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  Texto selecionado
abduzidos
alfredo jose dias

Abduzidos ROBIN COOK

Título original: ABDUCTION Tradução: Celina Cavalcante Falck Editora Record, 2001 ISBN 85-01-06055-0 Digitalizado, revisado e formatado por SusanaCap www.portaldetonando.com.br/forumnovo/






Para Cameron,



bem

-

vinda à vida,



"P

ingo d

e Gente

"



***





1

1





Uma vibração esquisita despertou Perry Bergman de um sono

inquie

to, e instantaneamente um estranho pressentimento o invadiu. O

desa

gradável murmúrio o fez recordar unhas raspando um quadro

-

negro.

Estremecendo, ele jogou para o lado o cobe

rtor. Quando se ergueu, viu

que a vibração continuava. Os pés descalços sobre o convés de metal lhe

davam a impressão de se tratar de uma broca de dentista. Logo abai

xo era

capaz de detectar o zunido normal dos geradores do navio e o ronco dos

ventiladore

s de ar

-

condicionado.







Mas que diabo?...





disse em voz alta, mesmo não vendo

ninguém ao alcance de sua voz para poder lhe dar alguma explicação.

Tinha vindo de helicóptero até o navio, o

Benthic Explorer,

na noite

anterior, depois de um longo vôo de Los A

ngeles até Nova York e de lá

até Ponta Delgada, na ilha açoreana de San Miguel. Devido à mudança de

fusos horários e após ouvir uma longa exposição dos problemas técnicos

que a equipe técnica de sua empresa vinha enfrentando, estava

compreensivelmente exau

sto. Não gos

tou de ser despertado depois de

apenas quatro horas de sono, ainda mais por uma vibração tão intensa.



Arrancando do gancho o receptor do intercomunicador do navio,

pressionou irritado os botões, digitando o número da ponte de comando.

Enquanto



aguardava que a ligação se completasse, espiou pela vigia de

sua cabine VIP, pondo

-

se na ponta dos pés. Com um metro e setenta de

altura, Perry não se considerava baixo, mas simplesmente um cara que

não era alto. Lá fora o sol mal havia se erguido acima d

o horizonte. O

navio projetava uma longa sombra sobre o Atlântico. Perry estava

olhando para o oeste, além de um mar enevoado e calmo, cuja superfí

cie




lembrava uma vasta extensão de chumbo fundido. A água ondula

va

-

se

sinuosamente com ondas baixas e bem s

eparadas umas das outras. A

serenidade da cena contrastava com os acontecimentos que se davam

abaixo da superfície. O

Benthic Explorer

estava sendo mantido numa

posição fixa por um sistema de posicionamento dinâmico comandado por

computador, que movimentav

a os hélices propulsores bem como os

impelidores de proa e de ré acima de uma parte da vulcânica e

sismicamente ativa Cadeia Meso

-

Atlântica, uma cadeia de montanhas

pon

tiagudas de mais de 20 mil quilômetros de extensão, que divide o

oceano. Com a extrusão



constante de enormes quantidades de lava, as

explo

sões submarinas de vapor e freqüentes miniterremotos, a cordilheira

submersa era a antítese da tranqüilidade estivai da superfície do oceano.







Ponte





Perry ouviu uma voz entediada dizer.







Onde está o c

apitão Jameson?





indagou Perry, irritado.







Na cama dele, pelo que sei





disse a voz, tranqüilamente.







Mas que porra de vibração é essa?





insistiu Perry.







Sei lá, mas não está vindo do grupo gerador do navio, se é o que

quer saber. Senão eu teria ouvid

o da sala de máquinas. É provável que

seja apenas a sonda de perfuração. Quer que eu ligue para a cabine de

perfuração?



Perry não respondeu; só bateu o telefone na cara do outro. Não po

-

dia acreditar que o sujeito lá da ponte não estivesse pensando em inve

s

-

tigar a vibração ele mesmo. Será que não estava ligando a mínima para o

trabalho? Perry ficou fulo da vida com aquela falta de profissionalismo na

operação do navio, mas resolveu tratar disso depois. Em vez disso tentou

se concentrar em vestir sua

calça

jeans

e blusa grossa de gola alta.Não

precisava que ninguém lhe dissesse isso para saber que a vibração podia

estar vindo da sonda de perfuração. Estava na cara. Afinal, tinha sido

devido a dificuldades na perfuração que ele havia vindo de Los Angeles.



Per

ry sabia que havia apostado o futuro da Benthic Marine naquele

projeto: perfurar uma câmara magmática no interior de uma monta

nha

submarina a oeste dos Açores. Era um projeto independente, e por isso a

empresa estava gastando em vez de receber, de forma q

ue a san

gria de

dinheiro estava sendo pavorosa. A motivação de Perry para essa

empreitada estava na crença de que o feito iria chamar a atenção da

opinião pública, concentrar o interesse na exploração submarina e




catapultar a Benthic Marine para a diantei

ra da pesquisa oceanográfica.

Infelizmente, parecia que o empreendimento não estava saindo como

havia sido planejado.



Depois de se vestir, Perry deu uma espiada no espelho acima da pia

no banheiro apertado. Alguns anos antes ele não teria se incomodado em

fazer isso. Mas as coisas haviam mudado. Agora, que estava com mais de

quarenta, achava que a aparência desleixada que costumava funcionar a

seu favor estava fazendo com que ele parecesse velho, ou, na melhor das

hipóteses, cansado. Os cabelos estavam fica

ndo ralos, e ele precisava de

óculos para leitura, mas ainda exibia um sorriso triunfante. Perry tinha

orgulho de seus dentes brancos e perfeitamente ali

nhados, principalmente

porque enfatizavam o bronzeado que ele fazia tudo para não perder.

Satisfeito c

om seu reflexo, tratou de ir saindo da cabine e correr pelo

corredor. Quando passou pelas portas do capitão e do imediato sentiu

-

se

tentado a esmurrá

-

las para desabafar sua irritação. Sabia que as

superfícies de metal iriam reverberar como timbales, des

pe

rtando

brutalmente os ocupantes adormecidos de seu pesado sono. Como

fundador, presidente e maior acionista da Benthic Marine, ele esperava

que as pessoas ficassem mais alerta quando ele estivesse a bor

do. Será que

era o único que estava preocupado o sufi

ciente para inves

tigar aquela

vibração?Quando chegou ao convés superior, Perry tentou localizar a

fonte do zunido estranho, que agora se mesclava ao som da sonda em

funci

onamento. O

Benthic Explorer

era uma embarcação de quatrocentos e

cinqüenta pés com

uma sonda de perfuração de vinte andares a meia nau,

sobre um poço central. Além da sonda de perfuração, o navio ga

bava

-

se

de ter um complexo de mergulho saturado, um submersível para águas

profundas e vários trenós de câmera móveis controlados remota

men

te,

cada um com uma impressionante série de câmeras fixas de monitoração e

câmeras de televisão para gravação. Combinando

-

se

esse

equipamento

com um amplo laboratório, o

Benthic Explorer

dava a sua empresa

-

mãe, a

Benthic Marine, a capacidade de realizar um

a extensa gama de estudos e

operações oceanográficos.



Perry viu a porta da cabine de perfuração aberta. Um homem

gigantesco apareceu. Bocejou e espreguiçou

-

se antes de erguer as alças do

macacão para recolocá

-

las sobre os ombros e pôr na cabeça o capacete

amarelo onde se lia

S

UPERVISOR DE

T

URNO



em letras de fôrma acima do

visor. Ainda meio entorpecido de sono, ele se encaminhou para a mesa

rotativa. Obviamente não estava com pressa alguma, apesar da vibração




que percorria o navio.



Apressando o passo, Perry

alcançou o homem exatamente no mo

-

mento em que dois outros operários se juntaram a ele.







Já faz vinte minutos que está acontecendo isso, chefe





disse um

dos homens de área berrando acima do barulho da sonda. Todos os três

ignoraram Perry.



O capataz que s

upervisionava o turno resmungou ao calçar um par

de pesadas luvas e atravessou todo lampeiro a estreita grade de metal

sobre o poço central. O sangue

-

frio dele impressionou Perry. A passare

la

parecia frágil e tinha apenas um corrimão baixo para evitar que



al

guém

caísse 15 metros e batesse contra a superfície do oceano lá embaixo.

Atingindo a mesa rotativa, o supervisor curvou

-

se e colocou ambas as

mãos enluvadas em torno do eixo em rotação. Não tentou agarrá

-

lo com

força, mas deixou

-

o girar entre as mãos.



Inclinou a cabeça para o lado

enquanto tentava interpretar o tremor transmitido tubo acima. Levou

apenas um momento fazendo isso.







Parem a sonda!





berrou o gigante.



Um dos peões correu de volta ao painel de controle externo. Den

tro

de instantes a mesa

rotativa parou, estalando, e a vibração cessou. O

supervisor voltou e subiu ao convés.







Mas que merda! A broca arrebentou de novo!





reclamou ele,

com uma expressão de ódio.





Isso já está parecendo até brincadeira de

mau gosto.







O engraçado foi que nós

só perfuramos um metro, mais ou

menos, nos últimos quatro ou cinco dias





disse o outro peão.







Cale essa boca!





disse o gigante.





Vê se vai até ali e me iça a

coluna de perfuração até a cabeça do poço!



O segundo assistente de sonda foi ajudar o primeiro

. Quase imedia

-

tamente ouviu

-

se novo som de máquinas potentes enquanto os guinchos

eram engatados para cumprir a ordem do capataz. O navio estremeceu.







Como tem certeza de que a broca se quebrou?





berrou Perry,

tentando se fazer ouvir apesar do barulho.



O capataz baixou o olhar para ele.







Experiência





berrou, depois virou

-

se e afastou

-

se a passos lar

-




gos na direção da popa.



Perry foi obrigado a correr para alcançá

-

lo. Cada passada do

supervisor era o dobro de uma das suas. Perry tentou fazer nova per

gu

nta,

mas o homem não ouviu ou ignorou

-

o. Eles chegaram à escada meia

-

laranja e o supervisor começou a subir, três degraus de cada vez. Dois

conveses acima, ele entrou num corredor e depois parou diante da porta

de um compartimento. O nome que se lia na por

ta era MARK

DAVIDSON, COMANDANTE DE OPERAÇÕES. O capataz bateu à porta

com toda a força. A princípio, a única resposta foi um acesso de tosse, mas

depois uma voz lhe disse para entrar.



Perry espremeu

-

se no pequeno compartimento atrás do capataz.





Más notíc

ias, chefe





anunciou o capataz.





Acho que a broca estourou

de novo.







Mas que horas são, cara?





indagou Mark. Passou os dedos

através dos cabelos arrepiados. Estava sentado na beira da cama, de cueca

e camiseta. O rosto estava inchado, e a voz, grossa d

e sono. Sem esperar

resposta, estendeu o braço para pegar um maço de cigarros. O ar no

quarto estava fedendo a fumaça entranhada.







São mais ou menos zero

-

seiscentos





informou o capataz.







Meu Deus





exclamou Mark. Os olhos dele depois focaliza

ram

Perry.



Mostraram surpresa. Ele piscou.





Perry? O que está fazen

do

acordado?







Não tinha como dormir com essa vibração





disse Perry.







Que vibração?





indagou Mark. Olhou outra vez para o

supervisor de turno, que fitava Perry.







Você é o Perry Bergman?





pergu

ntou o capataz.







Pelo menos era, da última vez que verifiquei





brincou Perry.

Sentiu uma certa satisfação ao perceber o constrangimento do capataz.







Foi mal





disse o capataz.







Deixa pra lá





disse Perry, magnânimo.







A coluna de perfuração estava chac

oalhando?





perguntou Mark.



O capataz confirmou.







Exatamente como das últimas quatro vezes, e talvez um pouco




pior.







Nós só temos mais uma broca de carbureto de tungstênio com

diamante





lamentou Mark.







Não precisa me lembrar disso





disse o capataz.







Qual a profundidade?





indagou Mark.







Não mudou muito desde ontem





respondeu o capataz.







descemos quatrocentos metros de tubulação. Como o fundo fica a mais ou

menos trezentos metros e não há sedimento, só penetramos na ro

cha cerca

de cem metros, un

s centímetros a mais ou a menos.





Era isso que eu

estava lhe explicando ontem à noite





disse Mark a Perry.





Estávamos

indo muito bem até quatro dias atrás. Desde então não saímos do lugar,

talvez tenhamos descido de sessenta centí

metros a um metro, apes

ar de

termos acabado com quatro brocas.







Então acha que encontrou uma camada de rocha dura?





in

-

dagou Perry, achando que tinha que dizer alguma coisa.



Mark riu sarcasticamente.







Dura não é bem a palavra. Estamos usando brocas diamantadas

com as ranhuras



mais retas possíveis! O pior é que ainda vamos enfrentar

mais trezentos metros da mesma coisa, seja lá o que for, até chegarmos à

câmara magmática, pelo menos de acordo com nosso radar de penetra

ção

no solo. Pelo andar dessa carruagem, vamos ficar aqui d

ez anos.







O laboratório analisou a rocha que tiraram da última broca

quebrada?





perguntou o capataz.







Sim, analisou





confirmou Mark.





É um tipo de rocha que

jamais haviam visto antes. Pelo menos de acordo com o Tad Messenger.

Compõe

-

se de um tipo de o

livina cristalina que ele acha que talvez possua

uma matriz microscópica de diamante. Acho que podíamos tentar ob

ter

uma amostra maior. Um dos maiores problemas de se tentar perfu

rar no

mar aberto é que não temos um retorno dos fluidos de perfuração. É c

omo

perfurar no escuro.







Será que não dava para mandarmos um extrator de amostras lá

para baixo?







Grande coisa conseguiríamos, se não conseguimos nem meter

uma broca diamantada nessa pedra





comentou Mark.










E que tal acoplá

-

lo à broca diamantada? Se con

seguíssemos obter

uma boa amostra dessa coisa que estamos tentando perfurar, talvez pu

-

déssemos traçar um plano razoável para contornarmos

esse

obstáculo. Já

investimos dinheiro demais nessa operação, não dá para desistir sem uma

boa briga.



Mark olhou para



o capataz, que deu de ombros. Depois voltou a

olhar para Perry.





Você é quem manda.







Pelo menos por enquanto





disse Perry. Não estava brincan

do.

Imaginava por quanto tempo iria conseguir ser o mandachuva se o projeto

abortasse.







Tudo bem





disse Mark.



Colocou o cigarro na beirada de um

cinzeiro já transbordante.





Icem a broca até a cabeça do poço.







Os rapazes já estão fazendo isso





informou o supervisor.







Peguem a última broca do estoque





orientou Mark. Pegou o

intercomunicador de bordo.





Vou man

dar o Larry Nelson preparar o

sistema de mergulho saturado e lançar o submersível no mar. Vamos

substituir a broca e ver se conseguimos uma amostra melhor do que

estamos perfurando.







Sim, senhor





disse o capataz. Virou

-

se e saiu, enquanto Mark

erguia o r

eceptor até o ouvido para ligar para o comandante das opera

-

ções de mergulho.



Perry fez menção de sair também, mas Mark ergueu a mão, pedin

-

do

-

lhe que ficasse. Depois de terminar a chamada para Larry Nelson,

Mark olhou para Perry.







Há um assunto no qual n

ão toquei ontem à noite na palestra





disse ele.





Mas acho que devia ficar sabendo.



Perry engoliu em seco. Sua boca havia ficado seca. Não estava gos

-

tando do tom de voz do Mark. Parecia que estava para dar péssimas

notícias.







Talvez não seja nada





pros

seguiu Mark



, mas quando usa

mos

o radar de penetração no solo para estudar essa camada de rocha que

estamos tentando perfurar como mencionei antes, encontramos uma coisa

inesperada. Os dados estão aqui na minha escrivaninha. Quer ver?







Vá falando





diss

e Perry.





Mostre

-

me os dados depois.










O radar deu a entender que o conteúdo da câmara magmática

talvez não seja o que pensamos a partir dos estudos sísmicos originais.

Talvez não seja líquido.





Está brincando!?





Essas novas informações

aumentaram os rec

eios de Perry. Tinha sido por acaso, no verão anterior,

que o

Benthic Explorer

havia encontrado a montanha submarina que

estavam perfu

rando no momento. O impressionante na descoberta é que,

como par

te da Cadeia Meso

-

Atlântica, a área já havia sido exaust

ivamente

estudada pelo Geosat, o satélite de medição de densidade da Marinha

norte

-

americana, usado para gerar mapas do fundo do oceano. Mas de

algu

ma forma aquela montanha submarina em particular não havia sido

detectada pelo Geosat.



Embora a equipe do

B

enthic Explorer

andasse ansiosa para voltar

para casa, haviam parado tempo suficiente para passar várias vezes aci

ma

da misteriosa montanha. Com o sofisticado radar do navio, fizeram um

estudo superficial da estrutura interna do

guyot.

Para surpresa de to

dos,

os resultados foram tão inesperados quanto a presença da mon

tanha. Ela

parecia ser um vulcão inativo de crosta particularmente fina, cujo núcleo

líquido estava a apenas 120 metros do fundo do oceano. Ainda mais

espantoso era o fato de que a substânci

a no interior da câ

mara magmática

possuía características de propagação do som idênti

cas às da

descontinuidade de Mohorovicic, ou Moho, a misteriosa fronteira entre a

crosta terrestre e o manto. Como ninguém jamais ha

via sido capaz de

obter magma do Moh

o, embora os americanos e rus

sos houvessem

tentado durante a Guerra Fria, Perry resolvera voltar lá e perfurar a

montanha na esperança de que a Benthic Marine fosse a pri

meira

organização a obter uma amostra do material derretido. Racioci

nou que a

análi

se do material poderia esclarecer a estrutura e talvez até mesmo a

origem da terra. Mas agora o comandante de operações do

Benthic Explorer

estava lhe dizendo que os dados sísmicos originais tal

vez estivessem

errados!







A câmara magmática pode estar vazia







disse Mark.







Vazia?





gaguejou Perry.







Bom, não exatamente vazia





corrigiu

-

se Mark.





Cheia de

algum tipo de gás comprimido, ou talvez vapor. Sei que extrapolar dados

a essa profundidade é levar a tecnologia de radar de penetração no solo

além de seu

s limites. Aliás, muitas pessoas diriam que os resulta

dos dos

quais falo são apenas especulação, meramente deduzidos, por assim dizer.




Mas o fato de que os dados de radar não combinam com a sísmica me

preocupa do mesmo jeito. Eu detestaria fazer

esse

esfo

rço todo e só

encontrar uma lufada de vapor superaquecido. Ninguém vai gostar disso,

muito menos seus investidores.



Perry mordiscou a parte de dentro da bochecha enquanto refletia

sobre a preocupação de Mark. Começou a desejar que jamais tivesse

ouvido fal

ar no Monte Olimpo, que era o nome que a tripulação havia

dado à montanha submarina de cume achatado que estavam tentando

perfurar.







Já mencionou isso à Dra. Newell?





perguntou Perry. A Dra.

Suzanne Newell era a oceanógrafa sênior do

Benthic Explorer.





Ela já viu

esses dados de radar dos quais está me falando?







Ninguém os viu ainda





disse Mark.





Eu só notei a sombra na

tela do meu computador ontem, quando estava me preparando para sua

chegada. Estava pensando em levar os dados para sua palestra on

tem



à

noite, mas resolvi esperar para falar com você em particular. Caso não

tenha observado, há um problema de moral lá com alguns compo

nentes

da equipe. Várias pessoas já estão começando a achar que perfu

rar

esse

guyot é

mais ou menos o mesmo que atacar m

oinhos de vento. As pessoas

estão começando a falar em pedir demissão e voltar para casa, para as

famílias delas, antes do fim do verão. Não queria botar mais lenha na

fogueira.



Perry sentiu os joelhos bambos. Puxou a cadeira de Mark e sentou

-

se pesadament

e. Esfregou os olhos. Estava cansado, faminto e desani

mado.

Sentia vontade de se esganar por apostar assim o futuro da empresa todo

em dados t

ão pouco confiáveis, mas a descoberta havia parecido

extremamente fortuita. Ele se sentira compelido a agir.







Ei

, não estou a fim de bancar o estraga

-

prazeres





disse Mark.





Vamos fazer o que você sugeriu. Vamos tentar entender melhor o tipo de

rocha que estamos perfurando. Nada de desânimos antes da hora.





É

meio difícil não ficar desanimado





disse Perry



, consid

e

rando

-

se a nota

preta que a Benthic Marine está desembolsando para manter o navio aqui.

Talvez fosse melhor evitarmos prejuízo maior.







Por que não vai comer alguma coisa?





sugeriu Mark.





Não

adianta tomar decisões precipitadas assim, de barriga vazia.



Aliás, se me

esperar tomar uma ducha, eu o acompanho. Dane

-

se! Logo, logo va

mos




ter mais algumas informações sobre esse troço que estamos tentan

do

atravessar. Talvez tenhamos uma idéia mais clara do que fazer.







Quanto tempo vão levar para trocar a broc

a?





indagou Perry.







O submersível pode ser lançado em uma hora





informou

Mark.





Eles vão levar a broca e as ferramentas para a cabeça do poço. Os

mergulhadores levam mais tempo para descer porque precisam ser

pressurizados antes de baixarmos o sino. Is

so vai levar umas duas horas

mais, se eles apresentarem dores devido à compressão. Trocar a broca é

mole. A operação toda deve levar de três a quatro horas, talvez menos.



Perry se ergueu com certo esfor

ço.







Ligue para a minha cabine quando estiver pronto

para ir co

-

mer.





Dirigiu

-

se à porta.







Ei, espere aí um segundo





disse Mark, subitamente entusias

-

mado.





Tive uma idéia que talvez levante o seu astral. Por que não desce

no submersível? Parece que o

guyot

lá embaixo é lindo, pelo me

nos, a

Suzanne semp

re diz isso. Até o piloto do submersível, Donald Fuller, ex

-

oficial do corpo da armada, que em geral é um sujeito assim

compenetrado, objetivo, diz que a paisagem é magnífica.







O que pode haver de tão maravilhoso em uma montanha

submersa de cume achatado?







indagou Perry.







Eu não desci lá





admitiu Mark.





Mas parece que a geologia da

área é que é bonita. Sabe,

esse

negócio dela fazer parte da Cadeia Meso

-

Atlântica, e coisa e tal. Mas fale com a Newell ou o Fuller! Vou lhe dizer,

eles vão ficar nas nuvens



quando eu lhes pedir que desçam lá. Com as

luzes de halogênio do submersível e a limpidez da água do mar, dizem

que a visibilidade é entre sessenta a noventa metros.Perry concordou. Não

era má idéia dar um mergulho, pois isso, sem dúvida, o faria parar de



pensar um pouco na situação atual e sentir que estava fazendo algo. Além

disso, só havia estado no submersível uma vez, ao largo da ilha de Santa

Catalina, quando a Benthic Marine rece

bera a embarcação, e tinha sido

uma experiência memorável. Pelo me

nos



ele teria uma chance de ver

aquela montanha que estava lhe causando tanto aborrecimento.







A quem devo anunciar que farei parte da tripulação?





inda

gou

Perry.







Deixe isso comigo





disse Mark. Pôs

-

se de pé e tirou a camise

-




ta.





É só eu avisar ao Larry

Nelson.





2

2





Richard Adams vestiu ceroulas de malha folgadas e compridas, tira

-

das do armário do navio, e fechou a porta com um pontapé. Depois de

vestir a roupa de baixo, colocou, com toda a cerimônia, seu gorro preto de

tricô do turno de vigia. Assim param

entado, saiu do compartimento e

esmurrou as portas de Louis Mazzola e de Michael Donaghue. Am

bos

responderam com uma torrente de imprecações. Os xingamentos já

haviam perdido o poder de ofensa, uma vez que constituíam uma

percentagem predominante do vocab

ulário desses tripulantes. Richard,

Louis e Michael, mergulhadores profissionais, eram do tipo que gosta de

encher a cara, viver perigosamente, arriscar periodicamente a vida

fazendo solda submarina quando necessário, explodindo coisas como

recifes, por ex

emplo, ou trocando brocas durante operações de perfura

ção

submarina. Eram trabalhadores braçais submarinos, e se orgulha

vam

disso.



Os três haviam se submetido a treinamento juntos, na Marinha

norte

-

americana, haviam se tornado amigos do peito, bem como m

em

bros

bem

-

sucedidos da força de demolição submarina da Marinha. Todos



aviam aspirado a se tornarem Navy Seals

*

, mas isso não estava escrito nas

                                        

          



*



As equipes SEAL (Sea, Air, Land, ou seja, Mar, Ar e Terra) remontam ao primeiro grupo

de voluntários selecionado a partir dos Batalhões de Const

rução Naval (SeaBees) na

primavera de 1943. Esses voluntários se organizavam em dois grupos especiais

chamados Unidades de Demo

lição de Combate Naval (Navy Combat Demolition Units





NCDUs). Deviam fazer o reco

nhecimento e a limpeza da praia para as tropa

s que iriam

desembarcar durante operações anfíbias, destacando

-

se durante a Segunda Guerra

Mundial, tanto no Atlântico quanto no Pacífico. Em 1947, a Marinha organizou suas

primeiras unidades ofensivas de ataques submarinos. Durante a guerra da Coréia, ess

as

Equipes de Demolição Submarina (UDTs) participaram do desembar

que em Inchon, bem

como em outras missões como os ataques de demolição a pontes e túneis acessíveis da

água. Na década de 1960, cada ramo das forças armadas formou sua própria força de

comba

te a rebeldes. A Marinha empregou o pessoal de UDT para compor unidades

separa

das denominadas equipes SEAL. Essas equipes foram desenvolvidas com o

objetivo de realiza

rem operações clandestinas contra guerrilheiros e de guerra não

convencional na água.

(

N. da T.

)






estrelas. A predileção deles por cerveja e pancadarias excedia de lon

ge a

de seus colegas. O fato de todos h

averem tido pais alcoólatras, bru

tos,

violentos, preconceituosos, proletários e que gostavam de espancar as

mulheres explicava o comportamento deles, mas não o justificava. Longe

de ficarem constrangidos pelo exemplo paterno, os três viam suas

infâncias b

arra

-

pesada como uma progressão natural até a autêntica

masculinidade. Nenhum deles jamais parou para pensar num certo di

tado

antigo: filho de peixe, peixinho é.



A masculinidade era uma virtude crítica para todos os três. Eram

impiedosos ao punirem qualqu

er homem que considerassem menos

macho do que eles e que tivesse a audácia de entrar num bar onde esti

-

vessem bebendo. Costumavam meter o malho em advogados "malan

dros"

e em caras do Exército metidos a besta. Também condenavam qualquer

pessoa que consider

assem imbecil, um "cdf" ou homossexual. A

homossexualidade era o que mais os incomodava, e, por eles, a polí

tica do

"eu não pergunto, você não revela" era ridícula, uma verdadeira afronta

pessoal.



Embora a Marinha tendesse a ser clemente com os mergulhado

res e

tolerasse comportamento que não seria admitido em outros colegas,

Richard Adams e seus amigos exageraram na dose. Numa tarde quente de

agosto, refugiaram

-

se no seu minúsculo bar de mergulhadores pre

dileto

em Point Loma, em San Diego. O dia havia sid

o arrasador, os



mergulhos,

árduos. Depois de numerosas rodadas de uísque com cer

veja e um

número igual de discussões sobre a temporada de beisebol que estava

rolando, ficaram chocados e consternados ao verem um ca

sal de caras do

Exército entrar, todo lam

peiro. De acordo com os mer

gulhadores, na corte

marcial, os dois foram "dar um amasso" em um dos reservados dos fundos.



O fato de um dos soldados ser oficial só tornou a sensação de ultra

je

mais intensa nos mergulhadores. Eles nem pensaram em se pergunta

r o

que um casal de oficiais do Exército estaria fazendo em San Diego, uma

cidade sabidamente repleta de gente da Marinha e dos Fuzileiros. Richard,

o eterno cabeça do trio, foi o primeiro a se aproximar do reser

vado.

Perguntou





em tom sarcástico





se po

dia participar da orgia. Os

homens do Exército, sem entender direito qual era a do Richard





que era

expulsá

-

los dali



, riram, negaram que estivessem fazendo or

gias de

qualquer tipo, e ofereceram pagar para ele e os amigos uma ro

dada de

bebidas, para ac

almar os ânimos. O resultado foi uma pancadaria

unilateral que mandou os dois oficiais do Exército para o hospital naval




Balboa. Também mandou Richard e os amigos direto para o xadrez, e de

lá para fora da Marinha. Acontece que os homens do Exército eram d

o

JAG, o Corpo Jurídico e Legal Geral do Exército.







Vamos, seus babacas!





berrou Richard, quando viu que os

outros ainda não haviam aparecido. Olhou de relance o relógio de mer

-

gulho. Sabia que o Nelson ia ficar uma fera. As ordens dele pelo

intercomunic

ador haviam sido para irem para o centro de comando de

mergulho imediatamente.



O primeiro a surgir foi o Louis Mazzola. Era quase uma cabeça mais

baixo do que Richard, que tinha um metro e oitenta de altura. Richard

considerava Louis um cara tipo bola de b

oliche. Tinha feições carnu

-

das, a

parte inferior do rosto eternamente mais escura onde a barba havia sido

cortada, e cabelos curtos e negros que caíam escorridos pela cabeça

redonda. Parecia não ter pescoço; o trapézio saía em ângulo do crânio sem

nenhuma



reentrância.





Para que a pressa?





queixou

-

se Louis.







Vamos mergulhar!





explicou Richard.







Mais alguma novidade?





reclamou Louis.



A porta de Michael se abriu. Ele ficava num ponto entre a silhueta

esquelética de Richard e a troncuda de Louis. Como os

amigos, ti

nha

músculos atléticos e obviamente estava em boa forma. Também era

igualmente desmazelado, vestido com as mesmas ceroulas folga

das.

Porém, ao contrário dos outros, estava com um boné de beise

bol do Red

Sox com a viseira virada para o lado. Mi

chael vinha de Chelsea,

Massachusetts, e portanto era um ávido torcedor do Sox e do Bruins.



Michael abriu a boca para reclamar por ter sido acordado, mas

Richard o ignorou e seguiu para o convés principal. Louis fez o mesmo.

Michael deu de ombros e foi atr

ás dos outros. Quando desceram a meia

-

laranja principal, Louis gritou para Richard:







ô Richard, você trouxe o baralho?







Claro





retrucou Richard, virando a cabeça.





E você, trouxe o

talão de cheques?







Vá para o inferno





disse Louis.





Nos últimos quat

ro mer

-

gulhos, você nem chegou perto de me vencer.







Era estratégia, cara





revelou Richard.





Andei armando uma

pra você.










Danem

-

se as cartas





disse Michael.





Trouxe as revistas de

sacanagem, Mazzola?







Acha que vou mergulhar sem elas?





retrucou Louis

.





Nem

pelo cacete! Preferiria esquecer as nadadeiras!







Espero que tenha olhado para ver se trouxe as revistas com ga

-

tinhas, e não as de garotões





provocou Michael.



Louis parou de chofre. Michael esbarrou nele.







Que porra foi essa que você disse?





ro

snou Mazzola.







Só estava querendo saber se você trouxe as revistas certas





disse

Michael com um sorrisinho sarcástico.





Talvez eu queira pedi

-

las em

-

prestado, e não quero ter a péssima surpresa de ter que encarar um monte

de paus.



Louis rapidamente agar

rou com toda a vontade a blusa de Michael.

Michael reagiu agarrando o braço de Louis com a mão esquerda e cer

-

rando o punho para dar

-

lhe um murro. Antes que a coisa ficasse mais feia,

Richard interveio.







Ei, dêem um tempo aí, seus babacas!





berrou Richar

d, me

-

tendo

-

se entre os dois amigos. Com um murro para cima, jogou o bra

ço de

Louis para o lado. Ouviu

-

se um som de alguma coisa se rasgando, e a mão

de Luis voltou com um pedaço arrancado da camiseta de Michael entre os

dedos. Como um touro enfurecido, L

ouis tentou empurrar Richard para

alcançar Michael. Quando viu que não conseguia, tentou agarrar a blusa

de Michael por cima do ombro de Richard. Michael, soltando uma sonora

gargalhada, esquivou

-

se.







Mazzola, seu babaca!





gritou Richard.





Ele só está t

entan

do te

botar pilha. Esfria essa cabeça, pelo amor de Deus!







Filho da puta!





disse Louis entre os dentes. Jogou o pedaço de

tecido rasgado que havia arrancado da camiseta de Michael na cara do

zombeteiro. Michael tornou a rir.







Já chega!





disse Ric

hard, com asco, enquanto continuava a

percorrer o corredor. Michael abaixou

-

se e pegou o retalho da blusa.

Quando fingiu estar colando o tecido de volta no peito, Louis não agüen

-

tou e teve que rir. Depois correram para alcançar Richard.



Quando os mergulha

dores chegaram ao convés principal, viram que




o guincho estava erguendo o tubo.







A broca deve ter se quebrado outra vez





disse Michael. Tanto

Richard quanto Louis concordaram, sem nada dizer.





Já sabemos o que

vamos fazer.



Entraram na cabine de perfuraç

ão e se acomodaram em três cadeiras

dobráveis perto da porta. Era ali que ficava o posto de trabalho de Larry

Nelson, o homem que coordenava todas as operações de mergulho. Atrás

dele, do lado direito da cabine, estendendo

-

se até o outro lado, ficava

ocons

ole de mergulho. Ali se viam todos os mostradores, medidores e

con

troles para operar o sistema de mergulho. Do lado esquerdo do painel

se encontravam os controles e monitores dos trenós das câmeras. Também

do lado esquerdo havia uma janela que dava para o



poço central do na

vio.

Era por

esse

poço central que o sino de mergulho descia.



O sistema de mergulho do

Benthic



Ex

plorer era

um sistema saturado,

e isso significava que os mergulhadores deviam absorver o máximo

possível de gás inerte durante qualquer me

rgulho. Ou seja, o tempo de

descompressão necessário para que eles se livrassem do gás inerte seria o

mesmo, por mais tempo que permanecessem na câmara hiperbárica. O

sistema se compunha de três câmaras de descompressão de convés ci

-

líndrico, cada uma com

três metros e sessenta centímetros de largura e

seis de comprimento. As câmaras eram interligadas, como se fossem

enormes lingüiças, com portinholas de pressão dupla entre elas, e den

tro

delas se achavam quatro camas, várias mesas dobráveis, um banhei

ro,



uma pia e um chuveiro.



Cada câmara também dispunha de uma porta de entrada lateral e

uma escotilha de pressão no alto, onde o sino de mergulho ou a cápsula

de transferência de pessoal (CTP) podia se acoplar. A compressão e a

descompressão dos mergulhadore

s aconteciam na câmara. Depois de

atingida uma pressão equivalente à profundidade na qual eles iriam tra

-

balhar, eles entravam na CTP, que era então destacada e baixada para

dentro da água. Quando a CTP atingisse a profundidade apropriada, os

mergulhadores



abriam a escotilha através da qual haviam entrado no sino

e nadavam para a estação de trabalho designada. Enquanto estives

sem

submersos, eram atados por um cabo com mangueiras que lhes forneciam

oxigênio, água quente para aquecer

-

lhes os trajes de neopre

ne, fios

sensores e cabos de comunicação. Como os mergulhadores do

Benthic

Explorer

usavam máscaras que lhes cobriam o rosto inteiro, a comunicação




era possível, embora difícil, devido à distorção da voz na mistura de hélio

e oxigênio que respiravam. Os fi

os sensores transpor

tavam informações

sobre a freqüência cardíaca de cada mergulhador,freqüência respiratória e

pressão do oxigênio do ar respirado. Todos

es

ses

três níveis eram

monitorados continuamente em tempo real.



Larry ergueu os olhos da escrivanin

ha onde se encontrava, e con

-

templou sua segunda equipe de mergulhadores com desdém. Não po

dia

acreditar na aparência invariavelmente desmazelada, atrevida e

antiprofissional deles. Observou o boné de beisebol berrante e a cami

seta

rasgada de Michael, ma

s nada disse. Como na Marinha, ele tolera

va nos

mergulhadores comportamentos que não tolerava nos outros

componentes da equipe. Três outros mergulhadores igualmente rebel

des e

irritantes se encontravam ainda em uma das câmaras, descomprimindo

-

se

do últim

o mergulho até a cabeça do poço. Quando se mergulha a uma

profundidade de quase trezentos metros, o tempo de descompressão se

mede em dias, não em horas.







Desculpem por ter acordado vocês, seus palhaços, do seu sono de

beleza





disse Larry.





Como demorar

am para chegar aqui, hein?







Tive que passar o fio dental nos dentes





disse Richard.







E eu tive que fazer as unhas





disse Louis. Balançou a mão de

um jeito brusco, com o pulso bem mole.



Michael revirou os olhos, fingindo estar horrorizado.







Ei, olha aí

, pode parar!





grunhiu Louis, olhando Michael.

Apontou um de seus dedos gordos para o rosto do amigo. Michael o

afastou com um tapa.







Tá legal, agora me escutem, animais!





berrou Larry.





Ten

tem

se controlar. Esse vai ser um mergulho de 298 metros de p

rofundi

dade

para inspecionar e trocar a broca de perfuração.







Ah, que novidade, hein, chefe!





disse Richard numa vozinha

fina e estridente.





Já é a quinta vez que enviam mergulhadores para isso,

e a terceira nossa. Vamos meter logo a mão na massa.







Fe

che a matraca e escute





ordenou Larry.





Agora tem um fato

novo. Vocês vão inserir um extrator de amostras atrás da broca para que

possamos ver se conseguimos uma amostra decente dessa coisa que

estamos tentando perfurar.





Parece maneiro





disse Richard.










Vamos acelerar o tempo de compressão





informou Larry.





Tem um chefão aqui no navio que está com pressa de obter resultados.

Vamos ver se conseguimos mandar vocês para essa profundidade em

duas ou três horas. Mas, vejam bem, precisam me avisar sem demor

a se

sentirem alguma dor nas articulações. Não quero ninguém aqui que

rendo

bancar o machão. Entendido?



Todos os três confirmaram.







Vamos comer assim que a comida chegar da cozinha





conti

-

nuou Larry.





Mas quero vocês nas camas para a compressão, e isso

significa nada de palhaçadas nem brigas.







Vamos jogar baralho





explicou Louis.







Se jogarem, joguem das camas





disse Larry.





E vou repetir:

nada de brigas. Se houver alguma, tiramos o baralho de vocês. Estou

sendo claro?



Larry olhou cada um, e todos ev

itaram

-

lhe o olhar. Ningu

ém con

-

testou os termos do acordo.







Vou interpretar

esse

raro silêncio como concordância





disse

Larry.





Bom, Adams, você vai ser o mergulhador vermelho. Donaghue é

o verde. Mazzola é o mergulhador do sino.



Richard e Michael dera

m vivas e depois se inclinaram um para o

outro e se cumprimentaram batendo com as palmas das mãos uma na

outra. Louis expirou, contrariado, entre os lábios apertados. O traba

lho do

mergulhador do sino, durante o mergulho, era ficar dentro do CTP para

mane

jar os cabos e mangueiras dos mergulhadores vermelho e verde e

vigiar os mostradores dos instrumentos; não entraria na água, a não ser

que houvesse uma emergência. Embora sua posição fosse mais segura, era

desdenhada pelos mergulhadores. As indicações de q

uem era

mergulhador verde e vermelho eram usadas para evitar confusões nas

comunicações com a superfície que poderiam ocorrer caso se atribuís

sem

apelidos ou sobrenomes. No

Benthic Explorer,

o mergulhador ver

melho era

considerado o líder no local da oper

ação.



Larry pegou uma prancheta que

antes estava sobre a mesa. Entre

gou

-

a a Richard.







Aqui está a listagem de verificação prévia, mergulhador verme

-

lho. Agora tratem de ir se mandando para a Câmara 1. Quero começar a

compressão em quinze minutos.






Richard



pegou a prancheta e foi na frente quando saíram da

cabine

.

Logo que saiu, Louis começou uma lengalenga sem fim, reclaman

do por

ter sido escolhido para ser o mergulhador do sino, queixando

-

se de que

havia ficado no sino no mergulho anterior também.







Acho



que o chefe considera você o melhor de nós três para fazer

isso





disse Richard, enquanto piscava para Donaghue. Ele sabia que

estava zombando do Louis. Mas não conseguiu resistir. Sentia

-

se alivia

do

por não ter sido escolhido, porque era sua vez.



