaltada dos Cunningham, como

estivera

uma vez no gramado de Roland D. LeBay, só que agora parecendo

consideravelmente melhor de aparência





altaneira e acima de toda

aquela feia e indecente discussão familiar. Ela havia, talvez, brotado para

o mundo.






De repente, de modo chocante, Regi

na Cunningham come

çou a

chorar. Aquilo era um fenômeno, algo assim como a chuva no deserto,

uma coisa que Arnie só a vira fazer quatro ou cinco vezes em toda a sua

vida





e em nenhuma das outras ocasiões fora ele o culpado pelas

lágrimas.



Era um choro assu

stador





contou ele a Dennis, mais tarde



, pelo

simples fato de existir. Terrível, porém ainda havia mais: as lágrimas a

tinham feito envelhecer de um golpe, como se Regina houvesse dado um

salto espantoso dos quarenta e cinco para os sessenta anos, no es

paço de

segundos.

O acinzentado p

étreo de seu olhar ficara aguado e enfraquecido.

Subitamente, as lágrimas lhe corriam pelas faces, estragando a pintura do

rosto.



Ela tateou na borda da lareira

à procura de seu drinque e os dedos

colidiram contra o copo, q

ue caiu e espatifou

-

se. Uma espécie de incrédulo

silêncio pairou entre eles três, um espanto por as coisas terem chegado a

tal extremo.



N

ão obstante, mesmo por entre a fraqueza das lágrimas, ela

conseguiu dizer:







Não quero aquele carro em nossa garagem ou



na entrada, Arnold.







Ele não ficará aqui, mamãe





respondeu Arnie friamente.

Caminhou para a porta, depois se virou e olhou para eles.







Obrigado. Por serem tão compreensivos. Muito obrigado, aos

dois. Então saiu.





A

RNIE E

M

ICHAEL



Desde que voc

ê foi embo

ra



Ando por a

í de óculos escuros



Mas sei que tudo ficar

á legal



Enquanto puder ter meu negr

íssimo



e brilhante Cadillac.







Moon Martin








Michael alcan

çou Arnie na entrada para carros, ocupada por

Christine. Pousou a mão no ombro do filho. Arnie sacudiu o ombr

o para

libertar

-

se do contato e continuou remexendo o bolso, em busca das

chaves do carro.







Arnie, por favor.



Arnie deu uma r

ápida meia

-

volta. Por um momento, esteve à beira

de tornar absoluta a escuridão da noite, agredindo o pai. Então, parte da

tensão

em seu corpo diminuiu e se recostou no carro, tocando

-

o com a

mão esquerda, alisando

-

o, parecendo extrair forças dele.







Está bem





disse.





O que você quer?



Michael abriu a boca e ent

ão pareceu incerto quanto ao que fazer.

Um ar de impotência





teria sido



divertido, se não parecesse tão

horrivelmente taciturno





tomou conta de seu rosto. Ele parecia ter

envelhecido, estava desfigurado e nervoso.







Arnie





disse ele, parecendo forçar as palavras contra algum

enorme peso de inércia se opondo.





Eu sinto muit

o, Arnie.







Hum

-

hum





respondeu Arnie, virando

-

se e abrindo a porta do

lado do motorista. Um cheiro agradável de carro bem cuidado escapou do

interior.





Pude ver, pela maneira como ficou do meu lado.







Por favor





disse Michael.





Isto é muito duro para m

im. Mais

do que possa imaginar. Algo em sua voz fez com que Arnie se virasse.

Havia desespero e infelicidade no olhar de seu pai.







Não digo que eu quisesse ficar do seu lado





disse Michael.

Também vejo o lado dela, compreenda. E vi a maneira como você se



impôs, querendo que fosse feita a sua vontade, a todo custo...



Arnie deu uma risada mal

évola.







Em outras palavras, vocês dois pensam o mesmo.







Sua mãe está atravessando uma crise de idade





comentou

brandamente Michael.





Isto tudo é muito difícil para

ela.



Arnie pestanejou, a princ

ípio não muito certo do que ouvira. Era

como se, de repente, seu pai lhe tivesse dito algo na "língua do p"; aquilo




parecia ter tanta importância como se estivesse discutindo escores de

beisebol.







C

-

como?







Crise de idade, en

velhecimento. Ela anda assustada, tem bebido

demais e, às vezes, sente dores físicas. Não sempre





acrescentou, vendo

o ar alarmado de Arnie



, mas já foi ao médico e agora sabemos que é por

causa da mudança de idade. De qualquer modo, sua mãe está

emocion

almente perturbada. Você é filho único e, da maneira como ela

está agora, deseja apenas que tudo lhe corra bem, seja lá a que preço for.







Ela quer tudo à sua maneira, o que não é nenhuma novidade.

Ela

sempre

quis tudo à sua maneira.







O que sua mãe acha c

erto para você, é o que considera correto.

Isso é óbvio





disse Michael.





Entretanto, o que o faz achar

-

se tão

diferente? Ou melhor? Você insistiu em enfrentá

-

la e ela sabia disso.

Como eu também sabia.







Foi ela que começou e...







Não, quem começou foi v

ocê, quando trouxe o carro para casa,

embora sabendo qual a opinião dela. Sua mãe também está certa em outro

ponto: você mudou, Arnie. Desde aquele primeiro dia, quando chegou em

casa, com Dennis e anunciou que comprara um carro. Foi quando tudo

começou. P

ensa que isso não a perturbou? Que não me perturbou também?

Vermos nosso filho exibindo traços de personalidade que nem mesmo

sabíamos existir?







Ora, vamos, papai! Foi apenas um...







Nós agora nunca o vemos, você está sempre trabalhando em seu

carro ou co

m Leigh.







Você está começando a falar como mamãe. Michael riu

subitamente





mas era um riso tristonho.







Está enganado, filho. Nem imagina quanto.

Sua mãe

tem sua

própria personalidade e

você

se parece com ela, mas eu pareço apenas o

cara incumbido de alg

uma idiota força de paz das Nações Unidas, prestes

a botar no fogo o traseiro coletivo.



Arnie encolheu

-

se um pouco; sua m

ão tornou a encontrar o carro e

começou a acariciá

-

lo... acariciá

-

lo...










Está legal





disse.





Acho que entendo o que quer dizer. Não

sei

como permite que ela o manobre desse jeito, mas por mim, tudo bem.



O sorriso triste e humilhado permaneceu, um tanto como a careta do

c

ão que ficou caçando uma marmota durante muito tempo, em um dia

calorento de verão.







Certas coisas talvez constituam



um sistema de vida. Talvez,

também, haja compensações que você não pode entender, nem eu possa

explicar. Como... bem, eu a amo, compreenda.



Arnie deu de ombros.







Certo, mas... e daí?







Podemos dar uma volta?



Arnie pareceu surpreso, depois contente.







Cla

ro. Entre. Algum lugar em particular?







O aeroporto.



As sobrancelhas de Arnie arquearam

-

se.







O aeroporto? Por quê?







Eu lhe direi quando chegarmos lá.







E Regina?







Sua mãe foi para a cama





disse Michael, com voz branda. Arnie

teve o decoro de enrubescer



ligeiramente.





Arnie dirigiu bem e com firmeza. Os novos far

óis de Christine

rasgavam a prematura escuridão em um límpido e fundo túnel luminoso.

Arnie passou pela residência dos Guilder, depois dobrou à esquerda para

Elm Street, junto ao sinal de trânsit

o. Em seguida, rumou para a JFK Drive.

A rota I

-

376 os levou à I

-

287 e então tomaram a direção do aeroporto. O

tráfego era ligeiro. O motor ronronava maciamente, através dos novos

canos de descarga. Os mostradores no painel de instrumentos irradiavam

um mí

stico fulgor esverdeado.



Arnie ligou o r

ádio e encontrou a WDIL de Pittsburgh, estação em

FM, que só tocava músicas antigas. Gene Chandler cantava

"The Duke of

Earl'.










Esta coisa roda como um sonho





disse Michael Cunningham,

parecendo admirado.







Obrigad

o





respondeu Arnie, sorrindo. Michael respirou fundo.







Tem cheiro de

novo.







Há muita coisa nova aqui dentro. As capas traseiras me ficaram

em oitenta pratas. Parte do dinheiro que provocou tanta reclamação de

Regina. Fui à biblioteca, pedi um monte de l

ivros e tentei copiar tudo, o

melhor que pude. De qualquer modo, não foi tão fácil como se possa

pensar.







Por que não?







Em primeiro lugar, o Plymouth Fury 58 não foi lançado como um

carro clássico, de maneira que ninguém escreveu muito a respeito,

inclus

ive nos volumes retrospectivos sobre automóveis: O

Carro Americano,

Automóveis Americanos Clássicos, Automóveis dos Anos 50,

coisas assim. O

Pontiac 58 foi um clássico, mas somente no segundo ano saiu o modelo

Bonneville. O T

-

Bird 58, com aletas em forma d

e orelha de coelho, é que

foi realmente o último grande Thunderbird, acho eu. Além disso...







Não pensei que você entendesse tanto de carros antigos





disse

Michael.





Há quanto tempo se interessa pelo assunto, Arnie?



Ele deu de ombros vagamente.







O pior

é que LeBay havia feito um pedido pessoal, diretamente a

Detroit. O Plymouth não oferecia um modelo Fury em vermelho e branco...

procurei restaurar o carro o mais igual possível à maneira como foi feito

em Detroit. Suei um bocado para isso.







Por que desej

a restaurá

-

lo exatamente como LeBay o tinha?

Novamente, aquele vago encolher de ombros.







Sei lá. Apenas me pareceu o mais acertado a fazer.







Olhe, acho que fez um trabalho excelente.







Obrigado.



Michael inclinou

-

se e observou o painel de instrumentos.







O que é?





perguntou Arnie, um pouco rudemente.







Macacos me mordam





disse Michael.





Nunca vi

isso

antes!










O quê?





Arnie baixou os olhos.





Oh, o odômetro...







Está rodando para trás, não?



Realmente, o odômetro girava para trás. Naquele dia, o entardec

er

de 1º de novembro, indicava 79.500 e tantas milhas. Enquanto Michael

espiava, o indicador das dezenas de milha girou de 2 para 1, depois para 0.

Quando voltou a 9, o marcador de milhas comeu mais uma.



Michael riu.







Eis algo que você deixou passar, filh

o. Arnie riu também





um

leve riso.







Concordo





disse.





Segundo Will, deve haver um fio cruzado

em algum lugar. Creio que não vou mexer nisso. Chega a ser divertido, ter

um odômetro que anda para trás.







Ele é preciso?







Como?







Bem, se você for de nossa



casa à Praça da Estação, ele subtrairia

cinco milhas do total?







Oh, entendi





disse Arnie.





Não, ele não tem nada de preciso.

Atrasa duas ou três milhas, para cada milha real percorrida. Às vezes mais.

O cabo do velocímetro vai acabar rebentando, cedo o

u tarde e, quando o

trocar, o problema se resolverá por si só.



Michael já enfrentara um ou dois cabos do velocímetro rebentados e

olhou para o ponteiro, esperando o tremular característico, indicando que

ali havia problema. O ponteiro, entretanto, permanec

ia imóvel, pouco

acima de 40. O velocímetro parecia excelente; apenas o odômetro é que

enlouquecera. Estaria Arnie acreditando realmente que os mesmos cabos

serviam para o velocímetro e o odômetro? Certamente que não.



Ele riu e comentou:







É qualquer coisa



de fantástico, filho.







Por que o aeroporto?





perguntou Arnie.







Vou lhe dar um tíquete de trinta dias de estacionamento





disse

Michael.





Cinco dólares. Mais barato do que na garagem de Darnell e

você poderá ter o carro sempre que quiser. O ônibus para



o aeroporto faz

parada nos pontos normais de outros ônibus.










Céus, é a coisa mais louca que já ouvi!





bradou Arnie.

Manobrou para o retorno, diante de uma sombria loja de lavagem a

seco.





Vou ter que andar trinta quilômetros de ônibus até o aeroporto

p

ara apanhar meu carro quando quiser? Oh, não! De maneira nenhuma!



Ia dizer mais alguma coisa, quando foi subitamente agarrado pelo

pescoço.







Agora escute





disse Michael.





Sou seu pai, portanto, me ouça!

Sua mãe tinha razão, Arnie. Você ficou irracional,



mais do que irracional,

nos dois últimos meses. Aliás, ficou bastante estranho!







Me larga





exclamou Arnie, esforçando

-

se para libertar

-

se.

Michael não o largou, mas afrouxou a pressão.







Vou colocar a situação por outro ângulo para você





disse.





Sim,

o aeroporto fica a uma boa distância, mas os mesmos 25 centavos que

o levam à garagem de Darnell o trarão até aqui. Há garagens de

estacionamento mais próximas, porém na cidade são maiores as

incidências de roubo e vandalismo. Aqui no aeroporto, ao contrár

io, é

perfeitamente seguro.







Nenhum estacionamento público é seguro.







Em segundo lugar, é mais barato que uma garagem no centro da

cidade e

muito

mais barato do que na Darnell's.







Não é esta a questão, sabe muito bem!







Talvez esteja certo





disse Micha

el



, mas também está

esquecendo algo, Arnie. A questão real.







Suponhamos que você me diga qual é.







Certo, eu direi.





Michael fez uma ligeira pausa, olhando

fixamente para o filho. Ao falar, sua voz era baixa e contida, quase tão

melodiosa como sua flau

ta.





Juntamente com qualquer noção do que é

razoável, você parece ter perdido inteiramente o sentido de perspectiva.

Está quase com dezoito anos, em seu último ano em uma escola pública.

Creio que já decidiu não entrar para Horlicks; estive vendo as broch

uras

de universidades que levou para casa...







Isso mesmo, não vou para Horlicks





disse Arnie, agora um

pouco mais calmo.





Não depois de tudo isto. Você não pode imaginar o

quanto estou querendo afastar

-

me daqui. Bem, talvez imagine.










Sim, eu imagino. T

alvez seja a melhor providência. Melhor do

que esta constante animosidade entre você e sua mãe. Tudo quanto lhe

peço é que não conte a ela por enquanto, que espere até ter enviado seus

documentos de solicitação à universidade.



Arnie deu de ombros, sem nada



prometer.







Você irá levar seu carro para lá, caso ainda esteja rodando...







Ele estará rodando.





...e

se

for uma universidade que permita aos calouros

estacionarem seus carros no

campus.

Arnie se virou para o pai, com a

surpresa brotando de sua raiva lat

ente. Estava surpreso e inquieto. Aquela

era uma possibilidade que ainda não havia considerado.







Não irei para uma universidade que não me permita ter meu

carro comigo





disse.



Seu tom era de paciente recitação, o tipo de voz que um professor de

crianças

excepcionais usaria em aula.







Viu só?





exclamou Michael.





Ela tem razão. Basear sua

escolha de universidade na política escolar envolvendo calouros e carros é

totalmente irracional. Você ficou obcecado por este carro.







Não creio que você consiga entend

er. Michael apertou os lábios

por um momento.







De qualquer modo, que diferença faz vir de ônibus ao aeroporto

para apanhar seu carro, se quiser sair com Leigh? Claro, é um

inconveniente, porém não tão grande assim. Significa que você só o usará

se houver

necessidade, além de poupar dinheiro da gasolina.





Michael

fez uma pausa e tornou a exibir seu sorriso tristonho.





Ambos sabemos

que Regina não encara isto como jogar dinheiro fora. Para ela, este é o seu

primeiro passo decisivo para afastar

-

se dela... d

e nós. Acho que sua mãe...

oh, droga, que sei eu?



Interrompeu

-

se, fitando o filho. Arnie o encarou, pensativo.







Leve o carro para a universidade com você; mesmo se os calouros

forem proibidos de ter carros no

campus,

sempre há outros meios de...







Como es

tacionar no aeroporto?










Sim, mais ou menos isso. Quando você vier para casa nos fins de

semana, Regina ficará tão contente em vê

-

lo que nem mencionará o carro.

Diabo, ela provavelmente até irá para a entrada de automóveis ajudá

-

lo a

lavá

-

lo e poli

-

lo, ape

nas para descobrir o que você estará fazendo. Dez

meses. Então, tudo terminará. Podemos ter paz na família novamente.

Vamos, Arnie. Dirija.



Arnie afastou

-

se da frente da lavanderia e reentrou no tráfego.







Esta coisa está no seguro?





perguntou Michael, ab

ruptamente.

Arnie riu.







Está brincando? Neste Estado quando não se tem um seguro de

responsabilidade legal e acontece um acidente os tiras nos matam. Sem

isso, seremos sempre os culpados, mesmo que o outro carro caia do céu e

nos amasse o teto. Este é um

dos meios pelos quais os bostas mantêm os

adolescentes fora das estradas, na Pensilvânia.



Michael quis dizer a ele que um número despropositado de

acidentes fatais na Pensilvânia





41 por cento





envolvia motoristas

adolescentes. Regina lera a estatística

para ele, como parte de um artigo no

suplemento dominical de um jornal, declamando o número em lentos tons

apocalípticos,

"Quarenta e um

por cento!", pouco depois de Arnie ter

comprado o carro. Não obstante, ficou calado, concluindo que seu filho

não quere

ria ouvir aquilo... pelo menos em seu atual estado de espírito.







Apenas um seguro de responsabilidade legal?



Estavam passando sob um sinal refletor, dizendo FAIXA

ESQUERDA





PARA O AEROPORTO. Arnie ligou o pisca

-

pisca e

mudou de faixa. Michael pareceu rel

axar um pouco.







Só depois dos vinte e um anos se pode fazer um seguro contra

acidentes; essas merdas de companhias de seguros são ricas como Creso,

mas não nos cobrem, a menos que a vantagem esteja

escandalosamente

do

lado delas.



Na voz de Arnie havia uma



nota um tanto impertinente, algo que

Michael jamais havia notado antes. Também estava espantado e um pouco

consternado pela escolha das palavras de seu filho. Imaginava que ele

empregasse tal tipo de linguagem com os companheiros (pelo menos, foi o

que ma

is tarde comentou com Dennis Guilder, parecendo ignorar por

completo que, até seu último ano de ginásio, Arnie não tivera outro




companheiro além do próprio Dennis), mas o fato é que jamais a usara

diante dos pais.







Seu registro de motorista e se é ou não

motorista habilitado nada

têm a ver com isso





prosseguiu Arnie.





Não se pode ter uma batida,

porque as merdas das tabelas atuariais deles dizem que não se pode bater.

Quando o cara faz vinte e um anos, tudo bem, mas desde que esteja

disposto a gastar uma



fortuna, em geral, os prêmios das apólices acabam

sendo mais altos do que as multas impostas ao carro, até completarmos os

vinte e três anos, ou por aí, a menos que estejamos casados. Oh, os bostas

pensaram em tudo direitinho! Eles sabem como encurralar a



gente, ora se

sabem!



À frente e acima deles, as luzes do aeroporto fulguravam, as pistas

de pouso e decolagem delineavam

-

se em místicas paralelas de

luminosidade azulada.







Se alguém chegar para mim e perguntar qual a forma de vida

humana mais baixa, resp

onderei que é um agente de seguros.







Parece ter feito um profundo estudo a respeito





comentou

Michael.



Não ousava dizer algo mais, pois Arnie parecia esperar um pretexto

para um novo acesso de ódio.







Andei perguntando em cinco companhias diferentes. Ape

sar do

que mamãe insinuou, não sinto a menor vontade de jogar meu dinheiro

fora.







E responsabilidade legal foi o máximo que conseguiu?







Certo. Seiscentos e cinqüenta dólares por ano. Michael assobiou.







Exatamente isso





acrescentou Arnie.



Outro sinal in

termitente avisava que as duas faixas da mão esquerda

eram para estacionar, as da direita para partida ou saída. À entrada do

pátio de estacionamento, o caminho se dividia novamente. À direita,

havia um portão automático, onde era obtido um tíquete para

es

tacionamento de curto prazo. No lado esquerdo, ficava a cabina

envidraçada onde permanecia o encarregado do pátio de estacionamento,

vendo uma pequena TV em preto e branco e fumando um cigarro.



Arnie suspirou.










Talvez você esteja certo. Enfim, esta pode s

er a melhor solução.







Claro que é





disse Michael, aliviado. Arnie estava se

assemelhando agora ao antigo Arnie e aquele brilho duro de seus olhos

desaparecera finalmente.





Dez meses, eis tudo.







Certo.



Dirigiu até a cabina. O encarregado, um rapazinho c

om a suéter

preta e laranja do ginásio, com o escudo do Libertyville nos bolsos, fez

deslizar a divisão envidraçada e inclinou

-

se para fora.







O que vai ser?





perguntou.







Eu queria um tíquete para trinta dias





disse Arnie, enfiando a

mão no bolso para t

irar a carteira.



Michael pousou a mão sobre a dele.







A idéia foi minha





disse.





Eu pago.



Arnie puxou a mão, com delicadeza, mas firmemente, e tirou a

carteira.







O carro é meu





respondeu.





Eu mesmo pago.







Eu só queria...





começou Michael.







Eu sei





disse Arnie



, mas quero pagar. Michael suspirou.







Dava para imaginar. Você e sua mãe... Tudo ficará ótimo, desde

que feito como sugeri. Os lábios de Arnie tremeram momentaneamente,

depois sorriram.







Bem... é isso aí





disse ele.



Os dois se entreolharam



e começaram a rir.



No mesmo instante em que riram, o motor de Christine morreu. Até

então, a máquina viera funcionando com absoluta perfeição. Agora,

simplesmente, silenciara; as luzes do marcador do óleo e amperagem se

apagaram.



Michael ergueu as sobranc

elhas.







O que terá sido?







Não sei





respondeu Arnie, franzindo o cenho.





Nunca

aconteceu antes. Girou a chave e o motor pegou imediatamente.










Bem, parece que não foi nada





comentou Michael.







No fim da semana, vou dar um jeito na regulagem





murmurou

Arnie.



Ligou o motor e ouviu atentamente. Naquele momento, Michael

constatou que Arnie não tinha a menor semelhança com seu filho. Parecia

uma outra pessoa, alguém muito mais velho e endurecido. Sentiu uma

leve, mas extremamente dolorosa aguilhoada de medo



no peito.







Ei, vai querer o tíquete ou prefere ficar aí a noite inteira,

discutindo sua regulagem?





perguntou o encarregado do pátio de

estacionamento.



Arnie o achou vagamente familiar, como acontece quando vemos

alguém se movimentando pelos corredores

da escola, sem que tenhamos

nada a ver com tal pessoa.







Oh, sim, desculpe.



Arnie entregou

-

lhe uma nota de cinco dólares e o encarregado lhe

deu um tíquete mensal.







No fim do pátio





indicou o rapazinho.





Não esqueça de

revalidar o tíquete cinco dias ant

es do fim do mês, se quiser ter a mesma

vaga novamente.







Certo.



Arnie dirigiu para os fundos do pátio, a sombra de Christine

avolumando e encolhendo, quando passavam sob os postes com

lâmpadas de sódio. Encontrou uma vaga e manobrou o carro para ela.

Quan

do desligou o motor, fez uma careta e levou a mão às costas.







Isso ainda o incomoda?





perguntou Michael.







Só um pouquinho





respondeu Arnie.





Quase havia

desaparecido, mas voltou ontem. Devo ter levantado algum peso, sem

querer. Não esqueça de trancar

sua porta.



Os dois saíram e trancaram o carro. Uma vez fora dele, Michael se

sentiu muito melhor





como se estivesse mais ligado ao filho e,

provavelmente ainda mais importante, com a impressão de não ser tão

grande o seu papel de bobo impotente com uma ti

lintante carapuça de

sininhos, na discussão que acontecera em casa. Fora do carro, surgia a

sensação de que algo poderia ser salvo daquela noite





talvez muita coisa.










Vejamos o quanto esse ônibus é rápido





disse Arnie.



Juntos, começaram a cruzar o pátio



de estacionamento em direção

ao terminal, como dois companheiros.



No trajeto para o aeroporto, Michael formara uma opinião sobre

Christine. Ficara impressionado com o trabalho de restauração feito por

Arnie, mas não gostava do carro em si





teve por ele p

rofunda antipatia.

Refletiu que era ridículo sentir

-

se daquela forma em relação a um objeto

inanimado, porém a antipatia estava ali, forte e indiscutível, como um

caroço em sua garganta.



Era impossível isolar a fonte do antagonismo. Aquele carro

provocara

um amargo problema familiar, e ele supôs que talvez fosse esse

o motivo... porém não era tudo. Michael não gostara do jeito como

Arnie

ficava,

quando na direção: algo arrogante e petulante ao mesmo tempo,

como um pequeno rei. O modo impotente como injuriar

a o seguro... seu

uso daquela palavra feia e contundente





"bostas"



, inclusive a maneira

como o carro morrera, quando tinham rido juntos.



Havia ainda o cheiro. Não era perceptível logo de início, mas estava

lá. Não o cheiro das novas capas dos assentos,

porque este era bastante

agradável. O outro exalava um odor sutil, amargo e quase (mas não

inteiramente) secreto. Um odor antigo. Bem, disse Michael para si mesmo:

o carro é velho; por que, raios, era de se esperar um cheiro de novo?

E



isto fazia

um sentid

o indiscutível. A despeito do trabalho realmente fantástico que

Arnie fizera nele ao restaurá

-

lo, o Fury tinha vinte anos de idade. Aquele

cheiro acre e mofado poderia provir da forração antiga do porta

-

mala ou

dos tapetes velhos, por baixo dos novos. Talv

ez se originasse do

estofamento original, sob os novos e reluzentes. Apenas um cheiro de

idade.



No entanto, aquele cheiro subjacente, difuso e vagamente doentio o

preocupava. Parecia ir e vir em ondas, às vezes bastante perceptível, em

outras totalmente in

detectável. Não parecia ter uma fonte específica.

Quando no auge, era o cheiro semelhante ao exalado pelo cadáver

putrefato de algum animal pequeno





um gato, um camundongo, talvez

um esquilo





que houvesse penetrado no porta

-

mala ou rastejado para o

inter

ior da estrutura, e lá tivesse morrido.



Michael estava orgulhoso com o que seu filho realizara... e muito

satisfeito em sair do carro dele.








S

ANDY



Primeiro caminhei pelo Pare e Compre,



Depois passei de carro pelo Pare e Compre.



Gostei muito mais, quando pa

ssei dirigindo pelo Pare e Compre,



Porque tinha o rádio ligado.







Jonathan Richmond e os Modern Lovers





O encarregado do pátio de estacionamento naquela noite





de fato,

todas as noites, das seis da tarde às dez da noite





era um jovem

chamado Sandy Galton

, o único membro do bando de amigos íntimos de

Buddy Repperton que não estivera presente na área de fumar no dia em

que Buddy fora expulso do colégio. Arnie não o reconheceu, mas Galton o

viu muito bem.



Afastado da escola e sem o menor interesse em iniciar



as

providências para sua readmissão no início do semestre da primavera, em

janeiro, Buddy Repperton tinha ido trabalhar no posto de gasolina

dirigido pelo pai de Don Vandenberg. Em suas poucas semanas de serviço

ali, ele já pusera em ação um razoável núme

ro de tramóias





como dar

troco incompleto aos clientes apressados demais para contar as notas

recebidas, praticar a farsa da recauchutagem (cobrando do cliente um

pneu recauchutado como se fosse novo e embolsando a diferença de

quinze a sessenta dólares),



praticar ato semelhante com "peças usadas" e

também vender tíquetes de inspeção a rapazinhos do ginásio e da

próxima Universidade de Horlicks, jovens demasiado ansiosos em

manterem na estrada suas mortais arapucas.



O posto ficava aberto vinte e quatro hor

as por dia e Buddy

Repperton trabalhava no último turno, de 9 da noite às cinco da manhã.

Por volta de onze da noite, "Penetra" Welch e Sandy Galton às vezes

apareciam lá, no velho e maltratado Mustang de Sandy. Richie Trelawney

costumava ir em sua Firebir

d, e Don, naturalmente, estava sempre

chegando e saindo quase todo o tempo, quando não ficava divertindo

-

se

na escola. Por volta de meia

-

noite de qualquer dia da semana, era comum




ver

-

se seis ou oito indivíduos nas dependências do prédio, bebendo

cerveja e

m xícaras sujas, esvaziando em rodízio uma garrafa do Texas

Driver de Buddy, fumando um baseado ou comendo qualquer coisa,

arrotando, contando piadas sujas, mentindo sobre quantas conas estavam

comendo e talvez ajudando Buddy a roubar o que quer que estive

sse

dando sopa por ali.