Quando



o grupo passou pela Câmara 3, que estava ocupada, cada

um deles olhou pela escotilha minúscula e mostrou o polegar erguido em

sinal de positivo para os três ocupantes, que tinham pela frente ain

da

vários dias de descompressão. Os mergulhadores podiam bri

gar entre si

às vezes, mas também demonstravam grande coleguismo. Res

peitavam

-

se

mutuamente por causa dos riscos inerentes à sua ocupa

ção. O isolamento

e o perigo envolvidos em um mergulho saturado eram ironicamente

semelhantes, em certos aspectos, ao de



se estar em um satélite que

estivesse em órbita da Terra. Caso ocorresse algum proble

ma, podiam

ficar gravemente encrencados, e era difícil trazerem

-

nos de volta para

cima.



Na Câmara 1, Richard entrou primeiro pela porta estreita e redon

da

na lateral do



cilindro. Para isso precisou agarrar uma barra horizon

tal de

metal, erguer as pernas e meter primeiro os pés na câmara, esgueirando

-

se

pela abertura.



O interior era bem despojado, estando os leitos numa das extremi

-

dades e os aparelhos de respiração de e

mergência pendentes das pare

des.

Todos os equipamentos de mergulho, inclusive os trajes de neoprene,

cintos com lastro, luvas e coifas, bem como o restante da parafernália,se

encontravam amontoados entre os leitos. As máscaras de mergulho

estavam no sino

com todas as mangueiras e linhas de comunicação. No

outro extremo da câmara ficavam o chuveiro aberto, o vaso sanitário e a

pia. Mergulho saturado era um evento tipicamente comunitário. Não

havia privacidade de espécie alguma.



Louis e Michael entraram logo



depois de Richard. Louis subiu di

-

retamente para o sino de mergulho, enquanto Michael começou a ins

-

pecionar o material que estava no chão. Richard dizia os nomes das várias

peças do equipamento em voz alta, e Louis e Michael gritavam se elas

estavam pres

entes ou não, e Richard assinalava a parte conferida na lis

ta.




O que estivesse faltando ia sendo imediatamente fornecido através da

escotilha aberta, por um dos assistentes que aguardavam, do lado de fora.



Quando as quatro páginas da lista de verificação

terminaram de ser

conferidas, Richard fez sinal de positivo para o supervisor de mergulho

através da câmera fixa no teto da câmara de compressão.







Muito bem, mergulhador vermelho





disse o supervisor pelo

intercomunicador



, fechar e travar a escotilha de



admissão e prepa

rar

-

se

para começar a pressurização.



Richard obedeceu. Quase imediatamente, ouviu

-

se o chiado do gás

comprimido, e a agulha no mostrador analógico do manômetro come

çou

a subir. Os mergulhadores olharam felizes para seus leitos. Richard t

irou o

baralho gasto do bolso da calça de malha.





3

3





Perry saiu do interior do navio e pisou na grade que formava o

tombadilho a ré. Trajava um abrigo de malha grená sobre uma blusa de

mangas compridas





sugestão do Mark. Ele disse a Perry que havia se

vest

ido assim da última vez em que esteve no submersível. Como o es

-

paço era restrito, quanto mais confortáveis fossem as roupas, melhor, e

colocar uma peça por cima da outra era bom, porque podia fazer frio. A

temperatura externa da água era de apenas cerca d

e quatro graus centí

-

grados, e não era aconselhável gastar a preciosa energia das baterias com

calefação.



A princípio Perry achou desagradável andar sobre a grade metálica,

porque podia enxergar a superfície do oceano a uns quinze metros de

distância, lá e

mbaixo. A água tinha uma aparência gelada e verde

-

acinzentada. Perry tremeu apesar da temperatura agradável, e se pergun

-

tou, afinal, se devia mesmo acompanhar o mergulho do submarino.

Aquele pressentimento esquisito que sentira ao despertar retornou, ar

-

r

epiando

-

lhe os pêlos da nuca. Embora ele não fosse propriamente

claustrofóbico, jamais se sentia bem ao se ver confinado num espaço

exíguo como o interior do submersível. Aliás, um dos momentos mais

apavorantes da infância dos quais Perry se lembrava era a

quele no qual




ficara preso debaixo das cobertas pelo irmão mais velho. O irmão pu

-

lou

em cima dele, em vez de afastar as cobertas, e, durante um tempo que

pareceu durar uma eternidade, não o deixou sair. Volta e meia Perry

ainda tinha pesadelos nos quais s

e via de novo naquela prisão de pano

com a sensação desesperadora de que estava para sufocar.



Perry parou e ficou olhando fixamente o pequeno submarino, que

estava apoiado em picadeiros bem na popa do navio. Sobre ele, inclina

do,

via

-

se um imenso guindast

e capaz de deslocar a embarca

ção, levan

do

-

a

para além da amurada, acima da superfície da água, e baixá

-

la até lá. Em

torno do submarino, operários enxameavam como abelhas ao redor de

uma colméia. Perry sabia que estavam participando da verifi

cação que

se

mpre se processava antes que o submarino submergisse.



Perry, aliviado, constatou que a embarcação parecia bem maior do

que antes, quando estava na água, fato que aplacou sua claustrofobia

recentemente despertada. O submersível não era tão minúsculo quanto

muitos por aí. Tinha quinze metros de comprimento e vau de três metros

e sessenta centímetros, e uma forma de bulbo, como uma salsicha in

chada

de aço HY

-

140, com superestrutura em fibra de vidro. Havia quatro vigias

feitas de seções cônicas de plexiglas d

e vinte centímetros e trinta

milímetros de espessura: duas na proa e uma de cada lado. Os braços

manipuladores hidráulicos, dobrados para cima sob a proa, o faziam

parecer um enorme crustáceo. O casco era escarlate com dizeres em

branco nas laterais da emb

arcação. O nome dela era

Oceanus,

nome do

deus grego do alto

-

mar.







Bonitinho, esse danado, não?





disse alguém. Perry virou

-

se.

Mark havia se aproximado às suas costas.







Talvez seja melhor eu ficar, afinal





disse Perry, tentando dar à

voz uma entonação

natural.







E por quê?





indagou Mark.







Não quero atrapalhar





disse Perry.





Vim aqui para ajudar,

não para ser uma pedra no sapato de ninguém. Tenho certeza de que o

piloto preferiria não ter um cara no pé dele, de carona, como se fosse um

turista.





Mas

que bobagem!





disse Mark, sem hesitar.





Tanto o

Donald quanto a Suzanne adoraram saber que você vai junto. Falei com

eles há menos de vinte minutos, e eles me disseram isso. Aliás, aquele ali

no andaime é o Donald, que está supervisionando a conexão ao g

uin

daste




de lançamento. Acho que ainda não foram apresentados.



Perry olhou na direção indicada com o dedo por Mark. Donald

Fuller era um negro com cabeça raspada, um bigode bem fino e bem

aparado e uma musculatura de dar inveja. Estava com um macacão azul

-

marinho impecavelmente passado a ferro, com dragonas, do qual pen

dia

uma plaqueta lustrosa com seu nome. Até mesmo de onde estava Perry

era capaz de perceber o porte militar do homem, principalmente quando

ouvia sua voz profunda de barítono e o jeito ent

recortado e compenetrado

com que dava ordens. Durante aquela operação, não havia dúvidas

quanto a quem era o comandante.







Vamos





apressou

-

o Mark, antes que Perry tivesse tempo de

reagir.





Vou apresentar você a ele.



Relutante, Perry deixou que o outro o

conduzisse até o

submersível

.

Era dolorosamente óbvio que ele não conseguiria saltar fora daque

le

passeio no

Oceanus

sem ficar com a imagem um tantinho arranhada. Seria

obrigado a admitir seus temores, e isso não iria cair nada bem. Além do

mais, tinha go

stado de andar no submarino da primeira vez em que

submergira nele, mesmo que tivesse sido a apenas uns trezentos metros

de profundidade, bem diante da enseada de Santa Catalina, bem longe do

meio do Oceano Atlântico.



Depois de Donald se certificar de que

a conexão do submersível com

o cabo de içamento estava segura, saltou de cima do andaime e começou a

andar em torno da embarcação. Embora a equipe de mergu

lho que iria

monitorar a operação da superfície estivesse responsável pela verificação

externa prévi

a ao mergulho, Donald queria verificar visual

mente ele

mesmo todos os orifícios que atravessavam o casco de pres

são. Mark e

Perry o alcançaram na proa. Mark apresentou Perry como presidente da

Benthic Marine.Donald respondeu batendo os calcanhares um no

outro e

saudando

-

o à maneira militar. Antes que pudesse aperceber

-

se do que

fazia, Perry retribuiu a continência. Só que não sabia fazer conti

nência

como se deve; jamais havia cumprimentado ninguém desse jeito na vida.

Sentiu

-

se ridículo diante da vergonh

a que devia estar passando.







É uma honra conhecê

-

lo, senhor





disse Donald. Estava mui

to

ereto com os lábios apertados e as narinas dilatadas. Perry achou

-

o

parecido com um guerreiro prestes a combater.







Prazer em conhecê

-

lo





cumprimentou

-

o Perry. Gest

iculou,




indicando o

Oceanus.





Não quero interromper seu trabalho.







Não há problema, senhor





retrucou Donald, na mesma hora.







Também não é obrigado a me levar





disse Perry.





Não que

ro

atrapalhar a operação. Aliás...







Não vai atrapalhar nada, senhor





disse Donald.







Sei que vão estar trabalhando





persistiu Perry.





Não gosta

ria

de desviar a atenção de vocês do serviço que irão executar.







Quando estou pilotando o

Oceanus,

ninguém desvia minha

atenção do meu serviço, senhor!







Ótimo





disse Perry.





Mas não vou me ofender se achar que eu

devo ficar. Quero dizer, vou entender.







Estou ansioso para lhe mostrar o que

esse

submersível pode fa

zer,

senhor.







Bom, então, muito obrigado





disse Perry, reconhecendo que

seria inútil tentar saltar fora sem per

der a pose.







O prazer é meu, senhor





retrucou Donald.







Não precisa me chamar de senhor





pediu Perry.







Sim, senhor!





replicou Donald. Então a boca relaxou e deu um

ligeiro sorriso, quando ele percebeu o que havia dito.





Quero dizer, Sr.

Bergman.







Ch

ame

-

me de Perry.





Sim, senhor





disse Donald. Depois se

permitiu dar um se

gundo sorriso quando viu que havia dado outro fora

em menos de dois segundos.





É difícil para mim mudar meu jeito de ser.







Já vi





disse Perry.





Acho que não seria um erro meu im

agi

nar

que obteve experiência nesse tipo de serviço nas forças armadas.







Positivo





disse Donald.





Vinte e cinco anos servindo na frota

de submarinos.







Era oficial?





perguntou Perry.







Exato. Aposentei

-

me comandante.



Os olhos de Perry desviaram

-

se par

a o submarino. Agora que ele já

havia se conformado com o fato de que iria mesmo com eles, queria se




tranqüilizar.







Como vem sendo o desempenho do

Oceanus?







Impecável





respondeu Donald.







Então é uma boa embarcação?





perguntou Perry. Deu

tapinhas



no ca

sco de pressão de aço frio.







A melhor





afirmou Donald.





Melhor do que qualquer ou

tra

que já pilotei, e olha que já pilotei muitas.







Isso não é só patriotismo, não?





indagou Perry.







De jeito nenhum





respondeu Donald.





Antes de mais nada,

ela conseg

ue descer a uma profundidade maior do que qualquer outra

embarcação tripulada que já pilotei. Como certamente deve saber, a

profundidade de operação certificada dela é de seis mil e noventa e seis

metros, sendo que a profundidade de esmagamento é só aos de

z mil

seiscentos e setenta metros. Mas até mesmo isso engana. Com a mar

gem

de segurança com a qual trabalhamos, provavelmente poderíamos descer

ao fundo da Fossa das Marianas tranqüilamente.



Perry engoliu em seco. Ao ouvir a expressão

profundidade de esma

ga

-

mento,

experimentara outra vez o tremor que sentira alguns minutos antes.







Por que não passa em revista rapidamente alguns detalhes dos

equipamentos do

Oceanus,

para refrescar a memória do Perry?





suge

riu

Mark.





Claro





disse Donald.





Aguardem só um



momento.





Pon

do

as mãos em concha ao redor dos lábios, berrou para um dos homens que

estavam terminando a verificação pré

-

imersão:







Verificaram as câmeras de filmagem internas?







Positivo!





respondeu o subalterno. Donald voltou a atenção

para Perry ou

tra vez.







A embarcação pesa sessenta e oito toneladas e tem espaço para

dois pilotos, dois observadores e seis outros passageiros. Temos

travamento elétrico para os mergulhadores e podemos nos acoplar às

câmaras de vida caso seja preciso. Temos sistema de



sustentação da vida

para um máximo de duzentas e dezesseis horas. A energia vem de bate

-

rias de prata

-

zinco. A propulsão vem de um hélice varivec, porém a

maneabilidade também melhora com empuxadores verticais e horizon

tais

dirigidos por meio de alavanca

s geminadas com esferas de acionamento




digital na parte superior. A embarcação conta ainda com sonar de

varredura lateral, radar de penetração no solo, magnetômetro de prótons

e termistores. O equipamento de gravação inclui câmeras de vídeo de

procura de a

lvo com intensificação por silício. As comunica

ções se

processam por meio de rádio FM de superfície e telefone sub

marino UQC.

A navegação é inercial.



Donald fez uma pausa enquanto seus olhos vagueavam pelo inte

rior

do submers

ível.







Acho que já falei do



básico. Alguma pergunta?







Por enquanto, não





disse Perry, mais do que depressa. Tinha

medo de que Donald lhe fizesse alguma pergunta. A única coisa que Perry

gravou de todo aquele monólogo foi a profundidade de esmaga

mento de

dez mil e seiscentos e pou

cos metros.







Prontos para lançar o

Oceanus!





anunciou uma voz entrecortada

pela estática, através do alto

-

falante.



Donald conduziu Perry e Mark para longe do submarino. O cabo do

guindaste esticou

-

se. Com um rangido, o submersível se ergueu do

tombadilho

. Para evitar que a embarcação oscilasse, havia múltiploscabos

de lançamento atados a pontos

-

chave situados ao longo do casco dela. Um

rangido agudo anunciou a movimentação do turco quando ele levou o

submarino além da popa do navio e começou a baixá

-

lo at

é a água.







Ah, aí vem a nossa boa doutora





comentou Mark.



Perry virou

-

se rapidamente para olhar atrás de si. Uma silhueta sur

-

giu através da porta principal que dava para o interior do navio. Perry

olhou de novo, rapidamente. Só tinha visto Suzanne Newel

l uma vez

antes, quando ela apresentou os primeiros estudos sísmicos sobre o Monte

Olimpo Submarino. Mas isso foi em Los Angeles, onde não fal

tava gente

bonita. Ali no meio do oceano, no utilitário

Benthic Explorer,

contendo

quase cem homens desgrenhados,



ela se destacava como um lírio em meio

a um canteiro infestado de ervas daninhas. Com seus vinte e tantos anos,

era vibrante e tinha uma aparência atlética. O macacão que vestia,

semelhante ao de Donald, revelava exuberantes formas fe

mininas que

eram a e

xata antítese das másculas formas do piloto. Trazia na cabeça um

boné de beisebol azul

-

escuro, com um galão trançado dourado sobre a

pala e as palavras

B

ENTHIC

E

XPLORER

bordadas na parte frontal. Na parte

de trás do boné, justamente acima da tira de regula

gem, saía um rabo

-

de

-




cavalo composto por grossos e lustrosos cabelos cas

tanhos.



Suzanne viu o grupo e acenou, depois seguiu na direção deles.

Quando se aproximou, Perry começou a abrir a boca lentamente, uma

reação que Mark não deixou de notar.







Nada má,



né?





comentou.







É muito atraente





admitiu Perry.







Sim, bom, espere alguns dias





disse Mark.





Ela fica melhor

com o tempo. Está em muito boa forma para uma oceanógrafa geofísica,

não é?







Não conheci muitos oceanógrafos geofísicos





disse Perry. De

r

epente, começou a achar que o mergulho não ia ser tão desagradável,

afinal de contas.





Uma pena que não seja doutora em medicina





disse

Mark, baixinho.





Até que ia gostar se ela me fizesse um exame para ver

se tenho hérnia inguinal.







Se me permitir, con

tinuarei a preparar o

Oceanus

para submer

-

gir





disse Donald.







Claro





disse Mark.





A broca nova e o extrator de amostras

vão subir já, já, e eu vou mandar colocá

-

los diretamente na bandeja.







Sim, senhor!





disse Donald, com uma continência. Voltou para



a beirada do tombadilho à ré, e olhou para o submarino que descia.







Ele é meio rígido





disse Mark



, mas é um funcionário bom

pra cacete.



Perry não o ouviu. Não conseguia tirar os olhos de Suzanne. Ela

caminhava de maneira inconfundivelmente rápida; tin

ha um sorriso

amigável e acolhedor. Com a mão esquerda, trazia dois livros grossos

apertados contra o peito.







Sr. Perry Bergman!





exclamou Suzanne, estendendo a mão

direita.





Adorei saber que viria aqui ao navio, e fiquei encantada quan

do

me disseram q

ue ia submergir conosco. Como vai? Deve estar se

recuperando desse vôo longo.







Estou muito bem, obrigado





disse Perry, enquanto apertava a

mão da oceanógrafa. Depois inconscientemente ergueu a mão para ver se

o cabelo estava bem ajeitado sobre o ponto on

de a cabeça estava ficando

calva. Observou que os dentes de Suzanne eram tão brancos quanto os




seus.







Depois de nosso encontro em Los Angeles não tive oportuni

dade

de lhe dizer como fiquei feliz por ter decidido mandar o

Benthic Explorer

de volta ao mont

e submarino Olimpo.







Legal





disse ele, obrigando

-

se a sorrir. Estava enfeitiçado pe

los

olhos de Suzanne. Não sabia dizer se eram azuis ou verdes.





Só desejaria

que a perfuração estivesse indo melhor.







Também lamento





disse Suzanne.





Mas preciso admi

tir que,

do meu ponto de vista egoísta e pessoal, estou satisfeita. O monte

submarino



é um ambiente fascinante, como vai ver, e os problemas de

per

furação vão me levar a descer até ele. Então, não vai escutar queixas de

mim.







Estou feliz por estar conten

tando alguém





disse Perry.





O que

há de tão fascinante nesse monte submarino em particular?







É a geologia dele





disse Suzanne.





Sabe o que são diques

basálticos?







Não sei bem se realmente sei





admitiu Perry.





Quero dizer,

além de saber que são feit

os de basalto, claro.





Riu, meio sem graça, e

decidiu que os olhos dela eram de um azul

-

claro com reflexos verdes do

oceano que os cercava. Também percebeu que gostava da maquila

gem

leve dela. Parecia estar usando apenas um pouquinho de nada de batom.

Os



cosméticos eram um assunto que despertava discussões en

tre Perry e a

esposa. Ela trabalhava como maquiladora de um estúdio de cinema, e

também gostava de usar bastante maquilagem, o que contra

riava Perry.

Agora as filhas de onze e treze anos deles estav

am seguindo o exemplo da

mãe. A questão havia se tornado uma contenda bastante acirrada que

Perry tinha poucas chances de vencer.



O sorriso de Suzanne aumentou.







Os diques basálticos se compõem de basalto, mesmo. Formam

-

se

quando o basalto fundido sai pel

as fissuras da crosta terrestre. O que os

torna tão intrigantes é que são geométricos a ponto de parecerem

artificiais. Espere só até vê

-

los.







Desculpem pela interrupção





disse Donald.





O

Oceanus

já está

pronto para submergir, e devemos descer a bordo.

Até mesmo com mar

calmo é perigoso deixá

-

lo ancorado durante muito tempo próxi

mo ao




costado do navio.







Sim, senhor, capitão!





disse Suzanne, prontamente. Fez uma

continência perfeita, porém com um sorriso zombeteiro, que não lhe saía

dos lábios. Donald

não achou graça. Sabia que ela o estava provocando.



Suzanne fez sinal para que Perry a precedesse na meia

-

laranja que

levava a um misto de plataforma de mergulho e cais de lan

çamento.

Perry

come

çou a descer, porém hesitou quando um outro estremeci

mento

inv

oluntário lhe percorreu a espinha. Apesar do esforço que

estava



fazendo para se tranqüilizar acerca da segurança do submersível e apesar

de estar na expectativa de aproveitar a agradável companhia de Suzanne,

o pressentimento que ele tivera antes voltou co

mo uma cor

rente de ar frio

através de uma cripta subterrânea, que era o que ele pensava que se

assemelhava ao interior do

Oceanus.

Uma voz bem den

tro dele lhe dizia

que ele estava ansioso por se ver trancafiado dentro de uma embarcação já

submersa no mei

o do Oceano Atlântico.







Esperem aí só um segundo!





exclamou Perry.





Quanto tem

po

vai durar essa operação?







Pode ser que dure só umas duas horas





disse Donald





ou

pode durar quanto tempo quiser. Costumamos ficar debaixo d'água

durante o tempo em que

os mergulhadores ficarem.







Por que está perguntando?





indagou Suzanne.







Porque...





Perry procurou uma explicação.





Porque preciso

ligar para o escritório.







No domingo?





estranhou Suzanne.





Quem estaria no es

-

critório no domingo?



Perry sentiu que es

tava ficando vermelho de novo. Entre os vôos

noturnos de Nova York aos Açores, havia confundido os dias. Riu, meio

sem graça, e bateu com a mão do lado da cabeça.







Esqueci que hoje era domingo. Devo estar começando a sofrer do

mal de Alzheimer.







Vamos pa

rtir!





anunciou Donald, antes de descer até a plata

-

forma de submersão, lá embaixo.



Perry o seguiu, dando um passo de cada vez, sentindo

-

se um ridí

-

culo covarde. Depois, apesar de fazer o melhor que podia, arrastou

-

se




para atravessar a prancha que balança

va. Era chocante constatar quanta

movimentação havia no que parecia um mar calmo.



A prancha levava direto para o alto do casco do

Oceanus.

O convés

do submersível já estava inundado, uma vez que ele estava quase em



flutuação neutra. Com uma certa dificulda

de, Perry passou pela escoti

lha.

Enquanto descia para o interior do submarino, foi obrigado a se espremer

bem contra os degraus gelados da escada de aço.



O interior da embarcação era tão apertado quanto Mark havia pre

-

venido. Perry começou a duvidar da de

scrição segundo a qual havia lugar

para dez pessoas. Elas iriam ter de ficar todas enfileiradas como sardi

nhas.

Contribuindo para o atulhamento do ambiente, as paredes da frente do

submarino eram repletas de instrumentos, mostradores de cristal líquido e

interruptores. Não havia sequer um centímetro qua

drado que não tivesse

um mostrador ou um botão. As quatro vigias pareciam minúsculas em

meio à profusão de equipamentos eletrônicos. O único aspecto positivo

era que o ar parecia puro. Ao fundo, Perry conse

guiu distinguir o zunido

de um ventilador.



Donald levou Perry até uma poltrona baixa diretamente atrás da sua,

a bombordo. Diante do assento do piloto, ficavam diversos monitores de

tubo de raios catódicos cujos computadores eram capazes de reproduzir

virt

ualmente o fundo dos oceanos para ajudar na navega

ção. Donald

estava usando o rádio FM para falar com Larry Nelson na cabine de

controle de

submersão

, enquanto continuava a verificação anterior ao

mergulho do equipamento e dos sistemas elétricos.



Perry ou

viu a escotilha acima de si se fechar com um baque seguido

por um nítido estalido de trava. Alguns momentos depois Suzanne desceu

da torreta do submarino com muito mais agilidade que Perry. Conseguiu

até trazer consigo os dois livros grossos, que logo foi

entregando a Perry.







Trouxe

esses

livros para você





disse ela.





O grosso é sobre a

vida oceânica, e o outro é sobre geologia marinha. Pensei que talvez

gostasse de dar uma espiada neles para identificar algumas das coisas que

vamos ver. Não queremos que



fique entediado.







Foi atencioso de sua parte





comentou Perry. Mas Suzanne mal

podia imaginar que ele estava nervoso demais para ficar entediado. Sen

-

tia

-

se como antes de decolar num avião: sempre havia a chance de os

próximos minutos serem os últimos da



sua vida.Suzanne se sentou no




assento de piloto de boreste. Logo começou a acionar os interruptores e a

dizer os resultados para Donald. Era óbvio que os dois formavam uma

equipe. Uma vez que Suzanne começou a participar da verificação pré

-

imersão, ruídos



assustadores de tubulações começaram a reverberar

através do espaço confinado. Era um som pe

culiar que Perry associou aos

filmes de submarino da Segunda Guerra Mundial.



Perry estremeceu outra vez. Fechou os olhos um instante e tentou

não pensar no seu tr

auma de infância, no seu desespero, preso sob as

cobertas pelo irmão. Mas essa tática não funcionou. Olhou pela escoti

lha à

esquerda, e se esforçou por entender por que estava achando que tinha

tomado a pior decisão de sua vida, fazendo aquela curta imers

ão de rotina.

Sabia que não havia fundamento racional para essa sensação, uma vez que

reconhecia que estava com profissionais para os quais aquela imersão era

corriqueira. Sabia que o submersível era confiável e que havia

recentemente mandado revisá

-

lo.



De



repente, Perry teve um sobressalto. Um rosto mascarado havia

literalmente se materializado diante de seus olhos. Um ganido lamen

t

ável

e involuntário lhe escapou dos lábios antes que Perry pudesse en

tender

que estava olhando para um dos operários que pre

parava o submarino,

que tinha mergulhado, com o traje autônomo apropriado. Um momento

depois, viu mais mergulhadores. Como num lento balé submarino os

mergulhadores rapidamente soltaram os cabos de manu

seio. Ouviu

-

se

uma batida do lado externo do casco. O



Oceanus

estava solto agora.







Sinal de liberação recebido





disse Donald ao microfone do rádio.

Falava com o supervisor da equipe de lançamento que estava lá no

tombadilho a ré.





Solicitando permissão para ligar os motores e se

afastar do costado.







Perm

issão concedida





respondeu uma voz desencarnada. Perry

sentiu um novo movimento linear acrescentar

-

se ao balanço,



guinada e

arfada passivas do submarino. Pressionou o nariz contra a



vigia e viu o

Benthic Explorer

sair de seu campo de visão. Com o rosto ai

nda

comprimido contra o plexiglá

s, olhou para as profundezas do oceano

onde estava para descer. A luz solar lhe pregava ilusões de óptica, ao

sofrer refração na superfície ondulante da água, abaixo dele, fazen

do

-

o

imaginar se estaria fitando as fauces da

eternidade.



Com outro estremecimento, Perry percebeu que estava tão vulne

-

rável quanto uma criancinha. Uma combinação de vaidade e estupidez o




havia arrastado para aquele ambiente estranho, no qual ele perdera o

controle de seu destino. Embora não fosse re

ligioso, viu

-

se rezando para

que aquele pequeno passeio submarino fosse curto, agradável e seguro.





4

4









Nenhum contato





disse Suzanne, respondendo à pergunta de



Donald, que queria saber se o ecobatímetro mostrava algum

obstáculo inesperado abaixo do

Ocean

us.

Apesar de eles estarem

flutuando no mar aberto, parte da verificação pré

-

imersão tinha sido para

assegurar

-

se de que nenhuma outra embarcação submarina havia

furtivamente pene

trado embaixo deles.



Donald pegou o microfone do rádio VHF e estabeleceu con

tato com

Larry Nelson na cabine de mergulho.







Estamos nos afastando do costado do navio. O oxigênio está

ligado, os filtros estão ligados, a escotilha fechada, o telefone submari

no

está ligado, os terras estão normais, o ecobatímetro está limpo. Soli

cit

o

permissão para submergir.







Acionou o radiofarol?





indagou Larry, pelo rádio.







Positivo





respondeu Donald.







Permissão para imergir concedida





disse Larry, acompanha

do

por um pouco de estática.





A profundidade até a cabeça de poço é de

trezentos e

cinco metros. Boa imersão.







Entendido, e obrigado!





disse Donald.



Donald já estava para recolocar o microfone no suporte, quando

Larry acrescentou:





A câmara de vida está atingindo a profundidade, de

forma que o sino vai estar descendo daqui a pouquinho.



Acho que os

mergulha

dores estarão no local do serviço em meia hora.







Vamos estar esperando por eles





continuou Donald.





Des

-

ligo.





Pendurou o microfone no suporte. Depois, falou aos seus com

-

panheiros de jornada submarina:





Imergir! Imergir! Encher

os tanques

de lastro principais!






Suzanne inclinou

-

se para a frente e acionou um interruptor.







Enchendo os tanques de lastro





repetiu, para que não hou

vesse

dúvidas de que havia entendido. Donald fez uma anotação no papel que

havia na sua prancheta.



Ouvi

u

-

se um som semelhante ao de uma ducha num

compartimento vizinho quando a água gelada do Atlântico penetrou nos

tanques de lastro do

Oceanus.

Dentro de alguns instantes, a embarcação

começou a perder a flutuabilidade rapidamente, e depois de perdê

-

la

total

mente, submergiu, silenciosa.



Durante os minutos seguintes, tanto Donald quanto Suzanne

ficaram totalmente ocupados, certificando

-

se de que todos os sistemas

ainda esta

vam funcionando normalmente. A conversa entre eles se

limitou ao jarg

ão operacional. Ag

ilmente, depois, passaram em revista a

maior parte da lista de verificação pré

-

imersão pela segunda vez,

enquanto a descida do

submersível



se acelerava até a velocidade máxima

de trinta metros por minuto.



Perry procurou se distrair olhando pela vigia. A co

r da água passou

rapidamente de seu azul

-

esverdeado inicial para o índigo. Em cinco

minutos só conseguia enxergar um brilho azulado quando olhava para

cima. Para baixo, tudo estava de um roxo

-

escuro, que se fundia com a

escuridão. Estabelecendo um contrast

e abrupto com essas águas negras, o

interior do

Oceanus

estava banhado pela luminosidade fria vinda dos

inúmeros monitores e dispositivos de leitura de dados.







Acho que estamos com um certo excesso de peso na proa





observou Suzanne depois de verificar to

dos os equipamentos eletrôni

cos

com Donald.





Concordo





disse Donald.





Pode corrigir, para

compensar o Sr. Bergman!



Suzanne acionou novo botão. Ouviu

-

se um zumbido. Perry se

inclinou para a frente, entre os dois pilotos.







Como assim,

me compensar?.





A

voz dele soou esquisita até para

ele mesmo. Engoliu saliva para aliviar a garganta seca.







Temos um sistema de lastro variável





explicou Suzanne.





Está

cheio de óleo, e estou bombeando uma parte dele para a ré a fim de

compensar seu peso, que está à fren

te do centro de gravidade.







Ah!





foi tudo que Perry conseguiu responder. Recostou

-

se no




espaldar do assento. Sua formação como engenheiro lhe permitia com

-

preender o princípio físico. Também ficou aliviado por saber que não

estavam se referindo a sua tim

idez, algo que seu constrangimento lhe

havia irracionalmente sugerido.



Suzanne desligou a bomba de lastro variável quando o equilíbrio do

submarino a satisfez. Depois se virou para falar com Perry. Estava ansiosa

para tornar a descida até o monte submarino



o mais agradável possível.

Depois que voltassem ao navio, ela esperava convencê

-

lo a realizar

mergulhos puramente exploratórios ao

guyot.

Naquele momen

to, a única

oportunidade que tinha de descer era para trocar a broca. Não tivera a

sorte de persuadir M

ark Davidson do valor de mergulhos puramente

destinados à pesquisa.



Além da ansiedade de Suzanne, havia o boato generalizado de que a

perfuração não teria sucesso devido a problemas técnicos. O monte sub

-

marino Olimpo seria abandonado antes que ela pudesse





-

lo mais de

perto. Isso era a última coisa que ela queria, e não só por causa de seus

interesses profissionais. Logo antes de participar do projeto no qual se

encontravam envolvidos no momento, ela tivera o que esperava ser o

rom

pimento definitivo de u

ma relação doentia e volátil com um ator

iniciante. No momento, voltar para Los Angeles era a última coisa que

queria. O surgimento súbito de Perry Bergman no local da perfuração

tinha sido uma feliz coincidência. Ela poderia falar diretamente com o

chefão

.





Está confortável?





perguntou a ele.







Nunca estive tão confortável em toda a vida





asseverou Perry.

Suzanne sorriu, apesar do óbvio sarcasmo da resposta de Perry.



A



situação não parecia nada boa. O presidente da Benthic Marine ainda

estava tenso, com

o mostrava o jeito como agarrava os braços da poltro

na,

como se estivesse para saltar dela. Os livros que ela havia feito o esforço

de trazer jaziam no piso gradeado do submarino, ainda fechados.



Durante um momento, Suzanne observou o presidente rígido cu

jos

olhos fitavam tudo, menos os seus. O que não conseguia entender era se o

nervosismo de Perry se devia à apreensão de estar no submersível ou era

apenas o reflexo de sua personalidade básica. Até mesmo na pri

meira vez

em que vira o homem, seis meses an

tes, o havia considerado um sujeito

ligeiramente excêntrico, vaidoso e nervoso. Obviamente não era o seu tipo,

além de ser baixo o bastante para que ela o fitasse direta

mente nos olhos,

de tênis. Mesmo não tendo quase nada em comum com ele, especialmente




por ser ele uma combinação de engenheiro e empresário e ela, uma

cientista, tinha certeza de que ele compreenderia seus argumentos. Afinal,

já havia reagido positivamente à sua solicita

ção de levar o

Benthic Explorer

de volta até o monte Olimpo, mesmo que



fosse apenas para perfurar a

suposta câmara magmática.



O monte Olimpo havia sido a principal preocupação de Suzanne

durante quase um ano, uma vez que ela havia topado com a existência

dele ao ligar o sonar de varredura lateral do

Benthic Explorer

por sim

ples

tédio, quando o navio seguia em direção ao porto. Inicialmente sua

curiosidade envolveu apenas sua incapacidade de explicar por que um

vulcão assim maciço e aparentemente extinto não teria sido detec

tado pelo

Geosat. Mas agora, depois de quatro imers

ões no submersí

vel, estava

igualmente fascinada pelas formações geológicas sobre seu cume achatado,

principalmente porque só tivera a oportunidade de explorar os arredores

da cabeça de poço. Mas aí o fato mais intrigante surgiu, quando ela

resolveu verifi

car a idade da rocha trazida com a broca quebrada.Para

Suzanne, os resultados foram surpreendentes, e muito mais intrigantes do

que a dureza aparente da rocha. Pela posição do monte, perto da Cadeia

Meso

-

Atlântica, ela esperava que a idade da rocha esti

ve

sse na faixa dos

setecentos mil anos. Em vez disso, ela parecia ter quatro bilhões de anos

de idade!



Sabendo que as mais antigas rochas encontradas na superfície da

Terra ou no fundo do oceano eram significativamente bem menos an

tigas

que essa, Suzanne ha

via pensado que o instrumento de datação estava

fora de calibração, ou ela havia cometido algum erro no procedi

mento.

Sem querer se arriscar a passar por incompetente, resolveu não divulgar

os resultados.



Com um infinito cuidado, passou horas recalibrando



o equipa

mento,

depois verificando vezes sem conta novas amostras. Para in

credulidade

sua, os resultados ficaram todos dentro da faixa de tr

ês ou quatro milhões

de anos um do outro. Ainda acreditando que o instrumento devia estar

com algum defeito, Suzan

ne pediu a Tad Messenger, o chefe dos técnicos

de laboratório, para recalibrá

-

lo. Quando tornou a submeter a amostra ao

ensaio, o resultado ficou a alguns milhões de anos do anterior. Ainda em

dúvida, Suzanne se conformou em esperar até voltar a Los Angele

s, para

usar o equipa

mento do laboratório da universidade. Enquanto isso, os

resultados ficaram trancafiados em seu armário no navio. Ela estava

tentando isentar

-

se de ânimo, mas o interesse que sentia pelo monte




Olimpo aumentava cada vez mais.







Tem café



quente naquela térmica ali atrás, se quiser um pouco





disse Suzanne.





Teria prazer em ir buscar um copo para você.







Acho que gostaria muito mais se você ficasse aqui perto dos

controles





asseverou Perry.







Donald, que tal ligar as luzes lá de fora um

instante?





sugeriu

Suzanne.







Estamos acabando de passar pelos cento e cinqüenta metros de

profundidade





disse Donald.





Aqui não há nada para se ver.





É a

primeira imersão do Sr. Bergman





insistiu Suzanne.





Devíamos lhe

mostrar o plâncton.







Pode me c

hamar de Perry





pediu o presidente da empresa.





Não há motivo para ser tão formal aqui embaixo, apinhados assim, fei

to

sardinhas em lata, não é?



Suzanne recebeu com um sorriso essa permissão concedida por

Perry para que o tratasse informalmente. Só sent

iu pena por ele

visivelmente não estar aproveitando a imersão.







Donald, será que podia me fazer o favor pessoal de acender as

luzes, sim?





pediu Suzanne.



Donald obedeceu sem fazer nenhum outro comentário. Estenden

do

o braço para a frente, ligou as lumin

árias halógenas externas de bom

bordo.

Perry virou a cabeça e lançou uma olhadela para fora.







Parece até neve





comentou.







São trilhões de organismos planctônicos





explicou Suzanne.





Como estamos numa zona epipelágica, provavelmente é em sua maioria

fi

toplâncton, ou plâncton vegetal, que pode realizar fotossíntese. Junto

com as algas azul

-

esverdeadas, são esses seres que formam a base de toda

a cadeia alimentar oceânica.







É bom saber disso





respondeu ele. Donald desligou as luzes.







Não adianta gastar



nossa preciosa bateria para obter

esse

tipo de

reação





cochichou no ouvido de Suzanne.



Na escuridão que se fez depois disso, Perry presenciou explosões

brilhantes de um tênue verde néon e centelhas amareladas. Perguntou a




Suzanne o que era aquilo.







É a

bioluminescência





explicou Suzanne.







Vem do plâncton?





indagou Perry.







Talvez





disse Suzanne.





Se for do plâncton, provavelmente

são os dinoflagelados. É claro que também poderiam ser minúsculos

crustáceos ou até peixes. Coloquei um marcador amarelo

no livro sobre

biologia marinha para marcar a parte que fala da bioluminescência.Perry

fez um gesto de concordância, porém não fez menção de con

sultar o livro.



Boa tentativa,

pensou Suzanne, murcha. O otimismo dela diante da

tarefa de garantir divertiment

o a Perry havia se atenuado considera

-

velmente.







Oceanus,

aqui é o

Benthic Explorer





disse a voz de Larry no alto

-

falante do intercomunicador.





Sugiro um curso de duzentos e setenta

graus a cinqüenta ampères durante dois minutos.







Entendido





disse Don

ald. Rapidamente providenciou a cor

-

reção do curso com as alavancas de controle e mudou a saída de potên

cia

para o hélice de modo a obter os cinqüenta ampères sugeridos. Depois fez

anotações no seu relatório, na prancheta.







Larry determinou nossa posição



rastreando nossos

pingers

e

correlacionando

-

os com os hidrofones instalados no fundo do mar





explicou Suzanne.





Se avançarmos enquanto descemos, vamos atin

gir o

fundo diretamente sobre a cabeça do poço. É como se deslizásse

mos até o

alvo.







O que vamo

s fazer até os mergulhadores chegarem?





pergun

-

tou Perry.





Ficar sentados aqui, enrolando?







De jeito nenhum





disse Suzanne. Deu outro sorriso forçado e

uma risadinha forçada.





Vamos descarregar a broca da bandeja e as

ferramentas que trouxemos. Depois



vamos recuar. A essa altura vamos ter

uns vinte a trinta minutos para explorar o local. É essa parte que imagino

que você vai realmente apreciar.







Mal posso esperar





disse Perry, com o tipo de sarcasmo que

Suzanne estava começando a temer.





Mas não que

ro que façam nada

fora do normal por minha causa. Quero dizer, não tentem me impres

-

sionar. Eu já estou bastante impressionado.






De repente, o monótono ruído do sonar mudou. O submarino estava

se aproximando do fundo, e o sonar de curto alcance diantei

ro r

ecebeu

um sinal bastante firme. A minúscula tela verde mostrou a cabeça do poço

e o tubo que descia lá da superfície. Donald alijou



vários dos pesos de

descida e o mergulho deslizante da embarcação ficou mais vagaroso.

Depois o capitão começou a regular cu

idadosa

mente o sistema de lastro

variável para atingir uma flutuabilidade neutra.