Durante uma daquelas reuniões de fim de noite, em princípios de

novembro, aconteceu de Sandy mencionar que Arnie Cunningham estava

estacionando sua máquina na área do aeroporto de longo prazo. De fato,

Cunningham havia pago um tíque

te de estadia por trinta dias.



Buddy, cuja conduta costumeira durante aquelas reuniões de

fanfarronice a altas horas era de macambúzio retraimento, empurrou

bruscamente para trás sua cadeira de assento plástico barato, sobre todas

as quatro pernas, e coloc

ou sua garrafa de Driver sobre o armário dos

limpadores de pára

-

brisa, com um baque surdo.







O que foi que você disse?





perguntou.





Cunningham? O

velho Cara de Cona?







Hum

-

hum





disse Sandy, surpreso e um tanto inquieto.





Era

ele.







Tem certeza? O cara

que me chutou da escola? Sandy olhou para

ele com crescente alarma.







Exato. Por quê?







E ele ficou com um tíquete de trinta dias, sinal de que vai ficar

estacionado nas vagas de longo prazo.







Certo. Talvez seus velhos não quisessem que ele deixasse o car

ro

em...



A voz de Sandy extinguiu

-

se. Buddy Repperton começara a sorrir.

Aquele sorriso não era uma visão agradável, não apenas porque os dentes

por ele revelados começassem a ficar cariados. Era como se algum terrível

mecanismo, em alguma parte, tivesse a

cabado de ganhar vida e começasse

a funcionar, ganhando alta velocidade.



Buddy olhou em torno, de Sandy para Don, depois "Penetra" Welch

e Richie Trelawney. Os outros o encararam interessados e um pouco

assustados.










O Cara de Cona





disse ele em tom suave

, acariciante.





O

velho Cara de Cona já legalizou sua máquina e seus velhos caretas fizeram

ele estacionar no aeroporto...



Ele riu.



"Penetra" e Don trocaram um olhar que tanto tinha de inquieto

como de ansioso.



Buddy inclinou

-

se para eles, de cotovelos no

s joelhos dos

jeans.







Ouçam





começou.





A

RNIE E

L

EIGH



Rodando em meu automóvel,



Com meu bem junto de mim, no volante,



Roubei um beijo e rodei mais depressa,



A curiosidade ficando mais forte





Rodando e ouvindo o rádio,



Sem nenhum destino certo.







Chuck Be

rry





O rádio do carro estava na WDIL e Dion cantava "Runaround Sue"

em sua voz forte, a plenos pulmões, porém nenhum deles o ouvia.



Ele escorregara a mão por baixo da camiseta que ela usava e

encontrara a glória macia dos seios, coroados por mamilos eretos



e rijos de

excitamento. A respiração dela saía em haustos curtos e ofegantes. E, pela

primeira vez, encaminhara a mão para onde ele queria, para onde ele a

necessitava,

na junção das coxas, onde pressionava, virava e mexia, sem

experiência, mas com desejo



suficiente para suprir a deficiência.



Ele a beijou e ela abriu a boca amplamente, expondo a língua. O

beijo foi como inalar o límpido aroma/sabor de uma floresta após a chuva.

Ele podia sentir o excitamento, a ânsia que ela exalava, como uma aura.






Inclino

u

-

se para ela,

estirou

-

se

em sua direção, todo inteiro e, por um

momento, sentiu

-

a corresponder com pura e simples paixão.



Então, ela não estava mais ali.



Arnie sentou

-

se ereto, admirado e estupidificado, um pouco à

direita do volante, quando a luz do teto



de Christine se acendeu. Foi um

breve clarão, a porta do passageiro bateu com firmeza, fechando

-

se, e a

luz voltou a desligar

-

se.



Ele ficou parado mais alguns segundos, não muito certo sobre o

acontecido, momentaneamente nem muito certo de onde se encontr

ava.

Seu corpo estava em total ebulição





um confuso amontoado de emoções

e erráticas reações físicas, metade maravilhosas e metade terríveis. Sua

glande doía; o pênis enrijecera como uma barra de ferro e os testículos

latejavam surdamente. Ele podia senti

r a adrenalina turbilhonando

velozmente no sangue, subindo, descendo, indo a todos os recantos.



Seu punho fechado caiu com força sobre a perna. Então, deslizando

no assento, abriu a porta e foi atrás dela.



Leigh estava de pé bem na borda da terraplenagem,

olhando para a

escuridão mais abaixo. Dentro de um brilhante retângulo, no meio

daquela escuridão, Sylvester Stallone varou a noite, vestido como um

jovem líder trabalhista dos anos 30. Arnie tinha experimentado

novamente a sensação de viver em algum sonho



maravilhoso que, a

qualquer momento, poderia transformar

-

se em pesadelo... talvez isso já

tivesse começado a acontecer.



Ela estava demasiado perto da borda





ele lhe pegou o braço e a

puxou delicadamente para trás. O solo ali era seco e esboroado. Não hav

ia

gradil nem mureta. Se a terra da borda cedesse Leigh teria ido junto, cairia

em alguma parte das moradias suburbanas espalhadas a esmo em torno

do

drive

-

in

de Liberty Hill.



A terraplenagem tinha sido o local de encontro dos namorados,

desde tempos imemo

rais. Ficava no final de Stanson Road, uma longa e

serpenteante faixa de duas pistas asfaltadas, que primeiro se curvara para

fora da cidade, depois formando uma curva apertada e retomando até

morrer como rua sem saída em Libertyville Heights, onde outrora



houvera uma fazenda.






Era 4 de novembro e a chuva que começara no início daquela noite

de sábado transformara

-

se em ligeiro chuvisco. Eles tinham a

terraplenagem e a visão grátis do

drive

-

in

(embora silenciosa) para si

mesmos. Arnie a conduziu de volta ao

carro





ela voltou de boa

vontade



, observando os diminutos pingos do chuvisco no rosto de

Leigh. Foi somente no interior, à luz fantasmagórica do clarão esverdeado

que brotava do painel de instrumentos, que Arnie teve certeza: ela estava

chorando.







O qu

e foi?





perguntou ele.





O que houve de errado? Ela

sacudiu a cabeça e chorou mais forte.







Eu fiz... alguma coisa que você não queria?





Engolindo em seco,

obrigou

-

se a perguntar:





Tocando

-

me daquele jeito?



Ela tornou a sacudir a cabeça, mas Arnie não t

inha certeza do

significado. Ele a abraçou, desajeitado e preocupado. No fundo da mente,

pensava na camada de neve que se formara, na viagem de volta descendo

a ladeira e no fato de que ainda não colocara pneus de neve em Christine.







Nunca fiz isso com ne

nhum rapaz





disse ela, contra o ombro

dele.





Foi a primeira vez que toquei... você sabe. Fiz porque queria.

Porque quis mesmo.







Então, o que foi?







Não posso... aqui.



As palavras saíram lentas e difíceis, uma de cada vez, com quase

medrosa relutância.







Na terraplenagem?





disse Arnie.



Olhou estupidamente em torno, pensando que Leigh talvez

acreditasse que só tinham ido ali para verem o filme sem pagar.







Neste carro!





gritou ela, de repente.





Não posso fazer amor

com você neste carro!







Hein?





Ele a

fitou, sem entender.





De que está falando? E por

que não?







Porque... porque... eu não sei!





Ela se esforçou para dizer algo

mais, porém explodiu em novas lágrimas.



Arnie tornou a abraçá

-

la, até vê

-

la acalmar

-

se.










Apenas não sei a quem você está amando

mais





disse Leigh,

quando o choro permitiu.







Isso é...





Arnie interrompeu

-

se, meneou a cabeça e sorriu.





Isso é loucura, Leigh!







Será mesmo?





perguntou ela, observando

-

lhe o rosto.





Com

qual de nós você fica mais tempo? Comigo... ou com ela?







Está

falando de Christine?



Ele olhou em torno, esboçando aquele enigmático sorriso que ela

tanto podia achar adorável ou terrivelmente odioso





às vezes, ambas as

coisas ao mesmo tempo.







Estou





disse Leigh, em voz sem entonação. Baixou os olhos

para as mãos q

ue jaziam inanimadas sobre as calças compridas de lã

azul.





Acho que é imbecilidade minha.







Fico muito mais tempo com você





disse Arnie. Meneou a

cabeça.





Isso é loucura. Bem, talvez seja o normal... e apenas eu ache

uma loucura, porque nunca tive uma

namorada antes.



Estendeu a mão e tocou

-

lhe os cabelos, onde cascateavam sobre um

ombro do casaco aberto. Por baixo, a camiseta dizia DÊ

-

ME

LIBERTYVILLE OU DÊ

-

ME A MORTE e os mamilos salientavam

-

se sob o

algodão fino de modo tão sensual que Arnie se sentiu

algo delirante.







Pensei que garotas sentissem ciúmes de outras garotas. Não de

carros. Leigh riu brevemente.







Tem razão. Deve ser porque você nunca teve uma namorada.

Carros são garotas. Não sabia?







Ora, francamente...







Então, por que não lhe deu o nom

e de Christopher?



Repentinamente, Leigh bateu com a palma aberta, fortemente,

contra o assento. Arnie pestanejou.







Ora, vamos, Leigh. Não faça isso.







Não gosta que eu bata em sua garota?





perguntou ela, com

súbito e inesperado veneno. Então, percebeu os



olhos magoados.





Sinto

muito, Arnie.










Sente mesmo?





disse ele, fitando

-

a inexpressivamente.





Parece que ninguém gosta de meu carro, no momento: você, meu pai,

minha mãe, até mesmo Dennis. Larguei couro do corpo, trabalhando nele,

e tudo significa apen

as zero para os outros!







Significa algo para mim





disse ela, maciamente.





O

trabalho

que deu.







Hum

-

hum





disse Arnie, taciturnamente. A paixão, o calor

haviam desaparecido. Sentia frio agora e tinha o estômago um pouco

nauseado.





Escute, é melhor irmo

s andando. Não tenho pneus para neve.

Seus pais vão achar muito esquisito, nós dois irmos jogar boliche e depois

ficarmos presos na Stanson Road.



Leigh riu baixinho.







Eles não sabem onde a Stanson Road termina.



Arnie ergueu uma sobrancelha para ela, parte



do bom humor

retornando.







Isto é o que

você

pensa





disse.





Arnie dirigiu lentamente na descida, quando voltavam. Christine se

saiu muito bem, na estrada íngreme e serpenteante, suas rodas aderindo

perfeita e facilmente ao solo. O chuveiro de estrelas te

rrestres, que eram

Libertyville e Monroeville, foi ficando maior, depois se fundiu e parou de

ostentar qualquer formato. Leigh olhava para aquilo com tristeza,

sentindo que a melhor parte de uma noite potencialmente espetacular de

algum modo se perdera. Es

tava irritada, menosprezando

-

se





insatisfeita,

foi o que supôs. Havia uma dor surda em seus seios. Ignorava se

pretendia deixá

-

lo ir "até o fim da linha" como era eufemisticamente

conhecido, mas depois que a situação chegara a um certo ponto, nada

havia s

ido como esperara... tudo porque havia aberto a maldita boca no

momento errado.



Seu corpo estava confuso e o mesmo acontecia aos pensamentos. Por

várias vezes, durante a quase silenciosa corrida de volta, ela abriu a boca,

a fim de tentar esclarecer como s

e sentia... para tornar a fechá

-

la, receando

ser interpretada erradamente. Aliás, a própria Leigh não sabia ao certo

como se sentia.






Não tinha ciúmes de Christine... e tinha, ao mesmo tempo. Quanto a

isso, Arnie não dissera a verdade. Leigh fazia uma boa i

déia de todo o

tempo que ele gastava consertando o carro, mas o que havia de tão errado

nisso? Arnie tinha habilidade manual, gostava de trabalhar no carro e este

rodava como um relógio... exceto por aquele esquisito detalhe do

odômetro, cujos números corr

iam para trás.



Carros são garotas,

ela dissera, sem pensar muito no que dizia; aquilo

apenas lhe escapara da boca. Evidentemente, nem sempre isto era verdade,

porque não pensava no sedã de sua família como tendo um gênero em

particular; era apenas um Ford.



Só que...



Esqueça, livre

-

se de todas essas idiotices, essas besteiras! A verdade

era muito mais brutal, inclusive mais louca, não? Ela não pudera fazer

amor com ele, não pudera tocá

-

lo daquele jeito íntimo, muito menos

pensara em fazê

-

lo chegar ao clímax

daquela maneira (ou da outra, a

maneira real





tinha pensado nisso vezes sem conta, enquanto jazia em

sua cama estreita, sentindo um novo e quase incrível excitamento assaltá

-

la), dentro do carro.



Não naquele carro.



Porque a parte mais alucinante de tudo h

avia sido sentir que

Christine os

espiava.

Sentir que talvez tivesse ciúmes deles, que os

desaprovava, até mesmo odiava. Porque havia ocasiões (como agora,

quando Arnie dirigia o Plymouth tão suave e delicadamente através das

camadas de neve que se iam for

mando) em que ela sentia estarem os

dois





Arnie e Christine





abraçados, envolvidos em perturbadora

paródia do ato amoroso. Porque Leigh não se sentia

andando

em Christine;

ao entrar no carro para ir com Arnie a algum lugar, sentia

-

se

engolida por

Christi

ne. E o ato de beijá

-

lo, de fazer amor com ele, parecia uma

perversão, pior que o

voyeurismo

ou exibicionismo





era como fazer amor

dentro do corpo de sua rival.



E a parte realmente louca daquilo era que odiava Christine.



Odiava

-

a e a temia. Leigh passara

a ter uma vaga irritação contra

caminhar diante da nova grade do radiador ou muito perto do porta

-

mala.

Surgiam

-

lhe vagos pensamentos do freio de emergência falhando ou da

mudança passando bruscamente de parado para ponto morto, por algum




motivo. Jamais nu

trira pensamentos semelhantes em relação ao sedã da

família.



O mais importante, contudo, era não querer fazer nada no carro... ou

mesmo ir nele a algum lugar, se pudesse evitá

-

lo. De algum modo, Arnie

ficava diferente quando dentro do carro, transformava

-

s

e em uma pessoa

que ela não conhecia mais. Adorava o contato das mãos dele em seu

corpo





seus seios e coxas (ainda não permitira que ele tocasse o seu

centro, mas desejava as mãos de Arnie lá; achava que, se ele a tocasse lá,

ela certamente se diluiria).

O contato dele sempre lhe provocava um sabor

de excitamento na boca, a sensação de que cada sentido estava vivo e

deliciosamente sincronizado. No carro, entretanto, tais sensações pareciam

embotadas... talvez porque, no carro, Arnie fosse menos honestament

e

apaixonado e, de certo modo, mais lúbrico.



Leigh tornou a abrir a boca quando dobraram para a sua rua,

querendo explicar um pouco daquilo mas, novamente, nada conseguia

dizer. Por que falar? Nada havia realmente para explicar





era tudo

muito vago. Vapor

es nebulosos. Bem... havia uma coisa





mas isto não

poderia contar a ele, porque o magoaria demais. E Leigh não queira feri

-

lo,

pois achava que estava começando a amá

-

lo.



Contudo, a coisa existia. Estava lá.



O cheiro





um cheiro forte e pútrido, camuflado

sob o aroma dos

estofamentos novos e do fluido de limpeza que ele usara nos tapetes do

piso. Estava lá, fraco, mas terrivelmente desagradável. Quase nauseante.



Como se, alguma vez, qualquer coisa houvesse rastejado para

dentro do carro e tivesse morrido lá

.





Ele lhe deu um beijo de boa

-

noite à porta de casa, a neve cintilando

prateada no cone de luz amarela, despejada pela lâmpada da entrada de

carros, aos pés dos degraus da varanda. A claridade reluzia como jóias, no

louro

-

escuro de seus cabelos.



Arnie gos

taria de tê

-

la beijado realmente, mas o fato de os pais dela

poderem estar espiando da sala de estar





deviam estar lá, sem dúvida, o

forçou a beijá

-

la quase formalmente, como se beijaria uma prima querida.







Sinto muito





disse ela.





Agi como uma tola.










Não





respondeu Arnie, obviamente querendo dizer sim.







Foi apenas porque





sua mente forneceu algo que era um

curioso híbrido de verdade e mentira





não me pareceu correto no carro.

Em

nenhum

carro. Quero ficar com você, mas não estacionados no escuro,

n

o fim de uma rua sem saída. Você compreende?







Claro





disse ele.





Compreendo perfeitamente o que quer dizer.



Lá em cima, na terraplenagem, dentro do carro, ficara um pouco

aborrecido com ela... para ser franco, ficara bem irritado. Agora, no

entanto, jun

to à porta de sua casa, achou que podia compreender





e

admirou

-

se por não querer negar

-

lhe nada ou contrariar

-

lhe a vontade de

modo algum.



Ela o afagou, passou os braços por seu pescoço. O casaco continuava

aberto e Arnie pôde sentir o toque macio e enlou

quecido de seus seios.







Amo você





disse Leigh, pela primeira vez.



Então, deslizou para dentro de casa, deixando

-

o de pé

momentaneamente na entrada, agradavelmente surpreso e muito mais

acalorado do que deveria estar, naquela pulsante e tamborilante neve

de

fins do outono.



A idéia de que os Cabot poderiam achar peculiar que ele

permanecesse parado à sua porta por muito mais tempo, sob a neve,

finalmente abriu caminho em seu cérebro entorpecido. Arnie deu meia

-

volta e começou a caminhar pela entrada de carr

os, entre o pulsar e o

tamborilar da neve, estalando os dedos e sorrindo. Estava agora rodando

na montanha

-

russa, fazendo a melhor parte do trajeto, a que só deixam a

gente fazer uma vez.



Perto do ponto em que a alameda de concreto se unia à calçada, ele

p

arou, o sorriso desaparecendo do rosto. Christine ficara junto ao meio

-

fio

com pequenos flocos de neve desfeitos misturados ao chuvisco, perolando

seu vidro, maculando as luzes vermelhas de lembrete do painel interno.

De passagem, ele se perguntou qual ser

ia a fonte daquela particular

expressão





luzes de lembrete;

uma expressão desagradável. Seus

pensamentos foram então cortados pela cogitação mais importante:

deixara Christine com o motor ligado e ele havia parado. Era a segunda

vez que acontecia.










Fiaçã

o molhada





murmurou para si mesmo.





Tem que ser

isso.



Não podiam ser as velas, colocara todo um novo conjunto na

garagem de Will, apenas dois dias antes. Oito novas Champions e...



Com qual de nós você fica mais tempo? Comigo... ou com ela?



O sorriso reto

rnou, mas agora era inquieto. Bem, ele ficava mais

tempo às voltas com carros

em geral





claro. Isto, porque trabalhava para

Will. Não obstante, era ridículo imaginar que...



Você mentiu para ela. Não foi?



Não,

respondeu para si mesmo, nervoso.

Acho que, na

realidade, não se

poderia dizer que menti para ela...



Não mesmo? Então, que nome dá a isso?



Pela primeira e única vez, desde que levara Leigh ao jogo de futebol

em Hidden Hill, ele lhe pregara uma grande mentira. Porque a verdade é

que ficava mais tempo co

m Christine e odiava tê

-

la estacionada naquela

área de longa estadia do pátio de estacionamento do aeroporto, exposta ao

vento e à chuva, dentro em pouco também à neve...



Mentira para Leigh.



Ele ficava mais tempo com Christine.



E isso era...



Era...







Errad

o





resmungou, e a palavra quase se perdeu entre o

pegajoso e misterioso som da neve caindo.



Arnie ficou parado na calçada, contemplando o carro cujo motor

silenciara, um viajante do tempo, maravilhosamente ressuscitado da era

de Buddy Holly, de Khruschev

e de Laika, a cadela espacial. E odiou

-

o de

repente. Não estava bem certo do que, mas ele lhe tinha feito algo.

Alguma coisa.



As luzes de lembrete, deformadas para olhos vermelhos em forma

de bolas de futebol, pela umidade na vidraça, pareciam zombar dele

e

censurá

-

lo ao mesmo tempo.






Arnie abriu a porta do lado do motorista, deslizou para o volante e

tornou a fechá

-

la. Cerrou os olhos. A paz fluiu por ele e as coisas pareciam

acudir juntas à mente. Sim, mentira para ela, mas fora uma pequena

mentira. Uma me

ntirinha insignificante. Não





uma mentira

absolutamente

sem importância.



Estirou a mão, sem abrir os olhos, e tocou o retângulo de couro ao

qual as chaves estavam presas





velho e surrado, com as iniciais R.D.L.

gravadas a fogo. Arnie não sentira necessid

ade de um novo porta

-

chaves

ou de um pedaço de couro com suas próprias iniciais.



Entretanto, havia algo peculiar sobre a etiqueta de couro que reunia

as chaves, não havia? Sim, havia. Algo bastante peculiar.



Quando contara o dinheiro sobre a mesa da cozinh

a de LeBay e ele

lhe jogara as chaves através da toalha de oleado em xadrez vermelho e

branco, o retângulo de couro estava puído, deteriorado e encardido pela

idade, as iniciais quase apagadas pelo tempo e pela constante fricção

contra as moedas no bolso d

o velho e o próprio tecido do bolso.



Agora, as iniciais sobressaíam no couro, vivas e nítidas novamente.

Tinham sido renovadas.



Como a mentira, no entanto, aquilo não tinha qualquer importância.

Sentado no interior da concha metálica da carroceria de Chris

tine, ele

concluiu decisivamente que aquela era a verdade.



Ele soube.

Sem a menor importância, tudo aquilo.



Girou a chave.

O starter gemeu

mas, durante bastante tempo, o motor

não pegou. Fiação molhada. Claro que tinha de ser aquilo.







Por favor





sussurro

u.





Está tudo bem, não se preocupe, tudo

está como antes.



O motor pegou e falhou. O

starter

ficou uivando sem parar. A neve

derretida pela chuva se colava fria sobre o vidro. Era seguro ali dentro,

seco e aquecido. Se o motor pegasse...







Vamos





sussurro

u Arnie.





Vamos, Christine. Vamos, meu

bem.



O motor pegou novamente, com firmeza agora. As luzes de

lembrete piscaram e apagaram. A luz DIN tornou a pulsar fracamente

enquanto o motor se esforçava para pegar, apagando

-

se depois de vez,




quando as pulsações



da máquina se uniformizaram para um firme

ronronar.



O aquecedor expeliu ar quente, suavemente, em torno de suas

pernas, negando a gelidez do exterior.



Ele tinha a impressão de que Leigh não podia entender certas coisas,

jamais as entenderia. Porque não es

tivera por ali antes. As espinhas. Os

gritos de

"Ei, Cara de Pizza!".

O querer falar, querer chegar às outras

pessoas e ser incapaz disso. A impotência. Parecia

-

lhe que ela não podia

compreender o simples fato de que, não fosse Christine, ele jamais teria

coragem de telefonar

-

lhe, mesmo que Leigh perambulasse com QUERO

SAIR COM ARNIE CUNNINGHAM tatuado na testa. Ela não podia

compreender que, às vezes, ele se sentia com trinta anos a mais do que sua

idade. Não, cinqüenta anos a mais! Não um adolescente, em

absoluto, mas

algum veterano terrivelmente vencido, retornando de uma guerra não

-

declarada.



Arnie acariciou o volante. Os verdes olhos

-

de

-

gato dos indicadores,

no painel de instrumentos, cintilaram confortavelmente para ele.







Tudo certo





disse ele.



Quase



suspirou. Puxou a mudança para o D maiúsculo e ligou o

rádio. Dee Dee Sharp cantando

"Mashed Potato Time"





tolice mística nas

ondas radiofônicas, brotando do escuro.



Partiu, planejando encaminhar

-

se para o aeroporto, onde

estacionaria o carro e pegaria o



ônibus que o traria de volta à cidade. Foi o

que fez, mas não em tempo de pegar o ônibus das 23 horas, como

pretendera. Em vez disso, apanhou o da meia

-

noite e, só quando já estava

na cama, recordando os beijos cálidos de Leigh, em vez de pensar na falha

do motor de Christine, ocorreu

-

lhe que naquela noite, após deixar a casa

dos Cabot e antes de chegar ao aeroporto, perdera uma hora. Era algo tão

óbvio, que ele se sentiu como o homem que, após revirar a casa de alto a

baixo, procurando uma peça vital de c

orrespondência, acaba descobrindo

que, o tempo todo, a tinha na outra mão. Óbvio... e um tanto assustador.



Onde estivera?



Tinha uma vaga noção de afastar

-

se do meio

-

fio, em frente à casa de

Leigh, e então apenas...



... apenas rodar.






Exatamente. Rodar. Era

tudo. Nada de importante.



Rodando por sobre a neve que se espessava, rodando por ruas

vazias e amortalhadas de branco, rodando sem pneus de neve (mas ainda

assim, por incrível que fosse, Christine rodava com segurança, parecia

descobrir a maneira mais segu

ra de ir em frente, como que por magia,

avançando com tal firmeza que dava a impressão de trafegar sobre trilhos),

rodando com o rádio ligado, ouvindo uma corrente constante de músicas

antigas, consistindo apenas em nomes de garotas: "Peggy Sue", "Carol",

"Barbara

-

Ann", "Susie Querida".



Arnie tinha a vaga idéia de que, a certa altura, ficara um tanto

amedrontado e apertara um dos botões cromados do transformador que

instalara, mas em vez de FM

-

104 e do

Block Party Weekend,

voltou a captar

a estação WDIL, só



que agora o

disc

-

jockey

tinha uma absurda semelhança

com Allan Fred, e a voz que se seguiu era a de Screamin' Jay Hawkins,

rouca e cantando:

"Lancei um feitiço em vocêêê... porque você é miiiiinha...".



Por fim, lá estava o aeroporto, com suas luzes do mau



tempo

pulsando seqüencialmente, como uma batida cardíaca visível. O que quer

que o rádio tocava, tornara

-

se inaudível numa confusão de estática, e ele o

desligou. Ao sair do carro, experimentou uma suada espécie de

incompreensível alívio.



Agora ele jazia

na cama, querendo dormir, mas incapaz de conciliar

o sono. O granizo engrossara, acumulando

-

se em pesadas camadas de

neve.



Aquilo não estava certo.



Algo havia sido iniciado e algo estava em andamento. Ele nem ao

menos podia mentir para si mesmo e dizer que



nada sabia a respeito. O

carro





Christine





recebera elogios de várias pessoas, todas dizendo

como havia sido espetacularmente restaurado. Arnie fora nele para a

escola e os colegas de Mecânica de Motores se comprimiram em torno,

espiaram debaixo do auto

móvel em deslizadores de rodas, querendo ver

os novos canos de escapamento, os novos amortecedores, a lanternagem.

Mergulharam até a cintura no compartimento do motor, verificando as

correias e o radiador (que se apresentava miraculosamente livre da

corros

ão e da massa esverdeada, resíduo de anos de anticongelante),

examinando o dínamo e os ajustados, cintilantes pistons encaixados em




seus cilindros. Até o filtro de ar era novo, com o número 318 pintado

através do topo, inclinado para trás para indicar velo

cidade.



Sim, ele se tornara uma espécie de herói para os colegas da aula de

motores, recebendo todos os comentários e cumprimentos apenas com um

sorriso de protesto. Contudo, mesmo então, não estivera ali a confusão,

em algum lugar bem no fundo? Claro!



Por

que ele não conseguia recordar o que tinha ou não feito de reparos em

Christine.



O tempo gasto trabalhando nela na Darnell's, agora não passava de

um borrão, como havia sido sua corrida para o aeroporto horas antes,

naquela noite. Podia recordar que começa

ra a lanternagem na traseira

enferrujada do carro, mas não se lembrava de havê

-

la terminado.

Recordava

-

se pintando o capô





cobrindo o pára

-

brisa e pára

-

lamas com

adesivo protetor e preparando o emassado branco, no galpão de pintura

dos fundos



, mas era i

mpossível lembrar quando trocara as molas. Nem

ao menos onde as conseguira. A única certeza, era a de que permanecera

atrás do volante por longos períodos, transbordando de felicidade...

sentindo o mesmo êxtase de quando Leigh sussurrara: "Amo você", antes



de desaparecer dentro de casa. Sentado lá, depois que a maioria dos

sujeitos que consertavam seus carros na Darnell's havia ido jantar em casa.