Enquanto Donald se ocupava de bombear o óleo, Suzanne, tateando

atrás de si, ligou um pequeno aparelho de reprodução de discos a laser.

Aquilo fazia parte do seu plano princ

ipal. De repente a

Sagração da pri

-

mavera,

de Igor Stravinsky, fez o interior do submarino vibrar. Ouvin

do a

música, conforme já fora combinado, Donald inclinou

-

se e ligou as luzes

externas.



Os olhos de Perry se arregalaram quando deu uma olhada pela vi

g

ia.

Quase não havia mais neve planctônica, de forma que a transpa

rência da

água gélida era maior do que ele tinha imaginado. Conseguia enxergar

tudo num raio de várias dezenas de metros, e o que via o dei

xou perplexo.

Esperava uma planície sem acidentes,



semelhante ao fun

do de mar que

vira quando da imersão ao largo de Santa Catalina. No máximo pensou

que poderia ver alguns pepinos do mar. Em vez disso, viu

-

se

contemplando uma meseta nebulosa que não se parecia com nada que ele

já houvesse imaginado: ime

nsas silhuetas cinza

-

escuro, em for

ma de

colunas, com a parte superior achatada, pontilhavam a paisagem,

salientando

-

se irregularmente como os cilindros paralisados de um motor

descomunal. Aquelas formas fantasmagóricas estendiam

-

se até onde

alcançava a v

isão de Perry. Alguns peixes de cauda longa e olhos gran

des

preguiçosamente penetravam nelas ou nadavam em torno, ariscos. Sobre

algumas das rochas, gorgônias e cnidárias ondulavam sinuosas, ao sabor

da corrente.







Santo Deus!





exclamou Perry. Estava fas

cinado, principalmen

te

com aquela música dramática como fundo.







Um tanto excepcional, não?





comentou Suzanne. Sentiu

-

se mais

animada. Aquela reação de Perry ao cenário era a primeira auspiciosa que

conseguia obter.







Parece com um santuário antigo





exc

lamou Perry.





Como na

Atlântida





insinuou Suzanne. Estava disposta a dourar a pílula tanto

quanto pudesse, diante do que estava em jogo.










Caramba, é mesmo!





exclamou Perry.





Como a Atlântida!

Rapaz! Já imaginou se trouxéssemos turistas aqui e lhes diss

éssemos que é

mesmo a Atlântida? Mas que tremenda mina de ouro isso não ia ser...



Suzanne pigarreou. Trazer turistas ali para seu precioso monte sub

-

marino era a última coisa que ela queria que acontecesse, mas apreciou o

entusiasmo de Perry. Pelo menos el

e parecia ter se deixado impressionar.







A velocidade da corrente é de menos de um oitavo de nó





informou Donald.





Chegando à cabeça do poço. Preparar para des

-

carregar a broca.



Suzanne voltou

-

se bruscamente para desempenhar seu papel de co

-

piloto. Elevo

u a potência dos servomotores que movimentavam os bra

ços

do manipulador. Enquanto isso Donald, com grande habilidade, fazia o

Oceanus

pousar no leito rochoso. Enquanto Suzanne se prepara

va para

erguer a broca e as ferramentas da bandeja do submersível, D

onald usava

o telefone submarino.







Chegamos ao fundo





informou.





Descarregando.







Entendido





respondeu Larry, pelo alto

-

falante.





Achei que já

haviam chegado quando escutei a música da Suzanne. Será que

esse

bendito CD é o único que ela tem?







É o mel

hor para acompanhar o cenário aqui debaixo





inter

feriu

Suzanne.







Se fizermos mais algumas imersões vou te emprestar uns CDs de

música New Age





respondeu Larry.





Não agüento essas músicas

clássicas.







São diques basálticos, aquelas coisas que eu estou

vendo?





perguntou Perry.







É o que imagino





disse Suzanne.





Já ouviu falar da Calça

da

dos Gigantes?







Não creio





respondeu Perry.





É uma formação feita de rochas

naturais na costa norte da Ir

landa





disse Suzanne.





Parece um pouco

com o que está ven

do aqui.







Qual o tamanho do cume desse monte?





perguntou Perry.







Estimo que seja equivalente a quatro campos de futebol ameri

-

cano





disse Suzanne.





Mas, infelizmente, não passa de uma estima

tiva.




O problema é que não temos tempo para ficar aqui no fu

ndo e fazer uma

pesquisa detalhada.







Bom, acho que vamos ter que planejar isso





disse Perry.

Bingo!,

disse Suzanne a si mesma. Precisou resistir à tentação de berrar



perguntando se o Larry e o Mark haviam escutado o coment

ário de

Perry pelo telefone subm

arino.







O cume inteiro da montanha é igual a esse pedaço aqui?





perguntou Perry.







Não, não é todo igual





disse Suzanne.





No trecho limita

do

que pudemos explorar, há algumas áreas de formações de lava sub

marina

mais típicas. Na última imersão, porém,



vislumbramos o que pode ser

uma falha transversal, mas fomos chamados de volta antes que

pudéssemos explorá

-

la. A maior parte do monte permanece inexplorada.







Onde estava a falha em relação à cabeça do poço?





indagou

Perry.







A oeste daqui





informou Su

zanne.





Bem na direção para a

qual está olhando agora. Está enxergando uma fileira particularmente alta

de colunas?







Acho que sim





disse Perry. Encostou o rosto no plexiglas para

tentar olhar um pouco atrás do submarino. Havia uma fila de colunas bem

no



limite de seu campo de visão.





Seria significativo encontrar uma

falha transversal?





perguntou.







Seria assombroso





informou Suzanne.





Elas ocorrem em todo

o sistema da Cadeia Meso

-

Atlântica, mas encontrar uma assim, a essa

distância da cadeia, passan

do pelo meio do que presumimos ser um

antigo vulcão, seria bastante peculiar.





Vamos dar uma olhada nela





sugeriu Perry.





Esse lugar aqui é fascinante.



Suzanne deu um sorriso vitorioso. Lançou um olhar rápido a

Donald. Nem ele conseguiu esconder um sorri

so. Estava a favor do pla

no

de Suzanne, mas não levava muita fé nele.



Suzanne levou apenas alguns minutos para descarregar tudo que

Mark havia colocado na bandeja do submersível. Depois que o mate

rial já

se achava alinhado perto da cabeça do poço, ela do

brou os braços do

manipulador, fazendo

-

os retornar à posição de retração.










Serviço terminado





declarou. Desligou os servom

o

tores.







Oceanus

para a superfície





disse Donald no microfone do

intercomunicador.





Já descarregamos. Qual a posição dos mergulha

-

dores?







A compressão está próxima do fundo





informou a voz de Larry

pelo alto

-

falante.





O sino vai começar a descer em breve. O tempo

estimado de chegada ao fundo é de cerca de trinta minutos, talvez cin

co a

mais, talvez a menos.







Entendido!





respon

deu Donald.





Mantenha

-

nos informados.

Vamos para o oeste investigar uma escarpa que vimos na última imersão.







Positivo!





respondeu Larry.





Vamos informar quando o sino

estiver sendo içado da câmara de vida. Também vamos informar quan

do

passarem dos ce

nto e cinqüenta metros, de forma que possam assu

mir a

posição adequada.







Entendido!





repetiu Donald. Pendurou o microfone. Com as

mãos descansando de leve nas alavancas, elevou a potência do siste

ma de

propulsão para cinqüenta ampères. Depois, habilmen

te mano

brou o

submarino, afastando

-

o da cabeça do poço, para evitar o tubo que saía

dela e subia verticalmente até o navio. Alguns momentos de

pois, o

Oceanus

já estava vagarosamente pairando sobre a estranha to

pografia do

cume da mesa submarina.







Minha



hipótese é que estamos vendo uma parte primitiva da

crosta do manto terrestre





disse Suzanne.





Mas não sei explicar como



nem por que a lava esfriou formando essas formas poligonais. É quase

como se fossem gigantescos cristais.







Gostei dessa idéia de im

aginar que isso pode ser a Atlântida





acrescentou Perry. O rosto dele permanecia colado à vigia.







Estamos chegando ao local onde divisamos a falha





disse

Donald.







Deve ser logo além daquela fileira de colunas que vêm vindo





informou Suzanne a Perry.



D

onald reduziu a potência. O submersível reduziu a velocidade

quando passaram pela fileira de colunas.







Uau!





comentou Perry.





Sem dúvida é uma descida bem




abrupta.







No fim das contas, não é uma falha transversal





falou Suzanne

quando conseguiu ver a f

ormação inteira.





Aliás, se fosse uma falha,

teria de ser uma fossa tectônica. O outro lado é tão íngre

me quanto este.







Que diabo é uma fossa tectônica?





indagou Perry.







É um bloco de falha afundado em relação às rochas que o cer

-

cam





explicou Suzann

e.





Mas isso não acontece no alto de um monte

submarino.







Parece

-

me um imenso buraco retangular





disse Perry.





Qual o

tamanho, segundo sua estimativa? Mais ou menos trinta metros de

comprimento e dez de largura?







Diria que é isso mesmo





disse Suzanne

.







Incrível!





comentou Perry.





É como se algum gigante tives

se

cortado uma fatia de rocha com uma faca exatamente do jeito como se tira

um naco de uma melancia.



Donald levou o

Oceanus

para cima do buraco, depois todos olha

ram

para baixo.







Não consigo



ver o fundo





disse Perry.







Nem eu





disse Suzanne.





Nem o nosso sonar





disse Donald.

Apontou para o monitor do ecobatímetro. Não estava obtendo sinal de

retorno. Era como se o

Oceanus

estivesse pairando acima de um poço sem

fundo.







Minha nossa!





diss

e Suzanne. Estava pasma.



Donald deu um tapinha no monitor, mas nem assim obteve leitura.







Muito estranho





disse Suzanne.





Acha que é algum defeito?







Não sei dizer





relatou Donald. Tentou modificar as regulagens.







Espere aí um segundo





disse Perry, n

ervoso.





Vocês dois

estão de brincadeira comigo?







Tente o sonar de varredura lateral





sugeriu Suzanne, ignoran

do

Perry por um momento.







Está esquisito do mesmo jeito





disse Donald.





O sinal é

aberrante, a menos que queiramos interpretar que o poço s

ó tem um




metro e oitenta a dois metros e dez de profundidade. É isso que está

aparecendo no monitor do sonar.







O buraco claramente é bem mais fundo do que isso





obser

vou

Suzanne.





-



É óbvio





concordou Donald.







Ei, pessoal, qual é?





disse Perry.





Voc

ês estão começando a

me assustar.



Suzanne virou

-

se rapidamente para fitar Perry.







Não estamos tentando assustá

-

lo. Só estamos intrigados devi

do à

reação dos instrumentos.







Para mim tem um tremendo termoclina logo além da beirada

dessa formação





disse D

onald.





As ondas do sonar estão se refletin

do

em alguma coisa.







Será que dava para traduzir isso?





pediu Perry.







As ondas sonoras se refletem quando ocorrem gradientes de

temperatura súbitos





disse Suzanne.





Achamos que

é esse

o caso.







Para consegu

ir a leitura da profundidade, teríamos que descer

uns três ou quatro metros para dentro do buraco





disse Donald.



Vou

fazer isso reduzindo a flutuabilidade, mas primeiro quero mudar a nossa

orientação.



Dando pequenos arrancos, Donald usou o impelidor fron

tal de

boreste para girar o submersível até ele ficar paralelo ao eixo do compri

-

mento do buraco. Depois manipulou o sistema de lastro variável para

tornar negativa a flutuabilidade do submarino. Gradativamente, a em

-

barcação começou a descer.







Talvez ess

a não seja uma boa idéia





disse Perry. Estava olhan

do

nervoso para trás e para a frente entre o monitor de sonar de varre

dura

lateral e a vigia onde se achava.



O alto

-

falante do UQC soou, com estalidos:







Controle de superfície para o

Oceanus.

O sino es

tá saindo da

câmara de vida, enquanto falo. Os mergulhadores vão passar pelos cen

to e

cinqüenta metros em cerca de dez minutos.







Entendido, controle de superfície





disse Donald ao microfo

-




ne.





Estamos a cerca de trinta metros a oeste da cabeça do poço.



Va

mos

verificar um termoclínio aparentemente acentuado em uma formação

rochosa. As comunicações talvez se interrompam momenta

neamente, mas

estaremos na posição para receber os mergulhadores.







Positivo





respondeu a voz de Larry.







Olha só como as pared

es são uniformes





comentou Suzanne

enquanto o submarino afundava abaixo da beirada do enorme precipí

-

cio.





São perfeitamente lisas. Parece até obsidiana!







Vamos voltar para a cabeça do poço





sugeriu Perry.







Seria esta a chaminé de um vulcão extinto?





indagou Donald.

Um ligeiro sorriso apareceu rapidamente em seu rosto contraído.







É uma idéia





disse Suzanne, rindo.





Embora precise obser

var

que jamais ouvi falar de uma chaminé de cratera perfeitamente

retilínea.





Tornou a rir.





Nossa descida aqui,



assim, me faz lembrar a

Viagem ao centro da Terra,

do Júlio Verne.







Em que sentido?





perguntou Donald.







Já leu

esse

livro?





Não leio romances





disse Donald.







Ah, é, me esqueci





desculpou

-

se Suzanne.





Bom, nessa his

-

tória os protagonistas entraram n

uma espécie de mundo subterrâneo

primitivo através de um vulcão extinto.



Donald sacudiu a cabeça. Os olhos continuavam colados ao

mostrador



de termistor.







Que desperdício de tempo, ler uma bobagem dessas





repro

vou

ele.





É por isso que não leio romances

. Não dá tempo, por causa dos

periódicos técnicos que nem consigo ler.



Suzanne ia responder, mas mudou de idéia. Jamais havia sido capaz

de arranhar as rígidas opiniões de Donald sobre a ficção em particular e a

arte em geral.







Não quero ser inoportuno





disse Perry





mas eu...



Perry não pôde terminar a frase. De repente a descida do submari

no

acelerou

-

se acentuadamente e Donald gritou:







Meu Deus Todo

-

Poderoso!






Perry agarrou

-

se às laterais da cadeira com tanta força que as juntas

dos dedos ficaram esbran

quiçadas. O rápido aumento da velocidade em

direção ao fundo o assustou, mas não tanto quanto aquela interjeição

incomum de Donald. Se o imperturbável Donald Fuller estava assusta

do,

a situação devia ser muito grave.







Alijar lastros!





berrou Donald. A d

escida imediatamente se

suavizou, em seguida parou. Donald alijou mais peso, e o submarino

começou a subir. Depois ele usou o impulsor de bombordo para man

ter o

submarino paralelo ao eixo do comprimento do poço. A última coisa que

queria era bater naquela

s paredes.







Que diabo foi isso?





quis saber Perry quando conseguiu reco

-

brar a voz.







Perdemos flutuabilidade





respondeu Suzanne.







De repente ficamos mais pesados, ou a água ficou mais leve





disse Donald enquanto examinava os mostradores dos instrumen

tos.







O que significa isso?





indagou Perry.





Como obviamente não

ficamos mais pesados, a água ficou mesmo mais leve





informou Donald.

Apontou para o termômetro.







Passamos através do gradiente de temperatura que

suspeitávamos existir, e era bem maior do



que calculávamos, na direção

oposta. A tem

peratura externa subiu mais de trinta e sete graus!







Vamos dar o fora daqui!





gritou Perry.







É isso mesmo que estamos começando a fazer





disse Donald,

curto e grosso. Arrancou o microfone UQC do suporte e ten

tou estabe

lecer

contato com o

Benthic Explorer.

Ao ver que não tinha sorte, recolocou o

microfone no suporte.





As ondas sonoras não chegam até aqui, e nem

conseguem passar.







Onde estamos, numa espécie de buraco negro acústico?





per

-

guntou Perry, irrita

do.







O ecobatímetro está mostrando alguma coisa agora





disse

Suzanne.





Mas não pode ser! Por ele,

esse

poço aqui tem mais de nove

mil metros de profundidade!







Ora, por que estaria funcionando mal?





Donald perguntou

-

se.

Deu no instrumento uma batida ai

nda mais forte com os nós dos dedos. O




mostrador digital continuou mostrando nove mil, cento e oitenta e nove

metros.







Deixa o ecobatímetro pra lá





disse Perry.





Não dá para sair

daqui mais rápido?





O

Oceanus

estava subindo, porém muito devagar.







Jama

is tive problema algum com

esse

ecobatímetro antes





disse

Donald.







Talvez

esse

poço possa conter alguma espécie de chaminé cheia

de magma





disse Suzanne.





Obviamente é bem profundo, mesmo que

não saibamos qual a profundidade, e a água está quente. Isso



sugere

contato com lava.





Ela se inclinou para a frente para olhar pela vigia.







Será que não dava pelo menos para desligar o aparelho de

som?







pediu Perry. A música estava atingindo um crescendo que apenas

lhe aumentava o nervosismo.







Ora vejam só





e

xclamou Suzanne.





Olhe só as paredes des

se

trecho! O basalto está orientado transversalmente. Jamais ouvi falar de um

dique transversal. E reparem só! Tem uma coloração esverdeada. Talvez

seja gabro, não basalto.







Estou começando a achar que vou ter de

impor minha autori

dade

por aqui





disse Perry com uma óbvia exasperação. Já estava cheio de ser

ignorado.





Quero voltar à superfície,

agora mesmo!



Suzanne virou

-

se abruptamente para responder, mas só conseguiu

abrir a boca. Antes que pudesse emitir quais

quer palavras, uma podero

sa

vibração de baixa freqüência sacudiu o submersível. Ela foi obrigada a

agarrar a lateral do assento para não cair. O súbito abalo jogou objetos

soltos no piso. Uma caneca de café se espatifou no chão; os cacos saí

ram

rolando p

elo chão junto com canetas caídas. Ao mesmo tempo, foi

possível sentir um ronco baixo que parecia um trovão distante.



O abalo durou quase um minuto. Ninguém falou, embora um

guincho



involuntário tenha escapado dos lábios de Perry, que ficou pálido.







Mas q

ue raio de tremor foi

esse

?







indagou Donald. Rapida

-

mente, passou em revista os instrumentos.







Não tenho certeza





disse Suzanne



, mas meu palpite é que foi

um terremoto. Ocorrem muitos, em toda a extensão da Cadeia Meso

-

Atlântica.










Terremoto!?





excla

mou Perry.







Talvez este velho vulcão esteja despertando





disse Suzanne.





Não seria fantástico presenciar isso?







Epa





disse Donald.





Tem alguma coisa errada!







Qual é o problema?





indagou Suzanne. Como Donald, seus

olhos percorreram rapidamente os mo

stradores, os instrumentos e as telas

diretamente no seu campo de visão. Eram aqueles os instrumentos

importantes para operar o submarino. Nada parecia estar faltando.







O ecobatímetro!





disse Donald, com uma urgência que não era

comum nele.Os olhos de Su

zanne voltaram

-

se imediatamente para o

mostrador digital situado perto do chão, entre os dois assentos dos pilotos.

Estava diminuindo a uma velocidade alarmante.







O que está havendo?





indagou ela.





Acha que vem subindo

lava aí por essa chaminé?







Não!





gritou Donald.





Somos nós. Estamos afundando, e já

alijei todos os pesos de imersão. Perdemos totalmente a flutuabilidade!







Mas veja o manômetro!





berrou Suzanne.





Não está subin

do.

Como podemos estar afundando?







Deve ter se quebrado





disse Donald,



frenético.





Sem dúvi

da

estamos afundando. Dá só uma olhada por essa porcaria de vigia aí!



Os olhos de Suzanne rapidamente desviaram

-

se para a janela. Era

isso mesmo. Estavam afundando. A superf

ície lisa da rocha estava se

movimentando rapidamente para c

ima.







Vou injetar ar nos tanques de lastro





gritou Donald.





A essa

profundidade não vai dar muito certo, mas não temos escolha.



O som do ar comprimido abafou a

Sagração da primavera

de

Stravinsky, porém apenas durante vinte segundos. A uma pressão da

-

qu

elas, os tanques de ar comprimido rapidamente se esgotaram. A des

-

cida não foi afetada.







Faça alguma coisa!





berrou Perry quando conseguiu recobrar a

voz.







Não dá





berrou Donald.





O submarino não está obede

cendo

aos controles. Não há mais nada a tent

ar.








5

5





Mark Davidson estava morrendo de vontade de fumar. O vício lhe

parecia irresistível, embora Mark considerasse fácil livrar

-

se dele, uma vez

que fumava apenas uma vez por semana. Ficava com mais vontade

quando estava se distraindo, trabalhando ou ner

voso, e naquele mo

mento

estava mesmo uma pilha. Para ele, as operações de mergulho em grande

profundidade sempre eram de alto risco; sabia, por experiência, que as

coisas podiam ficar pretas de uma hora para a outra.



Ergueu os olhos para o relógio grande

da empresa que estava pen

-

durado na parede da cabine, com seu monstruoso ponteiro dos minu

tos.

Sua presença intimidadora fazia a passagem do tempo difícil de se ignorar.

Agora já fazia doze minutos desde que o último contato fora mantido com

o

Oceanus.

Em

bora Donald houvesse especificamente avisado que talvez

ocorresse uma interrupção nas comunicações, aque

le intervalo parecia

mais longo do que o razoável, principalmente por

que o submarino não

havia respondido à última mensagem de Larry Nelson. Foi quand

o Larry

tentou lhes dizer que

os

mergulhadores esta

vam passando pelos cento e

cinqüenta metros.



Os olhos de Mark voltaram

-

se para o pacote de Marlboro que ele

havia jogado displicentemente sobre o painel da cabine de mergulho. Era

uma agonia n

ão poder peg

ar o maço, tirar um cigarro e acendê

-

lo.

Infelizmente, havia uma proibi

ção recente na empresa quanto a fumar

nas áreas comuns do navio, e o capitão Jameson era um caxias com as

regras e os regulamentos.



Com alguma dificuldade, Mark desviou os olhos dos ciga

rros e es

-

quadrinhou o interior da cabine. Todos os outros presentes pareciam

calmos, o que apenas fez Mark ficar mais tenso. Larry Nelson estava

sentado, perfeitamente parado, na esta

ção de monitoração de operações

de mergulho, junto ao operador de sonar,



Peter Rosenthal. Logo além

deles estavam os dois vigilantes do turno, que se encontravam em fren

te

do console de operação do sistema de mergulho. Embora os olhos deles

estivessem constantemente examinando os manômetros das duas câmaras

de superfície pres

surizadas e o sino de mergulho, todas as ou

tras partes




dos corpos deles estavam imóveis.



Diante dos vigilantes estava o operador do guincho. Ele estava

encarapitado em um banco alto diante da janela que dava para o po

ço

central. A mão dele estava pousada

sobre a alavanca de câmbio do guin

-

cho. Lá fora, o cabo atado à manilha do alto do sino de mergulho esta

va

sendo desenrolado à velocidade máxima permitida. De um tambor

vizinho vinha um segundo cabo passivo que continha a linha de gás

comprimido, a mangue

ira de água quente e os fios de comunicação.



Do outro lado da cabine, estava o capitão Jameson, que distraida

-

mente chupava um palito. Diante dele estavam os controles que forma

-

vam uma extensão da ponte. Embora os impelidores e empuxadores do

sistema de p

osicionamento dinâmico estivessem sendo controlados por

computador para manter o navio estacionário sobre a cabeça do poço, o

capitão Jameson podia desativar o sistema e controlá

-

lo manualmen

te,

caso houvesse necessidade disso durante as operações de merg

ulho.







Mas que inferno!





exclamou Mark, com veemência. Bateu com

um lápis que inconsciente andara torcendo de encontro ao balcão e se

ergueu.





Qual a profundidade em que estão os mergulhadores?







Passando pelos duzentos metros, senhor





respondeu o oper

a

-

dor do guincho.





Tente entrar em contato com o

Oceanus

de novo!





berrou Mark para Larry. Começou a andar de um lado para o outro.

Estava com uma sensação ruim na boca do estômago, e ela estava

piorando. Ele começou a se criticar por incentivar Perry Ber

gman a

participar do mergulho. Sabendo do interesse da Dra. Newell pelo monte

sub

marino e do desejo dela de fazer mergulhos puramente exploratórios,

temia que ela tentasse impressionar o presidente para conseguir seu

intento. Isso podia significar que ela



pressionaria Donald a fazer coi

sas

que ele talvez não fizesse normalmente, e Mark sabia muito bem que a

Dra. Newell era a única pessoa do navio que potencialmente era capaz de

influenciar desse jeito o normalmente correto ex

-

oficial da Marinha.



Mark estr

emeceu. Seria uma catástrofe de primeira grandeza o

submersível ficar preso em uma fissura ou em uma falha onde pu

desse ter

descido para examinar uma determinada característica geo

lógica de perto.

Isso quase havia acontecido com o submersível

Alvin,

ao l

argo de Woods

Hole, e aquela quase tragédia tinha ocorrido na Cadeia Meso

-

Atlântica,

não muito distante do ponto onde se en

contravam.










Continuamos sem obter resposta





disse Larry depois de vá

rias

tentativas frustradas de falar com o

Oceanus

através do

UQC.







Algum sinal do submersível no sonar de varredura lateral?





indagou Mark ao operador de sonar.







Negativo





disse Peter.





E os hidrofones do fundo do mar não

fizeram contato com a baliza de rastreamento. O termoclínio que

encontraram deve ser mesmo



muito acentuado. É como se tivessem caído

nas profundezas do oceano.



Mark parou de andar para um lado e para outro e olhou para o re

-

l

ógio outra vez.







Há quanto tempo foi aquele abalo?





indagou.







Foi mais do que um abalo





disse Larry.





Tad Messenger

disse

que alcançou quatro ponto quatro na escala Richter.





Não estou

surpreso..., derrubou aquela pilha de tubos no con

vés





disse Mark.





E

se foi assim aqui em cima, imagino que deve ter sido muito pior lá

embaixo. Há quanto tempo ocorreu?



Larry consult

ou o di

ário.







Foi há quase quatro minutos. Não acha que isso teve alguma

coisa a ver com essa nossa falta de comunicação com o

Oceanus,

acha?



Mark hesitou, sem saber o que responder. Não era supersticioso,

mas detestava expressar seus temores, como se art

iculá

-

los fosse torná

-

los

muito mais possíveis. Porém, temia que o terremoto de 4.4 pudesse ter

causado um deslizamento de rochas que houvesse prendido o

Oceanus.

Uma ca

tástrofe assim certamente não estaria descartada, se Donald tivesse

mes

mo descido den

tro de uma depressão estreita por insistência de

Suzanne.







Deixe

-

me falar com os mergulhadores





disse Mark. Foi até

Larry e pegou o microfone. Enquanto pensava no que iria dizer, lançou

uma olhadela para o monitor onde podia ver de cima para baixo a part

e

superior das cabeças e os corpos de três homens.







Mas que merda, cara!





resmungou Michael.





Você acabou de

chutar meus colhões!





A voz dele saiu como uma série de guinchos e

gritos que teriam sido em sua maior parte ininteligíveis para os seres

human

os normais. A distorção era uma função do hélio que ele estava

respirando no lugar do nitrogênio.






À pressão equivalente a 980 pés de água do mar, o nitrogênio fun

-

cionava como anestésico. A substituição do nitrogênio por hélio resol

via o

problema, mas cau

sava mudanças acentuadas na voz. Os mergulhadores

já estavam acostumados a elas. Embora a voz deles soas

se parecida com a

do Pato Donald, de Walt Disney, eram capazes de se entender

perfeitamente.







Então tira os seus colhões da minha reta





disse Richard

.





Estou todo enrolado para colocar essas nadadeiras.



Todos os três mergulhadores estavam apinhados dentro do sino de

m

ergulho, cujo casco duplo era uma esfera de apenas 2,40 metros de



diâmetro. Embolados junto com eles estavam todos os equipamentos de

me

rgulho, muitas centenas de metros de mangueira enrolada e toda a

instrumentação necessária.







Saia do caminho, ele diz





zombou Michael.





O que quer que

eu faça, que dê uma voltinha lá fora?



Um alto

-

falante estalou, dando sinal de que ia receber uma trans

-

missão. Estava montado bem no ápice da esfera ao lado de uma minús

-

cula câmera de vídeo munida de uma lente do tamanho do olho de um

peixe. Embora os mergulhadores soubessem que estavam sendo cons

-

tantemente observados, eram totalmente indiferentes a essa



vigilância.







Por favor, um minuto de sua atenção, homens!





ordenou Mark.

Em contraste com a voz dos mergulhadores, a dele parecia rela

tivamente

normal.





Aqui fala o comandante das operações.







Grande merda!





resmungou Richard sem tirar os olhos da

na

dadeira que estava lhe causando tanto problema.





Não admira que

não consiga colocar essa porcaria. Não é a minha. É a sua, Donaghue.





Sem avisar, Richard tascou a nadadeira na cabeça de Michael. Michael se

incomodou com o golpe apenas porque derrubou seu



precioso boné dos

Red Sox. O boné caiu no tronco da escotilha, indo parar sobre a escotilha

vedada.







Ei, peraí, ninguém se mova!





disse Michael.





Mazzola, pega

meu boné pra mim! Não quero que se molhe!





Michael já estava todo

vestido para o mergulho,

com o traje de neoprene completo, colete de

controle de flutuação e pesos de lastro. A capacidade de se curvar, como

seria preciso para pegar o boné, estava fora de cogitação.










Senhores!





a voz de Mark se fez ouvir mais alta e mais

insistente.







Vá se fo

der!





disse Louis.





Posso ser o mergulhador do sino

mas não sou seu escravo.







Ei, escutem aqui, seus animais!





a voz de Larry berrou do

minúsculo alto

-

falante. O som reverberou pela esfera entulhada a um

nível próximo da dor.





O Sr. Davidson quer fala

r com vocês, portan

to, é

melhor calarem a matraca!Richard meteu a nadadeira e o outro pé nas

mãos de Michael, de

pois olhou para a câmera.







Tá legal





disse ele.





Já estamos ouvindo.







Esperem aí um pouco





disse a voz de Larry.





Não percebe

-

mos que o

distorcedor de voz para hélio não estava conectado.







Então me dá minhas nadadeiras





disse Richard a Michael,

enquanto aguardavam.







Quer dizer que essas aqui que eu calcei não são minhas?







Ai, ai, ai!





disse Richard, na base da gozação.





Como vocês

es

tá segurando as suas, imagino que não podem estar nos seus pés, ô

miolo mole!



Michael se agachou desajeitadamente, prendendo as nadadeiras

debaixo do braço, e arrancou as que estavam nos seus pés. Richard as

tomou dele, exprimindo desdém. Aí os dois mergul

hadores deram

encontrões um no outro, desajeitadamente, enquanto lutavam para cal

çar

suas respectivas nadadeiras ao mesmo tempo.







Muito bem, homens





disse a voz de Larry.





Conectamos o

distorcedor de voz, e podemos parar com a palhaçada e escutar! Quem



vai

falar agora é o Sr. Davidson.



Os mergulhadores nem se incomodaram de olhar para cima. Apoia

-

ram

-

se nas paredes do sino e assumiram express

ões entediadas.







Não conseguimos entrar em contato com o

Oceanus

pelo UQC,

nem rastreá

-

lo com o sonar





disse a

voz de Mark.





Estamos neces

-

sitando urgentemente que façam contato visual. Se não o virem ao che

gar

à cabeça do poço, comuniquem a nós, que vamos lhes dar mais instruções.

Entendido?







Afirmativo





disse Richard.





Agora podemos voltar a nos




preparar par

a o mergulho?







Afirmativo





disse Mark.



Richard e Michael se mexeram, e dando um mínimo de liberdade de

movimento um ao outro, conseguiram calçar as nadadeiras. Michael



até

tentou pegar o boné enquanto Richard vestia o colete de flutuação e o

cinto de las

tro, mas estava além do alcance dele, como temia.



Cinco minutos depois, a voz do operador do guincho lhes disse que

estavam passando pelos 274 metros. Com este anúncio a descida sofreu

uma boa redução de velocidade. Enquanto Richard e Michael tenta

vam

abr

ir caminho, Louis aprontou as mangueiras. Como mergulha

dor do sino,

cabia

-

lhe manusear as linhas.







Acendendo as luzes externas





anunciou Larry.



Richard e Michael se contorceram o suficiente para espiar pelas duas

minúsculas vigias que ficavam uma diante



da outra. Louis estava ocu

pado

demais para espiar por uma das duas janelas restantes.







Estou enxergando o fundo





disse Richard.







Eu também





disse Michael.



Com um único cabo de içamento, o sino de mergulho começou a

girar lentamente, embora sua rotaçã

o fosse limitada pelos cabos de su

-

porte de vida. O sino girava em uma direção várias voltas, depois girava

para outro lado. Quando o sino chegou à marca de trezentos metros e

parou, a rotação foi cessando pouco a pouco, também, mas não antes de

cada mergu

lhador ter tido oportunidade de examinar o terreno num raio

de 360 graus.



Como o sino ficou suspenso cerca de quatro metros acima da face

ro

chosa em uma das partes mais altas do pico do monte submarino, os

mer

gulhadores foram capazes de ver uma

área rela

tivamente ampla

limitada pelo alcance das luzes halógenas externas. A visão deles estava

um tanto restrita apenas a oeste, onde havia sido bloqueada por uma

elevação na rocha. Para Richard e Michael, a elevação pareceu uma série

de colunas interligadas cuj

a crista era ligeiramente mais alta do que a

linha de visão deles. Mas até mes

mo essa formação estava na periferia da

esfera de luz.







Está vendo o submarino?





perguntou Richard a Michael.










Não





respondeu Michael.





Mas posso ver as brocas e as

ferrame

ntas perto da cabeça do poço. Estão todas empilhadas ali, como

deviam estar.Richard afastou

-

se da vigia e inclinou o rosto para a câmera.







Não estamos vendo o

Oceanus





disse ele.





Mas eles estive

ram

aqui.







Isso significa que haverá uma mudança nos pla

nos de mergu

-

lho





respondeu a voz de Larry.





O Sr. Davidson quer que os mer

-

gulhadores vermelho e verde vão para o oeste. Podem enxergar uma

escarpa nessa direção?







Que diabo é uma escarpa?





indagou Richard.







É um paredão, ou penhasco





interrompeu Ma

rk.







Ah, é, acho que sim





disse Richard. Olhou para fora outra vez,

para a fileira de colunas.







O Sr. Davidson quer que passem sobre essa elevação





disse

Larry.





Qual a altura dela em relação ao sino?







Quase a mesma





disse Richard.







Muito bem, pass

em sobre ela e vejam se conseguem enxergar o

submersível. O Sr. Davidson acha que pode haver uma fenda ali. E

cuidado com a temperatura. Aparentemente há um tremendo gradien

te

nessa área.







Entendido





disse Richard.







Lembrem

-

se





acrescentou Larry



, es

tão limitados a uma

profundidade de excursão de quarenta e cinco metros. Não subam mais

de três metros acima do sino. Não queremos que ninguém seja acometido

de mal

-

dos

-

mergulhadores e estrague o mergulho. En

tenderam?







Entendemos





repetiu Richard. As ad

vertências de Larry já eram

praxe nos mergulhos saturados.







Mergulhador do sino





disse Larry



, a mistura respirável deve

ficar em 1,5% de oxigênio e 98,5% de hélio. Entendeu?







Entendido





disse Louis.







Só mais uma coisa





acrescentou Larry.





Mergulha

dores

vermelho e verde, não quero que nenhum de vocês banque o machão,

portanto não se arrisquem, tenham cuidado.





Pode crer!





disse Richard.




Mostrou a mão com o polegar vol

tado para cima para a câmera, enquanto

fazia cara de deboche para Michael, dizend

o:





Dizer para tomarmos

cuidado aqui embaixo é que nem dizer para o seu filho para tomar

cuidado antes de mandá

-

lo brin

car no meio de uma aut

o

-

estrada.



Michael concordou, mas não ouviu. Essa parte do mergulho era

séria. Estava concentrado conectando o um

bilical e outras parafernálias.

Quando ficou pronto, Louis lhe entregou a máscara inteiriça engastada em

um capacete de fibra de vidro de um laranja vivo. Michael segurou

-

o sob

o braço para aguardar Richard. Apesar de toda a sua experiência, ele

sempre sen

tia pontadas de nervosismo logo antes de entrar na água.



Richard rapidamente preparou também seu equipamento. Depois

pegou duas lanternas submarinas, testou

-

as e entregou uma a Michael.

Quando estava pronto, fez sinal com a cabeça para Michael, e ambos

col

ocaram os capacetes ao mesmo tempo.



A primeira coisa que verificaram depois de Louis abrir o coletor foi

o escoamento do gás. Depois a água quente, um acessório necessário uma

vez que a temperatura externa da água era de apenas 2,22 graus. Era

difícil para



um mergulhador trabalhar com frio. Finalmente testa

ram os

cabos de comunicações e de sensores. Depois que tudo já estava em ordem,

Louis informou à superfície e pediu permissão para os mer

gulhadores

irem para a água.







Permissão concedida





respondeu a

voz de Larry.





Abra a

escotilha!



Com uma certa dificuldade e vários resmungos, Louis espremeu seu

corpanzil pelo tronco do sino abaixo.







Meu boné!





berrou Michael, embora sua voz estivesse abafa

da

pelo sibilar do gás respirável.



Louis agarrou o boné de



beisebol e entregou

-

o a Michael. Ele pen

-

durou

-

o cuidadosamente em uma das muitas saliências na parede do sino.

Tratava

-

o como seu bem mais precioso. O que não admitia era que o

considerava seu amuleto da sorte.Louis destravou a escotilha de pressão e,

co

m alguma dificuldade, a ergueu. Encostou

-

a na parede. Abaixo, a

luminosa água azul

-

esverdeada subiu ameaçadoramente pelo poço. Todos

os três mergulhadores solta

ram um silencioso suspiro de alívio quando

ela previsivelmente parou logo abaixo da borda da es

cotilha. Todos eles

sabiam que ela pararia, mas também sabiam que, se não parasse, não




haveria para onde fugir.



Richard fez um sinal de positivo com a mão para Michael. Michael

retribuiu o gesto. Richard então cuidadosamente desceu para dentro do

poço. Dep

ois de se ver livre, lançou

-

se para fora pelo fundo do sino.



Para Richard, sair daquele sino entulhado era um alívio que compa

-

rava ao do nascimento. A súbita sensação de liberdade era indescritível. A

única parte dele que podia sentir a baixa temperatura

da água eram as

mãos enluvadas. Ele esquadrinhou a área enquanto regulava a

flutuabilidade. Levou apenas um momento para ver a forma escura que se

deslocava exatamente na periferia da área iluminada. Não era um

submersível

. Era um tubarão, com olhos lumino

sos. O comprimento do

enorme peixe era de mais de duas vezes o diâmetro do sino de mergulho.







Temos companhia





avisou Richard, calmamente.





Manda aí o

meu vergalhão, só por via das dúvidas, e mande o Michael trazer o

dele.





De toda a parafernália contr

a tubarões do mercado, Richard

preferia um simples pedaço de vergalhão de um metro de comprimen

to.

Por sua experiência, os tubarões evitavam o vergalhão como o diabo foge

da cruz, se fosse simplesmente apontado em sua direção. Não ti

nha tanta

certeza de

que isso funcionaria se estivessem atacando para se alimentar,

mas nessa situação nada funcionava cem por cento.



Segundos depois, o vergalhão desceu e bateu silenciosamente con

tra

a rocha. As pernas de Michael apareceram em seguida, enquanto ele

procurava



sair pelo poço. Depois que saiu, os dois mergulhadores fize

ram

contato visual. Richard gesticulou na direção do tubarão, que ago

ra vinha

vagueando na direção da luz.







Ah, é só um tubarão da Groenlândia





disse Richard a Louis,

que procurou transmitir a



mensagem a Michael também. Agora Richard



estava menos preocupado. O tubarão era grande, mas não perigoso. Sabia

que o outro nome do tubarão era tubarão dorminhoco, por causa dos seus

hábitos morosos.



Depois de Michael fazer suas regulagens, Richard aponto

u para a

elevação. Michael concordou, e os dois seguiram para lá. Ambos

seguravam as lanternas na mão esquerda, e os vergalhões na direita.

Sendo nadadores tarimbados, atravessaram a distância em pouco tempo,

sem pressa. A uma pressão de quase trinta atmos

feras o mero trabalho de

respirar o gás viscoso e comprimido já lhes esgotava as energias.