Sentado lá, e às vezes ligando o rádio, a fim de ouvir as melodias antigas

da WDIL.



O pior, talvez tivesse sido



o caso do pára

-

brisa.



Tinha certeza absoluta de que não comprara um pára

-

brisa novo

para Christine. Se tivesse comprado um daqueles novos tipos

panorâmicos, sua conta bancária estaria muito mais desfalcada. E,

evidentemente, haveria um recibo. Já o procur

ara no fichário de mesa,

marcado CARRO

-

CONTAS, que mantinha em seu quarto. Nada

encontrara, contudo. De fato, ele o procurara com certa ansiedade.



Dennis tinha dito algo





que o emaranhado das rachaduras parecia

menor, menos sério. Então, naquele dia em Hi

dden Hills, simplesmente...

desaparecera! O pára

-

brisa se mostrava cristalino, imaculado.



E quando é

que isso acontecera? Como acontecera?



Ele não sabia.






Adormeceu finalmente e teve sonhos desagradáveis, torcendo as

cobertas em uma bola, quando o vento emp

urrou as nuvens para longe e

as estrelas outonais brilharam friamente para a terra.





V

ISÃO À

N

OITE



Vou levá

-

la a passear em meu carro

-

carro,



Vou levá

-

la a passear em meu carro

-

carro.



Vou levá

-

la a passear,



Vou levá

-

la a passear,



Vou levá

-

la a passear em me

u carro

-

carro.







Woody Guthrie





Havia sido um sonho





até quase o próprio final, estava certa de

que havia sido um sonho.



No sonho, ela despertava de um sonho com Arnie. Estivera fazendo

amor com ele, não no carro, mas em um aposento azul muito frio, sem

o

utro mobiliário além de um fofo tapete azul

-

escuro e almofadas

espalhadas, cobertas de cetim azul

-

claro... e despertava deste sonho em

seu quarto, nas primeiras horas da madrugada de domingo.



Podia ouvir um carro lá fora. Chegou à janela e olhou para baixo

.



Christine estava junto ao meio

-

fio. Tinha o motor ligado





Leigh

podia ver os tufos de fumaça escapando dos canos de descarga





mas não

havia ninguém em seu interior. No sonho, ela pensava que Arnie pudesse

estar à porta de sua casa, embora ainda não tiv

esse batido. Tinha que

descer até lá, e depressa. Seu pai ficaria furioso, se acordasse e encontrasse

Arnie ali a tal hora da madrugada.



Leigh, contudo, não se moveu. Olhava para o carro e pensava no

quanto o odiava





e o temia.



E o carro também a odiava.






Rivais,

pensou, e o pensamento





naquele sonho





não era de

ciúme feroz e intenso, antes desesperado e temeroso. Lá estava o carro

diante do meio

-

fio, lá estava ele





ela estava





parada à frente de sua

casa, na trincheira escura da madrugada, esperando

-

a.



Esperando por

Leigh.

Venha cá para baixo, meu bem. Venha! Rodaremos por aí e conversaremos

sobre quem precisa mais dele, quem se preocupa mais com ele e quem será melhor

para ele, a longo prazo. Venha.. Não está com medo, está?



Leigh estava aterrorizada.



Não é justo, ela é mais velha, conhece os truques, saberá como engambelá

-

lo...







Vá embora!





sussurrou Leigh, ardentemente, no sonho.



Bateu de leve na vidraça com os nós dos dedos. O vidro era frio ao

seu toque, podia ver as pequeninas marcas em forma de

crescente

deixadas pelos nós dos dedos na superfície embaciada. Era espantoso

como certos sonhos podem ser tão reais.



No entanto,

tinha

que ser um sonho. Tinha que ser, porque o carro a

ouvira. As palavras mal haviam saído de sua boca, e os limpadores de

p

ára

-

brisa começaram a mover

-

se repentinamente, espalhando a neve

molhada aderida ao vidro. Então, ele





ela





se afastou maciamente do

meio

-

fio e seguiu rua abaixo.



Sem ninguém na direção.



Leigh tinha certeza disso... toda a certeza que se pode ter sobre

a

lguma coisa, em um sonho. A janela do passageiro estava polvilhada de

neve, mas não ficara opaca com isso. Leigh pudera ver o interior e não

havia ninguém ao volante. Portanto, é claro, tinha que ser um sonho.



Voltou para a cama (para a qual jamais levara

um amante; como

Arnie, nunca tivera um amante) pensando em um Natal de há muito

tempo





de uns doze, talvez mesmo quatorze anos atrás. Ela não devia

ter mais de quatro anos naquela época. Tinha ido com a mãe a uma das

grandes lojas de departamentos de Bost

on, talvez a Filene's...



Pousou a cabeça no travesseiro e adormeceu (no sonho) de olhos

abertos, contemplando a ligeira fímbria das primeiras luzes do alvorecer

na janela e então





nos sonhos tudo pode acontecer





viu o

departamento de brinquedos da Filene

's, no outro lado da janela: ouropéis,

brilhos, luzes.






Procuravam um brinquedo para Bruce, único sobrinho de seus pais.

Em alguma parte, um Papai Noel da loja de departamentos clamava em

um sistema de alto

-

falantes e o som amplificado não era apenas jovial

,

mas de certo modo terrível, como o riso de um maníaco que surgisse

dentro da noite, empunhando um facão de açougueiro, em vez de

presentes.



Leigh estendera a mão para um dos brinquedos em exibição e,

apontando, tinha dito para sua mãe que queria ganhar

a

quilo

de Papai

Noel.



Não, meu bem. Papai Noel não pode lhe dar isso. É um brinquedo para

meninos.



Mas eu quero!



Papai Noel lhe trará uma linda boneca, talvez até uma Barbie...



É este aqui que eu quero!



Só meninos é que pedem um brinquedo assim, Lee

-

Lee que

rida. Só os

meninos. Meninas boazinhas gostam mais de lindas bonecas...



Eu não quero uma BONECA! Não quero uma BARBIE! É... AQUILO...

que eu quero!



Se vai começar a fazer malcriação, Leigh, levo você já, já para casa. Estou

falando sério, levo agora mesmo!



Ela se conformara, então, e o Natal lhe trouxera não apenas a Barbie

Malibu, mas também o Ken Malibu. Leigh gostara de seus presentes

(esperava

-

se que gostasse), mas não esquecera o carro de corridas

vermelho, correndo sem ser puxado, naquela superfície d

e verdes

montanhas pintadas, ao longo de uma estrada tão perfeita que havia até

mesmo pequenas muretas de metal





uma estrada, cuja ilusão essencial

era desfeita apenas pela inevitável circularidade. Oh, mas como aquele

carro corria depressa





e seu vermel

ho cintilante seria mágico para seus

olhos e sua mente? Sem dúvida. Também era mágica, a ilusão essencial do

carro. Uma ilusão exercendo tanta atração que a conquistara por completo.

A ilusão, naturalmente, de que o carro dirigia a si mesmo. Em realidade,

Leigh sabia que um empregado da loja o controlava, de uma cabina à

direita, apertando botões em um dispositivo quadrado de controle remoto.

Sua mãe lhe explicara isso e assim devia ser, mas seus olhos negavam o

que ouvia.






Também seu coração negava.



Ficara

fascinada, as mãozinhas enluvadas sobre o gradil da área de

exibição, espiando o carro que corria e corria, movendo

-

se depressa,

rodando por si mesmo, até que a mãe a puxou dali suavemente.



E, acima de tudo aquilo, parecendo fazer vibrar o próprio fio de

o

uropéis pendurados junto ao teto, a risada sinistra do Papai Noel da loja

de departamentos.





Leigh dormiu mais profundamente. Sonhos e lembranças

esmaeceram

-

se lentamente e, lá fora, a luz do dia rastejava como leite frio,

iluminando uma rua vazia e silenc

iosa em sua manhã de domingo. A

primeira nevada do outono estava imaculada, exceto pela marca de pneus,

no meio

-

fio diante da residência dos Cabot. Marca que depois se alongava

suavemente, em direção à esquina, no final daquele quarteirão suburbano.



Ela só



se levantou quase às dez horas (sua mãe, que não acreditava

em dorminhocos, finalmente a chamara para descer e tomar seu café,

antes do almoço) e, a esta altura, o dia já esquentara, chegando a quase 16

graus





na parte oeste da Pensilvânia, o começo de n

ovembro é mais ou

menos tão caprichoso como o começo de abril. Assim, às dez da manhã, a

neve já se derretera. E as marcas haviam desaparecido.





B

UDDY

V

ISITA O

A

EROPORTO



Nós fazemos com que se calem e então os liquidamos.







Bruce Springsteen





Uma noite, ce

rca de dez dias depois, quando perus de cartolina e

cornucópias de papel começavam a aparecer nas janelas das escolas

primárias, um Camaro azul, de traseira tão levantada que o nariz quase

parecia roçar o chão, deslizou pela ala do estacionamento de longo

prazo

do aeroporto.



Sandy Galton debruçou

-

se nervosamente pela abertura de sua

cabine de vidro. No assento do Ford, ao lado do motorista, o rosto




sorridente e feliz de Buddy Repperton se ergueu para ele. Buddy tinha as

faces cobertas pela barba rala de uma



semana e seus olhos exibiam um

brilho maníaco, mais devido à cocaína do que à alegria no Dia de Ação de

Graças





ele e os rapazes tinham conseguido bom provimento aquela

noite. Em tudo e por tudo, Buddy assemelhava

-

se bastante a um

depravado Clint Eastwoo

d.







Como é que vão as coisas, Sandy?





perguntou Buddy.



Seu cumprimento foi devidamente acompanhado por risadas no

Camaro. Don Vandenberg, "Penetra" Welch e Richie Trelawney estavam

com Buddy e, com a coca e as seis garrafas de Texas Driver que Buddy

arra

njara para a ocasião, sentiam

-

se eufóricos e na mais perfeita forma.

Estavam chegando para um pequeno trabalhinho sujo, no Plymouth de

Arnie Cunningham.







Escutem aqui, caras, se vocês forem apanhados, eu perco o meu

emprego





disse Sandy, nervosamente.



Er

a o único sóbrio e lamentava ter mencionado que Cunningham

estacionava seu calhambeque ali. Felizmente, ainda não lhe ocorrera o

pensamento de que também podia ir parar na cadeia.







Se você ou qualquer membro de sua fodida Missão Impossível

forem apanhados

, o chefão negará qualquer envolvimento no negócio





declarou "Penetra", no banco traseiro.



Houve um coro de risos. Sandy olhou em torno, à procura de outros

carros





testemunhas



, porém faltava mais de hora para a chegada de

aviões e o pátio de estaciona

mento estava tão deserto como as montanhas

da lua. O tempo esfriara muito. Um vento cortante como lâmina de

barbear gemia pelas pistas do campo, uivando miseramente por entre as

fileiras de carros vazios. Acima dele e à esquerda, o cartaz com a sigla

"Apco

" batia furiosa e incessantemente de um lado para outro.







Riam à vontade, debilóides





disse Sandy.





A verdade é que

nunca vi vocês por aqui. Se forem apanhados, vou dizer que estava

cochilando.







Nossa, que gracinha!





exclamou Buddy. Pareceu triste.





Nunca pensei que fosse tão cagão, Sandy. Honestamente.







Au! Au!





latiu Richie, e houve novo coro de risos.





Role de

costas e finja

-

se de morto para o papai, Sandy!






Sandy enrubesceu.







Não estou me importando





disse



, mas tomem cuidado.







Tomaremos, ca

ra





disse Buddy, sinceramente. Havia reservado

uma sétima garrafa de Texas Driver e uma dose caprichada de coca.

Estendeu as duas coisas para Sandy:





Tome aí. Divirta

-

se.



Sandy sorriu a contragosto.







Está legal





disse, acrescentando, apenas para dar a

entender

que não era do contra:





Façam um bom trabalho.



O sorriso de Buddy endureceu

-

se, ficou metálico. A luz desapareceu

de seus olhos e eles ficaram opacos, mortiços e aterradores.







Oh, nós faremos





disse.





Se faremos!



O Camaro embicou para o pátio

de estacionamento. Por um

momento, Sandy pôde apreciar sua avançada, guiando

-

se pela luz dos

faróis traseiros, mas depois Buddy os apagou. O som do motor,

gorgolejando através de dois escapamentos, foi trazido

momentaneamente pelo vento, mas depois até iss

o cessou também.



Sandy ajeitou a coca sobre o balcão, junto de sua TV portátil, e a

aspirou através de uma nota enrolada de um dólar. Em seguida, passou

para o Texas Driver. Sabia que se o apanhassem embriagado no trabalho

teriam motivo para demiti

-

lo, mas



não se incomodou muito. Embebedar

-

se era muito melhor do que ficar sobressaltado e sempre olhando em

torno, para descobrir um dos dois carros cinzentos da Segurança do

Aeroporto.



O vento soprava a seu favor e ele pôde ouvir





ouvir demais.



Vidros quebrado

s se estilhaçando, risos sufocados, uma ruidosa

pancada metálica.



Mais vidros quebrados.



Uma pausa.



Vozes baixas chegando até ele, trazidas pelo vento. Não conseguiu

distinguir palavras individuais, estavam distorcidas.



De repente, uma perfeita fuzilaria d

e baques. Sandy pestanejou ao

ouvir o ruído. Mais barulho de vidros quebrados na escuridão e um

tilintar de metal caindo no piso





cromados ou alguma coisa assim, supôs




ele. Desejou que Buddy houvesse trazido mais coca. A coca era uma coisa

que dava alegri

a e, tinha certeza, naquele momento estava bem precisado

disso, porque tudo indicava que algo bastante feio estava acontecendo, no

extremo mais distante do pátio de estacionamento.



Então, uma voz mais alta, urgente e ordenando, sem dúvida a de

Buddy:







Ago

ra aqui!



Um protesto abafado. Novamente Buddy:







Não liguem para isso! No painel de instrumentos, estou

mandando! Outro murmúrio.







Estou pouco me lixando!





era a voz de Buddy de novo. Por

algum motivo, aquilo provocou um coro de risadas.



Agora suando, a

despeito do frio cortante, Sandy fechou

repentinamente a vidraça de sua janela e ligou a TV. Bebeu um grande

gole, careteando ante o sabor forte da mistura de uísque e vinho barato.

Sandy não ligava para o sabor porque Texas Driver era o que todos eles

beb

iam quando não havia cerveja. O que podia fazer? Imaginar

-

se melhor

do que eles? Aquilo o deixaria frito, cedo ou tarde. Buddy detestava

medrosos.



Bebeu e começou a sentir

-

se um pouco melhor





pelo menos,

ligeiramente bêbado. Quando um carro da Segurança d

o Aeroporto

passou,

ele nem mesmo se encolheu. O tira ergueu a mão para ele. Sandy retribuiu,

com a maior naturalidade possível.



Uns quinze minutos depois que o carro foi para os fundos do pátio,

o Camaro azul reapareceu, agora na alameda de saída. Buddy s

e sentava

tranqüilo e relaxado atrás do volante, tendo uma garrafa de Driver

acomodada junto às virilhas, com apenas um quarto de bebida. Sorria e,

inquieto, Sandy reparou como tinha os olhos estranhos, injetados de

sangue. Aquilo não era ocasionado apenas



pelo vinho, como tampouco

não era somente da coca. Ninguém devia fazer pouco de Buddy. Era o que

Cunningham descobriria, sem grande demora.







Tudo acertado, meu chapa





disse Buddy.







Ótimo





disse Sandy, forçando um sorriso.






Sentia

-

se um tanto indisposto

. Não tinha maiores amizades por

Cunningham e nem era uma pessoa particularmente imaginativa, mas

podia imaginar perfeitamente como se sentiria Arnie, quando visse o que

acontecera a todo o seu cuidadoso trabalho de restauração naquele

Plymouth vermelho e

branco. De qualquer modo, aquilo era da conta de

Buddy, não sua.







Ótimo





repetiu.







Segure

-

se nas cuecas, cara





disse Richie e riu.







Claro





respondeu Sandy.



Era bom eles estarem indo embora. Depois daquilo, talvez não

ficasse mais tanto tempo rondando



o posto de gasolina Happy Gas, de

Vandenberg. Depois daquilo, o mais provável é que nem quisesse ir lá.

Aquele negócio era merda fedorenta. Um negócio pesado demais,

certamente. Talvez até fosse preferível faltar umas duas noites ao curso

noturno. Possive

lmente acabaria tendo que abandonar aquele serviço, mas

isso não chegava a ser tão ruim





afinal, era um trabalho infernalmente

monótono.



Buddy ainda olhava para ele, com aquele seu sorriso cruel e

drogado. Sandy tomou um longo gole de Texas Driver. Quase

se

engasgou. Por um momento, pensou em cuspi

-

lo no rosto erguido de

Buddy, e sua inquietação beirou o terror.







Se os tiras derem com a coisa





disse Buddy



, você não sabe de

nada, não viu nada, sacou? Como você falou, estava tirando uma soneca,

por volta



de nove e meia.







Certo, Buddy.







Todos usamos luvas. Não deixamos nenhuma impressão digital.







Certo.







Fique calmo, Sandy





disse Buddy suavemente.







Está legal.



O Camaro começou a rodar novamente. Sandy levantou a barreira,

usando o botão manual. O car

ro avançou para a via de saída do aeroporto,

a uma velocidade moderada.






Alguém latiu "Au! Au!" e o som chegou até Sandy, trazido pelo

vento.



Perturbado, ele se acomodou para assistir televisão.



Pouco antes do fluxo de viajantes que chegavam no horário de d

ez e

quarenta, vindos de Cleveland, ele despejou o resto do Driver pela janela,

no chão fora da cabine. Não o queria mais.





C

HRISTINE

S

ACRIFICADA



Transfusão, transfusão,



Oh, nunca

-

nunca

-

nunca mais vou rodar em alta velocidade,



Passe o sangue para mim, chap

a.







"Nervous" Norvus





Depois das aulas do dia seguinte, Arnie e Leigh foram juntos ao

aeroporto, pegar Christine. Planejavam uma ida a Pittsburgh para as

primeiras compras de Natal e ansiavam fazê

-

las juntos





de certo modo,

isso parecia incrivelmente adu

lto.



Arnie estava com excelente disposição de ânimo no ônibus, fazendo

pequenos comentários fantasiosos sobre seus companheiros de viagem.

Isto provocava o riso de Leigh, embora ela estivesse menstruada, um

período que geralmente a deixava deprimida e que

quase sempre era

doloroso. A senhora gorda, calçando sapatos de homem, era uma freira

degenerada, dizia ele. O cara com chapéu de vaqueiro era um punguista.

E assim por diante. Era espantosa a maneira como ele saíra da concha... a

maneira como havia

desabr

ochado.

Na verdade, esta era e única palavra

para aquilo. Ela sentia a agradável e incrível satisfação de um garimpeiro

que suspeitara da presença de ouro através de certos indícios





e acertara

em suas suposições. Leigh o amava e estava certa em amá

-

lo.



S

aíram juntos do ônibus no ponto final e, de mãos dadas,

caminharam pela estrada de acesso ao pátio de estacionamento.










Nada mau





disse Leigh. Era a primeira vez que vinha apanhar

Christine com ele. Vinte e cinco minutos, da escola até aqui.







Certo, nada



mau





concordou ele.





Assim, é mantida a paz na

família, o que realmente importa. Posso garantir, naquela noite em que

mamãe chegou em casa e viu Christine na entrada para carros, ficou

completamente fora de si.



Leigh riu e o vento jogou seu cabelo para

trás. A temperatura ficara

mais moderada, após a friagem da noite anterior, mas ainda assim era fria.

Ela estava contente. Sem uma certa friagem no ar, não parecia haver

ambiente para compras natalinas. Ainda pior: as decorações em

Pittsburgh estariam inco

mpletas. De qualquer modo, isso não era ruim,

mas bom. E, de repente, ela ficou feliz com tudo, em especial por estar

viva. E amando.



Leigh havia refletido nisso, na maneira como o amava. Já tivera

"paixonites" antes e, certa vez, em Massachusetts, imagina

ra

-

se

verdadeiramente apaixonada, mas agora, com Arnie, não havia dúvidas.

Ele a perturbava algumas vezes





aquele interesse pelo carro parecia

quase obsessivo



, mas até mesmo uma inquietação ocasional que ela

experimentava tinha certo papel em seus senti

mentos, que eram mais

intensos do que tudo quanto já conhecera antes. Evidentemente, admitia

para si mesma que parte disso era egoísmo





em apenas semanas,

começara a estruturá

-

lo...

a completá

-

lo.



Cortaram atalhos por entre os carros, encaminhando

-

se para



a zona

do estacionamento mensal. Acima deles, um jato evoluía em sua

aproximação final, o trovejar dos motores despejando

-

se em grandes

ondas agudas de som. Arnie dizia algo, mas o barulho do avião sufocou

sua voz, logo após as palavras iniciais





qualque

r coisa sobre o

ajantarado do Dia de Ação de Graças





e Leigh se virou para fitá

-

lo,

secretamente divertida por sua boca que continuava a mover

-

se,

silenciosamente.



Então, de súbito, a boca de Arnie parou de mover

-

se. Ele também

parou de caminhar. Os olhos



se dilataram... e pareceram explodir. A boca

começou a

torcer

-

se

e a mão que segurava a dela de repente se contraiu

impiedosamente, esmagando

-

lhe dolorosamente os ossos dos dedos.







Arnie...






O ruído do jato diminuía, mas ele parecia não a ter ouvido. Os

p

unhos se crisparam com mais força. A boca se fechara e agora formava

uma horrenda careta de surpresa e terror. Leigh pensou:

Ele está tendo um

ataque do coração... um infarto... alguma coisa!







O que há de errado, Arnie?





gritou ela. E ele:







Ooowwwhoww,

como dói!



Por um insuportável momento, a pressão na mão que, até bem

pouco, ele segurara tão de leve e tão carinhosamente, intensificou

-

se de tal

maneira que os ossos poderiam estilhaçar

-

se e quebrar

-

se. A cor do rosto

dele desaparecera e sua pele adquirir

a a cor acinzentada de uma lousa

sepulcral.



Ele emitiu apenas uma palavra





"Christine!"





e, de repente,

soltou a mão de Leigh. Correu para diante, batendo com a perna no pára

-

choque de um Cadillac, desequilibrando

-

se, quase caindo, equilibrando

-

se

e reco

meçando a correr.



Por fim, Leigh percebeu que era algo relacionado ao carro





o carro,

o carro, sempre o maldito carro





e em seu peito surgiu uma fúria

amarga, total e desesperada. Pela primeira vez, perguntou

-

se se seria

possível amá

-

lo, se Arnie o permi

tiria.



Sua fúria terminou no instante em que olhou realmente... e viu.



Arnie correu para o que restava de seu carro, com os braços e as

mãos para cima, parando tão de repente diante do Plymouth que o gesto

pareceu uma aterrorizada forma de defesa: a clássi

ca pose cinematográfica

da vítima ao ser atropelada, um instante antes da colisão fatal.



Ele ficou assim por um momento, como se fosse parar o carro ou o

mundo inteiro. Então baixou os braços. Seu pomo

-

de

-

adão subiu e desceu

duas vezes, dando a impressão d

e que parecia forçar

-

se a engolir algo





um gemido ou um grito





para em seguida a garganta se endurecer, cada

músculo salientando

-

se, cada veia ressaltada, os tendões surgindo em

perfeito relevo. Era a garganta de um homem tentando erguer um piano.



Leigh

caminhou lentamente para ele. Sua mão ainda latejava, no dia

seguinte estaria inchada e praticamente inútil, mas no momento ela a

esquecera. Seu coração estendeu

-

se até ele e pareceu encontrá

-

lo. Leigh

experimentou e partilhou a angústia que ele sentia





o

u foi o que lhe

pareceu ter feito. Só mais tarde compreendeu o quanto Arnie a relegara




aquele dia, quanto sofrimento ele decidira ter para si apenas, e quanto de

seu ódio conseguiu ocultar.







Quem foi que fez isto. Arnie?





exclamou, em voz sentida e

sofre

ndo com ele.



Não, ela detestava aquele carro, mas ao vê

-

lo reduzido àquilo

compreendeu perfeitamente o que Arnie devia estar sentido e não odiou

mais o Plymouth





ou, pelo menos, assim julgou no momento.



Arnie não respondeu. Ficou olhando para Christine, c

om os olhos

ardentes, a cabeça ligeiramente abaixada.



O pára

-

brisa havia sido estilhaçado em dois lugares; punhados do

vidro fragmentado polvilhavam o estofamento dilacerado, como falsos

diamantes. Metade do pára

-

choque dianteiro tinha sido arrancada e ago

ra

pendia para o pavimento, perto de um emaranhado de fios negros, como

tentáculos de polvo.



Três das quatro janelas laterais também tinham sido quebradas.

Haviam furado a lataria em ambos os lados do carro, na altura da cintura,

formando linhas ziguezague

antes. Como se tivessem usado algum

instrumento pesado e perfurante





como a extremidade aguda de uma

alavanca para pneus. A porta do lado do passageiro estava escancarada e

Leigh viu que todos os vidros do painel de instrumentos haviam sido

quebrados. Tuf

os e rolos do recheio dos assentos espalhavam

-

se por toda

parte. A agulha do velocímetro jazia no piso, sobre o tapete, abaixo do

volante.



Arnie caminhou vagarosamente em torno do carro, observando

tudo aquilo. Leigh falou com ele duas vezes, mas não houve



resposta.

Agora, a cor plúmbea do rosto dele era interrompida por duas confusas e

ardentes manchas vermelhas nas faces. Arnie recolheu do chão a forma

tentacular que ali jazera, e Leigh percebeu que era o bujão do

distribuidor





seu pai lhe explicara isso



certa vez, quando estivera

mexendo em seu carro.



Arnie o contemplou por um instante, como quem examinaria algum

exótico espécime zoológico, para em seguida atirá

-

lo ao chão. O vidro

quebrado rangia sob os sapatos dos dois. Leigh tornou a falar com ele.



o ouvindo resposta, além de sentir uma pena terrível dele, começou

também a ficar com medo. Mais tarde, disse a Dennis Guilder que




parecia





pelo menos naqueles momentos





perfeitamente possível

Arnie ter perdido o juízo.



Ele chutou uma peça cromada para f

ora de seu caminho. A peça foi

bater no muro anticiclone, nos fundos do pátio de estacionamento, com

um leve som tilintante. As lanternas traseiras haviam sido quebradas,

mais gemas falsas, rubis desta vez, polvilhando o pavimento e não os

assentos do carr

o.







Arnie...





tentou ela, mais uma vez.



Ele parou. Olhava pelo buraco feito na vidraça do motorista. Um

horrível som rouco partiu de seu peito, um som selvagem. Olhando por

sobre o ombro dele, Leigh viu o que havia e, de repente, sentiu uma louca

necessi

dade de rir, de chorar e desmaiar, tudo ao mesmo tempo. Sobre o

painel de instrumentos... ela não percebera, de início. Em meio à

destruição geral, não percebera o que havia no painel. E se perguntou,

com o vômito subindo de repente em sua garganta, quem p

oderia ser tão

baixo, tão absolutamente ignóbil para fazer tal coisa, para...







Os bostas!





exclamou Arnie, e a voz não parecia a dele.



Quase gritara, com uma voz aguda e estridente, cheia de fúria. Leigh

se virou e vomitou, apoiando

-

se às cegas no carro

mais próximo de

Christine, vendo diante dos olhos pequeninos pontos brancos, que se

expandiam como arroz cozido. De maneira vaga, pensou na feira do

condado





a cada ano, faziam içar um carro imprestável para uma

plataforma, deixavam uma marreta ao lado e

cada um podia dar três

marretadas por 25 centavos. A idéia era acabar com o carro, mas não

fazer... fazer...







Seus bostas

malditos!





bradou Arnie.





Vou pegar vocês! Vou

pegar vocês, nem que seja a última coisa que faça! Nem que seja a

última

merda de co

isa que eu faça!



Leigh vomitou novamente e, por um terrível momento, chegou a

desejar nunca ter conhecido Arnie Cunningham.








A

RNIE E

R

EGINA



Quer dar uma volta



Em meu Buick 59?



Eu perguntei, quer dar uma volta



Em meu Buick 59?



Ele tem dois carburadores



E um



supercompressor de quebra.







The Medallions





Naquela noite, ele chegou em casa faltando quinze para meia

-

noite.

As roupas que estivera usando para a projetada viagem de compras em

Pittsburgh estavam manchadas de graxa e de suor. As mãos pareciam

ainda mai

s sujas e havia um feio corte ziguezagueante no dorso da

esquerda, como uma marca. O rosto tinha uma aparência abatida e

atordoada. Também estava com olheiras.



Sentada à mesa, sua mãe tinha um jogo de paciência disposto diante

dela. Estivera esperando que

Arnie chegasse e, ao mesmo tempo, temendo

aquele momento. A jovem





que dera a Regina a impressão de ser uma

boa moça, embora talvez não suficientemente boa para seu filho





parecia

ter chorado.



Alarmada, Regina desligara o mais depressa possível e ligara

para a

Garagem de Darnell. Leigh lhe contara que Arnie telefonara, chamando

um caminhão

-

reboque para lá e que partira nele, com o motorista.

Colocara

-

a em um táxi, sem ouvir seus protestos. O telefone havia tocado

duas vezes e então uma voz sibilante, desa

gradável, respondera.







Aqui é da Darnell's.



Regina desligara, pensando que seria um erro falar com Arnie

estando ele lá





e tudo indicava que ele e Mike já haviam cometido erros

suficientes, envolvendo Arnie e seu carro. Seria melhor esperar até que ele

v

oltasse para casa. Diria o que fosse preciso, mas frente a frente.



Foi o que disse agora.







Eu sinto muito, Arnie.






Teria sido melhor se Mike também estivesse ali. No entanto, ele

viajara para Kansas City, onde haveria um simpósio sobre o Mercado e

Início d

o Livre Empreendimento na Idade Média. Só chegaria no domingo,

a menos que o atual incidente o trouxesse mais cedo para casa. Regina

pensou que isso seria possível. Percebia





não sem algum

arrependimento





que talvez estivesse apenas despertando para a to

tal

gravidade daquela situação.







Sente muito





ecoou Arnie, em voz apática, inexpressiva.







Sim. Eu, isto é,

nós...



Regina não pôde continuar. Havia algo terrível, na imobilidade da

expressão dele. Os olhos estavam parados. Só conseguiu fitá

-

lo e sacudir

a

cabeça, com os olhos ardendo, o gosto odioso de lágrimas no nariz e na

garganta. Regina detestava chorar. Possuindo vontade forte, uma de duas

filhas de uma família católica composta de um pai severo que trabalhava

em construções, a mãe exaurida e sete i

rmãos, firmemente decidida a

cursar uma universidade, embora o pai acreditasse que lá as moças só

aprendiam como deixar de ser virgens e abandonar a igreja, ela tivera sua

razoável porção de lágrimas





e ainda mais. E, se a própria família, às

vezes, a jul

gava dura, era por não compreender que, quando se atravessa

o inferno, sai

-

se cozido pelo fogo. E que, se alguém precisa queimar

-

se

para abrir o próprio caminho, esse alguém sempre fará o que quer.







Sabe de alguma coisa?





perguntou Arnie.



Ela sacudiu a c

abeça, ainda sentindo a ardência quente e

desagradável das lágrimas sob as pálpebras.







Você me dá vontade de rir e eu riria mesmo, se não estivesse tão

cansado. Poderia ter estado lá, destruindo os pneus e esmagando tudo,

com os sujeitos que fizeram aquil

o. Talvez agora estivesse ainda mais

contente do que eles.







Arnie, não é justo!







É justo!





rugiu ele, os olhos repentinamente queimando com

um fogo terrível. Pela primeira vez na vida, Regina teve medo do filho.





Foi sua a idéia de tirar o carro da ent

rada da casa! Foi sua a idéia de levá

-

lo para o pátio de estacionamento do aeroporto! Quem acha você que

merece censuras aqui? Sim, quem você acha? Acredita que aquilo

aconteceria se o carro estivesse aqui? Hein?






Deu um passo para ela, os punhos crispados

ao longo do corpo.

Regina procurou esforçar

-

se para não recuar.







Será que não podemos conversar a respeito, Arnie?





perguntou.





Como dois seres humanos racionais?







Um deles jogou um punhado de merda no painel de meu carro





replicou Arnie friamente.







O que há nisso de racional, mamãe?



Ela acreditara, sinceramente, que conseguira controlar as lágrimas.

No entanto, aquela notícia





a notícia de uma fúria tão estúpida e

irracional





trouxe

-

as de volta. Então chorou. Chorou de angústia pelo

que seu filho t

inha visto. Baixando a cabeça, chorou de perplexidade, de

dor e de medo.



Em toda a sua vida como mãe, Regina se sentira secretamente

superior às que tinham filhos mais velhos do que Arnie. Quando ele

estava com um ano, aquelas outras mães lhe tinham dito,

sacudindo

lugubremente a cabeça, que esperasse até ele fazer cinco





era quando

começavam os problemas, quando eles tinham idade suficiente para dizer

"merda" diante dos avós e brincar com fósforos, ao se verem sozinhos.

Arnold, no entanto, um menino bom c

omo ouro quando tinha um ano,

assim permanecera aos cinco. Então, as outras mães reviravam os olhos e

diziam

-

lhe que esperasse até ele ter dez. Em seguida, até ele fazer quinze,

que era quando a situação perigava realmente, com aquela história de

drogas, c

oncertos de

rock

e garotas que tudo permitiam, além de





que

Deus nos perdoe





roubarem calotas de automóveis e pegarem aquelas...

bem, doenças.



Durante todo esse tempo, ela continuava sorrindo para si mesma,

porque tudo funcionava segundo o programado, tu

do marchava da

maneira como desejaria ter acontecido em sua própria infância. Seu filho

tinha pais amorosos, que o apoiavam e se preocupavam com ele, pais que

lhe davam tudo (dentro do razoável), que o enviariam com prazer para a

universidade que o filho e

scolhesse (desde que fosse adequada), desta

forma encerrando

-

se satisfatoriamente o jogo/negócio/vocação da

paternidade. Se alguém lhe sugerisse que Arnie tinha poucos amigos e

freqüentemente era objeto de menosprezo pelos outros, Regina apontaria

orgulhos

amente que

ela

freqüentara uma escola paroquial em uma

vizinhança rude, onde as calcinhas de algodão das meninas às vezes eram




rasgadas de brincadeira e depois queimadas com o fogo de isqueiros

Zippo, nos quais havia a figura gravada de Jesus crucificado.

E se

sugerissem que suas atitudes no tocante à criação do filho diferiam das do

pai odiado, apenas em termos de finalidades materiais, ela ficaria furiosa e

apontava para seu excelente filho, como derradeira justificativa.



No entanto, o filho excelente ago

ra estava diante dela, pálido,

exausto e sujo de graxa até os cotovelos, parecendo apresentar a mesma

espécie de raiva que havia sido a marca registrada do avô, até mesmo se

parecendo

com ele. Tudo dava a impressão de haver desmoronado.







Falaremos amanhã

cedo sobre o que pode ser feito sobre isso,

Arnie





disse ela, tentando recompor

-

se e conter as lágrimas.





Conversaremos de manhã.







Não, a menos que você levante bem cedo





respondeu ele,

parecendo perder o interesse.







Vou subir, dormir umas quatro hora

s e depois voltar à garagem.







Para quê?



Ele deixou escapar uma risada de louco e seus braços adejaram

abaixo dos tubos de luz fluorescente da cozinha, como se fosse voar.







O que você acha? Tenho um bocado de trabalho a fazer! Mais do

que poderia imaginar

.







Não... você tem aulas amanhã... Eu o proíbo, Arnie, está

absolutamente proi...



Ele se virou para fitá

-

la, estudou

-

a e Regina encolheu

-

se. Aquilo era

como algum horrendo pesadelo, que ia continuar para sempre.







Não faltarei às aulas





disse.





Vou leva

r um embrulho de

roupas limpas e até mesmo tomo uma ducha, para que meu cheiro não

incomode ninguém na sala. Então, quando as aulas terminarem, voltarei à

garagem. Há muito trabalho a fazer, mas eu o farei... Sei que posso...

mesmo comendo uma boa fatia de



minhas economias. Além disso, tenho

que prosseguir com o serviço que venho fazendo para Will.







Seus trabalhos de casa... seus estudos!







Oh, isso...





Arnie esboçou um sorriso frio, imóvel e estático

como uma peça de mecanismo de relógio.





Eles baixarão



de qualidade, é

lógico. Não se pode brincar com isso. Aliás, também não lhe prometo mais




uma nota média de noventa e três, mas posso chegar perto. Posso

conseguir um C. Talvez alguns B.







Não... Você precisa pensar na universidade!



Ele tornou a chegar per

to da mesa, mancando de novo, agora

acentuadamente. Plantou as mãos sobre a superfície, diante dela, depois

inclinando

-

se lentamente. Regina pensou:

Um estranho... meu filho é um

estranho para mim. Será realmente culpa minha? Será? Porque só quis o que fos

se

melhor para ele. Será possível? Oh, Deus, por favor, torne isto um pesadelo, faça

-

me acordar com o rosto molhado de lágrimas, por ter sido tão real!







Neste exato momento





disse ele com suavidade, os olhos fixos

nos dela



, as únicas coisas que me inte

ressam são Christine, Leigh e ficar

bem com Will Darnell, a fim de deixar novamente aquele carro como novo.

Não ligo uma merda para a universidade. E se você ficar insistindo, pulo

fora do colégio. Se nada mais der certo, acho que isto vai fazer você calar



a

boca de vez.







Você não pode





disse ela, sem afastar os olhos.





Precisa

compreender isto, Arnold. Talvez eu mereça sua... sua crueldade... mas

lutei contra esta sua tendência autodestrutiva com todas as forças.

Portanto, não me venha com essa de larga

r os estudos.







Pois é justamente o que vou fazer





respondeu ele.





Nem

brincando pense que não farei. Em fevereiro, completo dezoito anos e

poderei dirigir minha vida, se você não parar de se meter nisto, daqui por

diante. Acha que compreendeu?







Vá dorm

ir





disse ela, lacrimosa.





Vá dormir, você me parte o

coração.







É mesmo?





Ele riu, de maneira chocante.





Dói, não? Eu sei.



Ele se foi então, caminhando devagar, o corpo pendendo

ligeiramente para a esquerda, quando mancava. Pouco depois, Regina

ouvia

o ruído surdo e cansado dos sapatos dele nos degraus





um som

que também lhe recordava terrivelmente a infância, quando pensava

consigo mesma: O

bicho

-

papão uai dormir.



Ela teve novo acesso de lágrimas, levantou

-

se desajeitadamente e

saiu pela porta dos fu

ndos, a fim de chorar sozinha. Conseguiu controlar

-

se





breve conforto, mas melhor do que nada





e ergueu os olhos para a

lua em quarto crescente, que se quadruplicou através de suas lágrimas.




Tudo mudara e havia sido com a velocidade de um ciclone. O filh

o a

odiava; vira isso no rosto dele





não era uma malcriação. Não era uma

tempestade temporária, uma crise transitória da adolescência. Ele a

odiava,

e essa não era a maneira correta que se ajustava com seu bom menino, de

maneira alguma.



De maneira alguma.



Regina permaneceu na varanda e chorou até as lágrimas acabarem,

até os soluços se tornarem arquejos ocasionais. O frio envolveu

-

lhe os

tornozelos nus acima dos chinelos e a picou com vontade, através do

casaco caseiro. Foi para dentro e subiu ao andar de

cima. Parou ao lado da

porta do quarto de Arnie, indecisa, por quase um minuto, antes de entrar.



Arnie adormecera sobre a colcha. Ainda estava com as calças.

Parecia mais inconsciente do que adormecido, o rosto com uma aparência

terrivelmente envelhecida.

Um foco de luz, vindo do corredor e

penetrando no quarto acima de seu ombro, por um momento deu

-

lhe a

impressão de que o cabelo dele rareava, que a boca aberta no sono estava

desdentada. Um ligeiro guincho de horror manifestou

-

se através da mão

tapando a b

oca e ela se aproximou rapidamente do filho.



Sua sombra, que estivera sobre a cama, moveu

-

se com ela, e Regina

viu que era somente Arnie, a impressão de mais idade proveniente apenas

de uma ilusão de ótica, feita pela luz e por seu fatigado estado de

confu

são.



Olhou para o rádio

-

despertador e viu que fora marcado para

acordá

-

lo às 4:30 da manhã. Pensou em desligar o alarme, chegou mesmo

a estender o braço mas, finalmente, compreendeu que não podia fazer

aquilo.



Em vez disso, foi para seu quarto, sentou

-

se j

unto à mesinha do

telefone e pegou a caderneta de endereços. Segurou

-

a por um momento,

debatendo

-

se na dúvida. Se telefonasse para Mike, no meio da noite, ele

pensaria que...



Que algo terrível acontecera?



Regina deu uma risadinha sufocada. Bem, não acontec

era

mesmo?

Era claro que sim. E ainda estava acontecendo.



Discou o número do Ramada Inn, em Kansas City, onde seu marido

se hospedara, vagamente cônscia de que, pela primeira vez, desde que




deixara a suja e lúgubre casa de três andares em Rocksburg, trocan

do

-

a

pela universidade, vinte e sete anos antes, estava pedindo ajuda.





L

EIGH

F

AZ UMA

V

ISITA



Não quero causar confusão,



Mas posso comprar seu ônibus mágico?



Pouco importa quanto eu pague,



Vou nesse ônibus para junto do meu bem.



Eu o quero... Quero... Quero

...



(Tem que vendê

-

lo para mim...)







The Who





Ela se conduziu muito bem durante a maior parte da história,

sentada em uma das duas cadeiras para visitantes do quarto do hospital,

os joelhos firmemente unidos e os tornozelos cruzados, caprichosamente

vestid

a com uma suéter de lã em várias cores e uma saia marrom de brim.

Só no final é que começou a chorar e não conseguia encontrar um lenço.

Dennis Guilder estendeu

-

lhe a caixa de lenços de papel, que estava na

mesinha junto à cama.







Acalme

-

se, Leigh





disse

ele.







Eu não po

-

po

-

posso! Arnie não me procurou mais e... na escola

parece tão cansado... e você di

-

disse que ele não esteve aqui...







Ele virá, se precisar de mim





disse Dennis.







Vocês são tão cheios dessas bes

-

besteiras m

-

ma

-

ch

-

chis

-

tas!





soluçou ela

, e então pareceu comicamente admirada do que tinha dito.



As lágrimas haviam feito traços na pintura leve que usava. Ela e

Dennis entreolharam

-

se por um momento, depois riram. No entanto, foi

uma risada breve, nada de muito confortante.







Boca de motor o v

iu?





perguntou Dennis.







Quem?










Boca de motor. É como Lenny Barongg chama o Sr. Vickers. O

conselheiro para orientação.







Oh! Sim, acho que sim. Arnie foi chamado ao gabinete do

orientador anteontem, segunda

-

feira. Mas não comentou nada e não tive

corage

m de perguntar. Ele não se abre. Ficou tão estranho!



Dennis assentiu. Embora achando que Leigh não percebesse





estava mergulhada em seus próprios problemas e confusão



,

experimentava uma sensação de impotência e um terrível receio por Arnie.

A partir dos



relatos filtrados até seu quarto nos últimos dias, Arnie

parecia estar à beira de um colapso nervoso; o relato de Leigh era apenas o

mais recente e mais real. Dennis jamais desejaria estar tão

liquidado como

agora. Sem dúvida, poderia ligar para Vickers e



perguntar

-

lhe se havia

alguma coisa que pudesse fazer. Também podia ligar para Arnie... mas,

baseado nas palavras de Leigh, percebia que, agora, Arnie estava sempre

na escola, na garagem de Darnell ou dormindo. Seu pai abandonara uma

espécie de convenção

antecipadamente e havia voltado para casa. Lá,

houve outra briga, segundo Leigh lhe dissera. Embora Arnie nada lhe

houvesse dito, Leigh contou acreditar que ele estivesse a ponto de

abandonar a casa dos pais.



Dennis não queria falar com Arnie enquanto ele

estivesse na

Garagem de Darnell.







O que posso fazer?





perguntou ela.





O que você faria, se

estivesse em meu lugar?







Esperar





respondeu Dennis.





Não sei mais o que se pode

fazer.







Só que isso é o mais difícil





respondeu ela, em uma voz tão

baixa que



era quase inaudível. Suas mãos amassavam e desamassavam o

lenço de papel, esfrangalhando

-

o, pontihando sua saia marrom de

fragmentos.





Meus pais querem que eu pare de vê

-

lo... que o largue.

Eles receiam... que Repperton e aqueles outros rapazes façam mai

s alguma

coisa.







Parece muito certa de que foram Buddy e seus amigos, hein?







É claro. Todos têm certeza. O Sr. Cunningham chamou a polícia,

embora Arnie lhe pedisse para não fazer isso. Arnie falou que aceitaria as

coisas à sua maneira e isso deixou os d

ois amendrontados.






Também eu me amedronto. A polícia pegou Buddy Repperton e um

de seus amigos, que chamam de "Penetra"... sabe de quem estou falando?







Sei.







Pegaram ainda o rapaz que trabalha à noite no aeroporto, no

pátio de estacionamento. Parece que

se chama Galton...







Sandy. Sandy Galton.







Pensaram que ele também estivesse envolvido na coisa, que

talvez os tivesse deixado entrar.







Sim... Sandy anda com eles





disse Dennis



, mas não é tão

degenerado como os outros. Leigh, eu diria que... Bem, se A

rnie não

conversou com você, certamente alguém mais...







Claro. Primeiro foi a Sra. Cunningham, depois o pai dele. Acho

que um não sabia que o outro havia falado comigo. Eles estão...







Perturbados





sugeriu Dennis. Ela meneou a cabeça.







É mais do que ist

o. Os dois dão a impressão de terem sido...

agredidos ou coisa assim. Sinceramente, não consigo ter pena

dela,

parece

estar sempre querendo impor sua vontade, mas lamento pelo Sr.

Cunningham. Ele me pareceu tão... tão...





A voz dela se extinguiu,

depois t

ornou a ganhar volume.





Quando fui lá ontem de tarde, depois

das aulas, a Sra. Cunningham, ela me pediu para chamá

-

la de Regina, mas

não consigo...



Dennis sorriu.







Você consegue?





perguntou Leigh.







Bem, sim... mas tenho um bocado mais de prática. Leigh



sorriu,

pela primeira vez em sua visita.







Talvez

isso

fizesse diferença. De qualquer maneira, quando fui lá,

encontrei a Sra. Cunningham, mas seu marido ainda estava na escola... na

Universidade, quero dizer.







Entendo.







Ela tirou a semana de folga... o



que sobrou da semana. Comentou

que não se sentia em condições de retornar, inclusive nos três dias antes

da Ação de Graças.










Como ela estava?







Acabada





disse Leigh, e estendeu a mão para outro lenço de

papel, cujas pontas começou a esfarrapar.





Pareci

a mais velha dez anos,

comparando com a vez em que a conheci, cerca de um mês atrás.







E ele? Michael?







Mais velho, porém mais seguro





disse Leigh, hesitante.





Como se isto tudo, de algum modo... de algum modo o pusesse em

movimento.



Dennis ficou calado

. Conhecera Michael Cunningham durante treze

anos e nunca o vira em movimento. Era Regina que sempre tomava a

frente de tudo, com Michael trotando atrás, preparando os drinques nas

reuniões (em sua maioria, reuniões de membros da faculdade) oferecidas

pelo

s Cunningham. Ele tocava sua flauta, parecia melancólico... mas nem

com um esforço de imaginação Dennis poderia dizer que já o vira "em

movimento".



O

triunfo final,

dissera certa vez o pai de Dennis, junto à janela,

vendo Regina levar Arnie pela mão, camin

hando pela estrada da casa dos

Guilder ao encontro de Michael, que os esperava atrás do volante de seu

carro. Naquela época, Arnie e Dennis deviam andar pelos sete anos. O

maternalismo supremo. Eu me pergunto se ela não fará o pobre idiota esperar no

carro

, quando Arnie se casar. Ou talvez ela possa...



A mãe de Dennis lhe franzira o cenho e o fizera calar

-

se, indicando o

filho com os olhos, em um gesto de crianças

-

têm

-

orelhas

-

grandes. Dennis

nunca esquecera o gesto e nem o que seu pai comentara. Aos sete an

os,

não entendera bem aquilo, mas, mesmo nessa idade, sabia perfeitamente o

que significava "pobre idiota". E, mesmo aos sete, entendera vagamente

por que seu pai achava que Michael Cunningham fosse um. Sentira pena

de Michael... um sentimento que persisti

a, sempre e sempre, até o

presente.







Ele chegou quando ela terminava a

sua

história





prosseguiu

Leigh.





Convidaram

-

me a ficar para jantar, Arnie estava comendo na

Darnell's, mas eu disse que precisava voltar para casa. Assim, o Sr.

Cunningham me oferece

u uma carona e fiquei sabendo de sua versão, a

caminho de casa.







Os dois têm pontos de vista diferentes?










Não exatamente, mas... foi o Sr. Cunningham que chamou a

polícia, por exemplo. Arnie não queria, e a Sra. Cunningham... Regina não

se animava a fazê

-

lo.



Dennis perguntou cauteloso:







Ele está, realmente, tentando reconstruir o carro?







Está





sussurrou ela, para então soltar, agudamente:





Só que

isso não é tudo! Arnie está profundamente envolvido com aquele tal

Darnell, eu sei que está! Ontem, durant

e o período vago, ele me contou

que ia colocar uma traseira nova no carro esta tarde e esta noite. Então,

comentei que devia ser tremendamente caro, mas ele respondeu que não

me preocupasse, que seu crédito era bom e...







Acalme

-

se.



Ela estava chorando nov

amente.







Que seu crédito era bom, porque ele e alguém chamado Jimmy

Sykes iam fazer alguns favores para Will, na sexta e no sábado. Foi o que

ele disse. E... bem, não acredito que esses favores para aquele miserável

sejam legais!







O que ele disse à políc

ia, quando o interrogaram sobre Christine?







Falou que a encontrou... daquela maneira. Perguntaram se tinha

alguma idéia de quem fizera aquilo e Arnie disse que não. Perguntaram

-

lhe se não era verdade que tivera uma briga com Buddy Repperton, que

Repperton



o ameaçara com uma faca e fora expulso por causa disso. Arnie

contou que Repperton lhe arrancara da mão sua sacola do almoço e a

pisoteara, mas que então o Sr. Casey aparecera, acabando com a briga.

Perguntaram

-

lhe se Repperton não tinha dito que ele paga

ria por aquilo.

Arnie respondeu que talvez tivesse falado algo semelhante, mas que era

conversa fiada.



Dennis estava calado, olhando para o carregado céu de novembro

através de sua janela, considerando o que ouvia. Aquilo tudo era sinistro.

Se Leigh contav

a exatamente o que havia sido a entrevista com a polícia,

Arnie não contara uma só mentira... mas manejara os fatos, de maneira a

fazer parecer uma briguinha trivial, aquele incidente na área de fumar.



Sim, aquilo tudo era muito sinistro.










Imagina o que e

le poderia estar fazendo para esse Darnell?





perguntou Leigh.







Não





respondeu Dennis.



No entanto, tinha algumas suspeitas. Um pequeno gravador interno

se ligou e ele ouviu seu pai dizendo:

Ouvi algumas coisas... carros roubados...

cigarros e bebidas...

o contrabando é como um frenesi... ele vem tendo sorte por

muito tempo, Dennis.



Ele olhou para o rosto de Leigh, muito pálido, com a pintura

manchada pelas lágrimas. Ela ligava

-

se a Arnie o mais que podia. Talvez

estivesse aprendendo algo sobre ser forte,

algo que, com sua aparência,

não teria aprendido de outra forma, por mais dez anos. Entretanto, isso

não facilitava as coisas, não as endireitava necessariamente. De súbito,

ocorreu

-

lhe quase ao acaso que percebera a melhora da pele de Arnie mais

de um mês



antes de ele se ligar a Leigh... mas depois de ligar

-

se a

Christine.







Vou falar com ele





prometeu.







Está bem





disse ela. Levantou

-

se.





Eu... eu não quero que

tudo seja como era antes, Dennis. Sei que nunca mais será. No entanto,

ainda o amo e... Bem,



eu só queria que lhe dissesse isto.







Certo, eu direi.



Ficaram ambos constrangidos e nenhum dos dois conseguiu dizer

qualquer coisa, por um longo momento. Dennis pensava que devia ser

aquele o momento, em uma canção, em que surge o Melhor Amigo. Não

obsta

nte, uma parte sua, desprezível, baixa (e também lúbrica) era

contrária a isso. Totalmente. Continuava ainda sentindo uma fortíssima

atração por ela, mais do que sentira por qualquer outra garota, em muito

tempo. Talvez em toda a sua vida. Que Arnie levass

e bebida e

contrabando para Burlington, que se fodesse com seu carro! Nesse meio

tempo, ele e Leigh travariam um conhecimento mais íntimo. Um pouco de

ajuda e conforto. Todos sabem como é isso.



Teve a impressão de que levaria a melhor, precisamente naquele



momento de constrangimento, após ela declarar que amava Arnie; Leigh

estava vulnerável. Talvez estivesse aprendendo a ser forte, mas ela não

aprenderia isso em uma escola à qual se vai voluntariamente. Ele poderia

dizer alguma coisa





a coisa certa, talve

z apenas:

chegue aqui





e ela se




aproximaria, sentaria na beira da cama, eles conversariam mais um pouco,

talvez falassem sobre coisas mais agradáveis, possivelmente ele a beijaria.

Leigh tinha uma boca adorável e cheia, sensual, feita para beijar e ser

be

ijada. Uma vez para consolo. Duas por amizade. A terceira englobaria

tudo. Sim, um certo instinto, que só então lhe parecia seguro, dizia que

isso poderia ser feito.



Entretanto, Dennis não disse nenhuma das coisas que poderiam dar

nascimento ao que imagina

va, nem tampouco Leigh. Arnie estava entre

eles e, quase seguramente, estaria sempre. Arnie e sua dama. Se a coisa

não fosse tão ridiculamente chocante, ele teria achado graça.







Quando é que vão deixar você sair?





perguntou ela.







Sem que o público desco

nfie?





perguntou ele, começando a rir.

Após um momento, ela começou a rir também.







Algo mais ou menos assim





disse, tornando a rir.





Oh, sinto

muito





acrescentou.







Não se desculpe





disse Dennis.





Os outros riram de mim a

vida inteira. Já fiquei aco

stumado. Disseram que vão me prender aqui até

janeiro, mas vou enganá

-

los. Voltarei para casa no Natal. Tenho me

rebolado um bocado, na câmara de tortura.







Câmara de tortura?







A fisioterapia. Minhas costas já estão outra coisa. Os outros ossos

se emendam



ativamente... às vezes a coceira é insuportável. Tenho

devorado uma porção de botões de rosa. O Dr. Arroway diz que isso não

passa de conversa fiada, mas o treinador Puffer jura que fazem efeito e

confere as sobras, cada vez que me visita.







E ele vem sem

pre? O treinador?







Oh, sim, ele vem. Está quase me fazendo acreditar nessa história

de que botões de rosa fazem os ossos se soldarem mais depressa.





Dennis fez uma pausa.





Naturalmente, vou parar de jogar futebol.

Ficarei andando de muletas durante algu

m tempo e depois, com sorte,

posso me candidatar a uma bengala. O velho e jovial Dr. Arroway me

disse que vou mancar por uns dois anos. Talvez fique mancando para

sempre.







Sinto muito





disse ela, em voz baixa.





É pena que isso fosse

acontecer logo com u

m cara tão legal como você, Dennis, mas em parte




falo por egoísmo. Gostaria de saber se o resto de tudo isto, essa história

horrível que aconteceu com Arnie, aconteceria realmente se você estivesse

por perto.







Muito bem





disse Dennis, rolando os olhos dr

amaticamente.





Jogue a culpa em mim! Ela, entretanto, não sorriu.







Sabe que começo a duvidar da sanidade de Arnie? Isso é uma

coisa que não cheguei a comentar com meus pais nem com os dele. No

entanto, acho que a mãe dele... que ela talvez... Bem, não se

i o que Arnie

disse a ela naquela noite, depois que encontramos o carro destroçado,

mas... tenho a impressão de que os dois se engalfinharam.



Dennis assentiu.