Dentro do sino, Louis manejava freneticamente ambos os conjun

tos

de cabos. Não queria restringir os mergulhadores, nem lhes dar fol

ga

demais, para os cabos não se

embaraçarem. Até os mergulhadores

começarem a trabalhar, o mergulhador do sino se mantinha ocupado. O

serviço exigia concentração e reflexos rápidos. Ao mesmo tempo que

manuseava os cabos e mangueiras, Louis precisava vigiar os manômetros

e o mostrador dig

ital de percentagem de oxigênio. Além disso estava em

comunicação constante com cada mergulhador e com o controle do

mergulho na superfície. Para manter as mãos livres, havia colocado um

fone de ouvido com um minúsculo alto

-

falante em cada ouvido e um

micr

ofone à frente da boca.



Na água, os mergulhadores nadaram até o alto da pirambeira e pa

-

raram. Àquela distância do sino, a luz já era bem pouca. Richard fez gesto

de usar a lanterna, e ambos ligaram cada qual a sua.



Atrás deles, o sino de mergulho cintilav

a estranhamente, como um

satélite pousado em uma paisagem alienígena e rochosa. Uma corrente de

bolhas saía do sino e subia para a superfície distante. Adiante, os

mergulhadores encararam a escuridão desbotando

-

se até um negro retinto,

com um brilho apenas



tênue quando olhavam para cima, na direção da

superfície, a trezentos e poucos metros acima deles. Lá bem no fundo

sabiam que o enorme tubarão estava em algum ponto logo além do limite

de seu campo de visão. Quando projetaram a luz da lan

-

terna para a

fre

nte, formaram fracos cones de luz que penetravam a es

curidão gelada

apenas 12 a 15 metros adiante.







Há um precipício além da crista





relatou Richard.





Essa deve

ser a escarpa.



Louis passou a informação para a estação de mergulho na superfí

cie.

Embora

o controle do mergulho pudesse ouvir os mergulhadores e falar

com eles, Larry preferia usar o mergulhador do sino como inter

mediário.

A combinação da distorção da voz pelo hélio e o ruído do fluxo do gás

respirado pelos mergulhadores tornava extremamente

difí

cil a

compreensão por aqueles que estavam lá em cima na cabine de mergulho,

mesmo com o distorcedor de voz acionado. Era muito mais eficiente usar

o mergulhador do sino, uma vez que estava acostumado às distorções de

voz.







Mergulhador vermelho





diss

e Louis.





O controle quer sa

ber

se está vendo algum sinal do

Oceanus.










Negativo





disse Richard.







E uma fissura, ou um buraco?





repassou Louis.







Não nesse momento





disse Richard



, mas estamos a ponto de

descer

esse

paredão de rocha.



Richard e Micha

el nadaram, ultrapassando a beirada e desceram a

face do penhasco.







A rocha é lisa feito vidro





comentou Richard. Michael con

-

cordou. Havia passado a mão sobre ela rapidamente.







Estou lançando os últimos trinta metros de mangueira





avi

sou

Louis. Rapid

amente tirou as últimas voltas dos ganchos de armaze

nagem,

já soltando xingamentos em voz baixa. Logo iria ter que enrolar tudo

aquilo de novo. Os mergulhadores raramente se afastavam assim do sino,

e logo quando era sua vez de ser o mergulhador do sino,

eles tinham que

fazer aquilo.



Richard parou de descer. Agarrou Michael para que parasse tam

-

bém. Richard apontou para seu termômetro de pulso. Michael olhou para

o dele, e tornou a olhar, incrédulo.





A temperatura da água acabou de

mudar





relatou Richard.







Subiu quase trinta e sete graus. Corte a água quente!







Mergulhador vermelho, está brincando comigo?





indagou

Louis.







O termômetro do Michael está indicando a mesma coisa





disse

Richard.





Parece até que entramos em uma banheira de água quente.



Richa

rd estivera dirigindo o facho de luz da lanterna para baixo

enquanto desciam, procurando a base da escarpa. Agora girava

-

a em

torno de si. Bem na periferia da

área iluminada ele conseguia distinguir

uma parede em frente àquela que estavam descendo.







Epa!

Parece que estamos em algum tipo de fissura descomunal







disse.





Mal consigo enxergar o outro lado. Deve ter uns quinze

metros de largura.



Michael deu um tapinha no ombro de Richard e apontou para a

esquerda deles:







Tem um fim também





disse.










Michael t

em razão





disse Richard, quando olhou. Então ele

girou e apontou a luz na direção oposta.





Acho que parece um

canyon

tipo caixote porque não consigo ver um quarto lado, pelo menos não de

onde estamos.







Epa!





exclamou Michael.





Estamos afundando! Richa

rd olhou

a parede atrás de si. Estavam mesmo afundando





mais rápido do que

teria considerado possível. Havia pouca sensação de resistência contra a

água.



Richard e Michael deram algumas pernadas potentes para cima.

Para seu espanto, elas de pouco valeram.



Ainda estavam afundando.

Comum misto de confus

ão e alarme, ambos reagiram por reflexo e

inflaram os coletes de flutuabilidade. Quando viram que não surtiu efeito,

alijaram os cintos de lastro. Ainda com flutuabilidade signifi

cativamente

negativa, livrara

m

-

se dos vergalhões. Finalmente, baten

do as pernas com

persistência foram parando de descer, até pararem de vez.

Richard

apontou para cima, e os dois come

çaram a nadar. Apesar da força que

faziam para respirar, ainda sentiam dificuldade para nadar. O es

tr

anho

episódio do afundamento os havia deixado nervosos, e, para piorar, eles

estavam começando a sentir calor através dos trajes de mergulho.



Os dois estavam no nível do alto do penhasco quando uma repen

-

tina vibração constante subiu das profundezas como u

ma onda de cho

que.

Durante alguns segundos ambos ficaram meio desorientados. Estavam

tendo dificuldade para respirar e nadar ao mesmo tempo. O tremor era

semelhante àquele que haviam sentido no sino de mergulho na descida, só

que muito pior. Perceberam qu

e era um terremoto sub

marino, e ambos

intuitivamente sentiram que estavam perto do epicentro.



Para Louis, o abalo foi ainda mais violento. No momento do im

pacto,

ele estava puxando freneticamente as mangueiras, que haviam

subitamente ficado frouxas. Ele

havia sido for

çado a largar os cabos para

evitar ser empalado em uma das muitas saliências presas às paredes.



Richard recuperou

-

se o suficiente para respirar, embora fosse dolo

-

roso. A onda de pressão devia ter lhe machucado o peito. Como nada

dor

experien

te, sua primeira reação foi verificar como estava o companheiro, e

procurou Michael freneticamente, girando em torno de si. Durante um

segundo apavorante, não conseguiu encontrá

-

lo. Depois olhou para baixo.

Michael parecia estar tentando agarrar

-

se à água

para subir. Richard

estendeu a mão para baixo para ajudá

-

lo. Quan

do fez isso, percebeu que




estavam ambos afundando





e rápido.



Sem nenhuma outra maneira de reduzir o peso, Richard começou a

tentar nadar para cima com Michael. No seu desespero, até jogaram



as

lanternas fora, para ficar com as mãos livres. Mas não fizeram nenhum

progresso. Até pareciam estar afundando mais rápido. Depois, caíram

verticalmente, ricocheteando no paredão de rocha enquanto eram

inexoravelmente sugados para o seio do abismo.



Dent

ro do sino, Louis havia recuperado o equilíbrio o suficiente

para agarrar os cabos, ainda frouxos. Rapidamente, puxou uma alça para



dentro, mas, antes que conseguisse pendurá

-

la no suporte, sentiu um

puxão súbito para o lado oposto. A princípio tentou segu

rar os cabos para

que não saíssem, mas foi impossível. Se os segurasse, eles o teriam puxado

para fora do sino.



Louis soltou palavrões enquanto se desviava como um louco das

mangueiras, que agora estavam sendo arrancadas do sino a uma veloci

-

dade incrível.



Era como se Richard e Michael fossem iscas que houves

sem

sido mordidas por um peixe gigantesco.







Mergulhador do sino, você está bem?





indagou a voz de Larry.







Sim, estou!





berrou Louis.





Mas está acontecendo uma coisa

muito louca! As mangueiras estã

o saindo a duzentos quilômetros por hora!







Estamos vendo pelo monitor





disse Larry, apavorado.





Não

consegue detê

-

las?







De que jeito?





indagou Louis, às lágrimas. Olhou de relance o

que restava de mangueira. Não havia muita coisa. Ele gelou. Não fa

zi

a

idéia do que o esperava. As últimas voltas saíram do sino, e por um breve

momento os cabos se retesaram. Depois, para extremo terror de Louis, eles

foram arrancados dos invólucros e desapareceram pelo poço, tragados

pelo mar impiedoso.







Ai, meu Deus!





gritou Louis, enquanto procurava fechar as

válvulas do coletor de gás.







O que está acontecendo lá embaixo?





inquiriu Larry.







Sei lá!





berrou Louis. Aí, para piorar seu terror, a vibração e o

ronco começaram outra vez. Freneticamente, ele se agarrou no

que pôde

enquanto o sino de mergulho se sacudia como se fosse um saleiro nas

mãos de um gigante. Ele gritou, e, como que em resposta a suas preces, o




tremor reduziu

-

se a uma leve vibração. Ao mesmo tempo, ele perce

beu

um chiado e um brilho avermelhado que



penetrava pelas vigias.



Largando o apoio da tubulação de alta pressão na qual se agarrara

desesperadamente, Louis torceu

-

se para espiar por uma das vigias. O que

ele viu o fez gelar de novo. Acima da elevação próxima, que os mergulha

-

dores haviam escalado



tão pouco tempo antes, apareceu uma cascata

surreal



de lava vermelha e quente, a brilhar. A beirada dela cuspia,

pipocava e fumegava enquanto transformava a água gelada em vapor.



Quando Louis se recuperou o bastante para falar, jogou a cabe

ça

para trás, p

ara olhar para a câmera.







Me tirem daqui!





gritou histericamente.





Estou bem no meio

de uma porra de um vulcão em erupção!





O interior da cabine havia ficado silencioso. Uma sensação de

choque reinava no recinto. O único ruído vinha dos motores montados



no

con

vés que acionavam os guinchos que estavam içando o sino de

mergulho e as linhas de sustentação da vida. Momentos antes, um

verdadeiro pandemônio havia se estabelecido, quando ficou óbvio que

haviam per

dido dois mergulhadores em algum tipo de catás

trofe

piroclástica. O único consolo era que o terceiro estava bem, e já estava

sendo trazido para bordo.



Mark deu uma tragada longa e nervosa no seu Marlboro. Igno

rando

as novas regras, havia procurado os cigarros por reflexo, aos pri

meiros

sinais de pro

blemas, e agora que toda a extens

ão da tragédia já se havia

desenrolado, ele estava fumando um cigarro atrás do outro de pura

ansiedade. Havia conseguido não só perder um submarino de cem

milhões de dólares, como também dois operadores treinados, além de d

ois

mergulhadores saturados experientes; tinha também perdido o presidente

da Benthic Marine. Se ao menos não tivesse incentivado Perry Bergman a

acompanhar a imersão... Por isso ele era o único res

ponsável.







Mas que diabo vamos fazer agora?





perguntou

Larry, com

-

pletamente atarantado. Até ele estava fumando, embora dissesse que

havia parado seis meses antes. Como supervisor de mergulho, também se

sentia responsável pelo desfecho desastroso.



Mark suspirou profundamente. Sentia fraqueza. Jamais perdera um

a




só vida no seu turno em toda a sua carreira, e isso incluía operações de

mergulho complexas em locais perigosos como o Golfo Pérsico durante



a

operação Tempestade no Deserto. Agora perdera cinco pessoas. Era

demais até pensar naquilo.







O sino está passa

ndo pelos cento e cinqüenta metros





anun

ciou

o operador do guincho para quem quisesse ouvir.







E a operação de perfuração?





Larry perguntou

-

se em voz alta.

Mark deu outra longa tragada no cigarro e quase queimou os



dedos.

Zangado, apagou o toco de cigar

ro, depois acendeu mais um.







Preparem

-

se para lançar o trenó da câmera





disse Mark.





Vamos dar uma olhada no que está havendo lá embaixo.







Mazzola foi muito claro





disse Larry, em voz trêmula.





Enquanto o içávamos, disse que todo o cume do monte, até



onde po

dia

enxergar, era lava derretida pura, borbulhando de trás da elevação. E

estamos registrando tremores quase contínuos. Porra, estamos bem em

cima de um vulcão ativo. Tem certeza de que quer mandar o trenó lá para

aquele verdadeiro inferno?







Quer

o ver tudo





disse Mark, devagar.





E quero registrar tudo.

Tenho certeza de que vai haver uma investigação desgraçada so

bre essa

merda toda. E quero ver a área onde fica o

canyon

ou o buraco onde o

Oceanus

desapareceu. Tenho que ter certeza de que não há



chance...





Mark não terminou a frase. Sabia, bem no fundo, que não adiantava;

Donald Fuller havia levado o submarino para uma chaminé de vulcão

logo antes da erupção.







Tudo bem





concordou Larry.





Vou mandar a equipe pre

parar

a câmera. Mas e a perfura

ção? Espero que não esteja pensando em mandar

mais uma equipe de mergulho depois que

esse

vulcão se aquietar.







Mas claro que não, porra!





disse Mark, revoltado.





Já perdi o

interesse em perfurar essa porcaria dessa montanha, principalmente agora

que o P

erry Bergman já não está mais entre nós. Essa era a ob

sessão

imprudente dele, não minha. Se o trenó da câmera confirmar que a

chaminé ou seja lá o que for está cheia de lava quente, e não conseguirmos

encontrar nem vestígio do

Oceanus,

vamos dar o fora da

qui.





Para mim

está ótimo!





disse Larry. Ficou de pé.





Vou pre

parar o trenó e lançá

-

lo

o mais breve possível.










Obrigado





disse Mark. Inclinou

-

se para a frente e apoiou a

cabeça nas mãos. Jamais havia se sentido pior em toda a sua vida.





6

6





Suzanne foi

a primeira a se recobrar o suficiente do terror causado

por aquela descida abrupta para conseguir falar. Hesitante, disse:







Acho que paramos! Graças a Deus!



Durante algum tempo, que pareceu uma eternidade aos três aterro

-

rizados passageiros do submersível

, ele havia caído como uma pedra por

aquele poço misterioso abaixo. Era como se eles tivessem sido sugados

por um enorme ralo no fundo do oceano. Durante a queda, o

Oceanus

havia deixado de responder totalmente aos comandos, fossem lá quais

fossem os contr

oles que Donald tentasse.



Embora inicialmente o mergulho tivesse sido diretamente para bai

-

xo, a embarcação terminou por deslocar

-

se em espiral, e até bater nas

paredes. Uma das primeiras dessas colisões destruiu as lâmpadas

halógenas externas. Uma outra a

rrancou o manipulador de boreste com

um rangido que sugeria que ele havia sido triturado.



Perry foi o único a gritar durante aqueles momentos torturantes.

Mas até mesmo ele ficou mudo depois que todos constataram a inutili

-

dade de qualquer ação para resolv

er o problema. Só pôde olhar, impo

-

tente, o registrador digital de profundidade subir até os milhares de

metros. Os números haviam passado tão rápido que mal se podia dis

-

tingui

-

los. E quando se aproximaram os seis mil metros, ele só

conseguiu



pensar na es

tatística paralisante que havia escutado antes: a

pro

fundidade

de esmagamento

!







Aliás, acho que nem estamos nos movendo





acrescentou

Suzanne. Ela murmurava.





O que pode ter acontecido? Será que estamos

no fundo? Não senti nenhum impacto!



Ninguém moveu

sequer um músculo, como se fazer isso fosse per

-

turbar a súbita porém bem

-

vinda tranqüilidade. Respiravam calmamente

em inspirações curtas, e gotas de suor lhes cobriam as testas. Todos os três




ainda estavam agarrados a seus assentos, temendo que o submari

no

voltasse a mergulhar.







Parece que paramos, mas olha só o profundímetro





conse

guiu

dizer Donald. A voz dele estava rouca de tão seca que estava sua garganta.



Todos os olhos se voltaram para o mostrador. Estava se movendo de

novo, vagarosamente a princ

ípio, porém aos poucos se acelerando. A

diferença era que estava se movendo ao contrário.







Mas não sinto nenhum movimento





disse Suzanne. Exalou

profundamente e tentou relaxar os músculos. Os outros a imitaram.







Nem eu





admitiu Donald.





Mas olha só o

profundímetro! Está

pirando!



O mostrador havia voltado a zunir furiosamente como antes.



Suzanne inclinou

-

se para diante devagar, como se pensasse que o

submersível estava equilibrado precariamente, e o movimento pudesse

arremessá

-

lo precipício abaixo. Espi

ou pela vigia, mas só pôde ver sua

própria imagem. Sem as luzes externas, devido às colisões contra a ro

cha,

a janela estava tão opaca quanto um espelho, refletindo as luzes internas.







E agora, o que está havendo?





perguntou Perry.







Estou boiando tanto



quanto você





respondeu Suzanne. Sus

-

pirou profundamente. Estava começando a se recobrar.







O profundímetro está indicando que estamos subindo





disse

Donald. Olhou de relance os outros instrumentos, inclusive os monitores



do sonar de curto alcance. As in

dicações erráticas deles sugeriam que

havia muita interferência na água, afetando especialmente o sonar de

curto alcance. O de varredura lateral estava um pouco melhor, com menos

ruído eletrônico, porém mais difícil de interpretar. A imagem indistinta

most

rava que o submarino estava parado em uma planície vasta e

perfeitamente lisa. Os olhos de Donald voltaram ao profundímetro. Ficou

pasmado: ao contrário do que o sonar sugeria, ele ainda estava subindo, e

mais rápido do que alguns momentos antes. Mais que

depressa, ele

reabriu os tanques de lastro, porém não houve resultado. Depois baixou

as aletas de imersão, e imprimiu mais potên

cia ao sistema de propulsão. O

submarino não obedeceu aos controles. Eles porém, continuaram subindo,

apesar de tudo.







Estamos



acelerando





avisou Suzanne.





Subindo assim va

mos




estar na superfície em apenas dois minutos!







Mal posso esperar





disse Perry obviamente aliviado.







Espero que não saiamos embaixo do

Benthic Explorer





disse

Suzanne.





Isso seria um tremendo problema.



Os olhos de todos estavam pregados ao profundímetro. O submari

-

no passou pelos trezentos e cinqüenta metros sem mostrar sinal de redu

zir

a velocidade. Os cento e cinqüenta metros passaram batidos. Quando o

submarino passou pelos trinta metros, Donald dis

se, alvoroçado:







Segurem

-

se! Vamos tocar em vento de muito mau jeito!







Como assim, tocar em vento?





berrou Perry. Ele ouviu o de

-

sespero da voz de Donald, e isso lhe causou novo calafrio.







Isso significa que vamos saltar para fora da água!





berrou

Suz

anne. Então ela repetiu a advertência de Donald.





Segurem

-

se!



Enquanto o zunido frenético do profundímetro atingia um cres

-

cendo, Perry, Donald e Suzanne voltaram a agarrar seus assentos e a se

segurarem neles com toda a firmeza. Prendendo a respiração, p

repara

-

ram

-

se para o impacto. O profundímetro atingiu o zero e parou.



Imediatamente após o estalido final do instrumento, ouviu

-

se um

forte ruído de sucção em algum ponto fora da embarcação. Depois

disso,até que reinou o silêncio dentro do submarino. Agora



o único som

era uma combinação do sistema de ventilação e um zunido eletrônico po

-

rém abafado do sistema de propulsão.



Quase um minuto se passou sem a menor sensa

ção de movimento.



Finalmente Perry soltou a respira

ção.







Bom





disse.





E aí, o que acontece

u?







Não dá para estarmos no ar

esse

tempo todo





admitiu Suzanne.

Todos soltaram as poltronas e olharam pelas respectivas vigias. Ain

da

estava escuro como piche lá fora.







Que diabo...?





questionou Donald. Voltou a examinar os

instrumentos. Os monitores



de sonar agora estavam emitindo ruídos

eletrônicos desconexos. Ele os desligou. Também reduziu a potência do

sistema de propulsão e o zunido vindo dele cessou. Olhou para Suzanne.







Não sei de nada





disse Suzanne quando os olhos dele encon

-




traram os dela

.





Não faço a mínima idéia do que está ocorrendo.







Como é que está escuro lá fora, se estamos na superfície?





indagou Perry.







Isso não faz o menor sentido





disse Donald. Olhou outra vez

para os instrumentos. Inclinando

-

se para a frente, ele voltou a i

mpri

mir

potência ao sistema de propulsão. O zunido reapareceu, mas a

embarcação não se moveu. Continuou completamente imóvel.







Alguém me diga o que está acontecendo





exigiu Perry. A eu

-

foria que havia sentido momentos antes havia se dissipado. Eles obvi

a

-

mente não estavam na superfície.







Não sabemos o que está havendo





admitiu Suzanne.







Não há resistência ao hélice





relatou Donald. Desligou o

sistema de propulsão. O zunido desapareceu pela segunda vez. Ago

ra o

único som era o do sistema de ventilaçã

o.





Acho que estamos no ar.







Como podemos estar no ar?





indagou Suzanne.





Está to

-

talmente escuro, e não se sente a ação das ondas.





Mas é a única

explicação para o sonar não funcionar e para não haver resistência ao

hélice





disse Donald.





E veja só:



a temperatura externa subiu para

vinte graus. Sem dúvida estamos no ar.







Se esta é a outra vida, não estou preparado ainda





disse Perry.







Quer dizer que estamos inteiramente fora da água?





pergun

tou

Suzanne, ainda sem acreditar muito.







Sei que parec

e maluquice





admitiu Donald.





Mas é a única

forma de explicar tudo, inclusive o fato de que o telefone submarino não

funciona.





Donald tentou depois o rádio, e não teve sorte com ele,

também.







Se estamos em terra firme





disse Suzanne



, como é que não



rolamos para o lado? Quero dizer, o casco do submarino

é

cilíndrico. Se

estivéssemos em terra, certamente rolaríamos para o lado.







Taí, você está certa!





reconheceu Donald.





Isso, eu não

consigo explicar.



Suzanne abriu um compartimento de emergência en

tre as duas

poltronas dos pilotos e tirou de lá uma lanterna. Ligando

-

a, direcionou o

facho de luz para a vigia do seu lado. Comprimida contra ela, do lado de




fora, se via uma gosma cor

-

de

-

creme de granulação grossa.







Pelo menos sabemos por que não rolamo

s





disse Suzanne.





Estamos equilibrados por uma camada de lama de globigerina.







Pode ir explicando!





disse Perry. Havia se inclinado para ver

por si mesmo.







A lama de globigerina é o sedimento mais comum do fundo do

mar





explicou Suzanne.





Compõe

-

se



principalmente de carcaças de

um tipo de plâncton chamado foraminíferos.







Como podemos estar pousados em sedimento oceânico e estar no

ar?





indagou Perry.







Esse é que é o problema





concordou Donald.





Não pode

mos,

pelo menos de nenhum jeito que eu co

nheça.







Também é impossível encontrar

-

se lama de globigerina assim

perto da Cadeia Meso

-

Atlântica





disse Suzanne.





Esse sedimento se

encontra no meio das planícies abissais. Nada faz sentido.





Isso é

absurdo!





interveio Donald.





E não estou gostando n

ada disso. Seja lá

onde estivermos, estamos encalhados!







Poderíamos estar completamente enterrados no lodo?





per

-

guntou Perry, hesitante. Se estivesse certo, não queria ouvir a resposta.







Não! De jeito nenhum





disse Donald.





Se fosse

esse

o caso,

have

ria mais resistência ao hélice, não menos.



Durante alguns minutos ningu

ém disse nada.







Há alguma chance de que pudéssemos estar dentro do monte

submarino?





indagou Perry, finalmente rompendo o silêncio.



Donald e Suzanne se voltaram para olh

á

-

lo.







Como p

oderíamos estar dentro de uma montanha?





indagou

Donald, irritado.







Espera aí, estou só fazendo uma pergunta





disse Perry.





Mark

me disse esta manhã que tinha alguns dados de radar segundo os quais a

montanha talvez pudesse conter gás, não lava derreti

da.







Ele nunca me disse isso





retrucou Suzanne.







Não contou a ninguém





disse Perry.





Não sabia se aquilo




estava certo, uma vez que vinha de um estudo superficial da camada dura

que estávamos tentando perfurar. Era uma extrapolação, e ele só a

menciono

u de passagem.







Que tipo de gás?





indagou Suzanne, enquanto tentava ima

ginar

como um vulcão submerso poderia não conter nenhuma água.

Geofisicamente isso parecia impossível, embora ela soubesse que em terra

alguns vulcões efetivamente implodiam e se tra

nsformavam em caldeiras.







Ele não fazia idéia





disse Perry.





Acho que pensou que o

candidato mais promissor seria vapor contido pela camada extremamente

dura que estava nos dando tanto trabalho.







Bem, vapor acho que não é





disse Donald.





Não a uma

te

mperatura de quase vinte graus.







E gás natural?





sugeriu Perry.





Não consigo imaginar





disse

Suzanne.





Assim perto da Cadeia Meso

-

Atlântica, é uma área

geologicamente jovem. Não pode haver petróleo nem gás natural por aqui.







Então talvez seja ar





dis

se Perry.







Como entraria aqui?





perguntou Suzanne.







Explique

-

me você





sugeriu Perry.





Você é a geofísica

oceanógrafa. Não eu.







Se for ar, não há explicação natural de que eu tenha conheci

-

mento





disse Suzanne.





Simplesmente isso.



Os três ficaram se



entreolhando um instante.







Acho que vamos ter de abrir uma fresta da escotilha e olhar





disse Suzanne.







Abrir a escotilha?





questionou Donald.





E se o gás não for

respirável ou até for tóxico?







Parece

-

me que não temos escolha





disse Suzanne.





Esta

mos

sem comunicações. Somos um peixe fora d'água. Temos dez dias de vida,

mas, e depois disso, o que acontece?







Nem me fale...





disse Perry nervoso.





Voto a favor de abrir

-

mos a escotilha.







Certo!





concordou Donald, resignado.





Como capitão, eu

tomo

a iniciativa.





Levantou

-

se da sua poltrona de piloto e passou por




cima do console central, dando um só grande passo. Perry desviou

-

se para

que Donald pudesse passar.



Donald subiu para a torreta. Fez uma pausa, enquanto Suzanne e

Perry se posicionavam logo



embaixo dele.







Por que não destrava, apenas, sem abrir?





sugeriu Suzanne.





E aí fareja, para ver se sente cheiro de alguma coisa.







Boa idéia





disse Donald. Aceitou a sugestão de Suzanne, agar

-

rando o volante central e girando

-

o. Os parafusos de vedaç

ão se retraí

ram

para dentro da escotilha.







E aí?





disse Suzanne alguns momentos depois.





Está sen

tindo

algum odor?





Só de umidade





disse Donald.





Acho que vou me

arriscar a investigar melhor.



Donald abriu uma fresta da escotilha um instante e farejo

u melhor.







O que acha?





perguntou Suzanne.







Parece inócuo





disse Donald, aliviado. Abriu a escotilha cer

ca

de dois centímetros e inspirou o ar úmido que penetrou pela fresta.

Quando se certificou de que era tão seguro quanto era capaz de detec

tar,

em

purrou a tampa da escotilha toda para cima e meteu a cabeça por ela,

espiando do alto do submarino. O ar tinha a umidade salina de uma praia

na maré baixa.



Donald vagarosamente girou a cabeça totalmente, esforçando

-

se por

enxergar naquela escuridão. Não vi

a absolutamente nada, mas intuiti

-

vamente sabia que era um lugar muito amplo. O que via era uma escu

-

ridão silenciosa e estranha, tão assustadora quanto vasta.



Recuando de novo para dentro do submers

ível, pediu a lanterna.



Suzanne a pegou para ele, e, quan

do a entregou, perguntou o que

ele havia visto.







Uma boa porção de nada





respondeu Donald.



Enfiando de novo a cabeça pela escotilha, Donald lançou o facho de

luz da lanterna a distância. A lama se estendia em todas as direções tanto

quanto a luz podia pe

netrar. Algumas poças de água isoladas, se

-

melhantes a espelhos, refletiram a luz de volta para ele.







Alô!





gritou Donald, colocando as mãos em forma de concha




em torno da boca. Aguardou. Um ligeiro eco parecia vir da direção da

proa do

Oceanus.

Donald b

errou outra vez; um distinto eco voltou no que

estimou em cerca de três ou quatro segundos.



Donald voltou ao interior do submersível depois de baixar a tampa

da escotilha. Os outros olharam para ele, com expectativa.







Essa é a coisa mais estrambótica que

eu já vi





disse ele.





Estamos numa espécie de caverna que aparentemente estava cheia de

água há bem pouco tempo.







Mas agora está cheia de ar





disse Suzanne.





Definitivamente é

ar





disse Donald.





Além disso, não sei o que pensar. Talvez o Sr.

Bergman

esteja certo. Talvez nós, de alguma forma, tivéssemos sido

puxados para dentro do monte submarino.







O nome é Perry, pelo amor de Deus





disse Perry.





Me dê a

lanterna! Vou dar uma olhada.





Pegou a lanterna de Donald e desa

-

jeitadamente subiu a escada at

é a torreta do navio. Teve que passar o

cotovelo por trás do último degrau e meter a lanterna no bolso para

erguer a pesada escotilha em forma de cunha.







Meu Deus!





exclamou Perry, depois de ter imitado as ações de

Donald, inclusive o teste de ecos. Volt

ou para baixo, mas deixou a

escotilha entreaberta. Entregou a lanterna a Suzanne, que também su

biu

para olhar.



Depois que Suzanne voltou, os três se entreolharam e sacudiram as

cabeças. Nenhum deles tinha uma explicação embora cada um esperas

se

que o out

ro tivesse.







Suponho que nem precise dizer





começou Donald, rompen

do

um silêncio desconfortável





que estamos numa situação no míni

mo

difícil. Não dá para esperarmos nenhuma ajuda do

Benthic Explorer.

Com a

série de terremotos, eles presumiram que fomo

s engolfados por uma

catástrofe. Talvez enviem um dos trenós de televisionamento sub

marino,

mas ele não vai nos encontrar aqui, seja lá qual for esse lugar. Em suma,

estamos sozinhos, sem comunicação e com pouca comida e água.

Portanto...





Donald parou,

como que pensativo.







Então, o que sugere?





perguntou Suzanne.







Sugiro que saiamos e façamos um reconhecimento da área





disse Donald.










E se essa caverna, ou seja lá o que for, ficar inundada outra

vez?





questionou Perry.







Parece

-

me que precisamos arr

iscar





disse Donald.





Eu, por

mim, vou sozinho. Vocês é que decidem se querem vir comigo ou não.







Eu vou





disse Suzanne.





É melhor do que ficar por aqui sem

fazer nada.





Eu é que não vou ficar aqui sozinho





anunciou Perry.







Está bem





disse Donald.





Precisamos de mais duas lanter

nas.

Vamos levá

-

las, mas apenas usar uma, para preservar as pilhas.







Eu as pego





disse Suzanne.



Donald foi o primeiro a sair. Usou os degraus laterais da torreta e do

casco para descer. Os degraus serviam para proporciona

r acesso ao

submers

ível quando estava nos picadeiros no convés de ré do

Benthic

Explorer.



De pé no último degrau, Donald voltou o facho da lanterna para o

chão. Verificando o afundamento do

Oceanus

no lodo, estimou que a lama

teria de quarenta a cinqüenta

centímetros de profundidade.







Algum problema?





indagou Suzanne. Foi a segunda a sair, e via

que Donald hesitava.







Estou tentando calcular a profundidade desse lodo





disse ele.

Ainda agarrado a um degrau, baixou o pé direito. Ele desapareceu no lodo.

Qu

ando ele conseguiu achar chão firme, a lama já estava na altura da

parte inferior da rótula dele.







Isso não vai ser nada agradável





relatou.





A lama vai até os

joelhos.







Vamos torcer para esse ser o nosso único problema





disse

Suzanne.



Alguns minutos

depois, os três estavam de pé na lama. Salvo por

uma tênue luz que saía da escotilha aberta do submersível, a única

luminosidade vinha da lanterna de Donald. Ela projetava um fraco cone

de luz naquela escuridão cerrada. Suzanne e Perry levavam lanternas

ta

mbém, mas, como Donald havia sugerido, elas não haviam sido liga

das.

Não se ouvia nenhum som naquele vasto espaço escuro. Para con

servar as

baterias do submersível, Donald havia desligado quase tudo nele, mesmo

a ventilação. Havia deixado apenas uma luz

acesa para ser

vir de farol que




os ajudasse a encontrar o submarino de novo caso se afastassem muito.







Isso aqui intimida a gente





disse Suzanne, com um calafrio.





Acho que eu escolheria uma palavra mais forte





disse Perry.





Qual

será nossa tática?







E

stá na mesa, para discutirmos





disse Donald.





Minha

sugestão é que sigamos na direção para a qual o

Oceanus

está virado.

Aquela parede parece ser a mais próxima, pelo menos pelo eco que ob

-

tive.





Consultou a bússola.





Fica a uma certa distância a oeste

.







Parece um plano razoável





disse Suzanne.







Vamos





disse Perry.



O grupo partiu tendo Donald na liderança, seguido de Suzanne.

Perry fechava o cortejo. Era difícil caminhar naquela lama funda, e o

cheiro era ligeiramente fedorento.



Ninguém falava. Todo

s estavam extremamente conscientes de que a

situação era bem precária, principalmente à medida que se afastavam do

submersível. Depois de dez minutos, Perry insistiu para que paras

sem.

Eles não haviam chegado a nenhuma parede, e a coragem dele havia

desap

arecido.







Não é fácil caminhar nesse lodo





disse Perry, evitando o pro

-

blema verdadeiro.





E ele também fede.







Qual a distância que acha que percorremos?





indagou Suzanne.

Como os outros, já estava sem fôlego, devido ao esforço.



Donald virou

-

se e olhou



para o submersível, que não era mais que

uma mancha luminosa naquela densa escuridão.







Não tanta assim





disse ele.





Talvez cem metros.







Eu diria um quilômetro e meio, pela dor nos músculos das

minhas pernas





comentou Suzanne.







Quanto ainda falta par

a chegarmos a essa suposta parede?





perguntou Perry.



Donald tornou a berrar na direção em que iam. O eco voltou em dois

segundos.







Acho que uns trezentos metros.






Um súbito movimento e uma série de sons semelhantes a bofetadas

na escuridão imediatamente à



esquerda deles os fizeram dar um

pulo.Donald girou a luz em torno de si e direcionou

-

a para o lugar de

onde vinha o ruído. Um peixe encalhado deu mais alguns saltos

agonizantes na lama molhada.







Ai, meu Deus, levei um susto horrível!





admitiu Suzanne. E

la

estava com a mão pressionada contra o peito. O coração estava disparado.







Você e eu, então





confessou Perry.







Estamos todos compreensivelmente uma pilha de nervos





disse

Donald.





Se vocês dois quiserem voltar, eu vou continuar o reconhe

-

cimento soz

inho.







Não, vou continuar





disse Suzanne.







Eu também





disse Perry. A idéia de voltar para o submersível

sozinho era pior do que se arrastar por aquela lama até a tal parede.







Então vamos





disse Donald. Recomeçou a avançar, e os ou

tros

o seguiram.



O

grupo avançou lentamente, em silêncio. Cada passo naquela es

-

curidão desconhecida aumentava seus temores e seu nervosismo. O

submersível atrás deles estava sendo engolido pelas trevas. Depois de

mais dez minutos eles estavam todos tão tensos quanto uma cor

da de

piano a ponto de arrebentar, e foi aí que soou o alarme.



A curta emissão de som explodiu naquela quietude como um tiro de

canhão. A princípio o grupo estacou de chofre, freneticamente ten

tando

descobrir de onde vinha o alarme. Mas com os múltiplos e

cos era

impossível descobrir. No instante seguinte, todos estavam se arrastan

do

de novo na direção do submersível.



Foi uma fuga num pânico total; uma corrida desesperada para a

suposta segurança. Infelizmente, a lama não cooperava. Todos os três

tropeçara

m quase imediatamente, e caíram de cabeça naquele lodo hor

-

rível. Voltando a se equilibrar, tentaram correr outra vez, com o mesmo

resultado.



Sem nenhuma palavra para verificar qual era o consenso, eles se

con

formaram a andar mais devagar. Depois de algun

s minutos, a falta de

deslocamento significativo tornou evidente a futilidade da fuga. Como



n

ão houvera nenhum fluxo de água tornando a encher a caverna, todos os




três estacaram a alguns passos um do outro, os peitos arfando.



Os múltiplos ecos vindos daque

le alarme horrendo desapareceram,

e, depois dele, a quietude sobrenatural voltou a reinar. Uma vez mais ela

imperou sobre aquela escuridão retinta como o cobertor que sufo

cava

Perry nos seus pesadelos.



Suzanne ergueu as mãos. O lodo, que ela sabia ser uma



combina

ção

de carcaças planctônicas e fezes de inúmeros vermes, escorreu

-

lhe pelos

dedos. Ela desejou desesperadamente limpar os olhos, mas não ousou

fazer isso. Donald, que estava um pouco adiante, virou

-

se para olhar

Suzanne e Perry. A lama sujava o vi

dro da lanterna, reduzindo a

luminosidade, de forma que os outros não conseguiam enxergá

-

lo. Só

conseguiam distinguir o branco dos olhos dele.







Mas que alarme foi esse, em nome de Deus Todo

-

poderoso?





conseguiu dizer Suzanne. Cuspiu alguns dejetos granul

ados. Não que

ria

nem pensar no que seria aquilo.







Tive medo que a água estivesse voltando





admitiu Perry.







Independente do que isso realmente significa





disse Donald





para nós tem uma importância fundamental.







Do que está falando?





indagou Perry.







Sei o que ele está querendo dizer





disse Suzanne.





Ele quer

dizer que isso aqui não é uma formação geológica natural.







Exato!





afirmou Donald.





Deve ser um resquício da Guer

ra

Fria. E como eu tinha permissão para acesso a informações ultra

-

secretas

no serviço submarino americano, posso afirmar

-

lhes que não é instalação

nossa. Só pode ser russa!







Quer dizer que isso aqui é alguma base secreta?





indagou Perry.

Espiou aquele buraco negro, agora mais assombrado do que assustado.







É a única coisa que p

osso imaginar





disse Donald.





Algum

tipo de instalação nuclear submarina.







Acho que é possível





disse Suzanne.





E se for, nosso futuro

pode estar subitamente ficando mais risonho.





Talvez sim, talvez não





disse Donald.





Primeiro, vai de

pender de se



alguém ainda está

trabalhando por aqui, e, se houver al

guém, nossa próxima preocupação

será saber até que ponto eles querem manter esse lugar secreto.










Não tinha pensado nisso





admitiu Suzanne.







Mas a Guerra Fria já terminou





disse Perry.





Certament

e não

precisamos nos preocupar com questões do tempo desse velho ro

mance

de capa

-

e

-

espada.







Há gente entre os militares russos que pensa de outra forma





asseverou Donald.





Sei disso porque conheci esses tipos.







Então o que acha que devemos fazer, a es

sa altura?





indagou

Suzanne.







Acho que essa pergunta já foi respondida para nós





disse

Donald. Ele ergueu a mão livre e apontou sobre os ombros dos outros.





Olha ali, na direção em que estávamos indo antes do alarme soar!



Suzanne e Perry giraram nos ca

lcanhares. A cerca de quatrocentos

metros de distância, uma única porta estava vagarosamente se abrindo

para dentro, na escuridão. Uma luz artificial brilhante jorrou do apo

sento

além dela, para o interior da caverna escura, formando uma linha de

reflexão



que veio até os pés deles. O trio estava distante demais para ver

os detalhes do interior, mas eram capazes de dizer que a luz era bem

intensa.







Isso responde à minha dúvida quanto à existência de homens

aqui na instalação





disse Donald.





É óbvio que n

ão estamos

sós.

Agora,

resta saber se gostaram de nos ver por aqui.







Acha que devíamos ir até lá?





indagou Perry.







Não temos muita escolha





disse Donald.





Vamos ter de ir

mesmo, no final.







Por que eles não vêm aqui ao nosso encontro?





perguntou

Suza

nne.







Boa pergunta





disse Donald.





Talvez isso tenha alguma

relação com a recepção que estão reservando para nós.





Estou ficando

apavorada de novo





disse Suzanne.





Tudo isso é muito bizarro.