De qualquer modo, tudo parece tão... louco! Os pais dele

quiseram comprar um bom carro usado pa

ra ele, para substituir Christine,

mas Arnie recusou. Quando me levava para casa, o Sr. Cunningham

contou que se prontificou a comprar um carro novo para Arnie... usaria

algumas ações que guarda desde 1955. Arnie recusou novamente, dizendo

que não poderia

aceitar um presente desses. O Sr. Cunningham

respondeu que compreendia, que o carro não tinha que ser um presente,

que Arnie lhe pagaria aos poucos, podia até incluir juros, se ele fizesse

questão... Você entende aonde quero chegar, Dennis?







Entendo





res

pondeu Dennis.





A questão é que não pode ser

outro carro. Tem que ser Christine.







Para mim, isso parece obsessivo. Arnie descobre uma coisa e se

fixa nela. Não é o que se chama uma obsessão? Tenho medo e, às vezes,

sinto ódio... mas não é dele que tenho

medo. Não é a ele que odeio. É tudo

por causa daquele ter... não, daquela

merda

de carro. A maldita Christine.



As faces de Leigh ficaram vermelhas. Ela apertou os olhos. Os

cantos de sua boca penderam. De repente, seu rosto deixara de ser bonito,

nem mesmo



era atraente. A expressão era cruel, modificando

-

se para algo

horrível, mas também magoado e compulsivo. Pela primeira vez, Dennis

percebeu por que davam a isso o nome de monstro





o monstro de olhos

verdes.







Sabe o que eu gostaria que acontecesse?





per

guntou Leigh.





Era que alguém, numa noite dessas, levasse sua preciosa e maldita

Christine por engano, para os ferros

-

velhos de Philly Plains.





Os olhos




dela cintilaram maldosamente.





E, no dia seguinte, que aquele guindaste

com o enorme imã redondo rec

olhesse o carro e o colocasse no compressor.

Depois, que alguém apertasse o botão e que então só sobrasse um cubinho

de metal amassado, medindo dez centímetros de lado. Então, tudo isso

teria terminado, não acha?



Dennis não respondeu e, após um momento, qu

ase pôde ver o

monstro girar, envolver

-

se em sua cauda escamosa e desaparecer do rosto

dela. Os ombros de Leigh encurvaram

-

se.







Bem, imagino que minhas palavras sejam horríveis, não? Seria

como dizer que desejaria que aqueles caras terminassem o trabalho.







Sei como você se sente, Leigh.







Sabe mesmo?





desafiou ela.



Dennis evocou a expressão de Arnie, quando esmurrara o painel do

carro. A espécie de luz maníaca que lhe surgia nos olhos, quando estava

perto de Christine. Pensou na vez em que sentara ao vol

ante, na garagem

de LeBay e no tipo de visão que tivera.



Por último, pensou em seu sonho: faróis apontando para ele, em

meio ao agudo grito feminino de pneus queimando.







Sei





respondeu.





Penso que sei.



Os dois entreolharam

-

se, no quarto do hospital.





D

I

A DE

A

ÇÃO DE

G

RAÇAS



Duas

-

três horas passaram por nós,



A altitude caiu para 505,



Havia menos consumo de combustível,



Vamos para casa, antes que acabe a gasolina.



Você não pode me alcançar...



Não, meu bem, não pode me alcançar...



Porque se chegar muito perto

,



Eu me transformo em uma briiiisa fresca.










Chuck Berry





No hospital, o almoço do Dia de Ação de Graças foi servido em

turnos, das onze da manhã até uma da tarde. Dennis recebeu o seu

faltando quinze para o meio

-

dia: três cautelosas fatias de carne branca



de

peito de peru, três cautelosas colheradas de molho de ferrugem, um bom

punhado de purê de batata, no formato e tamanho exato de uma bola de

futebol (faltando apenas as suturas vermelhas, pensou ele, com sarcástico

humor), uma pequena concha de abóbora

gelada, em arrogante e

fluorescente alaranjado, e um pequeno recipiente plástico contendo geléia

de uva

-

do

-

monte. Havia ainda sorvete, como sobremesa. Um pequeno

cartão azul repousava no canto de sua bandeja.



A esta altura, mais enfronhado no sistema hospi

talar





após ser

tratado da primeira erupção de úlceras de decúbito no traseiro, Dennis

surpreendera

-

se mais entendido nos sistemas do hospital do que gostaria

de estar



, ele perguntou, à atendente de uniforme listrado que veio levar

sua bandeja, o que os



cartões amarelo e vermelho reservavam para o

ajantarado de Ação de Graças. Ficou sabendo que os cartões amarelos

indicavam duas fatias de peru, nenhum molho, batatas, sem abóbora e

geléia artificial como sobremesa. Os cartões vermelhos indicavam uma

fatia



de carne branca, purê de batatas. Pouca comida, na maioria dos casos.



Para Dennis, tudo aquilo foi bastante deprimente. Era fácil imaginar

sua mãe trazendo um enorme e tostado peru para a sala da mesa de

refeições, por volta de quatro da tarde, seu pai af

iando a faca de trinchar,

sua irmã, corada pela pompa e excitamento, com uma fita vermelha de

veludo no cabelo, enchendo um bom copo de vinho tinto para cada um

deles. Era também fácil imaginar os deliciosos aromas e a alegria, quando

se sentavam para come

r.



Fácil de imaginar... mas provavelmente um erro.



De fato, aquele era o Dia da Ação de Graças mais deprimente de sua

vida. Dennis evadiu

-

se para uma desacostumada sesta no início da tarde

(nada de fisioterapia, por ser feriado) e teve um sonho perturbador

, no

qual várias atendentes de uniforme listrado percorriam a enfermaria de

Tratamento Intensivo aplicando decalques da figura de um peru nos

aparelhos de manutenção da vida e nos injetares intravenosos.






Sua mãe, o pai e a irmã tinham ido visitá

-

lo pela ma

nhã, durante

uma hora. Era a primeira vez que percebia em Ellie certa ansiedade para ir

embora dali. Tinham sido convidados pelos Callison para um

brunch



*



ligeiro de Ação de Graças; Lou Callison, um dos três filhos do casal, tinha

quatorze anos e era "leg

al". O irmão hospitalizado se tomara tedioso. Não

lhe haviam descoberto uma forma rara e trágica de câncer espalhando

-

se

pelos ossos. Ele tampouco ficaria paralítico para o resto da vida. Em

Dennis, nada havia de comparável ao filme da semana na tevê.



Tele

fonaram para ele da residência dos Callison, por volta de meio

-

dia e meia. Seu pai lhe parecera levemente embriagado





Dennis supôs

que estaria no segundo Bloody Mary e talvez recebendo alguns olhares

desaprovadores de mamãe. Pessoalmente, ele terminara po

uco antes seu

ajantarado de Ação de Graças





cartão azul, dieteticamente aprovado, o

único de semelhante data que já conseguira comer em quinze minutos





e

saiu

-

se bem, simulando alegria, não querendo estragar

-

lhes os bons

momentos. Ellie falou rapidamente



ao telefone, dando risadinhas e com

voz um tanto estridente. Talvez fosse a conversa com Ellie que o fatigara o

suficiente para precisar de uma soneca.



Dennis adormecera (e tivera aquele sonho perturbador) por volta de

duas da tarde. O hospital estava sin

gularmente quieto aquele dia, apenas

com o pessoal estritamente necessário. A costumeira tagarelice das TVs e

rádios transistorizados dos outros quartos emudecera. O uniforme

listrado que recolhera sua bandeja sorrira amplamente, dizendo esperar

que ele ti

vesse apreciado seu "ajantarado especial". Dennis garantiu

-

lhe

que o apreciara. Afinal de contas, era Dia de Ação de Graças também para

ela.



Então, aconteceu o sonho, um sonho que depois se interrompeu e foi

substituído por um sono profundo. Quando acordou

, eram quase cinco da

tarde e Arnie Cunningham estava sentado na mesma cadeira de plástico

duro que sua namorada ocupara ainda na véspera.



Não foi muita surpresa deparar com ele ali; Dennis imaginou,

simplesmente, que se tratava de um novo sonho.







Olá, Ar

nie





disse.





Como vão as coisas?



                                        

             



*



Mistura de

breakfast e lunch





ajanta

rado dominical. (N.T.).










Tudo legal





respondeu Arnie



, mas você parece ainda estar

dormindo, Dennis. Que tal uma pausa para o almoço? Isso o despertará.



Havia um saco de papel pardo no colo dele e a mente sonolenta de

Dennis pensou:

Afinal, e

le recuperou seu saco do almoço. Talvez Repperton não

o tivesse pisoteado tanto quanto pensei.

Tentou sentar

-

se na cama, porém as

costas doeram e usou o painel de controle, para deixá

-

la quase em posição

de sentar. O motor gemeu.







Céus, é você mesmo!







Es

perava Chidrah, o Monstro de Três Cabeças?





respondeu

Arnie amistosamente.







Eu estava dormindo. Devo ter pensado que ainda estava.





Dennis friccionou a testa com força, como para livrar

-

se do sono.





Feliz

Dia de Ação de Graças, Arnie.







Obrigado





diss

e Arnie.





O mesmo para você. Eles lhe deram

peru e tudo o mais para comer?



Dennis riu.







Ganhei algo parecido àquelas comidinhas de brinquedo, que

vieram com o Bar Horas Felizes, de Ellie, quando ela estava com uns sete

anos. Lembra

-

se?



Arnie colocou as m

ãos em concha ao redor da boca e fez ruídos

obscenos.







Claro que me lembro. Uma baixaria!







Foi bom você ter vindo





disse Dennis e, por um instante, esteve

perigosamente à beira das lágrimas.



Talvez não houvesse percebido inteiramente o quanto estava

dep

rimido. Sua decisão de estar em casa pelo Natal ganhou força

redobrada. Se ainda continuasse lá, certamente se suicidaria.







Seus velhos não vieram?







É lógico que vieram





disse Dennis



, e vão voltar à noite, pelo

menos, mamãe e papai, mas não é a mesma

coisa. Você sabe.







Hum

-

hum. Bem, eu lhe trouxe uma coisa. Disse à matrona lá

embaixo que era o seu roupão de banho.






Arnie deu uma risadinha contida.







O que

é isso?





perguntou Dennis, indicando o saco.



Podia ver que não era apenas um saco de papel para al

moço, mas

uma sacola de compras.







Oh, fiz uma vistoria na geladeira, depois que comemos o bicho





disse Arnie.





Os velhos saíram para visitar amigos da Universidade, é

costume de todo ano, na tarde do Dia da Ação de Graças. Só estarão de

volta lá pelas o

ito da noite.



Enquanto falava, foi tirando coisas da sacola. Dennis ficou olhando,

espantado. Dois castiçais de estanho. Duas velas. Arnie enfiou as velas nos

castiçais, acendeu

-

as usando uma caixinha de fósforos com propaganda

da Garagem de Darnell e desl

igou a luz da cabeceira. Em seguida, quatro

sanduíches, grosseiramente embrulhados em papel encerado.







Segundo me lembro





disse ele



, você sempre dizia que dois

sanduíches de peru, por volta de onze e meia da noite de sexta

-

feira, eram

melhores do que o



ajantarado de Ação de Graças. Porque a pressão já

terminara.







Isso mesmo





assentiu Dennis.





Sanduíches em frente da TV.

Carson ou algum filme antigo. Bem, mas... francamente, Arnie, você não

precisava...







Droga, faz umas três semanas que não ponho os

olhos em você.

Foi bom ter chegado enquanto você dormia, porque do contrário teria me

fuzilado.





Passou dois sanduíches para Dennis.





Seus favoritos, acho.

De carne branca, com maionese e Pão Maravilha.



Dennis deu uma risadinha, depois riu com vontade, e

ntão

gargalhou. Arnie percebia que aquele esforço lhe doía nas costas, mas ele

não conseguia parar de rir. Pão Maravilha havia sido um dos maiores

segredos comuns de Dennis e Arnie, quando crianças. As mães de ambos

eram muito severas no tocante ao pão; Re

gina comprava Torradas

Dietéticas, com ocasionais incursões ao Centeio Moído

-

Solo Pedregoso. A

mãe de Dennis preferia Farinha de Milho e pão de centeio. Arnie e Dennis

comiam o que lhes era dado





mas ambos eram secretos apreciadores do

Pão Maravilha e, po

r várias ocasiões, juntavam seu dinheiro para comprar

um Maravilha e um pote de Mostarda Francesa, em vez de doces e balas.

Então, enfiavam

-

se na garagem da casa de Arnie (ou na casa na árvore de




Dennis, lamentavelmente demolida por um vendaval quase nove

anos

antes) e lá ficavam comendo sanduíches de mostarda e lendo histórias em

quadrinhos de Ricardo Rico, até todo o pão terminar.



Arnie o acompanhou em suas risadas e, para Dennis, aquela foi a

melhor parte do Dia de Ação de Graças.



Dennis havia ficado com



companheiros de quarto por quase dez

dias, mas agora tinha sozinho o quarto semiparticular. Arnie fechou a

porta e tirou da sacola parda seis latas de cerveja.







As maravilhas continuam





disse Dennis e teve que rir

novamente, com o trocadilho involuntári

o.







Certo





disse Arnie.





Não creio que terminem.





Fez um

brinde acima das velas, com a lata de cerveja.





Prost?







Vida eterna!





respondeu Dennis.



Os dois beberam. Após terminarem os enormes sanduíches de peru,

Arnie retirou da sacola aparentemente se

m fundo dois recipientes

plásticos para torta e retirou as tampas. Em cada um, havia uma fatia de

torta de maçã caseira.







Não, cara, não posso





disse Dennis.





Vou explodir.







Coma!





ordenou Arnie.







É verdade, não posso





disse Dennis, pegando o recipi

ente e um

garfo de plástico. Terminou a fatia de torta em quatro grandes bocados e

depois arrotou. Esgotou o que sobrava de sua segunda cerveja e tornou a

arrotar.





Em Portugal, isto é um cumprimento ao cozinheiro





disse,

com a cabeça zumbindo agradavelm

ente, devido à cerveja.







Se você diz...





respondeu Arnie, com uma careta.



Levantou

-

se, ligou a luz fluorescente da cabeceira e apagou as velas.

No exterior, uma chuva forte começara a bater contra as janelas. O

ambiente esfriava. E, para Dennis, parte do



cálido espírito da amizade e

da verdadeira Ação de Graças parecera extinguir

-

se com as velas.







Vou odiar você amanhã





disse Dennis.





Aposto como vou

ficar uma hora sentado naquela privada. E isso me dói as costas.










Lembra

-

se daquela vez em que Elaine

deu os peidos?





perguntou Arnie, e os dois riram.





Implicamos com ela, até sua mãe

despejar o inferno em cima da gente.







Não fediam, mas foram um bocado barulhentos





disse Dennis,

sorrindo.







Como tiros de revólver





concordou Arnie.



Os dois riram um p

ouco





mas era uma espécie de riso triste, se é

que isso existe. Muita água passara debaixo da ponte. A idéia de que o

acesso de gases de Ellie acontecera sete anos atrás, de certa forma era mais

perturbadora do que divertida. Havia um hálito de mortalidad

e na

percepção de que sete anos podiam significar o passado, com a mais total

e calma facilidade.



A conversa morreu um pouco, ambos perdidos em seus

pensamentos. Por fim, Dennis disse:







Leigh esteve aqui ontem. Contou

-

me sobre Christine. Sinto muito

cara.



De verdade.



Arnie ergueu os olhos e seu ar de pensativa melancolia foi trocado

por um sorriso jovial, em que Dennis mal podia acreditar.







Sim





concordou Arnie.





Foi terrível, mas vou dar a volta por

cima.







É o melhor





respondeu Dennis, cônscio de que



estava

repentinamente vigilante, odiando

-

se por isso, mas não conseguindo agir

de outro modo.



A parte referente à amizade terminara. Era algo que estivera ali,

aquecendo e enchendo o quarto, mas que agora simplesmente se desfizera,

como a coisa delicada e



efêmera que era. Agora, os dois apenas se fitavam.

Os olhos joviais de Arnie estavam também opacos e





Dennis podia

jurar





também vigilantes.







Certo. Fiz a velha passar maus bocados. Leigh também, creio.

Acho que foi o choque de ver que tanto trabalho..

. todo o meu trabalho,

tinha ido por água abaixo.





Ele meneou a cabeça.





Uma catástrofe.







E você conseguirá fazer alguma coisa?



Arnie ficou imediatamente radiante





francamente radiante

naquele momento, Dennis pôde sentir.










Claro que sim! Aliás, já fiz

. Você nem acreditaria, Dennis, se

tivesse visto o estrago que fizeram, naquele pátio de estacionamento.

Antigamente eles faziam um carro para valer, não como agora, quando

tudo que parece metal é, na verdade, plástico reluzente. Aquele carro é

um maldito

tanque de guerra, cara. A parte dos vidros foi a pior. E

também os pneus, claro. Eles estraçalharam os pneus.







E quanto ao motor?







Nem chegaram perto





disse Arnie prontamente.



Foi sua primeira mentira. Quando ele e Leigh tinham visto Christine,

naquela

tarde, o bujão do distribuidor jazia no pavimento. Leigh o

reconhecera e falara com Dennis a respeito. E Dennis se perguntava o que

mais eles teriam feito debaixo do capô. O radiador? Se alguém se propõe a

usar uma alavanca de pneus para fazer buracos na l

ataria, não poderia

usá

-

la também para furar o radiador em alguns lugares? E quanto às velas?

Ao regulador de voltagem? O carburador?



Por que está mentindo para mim, Arnie?







O que está fazendo no carro agora?





perguntou Dennis.







Gastando dinheiro, o que



mais poderia ser?





respondeu Arnie,

e seu riso agora foi quase verdadeiro. Dennis poderia até aceitá

-

lo como

verdadeiro, se não tivesse ouvido o riso real uma ou duas vezes, durante o

banquete de Ação de Graças proporcionado pelo amigo. Novos pneus.

Vidr

os novos. Algum trabalho de lanternagem e então tudo ficará bom

como antes.



Bom como antes.

No entanto, Leigh lhe contara que haviam deparado

com algo que não passava de uma carcaça massacrada, o calhambeque de

feira, a ser liquidado na base das três

-

marte

ladas

-

por

-

um

-

quarto

-

de

-

dólar.



Por que est

á mentindo?



Durante um g

élido instante, ele se perguntou se Arnie talvez não

tivesse ficado um pouco maluco







mas, não, essa não era a impressão que ele dava. A impressão que

Arnie fornecia era de... furtividade. As

túcia. Então, pela primeira vez,

imaginou que Arnie talvez estivesse apenas mentindo pela metade,

procurando estabelecer um fundamento de plausibilidade para... para o

quê? Um caso de regeneração espontânea? Bem, isso era absolutamente

louco, não?






N

ão era?



Sem d

úvida, pensou Dennis, a menos que a gente testemunhasse

como um monte de rachaduras em um pára

-

brisa começa a encolher

-

se,

entre uma e outra visita.



Apenas uma ilus

ão de ótica, um truque provocado pela luz. Foi o

que você pensou naquela vez e tinha r

azão.



N

ão obstante, um truque provocado pela luz não explicaria a

singular maneira como Arnie reconstituíra Christine, aquela

excentricidade de partes novas misturadas a velhas. Não explicaria a

estranha sensação que se apoderara de Dennis ao sentar

-

se ao

volante de

Christine, na garagem de LeBay. Ou a sensação, após ter colocado o pneu

novo, quando estavam a caminho da Darnell's, de que ele olhava para o

retrato de um carro velho com uma foto do carro novo diretamente abaixo

dele





ou que havia sido recort

ado um buraco no quadro do carro velho,

no lugar onde estivera um dos seus pneus.



E nada explicaria a mentira de Arnie agora... ou a maneira astuta,

disfar

çada, como o observava, para ver se sua mentira seria aceita. Então,

ele sorriu... uma grande, tranqü

ila e aliviada careta.







Bem, isso é ótimo





falou.



A express

ão astuciosa e calculista de Arnie permaneceu por um

segundo mais. Depois ele sorriu, careteando, enquanto encolhia os ombros.







Tive sorte





disse.





Quando penso nas coisas que eles

poderiam te

r feito... Açúcar no tanque de gasolina, melado no carburador...

foram imbecis. Sorte minha.







Repperton e seu alegre bando?





perguntou Dennis, calmamente.



A express

ão de desconfiança, tão sombria e estranha a Arnie, tornou

a aparecer e desaparecer. Agora

, ele parecia taciturno. Taciturno e

vacilante. Deu a impressão de que ia falar, mas em vez disso suspirou.







Certo





assentiu.





Quem mais poderia ser?







No entanto, você não deu parte do fato.







Meu velho fez isso.







Foi o que Leigh me disse







O que mais



ela lhe contou?





perguntou Arnie, bruscamente.










Nada e nem perguntei





respondeu Dennis, estendendo a

mão.





O problema é seu, Arnie. Paz.







Claro.





Arnie riu um pouco e depois passou a mão pelo

rosto.





Ainda não consegui superar aquilo. Droga! Acho q

ue nunca irei

superar, Dennis. Chegar àquele pátio de estacionamento com Leigh,

sentindo

-

me o dono do mundo, para então ver...







Será que eles não repetirão a dose, depois que você consertar o

carro? O rosto de Arnie ficou hermético, gélido.







Eles não far

ão outra vez





disse.



Seus olhos cinzentos eram como o gelo de mar

ço e, de repente,

Dennis ficou satisfeito por não ser Buddy Repperton.







O que quer dizer com isso?







Estou dizendo que agora vou deixar o carro em casa





explicou e,

novamente, seu rosto mo

strou aquela ampla, jovial careta esquisita.





O

que mais pensou que fosse?







Não pensei nada





replicou Dennis. A imagem gelada

permanecia. Agora era uma sensação de gelo fino, estalando

inquietamente debaixo de seus pés. E, abaixo do gelo, água negra e f

ria.





Sei lá, Arnie. Você parece muito certo de que Buddy desistiu.







Espero que ele encare a coisa como um acerto de contas





declarou Arnie tranqüilo.





Nós provocamos sua expulsão do colégio...







Ele é que provocou a própria expulsão!





exclamou Dennis

,

acalorado.





Puxou uma faca... diabo, aquilo nem era faca, mas um

maldito facão de açougueiro!







Só estou imaginando o modo como ele verá a coisa





disse Arnie,

para então estender a mão e acrescentar, rindo:





Paz.







Ok, tudo bem.







Nós conseguimos sua

expulsão, ou, mais precisamente, eu a

consegui. Em troca, ele e sua turma fizeram o diabo com Christine. Agora

estamos quites. Fim.







Ainda bem, caso ele encare os fatos dessa maneira.







Acho que vai ser assim





disse Arnie.





Os tiras o interrogaram.

Tamb

ém interrogaram "Penetra" Welch e Richie Trelawney. Encheram os




três de medo. E suponho que quase fizeram Sandy Galton confessar.





Os

lábios de Arnie encurvaram

-

se desdenhosos.





Aquele babaca chorão!



Aquilo era t

ão inusitado em Arnie





no velho Arnie





q

ue Dennis

se sentou na cama sem pensar, pestanejou com a dor nas costas e tornou a

se deitar rapidamente.







Nossa, cara, e você não acha que eles tinham que ficar assustados

mesmo?







Estou pouco ligando para o que ele ou qualquer daqueles bostas

venham a f

azer





disse Arnie. Então, em voz estranhamente distante,

acrescentou:





Aliás, nada mais importa...



Dennis perguntou:







Você está bem, Arnie?



Por um instante, um olhar de desesperada tristeza cobriu o rosto de

Arnie





foi mais do que tristeza. Ele parecia



atormentado e perseguido.

Mais tarde (é muito fácil analisar tais coisas mais tarde, bem mais tarde),

Dennis decidiu que era a expressão de alguém tão desnorteado, envolvido

e cansado de lutar, que nem sabe mais direito o que faz.



Ent

ão, essa expressão, c

omo qualquer outra de escura suspeita,

terminou desaparecendo.







Claro





respondeu.





Estou ótimo. Exceto que você não é o

único com dor nas costas. Lembra

-

se de quando fiz aquele esforço, em

Philly Plains?



Dennis assentiu.







Pois dê uma olhada nisto.



Leva

ntando

-

se, Arnie puxou a camisa para fora das cal

ças. Algo

pareceu agitar

-

se em seu olhar. Algo inquieto, que depois mergulhou em

negras profundezas.



Ergueu a camisa. N

ão era uma coisa antiquada, como o de LeBay.

Também estava mais limpo





uma caprichada t

ira de Lycra, parecendo

contínua, com uns trinta centímetros de largura. Entretanto, pensou

Dennis, um colete era um colete. Para seu desconsolo, aproximava

-

se

demais do de LeBay.










Piorei as coisas, ao levar Christine de volta para a garagem





disse Arnie

.





Nem mesmo sei como foi, tão perturbado estava.

Ajudando a enganchá

-

la no guincho do carro

-

reboque, imagino, mas não

tenho certeza. A princípio não foi tão ruim, mas depois piorou. O Dr.

Mascia receitou... Dennis, você está legal?



Com o que sentiu ser u

m fant

ástico esforço, Dennis manteve a voz

controlada. Movimentou as feições, formando uma expressão que, pelo

menos fracamente, dava uma idéia de agradável interesse... mas ainda

continuava aquilo nos olhos de Arnie, dançando, dançando e dançando.







Você

vai sair dessa





falou Dennis.







Bem, acho que sim





respondeu Arnie, tornando a enfiar a

camisa dentro das calças, em torno do colete para as costas.





Apenas

preciso ficar atento na hora de levantar pesos, para que não torne a

acontecer.



Sorriu para Denn

is.







Se ainda houvesse recrutamento, isso me livraria do Exército





comentou.



De novo, Dennis evitou qualquer movimento que pudesse ser

interpretado como surpresa, mas colocou os bra

ços debaixo das cobertas.

Ao ver aquele colete para as costas, tão semelh

ante ao de LeBay, ficara

com ambos arrepiados.



E os olhos de Arnie! Eram como

águas escuras, por baixo do fino

gelo de março. Águas escuras e jubilosas, agitando

-

se muito fundo dentro

dele, como o corpo agitado e decomposto de um afogado.







Bem





disse Arn

ie, animadamente.





Tenho que ir andando.

Certamente não vai esperar que eu fique rondando em um lugar horrível

como este, a noite inteira.







E lá se vai você, sempre solicitado





disse Dennis.





Falando

sério, cara, obrigado. Você alegrou um dia sombrio.



Por um estranho instante, ele pensou que Arnie fosse chorar. Aquela

coisa dan

çante no fundo de seus olhos havia desaparecido e seu amigo

estava ali





realmente ali. Arnie sorriu sincero.







Lembre só uma coisa, Dennis: ninguém está sentindo sua falta.

Absol

utamente ninguém!










Vai tomar banho





disse Dennis, em tom solene. Arnie fez um

gesto obsceno com o dedo.



As formalidades agora estavam completas





Arnie podia ir embora.

Recolheu sua sacola parda



de compras, consideravelmente desinflada, casti

çais e latas



vazias de

cerveja, que tilintaram no interior.



Dennis teve uma s

úbita inspiração. Bateu com os nós dos dedos no

gesso em torno da perna.







Quer assinar aqui, Arnie?







Eu já assinei, não foi?







Sim, mas apagou. Assina outra vez? Arnie deu de ombros.







Tem

uma caneta?



Dennis entregou

-

lhe uma caneta que tirou da gaveta da mesa

-

de

-

cabeceira. Sorridente, Arnie inclinou

-

se para o gesso, erguido em

ângulo

acima da cama, através de uma série de pesos e polias, encontrou espaço

em branco no meio do emaranhado de no

mes e frases e garatujou:





(Para Dennis Guilder, o maior cacete do mundo.)





Deu um tapinha no gesso, ap

ós terminar, e devolveu a caneta.







Tudo certo?







Legal





disse Dennis.





Obrigado. Agora pode dar o fora, Arnie.







Certo, sabichão. Feliz Dia de Ação d

e Graças.







O mesmo pra você.






Arnie se foi. Mais tarde, chegaram os pais de Dennis.

Aparentemente exausta pela hilaridade do dia, Ellie tinha ido dormir. Ao

voltarem para casa, os Guilder comentaram o abatimento de Dennis.







Tinha que estar mesmo





disse G

uilder.





Feriados num

hospital nada têm de divertidos.





Quanto a Dennis, naquela noite ele passou um longo e meditativo

per

íodo examinando as duas assinaturas. De fato, Arnie já assinara seu

gesso, mas quando ele ainda estava com as duas pernas inteiramen

te

engessadas. Daquela primeira vez, ele assinara no molde sobre a perna

direita, a que estava suspensa no ar durante a visita de Arnie. Esta noite,

ele pusera sua assinatura na esquerda.