Nunca deixei de me sentir apavorado





admitiu Perry.







Vam

os ao encontro de nossos captores





disse Donald.





E

tomara que eles não nos considerem espiões, e que conheçam os termos da

Convenção de Genebra.






Endireitando a coluna, Donald seguiu na frente, parecendo não se

importar com a lama que lhe sugava os pés.

Passou pelos dois compa

-

nheiros, que não podiam deixar de admirar sua coragem e seu espírito de

liderança.



Perry e Suzanne hesitaram um momento antes de seguirem o co

-

mandante reformado. Nenhum deles falou enquanto marchavam resig

-

nados atr

ás dele na direç

ão da porta que os chamava. Não sabiam se atrás

dela encontrariam um resgate ou piores provações, mas como Donald

dissera, eles não tinham escolha, mesmo.





7

7





O avanço era lento. A um certo ponto, Perry escorregou e caiu de

novo no lodo. Ficou coberto dele.







A primeira coisa que vou fazer é exigir uma ducha





disse Perry,

tentando levantar o moral do grupo e cuspindo lama. Não adiantou.

Ninguém achou graça.



Enquanto se aproximavam da porta aberta, esperavam que suas

apreensões se aliviassem. Mas ninguém apa

receu para recebê

-

los no

umbral, e a luz que saía, penetrando na escuridão, era tão brilhante que

eles não conseguiam ver o interior. Era difícil até mesmo olhar para a

abertura sem proteger os olhos.



Quando se aproximaram o suficiente, conseguiram notar q

ue a porta

tinha quase sessenta centímetros de espessura, com um anel de enormes

parafusos embutidos na periferia. Parecia uma porta de cofre. As bordas

daquele portal maciço formavam ângulos na dire

ção do interior do

compartimento. Obviamente era feito d

e forma a suportar a enorme

pressão da água do mar, quando ela invadia a ca

verna.



A cerca de oito metros da parede, Suzanne e Perry pararam. Reluta

-

vam em prosseguir sem uma id

éia melhor do que os esperava. Exami

-

naram a porta, buscando pistas. Pelo que d

eduziram, parecia que as



paredes, o piso e o teto, no interior, eram feitos de a

ço inoxidável, e

brilhavam como espelhos.






Donald havia prosseguido sozinho, e, embora não ultrapassasse a

soleira, inclinou

-

se, espiando o interior do aposento. Usando o braço

como

escudo contra a luz refletida, fez um levantamento do local.







E aí?





perguntou Suzanne.





O que está vendo?







É uma sala ampla, quadrada, feita de metal





berrou Donald

para trás, virando a cabeça.





Há duas esferas enormes e lustrosas lá

dentro, ma

is nada. Também não parece haver mais nenhuma outra porta

além desta. E eu não sei dizer de onde vem a luz.







Algum sinal de gente?





indagou Perry.







Negativo





disse Donald.





Ei, acho que as esferas são feitas de

vidro. E devem ter mais ou menos um metr

o e meio de diâmetro. Venham

dar uma olhada!



Perry olhou de relance para Suzanne. Deu de ombros.







Por que adiar o inevitável?



Suzanne cruzou os braços, agarrando

-

os. Estremeceu.







Estava torcendo para que quando chegássemos aqui eu me

sentisse mais tranqü

ila a respeito de tudo isso, mas não me sinto. Isso aqui

não pode ser uma base submarina. Estamos diante de um feito de

engenharia que faria a Grande Pirâmide parecer brinquedo de criança.







Então qual a sua opinião a respeito disso?





indagou Perry.



Suzan

ne virou

-

se para olhar outra vez o submarino. A luz que vi

nha

da porta aberta o iluminava, apesar da dist

ância. Além dele, era tudo

escuridão.







Sinceramente, não faço idéia.



Quando Donald viu que Suzanne e Perry estavam olhando para o

submersível, prosse

guiu e atravessou a soleira da porta, entrando na sala.

Imediatamente levantou as mãos para se equilibrar e evitar uma queda. A

combinação da lama úmida nos seus sapatos com o metal polido tor

nava

o chão escorregadio como gelo.Depois que recobrou o equilí

brio, Donald

tornou a esquadrinhar a sala. Agora que seus olhos haviam se ajustado

parcialmente, era ca

paz de enxergar muito melhor, inclusive centenas de

reflexos de si mesmo em todas as direções. As paredes, o piso e o teto não

tinham emendas. A única p

orta aparente era aquela pela qual haviam

passa

do. Ele procurou especificamente a fonte da luz ofuscante, mas




miste

riosamente não conseguiu encontrar nada. Quando as enormes

esferas de vidro entraram no seu campo de visão, ele voltou atrás, para

tornar a



examiná

-

las. Agora conseguia ver que o vidro não era

inteiramente opaco. Era transparente o suficiente para que se

vislumbrasse o con

teúdo das esferas.







Suzanne, Perry!





gritou Donald.





Tem duas pessoas aqui,

afinal. Mas estão dentro dessas esferas. E

ntrem!



Um momento depois, Suzanne e Perry apareceram

à porta.







Cuidado com o piso!





avisou Donald.





É escorregadio como

gelo.



Deslizando os pés em movimentos curtos como se patinassem sem

patins, Suzanne e Perry vieram vacilantes até perto de Donald, áv

idos por

darem uma olhada melhor nas esferas de vidro.







Minha nossa!





exclamou Suzanne.





Estão flutuando em

alguma espécie de líquido.







Reconheceu os dois?





indagou Donald.







Devia reconhecê

-

los?





respondeu Suzanne.







Acho que reconheço





disse Donal

d.





Acho que são dois

mergulhadores nossos.



Suzanne arregalou os olhos para Donald, de puro espanto. Então,

para dar uma olhada melhor, colocou as mãos em concha em torno dos

olhos e encostou

-

se em uma das esferas, a superfície tão opalescente que

refleti

a a iluminação feérica da sala.







Acho que está certo





disse Suzanne.





Parece que estou en

-

xergando o logotipo do

Benthic Explorer

no traje de neoprene e na late

ral

do capacete.Perry imitou Suzanne protegendo os olhos com as mãos e

apertando

-

as contra a



mesma esfera para a qual Suzanne estava olhando.

Donald fez o mesmo de outro ângulo.







Está respirando!





disse Perry.





Deve estar vivo.







Tem um negócio parecido com um cordão umbilical vindo de

uma espécie de aparelho conectado ao abdome dele





disse S

uzanne.





Podem ver para onde vai?







Vai para debaixo dele





respondeu Donald.





Até a base da




esfera.



Suzanne se afastou o suficiente para que conseguisse dobrar o cor

po

e olhar embaixo da esfera. Tinha uma área achatada sobre a qual se

equilibrava. Suza

nne não viu nenhum encaixe, e, se houvesse algum,

devia vir diretamente do piso.







Isso aqui é tão assombroso quanto a caverna





disse Suzanne,

enquanto voltava à posição normal. Estendendo o braço, tocou a esfera

com a ponta do dedo indicador. O material

parecia vidro, mas ela não

sabia o que era.



Os outros se endireitaram.







Como diabo eles vieram parar aqui?





indagou Perry.







São muito poucas as respostas, para tantas dúvidas





disse

Donald.







Ainda está achando que isso é alguma instalação militar?





p

erguntou Suzanne a Donald.







E o que mais poderia ser?





quis saber Donald, defendendo

-

se.







Se estes mergulhadores das esferas estão vivos, não posso nem

imaginar que tecnologia será essa





disse Suzanne.





Eles parecem dois

embriões gigantes. E tampouco

tenho uma explicação para a ca

verna. Até

mesmo esta sala é qualquer coisa além.







Além de quê?





perguntou Donald.







A porta!





berrou Perry.



Todos os olhos se voltaram para a entrada. A porta maciça estava se

fechando.Freneticamente, os três tentaram cor

rer para ela, para evitar que

os prendesse lá dentro, mas o piso escorregadio impedia que conse

-

guissem alcançá

-

la. Quando chegaram perto dela, a porta já estava

fechada. Encostaram

-

se nela e procuraram abri

-

la todos juntos, mas com o

peso deles e o piso l

iso, o esforço foi vão. Com um estrondo retumbante, a

porta se fechou. Depois ouviram o som mecânico aba

fado dos numerosos

parafusos de travamento que deslizavam» para vedá

-

la.



Sentindo ainda mais pavor, os tr

ês se afastaram da porta.







Alguém está contro

lando tudo isso





disse Suzanne, muito séria.

Seu olhar preocupado percorreu toda a sala sem emendas.





E agora




fomos aprisionados.







Só podem ser os russos





disse Donald.







Já chega de falar em russos!





gritou Suzanne.





Você ficou na

marinha tempo dema

is. Vê tudo em termos das hostilidades antigas. Isso

aqui não tem nada a ver com os russos.







Como sabe?





retrucou Donald, berrando.





E não ouse de

-

negrir o serviço que prestei ao meu país!







Ora, faça

-

me o favor!





disse Suzanne.





Não estou dene

grindo



seu tempo de marinha. Mas olhe só em volta de você, Donald. Isso aqui

não é coisa de terráqueos. Olhe essa luz, pelo amor de Deus!





Suzanne

estendeu a mão.





Não há fonte, mas a iluminação é total

mente uniforme.

E não há sombras.



Perry estendeu a mão e

tentou formar sombras, mas era impossível.

Donald observou, porém não tentou ele mesmo.







É um fluxo de fótons uniforme que deve estar penetrando pelas

paredes de alguma forma





disse Suzanne.





E se eu tivesse que arris

car

um palpite, diria que há nele u

m componente significativo de radi

ação

ultravioleta.







Como sabe?





disse Perry.







Não sei





admitiu Suzanne.





Não com certeza, uma vez que o

olho humano não distingue o ultravioleta, mas para mim existe uma



distorção bem visível no azul dos nossos unifo

rmes e no marrom

avermelhado do seu abrigo.



Perry olhou para baixo, para seus trajes. Para ele, a cor era a mesma

que sempre havia sido.







As esferas!





berrou Donald.



Todos os olhos se voltaram para as esferas de vidro. A opalescência

delas havia súbita e



dramaticamente se intensificado, de forma a torná

-

las

incandescentes. Um momento depois, ouviu

-

se o ruído de algo se

rachando, e as esferas abriram

-

se, a partir de ambos os ápices, como duas

enormes flores perdendo as pétalas. Com um jorro de fluido, os m

ergu

-

lhadores foram atirados ao chão.



Donald foi o primeiro a superar o choque. Correu o mais rápido que

pôde até Richard. Percebendo que o mergulhador inconsciente es

tava




tentando respirar, Donald arrancou o capacete do homem e jogou

-

o para

um lado. Rich

ard tossiu violentamente.



Perry correu até Michael. Enquanto removia o capacete de Michael,

ouviu Richard tossir. Relembrando o seu treinamento de ressuscitação,

Perry soube o que fazer. Primeiro puxou Michael, afas

tando

-

o dos restos

da esfera arrebentada

, e arrastando o cabo ainda conectado a ele. Depois

de uma rápida verificação para ver se a boca do mergulhador não

apresentava obstruções, tampou as narinas, segurando

-

lhe o nariz entre o

polegar e o indicador, inspirou e, pra

ticando a respiração boca

-

a

-

boca,

exalou, esvaziando os pulmões dentro do mergulhador. Virando a cabeça

para o lado, Perry inspi

rou outra vez. Estava para repetir o ciclo quando

notou que os olhos de Michael estavam abertos.







Mas que idéia é essa, rapaz!





indagou Michael. Empurrou



para

longe o rosto dele, que estava a alguns centímetros do seu.







Estava fazendo boca

-

a

-

boca





explicou Perry. Ficou de pé.





Pensei que não estivesse respirando.







Mas estou!





insistiu Michael. Fez uma careta de nojo e enxu

gou

a boca com as costas da

mão.





Pode acreditar que estou!O acesso de

tosse de Richard parou subitamente, e ele piscou para livrar

-

se das

lágrimas que ele havia ocasionado. Sua primeira preocupa

ção foi com

Michael. Quando viu que o parceiro estava vivo e bem, olhou de relance a

sa

la em torno de si antes de olhar para os outros.







O que está havendo?





perguntou.





O que aconteceu?







Quem responder essa, ganha um milhão





replicou Perry.







Que raio de lugar

é esse

?







perguntou Richard. Os olhos dele

percorreram a sala de novo, rapid

amente. Sua expressão era de perplexi

-

dade.







Pergunta igualmente interessante





disse Perry.







Estavam procurando a gente?





perguntou Donald a Richard.

Por um momento, Richard pareceu meramente confuso. Depois a



pergunta de Donald ajudou a resgatar suas

lembran

ças.







Ai, meu Deus do céu!





gritou.





Estamos num mergulho

saturado de mais de trezentos metros. Não passamos pela

descompressão!





Richard fez um esforço para pôr

-

se de pé. As pernas




estavam bam

bas, principalmente naquele piso escorregadio.





Mi

chael,

precisamos ir para a câmara de descompressão!







Calminha aí!





disse Donald. Agarrou Richard pelo braço para

acalmá

-

lo e evitar que caísse.





Aqui não tem câmara de descompressão

nenhuma. Aliás, você está perfeitamente bem. Obviamente não está com

d

or nas articulações.



A confusão de Richard aumentou. Ele alongou as pernas e os bra

ços

para verificar as articulações. Piscando várias vezes seguidas, olhou a sala

outra vez, e ao fazer isso notou o cabo que o conectava à base da esfera

quebrada.







Mas qu

e meleca é essa?





disse, irritado. Agarrou aquele ema

-

ranhado todo de mangueiras e fios e imediatamente o soltou. Os lábios se

retorceram, de repugnância.





Cacete, isso aqui é mole, parece que estou

pegando nos intestinos de alguém!







Deve ser algum tipo



de linha de sustentação de vida





disse

Suzanne, falando pela primeira vez desde que os mergulhadores haviam



saído de seus invólucros.





Considerando a forma em que se encontram

sem terem passado pela descompressão, diria que tem alguma relação

com ela, t

ambém.



Richard tocou com todo o cuidado o dispositivo conectado a seu

estômago. Era do tamanho e do formato de um cálice de desentupidor de

vaso sanitário. Assim que o tocou, ele saiu. Pegando

-

o, olhou para o lado

que antes estava conectado ao seu corpo. P

ara seu horror, uma sé

rie de

apêndices semelhantes a vermes salientaram

-

se dele, as cabeças sinuosas

empapadas de sangue





o seu sangue.







Ah!





berrou Richard. Deixou cair o dispositivo, que rapida

-

mente entrou na base da esfera achatada como um fio de a

spirador de pó

que desaparece. Em pânico, Richard abriu o zíper frontal do traje de

neoprene até o púbis. Quando olhou para a barriga, gritou outra vez.

Havia seis feridas em forma de furos arredondados, formando um cír

culo

em torno do seu umbigo.



Depois

de olhar para Richard, Michael ficou de pé e fitou hesitante

seu próprio abdome. Consternado, percebeu que também tinha um

dispositivo semelhante conectado ao corpo. Com uma expressão seme

-

lhante à de Richard, tocou

-

o relutante, com o dedo indicador. Para

seu

alívio, a parafernália imediatamente se soltou, e se retraiu. Abrindo o traje




de neoprene, ele também encontrou os mesmos furos em círculo

emanando fluido corporal em torno do umbigo.







Mas, será o benedito!





exclamou Michael.





Parece que en

-

fiaram u

mas tantas facadas na gente com um furador de gelo.





Tre

-

meu.





Não suporto ver sangue.



Richard fechou outra vez o traje de mergulho e depois tentou dar

alguns passos com as pernas tr

êmulas. Estendeu os braços e se apoiou na

parede.







Cara, eu me sinto co

mo se estivesse dopado.







Eu me sinto como se tivesse sido atropelado por um tremendo

caminhão





disse Michael.







E o Mazzola?





perguntou Richard.





Não fazemos a menor

idéia





disse Donald.





O que aconte

ceu durante o mergulho de vocês?



Richard coçou a p

arte de trás da cabeça. A princípio, só podia se

lembrar de ter entrado na câmara de compressão, mas aí, com a ajuda de

Michael, ambos começaram a se lembrar por alto da descida do sino e da

entrada na água.







Só isso?





indagou Donald.





Não se lembra de

nada do que

ocorreu depois que saíram do sino?



Richard confirmou. Michael fez o mesmo.







E vocês todos, por que é que estão desse jeito aí, parecendo ter

saído de um chiqueiro?





perguntou Richard. Não esperou a resposta.

Em vez disso, examinou as paredes

mais de perto.





O que é isso, al

guma

espécie de hospital, ou coisa parecida?







Não é hospital, não





disse Donald.





Só podemos dizer como

chegamos aqui, mas nisso não se inclui a explicação sobre essa sujeira toda.







Já é um começo





disse Richard.





Ma

nda!



Donald explicou tudo enquanto os dois mergulhadores se apoia

vam

na parede. Era uma hist

ória difícil de engolir, de forma que semicerraram

os olhos, incrédulos.







Ah, qual é, compadre!





zombou Richard.





Que papo é

esse

?

Alguma brincadeira de mau gos

to?





Olhou o trio de um jeito des

-

confiado. Só podia ser armação. Michael concordou com a cabeça.










Não

é

nenhuma brincadeira





garantiu Donald.







Olha só essa sala aqui





disse Suzanne.







Escutem!





disse Donald, tentando ser paciente.





Será que

nenhum

de vocês consegue se lembrar como chegou aqui? Não viram

ninguém?



Richard sacudiu a cabeça. Com o pé, empurrou os fragmentos

murchos da esfera. O material agora estava mole, em vez de rígido e

quebradiço.







É verdade mesmo que estávamos dentro desse negóci

o aí? Dis

-

seram que parecia vidro. E agora não parece.





Pois parecia, há alguns

momentos atrás





garantiu

-

lhe Suzanne.







O que estamos achando é que isso aqui é alguma base submari

na

russa





prosseguiu Donald.







Correção!





interrompeu Suzanne.





Isso é o



que você pensa.







Russos?





repetiu Richard.





Não brinca!





Endireitou

-

se

visivelmente. Olhou em torno com um interesse renovado, assim como

Michael. Ambos colocaram as mãos sobre as paredes altamente polidas.

Richard bateu na superfície lustrosa com as

juntas dos dedos.





O que é

esse

negócio aqui, afinal? Titânio?



Suzanne começou a responder, porém foi interrompida por um chia

-

do. Todos olharam para os pontos onde antes se achavam as esferas. Nu

-

vens de vapor saíram dos orifícios expostos. Rapidamente u

m odor acre

impregnou a câmara vedada, e os olhos de todos começaram a lacrimejar.







Estamos numa câmara de gás!





berrou Suzanne antes de ser

acometida por violentos acessos de tosse.



O grupo recuou, aterrorizado, comprimindo

-

se de encontro às pa

-

redes de



metal frio, numa tentativa vã de tentar se afastar do gás. Mas

logo todos estavam tossindo e espremendo os olhos fechados para se

livrar da sensação de ardência.







Deitem

-

se no chão!





comandou Donald.



Todos, menos Perry, se estenderam no chão, enquanto t

entavam

inutilmente cobrir a boca e o nariz com as mãos. Perry correu, aos tro

-

peções, de volta até a porta da caverna e começou a bater nela, pedindo

aos gritos que a abrissem.






A porta não cedeu um milímetro, mas Perry teve a presença de es

-

pírito de nota

r alguma coisa apesar do seu pânico e de seu sofrimento

físico. Não estava apagando, nem se sentindo nem um pouco zonzo. O gás

parecia não ter o efeito letal que ele mais temia.



Com força de vontade, Perry procurou não tossir e conseguiu abrir

os olhos um

instante, apesar do desconforto. Aquele vapor semelhante a

uma bruma havia inundado a sala. Perry não conseguia ver muito longe,

mas notou que os braços haviam ficado subitamente nus.



Curioso para ver

o que poder

ia



ter ocorrido com as mangas do abri

go, Pe

rry semicerrou os

olhos. Viu que as mangas haviam sido reduzi

das a frangalhos. Pendiam

dos seus ombros esfarrapadas, como se ele houvesse mergulhado os

braços em ácido.



Ciente de que agora sentia frio no corpo inteiro, Perry apalpou o

peito. O abrigo





al

iás, seu traje inteiro





havia tido o mesmo desti

no

das mangas. O próprio tecido estava progressivamente perdendo sua

integridade estrutural.



Perry tivera pesadelos antes, enquanto passava por períodos de

estresse, nos quais se via nu em público. De repen

te se lembrou deles,

quando sentiu as roupas caírem do seu corpo em tiras. Agarrou os fran

-

galhos e sentiu

-

os se desintegrando em suas mãos.







Nossas roupas!





berrou Perry para os outros.





O gás está

dissolvendo nossas roupas!



A princípio o medo impediu

que os outros respondessem. Perry

berrou outra vez o aviso e avançou cambaleante na neblina, quase tro

-

peçando em Donald.







O gás está dissolvendo nossas roupas





repetiu.





E eu não

estou sentindo nenhum efeito no sistema nervoso.



Donald ergueu

-

se com o a

uxílio dos braços e se sentou. O macacão

dele teve o mesmo destino do traje de Perry. Rapidamente, ele se apal

pou

para ver se estava mesmo ficando pelado. Mas não conseguiu abrir os

olhos, o gás ardia demais. Mesmo sem a confirmação visual, ele se

convenc

eu. Gritou para os outros:







O Perry está certo!



Suzanne, como Perry, conseguia abrir os olhos intermitentemente.

Viu que estava mesmo perdendo as roupas. O macacão havia literal

mente




se desmanchado. Também notou que não havia sofrido nenhum efeito

mental

, apesar do desconforto que sentia na garganta e no peito. Aliviada,

ela se pôs de pé.



Richard e Michael se apoiaram nos braços para se sentar. Com a

sensação ainda forte de estarem drogados, não sabiam se o gás estava



lhes

afetando a consciência, mas ambo

s estavam tossindo muito. Para eles, o

efeito respiratório foi mais difícil de superar do que para os outros.







O meu traje de mergulho está inteirinho





conseguiu dizer

Richard, entre uma tossida e outra. Mas aí ele cometeu o erro de passar a

mão no ombro

. Nesse instante, o neoprene sofreu uma despolimerização

completa. Quando Richard tocou o traje, a borracha caiu trans

formada em

milhares de microesferas.



Entre uma piscadela e outra, Michael vislumbrou o ocorrido com o

traje de Richard. Olhava de quando

em vez para o seu, relutando em toc

á

-

lo ou até mesmo em se mover, mas Richard estendeu o braço e deu

-

lhe

uma palmada forte no ombro. O efeito foi instantâneo. Num minuto o

traje de mergulho parecia normal, no outro já estava escor

rendo pelo

corpo de Micha

el abaixo, transformado em milhares de go

tas de água.



Subitamente, se ouviu um alarme, e uma luz vermelha na pare

de

diante da porta da caverna começou a piscar





momentos antes, aquela

mesma parede parecia inteiriça. Através do vapor cáustico, os cinco

c

omeçaram a discernir os contornos de uma porta aberta debaixo da luz.



O alarme parou depois de alguns minutos, mas a luz continuou a

piscar. Então eles ouviram o som de um assobio bem agudo. Começou a

entrar ar comprimido por um pequeno orifício.



Perry ava

nçou vagarosamente na direção da luz intermitente. Quan

-

do chegou à parede, viu que o contorno da porta já estava mais nítido. Ele

apalpou

-

lhe as bordas. Nesse instante, sentiu uma corrente de ar constante

penetrar na outra sala. Experimentou pisar do outr

o lado da soleira para

ver se o piso era horizontal. Depois passou para a outra sala.



Sentiu um alívio quase imediato. A barreira de ar mantinha o gás

acre longe do corredor no qual havia entrado. As paredes, o piso e o teto

eram feitos do mesmo metal poli

do que a sala cheia de gás, mas o nível de

iluminação era significativamente menor. Perry viu que o cor

redor dava

em uma outra câmara, seis metros à frente.Retrocedendo, com a cabeça

protegida do gás pela corrente de ar, chamou os outros.










Tem outra sala



aqui





gritou.





E o ar é puro. Venham!



Os outros quatro trataram de se pôr de pé e se dirigiram para o lado

da luz vermelha que piscava. Suzanne teve que servir de guia para

Donald; ele não conseguia sequer suportar abrir os olhos. Dentro de um

minuto to

do o grupo conseguiu chegar à sala nova.



O gás rapidamente se dissipou. Eles ficaram tão aliviados que nem

se incomodaram pelo fato de suas roupas terem se desintegrado por

completo. Todos os cinco estavam nus em pêlo, mas não podiam se

preocupar com isso

agora. Estavam curiosos para irem ver o que havia na

sala diante deles.







Vamos andando





disse Donald. Gesticulou para que Perry fosse

na frente, pois já estava mesmo liderando o grupo.



Perry, encostando as costas na parede, fez sinal para que Donald

pass

asse

à frente.







Acho que deve ir na frente. Você ainda é o capitão do navio.

Donald concordou e foi. Perry seguiu

-

o, e depois dele veio Suzanne.



Os dois mergulhadores fechavam o cortejo.







Parece óbvio o que vai acontecer agora





disse Donald.







Ainda bem



que sabe





disse Perry.







Como assim?





indagou Suzanne.







Estamos sendo preparados para um interrogatório





explicou

Donald.





É uma técnica bastante conhecida para se acabar com o senso

de identidade de uma pessoa, para que ela não ofereça resistência.

Nos

sas

roupas, sem dúvida, fazem parte da nossa identidade.







Não tenho resistência nenhuma a opor





disse Perry.





Vou

dizer a seja lá quem for tudo que quiserem saber.







Quer dizer que sabe que gás era aquele, Donald?





perguntou

Suzanne.







Negativo





r

espondeu Donald.Donald parou no limiar da

segunda porta e espiou dentro da sala. Era consideravelmente menor que

a primeira, embora também estives

se revestida com o mesmo material

metálico misterioso. De onde esta

va, conseguia enxergar uma porta de

saída



envidraçada, bem como o começo de um corredor branco com o que




lhe pareceram quadros nas paredes. Dentro da câmara, ele notou que o

piso se inclinava até o cen

tro, onde havia uma grade, e o teto se inclinava

para cima até um ponto central onde havia outr

a grade.







E aí?





indagou Suzanne. De onde estava não dava para ela ver

nada disso.







Parece tudo normal





disse Donald.





Tem um corredor apa

-

rentemente normal atrás de uma porta de vidro.







Então vamos





gritou Richard, impaciente, atrás de Suzanne.



Apo

iando

-

se com ambas as mãos no batente da porta, para se equi

-

librar, Donald colocou primeiro um dos pés no piso inclinado, depois o

outro. Como havia previsto, começou a deslizar no momento em que

soltou a porta. Deslizou cerca de um metro com as mãos a se



agitar para

manter o equilíbrio. Nessa altura, o piso ficava quase horizontal. Ele se

virou e avisou os outros.



Todos tiveram cuidado, menos Michael. Criado em Chelsea,

Massachusetts, onde jogava hóquei desde os cinco anos, não estava

preocupado com o pis

o escorregadio. Mas a inclinação o pegou de

surpresa. Os pés escorregaram no primeiro passo, e ele caiu na dire

ção

dos outros como uma bola de boliche. Num instante o grupo inteiro havia

se transformado em uma pilha de membros nus entre

laçados.







Cacete!







reclamou Donald. Livrando

-

se, ajudou Suzanne a ficar

de pé. Os outros procuraram se erguer sozinhos. Michael nem li

gou.

Agora de olhos abertos, estava muito mais interessado em apreciar o

corpo de Suzanne. Richard soltou um palavrão e deu um murro no a

lto da

cabeça de Michael. Michael, para defender

-

se, deu um empur

rão em

Richard, o que os derrubou no chão de novo.





Chega!





berrou Donald.

Tomando cuidado para não cair, se

parou os dois mergulhadores. Richard

e Michael obedeceram, mas con

tinuaram a se



fuzilar mutuamente com os

olhos.







Meu Deus!





exclamou Suzanne.





Olhem!





Apontou para a

porta atrás deles, pela qual haviam acabado de passar. Todos ficaram

boquiabertos de espanto. A porta estava se vedando silenciosamente,

como se o metal dela estive

sse se fundindo com o da parede. Dentro de

instantes a abertura já havia sumido sem deixar nenhum vestígio. A

parede havia se fechado.










Se não tivesse visto com os meus próprios olhos, jamais acredi

-

taria





disse Perry.





É sobrenatural, parece efeito esp

ecial de cinema.







Não consigo entender que tecnologia será essa





comentou

Suzanne.





Acho que isso elimina a hipótese de que estamos numa base

russa.



Então um gorgolejar bem grave começou a vir da grade central.

Todos os olhos se voltaram na direção dela

.







Ah, não!





gritou Suzanne.





E agora, qual será a surpresa?



Antes que alguém tivesse tempo de responder, um fluido transpa

-

rente que parecia água subiu borbulhando pela grade central do chão. O

grupo recuou, depois tratou de escalar a inclinação do out

ro lado até a

porta de vidro. O ângulo de inclinação e a superfície escorregadia do piso

os obrigavam a ficar de quatro. O primeiro que chegou à porta começou a

bater no vidro, desesperado, procurando uma forma de abri

-

la. Atrás

deles, a água que entrava h

avia se transformado em um gêiser; o nível de

água estava subindo rapidamente.



Dentro de alguns minutos, já estavam imersos até a cintura. Mo

-

mentos depois, já estavam todos nadando cachorrinho, horrorizando

-

se

cada vez mais, à medida que se aproximavam do



teto. Mesmo que

pudessem nadar indefinidamente, em breve não teriam mais ar para

respirar. Rapidamente foram obrigados a se reunirem, lutando para res

-

pirar o ar restante no ápice do teto. Por serem melhores nadadores,

Richard e Michael se colocaram no ce

ntro, diretamente abaixo da

grade



e,

numa tentativa desesperada de buscar mais ar, meteram os dedos pelos

buracos e tentaram arrancar a grade do seu encaixe.



Seus esforços, porém, foram inúteis. A grade não se moveu sequer

um milímetro, e o nível da água c

ontinuou a subir até a sala ficar cheia até

o teto. Assim que todos submergiram, a água começou a sair, a uma

velocidade extraordinária. Dentro de segundos já havia espaço para res

-

pirarem; em minutos, Donald e Richard, os mais altos dos cinco, sen

tiram

o

s pés tocarem o chão.



Em breve se ouviu um ruído alto e grosseiro de sucção, quando o

res

tante da água desapareceu no ralo, e o grupo ficou todo amontoado e

encharcado na depressão central do piso côncavo. Durante algum tempo,

nenhum deles se moveu. Uma c

ombinação de puro terror, esforço motiva

-

do pelo pânico e o fato de terem engolido sem querer uma quantidade




con

siderável do fluido, os deixou física e emocionalmente exaustos.



Donald finalmente conseguiu se sentar. Sentia

-

se zonzo. Teve a

estranha sensaç

ão de que havia se passado mais tempo do que era ca

paz

de calcular. Ocorreu

-

lhe que talvez tivessem sido drogados por alguma

coisa que havia na água que inundou a sala. Fechou os olhos um

momento, depois esfregou as têmporas. Quando tornou a abrir os olho

s,

olhou para os outros. Todos pareciam estar dormindo. Olhou através da

porta de vidro, depois voltou a olhar para Suzanne, rapida

mente.







Meu Deus!





murmurou Donald. Não pôde crer no que via.

Suzanne estava careca! Donald passou a mão na cabeça, mas co

mo já a

raspava há anos, resolveu conferir o bigode. Ele havia sumido! Erguen

do

o braço, viu que ele também estava totalmente depilado. Olhou o peito de

relance. Não havia nele um só pêlo.



Donald sacudiu Perry, depois cutucou Suzanne. Quando ambos já

se e

ncontravam alertas o suficiente para entender o que Donald lhes dizia,

este lhes contou o que ocorrera.







Ah, não!





gritou Perry. Sentou

-

se na mesma hora. Com ambas

as mãos, tocou o couro cabeludo, com todo o cuidado. Não encontrou



cabelos, apenas pele nu

a. Afastou as mãos como se houvesse tocado al

-

guma coisa quente. Estava horrorizado.



Suzanne ficou mais curiosa do que desanimada. Alguma coisa os

havia depilado completamente. Como aquilo havia acontecido





e por

quê?







O que está havendo?





Richard pergu

ntou. As palavras dele

soaram sonolentas. Ele se sentou, depois foi obrigado a se apoiar.





Oooooi... Estou me sentindo meio de porre...







Eu também estou meio tonto





admitiu Perry.





Talvez hou

-

vesse alguma coisa nessa água. Sei que andei engolindo uns g

oles dela.







Acho que fomos drogados





disse Donald.







Todos bebemos muita água





disse Richard.





É difícil não

engolir água num tormento desses. Foi pior que treinamento de fuga em

submarino.







Acho que sei o que está havendo





disse Suzanne.







Pode crer

, eu também sei





disse Perry.





Estamos sendo tor

-




turados e humilhados.







Todas as técnicas de interrogatório





disse Donald.







Acho que não vai haver interrogatório nenhum





disse Suzanne.







Aquela luz forte estranha, o gás ardido, depois a

depilação



est

ão

me fazendo deduzir uma outra coisa.







O que quer dizer com depilação?





perguntou Richard.







O que aconteceu com a sua cabeça





respondeu Perry. Richard

piscou. Olhou Perry, estarrecido, depois tocou o alto da cabeça.







Meu Deus, estou carequinha da sil

va!





olhou para Michael que

ainda estava puxando o maior ronco. Depois empurrou

-

o.





Acorda aí, ô

bela adormecida careca! Acorda!



Michael abriu os olhos com extrema dificuldade.







Acho que estamos sendo descontaminados





disse Suzanne.







Acho que tudo foi



para isso: livrarem

-

se de microrganismos como

bactérias e vírus. Estamos sendo efetivamente esterilizados.



Ninguém disse nada. Perry concordou ao refletir sobre o que

Suzanne havia dito. Achou aquilo possível.





Ainda acho que tudo isso é

para nos preparar



para algum inter

rogatório





disse Donald.





Esterilizar

-

nos não faz sentido. Não sei se são os russos que estão fazendo

isso ou não, mas alguém quer alguma coisa de nós.







Talvez saibamos dentro de muito pouco tempo





disse Perry.

Indicou com a cabeça a

porta de vidro, que agora estava entreaberta.





Acho que o próximo estágio já está vindo aí.



Donald procurou esforçar

-

se, instável, para ficar em pé.







Sem dúvida havia alguma espécie de droga na água





disse ele.

Esperou até que passasse mais um acesso de



tonteira, depois dirigiu

-

se à

porta aberta. No ponto onde o piso escorregadio começava a subir até a

porta de vidro, foi obrigado a ficar de quatro. Quando atingiu a por

ta,

ficou de pé e examinou um corredor branco de quinze metros de

comprimento.







Eu m

e sinto meio grogue, mas também estranhamente faminta





disse Suzanne.










Eu estava justamente pensando nisso





admitiu Perry.







Atenção, tropa





disse Donald.





Parece que as coisas estão

melhorando. Tem uns alojamentos no final desse corredor! Vamos nos

m

obilizar!



Suzanne e Perry, agachando

-

se, levantaram

-

se, combatendo a mes

-

ma esp

écie de tonteira transitória que Donald havia sentido.







Acho que alojamentos significa camas





disse Suzanne.





E isso

me parece pra lá de bom. Ademais, quero sair logo dessa s

ala, por

que

aquele aguaceiro pode voltar.







Concordo plenamente





apoiou Perry.



Richard e Michael haviam tornado a adormecer. Suzanne cutucou os

dois, mas nenhum deles se mexeu. Perry ajudou

-

a.







Seja lá o que for que puseram nessa água, afetou mais

esses



ca

ras

do que nós





comentou Suzanne, enquanto sacudia Richard para obrigá

-

lo a abrir os olhos.





Eles se sentiram grogues depois que saíram das

esferas, mesmo antes da imersão nessa água





disse Perry. Puxou

Michael, que recla

mou, dizendo que o deixassem



em paz, obrigando

-

o a

se sentar.







Vamos, tratem de ir se mexendo!





ordenou Donald.





Não

quero que essa porta se feche antes de todos saírem daqui.



Apesar de estarem completamente grogues, a advertência a respeito

da porta penetrou o estupor de Richard

e Michael, e eles se levantaram.

Enquanto se moviam, seu estado mental melhorou rapidamente. Quan

do

o grupo se uniu a Donald, os mergulhadores já estavam até conver

sando.







Isso não é nada mau





disse Richard ao inspecionar o corre

dor

ainda de olhos sem

icerrados. Em vez de metal espelhado, as pare

des e o

teto eram de um laminado branco de alto brilho. Emolduradas, gravuras

tridimensionais cobriam as paredes. O piso estava revestido com um

carpete branco de trama compacta.







Esses quadros são demais





co

mentou Michael.





São realis

tas

pra caramba. Parece que posso enxergar até quarenta quilômetros dentro

deles.







São holográficos





explicou Suzanne.





Mas jamais vi uma

holografia com cores assim tão vividas e naturais. São impressionantes,




principalmente



nesse ambiente assim todo branco.







Parecem todos cenários da antiga Grécia





disse Perry.





Se

jam

lá quais forem nossos algozes, pelo menos são civilizados.







Em frente, homens!





chamou Donald. Estava impaciente,

aguardando logo sobre a soleira da port

a seguinte.





Temos que tomar

algumas decisões táticas.







Decisões táticas





repetiu Perry, murmurando para Suzanne.





Ele nunca deixa de lado essa pose de milico?







Quase nunca





admitiu Suzanne.



O grupo atravessou todo o corredor e parou, assombrado com

o

aposento diante deles. Depois daquela série de câmaras despojadas e de

aparência industrial, estavam despreparados para aquele quarto

suntuoso.A decoração era futurista, com muitos espelhos e mármores

brancos, mas o ambiente era tranqüilo, fresco, convid

ativo. Uma dúzia de

leitos com dosséis, semelhantes a divas, com cobertores de caxemira

branca enfileirava

-

se rente a cada parede. Cinco dessas camas estavam

com as cobertas convidativamente afastadas em direção ao pé da cama,

tendo sobre cada travesseiro

roupas limpas dobradas. Ao fundo, música

ins

trumental suave completava o clima de repouso.



No centro da sala se encontrava uma enorme mesa baixa tendo ao

seu redor cadeiras tipo espreguiçadeira com almofadas bem fofas. A mesa

estava posta para uma refeiçã

o com bandejas cobertas e jarras de bebi

das

geladas. Os pratos eram brancos, a toalha era branca e os talheres eram

dourados.







Se aqui for o céu, não estou preparado





disse Perry, quando se

recuperou o suficiente para falar.







Acho que o rango não cheir

a assim tão bem no paraíso





co

-

mentou Richard.





E acabei de perceber que estou mais faminto do que

cansado.





Começou a avançar, seguido de perto por Michael.







Alto lá!





disse Donald.





Não sei se devemos comer isso. A

comida talvez contenha barbitúric

os ou coisa pior.







Acha mesmo isso?





disse Richard, manifestando uma decep

ção

evidente. Hesitou, olhando para trás e para a frente, entre Donald e a

mesa repleta de comida.










E aqueles espelhos





disse Donald, apontando para as enormes

superfícies espel

hadas que compunham a extremidade da sala.





Presu

-

mo que tenham duas faces, o que significa que estamos sendo vigiados.







Não estou nem aí, se eles nos tratarem bem assim





disse

Michael.





Meu voto é a favor de comermos.



Os olhos de Suzanne pousaram nas

vestes dobradas sobre cada

cama. Ela não havia notado as roupas antes, porque eram totalmente

brancas, assim como a maior parte de todo o resto, e se fundiam

perfeitamente com as roupas de cama brancas. Ela se aproximou da cama

mais próxi

ma. Ergueu as ves

timentas e as sacudiu. Havia duas peças

simples: uma



túnica de mangas compridas que se abria na parte da frente

e uma ber

muda. Ambas eram feitas de um cetim semelhante à seda, e

curiosa

mente não tinham costuras.







Nossa mãe! Um pijama!





comentou Suzanne

.





Ora, isso já é

muita gentileza.





Sem nem um momento de hesitação, Suzanne vestiu a

bermuda. A túnica tinha proporções avantajadas e vinha até os joelhos,

cobrindo as bermudas, sendo atada por um cordão trançado de ouro. Ao

longo das laterais havia vár

ios bolsos.



O fato de Suzanne ter se vestido despertou nos outros o constrangi

-

mento por estarem nus. Os quatro homens agarraram suas roupas so

bre

as camas e as vestiram.



Michael olhou

-

se nos espelhos do fim da sala.







Não gostei muito desse negócio aqui





comentou.





Mas é

confortável.



Richard riu

-

se dele.







Você está parecendo uma bicha.







E você está parecendo o quê, também, hein, babaca





replicou

Michael, agressivo.







Podem parar por aí





alertou Donald.





Nada de brigas entre

nós. Guarde essa sua agr

essividade para enfrentar esse pessoal que nos

raptou. Aliás, devíamos estabelecer turnos de vigia.







Mas de que raio é que está falando?





indagou Richard.





Isso

aqui não é nenhum exercício militar. Vou comer e depois tirar um bom

ronco. Não estou nem a

fim de bancar o vigia.










Estamos todos cansados





disse Donald.





Mas há uma por

ta

que precisamos vigiar, e sobre a qual não temos nenhum controle.



Todos os olhos se voltaram para a porta no fim da sala diante dos

espelhos. Era branca, como todo o resto d

o aposento, e n

ão tinha ma

çaneta,

nem trinco, nem dobradiças.







Precisamos montar guarda





disse Donald.





Não quero que

esses

russos, ou seja lá quem for, penetrem aqui pé ante pé enquanto

estivermos dormindo e façam o que quiserem conosco.





Pelo cuidado



que estão tendo, nos proporcionando

esse

aloja

mento aqui, acho que essa

sua paranóia não se justifica





replicou Suzanne.





E pensei que

houvéssemos concordado que não há nenhum russo por aqui.







Bom, continuem aí batendo boca sobre

esse

assunto





disse

Richard. Foi até a mesa e ergueu a cobertura de uma das travessas tér

-

micas. O aroma delicioso encheu a sala.







O que é?





perguntou Michael. Inclinou

-

se para olhar.







Não faço a menor idéia





disse Richard. Ergueu a colher. A

comida fumegante era cor

-

de

-

c

reme e tinha uma consistência

pastosa

,

como mingau quente.





Parece mingau de maisena, e tem um cheiro

maravilhoso





Levou a colher à boca e provou

-

a.





Ora, mas quem diria!

Como eles descobriram? Tem gosto do meu prato predi

leto, bife.



Michael provou tam

b

ém.







Bife? Você pirou, é? Parece batata

-

doce.







Sai fora!





reclamou Richard.





Você e as suas batatas

-

doces!





Sentou

-

se em uma das espreguiçadeiras e serviu

-

se de uma concha

generosa de comida.





Você vive pensando em batata

-

doce.



Michael sentou

-

se dia

nte dele e tamb

ém se serviu.







Olha, parceiro, me perdoe





disse ele, sarcasticamente.





Mas

acontece que eu gosto de batata

-

doce.



Suzanne e Perry se aproximaram da mesa, com a curiosidade

espicaçada por aquele diálogo. Estavam com uma fome quase irresistí

vel.

Suzanne foi a próxima a provar a comida.







Incrível





comentou.





Parece manga.







Difícil acreditar





disse Perry.





Porque para mim parece




direitinho



milho verde.



Suzanne provou outra vez.







Para mim é manga, sem dúvida. Talvez esse alimento de algu

ma

forma engane nosso cérebro para que interprete o sabor de acordo com

nossas predileções.Até Donald ficou intrigado. Veio até a mesa e provou

um tantinho. Sacudiu a cabeça, incrédulo.







Para mim parecem biscoitos frescos amanteigados.





Sentou

-

se

em uma

das cadeiras.





Estou com uma fome tremenda, como to

dos

vocês.



Todos comeram quantidades variadas daquele alimento curioso.



Acharam difícil resistir a uma nova porção durante alguns segundos.



Também descobriram que a bebida gelada tinha um efeito variável



semelhante. Tinha um gosto diferente para cada pessoa, de acordo com



sua prefer

ência.



Assim que a fome de lobo do grupo foi mitigada, o cansaço e a

sonolência



que sentiam antes voltaram, ainda mais fortes. Lutando para

não fechar os olhos, eles se afastar

am da mesa e se dirigiram cada um a

sua cama. Mal afastaram as cobertas, todos, menos Donald, ferraram num

sono de hibernação. Donald lutou em vão, na esperança de conti

nuar

alerta, para vigiar, mas foi impossível. Dentro de minutos ele tam

bém

estava dor

mitando.



No momento em que se fecharam os olhos de Donald, luzinhas

vermelhas apareceram no dossel de cada cama. Ao mesmo tempo, um

brilho emanou

-

se de cada dossel e envolveu o indiv

íduo adormecido no

respectivo leito em um halo violeta.





8

8





As



minúsculas l

âmpadas vermelhas acima das camas no dormitório

ficaram momentaneamente verdes, e o brilho violeta foi sumindo. Um

momento depois, as luzes verdes se apagaram.



Perry foi o primeiro a despertar. Não foi uma transição gradativa,




mas uma mudança súbita do son

o profundo para a consciência plena.

Durante alguns segundos, ficou olhando fixamente para o dossel acima de

si, tentando se situar em relação àquela estrutura estranha e se orien

tar.

Mas não conseguiu. Não via nada do que esperava ver ao despertar: ou

se

ja, o teto branco da suíte supostamente VIP do

Benthic Explorer.



Perry ficou confuso, mas assim que virou a cabeça, tudo lhe voltou à

mente. Não tinha sido um sonho. O aterrorizante mergulho do

Oceanus

nas profundezas insondáveis do Atlântico tinha sido re

al.



Havia um cabide de roupas, simples e preto, bem ao alcance da

cama. Um conjunto de bermudas e túnica de cetim branco semelhante

àquele que ele vestia estava pendurado no cabide. Perry percebeu que

estava se sentindo despido sob a coberta. Ergueu a beir

ada da manta de

caxemira e olhou para o seu corpo. Não só estava nu, como também

detectou o mesmo anel peculiar de feridas em torno do umbigo que vira

antes em Richard e Michael quando eles emergiram das esferas.Perry

soltou um grito abafado, depois saltou



da cama para exami

nar as feridas

mais detidamente. Esticou a pele do abdome. As feridas não eram

profundas e não doíam, para grande alívio de Perry. O mais importante

era que pareciam cicatrizadas.



Enquanto Perry

remoia



essa descoberta, levou novo choque

. As

pernas e a virilha estavam cabeludas outra vez! Inspecionou o antebraço e

descobriu que o pêlo das axilas também havia crescido. Apalpando o alto

da cabeça, deu um sorriso.



Perry agarrou as roupas no cabide de ébano e vestiu

-

as enquanto

atravessava to

do o quarto.



Seu reflexo no espelho o deixou literalmente enlevado. O couro

cabeludo estava totalmente coberto de cabelos. Tinham apenas uns tr

ês

centímetros de comprimento, mas eram espessos e escuros como quan

do

ele estava no ginásio. Ele se sentiu como



se houvesse descoberto a fonte da

juventude.



Perry ouviu os outros se mexerem. Voltou

-

se a tempo de ver Donald

e Suzanne se vestirem. Richard e Michael estavam sentados nas beira

das

das camas, embasbacados com tudo. As roupas estavam empilhadas no

colo d

eles.







Exatamente como pensei





disse Donald, a ninguém em par

-

ticular.





Eu sabia que

esses

miseráveis iam entrar aqui e fazer gato e




sapato da gente enquanto dormíamos. Era por isso que queria manter

vigilância.







Não achei nada mau





disse Perry, passe

ando para cá e para

lá.





Nossos cabelos e pêlos voltaram! Já pensou? O meu está mais espes

-

so do que era antes de começar a cair.







É, eu notei o meu cabelo





disse Suzanne, menos entusiasmada.







Não é o máximo?





disse Perry.







Preferia o comprimento de

ontem





disse Suzanne.





Aliás, de

três dias atrás.







Como assim, três dias atrás?





indagou Perry.







Ontem foi 21 de julho





explicou Suzanne.





Concorda?





Acho

que sim





disse Perry. Não tinha certeza, por causa do vôo noturno para

os Açores.







Bom, o me

u relógio, que alguém tirou do meu pulso, mas fez a

grande gentileza de deixar aqui, diz que hoje é dia 24.



O relógio de Suzanne tinha sido o único que havia resistido ao gás

da primeira câmara. Sua pulseira de ouro continuava inteirinha.







Talvez a pessoa



que o retirou tenha adiantado a data





sugeriu

Perry. A idéia de passar três dias dormindo era perturbadora, no mínimo.







Pode ser





disse Suzanne.





Mas duvido. Quero dizer, para ter

tanto cabelo quanto cresceu em nós, teríamos que ter passado mais de tr

ês

dias aqui. Talvez já estivéssemos dormindo há um mês e três dias.



Perry estremeceu.







Um mês?





disse ele, engolindo em seco.





Não consigo ima

-

ginar uma coisa dessas. Além do mais, o comprimento de cabelo que

temos agora deve ter vindo de algum tratame

nto impressionante. O meu

cabelo está igual ao tempo em que eu tinha quatorze anos. Vou lhe di

zer

uma coisa: como empresário, faria qualquer coisa para conhecer

esse

segredo. Já pensou? Que produto!







Eles não me fizeram nenhum favor





disse Donald.





Eu

não

queria ter cabelo.







Já notaram as marcas nas barrigas de vocês?





perguntou

Suzanne a Perry e a Donald.






Ambos confirmaram, sem nada dizer.







Acho que significam que colocaram algum tipo de aparelho de

manutenção da vida em nós





disse Suzanne.





Talve

z do mesmo tipo

colocado em nossos mergulhadores naquelas esferas.







Pensei nisso também





disse Perry.





Acho que precisaram nos

dar algum tipo de nutrição, se ficamos dormindo tanto tempo assim.







Ei, vocês aí, estão se sentindo bem?





disse Suzanne num

tom

mais alto para Richard e Michael, que estavam terminando de se vestir.







Eu estou





disse Richard.





Só que queria que tudo isso fosse

um pesadelo.





Drogar as pessoas viola a Convenção de Genebra





resmun

gou Donald.





Somos civis! Sabe lá o que signif

icam esses

ferimentos. Eles podem ter injetado qualquer coisa na gente, vírus da

AIDS, ou soro da verdade.







Mas, sabe de uma coisa, estou me sentindo muito bem





ad

mitiu

Perry. Flexionou os braços e alongou as pernas. Era como se o corpo,

assim como os c

abelos, houvesse rejuvenescido.







Eu também





disse Michael. Tocou os artelhos e depois fez

corrida estacionária alguns segundos.





Sinto

-

me como se fosse capaz de

nadar vários quilômetros.







Meu cabelo voltou, mas minha barba não





disse Richard.





Durma

-

se com um barulho desses!



Os outros homens acariciaram pensativamente os queixos. Era ver

-

dade. N

ão havia pêlo nenhum nascendo ali.







Isso está ficando cada vez mais interessante





disse Perry.







Acho que está ficando é cada vez mais surreal





disse Suzann

e.

Ela olhou de perto o rosto de Perry. Antes ele exibia uma nítida zona mais

escura onde a barba nascia. Agora a pele estava absolutamente clara.







Olha aí, pessoal!





exclamou Richard. Apontou a porta na

parede entre os espelhos.





Parece que abriram a p

orta da nossa gaiola.



Todos os olhos se voltaram para a porta, que se abria silenciosamen

-

te. Além dela, se via outro longo corredor branco com holografias emol

-

duradas. A luz que vinha da outra extremidade dele era brilhante e

natural.










Parece luz diurna







disse Suzanne.







Não pode ser luz diurna





disse Donald.





A menos que te

-

nham nos transportado de alguma forma.



Perry sentiu um calafrio percorrer

-

lhe a espinha. Intuitivamente

sabia que tudo que havia ocorrido até ali era preâmbulo do que estava

para

acontecer nos próximos minutos. O problema era que ele não fazia a

menor idéia do que seria.



Richard foi até a porta para dar uma olhada melhor. Protegeu os

olhos da claridade que se refletia nas paredes brancas e lustrosas.





Está

vendo alguma coisa?





per

guntou Suzanne.







Quase nada





admitiu Richard.





O corredor dá para um pátio,

em frente do qual há um muro. Parece que é ao ar livre. Vamos!







Espere aí um pouquinho





disse Suzanne. Depois olhou para

Donald.





O que diz? Devemos ir? Obviamente nossos anf

itriões es

peram

que saiamos.







Acho que sim, mas todos juntos





disse Donald.





Devemos

ficar unidos o quanto pudermos, mas talvez escolher um representante

para falar por nós, caso nos defrontemos com nossos captores.







Certo





disse Suzanne.





Escolho o



Perry.







Eu?





disse Perry, numa voz esganiçada. Pigarreou.





Por que

eu? O Donald ainda é o capitão.







É verdade





disse Suzanne.





Mas você é o presidente da

Benthic Marine. Seja lá quem for que esteja nos mantendo aqui, talvez

aprecie o fato de que voc

ê fala com uma certa autoridade, especialmen

te a

respeito da perfuração.







Acha que o motivo pelo qual estamos aqui embaixo é a perfu

-

ração?







Foi uma idéia que passou pela cabeça





disse Suzanne.







Mesmo assim, Donald foi militar





protestou Perry.





Eu

não

fui. E se isso aqui for mesmo uma base militar russa?







Acho que não resta dúvida de que isso não é uma base russa





respondeu Suzanne.







Não está completamente fora de questão





disse Donald.





Mas




acho que o Perry é uma boa escolha, mesmo que fosse.

Vai me dar uma

oportunidade melhor de avaliar a situação, principalmente se as coisas

engrossarem para o nosso lado.







Richard e Michael!





chamou Suzanne.





Vocês querem vo

tar

em quem acham que deve nos representar?







Acho que o chefe deve ser o escolhid

o





disse Michael. Richard

simplesmente concordou meneando a cabeça. Estava im

paciente para

partir.





Então está decidido





disse Suzanne. Gesticulou para que Perry

os liderasse corredor afora.







Muito bem!





disse Perry, com mais entusiasmo do que real

-

me

nte sentia. Apertou o cordão dourado em torno da túnica, endirei

tou os

ombros, e avançou para o corredor. Richard lhe endereçou um olhar

desdenhoso quando ele passou, depois o seguiu. Os outros o se

guiram em

fila indiana.



Perry reduziu a velocidade ao se



aproximar do final do corredor.

Ficou ainda mais certo de que a luz que entrava era solar, pois sentiu seu

calor radiante. Calculou que o espa

ço diante deles devia ser um pátio ao

ar livre com mais ou menos dois metros quadrados.



A mais ou menos um metro

e meio de distância do fim do corre

dor,

Perry parou e Richard deu um encontrão nele.







Qual foi o problema?





indagou Suzanne. Avançou, ultrapas

-

sando Richard.



Perry não respondeu, pois não sabia muito bem por que havia

parado. Vagarosamente, inclinou

-

se

para diante, para que pudesse ver

uma área progressivamente maior da parede em frente. Depois, deu mais

um passo e tentou de novo. Dessa vez, pôde enxergar o alto do muro, que

estimou ter cerca de quatro metros e tanto de altura. Acima dele, viu pés,

torno

zelos, barrigas da perna nuas e a bainha de vestes como as que

trajava.



Perry se endireitou e virou

-

se para os outros.







Tem pessoas no alto do muro aí em frente





murmurou.





Estão

vestidos do mesmo jeito que nós.







É mesmo?





admirou

-

se Suzanne. Inclinou

-

se para tentar ver

também, mas estava muito afastada da saída.










Não posso dizer com certeza





disse Perry



, mas acho que

estão usando essas mesmas roupinhas de cetim frescas que estamos usan

-

do.





Ele e todos os outros haviam pensado que aqueles trajes

diáfanos,

estranhos, parecidos com roupas de baixo eram roupas de prisioneiro.







Ora, qual é, meu irmão!





exclamou Richard, ainda mais im

-

paciente agora.





Isso eu quero ver com meus próprios olhos! Vamos!





Por que eles estariam vestidos como gregos antig

os?





pergun

tou

Suzanne a Donald.



Donald deu de ombros.







Você me pegou. Vamos sair e ver nós mesmos.



Perry assumiu a dianteira. Com a mão sobre os olhos, para se pro

-

teger do brilho de um quadrado de céu azul, ele ergueu os olhos. O que

viu o assombrou a



ponto de fazê

-

lo parar de chofre e abrir a boca, de tão

espantado. Suzanne chocou

-

se contra ele, e o resto do grupo deu um

encontrão nela, todos igualmente pasmados.



Estavam em uma espécie de cercado. Cinco metros acima, via

-

se

uma galeria envidraçada, co

ntornada por uma balaustrada de mármore e

sustentada por colunas caneladas cujos capitéis exibiam criaturas

marinhas entalhadas. Diante do cercado, toda a galeria estava cheia de

pessoas que se comprimiam contra o vidro, olhando para baixo com uma

curiosid

ade silenciosa, intensa e imóvel. Como Perry havia dedu

zido de

seu exame limitado anterior, todos estavam com a mesma túni

ca e

bermuda idêntica, folgada e translúcida.



Perry não formara imagem mental específica de como seriam as pes

-

soas, mas nunca poder

ia ter imaginado o que viu, uma vez que tendia a

achar que os captores teriam aparência mais truculenta. Antes de ele vis

-

lumbrar os trajes de cetim, havia imaginado uniformes e expressões

fisionômicas severas, até abertamente hostis. Em vez disso, viu

-

se

de olhos

pregados no mais belo conjunto de pessoas que jamais vira, cujos rostos

refletiam uma serenidade quase divina. Embora as idades variassem de

crianças pequenas a vigorosos anciãos, a vasta maioria estava na faixa de

vinte e cinco anos. Todos esbanj

avam saúde, com corpos esbeltos, olhos

brilhantes, cabelos lustrosos e dentes tão brancos que fizeram Perry con

-

siderar os seus amarelados em comparação com os deles.







Não posso acreditar nisso





disse Richard, extasiado quando viu

aquele espetáculo.










Qu

em são essas pessoas?





indagou Suzanne, a voz transfor

-

mada em sussurro pelo assombro.





Jamais vi um grupo de pessoas assim

tão bonitas





conseguiu dizer Perry.





Sem exceção! Não tem nenhum

de aparência mediana no grupo.







Eu me sinto como se fôssemos ra

tos em um imenso experi

-

mento





disse Donald, entre dentes.





Olha só como eles nos olham

embasbacados! E lembrem

-

se de que as aparências enganam. Tenham em

mente que essas pessoas andaram brincando com a gente só para se

distrair. Essa beleza toda deve se

r alguma espécie de armadilha.







Mas são de uma beleza incrível





comentou Suzanne, enquanto

se virava devagar para ver tudo



, principalmente as crianças, e até os

idosos. Como isso poderia ser uma armadilha? Só posso lhe dizer uma

coisa com certeza, vend

o essas pessoas, podemos descartar a possibili

dade

de estarmos em uma base submarina secreta russa.







Bom, americanos eles também não são





disse Perry.





Não tem

ninguém obeso na multidão inteira.







Isso deve ser o paraíso





murmurou Michael, deslumbrado

.







Acho que se parece mais com um zoológico





bufou Donald.





A diferença é que os animais somos nós.







Tente ver o lado positivo





sugeriu Suzanne.





Devo dizer que

estou aliviada.







Bom, uma coisa é certa





comentou Donald.





Pelo menos não

estou vendo

nenhuma arma.







Você está certo!





disse Perry.





Isso definitivamente é pro

-

missor.







Naturalmente, não precisam de armas, se estamos presos aqui

embaixo e eles, lá em cima





acrescentou Donald.







Acho que é mesmo





disse Perry.





O que acha, Suzanne?







N

ão consigo pensar





disse ela.





Essa experiência toda con

-

tinua a ser muito surreal para mim. Estamos vendo uma nesga de céu azul

ali em cima?







Certamente se parece com o céu





disse Perry.





Acha que há

chance de termos sido transportados para leste quan

do o

Oceanus

caiu por

aquela fossa?





indagou Suzanne.





Que

ro dizer, será que não




estaríamos em uma das ilhas dos Açores?







O único jeito de sabermos é se eles resolverem nos contar





disse

Donald.







Que importa onde estamos





disse Michael.





Olha só as



mulheres! Que corpões! Será que são de verdade, ou estamos só imagi

-

nando isso?







Pensamento interessante





disse Suzanne.





Na noite passada,

ou seja lá quando foi que a gente comeu, a comida se parecia com o que

gostávamos. Será que isso está ocorrendo

agora com nossa visão? Quero

dizer, é um outro sentido. Talvez estejamos vendo o que queremos ver.







Ah, não, para mim isso já é viajar demais na maionese





disse

Perry.





Eu jamais acreditei muito no sobrenatural.







Ei, mas que importa





disse Richard.





Olha só aquela gata de

cabelos castanhos compridos. Que avião! Ei, olha, ela está olhando para

mim.



Richard deu um amplo sorriso, ergueu a mão e acenou

entusiasticamente

. A moça sorriu e ergueu a mão, comprimindo a palma

contra o vidro.







Epa!





disse Rich

ard, sentimental.





Ela gostou de mim!





Richard jogou beijos, o que fez a mulher sorrir ainda mais.



Incentivado pelo sucesso de Richard, Michael começou a azarar uma

mulher com cabelos negros e lustrosos como breu. Ela retribuiu com

-

primindo a palma contr

a o vidro, como a moça que estava paquerando

Richard havia feito. Michael enlouqueceu, pulando para cima e para baixo

e acenando freneticamente com ambas as mãos. A mulher reagiu rindo a

valer, embora não se pudesse ouvir o som da gargalhada por causa do

v

idro.



Suzanne baixou os olhos e chamou a aten

ção de Donald.







Não vejo nenhum sinal de hostilidade





disse.





Eles pare

cem

todos muito pacíficos.





Provavelmente é só um despiste





contestou

Donald.





Uma forma de nos pegar desprevenidos.



Perry, relutante,



afastou os olhos daquela gente bonita para

confabular com Suzanne e Donald. Richard e Michael continuavam a fazer

momices para divertimento das duas mulheres. Ambos estavam tentando




improvisar uma linguagem de sinais.







O que vamos fazer?





indagou Perry.







Pessoalmente, não estou gostando de ficar aqui em exibição





disse Donald.





Sugiro que voltemos para o dormitório e esperemos para

ver o que acontece. Obviamente a bola está no campo deles. Dei

xemos que

venham até o nosso terreno, por assim dizer.







M

as quem são essas pessoas?





questionou Suzanne.





Isso aqui

é uma coisa incrivelmente bizarra, como um filme de ficção cien

tífica.



Perry estava a ponto de reagir, mas as palavras ficaram presas em

sua garganta. Ele apontou para algum ponto atrás de Suzan

ne e Donald.

Uma das paredes do cercado estava misteriosamente se abrindo. Atrás

dela havia uma escadaria que levava até a galeria.







Bom





exclamou Suzanne



, como disse, Donald, a bola está no

campo deles, e acho que estamos sendo convidados para nos con

he

cermos

cara a cara.







O que devemos fazer?





indagou Perry, nervoso.







Acho que devemos subir





disse Donald.





Mas vamos deva

gar

e juntos. E, Perry, você fala em nosso nome, como decidimos.



Richard e Michael ainda não tinham visto o silencioso apareci

mento

da escadaria, por causa dos gestos de comunicação que haviam compe

-

titivamente progredido até o puro besteirol. Acima, a multidão reagia com

gargalhadas às palhaçadas deles, o que apenas os incentivava a fa

zerem

mais macacadas ainda. Mas quando vira

m de relance as escadas, correram

para elas. Estavam ambos ávidos por fazerem um contato mais íntimo

com as suas mais novas amigas.





Esperem!





berrou Donald. Havia se

afastado para o lado para evitar a correria louca dos mergulhadores.





Unam

-

se a nós! Va

mos todos juntos, e o Sr. Bergman vai nos representar.







Preciso conhecer essa morena





disse Richard, ansioso.







Vou me encontrar com aquela gracinha com cabelos negros





acrescentou Michael, sem fôlego.



Ambos os mergulhadores tentaram contornar Donald, m

as ele es

-

tendeu a mão e agarrou

-

lhes os braços, apertando

-

os visivelmente. Ambos

começaram a protestar, mas mudaram de idéia ao verem a cara de Donald.

As narinas do ex

-

oficial da Marinha estavam dilatadas, e a boca,




comprimida, formando uma linha ameaçad

ora e determinada.







Acho que o encontro pode esperar uns minutos





conseguiu

dizer Richard.







Pode, claro





disse Michael.





Teremos tempo para isso. Donald

largou os braços dos mergulhadores, depois fez sinal para



que Perry fosse

na frente.



Perry já sent

iu muito mais autoconfiança ao subir as escadas, em

comparação com a que tinha antes, no corredor. Encontrar

-

se com um

grupo misto de belos indivíduos vestidos com uniformes de

lingerie

parecia menos intimidador do que o que sua imaginação havia previsto

a

nteriormente. Mas as circunstâncias inéditas minaram

-

lhe a confiança à

medida que ele subia. Viu

-

se imaginando se Michael não poderia es

tar

certo, se tudo aquilo não seria pura alucinação, e, portanto, uma

armadilha requintada, como Donald havia insinuado

. Mas a natureza

normalmente otimista de Perry não conseguia explicar a necessidade de

uma armadilha, principalmente porque aquelas pessoas, fossem lá quem

fossem, não precisavam de armadilha alguma, pois já estavam com a

situação completamente dominada.



A



gente bonita, como Perry os chamava, em seus confusos devanei

-

os, havia inicialmente corrido para a frente para se aglomerar em torno do

patamar da escadaria como um grupo de adolescentes que espera o

aparecimento de um astro do

rock.

Mas quando Perry e o

s outros

alcanç

aram



o topo, eles recuaram. Até mesmo isso confundiu Perry, pois

eles recuaram como que amedrontados, ou, no mínimo, sentindo um res

-

peito cortês, como as pessoas fazem em torno de um animal amestrado

porém potencialmente feroz.



Perry galgou



o último degrau e parou. A três metros de distância, a

multidão de pessoas bonitas estava disposta em semicírculo. Nenhuma

delas se moveu. Ninguém falou. Ninguém sorriu.



Perry havia presumido que seus captores seriam os primeiros a fa

lar.

Não havia plane

jado tomar a iniciativa, mas acabou decidindo que

brar o

silêncio constrangedor que se seguiu com um tímido "Oi".



O cumprimento dele causou alguns risos na gente bonita, mas nada

além disso. Perry se voltou para dar uma olhada nos colegas, buscando

sugestõ

es. Suzanne encolheu os ombros, indiferente. Donald nada su

geriu.

Ainda parecia estar muito mais desconfiado do que Perry.






Perry voltou

-

se de novo para a multid

ão.







Alguém aqui fala inglês?





perguntou, desesperado.





Um

pouco de inglês, ou talvez espanh

ol?





Perry sabia um pouco de es

panhol.



Um casal se adiantou. Ambos pareciam ter mais ou menos vinte e

poucos anos, e, como todos os outros, eram absurdamente belos. Ti

nham

fei

ções arquetipicamente perfeitas, que fizeram Perry se lembrar de

imagens que h

avia visto em camafeus antigos. O homem tinha cabe

los

louros de comprimento médio. Os olhos eram de um intenso azul

-

celeste.

A mulher tinha cabelos de um ruivo bem vivo, como fogo, e um bico

-

de

-

viúva proeminente. Seus olhos verdes cintilavam como es

meral

das.

Ambos tinham uma pele rósea, radiante e impecável. Lá em Los Angeles,

não restaria dúvida: aqueles dois estariam prontinhos para serem

transformados em artistas de cinema.







Olá, amigos, como estão passando?





disse o homem, num

inglês com sotaque ame

ricano perfeito.





Por favor, não se atemori

zem.

Não lhes faremos mal. Meu nome é Arak, e esta é Sufa.





O ho

mem

indicou a moça ao seu lado.





Eu também gostaria de lhes dizer alô





disse Sufa.





Como vocês gostariam que os chamássemos?



Perry ficou estupe

fato ao ouvir um inglês assim tão correto vindo de

suas bocas. Era estranhamente tranqüilizador ouvir algo tão familiar, dada

a aparência alienígena de tudo que haviam enfrentado desde que o

Oceanus

afundara.







Que povo é

esse

aqui?





indagou Perry, afinal

.







Somos habitantes de Interterra





disse Arak. A retumbante voz

de barítono do rapaz lembrava a de Donald.







E que diabo de Interterra é essa?





indagou Perry. Sem querer,

deixou transparecer na voz uma certa irritação. Subitamente lhe ocor

reu

que talve

z tudo aquilo fosse alguma piada de mau gosto, em vez do tipo

de armadilha que Donald temia.







Por favor!





disse Arak, solícito.





Sei que estão confusos e

exaustos, e certamente têm direito de estar, depois de tudo que passa

ram.

Sabemos bem como a seqüê

ncia de descontaminação é estressante, de

forma que lhes pedimos que tentem se tranqüilizar. Ainda vão se

emocionar muito daqui para a frente.







Vocês são americanos expatriados?





indagou Perry.






Tanto Arak quanto Sufa cobriram as bocas com as mãos, num vã

o

esforço para conterem o riso. Toda a gente bonita que estava perto o

suficiente para escutar a pergunta de Perry fez o mesmo.







Por favor, desculpem

esse

nosso riso





disse Arak.





Não

queremos parecer grosseiros. Não, não somos americanos. Acontece que

nós, interterráqueos, possuímos um conhecimento bastante apurado das

línguas de vocês. Eu e Sufa, por exemplo, nos especializamos no inglês, e

todas as suas variações.



Suzanne chegou perto do ouvido de Perry e murmurou:







Pergunte a eles outra vez onde fic

a Interterra. Perry obedeceu.







Interterra fica sob os oceanos





disse Arak.





Situa

-

se numa

região que fica entre o que seu povo chama de crosta terrestre e o manto



terrestre. É uma área que seus sismólogos chamam de descontinuidade de

Mohorovicic.







Este



mundo aqui é subterrâneo?





deixou escapar Suzanne.

Olhou para o que lhe parecia uma nesga de céu inundada de luz solar.

Estava estupefata.







Submarino, seria mais correto





interferiu Sufa.





Mas, por

favor... sabemos que suas perguntas serão muitas. Ser

ão todas respondi

-

das no seu devido tempo. Por enquanto rogamos que tenham resignação.







O que é resignação?





indagou Richard.







Significa paciência





disse Sufa. Sorriu graciosamente.







Mas precisamos saber como devemos chamar vocês





disse Arak.







Sou P

erry, presidente da Benthic Marine





disse Perry, dando

uma palmadinha no peito. Depois identificou os outros, dizendo seus

nomes completos.



Arak deu um passo adiante e se apresentou diretamente a Suzanne.

Era uns vinte centímetros mais alto do que ela. Ma

nteve o braço direito

estendido com a palma diante dela. Gesticulou com a outra mão,

indicando

-

a

.







Talvez me dê a honra de cumprimentá

-

la como os interter

ráqueos

fazem





disse.





Comprima a palma de sua mão contra a minha.



Suzanne, hesitante, olhou furtiv

amente para Perry e Donald antes




de obedecer. A m

ão dela era bem menor que a de Arak.







Bem

-

vinda, Dra. Newell





disse Arak, assim que as mãos dos

dois se tocaram.





Estamos particularmente honrados com sua visita.





Curvou

-

se e afastou a mão.







Bom, obrig

ada





disse Suzanne. Estava confusa, porém sen

tia

-

se

lisonjeada por ter sido escolhida para um cumprimento individual.



Arak se afastou.







Agora, meus honrados hóspedes, vocês serão levados para seus

alojamentos, e tenho certeza de que apreciarão.





Ei, esp

ere aí, Arak!





gritou Richard. Ficou na ponta dos pés.





Tem uma morena maravilhosa

por aqui que está louquinha para me conhecer.







E tem uma gata de cabelos negros como as asas de um corvo que

eu preciso conhecer





disse Michael.



Os dois mergulhadores es

tavam esquadrinhando a multidão em

busca das mulheres desde que haviam terminado de subir os degraus.

Para decepção deles, não conseguiram encontrar nenhuma das duas.







Haverá muito tempo para encontros





disse Arak



, mas agora

é importante que eu os leve



para os aposentos onde poderão relaxar,

comer, banhar

-

se... Daremos uma festa para comemorar sua chegada mais

tarde, à qual esperamos que todos compareçam. Portanto, sigam

-

me, por

favor.







Isso só vai levar uns minutinhos





disse Richard. Ele avançou,

com



intenção de contornar Arak e Sufa e se misturar à multidão. Mas

Donald agarrou

-

o com a mesma força com que o agarrara quando esta

-

vam no pátio.







Deixa disso, marujo!





grunhiu Donald, entre os dentes.





Vamos ficar todos juntos! Não se esqueça!



Richard f

uzilou

-

o com o olhar um momento, lutando contra a

vontade de mandar Donald para os quintos dos infernos. Estava tão perto

de abordar aquela mulher lindíssima que era difícil renunciar a isso. A

renúncia jamais havia sido seu ponto forte. Mas quando a inten

sidade do

olhar de Donald o paralisou, ele cedeu.







Bom, pensando bem, acho que um rango não vai cair mal, afi

nal

de contas





disse, para não dar o braço a torcer.










É melhor não sair da linha, meu irmão





replicou Donald.





Senão eu e você vamos começar



a bater de frente um contra o outro

rapidinho.







Só para seu governo





retrucou Richard.





Não tenho medo de

você.





9

9





Suzanne punha um pé adiante do outro enquanto seguia Arak e

Sufa, mas se sentia desconectada, como se seus pés não estivessem

plantados s

olidamente no chão. Não sentia tontura, mas era quase isso. Já

conhe

cia o termo psiquiátrico

despersonalização,

e imaginava se estaria

sofrendo de alguma variação dela. Tudo que estava passando era

extremamente surreal. Era como se ela estivesse num sonho

, embora seus

sentidos parecessem muito concretamente envolvidos. Era capaz de ver,

cheirar e ouvir exatamente como na vida real. Mas nada fazia sentido.

Como podiam estar debaixo do oceano!?



Como oceanógrafa geofísica, Suzanne estava bem consciente de que



a descontinuidade de Mohorovicic era o nome de uma camada interna

específica da terra que assinalava uma mudança abrupta na velocidade do

som ou das ondas sísmicas. Situava

-

se a aproximadamente 4 a 11km

abaixo do fundo do mar e cerca de 38km abaixo dos co

ntinentes. Tam

bém

sabia que seu epônimo vinha do sismólogo sérvio que a descobri

ra. Mas

apesar de ter um nome, ninguém fazia nenhuma idéia do que a camada

representava. Pelo que ela sabia, nem ela, nem nenhum outro geólogo ou

sismólogo havia jamais consi

derado a possibilidade de que era uma

caverna enorme e cheia de ar. A idéia era absurda demais para ser levada

em consideração com seriedade.





Por favor, concedam a nossos humanos

secundários a cortesia que merecem





disse Arak em alta voz a seus

companhei

ros interterráqueos ao penetrar na multidão.





Abram alas!





Fez gesto para que as pessoas abrissem caminho, e elas, mudas,

obedeceram.







Por favor!





disse Arak, gentilmente, a Suzanne e aos outros

quando indicou um caminho aberto que partia de debaixo do



telhado da

galeria. Avançou e fez sinal para que o seguissem.





Assim que par

tirmos




do salão de chegada de estrangeiros, a viagem até suas acomoda

ções será

bem curta.



Como se estivesse assistindo a si mesma em um filme, Suzanne ca

-

minhou entre a multidã

o de interterráqueos. Sentiu que Perry estava

diretamente atrás dela e imaginou que Donald e os mergulhadores de

-

viam estar bem perto também. A situação não era mais amedrontadora. A

gente bonita sorria o tempo inteiro e lançava gestos furtivos, quase

tími

dos, de acolhida. Suzanne se viu incapaz de não retribuir os sorrisos.



Será possível que isso está mesmo acontecendo?,

ficou se perguntando,

enquanto seguia Arak.

Será um sonho? Tudo

era certamente surreal, mas

não restava dúvida de que ela podia sentir o

mármore frio sob os pés nus

e a carícia de uma brisa suave nas faces. Jamais havia sentido tantos

detalhes sensoriais em um sonho, por mais realista que fosse.



Sufa virou

-

se para Suzanne.







Vai notar que vocês são verdadeiras celebridades. Os humanos de

se

gunda geração são extremamente estimulantes e reanimadores. É

melhor lhes avisarmos que serão muito procurados.







Como assim, "humanos de segunda geração"?





indagou

Suzanne.







Ai, ai, ai, Sufa





repreendeu Arak, de leve.





Lembre

-

se do que

resolvemos! Ess

es hóspedes vão ser apresentados mais devagar ao nosso

mundo do que os anteriores.







Lembro, sim





respondeu Sufa. Depois, dirigindo

-

se a Suzanne,

acrescentou:





Vamos debater tudo no seu devido tempo, e todas as suas

perguntas serão respondidas. Eu lhe pr

ometo.O grupo logo emergiu em

uma varanda espaçosa que dava para uma caverna subterrânea

estupendamente colossal, tão imensa que dava a impressão de que

estavam ao ar livre. A iluminação assemelhava

-

se à luz diurna, embora

não houvesse sol. O teto em abóba

da era de um azul

-

claro como a cor do

céu em um dia de verão nebuloso. Algumas nuvens diáfanas flutuavam

preguiçosamente na brisa.



A varanda ficava na lateral de um edifício situado na periferia de

uma cidade. Estendendo

-

se desde a balaustrada descortinava

-

se uma vista

bucólica de colinas ondulantes, vegetação luxuriante e lagos, com al

guns

povoados mais ou menos próximos. Os edifícios eram feitos de basalto




negro, altamente polido e moldado em uma mistura de curvas, domos,

torres e pórticos com colunas cl

ássicas. A distância, via

-

se uma série de

montanhas cônicas erguendo

-

se de amplas bases, e abrindo

-

se em leque

sob a cúpula que as encimava, de maneira a formar colunas de

sustentação de proporções colossais.







Poderiam fazer a gentileza de aguardar um ins

tante?





disse

Arak. Depois falou baixinho no microfone minúsculo de um instru

mento

que trazia no pulso.



Os cinco "humanos de segunda geração" ficaram extasiados com a

beleza inesperada e as dimensões impressionantes daquele paraíso sub

-

terrâneo. Era algo



além de qualquer coisa que suas imaginações pudessem

conceber. Até os mergulhadores ficaram mudos.







Estamos esperando um veículo aerodeslizador





explicou Sufa.







Estamos em Atlântida?





indagou Perry, com a boca meio aberta.







Não!





disse Sufa, meio of

endida.





Isso não é Atlântida. Essa é

a cidade de Saranta. Atlântida fica a leste daqui. Mas não dá para vê

-

la.

Fica atrás daquelas colunas que sustentam as protuberâncias que lá na

superfície vocês chamam de Açores.







Então Atlântida existe mesmo?





perg

untou Perry.







Mas é claro





disse Sufa.





Pessoalmente, porém, não a con

-

sidero tão agradável quanto Saranta. É uma cidade jovem, de origem



recente, com gente bem atrevida, se quiserem saber. Porém, é preciso que

cada um julgue por si.







Ah, aqui está





e

xclamou Arak, quando uma nave coberta por

uma cúpula, com aparência de disco voador, silenciosamente se mate

-

rializou ao pé dos degraus. Chegou tão silenciosamente que apenas os que

estavam olhando na direção dela a viram.







Desculpem a demora





disse Arak

.





Devem estar procuran

do

muito as naves no momento, por algum motivo. Mas, por favor, primeiro

vocês.





Fez gesto para que descessem os degraus e fossem até uma porta

de entrada aberta que miraculosamente aparecera na la

teral do disco.



O grupo desceu e



entrou na nave, que pairava imóvel a alguns

metros do solo. Tinha cerca de nove metros de diâmetro com uma parte

supe

rior transparente e abobadada que parecia com o tipo de OVNIs

pretensamente vistos e publicados nas primeiras páginas de tablóides




sensac

ionalistas. Dentro dela havia uma banqueta circular com

estofamento branco e uma mesa redonda central. Não se viam controles.



Arak foi o último a embarcar, e, assim que entrou, a porta desapa

-

receu de forma tão silenciosa e misteriosa quanto havia aparecid

o.







Ah, é sempre assim





queixou

-

se Arak, depois de olhar de re

-

lance todo o interior da aeronave.





Justamente quando estamos ten

tando

impressionar vocês, nos mandam uma das antigas. Esta aqui está caindo

aos pedaços.







Pare de reclamar





disse Sufa.