Dennis tocou a cigarra, chamando uma enfermeira, e usou todo o

seu p

oder de persuas

ão para que ela lhe baixasse a perna esquerda, a fim

de poder comparar as duas assinaturas, lado a lado. O gesso da perna

direita havia sido recortado e o retirariam em mais uma semana ou dez

dias. A assinatura de Arnie não se desfizera





es

sa tinha sido uma das

mentiras de Dennis



, mas quase se fora, quando recortaram o gesso.



Arnie n

ão escrevera uma mensagem na perna direita, apenas

assinara. Com algum esforço (e um pouco de dor), Dennis e a enfermeira

conseguiram manobrar

-

lhe as pernas, d

eixando

-

as aproximadas o

suficiente para que ele estudasse as duas assinaturas, lado a lado. Em uma

voz tão sem entonação e falha, que ele mal conseguiu identificar como sua,

ele perguntou à enfermeira:







Acha que são parecidas?







Não





disse ela.





Já ouv

i falar de cheques com assinaturas

falsificadas, mas nunca moldes de gesso. É alguma brincadeira?







Claro





Dennis sentiu algo gélido subir do estômago para o

peito.





É brincadeira.



Olhou para as assinaturas. Olhou para ambas, lado a lado, e sentiu

um jat

o gelado se espraiando por todo seu corpo, baixando sua

temperatura, deixando os cabelos da nuca eri

çados, espetando o ar:












As duas assinaturas n

ão tinham a menor semelhança.



Mais tarde, naquela noite do Dia de A

ção de Graças, levantou

-

se um

vento frio,



primeiro em lufadas, depois permanentemente. A clara lua

cheia espiava para baixo, do alto de um céu negro. As últimas folhas

murchas e queimadas do outono foram arrancadas das árvores e depois

atiradas pelas sarjetas. Emitiam um som parecido ao de ossos

rolando.



O inverno chegara a Libertyville.





"PENETRA"



WELCH



A noite estava escura, o c

éu estava azul,



e um carr

ão brilhante fugia no fundo do beco,



Uma porta se abriu com estrondo,



Algu

ém gritou,



Voc

ê precisava ouvir só o que eu vi







Bo Diddley





A quinta

-

f

eira depois da do Dia de A

ção de Graças foi o último dia

de novembro, a noite em que Jackson Browne tocou no Centro Cívico de

Pittsburgh, para uma platéia lotada. "Penetra" Welch foi até lá com Ricchie

Trelawney e Nickey Billingham mas separou

-

se deles ant

es de começar o

espetáculo. A grana estava curta e, fosse porque o eminente concerto de

Browne houvesse gerado algumas vibrações harmoniosas ou porque ele

estava adquirindo traços afetivos (sendo um romântico, "Penetra" gostava

de acreditar na última hipót

ese), ele tivera uma noite extraordinariamente

boa. Conseguira juntar quase trinta dólares em "trocados". Distribuíra as

moedas por todos os seus bolsos e tilintava como um cofre de criança.

Pedir carona para casa também fora incrivelmente fácil, com todo

o

tráfego formado a partir do Centro Cívico. O concerto terminara às onze e




quarenta da noite e ele estava de volta a Libertyville pouco depois de uma

e quinze da madrugada.



Sua

última carona havia sido com um rapaz que seguia de volta

para Prestonville, p

ela Rota 63. O cara o deixara na rampa da 376, da JFK

Drive. "Penetra" decidiu caminhar até o posto de gasolina Happy Gas, de

Vandenberg, para um papo com Buddy. Buddy tinha um carro e isto, para

"Penetra"





que morava longe, em Kingsfield Pike





significa

va que não

precisaria ir para casa andando. Era dureza conseguir uma carona quando

se está em zonas menos populosas





e Kingsfield Pike ficava no fim do

mundo. Desta maneira, ele só chegaria em casa bem depois do amanhecer

mas, em tempo frio, uma carona ga

rantida não é coisa que se despreze. E

Buddy podia ter uma garrafa.



"Penetra" j

á caminhara uns trezentos metros, a partir da rampa de

saída da 376, em meio a um frio intenso, suas botas ferradas crepitando

sobre a calçada deserta, a sombra diminuindo e se

desfazendo sob a

claridade fantasmagórica e alaranjada da luz dos postes, tendo ainda mais

de um quilômetro a percorrer, quando avistou o carro estacionado junto

ao meio

-

fio, pouco adiante. O escapamento turbilhonava para fora dos

dois canos de descarga e

pendia no ar perfeitamente imóvel, em forma de

nuvem, antes de se desmanchar preguiçosamente em camadas

superpostas. A grade do radiador, em reluzente cromado que se

acentuava com toques de luz laranja, olhava para ele como a boca

sorridente de um débil me

ntal. "Penetra" reconheceu o carro. Era um

Plymouth de duas cores. À luz das lâmpadas da rua, os dois tons

pareciam ser marfim e sangue seco. Era Christine.



"Penetra" estacou e uma esp

écie de estúpida admiração o

envolveu





não havia medo, pelo menos naque

le momento. Não podia

ser Christine, aquilo era impossível





eles tinham feito uma dúzia de

furos no radiador do carro do Cara de Cona, haviam despejado uma

garrafa de Texas Driver quase

cheia no carburador, e Buddy exibira um

saco de a

çúcar de três quilos

, que deixara escorregar para o tanque de

gasolina, através das mãos de "Penetra", formando um funil. E aquilo fora

apenas o começo. Buddy demonstrara um tipo de furiosa imaginação,

para destruir o carro do Cara de Cona. Aquilo deixara "Penetra" deliciado

e inquieto ao mesmo tempo. Tudo somado, aquele carro não conseguiria

mover

-

se por esforço próprio nem em seis meses, talvez nunca mais.

Portanto, não podia ser Christine o que estava ali. Devia ser outro Fury 58.






Exceto que era Christine. "Penetra" o conhe

cia.



Ficou im

óvel na calçada deserta daquela madrugada, as orelhas

entorpecias assomando por sob os cabelos compridos, a respiração

congelando

-

se no ar.



O carro estava junto ao meio

-

fio, de frente para ele, o motor

ronronando maciamente. Era imposs

ível diz

er quem estaria ao volante,

caso houvesse alguém. O carro estacionara diretamente abaixo da luz de

um poste, e o globo alaranjado brilhava através do pára

-

brisa imaculado,

como um jack

-

o'

-

lantern

*



à prova d'água, percebido bem no fundo de

águas escuras.



"

Penetra" come

çou a ficar com medo.



Deslizou a l

íngua sobre os lábios secos e olhou em torno. À sua

esquerda, ficava a JFK Drive, com seis faixas de trânsito e se

assemelhando ao leito seco de um rio, àquela hora morta da madrugada.

À esquerda, havia uma lo

ja fotográfica, com letras alaranjadas delineadas

em vermelho, soletrando KODAK, através da vitrine.



"Penetra" tornou a olhar para o carro. Ele permanecia l

á, parado.



Ele abriu a boca para falar, mas n

ão emitiu som algum.

Experimentou de novo e conseguiu u

m grasnido.







Olá, Cunningham!



O carro continuou parado, pregui

çosamente. A fumaça do

escapamento turbilhonava, morosa

mente farta, produzida pela gasolina

especial.







É você, Cunningham?



Deu mais um passo. Os pregos da bota ferrada retiniram no cimento.

S

eu cora

ção latejava no pescoço. Tornou a olhar em torno, para a rua;

certamente apareceria outro carro, a JFK Drive não podia estar

inteiramente deserta, mesmo à uma e vinte e cinco da madrugada, podia?

Entretanto, não havia carros, apenas o monótono clarã

o alaranjado dos

postes de luz.



"Penetra" pigarreou.



                                        

             



*



Lanterna feita com uma abóbora recortada com um rosto humano. (N.T.)










Você não está louco, está?



Os far

óis duplos dianteiros ganharam vida subitamente,

envolvendo

-

o em cintilante luz branca. O Fury disparou para ele, a toda

velocidade, os pneus deixando marcas negras de

borracha no pavimento.

Arremeteu com tal potência que a retaguarda pareceu afundar, como as

patas traseiras de um cão preparando

-

se para o salto





um cão ou uma

loba. As rodas junto ao meio

-

fio ergueram

-

se acima do pavimento e

correram para "Penetra" daque

la maneira





as rodas externas mais baixas,

as internas rodando sobre a calçada, em ângulo saliente. O chassi

arranhou e gemeu, despejando um jato de faíscas turbilhonantes.



"Penetra" gritou e tentou dar um passo de lado. A extremidade do

p

ára

-

choque de Ch

ristine mal lhe tocou a barriga da perna esquerda, mas

arrancou um pedaço de carne. Um líquido quente desceu por sua perna e

empoçou

-

se no sapato. O calor do próprio sangue o fez perceber, de modo

algo confuso, o quanto a noite estava fria.



Ele se chocou c

ontra a porta da loja de fotografias, batendo nela com

o quadril, escapando por pouco da vitrine. Mais trinta cent

ímetros para a

esquerda e afundaria através do vidro, aterrando sobre um amontoado de

Nikons e Polaroids.



Ouviu o motor do carro, aumentando s

ubitamente de rota

ção. E, de

novo, aquele alienado ranger do chassi contra o cimento. "Penetra" olhou

em redor, arfando penosamente. Christine dava marcha à ré na sarjeta e,

quando passou por ele, "Penetra" viu. Ele viu.



Não havia ninguém ao volante.



O pân

ico começou a latejar em sua cabeça. "Penetra" se firmou nos

calcanhares. Correu pela JFK Drive, procurando o lugar mais distante.

Havia um beco, entre um mercado e uma lavanderia. Estreito demais para

o carro. Se pudesse alcançá

-

lo...



As moedas tilintaram



loucamente em seus bolsos das calças e nos

cinco ou seis bolsos do casaco, excedente de equipamento militar do

Exército. Moedas de vinte e cinco, dez e cinco centavos. Um tilitante

carrilhão de prata. Os joelhos quase lhe chegaram ao queixo. As botas

ferr

adas de engenheiro tamborilaram sobre a calçada. Sua sombra o

perseguiu.






Em algum ponto mais atrás, o carro tornou a aumentar as rotações,

morreu, aumentou de novo, morreu, e então o motor começou a guinchar.

Os pneus uivaram e Christine disparou contra as



costas de "Penetra"

Welch, cruzando as faixas da JFK Drive em ângulo reto. "Penetra" gritou,

mas nem ouviu o próprio grito, porque o carro ainda queimava borracha,

ainda se esganiçava como uma mulher insanamente furiosa e homicida





e aquele guincho enche

u o mundo.



A sombra de "Penetra" não o perseguia mais. Agora estava à sua

frente e alongando

-

se. Na vitrine da lavanderia, ele viu o desabrochar de

enormes olhos amarelados.



Nem mesmo estava perto de lá.



No preciso e último instante, "Penetra" tentou ginga

r para a

esquerda, mas Christine imitou seu movimento, como se tivesse lido seu

final e desesperado pensamento. O Plymouth o atingiu em cheio, ainda

acelerando, quebrando

-

lhe as costelas e arrancando as botas de

engenheiro de seus pés. Ele foi atirado a do

ze metros, contra a parede

lateral de tijolos do pequeno mercado, novamente escapando por pouco

de um mergulho através da vitrine.



A força do impacto foi dura o bastante para fazê

-

lo ricochetear de

novo para a rua, deixando na parede uma mancha de sangue,

como em

um mata

-

borrão. Uma foto da mancha surgiria no dia seguinte, na

primeira página do

Keystone

de Libertyville.



Christine deu marcha à ré, guinchou quando de uma brusca e

deslizante parada, tornando a rugir ao avançar. "Penetra" jazia perto a

calçada,



tentando levantar

-

se. Não foi possível. Nada parecia funcionar.

Todos os sinais estavam confusos.



A intensa luz branca o lavou de alto a baixo.







Não





sussurrou, através da boca cheia de dentes quebrados.





N...



O carro rugiu para diante e sobre ele. Moe

das voaram para todos os

lados. "Penetra" foi puxado, rolando primeiro para um lado, depois para o

outro, quando Christine tornou a recuar para a rua. O carro ficou ali, o

motor acelerando e caindo para um zumbido preguiçoso, depois tornando

a acelerar. Fi

cou ali, como que cismando.






Então, voltou a atacá

-

lo. Atingiu

-

o, subiu na calçada, derrapou um

pouco e então recuou, sacolejando na marcha à ré.



Guinchou para diante.



Deu marcha à ré.



Investiu de novo.



Os faróis dianteiros cintilaram. Os canos de descarga

expeliram uma

quente fumaça azulada.



A coisa na rua não parecia mais um ser humano; agora tinha a

aparência de um monte de trapos espalhado.



O carro deu marcha à ré uma última vez, derrapou fazendo um

semicírculo e acelerou, rugindo para a trouxa sangrenta



na rua, em

seguida descendo a estrada a toda potência do motor, ainda acelerando ao

máximo, o ruído reverberando nas paredes dos prédios adormecidos mas

não inteiramente adormecidos agora. Havia luzes começando a brilhar,

pessoas que moravam sobre suas lo

jas chegavam às janelas, querendo ver

o que provocava toda aquela barulheira e se houvera algum acidente.



Um dos faróis de Christine ficara estilhaçado. O outro piscava sem

cessar, manchado com uma fina camada do sangue de "Penetra". A grade

do radiador es

tava amassada para dentro e as mossas feitas nela

aproximavam

-

se em tamanho e formato ao torso de "Penetra", com toda a

horrenda perfeição de uma máscara mortuária. Havia sangue espalhado

sobre o capô, um sangue que era uma mancha aumentando de tamanho, à

medida que aumentava a velocidade. A descarga apresentava um som

ruidoso, ensurdecedor; um dos dois silenciosos de Christine fora

destruído.



Dentro do carro, no painel de instrumentos, o odômetro continuava

girando ao contrário, como se, de algum modo, Chr

istine recuasse no

tempo, escapando não apenas do cenário do atropelamento e fuga, mas do

verdadeiro

fato

do atropelamento e fuga.



O silencioso foi a primeira coisa.



De repente, aquele som ruidoso, ensurdecedor, diminuiu e

normalizou

-

se.






Os leques de sangu

e sobre o capô começaram a recuar para a

dianteira do carro, a despeito do vento





como um filme, rodando ao

contrário.



O farol vacilante de súbito passou a brilhar com firmeza e, duzentos

metros além, o farol apagado voltou a brilhar também. Com um tilint

ar

insignificante





não mais do que o som do sapato de um garotinho

quebrando a fina camada de gelo formada sobre uma poça lamacenta





o

vidro se reestruturou do nada.



Houve um som cavo





punk! punk! punk!





brotando da dianteira

do carro, o som de metal am

assado, aquele som que ouvimos às vezes

quando apertamos uma lata de cerveja. Só que, em vez de amassar

-

se, a

grade dianteira de Christine estava se desamassando





um lanterneiro

veterano, com cinqüenta anos de experiência em seu trabalho, não o teria

feit

o com mais perícia e capricho.



Christine dobrou para Hampton Street, ainda antes de o primeiro

daqueles despertados pelo chiado de seus pneus alcançar os despojos de

"Penetra". O sangue desaparecera. Tinha chegado à frente do capô e ali

desaparecera. Os ar

ranhões não existiam mais. Quando o carro rodou

quietamente para a porta da garagem, com seu aviso BUZINE PARA

ENTRAR, houve um

punk!

final, e então a última amassadura





esta no

pára

-

lama dianteiro esquerdo, o local onde Christine colidira contra a

barrig

a da perna de "Penetra"





se desamassou e ficou perfeita.



Christine estava como nova.



O carro parou diante da grande porta da garagem, no meio do

edifício escuro e silencioso. Havia uma pequena caixa de plástico, presa à

viseira contra o sol, do lado do mo

torista. Era uma bugigangazinha que

Will Darnell dera a Arnie, quando ele começara a transportar cigarros e

bebida para o Estado de Nova York, por sua ordem





talvez fosse a

versão de Darnell sobre uma chave de ouro para o banheiro público.



No ar quieto, o



abridor de porta zumbiu brevemente e a porta da

garagem chocalhou obedientemente para cima. Outro circuito se formara

com o levantamento da porta e algumas luzes internas acenderam

-

se

dentro do prédio, brilhando francamente.



O botão dos faróis dianteiros

se moveu repentinamente no painel de

instrumentos e as luzes de Christine apagaram

-

se. O carro rodou para o

interior murmurando através do concreto manchado de óleo, em direção




ao boxe vinte. Atrás dele, a porta erguida que fora programada para uma

espera

de trinta segundos tornou a descer. O circuito das luzes se

interrompera e a garagem voltou à escuridão.



Na fenda da ignição de Christine, as chaves oscilando para baixo

giraram subitamente para a esquerda. O motor morreu. A etiqueta de

couro com as inicia

is RDL marcadas em sua superfície balançou de um

lado para outro, em arcos decrescentes... até finalmente ficar imóvel.



Christine ficou no escuro, e o único som na Garagem Faça

-

Você

-

Mesmo, de Darnell, era o lento palpitar de seu motor esfriando.





O



D

IA

S

EG

UINTE



Tenho um "Chevy" 69 com um 396,



Faróis Feully e um Hurst no piso,



Que me espera esta noite



No pátio de estacionamento



Junto à loja 7

-

11...







Bruce Springsteen





Arnie Cunningham não foi à aula no dia seguinte. Alegou ter quase

certeza de que ia ficar

gripado. Naquela noite, contudo, disse aos pais que

se sentia melhor, o bastante para ir até a Garagem de Darnell e trabalhar

um pouco em Christine.



Regina protestou





embora não se expressasse para dizer o que

sentia, pensou que Arnie tinha uma aparência

terrível. O rosto dele estava

agora inteiramente livre da acne e das equimoses, mas houve uma troca:

ficara muito pálido e havia círculos escuros em torno dos olhos, como se

não estivesse dormindo bem. Além disso, ainda mancava. Inquieta, ela se

perguntou

se o filho não estaria usando algum tipo de droga, se talvez não

houvesse machucado mais as costas do que dava a entender e começasse a

tomar pílulas para poder continuar trabalhando no amaldiçoado carro.

Então, rejeitou o pensamento. Por mais obcecado que



pudesse estar com o

carro, Arnie não seria idiota a tal ponto.










Eu estou ótimo, mamãe





disse ele.







Não me parece nada ótimo. E mal tocou em seu jantar.







Comerei alguma coisa mais tarde.







E suas costas, como estão? Será que não anda levantando coisas

muito pesadas para você?







Não, mamãe.



Era mentira. E suas costas tinham doído horrivelmente o dia inteiro.

Estava atravessando a pior fase, desde a lesão original, em Philly Plains.

(Oh, em verdade, como é que aquilo começara?

sussurrou sua mente.

Como

ha

via sido? Você tem certeza de alguma coisa?)

Havia tirado o colete por

instantes e as costas latejavam tanto, que mal pudera suportar. Colocara

-

o

novamente, após apenas quinze minutos, apertando

-

o mais do que nunca.

Agora, as costas estavam um pouquinho me

lhor. Ele sabia por quê. Era

porque ia vê

-

la, ver Christine. Era isso.



Regina olhou para ele, preocupada e desnorteada. Pela primeira vez

na vida, simplesmente não sabia como agir. Arnie agora estava fora de seu

controle. O conhecimento disto provocava um

desespero insano, que

algumas vezes a envolvia, rastejante, enchendo

-

lhe o cérebro de uma

horrível, vazia e infecta friagem. Nestas ocasiões era tão grande a

depressão que custava a crer na passagem furtiva daquela dúvida por sua

cabeça fazendo

-

a perguntar

-

se se era exatamente para isso que vivera





ver seu filho apaixonado por uma garota e por um carro, no mesmo

terrível outono. Teria sido? Para que pudesse ver, precisamente, o quanto

se tornara odiosa para ele, ao fitar seus olhos cinzentos? Teria sido? E

, em

realidade, aquilo tinha algo a ver com a garota? Não. Em sua mente, tudo

acabava retornando ao carro. Seu repouso passara a ser interrompido e

inquieto e, pela primeira vez desde seu parto, quase vinte anos antes,

começou a considerar uma consulta com



o Dr. Mascia, para ver se ele lhe

daria alguma pílula para a tensão, a depressão e a insônia resultante.

Pensava em Arnie, nas longas noites insones, nos erros que jamais

poderiam ser retificados; pensava em como o tempo conseguia deslocar

de seu eixo o e

quilíbrio do poder e em como a meia

-

idade às vezes

espionava através de um espelho de toucador, como a mão de um cadáver,

assomando através de uma terra erodida.







Vai voltar cedo?





perguntou.






Sabia ser este o último apoio dos pais verdadeiramente impoten

tes e

odiou

-

o, mas agora era incapaz de modificá

-

lo.







Claro





respondeu ele, mas Regina não acreditou muito, a julgar

pelo tom da resposta.







Arnie, eu gostaria que ficasse em casa. Sinceramente, você não me

parece com boa aparência.







Vou melhorar





diss

e ele.





Tenho que melhorar. Preciso levar

algumas peças de carro amanhã até Jamesburg, para Will.







Não poderá ir, se estiver doente





disse ela.





São quase

duzentos quilômetros.







Não se preocupe.



Ele lhe beijou a face





o beijo

-

na

-

face desapaixonado, d

os

conhecidos que se encontram em um coquetel. Arnie abria a porta da

cozinha para sair, quando Regina perguntou:







Você conhecia o rapaz que foi atropelado a noite passada, na

Rodovia Kennedy? Ele se virou para fitá

-

la, com rosto inexpressivo.







O quê?







O jornal disse que ele vinha para Libertyville.







Oh, aquele atropelamento com fuga... É disso que está falando?

-

É.







Éramos da mesma sala, quando eu era calouro





disse Arnie.





Pelo menos, acho que sim. Mas eu não o conhecia muito, mamãe.







Oh





assenti

u ela satisfeita.





Ainda bem. Segundo o jornal,

havia resíduos de droga em seu organismo. Você nunca tomou drogas,

não é, Arnie?



Arnie sorriu suavemente para o rosto pálido e perscrutador de sua

mãe.







Nunca, mamãe.







E se suas costas começarem a incomodá

-

lo... quero dizer, se

realmente

começarem a incomodá

-

lo... você irá ver o Dr. Mascia, está bem?

Não comprará nada de um... traficante de drogas, não é mesmo?







Não comprarei, mamãe





repetiu ele, e saiu.








Havia mais neve agora. Outro degelo derretera a ma

ior parte, mas

desta feita ela não desaparecera por completo, apenas recuando para as

sombras, onde formava uma orla branca debaixo das sebes, na base das

árvores, na cobertura da garagem. Não obstante, a despeito da neve em

torno das beiradas





ou talvez

por isso mesmo





o gramado da casa

parecia singularmente verde, quando Arnie saiu para o crepúsculo, seu

pai assemelhando

-

se a um estranho refugiado do verão, enquanto recolhia

as últimas folhas do outono com um ancinho.



Arnie ergueu a mão brevemente para

ele e deu a impressão de que

ia passar por Michael sem falar. Seu pai o chamou. Ele se aproximou com

relutância. Não queria atrasar

-

se para seu ônibus.



Seu pai também envelhecera com as tormentas que haviam

desabado sobre Christine, embora outras coisas ce

rtamente também

tivessem tido parte nisso. Candidatara

-

se à cátedra do Departamento de

História, em Horlicks, em fins do último verão e havia sido solenemente

rejeitado. Além do mais, durante seu

check

-

up

anual de outubro, o médico

apontara um problema inc

ipiente de flebite





flebite, que quase matara

Nixon; flebite, um problema de pais com certa idade. E, quando o outono

anterior dera vez a outro cinzento inverno do oeste da Pensilvânia,

Michael Cunningham parecia mais abatido do que nunca.







Oi, pai. Escu

te, tenho que me apressar, se quiser pegar o...



Michael ergueu os olhos da pequena pilha de congeladas folhas

castanhas que conseguira reunir. O pôr

-

do

-

sol banhou as partes planas de

seu rosto e pareceu fazê

-

las sangrar. Arnie recuou involuntariamente, um

tanto chocado. O rosto de seu pai era espectral.







Onde esteve a noite passada, Arnold?





perguntou ele.







Quê?





ofegou Arnie, depois fechando a boca lentamente.





Ora,

aqui. Aqui em casa, papai. Você sabe disso.







A noite inteira?







É claro! Fui para a c

ama às dez horas. Estava arriado. Por quê?







Porque hoje recebi um telefonema da polícia





disse Michael.





Sobre o rapaz que foi atropelado na JFK Drive, à noite passada.







"Penetra" Welch





disse Arnie.






Fitou o pai com olhos calmos, mas orlados de profun

das olheiras e

comprimidos nas órbitas. Se o filho ficara chocado com a aparência do pai,

também o pai ficara perplexo ante a do filho. Para Michael, as órbitas do

rapaz quase pareciam os buracos vazios de uma caveira, àquela claridade

esfumada do crepúscu

lo.







Sim, o sobrenome era Welch.







Era quase certo que ligariam. Bem, acho eu. Mamãe sabe... que ele

poderia ter sido um dos caras que demoliram Christine?







Não por mim.







Eu também nada lhe disse. Seria bom ela não ficar sabendo





declarou Arnie.







Ela

acabará descobrindo





disse Michael.





De fato, sua mãe

certamente deduzirá isso. É uma mulher tremendamente inteligente, caso

você nunca tenha notado. Entretanto, não ficará sabendo por mim.



Arnie assentiu, depois sorriu sem vontade.







Onde esteve a noite



passada? Sua confiança é tocante, papai.

Michael enrubesceu, mas não baixou os olhos.







Se você não estivesse fora de si nestes últimos dois meses





falou



, talvez compreendesse por que fiz a pergunta.







Bem, diabo, o que significa?







Você sabe perfeitam

ente. Nem mesmo adianta ficarmos

discutindo, porque vamos terminar sempre na mesma coisa, após rodeios

e mais rodeios. Toda a sua vida está se desintegrando e você ainda fica aí,

perguntando sobre o que estou falando!



Arnie riu. Era um som duro, insolente.



Michael pareceu encolher

-

se

um pouco, ao ouvi

-

lo.







Mamãe perguntou se eu tomava drogas. Talvez você também

queira testar isso.





Arnie fez um gesto de arregaçar as mangas do blusão

de frio.





Quer ver se tem marcas de picadas?







Não preciso perguntar se

toma drogas





disse Michael.





Você

já está tomando uma que conheço, e isso basta. E aquele maldito carro.



Arnie se virou como para ir embora, mas Michael o reteve.










Largue meu braço. Michael deixou a mão cair.







Só queria que ficasse sabendo de uma coisa







disse ele.





Acredito tanto que você mataria alguém, como acreditaria que fosse capaz

de caminhar através da piscina dos Symond. Entretanto, a polícia irá

interrogá

-

lo, Arnie, e as pessoas podem assustar

-

se, quando a polícia

surge de repente. Para eles,



susto ou surpresa podem assemelhar

-

se a

culpa.







Tudo isto porque algum bêbado atropelou aquele bosta do Welch?







A coisa não foi bem assim





disse Michael.





Fiquei sabendo

por esse tal Junkins, que ligou para mim. Quem quer que tenha liquidado

o rapaz W

elch, atropelou

-

o, depois deu marcha à ré, tornou a passar por

cima dele com o carro, recuou, passou sobre ele,

tornou a...







Pare com isso!





exclamou Arnie.



De repente, parecia sentir

-

se mal e amedrontado. Michael

experimentou a mesma sensação de Dennis,



no Dia de Ação de Graças: a

sensação de que, em sua fatigada infelicidade, o verdadeiro Arnie

subitamente se aproximara da superfície, talvez quase podendo ser

atingido.







Foi... incrivelmente brutal





comentou Michael.





Assim me

disse Junkins. Compreend

a, não pareceu realmente um acidente. Foi mais

um assassinato.







Assassinato





murmurou Arnie estonteado.





Não, eu nunca...







O quê?





perguntou Michael brusco. Tornou a agarrar o blusão

de Arnie.





O que ia dizer? Arnie olhou para o pai. Seu rosto ficara



novamente hermético.







Nunca pensei que pudesse ser isso





disse ele.





Era o que eu ia

dizer.