Este veículo está em perfeitas

condições de funcionamento.



Suzanne olhou de soslaio para Donald, que ergueu as sobrancelhas

bem de leve. Suzanne olhou em torno do aerodeslizador. Tinha tantas

perguntas a fazer que n

ão sabia por onde começar.



Arak colocou a



mão com a palma para baixo no centro da mesa

negra e se inclinou para a frente.







Palácio dos visitantes





disse. Depois se recostou no assento e

sorriu. Um momento depois o cenário lá fora começou a se deslocar.



Suzanne, num ato reflexo, estendeu a mão p

ara agarrar a borda da mesa

para se equilibrar, mas não foi necessário. Não houve sensação de

movimento, nem som algum. Era como se a nave estivesse parada e a

cidade se movesse enquanto eles subiam algumas dezenas de metros

antes de acelerar para se deslo

car horizontalmente.







Receberão instruções para chamar e utilizar estes táxis aéreos

muito em breve





disse Arak.





Terão muito tempo para conhecer o

lugar.



Várias cabeças concordaram. A equipe do

Benthic Explorer

estava

assombrada com tudo que via. Parec

iam estar atravessando o centro de

uma metrópole movimentadíssima, com incontáveis pessoas tratando de

seus negócios e milhares de outros táxis aéreos a passar, céleres, em todas

as direções.



Para Suzanne, este mundo parecia cheio de contradições estranhas

.

A cidade e a tecnologia avançada pareciam

-

lhe muito futuristas, mas as

árvores e a vegetação tinham um aspecto pré

-

histórico e assustador. A

flora lembrava

-

lhe as espécies que haviam florescido durante o período

carbonífero havia trezentos milhões de ano

s.






Em breve os edifícios de vários andares feitos de lustroso basalto

negro foram substituídos por uma área menos densa, aparentemente

residencial, com grama, árvores e piscinas. As multidões desapareceram,

bem como os enxames de táxis aéreos. Agora havia

apenas pessoas iso

-

ladas ou pequenos grupos andando nos parques. Muitos se faziam acom

-

panhar de curiosos animais de estimação que Suzanne achou serem uma

combinação quimérica de cão, gato e macaco.



O cenário começou a andar mais devagar à medida que foram



se

aproximando de um magnífico complexo residencial cercado por mu

ros,

que se assemelhava a um palácio. Era dominado por uma constru

ção

central com cúpula sustentada por colunas dóricas negras e caneladas.

Salpicados pelo local se viam inúmeros edifício

s menores, ovais, feitos do

basalto negro polido já conhecido. Vários caminhos sinuosos esten

diam

-

se

contornando piscinas cristalinas, gramados e canteiros de

samambaias



luxuriantes.O táxi aéreo parou de se deslocar na horizontal e desceu

rapidamente. Um

momento depois a porta se abriu de forma tão

silenciosa e misteri

osa quanto antes.







Dra. Newell





disse Sufa.





Esse aqui

é

o seu chalé. Faça o favor

de desembarcar, se não se importa. Eu a acompanharei para ter certeza de

que está bem instalada.





Ela i

ndicou a saída.



Suzanne, atarantada, olhou de relance de Sufa para Donald. Ela não

esperava ser separada do grupo e sabia muito bem que Donald achava

que deviam continuar juntos.







E os outros?





indagou Suzanne. Tentou interpretar a fisionomia

de Donald,

mas não conseguiu entender o que ele esperava que ela fizesse.







Arak tratará de suas acomodações





disse Sufa.





Cada um

deles ficará no seu próprio bangalô.







Esperávamos continuar juntos





disse Suzanne.







Mas vão





disse Arak.





Este palácio e o terren

o onde ele se

encontra são apenas para os visitantes. Vocês comerão juntos e, se pre

-

ferirem, podem dormir juntos nos chalés.



Os olhos de Suzanne e Donald se encontraram. Donald encolheu os

ombros. Presumindo que ele assim estava lhe permitindo tomar sua

p

r

ópria decisão, ela saiu da nave. Sufa a seguiu. Um momento depois, o

disco silenciosamente atravessou o gramado e parou num chalé pró

ximo.










Venha!





chamou Sufa. Havia começado a percorrer o cami

nho

que levava ao chalé, mas havia se virado quando viu q

ue Suzanne não

estava atrás dela.



Suzanne tirou os olhos da nave e correu para alcan

çar a anfitriã.







Vai se encontrar com seus amigos para uma refeição em breve





disse Sufa.





Só quero me certificar de que suas acomodações estão

aceitáveis. Além do mais,



achei que gostaria de dar um mergulho

refrescante



antes de comer. Esse foi meu primeiro desejo quando emergi

da descontaminação.





Você passou pelo que nós passamos?





indagou

Suzanne.







Sim





confirmou Sufa.





Mas foi há muito tempo, mesmo. Aliás,

há vári

as vidas.







Como é que é?





indagou Suzanne. Achou que não tinha ouvido

bem. Aquela frase,

várias vidas,

não tinha feito nenhum sen

tido.







Venha!





disse Sufa.





Precisamos acomodá

-

la. As perguntas

podem esperar.





Pegou o braço de Suzanne. Juntas elas su

biram al

guns

degraus que partiam do caminho e levavam ao interior do chalé.



Suzanne parou logo depois da porta, extasiada com a decoração. Em

um contraste vivido com o negro exterior, o interior era quase ex

-

clusivamente branco: mármore branco, caxemira b

ranca e múltiplas

superfícies espelhadas. Aquilo fazia Suzanne se lembrar do alojamento

onde ela havia recentemente dormido, mas numa escala muito mais

requintada. Um dos detalhes acrescentados era uma piscina azul

-

anil que

se estendia da parte interna do

quarto até o exterior. A piscina era

alimentada por uma cascata que saía da parede.







Os aposentos não lhe agradaram?





indagou Sufa, preocupa

da.

Estivera estudando a expressão de Suzanne e confundira seu assom

bro

com insatisfação.







Se gostei ou não, nã

o vem ao caso





disse Suzanne.





Isso aqui é

incrível!







Mas queremos que se sinta confortável





disse Sufa.







E os outros?





perguntou Suzanne.





Os aposentos deles são

semelhantes a e

sse?.







São idênticos





disse Sufa.





Todos os chalés de visitantes são






iguais. Mas se precisar de mais alguma coisa, por favor, me diga. Tenho

certeza de que poderemos providenciar.



Os olhos de Suzanne se deslocaram para a enorme cama redonda,

que estava sobre uma plataforma de mármore no centro do quarto. Um

enorme dossel s

e encontrava pendurado sobre ela. De toda a volta pen

-

diam apanhados de um tecido imaculadamente branco.





Talvez possam

me dizer o que acha que está faltando





disse Sufa.







Não está faltando nada





disse Suzanne.





O quarto é de ti

rar o

fôlego.







Então g

osta mesmo dele





disse Sufa, aliviada.







É deslumbrante





disse Suzanne. Estendendo a mão, tocou a

parede de mármore. A superfície era polida a ponto de parecer um per

-

feito espelho, e era cálida como que aquecida por uma radiação interna.



Sufa foi até um



armário que se estendia por toda a parede da direi

ta.

Indicou a extensão dele.







Aqui dentro há aparelhos de som e vídeo, roupas extras, revis

tas

e livros na sua língua, uma ampla geladeira com alguns produtos

alimentícios, artigos de higiene pessoal qu

e vai reconhecer, e quase tudo

de que possa precisar.







Como devo abri

-

lo?





indagou Suzanne.







Basta usar um comando de voz





disse Sufa, simplesmente. Ela

apontou para uma das duas portas da parede diante do armário.





As

instalações pessoais ficam logo

ali.



Suzanne foi até Sufa, ficando de pé perto dela e de frente para o

armário.







O que exatamente devo dizer?







Diga o que quer





explicou Sufa.





Depois use uma exclama

ção,

como "por favor", ou "agora".







Comida, por favor!





disse Suzanne, meio sem jei

to.



Mal ela pronunciou as palavras, uma das portas do armário se abriu

e mostrou uma geladeira de bom tamanho com recipientes de líquido e

comida de variável consistência e cor.



Sufa se inclinou e inspecionou o interior do aparelho. Examinou




alguns recipie

ntes.







Eu sabia





disse, endireitando a coluna.





Acho que puseram

apenas a seleção padronizada, embora eu tenha pedido algumas coisas

especiais. Mas não importa. Um clone operário irá trazer tudo que pos

sa

desejar.





Como assim, "clone operário"?





indag

ou Suzanne. O termo

lhe pareceu assustador.







Os clones operários são os servos





disse Sufa.





Fazem todo o

trabalho manual aqui em Interterra.







Eu já vi algum?





indagou Suzanne.







Ainda não





disse Sufa.





Eles preferem não ser vistos, até

serem chamad

os. Preferem a companhia de seus iguais e suas próprias

acomodações.



Suzanne fez que entendia com a cabeça, mas não era do jeito que

Sufa pensava. Fez aquele meneio porque sabia que na maioria das situa

-

ções em que havia intolerância, o grupo dominante sem

pre atribuía aos

oprimidos atitudes que faziam os opressores se sentirem melhor diante da

opressão.







E

esses

clones operários são clones mesmo?





perguntou Suzanne.







Certamente





disse Sufa.





Já são clonados há várias eras. A

origem deles foram os homin

ídeos primitivos, algo semelhante ao que o

seu povo chama de neandertais.







Como assim, nosso povo?





indagou Suzanne.





O que nos faz

diferentes de vocês além do fato de serem tão deslumbrantes?







Por favor...





implorou Sufa.







Já sei, já sei





repetiu S

uzanne, frustrada.





Não devo fazer

nenhuma pergunta, mas suas respostas às perguntas mais simples sem

pre

exigem alguma explicação.



Sufa riu.







Você está confusa, eu sei





disse.





Mas estamos só pedindo um

pouco de paciência. Como já explicamos, aprendem

os com a experiência

que é melhor ir devagar quando se trata da introdução ao nosso mundo.







O que significa que já receberam visitantes como nós antes





disse Suzanne.










É claro





disse Sufa.





Já tivemos muitos, durante os últimos

dez mil anos, mais ou m

enos.A boca de Suzanne abriu

-

se devagar até ficar

escancarada.







Disse dez mil anos?







Disse





confirmou Sufa.





Antes disso não nos interessáva

mos

pela sua cultura.







Está insinuando que...







Por favor





Sufa interrompeu. Deu um profundo suspiro.





Chega



de perguntas, a menos que sejam sobre as acomodações. Devo

insistir.







Está bem





disse Suzanne.





Vamos voltar aos clones operá

rios.

Como chamo um?







Comando de voz





disse Sufa.





É igual a quase tudo em

Interterra.







Digo apenas "clone operário"?





in

dagou Suzanne.







"Clone operário" ou só "operário"





disse Sufa.





Depois, é claro,

deve dizer uma palavra em tom de exclamação com a qual se sin

ta

confortável. Mas a frase precisa ser exclamativa mesmo.







Poderia fazer isso neste exato momento?





indagou



Suzanne.







Claro





disse Sufa.







Operário, por favor





disse Suzanne. Ficou olhando nos olhos de

Sufa. Nada aconteceu.







Isso não foi uma exclamação





explicou Sufa.





Tente outra vez.







Operário, por favor!





gritou Suzanne.







Muito melhor





disse Sufa.





Mas não precisa falar tão alto. Não

é

o volume de voz que importa. É a intenção. Os humanóides pre

cisam

saber sem a mínima sombra de dúvida que quer que eles apareçam. A

atitude padrão deles é não vir, de modo a nos incomodarem o mínimo

possível.







Usou



esse termo

humanóide

de propósito?





perguntou Suzanne.







É óbvio





disse Sufa.





Os clones operários parecem muito

humanos, embora sejam uma fusão de elementos andróides, partes




biomecânicas interconectadas e partes de hominídeos. São meio máquinas,

meio



organismos vivos, que convenientemente cuidam de si próprios e até

se reproduzem.



Suzanne olhou para Sufa com uma expressão de espanto que tam

-

bém passava descrença e consternação. Sufa interpretou

-

a como medo.







Mas não tema





disse Sufa.





É muito fácil



lidar com eles, e são

extremamente prestativos. Aliás, são criaturas maravilhosas, como sem

dúvida irá descobrir. O único problema é que, como seus antepassados

hominídeos específicos, são mudos





mas nos entendem perfeitamente.



Suzanne continuou a olhá

-

l

a, assombrada. Antes que pudesse fazer

nova pergunta, uma das portas à frente do armário se abriu e entrou uma

mulher escultural. Suzanne viu que estava esperando um autôma

to

grotesco, mas a mulher que estava diante dela era de uma beleza as

-

sustadora, co

m feições clássicas e cabelos louros, pele de alabastro e olhos

escuros e penetrantes. Estava de uniforme de cetim negro, de mangas

compridas.







Eis um exemplo muito bom de clone operário feminino





dis

se

Sufa.





Vai notar que ela está com brincos de argo

las. Todos os usam, por

algum motivo que nunca entendi, embora creia que tem alguma coisa a

ver com seu orgulho ou linhagem. Também vai notar que ela é muito

bonita, bem como as versões masculinas. Mas, o mais importan

te é que ela

realizará todos os seus

desejos. Seja lá o que for que quiser, basta lhe dizer

que ela tentará contentá

-

la, chegando mesmo quase a se ferir.



Suzanne fitou os olhos da mulher; pareciam lagos negros. Suas fei

-

ções eram tão esculturais e atraentes quanto as de Sufa, mas não havia

ne

las indício de expressão.







Ela tem nome?





indagou Suzanne.







É óbvio que não





disse Sufa, soltando uma risadinha.





Isso

certamente complicaria as coisas. Não íamos querer que nossa relação com

os operários se tornasse pessoal. Em parte é por isso que e

les nunca foram

programados para falar.







Mas ela fará tudo que eu pedir?





Sem dúvida





disse Sufa.





Qualquer coisa. Pode recolher suas roupas, lavá

-

las, preparar seu banho,

reabastecer sua geladeira, lhe dar uma massagem, até mudar a

temperatura da água

da piscina. Tudo que quiser ou de que precisar.










No momento acho que seria melhor ela ir embora





disse

Suzanne, e estremeceu imperceptivelmente. A idéia de ter alguém meio

ser vivo e meio máquina por perto era inquietante.







Vá embora, por favor!





disse



Sufa. A mulher se virou e saiu tão

silenciosa quanto entrara. Sufa voltou a olhar Suzanne.





Natural

mente,

da próxima vez que chamar um clone operário, virá um diferen

te. Vem

aquele que estiver disponível.



Suzanne fez sinal de estar entendendo, mas n

ão

estava.







De onde eles vêm?







Do subterrâneo





disse Sufa.







Como assim, moram em cavernas?





perguntou Suzanne.







Acho que sim





disse Sufa, vagamente.





Nunca estive por lá,

nem sei de ninguém que tenha estado. Mas já chega de clones operá

rios!

Precisam

os levá

-

la à sala de jantar! Gostaria de nadar ou tomar um banho?

Você é quem decide, mas não temos muito tempo.



Suzanne engoliu em seco. A garganta estava seca. Diante de tudo

que lhe haviam mostrado, ela achava difícil tomar até mesmo uma de

cisão

simple

s. Olhou para a piscina. Sua cor, agora mais verde

-

azulada do que

azul

-

anil, era tão convidativa quanto sua superfície levemente trêmula.







Talvez um mergulho seja uma boa





disse Suzanne.







Excelente





disse Sufa.





Há roupas limpas no armário. E

sapatos

também, devo acrescentar.



Suzanne assentiu.







Vou aguardar lá fora





disse Sufa.





Tenho a sensação de que

será bom que fique sozinha alguns minutos para recuperar o fôlego.







Acho que é melhor mesmo





disse Suzanne.





1

1

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0





A sala de jantar ficava em um edifí

cio semelhante em tamanho e

forma aos chalés, porém sem camas. Também era aberta para o exterior,




porém dava para o impressionante pavilhão central, em vez de para os

extensos gramados e moitas de samambaias. Sua longa mesa central era

semelhan

te àquela q

ue havia nos alojamentos do setor de

descontaminação. As espreguiçadeiras acolchoadas pareciam as mesmas

também.



O grupo havia chegado de seus alojamentos individuais mais ou

menos ao mesmo tempo, em disposições de espírito visivelmente dis

tintas

com rela

ção às circunstâncias. Richard e Michael recusavam

-

se

intencionalmente a reconhecer qualquer receio. Estavam completamente

empolgados, como duas crianças soltas no parque temático dos seus

sonhos, e com a intenção de aproveitar qualquer privilégio a eles c

once

-

dido. Perry também estava entusiasmado com as possibilidades ineren

tes

àquele mundo novo, mas demonstrava menos alegria do que os levianos

mergulhadores. Suzanne estava mais confusa do que empolgada.

Continuava a entreter a idéia de que estavam exper

imentando uma es

-

pécie de alucinação coletiva de acordo com a predileção de cada um. Ao

contrário de todos os outros, Donald estava taciturno, convencido de que

aquilo tudo era um delírio proposital e requintado que os leva

ria todos a

algum desfecho nefan

do.A conversa girou em torno da viagem de disco e

as maravilhas das acomodações deles. Richard e Michael eram os mais

animados, espe

cialmente depois que souberam que a clone operária de

Suzanne era do sexo feminino. Richard fez uma insinuação quanto aos

p

ossíveis dese

jos que uma criatura assim tão submissa poderia satisfazer.



Suzanne ficou horrorizada, e lhe disse, com a maior clareza:







Tente agir como se pertencesse a uma raça civilizada!



O alimento era semelhante ao que haviam tomado nos aposentos da

á

rea de descontaminação, com a mesma variação curiosa no sabor

percebido por cada um, embora fosse apresentado em pratos elabora

dos,

para que cada um se servisse. Os pratos foram trazidos por dois homens

extremamente belos, vestidos com macacões de cetim n

egro e mangas

compridas, com zíperes frontais. Os dois usavam um brinco de argola.



De repente, Donald arremessou o garfo de ouro com força sobre o

prato de ouro. O estardalhaço foi surpreendentemente alto naquela sala

de mármore, ao reverberar nas paredes

de pedra. Richard parou no meio

de uma frase, enquanto descrevia o mergulho que havia dado em sua

piscina, com a boca cheia do que insistia ser uma grande quantidade de

sundae

com calda quente de chocolate. Suzanne pulou de medo, e dei

xou




cair o garfo tam

bém, com um ruído um pouco menos espalhafato

so, o que

lhe provou mais uma vez como estava tensa. Michael engasgou

-

se com o

que dizia ser torta de batata

-

doce.







Co

m

o vocês conseguem comer nessas circunstâncias?





ber

rou

Donald.







Que circunstâncias?





in

dagou Richard, a boca ainda cheia de

comida. Os olhos rapidamente percorreram a sala de um lado a outro,

com medo que o lugar houvesse sido invadido.



Donald inclinou

-

se para Richard.







Que

circunstâncias

?





repetiu, com um deboche evidente,

enquanto sacudi

a a cabeça, assombrado e desdenhoso.





O que jamais

vou conse

guir entender nesses mergulhadores saturados é se eles

precisam ser burros



para quererem fazer isso, ou se são a pressão e o gás

inerte que destroem o punhado de neurônios que eles talvez tivess

em

quando começaram.







De que raio você está falando?





perguntou Michael, ofendendo

-

se imediatamente.







Vou lhe dizer já, já do que estou falando





retrucou Donald.





Olha só em volta de você! Onde diabos nós estamos? O que estamos

fazendo aqui? Quem são

essas pessoas assim vestidas como se estives

sem

indo para algum baile universitário à fantasia?



Durante alguns minutos se fez silêncio. Todos evitaram o olhar

fuzilante de Donald. Eles andavam evitando escrupulosamente essas

perguntas.







Eu sei onde estam

os





disse Richard, afinal.





Estamos em

Interterra.







Ai, meu pai do céu





exclamou Donald, erguendo as mãos, de

tão exasperado.





Nós estamos em Interterra





repetiu.





Isso expli

ca

tudo. Muito bem, deixa eu te contar, isso não explica nada. Não ex

plic

a

onde estamos, nem o que estamos fazendo aqui, nem quem são essas

pessoas. E agora eles nos isolaram convenientemente em vários aposentos

individuais.







Disseram que nos contariam tudo que queremos saber





justi

-

ficou

-

se Suzanne.





Pediram

-

nos que fôssemo

s pacientes.










Pacientes!





zombou Donald.





Vou lhe dizer o que estamos

fazendo aqui... Somos prisioneiros!







E daí?





disse Richard.



O silêncio voltou a reinar. Michael depôs o garfo, desanimado

diante da explosão de Donald. Richard voltou a apreciar a s

obremesa, sem

des

viar os olhos de Donald, no maior atrevimento. Suzanne e Perry

simples

mente assistiram a tudo, bem como os clones operários mudos.



Richard abocanhou mais um tanto da sobremesa. Com a boca ain

da

cheia, disse:







Se somos prisioneiros, que

ro ver como

esse

pessoal trata os

amigos. Quero dizer, olha só

esse

lugar. É fantástico! Se não quiser co

mer,

Fuller

,



então não coma! Eu gostei disso aqui, então vá se danar!Donald

pôs

-

se de pé num salto com a intenção de alcançar Richard por sobre a

mesa



e acertar

-

lhe um murro. Perry interveio antes que eles pudessem

chegar às vias de fato.







Ei, parem aí, vocês dois





berrou Perry.





Parem de se provo

car!

Nada de brigas entre nós. Além disso, estão ambos certos. Não sa

bemos

nada sobre o que é isso aqui

, onde fica nem por que estamos aqui, mas

estamos sendo bem tratados. Talvez até bem demais.



Perry soltou o braço de Donald e quando sentiu o homem relaxar,

lançou um olhar para os clones operários imóveis, imaginando se aque

la

explosão momentânea os inco

modaria. Mas não incomodou. Os ros

tos

deles estavam tão imóveis e inexpressivos quanto haviam estado durante

toda a refeição.



Donald seguiu a linha de visão de Perry enquanto ajeitava a túnica.







Está vendo o que eu disse?





resmungou.





Eles até botam

es

ses

carcereiros para nos vigiar enquanto comemos.







Não sei se é isso mesmo





disse Suzanne. Depois, em alta voz,

acrescentou:





Operários, por favor, vão embora!



Sem darem sinal de terem tomado conhecimento da ordem de

Suzanne, os clones desapareceram atr

av

és de uma das três portas de saí

da

da sala de jantar.







Pronto, agora os

garçons



já não podem mais nos vigiar





disse

Suzanne.










Isso não significa nada





disse Donald. Os olhos dele exami

-

naram o lugar.





Provavelmente há microfones ocultos e câmeras e

m

toda essa sala.







Ora





disse Michael.





Olhando esse garfo e essa faca, fiquei

pensando. Será que isso é ouro mesmo, ou não?



Suzanne pegou seu garfo para avaliar o peso.







Estive pensando nisso antes





disse.





Surpreendentemente,

acho que é ouro, sim.







Não brinca!





disse Michael. Pegou o prato e avaliou o peso dos

dois objetos.





Temos uma pequena fortuna aqui.





Estamos sendo bem

tratados no momento





disse Donald, voltando ao tópico principal.







Acha que o tratamento vai mudar?





indagou Perry.







Pod

e mudar de uma hora para a outra





disse Donald, com um

estalar dos dedos.





Assim que eles conseguirem o que querem, sabe lá o

que vai acontecer? Estamos completamente vulneráveis.







Pode ser que mude, mas acho que não





disse Suzanne.







Como pode ter tan

ta certeza?





disse Donald.







Não tenho certeza





admitiu Suzanne.





Mas me parece óbvio.

Olhe só em torno de nós. Essas pessoas, sejam lá quem forem, são muito

avançadas. Não precisam de nada que possamos lhes dar. Aliás, acho que

nós é que precisamos apr

ender coisas extraordiná

rias com elas.







Sei que andamos evitando o assunto





disse Perry.





Mas

quando diz que são muito avançadas, está insinuando que essas pessoas

são extraterrestres?



A pergunta de Perry causou novo momento de silêncio. Ninguém

sabia

muito bem o que pensar, muito menos o que dizer.







Quer dizer, gente de outro planeta?





disse Michael, afinal.







Não sei bem o que estou insinuando





disse Suzanne.





Mas

todos já experimentamos aquela viagem incrível no disco. Deve repre

-

sentar algum tip

o de tecnologia de levitação magnética da qual nenhum

de nós jamais ouviu falar. E supõe

-

se que estamos sob o oceano, algo em

que eu ainda não consigo acreditar. Mas preciso dizer a todos. A

descontinuidade de Mohorovicic realmente existe, e ninguém jamais






conseguiu explicá

-

la.



Richard descartou a idéia com um gesto de desprezo.







Essa gente não é extraterrestre. Meu Deus, viram aquelas gati

-

nhas? Porcaria, eu já vi um monte de filmes sobre alienígenas, e eles

certamente não se parecem com essa gente!







Pod

em ter alterado a aparência para ficar de acordo com nossas

preferências





disse Suzanne.





Sim





disse Michael.





Foi isso que

pensei no início. Estamos sonhando que eles parecem tão bonitos.







É por isso que não estou nem aí





disse Richard.





É o que est

á

na minha cabeça que importa. Se os acho bonitos, então são bonitos.







O que me preocupa são os motivos deles





disse Donald.





Não

viemos parar aqui por acidente. É mais do que evidente que fomos

literalmente sugados para o fundo daquela chaminé. Eles qu

erem algu

ma

coisa de nós, senão já estaríamos mortos.







Acho que está certo quando diz que fomos trazidos para cá

propositalmente





disse Suzanne.





Sufa admitiu várias coisas para mim.

Primeiro, confirmou que passamos por uma descontaminação.







Mas fomos



descontaminados, por quê?





perguntou Perry.







Ela não disse





disse Suzanne.





Mas admitiu que já vieram

visitantes como nós aqui antes.







Ora, mas que interessante





disse Donald.





Ela disse o que foi

feito deles?







Não disse, não





disse Suzanne.







Bo

m, vocês podem se preocupar até caírem doentes





comen

tou

Richard. Depois inclinou a cabeça para trás e gritou:





Clones operários,

venham cá!



Instantaneamente apareceram dois humanóides, um de sexo mas

-

culino e um de sexo feminino. Richard deu uma olhada



na mulher e olhou

de relance para Michael, de um jeito conspirador.







Que boazuda!





sussurrou com uma empolgação incontida.







Richard





advertiu Suzanne



, quero que prometa que não vai

fazer nada que nos constranja ou comprometa como grupo.










Mas o que

você pensa que é, minha mãe?





retrucou ele. De

pois

olhou de relance para a operária e disse:





Que tal me servir mais um

pouco dessa sobremesa, docinho

-

de

-

coco?







Também quero





disse Michael. Bateu com o garfo de ouro no

prato de ouro.



Donald começou a

se erguer, mas Perry tornou a contê

-

lo.





Nada

de brigas





disse Perry.





Não vai nos levar a lugar ne

nhum.



Richard sorriu provocador para Donald, curtindo a frustra

ção e a

raiva do outro.



O som delicado de sinos chineses interrompeu a música de fundo

suav

e e ecoou na sala. Um momento depois Arak surgiu, solenemente.

Estava vestido com as roupas de costume, mas com um pequeno acrés

-

cimo. Em torno do pescoço trazia uma fita de veludo azul simples que

combinava perfeitamente com o tom de azul de seus olhos. E

stava ata

da,

formando um laço simples.







Olá, meus amigos





disse, exuberante.





Suponho que a re

feição

tenha sido do seu agrado.







Estava deliciosa





disse Richard.





Mas do que é feita?, que

ro

dizer, não se parece com nada do qual tenha sabor.







É em

sua maior parte constituída de proteínas planctônicas e

carboidratos de origem vegetal





disse Arak. Esfregou as mãos,

entusiasticamente

.





E então? E a comemoração que mencionei a vocês

antes? Não fazem idéia do número de pessoas aqui de Saranta que se

en

contram extremamente felizes com sua chegada à nossa cidade. Tive

-

mos que recusar a entrada a muita gente. Sabem, não estamos numa

cidade que receba muitos visitantes do seu mundo: certamente não como

Atlântida, ao leste, ou Barsama, a oeste. Todos estão a

nsiosos para

conhecê

-

los. Isso nos leva à pergunta principal: gostariam de vir até o

pavilhão, ou estão cansados demais devido à descontaminação?







Onde ele fica?





perguntou Michael.







Bem ali





disse Arak, apontando para a extremidade aberta da

sala de j

antar.





A comemoração vai ser no pavilhão aqui do palácio dos

visitantes. É muito conveniente. Aliás, fica a uma distância de pou

co mais

de cem metros, portanto podemos ir andando até lá. O que dizem todos?







Conte comigo





disse Richard.





Jamais recuso



um convite para




uma festa.





Nem eu





disse Michael.







Esplêndido!





disse Arak.





E o restante de vocês? Fez

-

se um

silêncio constrangedor. Perry acabou pigarreando.







Arak, para lhe dizer a verdade, estamos um pouco nervosos.







Eu usaria uma palavra mais

forte





disse Donald.





Franca

-

mente, antes de fazermos seja lá o que for, gostaríamos de ter alguma

idéia de quem vocês são e por que estamos aqui. Sabemos que nossa

presença aqui não foi fruto do acaso. Vou ser curto e grosso: sabemos que

fomos abduzidos

.







Compreendo suas preocupações e sua curiosidade





disse Arak.

Abriu as palmas das mãos viradas para cima, em um gesto conciliador.





Mas, por favor, apenas por esta noite, permitam que minha experiên

cia

prevaleça. Já lidei com visitantes no nosso mundo



antes, não em grande

número, é verdade, e não num grupo tão grande, mas ainda as

sim o

suficiente para saber o que é melhor. Amanhã responderei todas as suas

perguntas.







Por que essa espera?





quis saber Donald.





Por que não nos diz

logo agora?







Não pe

rcebe como o procedimento de descontaminação foi

estressante





disse Arak.







Pode pelo menos nos dizer quanto tempo ele durou?





inda

gou

Suzanne.







Pouco mais do que um dos meses de vocês





disse Arak.







Ficamos dormindo por mais de um mês?





indagou Mich

ael,

incrédulo.







Essencialmente, sim





disse Arak.





E isso é estressante para o

cérebro e para o corpo. amanhã terão que absorver mais informações

surpreendentes. Já aprendemos que é mais fácil absorvê

-

las quando

nossos visitantes estão descansados. Até

mesmo uma noite faz uma di

-

ferença tremenda. Portanto, por obséquio, relaxem hoje, seja aqui jun

tos

ou sós em seus chalés, ou, o que seria ainda melhor, na nossa

comemoração pela sua chegada.Perry estudou o rosto de Arak. Os olhos

azuis do homem sustenta

ram

-

lhe o olhar e lhe transmitiram uma

sinceridade que ele não pôde negar.










Está bem





concordou.





A essa altura eu não acho que possa

dormir, mesmo. Então irei, mas amanhã vou cobrar sua promessa.







É justo





disse Arak. Olhou para Suzanne.





E a Dra. N

ewell,

do que gostaria?







Eu também vou





respondeu Suzanne.







Maravilha





disse Arak.





E o senhor, Sr. Fuller? Qual é sua

decisão?







Não





disse Donald.





Sob as circunstâncias atuais, acharia

muito difícil participar de uma comemoração.







Muito bem





di

sse Arak esfregando as mãos outra vez, num

contentamento evidente.





Isso é mesmo incrível. Estou satisfeito pela

maioria de vocês vir. Haveria muita gente decepcionada se eu voltasse

sozinho. Sr. Fuller, compreendo seus sentimentos e os respeito. Por favo

r,

aprecie o seu repouso. Os clones operários o assistirão no que for preciso.



Donald concordou, mal

-

humorado.







Agora, vamos





disse Arak aos outros. Dirigiu

-

se à extremida

de

aberta da sala de jantar.







Haverá comida nessa festa?





indagou Richard.







Mas



é claro





disse Arak.





Da melhor qualidade que Saranta

puder oferecer.







Então não vou repetir a sobremesa





disse Richard. Jogou a

colher no prato, ergueu

-

se, espreguiçou

-

se e soltou um forte arroto.



Suzanne olhou

-

o, furiosa.







Richard, mostre um pouco

de respeito pelos outros, se não con

-

segue respeitar a si mesmo.







Mas eu procuro mostrar respeito, sim





disse Richard, com um

sorriso malicioso.





Evitei peidar na presença de acompanhantes tão

seletos.



Arak riu.





Richard, você vai fazer um sucesso enorm

e. Você é

maravilho

samente primitivo.







Está me gozando?





indagou Richard.







Não, de jeito nenhum





disse Arak.





Vão querer sua com

-




panhia o tempo todo. Eu lhe garanto. Vamos! Vamos apresentar vocês!





Com um gesto, Arak começou a andar na direção da ex

tremidade aberta

da sala.







Tá legal!





disse Richard, fazendo um sinal de positivo com os

polegares para Michael, entusiasmado. Michael retribuiu com exube

rância

semelhante.







Vamos cair na gandaia!





berrou Michael. Os dois mergulha

-

dores seguiram Arak,



ávidos por diversão.



Suzanne olhou para Perry, que deu de ombros e disse:







Isso é maluquice, ir a uma festa sob essas circunstâncias, mas

talvez consigamos encarar.



Depois olhou de relance para Donald.







Tem certeza de que não quer vir?







Tenho





disse D

onald, taciturno.





Mas se vocês dois que

rem

confraternizar, fiquem à vontade.







Eu vou porque talvez descubra mais alguma coisa





disse

Suzanne.





Não para confraternizar com ninguém, como disse.







Vamos!





disse Perry, do outro lado da sala.







Até mais

tarde





despediu

-

se Suzanne. Correu atrás de Perry e

dos outros, que já estavam atravessando o gramado.



Donald ficou remoendo o que Arak havia dito. Só tinha certeza de

que não confiava nele. Do ponto de vista de Donald, o cara era gentil

demais. Toda aque

la fantástica hospitalidade devia ser algum tipo de

armadilha. Mas Donald não sabia ainda para que fim, a não ser baixar a

defesa deles.



Donald virou

-

se e olhou para a extremidade da sala. O grupo já ia a

meio caminho em direção ao pavilhão com colunas, as



silhuetas con

-

trastando com o exterior iluminado do edifício. Redirecionando o olhar,

Donald fitou os dois clones operários, que estavam imóveis, de pé aolado,

contra a parede. Pareciam tão humanos que era difícil para Donald crer

que fossem parte máquina

s como Arak havia dito. Talvez fosse ape

nas

mais uma mentira, pensou Donald.







Operário, quero mais bebida





disse Donald.






O clone operário feminino imediatamente pegou a jarra na mesinha

auxiliar e foi até a mesa. Seus cabelos até os ombros eram cor

-

de

-

c

anela.

Ela tinha uma pele clara e translúcida. Inclinando

-

se começou a encher a

taça de Donald.



Donald subitamente agarrou

-

lhe o pulso, sem avisar. A pele dela

estava fria, sob seus dedos. Ela n

ão pulou, nem reagiu de nenhuma for

ma.

Em vez disso, continuo

u a despejar o líquido na taça.



Donald apertou, tentando fazê

-

la reagir, mas foi em vão. A mulher

terminou de encher a taça, apesar do aperto de Donald. Donald ficou

estupefato. A mulher era imensamente forte.



Inclinando a cabeça para trás, Donald olhou pa

ra o rosto

inexpressivo dela. Ela não tentou se livrar, mas, em vez disso, retribuiu o

olhar dele com um olhar vago. Donald soltou

-

lhe o braço.







Qual é o seu nome?





indagou.



Ela não reagiu verbalmente, nem de nenhuma outra forma. Além do

movimento rítmic

o de respiração não se viu nenhum outro. Ela nem

mesmo piscava.







Clone operário, fale!





ordenou Donald.



O silêncio continuou. Donald olhou para o clone operário mascu

lino,

mas nem ele reagiu.







Por que vocês trabalham e os outros, não?





perguntou Donal

d.

Nenhum dos dois clones reagiu.







Tá legal





disse Donald.





Operários, saiam!



Instantaneamente os dois operários foram até a porta pela qual ha

-

viam entrado e desapareceram. Donald se levantou e abriu a porta. Além

dela, uma escadaria descia, imergindo

nas trevas.



Fechando a porta, Donald foi até a extremidade aberta da sala.

Contemplou a cena. A luz, que antes estava tão brilhante, havia



esmaecido,

como se o sol inexistente estivesse quase se pondo. Donald só conseguiu

distinguir vagamente Arak e os out

ros se aproximando do pavilhão.

Sacudiu a cabeça. Imaginou outra vez se não estaria sonhan

do. Tudo

parecia tão bizarro, porém perturbadoramente real. Apalpou os braços e o

rosto. Estavam normais ao toque.



Donald inspirou profundamente. Sabia intuitivament

e que estava




diante da missão mais difícil da sua carreira. Esperava que seu treina

-

mento não o deixasse na mão, sobretudo o treinamento de prisioneiro de

guerra.





1

1

1

1





Alo vocabulário escatológico particular deles, Richard e Michael es

-

tavam "se cagando de

medo", mas tacitamente concordavam em negar

isso. Exatamente como em relação aos perigos do mergulho saturado,

reagiam com bravatas machistas distorcidas, que visavam ocultar seus

verdadeiros sentimentos.







Acha que aquelas garotas que vimos antes estarão

aqui na festa?







perguntou Richard a Michael. Haviam ficado para trás dos outros

alguns passos durante a caminhada para o pavilhão.







A esperança é a última que morre





respondeu Michael.

Caminharam em silêncio alguns instantes. Conseguiam escutar Arak



con

versando com Suzanne e Perry, mas não procuraram prestar atenção

ao que eles diziam.







Acha mesmo que ficamos dormindo durante mais de um mês?







perguntou Michael.



Richard parou de repente.







Você não está querendo gozar com a minha cara, está?







Não!





in

sistiu Michael.





Estava só perguntando.





O sono

nunca havia sido para Michael o lenitivo que era para os outros. Quan

do

criança, seu sono costumava ser perturbado por pesadelos. Depois que ia

dormir, o pai dele chegava bêbado e espancava a mãe. Quando



e

le

acordava, tentava interferir, mas o resultado era sempre o mesmo:

Michael também acabava apanhando. Infelizmente, o processo do sono

ficou inextricavelmente associado a esses episódios, de forma que, para

Michael, a idéia de ficar dormindo durante um mê

s era fonte de um

nervosismo enorme.







Alô!





disse Richard, dando uma série de tapinhas no rosto de

Michael.





Está me ouvindo?






Michael desviou os golpes irritantes de Richard.







Pare com isso!







Lembre

-

se de que não vamos nos preocupar com essa porra





d

isse Richard.





Tem alguma coisa de podre acontecendo por aqui, sem a

menor sombra de dúvida, mas foda

-

se o mundo. Vamos nos di

vertir, não

vamos ficar nos comportando que nem aquele babaca do Fuller. Meu

Deus! Quando escuto ele falando, fico feliz por ter

mos sido expulsos

daquela bosta de marinha. Senão, íamos estar recebendo or

dens de

bundões como ele.







É claro que vamos nos divertir





insistiu Michael.





Mas eu

estava só pensando, sabe como é, é muito tempo pra se ficar apagado.







Bom, então, não pense

!





disse Richard.





Senão vai pirar.







Tá legal!





disse Michael.



Suzanne chamou

-

os, para que se reunissem aos outros tr

ês. Ela e os

outros estavam aguardando.







E ainda por cima, ainda temos de aturar essa dona aí bancando a

mãezona





acrescentou Richard

.



Os dois mergulhadores alcançaram o restante do grupo, que parou

ao pé dos degraus que levavam até a entrada do pavilhão.







Tudo bem aí?





perguntou Suzanne a eles.







Chuchu beleza





respondeu Richard, forçando um sorriso.







Arak acabou de nos dizer uma c

oisa que vocês dois podem achar

interessante





disse Suzanne.





Presumo que notaram que está escu

-

recendo como se o sol tivesse se posto.







Nós notamos





disse Richard, ranzinza.





Eles têm noite e dia

aqui embaixo





disse Suzanne.





E apren

demos que a luz



vem de

bioluminescência.



Os dois mergulhadores inclinaram as cabeças para trás para olhar

direto para cima.







Estou vendo estrelas





disse Michael.







Esses são pontos relativamente pequenos de bioluminescência

azul esbranquiçada





explicou Arak.





Era nos

sa intenção recriar o




mundo como o conhecíamos, o que certamente incluía o ciclo circadiano.