Quero apenas que saiba de uma coisa





explicou Michael.





Eles irão procurar alguém com um motivo, por menor que seja. Sabem o

que aconteceu com seu carro, co

mo sabem que esse Welch poderia estar

envolvido naquilo ou que você o

julgasse

envolvido. É bem possível que

Junkins vá procurá

-

lo.







Nada tenho a esconder.










Claro, eu sei disso





concordou Michael.





Ande, vai perder seu

ônibus!







Certo





disse Arnie.





Tenho que ir agora.



No entanto, ficou ali um pouco mais, fitando o pai. De súbito,

Michael se viu recordando o nono aniversário de Arnie. Ele e o filho

tinham ido ao pequeno zoológico em Philly Plains, almoçado juntos e

encerrado o dia jogando dezoito bura

cos no campo de golfe em miniatura,

perto da Estrada Basin, ao ar livre. O local havia pegado fogo em 1975.

Regina não pudera ir, ficara em casa, atacada de bronquite. Eles dois

tinham

-

se divertido muito. Para Michael, aquele fora o melhor aniversário

do f

ilho, o que simbolizara, em sua concepção, o melhor ponto da doce e

despreocupada infância de Arnie, como menino americano. Tinham ido

ao zoológico e voltado para casa sem grandes acontecimentos, exceto que

se haviam divertido





ele e o filho, um filho que



fora e continuava sendo

tão querido.



Michael passou a língua pelos lábios e disse:







Venda aquele carro, Arnie. Por que não o vende? Depois que o

reconstruir inteiramente, desfaça

-

se dele. Pode conseguir um bom

dinheiro. Uns dois... talvez até três mil dó

lares.



De novo, aquela assustadora e cansada expressão passou pelo rosto

de Arnie, mas Michael não podia afirmar com certeza. O sol poente se

transformara em acre linha alaranjada no horizonte ocidental e o pequeno

jardim ficara sombrio. Então a expressão

desaparecera, se é que existira.







Não, eu não poderia fazer isso, papai





disse Arnie docemente,

como se falasse a uma criança.





Agora, não. Já investi muito em

Christine. Demais.



Então ele se foi, cruzando o jardim até a calçada, fundindo

-

se a

outras so

mbras, deixando para trás apenas o som de suas pisadas, mas

que em breve desaparecia.



Investiu muito em Christine? É mesmo? O que, exatamente, Arnie? O que

investiu nesse carro?



Michael baixou os olhos para as folhas, depois observou seu jardim.

Por baixo

de sebe e na cobertura da garagem, a neve cintilava na

escuridão que ia chegando, lívida e teimosamente aguardando reforços. À

espera do inverno.








R

EGINA E

M

ICHAEL



Minha máquina é um barato, minha 409,



Minha 409, com "dual

-

quad".







The Beach Boys





Regina e

stava cansada





parecia cansar

-

se com mais facilidade,

naqueles dias



, de modo que foram para a cama às nove, muito antes de

Arnie chegar. Fizeram amor, um ato sem alegria e mais por obrigação

(ultimamente eles se amavam bastante, quase sempre como obriga

ção e

sem alegria, deixando Michael com a desagradável sensação de que a

esposa passara a usar seu pênis como uma pílula para dormir), depois do

que permaneceram em suas camas geminadas, quando então ele

perguntou, casualmente:







Dormiu bem a noite passada

?







Muito bem





respondeu ela, candidamente, e ele soube que

mentia.







Ótimo.







Levantei por volta das onze e Arnie parecia inquieto





disse

Michael, ainda mantendo o tom casual.



No momento, sentia

-

se profundamente apreensivo. Nesta noite,

percebera algo n

o rosto do filho, algo que não conseguira desvendar, por

causa das sombras do anoitecer. Talvez não fosse nada, absolutamente

nada, mas aquilo cintilava em sua mente como um maldito anúncio de

néon que não se desligava. Seu filho pareceria culpado ou assus

tado? Não

fora apenas um efeito da luz? A menos que resolvesse a charada, o sono

demoraria muito a chegar





e talvez nem chegasse.







Levantei

-

me lá pela uma da madrugada





disse Regina,

apressando

-

se a acrescentar:





Só para ir ao banheiro. Dei uma espiada



em Arnie.





Riu, um tanto melancólica.





Velhos hábitos custam a

morrer, não?










Sim, acho que custam





concordou Michael.







Então, ele dormia profundamente. Eu gostaria que ele passasse a

usar pijama, no tempo frio.







Estava de cuecas?







Estava.



Michael t

ranqüilizou

-

se, imensamente aliviado e bastante

envergonhado de si mesmo. Entretanto, era melhor ficar sabendo... ter

certeza. Fora muito bom ter dito a Arnie que o sabia tão capaz de cometer

um homicídio, quanto caminhar sobre a água. Não obstante, a ment

e,

aquele perverso demônio, tudo pode conceber e parece sentir uma

perversa alegria nisso. Entrelaçando as mãos atrás da cabeça e encarando

a escuridão, Michael pensou que talvez fosse justamente essa a maldita

peculiaridade do viver. Mentalmente, uma espo

sa pode atacar

alegremente seu melhor amigo, um grande amigo pode tramar contra nós

e planejar trair

-

nos, um filho pode assassinar alguém com um carro.



Era melhor ficar envergonhado e esquecer as idéias cretinas.



Arnie estava em casa à uma da madrugada. Er

a improvável que

Regina se enganasse com a hora, por causa do rádio

-

relógio digital sobre a

cômoda do quarto do casal





ele marcava as horas em números enormes,

azuis e indiscutíveis. Seu filho estava ali à uma hora, e o rapaz Welch

havia sido atropelado a



cinco quilômetros de distância, vinte e cinco

minutos depois. Era impossível crer que Arnie pudesse vestir

-

se, sair (sem

Regina perceber, pois certamente ficara acordada, atenta a ele), ir até a

Darnell's, retirar Christine e dirigi

-

la até o local em que

"Penetra" Welch

fora assassinado. Fisicamente impossível.



E, para começar, ele nunca acreditara nisso.



Suas idéias demoníacas estavam satisfeitas. Michael se virou para o

lado direito, dormiu e sonhou que jogava golfe com seu filho de nove anos,

em uma suc

essão de pequenos campos verdejantes, onde giravam

moinhos de vento e pequenos acidentes do terreno os esperavam...

Sonhou ainda que os dois estavam sozinhos, inteiramente sós no mundo,

porque a mãe de seu filho morrera de parto





algo muito triste. Todos

ainda recordavam como Michael ficara inconsolável





mas quando

voltassem para casa, ele e seu filho, a teriam apenas para os dois,

comeriam macarrão diretamente da panela como despreocupados




solteirões, e ao terminarem de lavar os pratos sentar

-

se

-

iam à me

sa da

cozinha, oculta sob jornais espalhados, e construiriam modelos de carros

com inofensivos motores plásticos.



Michael Cunningham sorria em seu sonho. Ao lado dele, na outra

cama, Regina não sorria. Permanecia acordada, esperando o ruído da

porta, denun

ciando que seu filho voltara do mundo lá de fora.



Quando ouvisse a porta sendo aberta e fechada... quando ouvisse os

passos dele nos degraus... então seria capaz de dormir.



Talvez.





J

UNKINS



Fique calma e venha motorar comigo, meu bem



O que foi que disse?



Q

ue me cale e não faça propostas?



Oh, meu bem, você é a minha proposta!



Uma excelente proposta, meu bem.



E adoro excelentes propostas!



Que carro estou dirigindo?



É um Cadillac 48,



Um Cadillac rabo

-

de

-

peixe,



Uma máquina e tanto, meu bem,



Vamos rodar, Josephi

ne, rodar...







Elias McDaniel





Junkins apareceu na Darnell's mais ou menos às oito e quarenta e

cinco daquela noite. Arnie tinha acabado de encerrar seu trabalho em

Christine por aquele dia. Substituíra por uma nova a antena de rádio que

Repperton e seu ba

ndo tinham arrancado e, durante os últimos quinze

minutos, ficara sentado ao volante, ouvindo

Cavalgada do Ouro de Sexta à

Noite

na estação WDIL.






Sua única idéia tinha sido a de ligar o rádio e mover o ponteiro no

mostrador, do começo ao fim, para certific

ar

-

se de que instalara a antena

devidamente e não havia estática. Entretanto, o ponteiro dera com o forte

sinal da WDIL e ele ficara quieto, olhando para diante através do pára

-

brisa, sentado ali com os olhos cinzentos cismadores e distantes. Enquanto

isso

, Bobby Fuller cantava

"I Fought the Law"

Frankie Lymon e os

Teenagers cantavam

"Why Do Fools Fall in Love",

Eddie Cochran cantava

"C'mon Everybody"

e Buddy Holly cantava

"Rave On"...

Não havia

comerciais na WDIL nas noites de sexta

-

feira, nem

disc

-

jockeys

.

Apenas os

sons, a música. Vinda da programação, não de nosso coração. De vez em

quando, uma suave voz feminina interrompia para dizer o que Arnie já

sabia





que estava ouvindo a WDIL

-

Pittsburgh, o som da Rádio Camurça

Azul.



Arnie permaneceu ao volante, s

onhador, as luzes vermelhas dos

marcadores fosforescendo no painel de instrumentos, tamborilando de

leve com os dedos. A antena estava ótima. Sim, tinha feito um bom

trabalho. Como Will dissera: ele possuía jeito para aquilo. Bastava olhar

para Christine,

ela era a prova. Parecia um monte de ferro

-

velho

descansando no gramado de LeBay, mas ele a ressuscitara. Mais tarde,

parecera outro monte de ferro

-

velho, no estacionamento do aeroporto, e

tornara a ressuscitá

-

la. Ele tinha...





Fique gamado... fique gamado



e me diga...



Me diga... para não ficar sozinho...





Ele tinha o quê?



Substituído a antena, claro. Podia recordar, também, que fizera

alguma lanternagem nos amassados. Entretanto, não encomendara

nenhum vidro de pára

-

brisa (embora ele houvesse sido trocado)

, não

encomendara nenhum encapamento novo para os assentos (mas também

haviam sido trocados), tendo

-

se limitado a olhar de perto o que havia

debaixo do capô, uma vez, antes de deixá

-

lo cair com estrondo,

horrorizado ante o estrago que tinham feito na fiaçã

o de Christine.






No entanto, agora o radiador estava intacto, o bloco do motor

perfeito e brilhando, os pistons movimentando

-

se livre e claramente. E

Christine ronronava como uma gata.



Entretanto, havia os sonhos.



Ele sonhara com LeBay ao volante de Christi

ne, LeBay vestindo um

uniforme do Exército, salpicado e sujo de manchas cinza

-

azuladas do

bolor da sepultura. A carne dele se retraíra e sumira. O osso branco e

reluzente assomava em alguns lugares. As órbitas onde outrora ficavam

os olhos de LeBay eram va

zias e escuras (mas havia algo cintilando lá no

fundo, sim, havia algo). E então, os faróis dianteiros de Christine haviam

sido acesos e projetados sobre alguém, espetando

-

o como se espetaria

uma tachinha em um quadrado de cartolina branca. Alguém familiar

.



"Penetra" Welch?



Talvez. No entanto, quando Christine arremetia de súbito para a

frente, com os pneus chiando, parecera a Arnie que o rosto aterrorizado lá

fora, na rua, se derretia como sebo, modificando

-

se a cada vez que o

Plymouth atacava: ora, era o

rosto de Repperton, depois o de Sandy

Galton ou a cara de lua cheia de Will Darnell.



Fosse quem fosse, saltara para um lado, mas LeBay fizera Christine

dar marcha à ré, manobrando a alavanca de mudança com negros dedos

em decomposição





uma aliança de casa

mento pendia de um deles, tão

frouxa como um laço atirado sobre o tronco de uma árvore morta



, e

então a fazia retornar à rua, enquanto a figura corria para um lugar mais

distante. Nessa nova arremetida de Christine, a figura virava a cabeça,

atirando um

olhar terrível para trás, e Arnie vira o rosto de sua mãe...

depois o de Dennis Guilder... o de Leigh, os olhos arregalados sob uma

nuvem flutuante de cabelos louro

-

escuros... e finalmente o seu próprio,

com a boca torcida, gritando:

Não! Não! Não!



Sobrepo

ndo

-

se a tudo, inclusive ao tremendo barulho do cano de

descarga (sem a menor dúvida, algo lá embaixo se danificara), havia a voz

pútrida e triunfante de LeBay, provindo de uma laringe deteriorada,

passando por lábios que já tinham sido repuxados sobre os

dentes e

tatuados com uma delicada fiação de bolor verde

-

escuro, a voz vitoriosa e

estridente de LeBay:



Mais um pouco, seu bosta! Prove só o gostinho!






Houve então o baque surdo e mortal do pára

-

lama de Christine

colidindo contra carne, o brilho dos óculos

que voavam para o alto, no ar

noturno, girando e girando... até Arnie acordar em seu quarto, enovelado

em uma bola trêmula, agarrado ao travesseiro. Faltavam quinze para as

duas da madrugada e sua primeira sensação havia sido de grande e

incrível alívio, o



alívio de estar vivo. Ele estava vivo, LeBay estava morto e

Christine estava salva. As únicas três coisas no mundo que importavam.



Oh, mas como foi que machucou suas costas Arnie?



Era uma voz interior, tímida e insinuante, fazendo uma pergunta

que ele tem

ia responder.



Machuquei

-

me em Philly Plains,

dizia a todos.

Uma peça de ferro

-

velho

começou a deslizar pela carroceria sem laterais do caminho de Will e a empurrei

para cima novamente





na hora não refleti nisso, apenas empurrei. Devo ter

sofrido alguma bo

a distensão.

Era o que tinha dito. Um ferro

-

velho

começara

a

escorregar e ele

o empurrara

para o alto. Entretanto, não havia sido assim

que machucara as costas, hein? Não, não havia.



Naquela noite, depois que ele e Leigh tinham deparado com

Christine demol

ida no pátio de estacionamento, assentada sobre quatro

pneus em tiras... naquela noite na Darnell's, depois que todos saíram... ele

sintonizara o rádio do escritório de Will para ouvir música antiga no

WDIL... Will agora confiava nele, não? Estava entregan

do cigarros em

Nova Iorque, cruzando a divisa estadual, entregando bebida em

Burlington e, por duas vezes, entregara algo embrulhado em pacotes de

papel pardo liso, em Wheeling, onde um cara novo, em um velho Dodge

Challenger, os trocara por outro pacote l

igeiramente maior, também

embrulhado em papel pardo. Arnie pensou que talvez fosse uma troca de

cocaína por dinheiro, mas não quis ter certeza.



Naquelas viagens, ele dirigia um automóvel, um carro particular de

Will, um Imperial 1966, tão negro como a meia

-

noite na Pérsia. O motor

era silencioso e o porta

-

mala tinha fundo falso. Não havia problema,

desde que mantivesse a velocidade limite. Por que haveria? O importante

é que agora ele tinha as chaves para a garagem. Podia entrar, depois que

todos tivessem i

do embora. Como havia feito nessa noite. Então,

sintonizara a WDIL... e tinha... tinha...



Machucado as costas de algum modo.



O que havia feito, para machucá

-

las?






Uma frase estranha lhe chegou em resposta, flutuando de seu

subconsciente:

É apenas um problem

inha singular.



Ele desejaria mesmo saber? Não. De fato, houve vezes em que nem

mesmo queria o carro. Houve vezes em que sentiu ser melhor apenas...

bem, vendê

-

lo ao ferro

-

velho. Não que fosse ou pudesse fazer isso. Era

tão

-

somente porque às vezes (como por



exemplo, após o suado e trêmulo

período em seguida ao sonho da noite passada) achava que livrando

-

se do

carro, poderia ser... mais feliz.



Subitamente, o rádio cuspiu um jato quase felino de estática.







Não se preocupe





sussurrou Arnie.



Deslizou a mão len

tamente pelo painel de instrumentos, adorando

aquele contato. Sim, o carro às vezes o amedrontava. Também supunha

que seu pai estivesse certo: Christine modificara sua vida em certo grau.

No entanto, destiná

-

la ao ferro

-

velho era tão impossível quanto suic

idar

-

se.



A estática sumiu. The Marvelettes cantavam

"Please Mr. Postman".



Então, uma voz disse em seu ouvido:







Arnold Cunningham?



Assustado, ele desligou o rádio. Virou

-

se. Um homenzinho baixote e

vivo debruçava

-

se na janela de Christine. Tinha olhos cast

anho

-

escuros e o

rosto corado





devido ao frio do exterior, supôs Arnie.







Sim?







Rudolph Junkins. Polícia Estadual, Divisão de Detetives.



Junkins enfiou a mão pela janela aberta. Arnie a observou por um

momento. Então, seu pai estava certo.



Ofereceu ao ho

mem seu mais encantador sorriso, apertou

-

lhe a mão

com firmeza e disse:







Não atire, seu guarda, estou desarmado.



Junkins devolveu

-

lhe o sorriso, mas Arnie percebeu que os olhos

dele permaneciam sérios, explorando o carro de uma maneira rápida e

minuciosa,



que não lhe agradou. Não agradou nem um pouco.










Caramba! A julgar pelo que ouvi da polícia local, fiquei com a

impressão de que os caras realmente tinham marcado seu carro, quando

fizeram o trabalhinho nele. Pois nem parece!



Arnie deu de ombros e saiu do



carro. As noites de sexta

-

feira eram

enfadonhas na garagem, o próprio Will raramente aparecia, e não estava

lá agora. Do outro lado, no boxe dez, um sujeito chamado Gabbs colocava

um pára

-

lama novo em seu antigo Valiant e, no canto mais distante da

garage

m, havia o "brrr" periódico de uma chave a ar comprimido,

enquanto um cara colocava pneus de neve em seu carro. Excetuando

-

se

aqueles dois, ele e Junkins tinham toda a garagem para si mesmos.







Não estava tão ruim quanto parecia





disse Arnie. Decidiu que

aquele homenzinho sorridente devia ser muito esperto. Como se em um

prolongamento natural do pensamento, pousou a mão com naturalidade

sobre o teto de Christine e imediatamente se sentiu melhor. Podia

enfrentar o cara, fosse ele inteligente ou não. Afinal,



nada havia que o

preocupasse.





Não houve dano estrutural.







É mesmo? Ouvi dizer que fizeram buracos na carroceria, usando

um instrumento perfurante.





Enquanto falava, Junkins olhava

atentamente para os flancos de Christine.





Pois eu juro que não vejo o



menor indício disso. Você deve ser um gênio na lanternagem, Arnie. Do

jeito como minha mulher dirige, talvez eu devesse contratar seus serviços.



Sorriu de modo tranqüilizador, mas seus olhos continuavam

examinando o carro, de alto a baixo. Pousavam por um



instante no rosto

de Arnie, e então voltavam de novo ao carro. Arnie cada vez estava

gostando menos daquilo.







Sei que sou bom nisso, mas nenhum Deus





disse Arnie.





Se

procurar com atenção, poderá descobrir onde foi feita a lanternagem.





Apontou para u

ma ligeira ondulação na coberta posterior.





Ali

também





apontou para outra ondulação.





Tive sorte de encontrar

algumas partes originais da carroceria Plymouth, no Ruggles. Troquei

toda a porta traseira deste lado. Reparou que a tinta não combina

perfeit

amente?





acrescentou, batendo na porta com os nós dos dedos.







De jeito nenhum





disse Junkins.





Com um microscópio talvez

eu visse a diferença. Assim, a tinta me parece absolutamente igual, Arnie.



Também bateu na porta com os nós dos dedos. Arnie franzi

u o

cenho.










Um trabalho dos diabos





comentou Junkins. Caminhou até a

frente do carro.





Sim, senhor, um trabalho dos

diabos,

Arnie. Merece

parabéns.







Obrigado.





Arnie observou Junkins, disfarçado em sincero

admirador, usando os perspicazes olhos castan

hos para descobrir

amassados suspeitos, falhas na pintura, talvez uma mancha de sangue ou

um punhado de cabelos emaranhados. Procurando sinais de "Penetra"

Welcher. De repente, Arnie teve certeza de ser justamente isso que o bosta

fazia.





O que posso, exa

tamente, fazer pelo senhor, detetive Junkins?



Junkins riu.







Rapaz, quanta formalidade! Não faça isso comigo! Me chame de

Rudy, está bem?







Claro





Arnie concordou sorrindo.





Em que posso ajudá

-

lo,

Rudy?







Compreenda, é curioso





disse Junkins, agachando

-

se para

espiar os faróis dianteiros do lado do motorista. Bateu pensativamente em

um deles com os nós dos dedos e então, com aparente alheamento,

deslizou o indicador pela metálica cobertura semicircular do farol. Seu

sobretudo pairou por um instante sobre



o piso cimentado manchado de

óleo, depois ele se ergueu.





Recebemos comunicação de algo desta

natureza... o quebra

-

quebra em seu carro, quero dizer...







Oh, na verdade eles não o reduziram a

cacos





disse Arnie.

Começava a sentir

-

se em uma espécie de cor

da bamba e voltou a tocar

Christine. A solidez do carro, sua

realidade,

tornaram a confortá

-

lo.





Eles

bem que tentaram, entenda, mas não fizeram um trabalho completo.







Ok.

Acho que não estou bem a par do jargão atual.





Junkins

riu.





De qualquer modo, q

uando o caso veio a mim, o que acha que

perguntei? "Onde estão as fotografias?" Foi o que perguntei. Imaginei que

fosse um descuido, entender? Então, telefonei para a Delegacia de Polícia

de Libertyville e me disseram que

não havia

fotografias.







Claro





r

espondeu Arnie.





Um cara da minha idade só

consegue seguro de responsabilidade e, mesmo assim, com dedução de

setecentos dólares. Se eu tivesse seguro contra danos, teria feito um

bocado de fotos. Então, como não tinha, para que as fotos? Francamente,

não



ia querer nenhuma para meu álbum de recordações.










Tem razão





disse Junkins e caminhou preguiçosamente até a

traseira do carro, os olhos perscrutando em busca de vidros quebrados,

arranhões, traços de culpa.





Sabe o que mais achei curioso? Você nem ao

m

enos deu parte do crime!





Ergueu os olhos escuros e questionadores

para Arnie, fitando

-

o de perto, e então esboçou um pequeno e falso sorriso

de perplexidade.





Nem ao menos deu parte! "Poxa", falei, "o filho da

mãe! E quem comunicou o fato?" O pai do car

a, eles me disseram.





Junkins meneou a cabeça.





Não entendi isso, Arnie, e sou franco em

dizer. Um sujeito se esgota, reformando um carro velho até que ele valha

uns dois, talvez cinco mil dólares, e então aparecem alguns caras e fazem

um baita de um est

rago no carro...







Eu já disse que...



Rudy Junkins ergueu a mão e sorriu tranqüilizadoramente. Por um

fantástico segundo, Arnie pensou que ele fosse dizer "Paz", como Dennis,

quando a situação às vezes ficava um pouco pesada.







Desculpe. Danificaram um pou

co o carro.







Certo





disse Arnie.







De qualquer modo, segundo o que disse sua namorada, um dos

perpetradores... bem, defecou no painel de instrumentos. Achei que você

devia ter ficado louco da vida com isso. Achei que deveria dar parte desse

fato.



O sorri

so se esfumou, e Junkins fitou Arnie com seriedade, inclusive,

consternação. Os olhos cinzentos e frios de Arnie se fixaram nos castanhos

de Junkins.







Merda pode ser lavada





declarou ele finalmente.





Quer saber

de uma coisa, Sr. Rudy? Posso lhe contar u

ma coisa?







Certo, filho.







Quando eu tinha um ano e meio, peguei um garfo e risquei uma

escrivaninha antiga que minha mãe comprara, depois de economizar

cinco anos para isso. Economizando de seu dinheiro para despesas

pessoais, foi o que me disse. Acho qu

e fiz o diabo na escrivaninha, em

bem pouco tempo. Naturalmente, não me lembro de nada, mas ela disse

que só conseguiu ficar parada, espiando para aquilo e chorando.





Arnie

sorriu de leve.





Até agora, nunca pude imaginar minha mãe agindo




dessa forma. Ago

ra, creio que posso. Talvez eu esteja amadurecendo um

pouco, não acha?



Junkins acendeu um cigarro.







Acho que não entendi aonde quer chegar, Arnie. Não percebi o

que quer dizer.







Minha mãe falou que preferia manter

-

me de fraldas até os três

anos, a ver

-

me



fazer aquilo. Porque, disse ela, merda se lava,

desaparece.





Arnie sorriu.





A gente dá descarga e ela vai embora.







Da maneira como "Penetra" Welch se foi?





perguntou Junkins.







Não sei de nada disso.







Não?







Não.







Palavra de escoteiro?





perguntou J

unkins.



A pergunta era humorística, mas não os olhos, que continuavam

sondando Arnie, em busca da menor falha, de um piscar crucial.



Mais abaixo, no corredor, o sujeito que colocava seus pneus de

inverno deixou uma ferramenta cair no concreto. Ela bateu co

ntra o chão e

emitiu um som musical. O sujeito praguejou, quase como em coro:







Vá à merda, sua puta!



Junkins e Arnie olharam ao mesmo tempo para lá, rapidamente, e o

momento se desfez.







Claro, palavra de escoteiro





respondeu Arnie.





Escute, acho

que o

senhor tem que fazer isto, é o seu trabalho...







Certo, é o meu trabalho





assentiu Junkins, suavemente.





O

rapaz foi atropelado três vezes, para a frente e para trás. Virou uma posta

de carne. Teve que ser recolhido com uma pá.







Por favor





disse Arnie,



sentindo

-

se mal. Seu estômago revirou

-

se lentamente.







Ora, por que não? Afinal, não é assim que se faz com merda?

Recolhê

-

la em uma pá?







Não tive nada a ver com aquilo!





gritou Arnie.






O homem do outro lado, o que estava às voltas com seu silencioso,

ol

hou para eles, sobressaltado. Arnie baixou a voz.







Sinto muito. Só queria que o senhor me deixasse em paz. Sabe

muito bem que nada tive a ver com aquilo. Já vistoriou o carro inteiro. Se

Christine tivesse atropelado esse cara, tantas vezes e com tanta

int

ensidade, estaria toda arrebentada. Já vi como é, na TV. E quando tinha

aulas de Mecânica de Automóveis, há dois anos, o Sr. Smolnack explicou

que, em sua opinião, os dois melhores meios para destruir a frente de um

carro seriam atropelar um alce ou uma pe

ssoa. Claro que era um tipo de

piada, mas ele não estava brincando... se entende o que quero dizer.



Arnie engoliu em seco e ouviu um "clique" em sua garganta, que

também estava seca.







Sem dúvida





disse Junkins.





Seu carro me parece

perfeitamente legal.

Você é que não está, filho. Parece um sonâmbulo.

Parece absolutamente fodido. Desculpe pelo termo.





Ele jogou o cigarro

fora.





Sabe de uma coisa, Arnie?







O quê?







Acho que você mente mais depressa do que um cavalo pode

trotar.





Junkins bateu no capô de



Christine.





Talvez eu devesse dizer,

mais depressa do que um Plymouth pode correr.



Arnie olhou para ele, a mão pousada no espelho externo, do lado do

passageiro. Não disse nada.







Não creio que esteja mentindo sobre matar o rapaz Welch, mas

acho que ment

e sobre o que eles fizeram com seu carro; sua namorada

disse que eles fizeram um estrago dos diabos e, raios, ela é muito mais

convincente do que você. Chorou, enquanto me contava. Disse que havia

vidros quebrados por todos os lados... Por falar nisto, ond

e comprou os

vidros de substituição?







No McConnell's





respondeu Arnie prontamente.





No Burg.







Ainda tem o recibo?







Joguei fora.







Bem, mas eles devem lembrar de você. Um pedido tão grande...







É possível





disse Arnie



, mas em seu lugar não contaria

muito

com isso, Rudy. Eles são os maiores especialistas em vidros para




automóveis, a oeste de Nova Iorque e leste de Chicago. Cobrem uma boa

área. Fazem um bocado de negócios, muitos deles relativos a carros velhos.







Ainda assim, devem ter um comprovante.







Paguei em dinheiro.







Bem, seu nome deve constar da remessa.







Não





respondeu Arnie e sorriu friamente.





A encomenda foi

despachada em nome da Garagem de Darnell. Desta forma, consigo um

desconto de dez por cento.







Você cobriu todas as brechas, não?







Tenente Junkins...







Está mentindo também sobre o vidro, embora... raios me partam,

eu não saiba por quê.







O senhor não sabe mesmo de nada





respondeu Arnie,

irritadamente.





Desde quando é crime comprar vidros de reposição, se

alguém quebra nossas jane

las? Ou pagar em dinheiro? Ou conseguir um

desconto?







Desde nunca





disse Junkins.







Pois então por que não acaba com isso?







O mais importante





disse Junkins





é que, para mim, você

mente quando diz que não sabe nada sobre o que aconteceu ao rapaz

Welch

. Você sabe de alguma coisa. E eu gostaria de descobrir o quê.







Não sei de nada





insistiu Arnie.







E quanto a...







Não tenho mais nada a lhe dizer





cortou Arnie.





Sinto muito.







Está bem





disse Junkins.



Ele desistiu tão rapidamente que Arnie ficou des

confiado em

seguida. O policial remexeu no paletó esporte que usava por baixo do

sobretudo e tirou a carteira. Arnie viu que ele usava uma arma em um

coldre de ombro e desconfiou de que Junkins pretendia fazê

-

lo ver a arma.

Pegou um cartão e o estendeu, di

zendo:










Posso ser encontrado em qualquer destes números, caso queira

falar comigo. Sobre alguma coisa. Qualquer coisa.



Arnie guardou o cartão no bolso da camisa.



Junkins deu mais uma lenta passada em torno de Christine.







Que diabo de trabalho de restaura

ção!





repetiu. Olhou

frontalmente para Arnie.





Por que você não deu parte?



Arnie deixou escapar um baixo e trêmulo suspiro.







Porque pensei que isso seria o fim





declarou.





Achei que eles

se dariam por satisfeitos.







Entendo





disse Junkins.





Imaginei



que pudesse ser isso. Boa

noite, filho.







Boa noite.



Junkins começou a afastar

-

se, depois se virou e voltou.







Pense no que lhe disse





falou.





Você está realmente com uma

aparência infernal, entende o que quero dizer? Tem uma bela garota. Ela

está preoc

upada com você, ficou abalada com o que aconteceu a seu carro.

Seu pai também está preocupado com você. Pude perceber isso ao telefone.

Reflita no que lhe falei e ligue para mim, filho. Dormirá melhor depois.



Arnie sentiu algo trêmulo por trás dos lábios,

algo diminuto e

lacrimoso, que doía. Os olhos castanhos de Junkins eram gentis. Ele abriu

a boca





só Deus sabe o que teria dito



, mas então uma monstruosa

pontada de dor o atingiu nas costas, fazendo

-

o retesar

-

se subitamente.

Teve também o efeito da bofe

tada em um histérico. Sentiu

-

se mais calmo,

de cabeça limpa novamente.







Boa noite





repetiu.





Boa noite, Rudy.



Junkins ficou olhando para ele por mais um momento, perturbado,

antes de ir embora.



Arnie começou a tremer de alto a baixo. O tremor começou em



suas

mãos, espraiou

-

se pelos braços até os cotovelos e, de repente, abrangia

todo seu corpo. Agarrou

-

se cegamente à maçaneta e deslizou para o

interior de Christine, para os reconfortantes cheiros de carro e de

estofamento novos. Ligou a chave, as luzes d

o painel acenderam

-

se e ele

tateou em busca do botão do rádio.






Ao fazer o movimento, seus olhos caíram na etiqueta oscilante de

couro, tendo impressas as letras RDL. Seu sonho lhe voltou à mente, com

uma terrível e súbita intensidade: o cadáver putrefato s

entado onde ele se

sentava agora, as órbitas vazias olhando pelo pára

-

brisa, os ossos dos

dedos aferrados ao volante, o riso vazio dos dentes da caveira, quando

Christine arremeteu contra "Penetra" Welch, enquanto o rádio,

sintonizado na WDIL, irradiava

"L

ast Kiss",

por J. Frank Wilson e os

Cavaliers.



De repente sentiu

-

se mal, nauseado outra vez, uma náusea que

flutuava entre seu estômago e o fundo da garganta. Arnie escorregou para

fora do carro e correu para o banheiro, as pisadas latejando loucamente

nos



ouvidos. Foi bem a tempo: vomitou e tornou a vomitar, até nada mais

sobrar dentro dele senão saliva amarga. Havia luzes dançando diante de

seus olhos. Os ouvidos zumbiam e os músculos abdominais latejavam

fatigadamente.



Olhou para seu rosto pálido e espec

tral no espelho manchado, para

os círculos escuros em torno dos olhos e a mecha solta de cabelo caída

sobre a testa. Junkins estava certo. Tinha uma aparência infernal.



Entretanto, todas as suas espinhas tinham desaparecido.



Ele riu como louco. Não desisti

ria de Christine, por nada do mundo.

Aí estava uma coisa que jamais faria. Ele...



De repente, ficou nauseado outra vez, mas nada havia para vomitar,

somente aquelas ondas secas que torturavam e comprimiam, aquele sabor

intenso de vômito na boca outra vez.



Precisava falar com Leigh. Subitamente, sentia necessidade de falar

com ela.



Entrou no escritório de Will, onde o único som provinha do relógio

pregado à parede, anunciando novos minutos. Discou o número dos

Cabot, que sabia de cor, mas precisou tentar dua

s vezes, tal o tremor de

seus dedos.



A própria Leigh atendeu, com voz sonolenta.







Arnie?







Preciso falar com você. Preciso vê

-

la, Leigh.










São quase dez da noite, Arnie. Acabei de sair do chuveiro e fui

para a cama... Estava quase dormindo...







Por favor





disse ele e fechou os olhos.







Amanhã





disse ela.





Não pode ser essa noite, meus pais não

me deixariam sair, já é muito tarde...







São apenas dez horas. E hoje é sexta

-

feira.







Para falar a verdade, eles não querem mais que eu saia com você,

Arnie. Gos

taram de você no início, meu pai ainda o aprecia... mas os dois

acham que você ficou meio esquisito.





Houve uma longa, longuíssima

pausa de parte de Leigh.





Eu também acho





completou ela, finalmente.







Isto significa que não quer mais me ver?





pergunto

u ele, em voz

sem inflexão. Seu estômago doía, as costas doíam, todo ele doía.







Não.





Agora, uma levíssima censura pontilhou a voz dela.





Eu estava começando a pensar que

você não

queria me ver... não na escola,

e à noite você está sempre na garagem. Tr

abalhando em seu carro.







Já está pronto.





disse ele. E então, com um monstruoso

esforço:





É que eu queria o carro para...

aiii, droga

!



Ele tocou as costas no lugar onde sentira outra intensa pontada de

dor, mas sua mão encontrou apenas um pedaço do cole

te ortopédico.







Arnie?





ela gritou alarmada.





Está tudo bem com você?







Sim, está. Senti uma pontada nas costas.







O que é que ia dizer?







Amanhã





disse ele.





Vamos tomar um sorvete no Baskin

-

Robbins. Podemos também fazer algumas compras de Natal e ja

ntar.

Depois, por volta das sete, levo você para casa. E não estarei esquisito.

Prometo.



Ela riu um pouco e Arnie sentiu um imenso alívio. Era como um

bálsamo.







Seu bobão!







Isto quer dizer que aceita?







Sim, quer dizer que aceito.





Leigh fez uma pausa,

depois

continuou suavemente:





Falei que meus pais não concordam em que




continue vendo você muitas vezes. Não disse que era essa a minha

vontade.







Obrigado





disse ele, lutando para manter a voz firme.





Obrigado por isso.







Sobre o que você queria falar

comigo?



Christine. Quero falar com você sobre ela





e sobre meus sonhos. E sobre

por que estou com uma aparência infernal E por que agora estou sempre querendo

ouvir a WDIL, sobre o que fiz naquela noite, depois que todos se foram... a noite

em que machuqu

ei minhas costas. Oh, Leigh, eu quero...



Outra pontada de dor nas costas, como garras de gato.







Acho que acabamos de resolver o assunto





respondeu.







Bem.





Uma ligeira e cálida pausa.





Ótimo.







Leigh?







Hum?







Agora teremos mais tempo. Prometo. Todo o

tempo que você

quiser.



Para si mesmo, ele disse:

Porque agora, com Dennis no hospital, você é

tudo que me resta, tudo que resta entre eu... eu e...







Está bem





disse Leigh.







Eu te amo.







Tchau, Arnie.



Diga o mesmo!,

ele quis gritar, de repente.

Diga o me

smo, preciso que

você também diga.'



Entretanto, em seu ouvido soou apenas o clique do telefone.



Ficou sentado à mesa de Will por muito tempo, de cabeça baixa,

procurando controlar

-

se. Leigh não precisava repetir que o amava, a cada

vez que ele lhe dizia is

so, precisava? Afinal, ele não estava tão necessitado

assim daquela segurança. Ou estaria?



Levantando

-

se, ele foi até a porta. O mais importante de tudo é que

Leigh ia sair com ele no dia seguinte. Fariam as compras de Natal que

haviam planejado, no dia em



que aqueles bostas tinham retalhado




Christine. Passeariam e conversariam. Ia ser muito bom. Leigh diria que o

amava.







Ela dirá





sussurrou Arnie, parado à porta.



Entretanto, um pouco além, no lado esquerdo da garagem, Christine

parecia uma muda e estúpid

a negação, com a grade do radiador

ressaltando

-

se para diante, como se caçasse alguma coisa.



Então, a voz sussurrou do fundo de sua consciência, a sombria e

questionadora voz:

Como foi que machucou as costas? Como foi que machucou

as costas? Como foi que m

achucou as costas, Arnie?



Era uma pergunta à qual se esquivava. Ele temia a resposta.





L

EIGH E

C

HRISTINE



Meu bem passou em um Cadillac zerinho,



Ela disse: "Ei, venha cá, paizinho,



Eu nunca vou voltar! "



Meu bem, meu bem, não ouve o meu pedido?



Volte, doçur

a, volte para mim!



Ela disse: "Bolas pra você, paizão,



Eu nunca vou voltar!"







The Clash





O dia era cinzento e ameaçava nevar, mas Arnie conseguira ambas

as coisas





os dois tinham se divertido e ele não estava esquisito. A Sra.

Cabot estava em casa, quand

o foi buscar Leigh, e a acolhida inicial foi fria.

Depois de bastante tempo





talvez uns vinte minutos





Leigh desceu,

usando uma suéter cor de caramelo que se ajustava adoravelmente ao

busto e calças novas cor de uva, que se ajustavam adoravelmente a seus



quadris. A inexplicável demora, em uma garota que quase sempre se

mostrara pontual, devia ter sido deliberada. Arnie a interrogou mais tarde

e Leigh negou, com uma inocência de olhos talvez um pouco arregalados

demais, porém, de qualquer modo, funcionando



a contento.






Arnie podia ser sedutor quando queria e, enquanto esperava por

Leigh, atirou

-

se à tarefa com vontade, envolvendo a Sra. Cabot. Antes que

Leigh finalmente aparecesse descendo a escada, o cabelo oscilando em um

rabo

-

de

-

cavalo, sua mãe já se rend

era. Tinha oferecido uma Pepsi

-

Cola a

Arnie e ouvia atentamente os casos que ele contava sobre o clube de

xadrez.







É a única atividade extracurricular realmente

civilizada

de que já

ouvi falar





disse ela a Leigh, sorrindo aprovadoramente para ele.







TEDI

OOOOSA!





trombeteou Leigh.



Passou um braço pela cintura de Arnie e o beijou sonoramente na

face.







Leigh

Cabot!







Desculpe, mamãe, mas ele fica interessante manchado de batom,

não acha? Um momento, Arnie, vou pegar um lenço de papel.

Não toque

o

lugar.



Re

mexeu em sua bolsa à procura do lenço. Arnie olhou para a Sra.

Cabot e revirou os olhos. Natalie Cabot levou a mão à boca e sorriu

sufocadamente. A

reconciliação

entre ela e Arnie era total.



Arnie e Leigh foram ao Baskin, onde finalmente se desfez um inici

al

constrangimento que restava da conversa telefônica da véspera. Arnie

tinha um vago receio de que Christine não se portasse à altura ou que, a

qualquer momento, Leigh encontrasse algo desagradável a dizer sobre o

carro. Ela jamais gostara de andar em seu



carro. As duas preocupações, no

entanto, foram desnecessárias. Christine funcionou como um fino relógio

suíço, e as únicas coisas que Leigh teve a dizer a respeito estavam

mescladas de alegria e admiração.







Eu jamais acreditaria





comentou, quando saíram



do pequeno

pátio de estacionamento da sorveteria e se juntaram ao fluxo do trânsito,

em direção ao Monroeville Mall.





Você deve ter trabalhado neste carro

como um escravo!







Acho que não foi tão difícil como imagina





disse Arnie.





Quer

ouvir música?







Por que não?






Arnie ligou o rádio





The Silhouettes

seguiam através de

"Get a job",

sonolenta e cadenciadamente. Leigh fez uma careta.







Hum... A DIL. Posso mudar?







À vontade.



Leigh sintonizou uma estação de

rock de

Pittsburg e pegou Billy Joel.

"Talvez vo

cê tenha razão", admitia Billy, jovialmente, "Eu devo estar

maluco". Em seguida, ele dizia a Virgínia, sua namorada, que as garotas

católicas começavam muito tarde





era o programa

Block Party Weekend.

Vai ser agora,

pensou Arnie.

Ela começará a ratear...

vai parar... qualquer coisa.

Christine, no entanto, limitou

-

se a continuar rodando.



A rua de pedestres estava congestionada por uma confusão de

compradores, mas todos mostravam boa disposição; a última, frenética e

por vezes desagradável corrida de Natal a

inda distava duas semanas. O

espírito natalino era recente o bastante para ser novidade, permitindo que

apreciassem os ouropéis em cordões estendidos através das amplas

alamedas do lugar, sem que ninguém se aborrecesse ou mostrasse

tendências a Ebenezer Sc

roogey. O insistente retinir dos sinos dos papais

-

noéis do Exército da Salvação, por enquanto, ainda não eram uma culposa

irritação; eles preferiam cantar as boas

-

novas e boa vontade, em vez de

enveredarem pela monótona e metálica cantoria de

Os pobres não



têm Natal,

os pobres não têm Natal, os pobres não têm Natal,

que Arnie tinha a impressão

de sempre ouvir, à medida que o dia estava mais próximo e que tanto as

balconistas como os papais

-

noéis do Exército da Salvação ficavam mais

apoquentados e de olhos m

ais fundos.



Caminharam de mãos dadas, até ficarem impossibilitados pelo

número crescente de embrulhos. Então Arnie se queixou, alegremente, de

que Leigh o transformara em seu burro de carga. Ao descerem para o

nível inferior, em direção ao B. Dalton, onde

Arnie queria comprar um

livro sobre fabricação de brinquedos, para o pai de Dennis Guilder, Leigh

percebeu que começara a nevar. Ficaram por um instante na escada,

contemplando a vidraça, observando tudo como crianças. Arnie lhe

tomou a mão e Leigh o fitou

, sorrindo. Ele podia sentir o perfume de sua

pele, limpa e com leve cheiro de sabonete; podia sentir a fragrância de

seus cabelos. Moveu a cabeça ligeiramente para diante; Leigh moveu a

dela um pouquinho, aproximando

-

se. Beijaram

-

se de leve e ele lhe

aper

tou a mão. Mais tarde, depois da visita à livraria, permaneceram

acima do rinque no centro da rua de pedestres, contemplando os




patinadores que deslizavam, evoluíam e faziam piruetas, ao som de

músicas natalinas.



Foi um dia excelente, até o momento em que

Leigh Cabot quase

morreu.





Ela teria morrido, sem a menor dúvida, se não fosse o carona. Então,

já rodavam de volta e um prematuro crepúsculo de dezembro há muito se

tornara escuro pela nevada. Firme sobre as rodas como sempre, Christine

ronronava com faci

lidade através dos dez centímetros de neve solta e

recém

-

caída.



Arnie fizera reserva para um jantar antecipado na British Lion Steak

House, realmente o único bom restaurante de Libertyville, mas o tempo

voara e os dois haviam concordado em uma refeição lig

eira, no

McDonald's da JFK Drive. Leigh prometera à mãe estar em casa às oito e

meia, porque os Cabots iam "receber amigos" e, quando deixaram a rua de

pedestres, já faltavam quinze para as oito.







Não faz mal





disse Arnie.





De qualquer modo, estou quase



falido mesmo.



Os faróis iluminaram o carona, de pé no cruzamento da Rota 17 com

a JFK Drive, faltando ainda oito quilômetros para Libertyville. Seus

cabelos negros batiam nos ombros, estavam salpicados de neve, e havia

uma mochila entre seus pés.



À medida



que se aproximavam, o carona ergueu um cartaz, pintado

em letras com tinta luminosa, que dizia: LIBERTYVILLE. PA. Quando

chegaram mais perto, ele virou o cartaz. Do outro lado estava escrito:

UNIVERSITÁRIO NÃO

-

PARANÓICO.



Leigh começou a rir.







Vamos dar u

ma carona a ele, Arnie.







Justamente quando eles se dão ao trabalho de anunciar sua

condição não

-

paranóica





disse Arnie





é que a gente deve ter mais

cuidado. Mas tudo bem, vá lá!



Desviou o carro para a beira da estrada. Naquela noite, ele daria a

lua a L

eigh, se ela pedisse.






Christine rodou maciamente para o acostamento, os pneus quase

não deslizando. No entanto, ao parar, a estática crepitou no rádio, que até

então vinha irradiando um rock pesado. Quando a estática diminuiu, os

Big Bopper cantavam

"Chant

illy Lace".







O que houve com o programa

Block Party Weekend?





perguntou

Leigh, quando o carona correu para eles.







Não sei





respondeu Arnie, embora soubesse.



Aquilo já acontecera antes. Às vezes, tudo quanto o rádio de

Christine captava era a estação WD

IL, pouco importando que botões

fossem apertados ou por mais que se manuseasse o convertor FM, sob o

painel de instrumentos; era a WDIL ou nada.



De repente, ele decidiu que fora um erro parar para o carona.



Agora, contudo, era tarde demais para recuar; o s

ujeito já abrira

uma das portas traseiras de Christine, atirava sua sacola para dentro e

entrava depois dela. Uma rajada de ar frio e de neve entraram com ele.







Poxa, cara, obrigado!





Ele suspirou.





Meus dedos das mãos e

dos pés já se mandaram pra Miami



Beach, faz uns vinte minutos. Para

algum lugar eles foram mesmo, e me deixaram aqui porque não os sinto

mais.







Agradeça à patroa





disse Arnie, lacônico.







Obrigado, madame





disse o carona, levando os dedos,

galantemente, à aba de um chapéu invisível.







Não foi nada





Leigh sorriu.





Feliz Natal.







O mesmo para vocês





disse o carona



, embora pareça que tal

coisa nem exista, quando se fica em pé lá fora, tentando pegar uma carona

numa noite assim. O pessoal dispara perto da gente e depois desaparece.

Vo

om





Ele olhou em torno apreciativamente.





Um belo carro, cara. Um

diabo de carro bonito!







Obrigado





respondeu Arnie.







Você mesmo o restaurou?







Eu mesmo.



Leigh olhava para Arnie, perplexa. Sua expansividade anterior fora

substituída por um laconismo q

ue não lhe era comum. No rádio, os Big




Bopper terminavam e entrava Richie Valens, com "La Bamba". O carona

sacudiu a cabeça e riu.







Primeiro os Big Bopper, depois Richie Valens. Deve ser a noite

dos mortos no rádio. A boa e velha WDIL!







O que quer dizer?







perguntou Leigh. Arnie desligou o rádio.







Eles morreram em um desastre de avião. Com Buddy Holly.







Oh!





exclamou Leigh, baixinho.



Talvez o carona também sentisse a mudança no ânimo de Arnie; o

rapaz permaneceu calado e meditativo no banco de trás. Lá



fora, a neve

começava a cair mais rapidamente e mais compacta. Era a primeira boa

tempestade da estação.



Por fim, os arcos dourados da lanchonete piscaram, em meio à neve.







Quer que eu vá até lá, Arnie?





perguntou Leigh.



Arnie mergulhara em uma quietude



quase pétrea, rejeitando a

insistência de Leigh em manter conversa, com meros grunhidos.







Eu vou





respondeu ele, manobrando o carro.





O que vai

querer?







Só um hambúrguer e batata frita, por favor.



Antes, ela tinha pensado na refeição completa





Big Ma

c, algo para

beber e até mesmo os biscoitos, mas seu apetite parecia ter

-

se reduzido a

zero.



Arnie estacionou. À luz amarelada que vinha do interior do prédio

baixo de tijolos, o rosto dele pareceu esverdeado, de certa forma até

doentio. Virou

-

se para trás

, o braço apoiando

-

se no encosto.







Quer que traga alguma coisa pra você?





perguntou ao carona.







Não, obrigado





disse o rapaz.





Os velhos me esperam para o

jantar. Não posso desapontar minha mãe. Ela mata um carneiro gordo

cada vez que venho em c...



A

batida da porta cortou sua palavra final. Arnie já se afastava,

encaminhando

-

se apressadamente para a porta marcada ENTRE, as botas

chutando pequeninos jatos de neve recém

-

caída.










Ele é sempre carrancudo assim?





perguntou o carona.





Ou só

fica esquisito



de vez em quando?







Ele é muito agradável





respondeu Leigh, com firmeza.



Ficara subitamente nervosa. Arnie desligara o motor e levara as

chaves, deixando

-

a sozinha com o estranho no banco traseiro. Podia vê

-

lo

pelo espelho retrovisor e, de repente, aquel

es compridos cabelos negros,

emaranhados pelo vento, o chumaço de barba e os olhos escuros deram

-

lhe uma aparência selvagem, como de algum membro do bando de

Manson.







Onde é que você estuda?





perguntou ela.



Seus dedos davam puxadelas nas calças e forçou

-

os a parar.







Pitt





disse o carona, e nada mais.



Seus olhos encontraram os dela no espelho e Leigh desviou

rapidamente os seus para o colo. Calças cor de uva. Usara

-

as porque, certa

vez, Arnie tinha dito que gostava delas





talvez por serem as mais

aperta

das que tinha, ainda mais justas do que suas Levi's. Subitamente ela

desejou estar usando outra coisa, algo que não pudesse ser considerado

provocante, nem por algum exagero da imaginação: um saco de cereais,

talvez. Tentou sorrir





era uma idéia engraçada

, sem dúvida, um saco de

cereais, dava vontade de rir, ha

-

ha

-

ho

-

ho, e bater nos joelhos





só que

nenhum sorriso lhe veio aos lábios. Não conseguia afastar aquela imagem

da mente: Arnie a deixara sozinha com o estranho (Por castigo? Tinha sido

idéia dela re

colhê

-

lo.) e agora estava assustada.







Vibrações negativas





disse o carona de repente, fazendo

-

a

conter a respiração.



As palavras dele eram decididas e conclusivas. Pelo vidro da janela,

Leigh podia ver Arnie de pé, o quinto ou sexto da fila. Ainda demora

ria

um pouco, até chegar ao balcão. Viu

-

se imaginando o carona enlaçando

subitamente sua garganta com as mãos. Claro que poderia alcançar a

buzina... mas a buzina soaria? Leigh duvidou disso, sem qualquer razão

lógica. Ficou pensando que poderia alcançar a



buzina e fazê

-

la soar

noventa e nove vezes, satisfatoriamente. Entretanto, na centésima, estaria

sendo estrangulada por aquele carona por quem intercedera





e a buzina

não soaria. Porque... porque Christine não gostava dela. De fato, achava




que Christine

a odiava. Simples assim. Uma loucura, mas algo bem

simples.







Co... como disse?



Olhou para trás, pelo espelho retrovisor. Seu alívio foi imenso, ao

perceber que o carona nem olhava para ela. Os olhos dele vistoriavam o

carro. Tocou o forro do banco com a p

alma da mão, depois esfregou de

leve a forração do teto com as pontas dos dedos.







Vibrações negativas





disse ele e meneou a cabeça.





Não sei

por que, mas estou captando vibrações negativas nesse carro.







É mesmo?





perguntou ela, esperando que a voz soa

sse neutra.







Hum

-

hum. Fiquei preso num elevador certa vez, quando ainda

criança. Desde então, tenho acessos de claustrofobia. Nunca tive nenhum

em carro antes mas, poxa, estou tendo um agora. Dos piores. Acho que

você poderia acender um fósforo na minha l

íngua, tão seca está minha

boca.



Ele deu uma risada, breve e constrangida.







Se já não fosse tão tarde, eu sairia daqui e caminharia. Sem ofensa

para você ou para o carro de seu cara





acrescentou depressa.



Quando Leigh olhou pelo retrovisor, os olhos dele



nada tinham de

selvagem, estavam apenas nervosos. Aparentemente, o carona não

brincava a respeito da claustrofobia e não o achava mais com qualquer

semelhança com Charlie Manson. Perguntou

-

se por que fora tão idiota...

só que agora sabia





como e por quê.



Sabia perfeitamente bem.



Era o carro. Estivera absolutamente bem o dia inteiro, rodando em

Christine, mas agora o nervosismo e antipatia anteriores haviam

retornado. Ela apenas transmitira tais sentimentos ao carona, porque...

bem, porque alguém pode fica

r assustado e nervoso por causa de algum

cara recém

-

recolhido na estrada, mas era loucura ter medo de um carro,

uma construção inanimada de aço, vidro, plástico e cromado. Aquilo não

era apenas um pouco excêntrico, era

loucura.







Não está sentindo um cheir

o?





perguntou ele, de repente.







Cheiro de quê?







Um cheiro ruim.










Não, não sinto cheiro nenhum.





Os dedos dela agora

beliscavam a barra da suéter, arrancando fiapos de lã. O coração batia

desagradavelmente no peito.





Deve ser parte do seu acesso de

cl

austrofobia.







Hum... acho que sim.



Só que ela

sentia

o cheiro. Por sob os novos e agradáveis cheiros de

couro e estofamento, havia um leve odor: algo assim como ovos podres.

Um leve... um vaguíssimo odor.







Você se importa se eu baixar a janela um pouquin

ho?







De modo nenhum.



Leigh precisou esforçar

-

se um pouco para manter a voz firme, com

naturalidade. De súbito, em sua mente surgiu a foto que estivera no jornal

da manhã anterior, uma foto de "Penetra" Welch, tirada do anuário escolar.

Na legenda, estava

escrito:

Peter Welch, vítima de fatal incidente de

atropelamento e fuga que, segundo a polícia, pode ter sido assassinato.



O carona baixou o vidro de sua janela uns sete centímetros e no

carro penetrou uma brusca rajada de ar frio, carregando o cheiro. No

interior do McDonald's, Arnie chegara ao balcão e fazia o pedido. Ao

olhar para ele, Leigh experimentou uma tão estranha onda de amor e

medo que a mistura a deixou nauseada





e, pela segunda ou terceira vez

ultimamente, desejou ter

-

se ligado a Dennis prime

iro, Dennis que parecia

tão seguro e sensato...



Leigh procurou pensar em outra coisa.







Diga apenas se o frio está incomodando





disse o carona, em

tom de desculpa.





Sei que sou meio esquisito.





Deu um suspiro.





Às

vezes acho que nunca devia ter desisti

do das drogas, entende?



Leigh sorriu.



Arnie caminhava para eles, segurando um saco branco de papel,

escorregou ligeiramente na neve e então entrou no carro.







Aqui dentro está frio como uma geladeira





grunhiu.







Desculpe, cara





disse o carona, tornando a



subir o vidro.






Leigh esperou, para ver se aquele cheiro voltaria, mas agora só

conseguia sentir o odor do couro, do estofamento dos bancos e o vago

perfume da loção de barba de Arnie.







Pegue o seu, Leigh.



Entregou

-

lhe um hambúrguer, batatas fritas e uma

Coca pequena.

Tinha comprado um Big Mac para si mesmo.







Queria agradecer a carona, cara





disse o rapaz, do banco

traseiro.





Vou ficar na esquina da JFK com Center.







Está bem





respondeu Arnie, lacônico, ligando o motor.



A neve agora caía mais pesadamen

te e o vento começara a ulular.

Pela primeira vez, Leigh sentiu Christine derrapar um pouco, ao dirigir

-

se

para o meio da rua, agora quase deserta. Estavam a menos de quinze

minutos de casa.



Afastado aquele cheiro, Leigh descobriu que seu apetite voltara