A di

ferença em relação ao seu mundo é que nossos dias e noites são

maiores, e têm a mesma duração o ano inteiro. É claro que nossos anos

também são mais compridos

.







Então viveram no mundo exterior antes de virem para cá





disse

Suzanne.







Exato





disse Arak.







Quando foi que se mudaram?





indagou Suzanne. Arak ergueu

as mãos, defensivamente. Depois riu.







Estamos pondo o carro adiante dos bois. Não devo incentivá

-

los a

fazer perguntas esta noite. Lembrem

-

se, o dia de fazer isso é amanhã.







Só mais umazinha





disse Perry.





É fácil de responder, te

nho

certeza. De onde tiram a energia que usam aqui embaixo?



Arak suspirou, exasperado.







É a última pergunta, eu juro





disse Perry.





Pelo menos esta

noite.







E você é homem de palavra?





indagou Arak.







Mas sem dúvida





disse Perry.







Nossa energia vem de duas fontes principais





disse Arak.





Primeiro, geotérmica, proveniente de uma interligação nossa com o núcleo

da Te

rra. Mas isso gera o problema dé eliminar o calor excessi

vo, o que

fazemos de duas formas. Uma delas é permitindo que o magma suba pelo

o que vocês chamam de cadeia meso

-

oceânica, e a segunda é o

resfriamento por meio de circulação de água do mar. A troca



térmica com

água do mar exige um grande volume de líquido, o que nos

oferece



oportunidade para filtrar nosso plâncton. A desvantagem é que o processo

gera correntes oceânicas, mas vocês aprenderam a conviver com elas,

especialmente aquela que chamam de Co

rrente do Golfo.



"A segunda fonte de energia provém da fusão. Cindimos as molé

-

culas de água, formando oxigênio, que respiramos, e hidrogênio, que

fundimos. Mas esse é o tipo de debate que teremos amanhã. Hoje gos

taria

que simplesmente vivenciassem nosso

mundo e se divertissem,

principalmente se divertissem."







E pretendemos fazer justamente isso





disse Richard.





Mas




diga lá, essa festa aí vai ser regada ou não?







Temo que este termo não me seja familiar





disse Arak.







Isso se refere principalmente ao á

lcool





disse Richard.





Vocês

têm algum por aqui?







Mas é claro





disse Arak.





Vinho, cerveja e uma bebida

alcoólica particularmente pura que chamamos de cristal. O vinho e a

cerveja são semelhantes aos que vocês conhecem. Mas o cristal é dife

rente,

e a

conselho

-

os a irem com calma até se acostumarem com ele.







Não se apoquente, irmãozinho





disse Richard.





Michael e eu

somos catedráticos nisso.







Vamos cair na gandaia!





disse Michael, entusiasticamente.

Perry e Suzanne tiveram que ser empurrados para p

rosseguirem.



Ambos estavam encantados com as explicações de Arak,

especialmente Suzanne. De uma hora para outra, ela havia obtido as

respostas para dois dos mistérios da oceanografia, ou seja, por que o

magma sai pelas cadeias meso

-

oceânicas e por que exis

tem correntes

oceânicas, especial

mente a Corrente do Golfo. As respostas a ambas as

perguntas haviam escapado completamente aos cientistas.



O grupo subiu as escadas com Arak à frente. Quando passaram

entre duas das colunas maciças que sustentavam o teto a

bobadado,

Suzanne divisou a expressão excessivamente entusiasmada de Richard.

Preocu

pada com o comportamento que ele teria sob a influência de tudo

aqui

lo, inclinou

-

se para ele e murmurou:





Lembre

-

se de se comportar.



Richard olhou

-

a de relance. Sua expre

ss

ão era de descrença e de

-

boche.







Estou falando sério, Richard





acrescentou Suzanne.





Não

temos idéia do que vamos enfrentar, e não queremos nos colocar sob risco

maior do que já corremos. Se não puder deixar de beber, vá com calma.







Vá para o inferno

!





disse Richard. Acelerou o passo e al

cançou

Arak bem na hora em que duas enormes portas de bronze se abriram.



A primeira coisa que veio ao encontro dos visitantes foi o murmú

rio

de milhares de vozes empolgadas reverberando pelo vasto interior de

mármo

re branco do pavilhão. O patamar ao qual subiram dava em uma

varanda com balaustrada que circundava o salão circular. Juntos, os




componentes do grupo foram até o alto de uma grandiosa escadaria e

olharam para baixo.







Mas isso é que é festa!





gritou Richa

rd.





Meu Deus! Deve

haver umas mil pessoas aqui.







Poderia haver dez mil, se tivéssemos espaço para isso





disse

Arak a eles.



No centro do imenso salão de baile, sob a cúpula, havia uma pisci

na

redonda, iluminada de forma a parecer com uma enorme jóia de



água

-

marinha polida porém não facetada. Em torno dela havia uma borda de

trinta centímetros de altura por três metros de largura. Numerosas

escadas ligavam a varanda ao piso inferior.



O andar térreo do pavilhão estava apinhado. Todos estavam vesti

-

dos com



os mesmos trajes simples de cetim branco, exceto um ou outro

clone operário, sempre de preto. Os clones operários carregavam enor

mes

bandejas repletas de taças douradas e de petiscos. Todos os convi

dados

traziam atada ao pescoço uma fita de veludo, como



a de Arak. Apenas a

cor variava, não o tamanho, nem a forma, ou o jeito de atá

-

la. E, como

antes, todos eram incrivelmente belos.A notícia de que os visitantes

haviam chegado espalhou

-

se como fogo no mato pela multidão. As

conversas pararam, e os rostos s

e volta

ram para o alto. Foi impressionante

ver tantas pessoas mudas de expec

tativa assim.



Arak ergueu as mãos acima da cabeça com as palmas na direção da

platéia.







Sejam todos muito bem

-

vindos!





cumprimentou.





Tenho o

prazer de anunciar que todos os n

ossos visitantes, menos um, digna

ram

-

se comparecer a nossa comemoração de sua chegada a Saranta.



A multidão irrompeu em aplausos generalizados, todos de braços

erguidos, imitando o gesto de Arak.







Venham!





disse Arak. Gesticulou para que o grupo o segui

sse,

descendo a ampla escadaria.



Richard e Michael dispararam na frente, sôfregos, seguidos por

Suzanne e Perry, que iam mais hesitantes.







Isso é demais!





sussurrou Richard, extasiado.





Olha só que

mulheres! Parece até uma festa noturna da Victoria's Se

cret!










Todas elas mereceriam ser pôster central de uma revista mascu

-

lina





comentou Michael.







É difícil manter

-

se distante, diante de tudo isso





sussurrou

Suzanne a Perry.





Sinto

-

me como se estivéssemos estrelando uma

superprodução de Cecil B. DeMille



nos anos cinqüenta.







Entendo o que está sentindo





disse Perry.





Também me dá

uma idéia do que é ser um astro do

rock.

Essas pessoas estão mesmo

felizes da vida por nos ver. E olha só como todos são jovens! A maior

parte parece ter apenas vinte e poucos



anos.







É verdade, mas tem muitas crianças





disse Suzanne.





Es

tou

vendo umas que não devem ter mais que três ou quatro anos.







Não há muitos idosos





comentou Perry.



Ao final da escada, as pessoas recuaram quando o grupo desceu,

mas assim que eles atin

giram o piso, a multid

ão avançou com as mãos

para cima, as palmas para a frente.

Suzanne e Perry instintivamente

recuaram alguns passos, apesar da

óbvia receptividade da multidão.

Richard e Michael, ao contrário, se deixaram cercar de gente. Os dois

mergulh

adores logo perceberam que a multidão queria contato físico com

as mãos deles, e alegremente se dispuseram a tocar as palmas que

buscavam as suas. Era uma saudação semelhante àquela que Arak havia

usado com Suzanne, logo ao che

garem.







Eu amo todos vocês





disse Richard, bem alto, para gáudio dos

interterráqueos mais próximos, mas escolheu as palmas de mulhe

res

jovens e belas enquanto atravessava a multidão. Em seu entusiasmo, até

agarrou algumas, beijando

-

as





o que fez com que a festividade parasse

de r

epente, em meio aos gritos com que as escolhidas reagiram.



Richard olhou as mulheres que havia beijado e imaginou, durante

um breve momento, se devia recuar, subindo outra vez as escadas. As

mulheres, deslumbradas, passaram as m

ãos nos lábios, depois exami

na

-

ram os dedos, como se esperassem ver sangue neles. Claramente, o bei

jo

não fazia parte do repertório de saudações normal dos interterráqueos.

Richard lançou um olhar arrependido a Michael, que estava igualmen

te

tenso com a mudança repentina de comport

amento da multidão.







Não pude resistir





justificou

-

se Richard.



Três mulheres que ele havia beijado se entreolharam, e romperam




em gargalhadas. Depois todas as três se jogaram simultaneamente sobre

Richard para retribuírem o gesto. A multidão aplaudiu, ma

ravilhada, e se

comprimiu em torno dos mergulhadores ainda mais. Depois de várias

tentativas desajeitadas de dar beijos, as três mulheres educadamente se

afastaram para dar lugar a outras.



Um sorriso malicioso surgiu no rosto de Richard.







Parece que vamos



ensinar umas coisinhas a essas meninas





disse, sorrindo. Sentiu

-

se incentivado o suficiente para dar maiores de

-

monstrações de afeto. Michael, ao ver os êxitos de Richard, tratou de

imitá

-

lo. Mas logo as atividades deles foram interrompidas por um clone

operário que havia reagido a uma sugestão de Arak de dar a seus

convi

d

ados algo para beber. Os clones chegaram e meteram

-

lhes taças

doura

das nas mãos.



Até mesmo a reserva de Suzanne e de Perry começou a ser minada

diante daquela sociabilidade contagiante.



Foram cercados por pessoas

belas e amis

tosas, ávidas por pressionarem as palmas das mãos contra as

deles. Alguns dos cumprimentos foram feitos pelas criancinhas que

Suzanne havia visto quan

do chegaram. Suzanne perguntou a uma delas a

idade que tinha, de

pois de se impressionar com o inglês impecável e a

evidente inteligência dela.







Qual a

sua

idade?





indagou a criança, sem responder à per

-

gunta de Suzanne.



Suzanne estava para responder quando um homem que poderia ter

feito o papel de um deus grego no fi

lme de Cecil B. DeMille que ela havia

imaginado perguntou

-

lhe se ela vivia com algum companheiro. Antes que

Suzanne pudesse responder a essa pergunta curiosa, um ho

mem mais

velho, n

ão menos atraente, perguntou

-

lhe se ela conhecia seus pais.







Esperem aí u

m pouquinho





disse Arak, interpondo

-

se entre

Suzanne e seus admiradores.





Como todos sabem, dissemos especifi

-

camente a nossos convidados que as perguntas deles devem esperar até

amanhã. É justo que as nossas também esperem. Hoje é a noite de co

-

memorarm

os este maravilhoso acontecimento em Saranta e de nos di

-

vertirmos.







Ei, Arak!





berrou Richard do meio de um grupo de fãs. Esta

va

erguendo a taça dourada.





Esse é o tal cristal de que falou?










Sim, com efeito





disse Arak.







É fantástico!





berrou Rich

ard.





Adorei.







Que bom





disse Arak.







Mais uma coisinha





berrou Richard.





Vocês não têm uma

musiquinha aí? Quero dizer, uma festa não é festa sem música...







É isso aí





apoiou Michael.







Operários, música!





gritou Arak, mais alto do que o vozerio.

D

entro de instantes, ouviu

-

se música de fundo acima do ruído das

vozes

.

Era tão suave quanto a música existente no alojamento de

descontaminação.



Michael deixou escapar uma risada de deboche.







Não estou me referindo a música de elevador





berrou Richard

de



novo para Arak.





Estou querendo uma coisa assim com um baixo de

fundo e um ritmo legal. Uma coisa para dançar.



Arak deu outra ordem aos clones oper

ários, e a música logo mudou.



Richard e Michael trocaram olhares perplexos. A música tinha

pedal



e ritmo, m

as eram muito estranhos, diferentes de qualquer música que já

houvessem escutado.







Mas que raio de música é essa?





indagou Michael. Inclinou a

cabeça para o lado, para ouvir melhor.







Sei lá





disse Richard. Fechou os olhos e movimentou a cabeça,

de um j

eito ondulante. Ao mesmo tempo ensaiou alguns passos hesitan

tes,

rebolando os quadris. Os movimentos dele causaram algumas risadinhas

espremidas das moças que haviam reunido em torno de si.







Gostaram, hein?





perguntou ele.



As mulheres concordaram, sem n

ada dizer.



Richard levou a taça aos lábios e jogou a bebida toda fora, para

surpresa das pessoas em torno dele. Colocando o recipiente no chão,

agarrou a mão da moça mais próxima e correu para a plataforma que

cercava a piscina no centro da arena. Rindo a

valer, a multidão abriu

caminho e incentivou o casal, aos gritos. Ao chegar onde queria, Richard

saltou sobre a plataforma e puxou a mulher consigo. Virou

-

se de frente

para ela e, por instantes, ficou meio zonzo com tanta be

leza. Depois de ver




tanta gente



bonita, já havia começado até a se acostumar, mas ficou

especialmente impressionado com a aparência daquela moça.







Você é lindíssima!





sussurrou, as palavras ligeiramente arras

-

tadas.







Obrigada





disse ela.





Você também é atraente.







Acha mesmo?





per

guntou Richard.





Você é muito divertido





disse a mulher.







Legal





disse Richard. Depois precisou dar um passo para o lado

para recuperar o equilíbrio. Por um segundo a imagem da mulher saiu de

foco. Ele estava se sentindo ligeiramente tonto.







Está se se

ntindo bem?





indagou a moça.







Sim, estou bem





garantiu Richard. Sentia um formigamento nas

pontas dos dedos.





Esse cristal aí que vocês bebem acaba com a gente,

hein?







É o meu predileto





disse a mulher.







Então também é o meu





disse Richard.





Ei, q

uer aprender a

dançar?







O que isso significa, exatamente?





perguntou a mulher.







Era o que eu estava fazendo





disse Richard.





Só que faze

mos

juntos.



Richard fechou os olhos e repetiu os bamboleios anteriores. Aquilo

só durou um segundo, porque teve qu

e abrir os olhos para se reequilibrar

uma segunda vez. A multidão reagiu com aclamações e aplausos. Pedi

ram

bis.



Richard virou

-

se para a platéia e curvou

-

se exageradamente. Vie

ram

mais aclamações ainda. Voltando

-

se para a mulher, Richard come

çou a

pavon

ear

-

se, a balançar

-

se como no tuíste e a se sacudir o melhor que

podia ao som da música. A mulher o olhava com grande interesse e

achando muita graça, mas não conseguia imitá

-

lo. A única coisa que

conseguiu fazer com relativa perfeição foi erguer as mãos p

ara cima e

movê

-

las como Richard estava fazendo.







Preste bem atenção





disse Richard. Estendendo os braços,

agarrou a mulher pelos quadris e tentou fazê

-

la rebolar

-

se ritmicamente.




Ela não entendeu nada, mas achou hilariantes suas tentativas desen

-

gonçada

s. A multidão também.



Suzanne e Perry observavam com uma preocupação compreensível.

Suzanne disse a Perry que temia que Richard estivesse bêbado, e Perry



concordou. Mas não podiam deixar de notar que a multidão adorava

aquelas palhaçadas que ele estava faz

endo.







Seu amigo é muito engraçado





disse uma voz atrás de Perry.

Ele se virou e viu uma jovem cuja idade estimou em 18 anos. Ela tinha

olhos azuis bem vivos que lhe recordaram os de Suzanne, e um sorriso

contagiante. Ofereceu

-

lhe a palma da mão. Perry e

ncostou a sua palma na

dela, meio constrangido; sentiu o rosto ficar corado. A mulher era

perigosamente atraente, e bem mais alta do que ele.







Meu nome é Luna





disse, numa voz que fez os joelhos de Perry

ficarem bambos.







O meu é Perry.







Eu sei





disse

Luna.





Você é muito simpático. Notei que seus

dentes são mais brancos que os do Richard.



Perry ficou ainda mais corado. Concordou com a cabe

ça.







Obrigado





conseguiu dizer.



Os olhos de Luna voltaram ao centro da arena.







Sabe dançar, como o Richard?



Perr

y voltou a olhar de relance o mergulhador, que agora estava

apresentando sua versão do

break.

Naquele momento, estava girando de

costas no chão com as pernas para cima.







Acho que sim, suponho





disse Perry, cauteloso.





Talvez não

tão bem como Richard. El

e é um pouco mais extrovertido do que eu. Mas

para lhe dizer a verdade, já faz alguns anos que não danço.







Acho que o Richard é tão bom quanto um clone de entreteni

-

mento





disse Luna. Parecia estar fascinada pelo Richard, que agora

estava andando sem sai

r do lugar, como Michael Jackson, para delírio da

platéia.







Acho que o Richard nunca recebeu

esse

elogio antes





disse Perry.



Sempre imitando o outro, Michael pegou a mão de uma das mu

-




lheres que o cercavam e uniu

-

se a Richard na plataforma que cercava a

piscina. Mal começou a dançar, uma dúzia de outras mulheres subiu na

plataforma para participar.Agora havia um enxame de lindas mulheres

cercando Richard e Michael, tentando movimentar os braços e rebolar,

imitando os dois mergulhadores embriagados. Mas nã

o era fácil. Até os

mergulhadores tinham dificuldade de coordenar os movimentos com o

ritmo esquisi

to daquela música.



Vários dos jovens mais ousados de Interterra subiram à plataforma

para tentar imitar aquela dança estranha. Richard não gostou da concor

-

rência. Sem interromper os bamboleios, tratou de se aproximar de cada

um dos homens e com movimentos súbitos e exagerados dos quadris,

derrubou

-

os todos, expulsando

-

os da plataforma. A multidão, e até os

próprios homens, adoraram, achando que tudo fazia pa

rte do exercício.



Depois de meia hora de dança ininterrupta, todos atingiram os li

-

mites de tolerância. Sempre liderando a todos, Richard abriu os braços e

agarrou tantas mulheres quanto pôde antes de cair no chão, dando

risadinhas. Michael imitou a manobr

a de Richard, aumentando ainda

mais o monte onde pernas, braços e torsos suados cobertos por tecido fino

se entrelaçaram. Os mergulhadores, mesmo caídos, continuaram

pressionando a palma das mãos contra as palmas das moças, e as mu

-

lheres retribuíam com be

ijos. Atendendo a nova ordem de Arak, os clones

operários trataram de providenciar mais bebida.







Esse lugar aqui é um sonho que virou realidade





gritou Michael

depois de tomar um gole do copo recém

-

abastecido.







Coitado do Mazzola





disse Richard.





O co

itado do mer

-

gulhador do sino sempre perde a festa.







Do que acha que é feito

esse

tal de cristal?





indagou Michael.

Espiou dentro do seu copo. O fluido era completamente transparente.







Deixa isso pra lá





guinchou Richard, enquanto estendia um dos

braço

s e dava um exuberante abraço em uma das mulheres que se

comprimiam contra seu peito. Ao fazer isso, derramou um pouco de

bebida no peito, para divertimento daqueles que notaram.







Michael, tenho uma coisa para você





disse uma jovem de olhos

azuis e cabel

os bem escuros.





O quê, meu docinho?





indagou Michael.

Estava deitado de barriga para cima, fitando a imagem invertida da

mulher, que se encon

trava de pé perto da plataforma. Ela sorriu e mostrou




um potinho.







Quero que experimente a caldorfina





disse,

enquanto abria o

pote. Ofereceu

-

o a Michael, que usou a mão livre para retirar um pu

nhado

do creme.





Isso é um pouco demais para você, mas não faz mal





observou.







Desculpe





disse Michael



, mas o que devo fazer com ele?





Levou o creme ao nariz e o ch

eirou. Era inodoro.







Esfregue

-

o na mão





recomendou ela.





Farei o mesmo, de

pois

tocaremos a palma um do outro.







Ei Richie





chamou Michael, rolando sobre si mesmo e sen

tando

-

se.





Olha só essa novidade.





Richard não reagiu. Estava tor

nando a

encher

o copo de cristal.



Michael esfregou o creme na palma da mão e depois olhou para a

jovem atraente que o dera a ele. Ela tinha uma aparência sonolenta, os

olhos estavam semicerrados. Vagarosamente, ergueu a mão, e Michael

pressionou sua palma contra a dela.



A reação de Michael foi rápida e esmagadora. Os olhos se arregala

-

ram, depois se fecharam de puro prazer. Durante alguns minutos de

êxtase arrebatado, não conseguiu se mover. Quando finalmente conse

guiu,

arrancou o pote das mãos da mulher. Depois puxou in

sistente

mente o

braço de Richard.







Richie!





berrou Michael.





Você precisa experimentar

esse

troço!



Richard tentou se soltar. Mas Michael continuou a pux

á

-

lo.







Olha, não está vendo que estou ocupado?





disse Richard.

Estava tentando beijar duas mulhere

s ao mesmo tempo.







Richie, precisa experimentar essa coisa





repetiu Michael.

Mostrou o pote.







Mas que raio

é

isso?





disse Richard. Apoiou

-

se em um dos

cotovelos.





É creme para as mãos





disse Michael.







Está me interrompendo para me dizer que preciso e

xperimen

tar

creme para as mãos?





Richard não podia acreditar.





Mas qual é o seu

problema, hein?







Experimente





disse Michael.





É diferente de todos os cre

mes




para as mãos que já experimentou. Estou lhe dizendo que é de ar

rebentar

a boca do balão!!!



Suspirando, Richard aceitou um pouco do creme e esfregou

-

o nas

m

ãos. Depois olhou para Michael.







E agora, o que acontece?







Aperte a palma da sua mão contra a de uma das meninas





disse

Michael.



Richard chamou uma das duas que ele havia acabado de beijar,



mas

ela lhe pediu para esperar com um gesto. Pegou um pouco do creme e

esfregou em suas pr

óprias palmas, depois pressionou

-

a contra a de

Richard. O resultado foi o mesmo que havia sido para Michael. Richard

levou um minuto completo para conseguir sair do

delírio de êxtase que o

dominou.







Ai, meu Deus





exclamou.





Isso foi tal e qual um orgasmo! Me

dá mais aí!



Michael afastou bruscamente o pote da m

ão ávida do outro.







Vá procurar um para você





disse.



Richard tentou pegar o pote outra vez, mas Michael de

u

-

lhe um

tapa na m

ão.



Perry estava no meio de uma explicação a Luna, em que tentava dar

-

lhe uma idéia do que era ser presidente da Benthic Marine, quando sen

tiu

alguém bater de leve no seu ombro. Era Suzanne. Parecia preocupada.







Richard e Michael estão

começando a discutir





disse

Suzanne.





Estou preocupada. Arak está procurando manter as taças

deles cheias o tempo inteiro, e eles já estão muito bêbados.







ô

-

ô!





disse Perry.





Isso pode dar confusão.





Olhou de

relance na direção dos mergulhadores e os



viu empurrando

-

se.





Acho

melhor irmos lá e tentarmos controlá

-

los





disse Suzanne.







Acho que está certa





disse Perry. Mas estava com uma pena

enorme de sair de perto da Luna.







Deixe

-

os se divertir





disse uma voz atrás de Suzanne.





To

dos

estão adoran

do os dois. São muito animados.





Virando

-

se, viu o mesmo

homem que lhe havia perguntado se vivia com alguém.










Estamos achando que eles estão começando a ficar

descontrolados





disse Suzanne.





Não queremos abusar de sua

hospitalidade.







Deixe o Arak se p

reocupar com o comportamento deles





dis

se o

homem.





Como pode ver, ele os está incentivando a beber.







Notei isso





disse Suzanne.





Não foi uma boa idéia.







Deixe o Arak cuidar disso





disse o homem.





É função dele

tomar conta dos dois, não sua. Além

disso, gostaria de falar com você em

particular um instante.







Gostaria mesmo?





disse Suzanne. Ficou confusa diante da

quele

pedido. Lançou novo olhar aos mergulhadores e ficou aliviada ao ver que

haviam parado de bater boca e voltado ao grupo de mulheres



reclinadas.

Suzanne olhou para Perry, imaginando se ele teria escutado o pedido do

homem. E tinha. Perry sorriu maliciosamente e cutucou Suzanne, para

incentivá

-

la.







Por que não?





sussurrou Perry, aproximando a boca do ouvi

do

dela.





Hoje é dia de nos

divertirmos, e a emergência dos mergu

lhadores

já passou, por enquanto.







Será só um instante





disse o homem.







Como assim, "em particular"?





indagou Suzanne. Observou as

feições esculturais do estranho e seus olhos líquidos, e sentiu o cora

ção

dar um p

ulo. Jamais havia visto um homem de tamanha beleza clás

sica

assim, nem falado com um.







Bom, não é bem em particular





disse o homem com um sor

riso

cativante.





Achei que podíamos apenas nos afastar alguns passos ou

talvez subir as escadas até a varanda.



Eu só gostaria de falar com você a

sós

um instante.





Bom, acho que sim





disse Suzanne. Tornou a olhar

para Perry.







Vou ficar bem aqui





disse Perry



, com a Luna. Suzanne se

deixou guiar escada acima.







Meu nome é Garona





disse o homem enquanto subiam.







O meu é Suzane Newell





respondeu Suzanne.







Já sei





disse Garona.





Dra. Suzanne Newell, para ser exato.

Atingiram o alto da escadaria, e se recostaram na balaustrada. Lá



embaixo,




o baile era obviamente um sucesso: dava para se ouvirem os risos e as

c

onversas animadas da multidão. A maioria das pessoas estava circulando

em torno da área central da piscina onde os mergulhadores e seu harém

eram o foco das atenções. A multidão era ordeira, educada e respeitosa.

Aqueles mais próximos aos dançarinos estava

m constante

mente deixando

aqueles que estavam na periferia se aproximarem para verem tudo mais

de perto.







Obrigado por me conceder este momento





disse Garona.





Não é justo que monopolize seu tempo.







Tudo bem





disse Suzanne.





É até um alívio me afast

ar e ter

essa visão geral.







Precisava lhe dizer que a considero irresistível





disse Garona.

Suzanne estudou o rosto bonito de Garona.



Esperava ver ao menos o



vestígio longínquo de um sorriso malicioso. Em vez disso, ele a fitava com

uma intensidade riso

nha e cálida que lhe transmitia uma total sinceridade.







Diga isso outra vez





disse Suzanne.







Eu a acho absolutamente irresistível





repetiu Garona.







Acha mesmo?





perguntou Suzanne. Deu uma risadinha, ner

-

vosa.







Verdade





garantiu Garona.



Os olhos de

Suzanne voltaram à multidão, para lhe dar uma opor

-

tunidade de digerir aquela confissão inesperada. Hesitou antes de vol

tar a

fitá

-

lo.







É muito lisonjeiro, Garona





disse ela.





Pelo menos, acho que é.

Então, sinto muito se pareço cética, mas com todas e

ssas

mulheres



absolutamente divinas e perfeitas, acho meio difícil crer que esteja

interessado em mim. Quero dizer, conheço minhas limitações. Não sou

páreo para nenhuma dessas mulheres aí em termos de irresistibilidade. O

sorriso de Garona não desapareceu



nem um só instante.







Talvez seja difícil para você acreditar





disse ele.





Mas é ver

-

dade.







Bom, então fico sinceramente lisonjeada





disse Suzanne.





Mas

talvez possa me dizer por que me acha assim tão irresistível.







Não é fácil explicar





disse Garo

na.










Tente, pelo menos





insistiu Suzanne.







Creio que teria que dizer que envolve sua beleza, ou sua ino

-

cência. Ou talvez seu fascinante primitivismo.







Primitivismo?





repetiu Suzanne.





Foi assim que Arak qua

-

lificou o Richard.







Bom, ele também tem i

sso, sem sombra de dúvida





disse

Garona.







E isso é um elogio, para você?





indagou Suzanne.







Aqui em Interterra, é





disse Garona.







O que é Interterra, exatamente?





perguntou Suzanne.





E há

quanto tempo existe?



Garona sorriu, condescendente, e sacudi

u a cabe

ça.







Avisaram

-

me para não responder muitas perguntas que não fos

-

sem as estritamente pessoais, sobre mim mesmo.



Suzanne revirou os olhos.







Desculpe





disse, com um quê de sarcasmo.





Foi mal.







Não tem problema.







Então tenho que formular umas pe

rguntas pessoais?







Se quiser





disse Garona.







Bom...





disse Suzanne enquanto tentava pensar em uma per

-

gunta pessoal.





Sempre viveu aqui embaixo?



Garona soltou uma sonora gargalhada, alta o suficiente para atrair a

aten

ção de dois homens que se encontr

avam no andar de baixo. Eles



olharam para cima, acenaram ao reconhecer Garona, e come

çaram a se

encaminhar para as escadas.







Desculpe

-

me por ter rido





disse



, mas sua pergunta mostra

como você é maravilhosamente inocente. É extremamente revigorante.

Ado

raria conhecê

-

la mais a fundo. Quando se cansar da festa e quiser sair,

diga

-

me. Adoraria levá

-

la até o seu quarto. Podemos passar algum tempo

juntos tocando nossas palmas, só você e eu. O que me diz?



A boca de Suzanne foi vagarosamente se abrindo à medida



que o




verdadeiro significado da proposta de Garona ia ficando claro para ela.

Riu, zombeteira.







Garona, não acredito





disse.





Há pouquíssimo tempo esti

ve a

ponto de morrer. Agora estou na terra da fantasia com um cara lindo de

morrer me cantando e que

rendo ir ao meu quarto. O que devo responder?







Responda apenas que sim





sugeriu Garona.







Acho que estou atordoada demais para responder assim de ime

-

diato.







Posso perceber isso





disse Garona.





Mas posso animá

-

la e

ajudá

-

la a relaxar.



Suzanne sacudiu

a cabe

ça.







Acho que não pode entender. Estou com dificuldade de tomar a

decisão correta.







Você me excita





disse Garona.





Você me encanta. Quero ficar

ao seu lado.







Olha, vou lhe dar nota dez em persistência, viu





disse Suzanne.







Vamos conversar mais



tarde





disse Garona.





Aí vêm dois

amigos meus.



Suzanne virou

-

se para ver os dois homens que haviam se alertado

com a risada de Garona subirem o último degrau da escadaria prin

cipal e

se aproximarem. Não pôde deixar de observar que eram tão atraentes

qu

anto Garona. Vinham de braços dados, como dois na

morados.





Bem

-

vindos, Tarla e Reesta





disse Garona.



Já conheceram nossa hóspede de

honra, a Dra. Suzanne Newell?







Ainda não





disseram os dois em uníssono.





Estávamos

aguardando o momento de termos essa



honra.





Ambos fizeram uma

elegante reverência.



Suzanne obrigou

-

se a sorrir. Tudo aquilo era encantadoramente es

-

tranho ao extremo. Ela sentia que s

ó podia ser tudo um sonho.



Richard sabia que estava embriagado, mas certamente já havia

enchido mais a cara



antes. A embriaguez dele não parecia afastar

nenhuma das mulheres que ainda o cercavam. Ele via que os rostos das

mulheres mudavam enquanto dançava, o que significava que havia




alguma espé

cie de revezamento, mas aquilo não importava, uma vez que

eram to

das tão bonitas.



Sem querer, deu um encontrão em Michael, com força suficiente

para que ambos perdessem o equilíbrio. Caíram ao chão, desengonça

dos

demais para se machucar. Quando viram o que havia ocorrido, ri

ram com

tanta força que saíram lágrimas dos

seus olhos.







Que festança!





gritou Michael quando se recuperou o sufi

ciente

para falar. Enxugou os olhos com as costas da mão.







Ninguém vai acreditar em nós quando voltarmos para casa





disse Richard.





Principalmente quando contarmos que todas as garo

tas,

sem exceção, estão disponíveis. Quero dizer, é melzinho na chupeta, uma

coisa irreal.







Os caras daqui nem se importam





disse Michael.





Ei, olha só

aquela garota ali.







Qual?





indagou Richard. Rolando sobre si mesmo, tentou

seguir a linha de visão



de Michael através da multidão que se movi

-

mentava. Os olhos dele finalmente encontraram uma ruiva escultural que

andava de braço dado com um rapaz.







Uau





exclamou.







Eu a vi primeiro





disse Michael.





Sim, mas eu é que vou

ganhar essa parada.







Nem pen

sar.







Vá se foder





disse Richard, enquanto se punha de pé. Michael,

esticando

-

se todo, agarrou uma das pernas de Richard e o



derrubou. Ele caiu de cabeça e deslizou até a beirada da plataforma,

batendo com a testa no chão. Não se feriu, mas ficou uma fer

a, princi

-

palmente quando Michael tentou passar por ele para chegar até a garota.



Richard conseguiu enfiar o pé no caminho de Michael e derrubá

-

lo.

Quando Michael estava tentando se levantar, Richard se atirou em cima

dele. Depois agarrou a frente da túnic

a do amigo e deu

-

lhe um murro no

nariz.



Aquela violência súbita fez os convidados recuarem assustados.

Ouviu

-

se um ofegar coletivo quando o nariz de Michael começou a

sangrar.






Michael empurrou Richard, tirando

-

o de cima de si, e conseguiu se

ajoelhar. Rich

ard tentou fazer o mesmo, mas Michael deu

-

lhe um mur

ro

na lateral da cabe

ça, fazendo

-

o estatelar

-

se no chão.







Anda, seu safado!





provocou Michael.





Levante

-

se e lute.





O sangue lhe escorria pela frente do queixo e pingava no chão. Os

cilou,

apoiando

-

s

e ora num pé, ora noutro.



Richard conseguiu ficar de quatro. Olhou para Michael.







Você está morto





grunhiu.







Anda logo, bobalhão!





respondeu Michael.



Richard fez força para ficar de pé, mas também não conseguia se

equilibrar direito.



Arak, que estava a



uma certa distância dos mergulhadores quando

começou a briga entre os dois, abriu caminho através da multidão pe

-

trificada e muda. Colocou

-

se entre os dois mergulhadores bêbados.







Por favor





disse.





Seja lá qual for o problema, podemos

resolvê

-

lo.







Sa

ia da minha frente





replicou Richard. Empurrou Arak para o

lado e preparou

-

se para golpear a cabeça de Michael. Michael esquivou

-

se,

mas perdeu o equilíbrio ao fazê

-

lo, e caiu. Richard perdeu o equilíbrio

quando errou o golpe.







Clones operários, contenha

m os convidados!





ordenou Arak.

Richard e Michael conseguiram se erguer e trocar mais diversos



golpes ineficazes antes que dois clones operários masculinos

avantajados



interviessem. Cada um agarrou um mergulhador, aplicando

-

lhe um abraço de urso. Richard

e Michael continuaram tentando atingir

-

se

mutuamente até serem afastados um do outro mais ou menos dois metros.

Nesse momento Perry abriu caminho na multidão.







Será que vocês dois se esqueceram de onde estão, seus idiotas?





ralhou Perry.





Pelo amor de D

eus, não briguem! O que há com vocês?







Foi ele quem começou





disse Richard.







Não, foi ele





disse Michael.







Não, foi ele.










Não, foi ele.



Antes que Perry pudesse reagir a essa troca de acusações infantil, os

mergulhadores de repente desataram a rir. Ca

da vez que tentavam olhar

um para o outro, davam gargalhadas mais fortes. Logo, todos, menos

Perry e os clones operários, estavam rindo também. Ao comando de Arak,

os clones operários os soltaram, e os mergulhadores imediatamente se

cumprimentaram, como se



nada houvesse acontecido.







Mas qual foi o motivo da briga?





indagou Arak a Perry.







Cristal demais





explicou Perry.







Talvez devamos lhes dar uma bebida menos forte





disse Arak.







Ou isso, ou então, não lhes sirva mais nada





sugeriu Perry.







Mas não

quero estragar a festa





disse Arak.





Todos estão

adorando os dois.







A festa é sua





disse Perry.



Richard e Michael começaram a voltar para a plataforma.







Já sei o que vou fazer





murmurou Richard a Michael.





Vamos

decidir isso tirando a sorte. Vou dis

putar a ruiva com você.





Tudo

bem





concordou Michael.







Escolha





disse Richard.





Par ou ímpar?







Par





escolheu Michael.



Depois de contar até três, ambos mostraram um único dedo.

Michael sorriu de satisfação.







Muito justo!





exclamou.







Merda!





lament

ou

-

se Richard.







E agora, onde está ela?





indagou Michael. Os dois mergulha

-

dores esquadrinharam a multidão.







Está ali





disse Richard. Apontou

-

a.





E ainda com aquele

veadinho a tiracolo.







Volto num instante





disse Michael. Foi direto até a mulher que



observou estar vendo sua aproximação com grande interesse.







Oi, amoreco





cumprimentou Michael, evitando olhar nos olhos




do pré

-

adolescente que a acompanhava.





Meu nome é Michael.







Meu nome é Mura. Está machucado?







Ah, puxa, não





disse Michael.





Um

soquinho no nariz não

machuca o velho Michael. De jeito nenhum.







Não estamos acostumados a ver sangue





explicou Mura.







Escute!





disse Michael.





Que tal vir esfregar sua palma con

tra

a minha? O nosso grupinho está ali perto da piscina.







Adoraria toca

r sua palma





disse Mura.





Mas, primeiro,

permite que eu lhe apresente o Sart?







Ah, sim, como vai, Sart





disse Michael, indiferente.





Sua mãe

é muito bonita, mas por que não vai procurar uns amigos para brincar?



Tanto Mura quanto Sart soltaram risadinh

as. Michael n

ão gostou.







O que eu disse foi engraçado, é?





indagou, irritado.







Inesperado seria uma palavra melhor





conseguiu dizer Mura.

Michael tocou o braço de Mura.







Venha, meu bem.





E disse ao jovem:





Até já, Sart.



De braço

dado com Mura, Micha

el voltou todo empertigado, osci

lando um pouco,

involuntariamente, até onde estava Richard. Richard havia escolhido duas

mulheres que estavam demonstrando sua afeição por ele de forma

particularmente intensa. Apresentou

-

as como Meeta e Palenque. Uma era

l

oura, a outra morena, e ambas incrivelmente vo

luptuosas.







Richie, esta aqui é a Mura





disse Michael, orgulhoso. Richard

fingiu não notar a incrível ruiva. Em vez disso, apontou



para algo atrás de Michael, e perguntou quem era o pré

-

adolescente.

Michael

olhou para trás e irritou

-

se ao ver que o garoto os havia seguido.







Dê o fora, rapaz





dispensou

-

o Michael, de um jeito brusco.

Mura ignorou Michael e incentivou Sart a avançar. Apresentou

-

o a



Richard.







Prazer em conhecê

-

lo, hein, Sart





disse Richard.





Você,

também, Mura. Por que não se sentam?







Com todo o prazer





disse Mura.










Sem dúvida





disse Sart.



Michael revirou os olhos, numa irritação frustrada, enquanto

Richard conseguia passar

-

lhe à frente. Por um momento, pensou em dar

-

lhe um murro ali mesm

o.







Ei, você também, Mikey





provocou Richard.





Vamos, amigão,

sente

-

se e relaxe! Vai te fazer bem. Afinal, somos todos uma grande e feliz

família.



Esse comentário ocasionou risadinhas de todos os interterráqueos

que podiam escutá

-

lo, o que aumentou aind

a mais o constrangimento de

Michael. Ele enfiou a viola no saco e se sentou.







Ouça, Mikey





continuou Richard.





Essa minha linda caixinha

de surpresas, a Meeta, acabou de me dizer uma coisa interes

sante. Todos

gostam de nadar em Interterra.







Não brinca







disse Michael, animando

-

se.





Mencionou que

somos profissionais?





Claro





disse Richard.





Mas não sei bem se

entenderam o que eu disse. Parece que a idéia de trabalho não é lá uma

coisa muito familiar para eles.







Se trabalham nadando, então gostam de

nadar?





indagou

Meeta.







Claro que gostamos de nadar





disse Michael.







Bom, então por que todos nós não damos um mergulho?





sugeriu Meeta.







Por que não?





concordou Mura.





Vocês estão precisando se

refrescar um pouco.







Acho uma idéia maravilhosa





di

sse Sart. Richard olhou a

convidativa piscina verde

-

azulada.







Estão querendo nadar aqui, agora?





indagou.







E que momento seria melhor?





disse Palenque.





Estamos

todos com tanto calor, tão suados...







Mas e as roupas?





perguntou Richard.





Vamos ficar



encharcados.







Não usamos roupas quando nadamos





disse Meeta. Richard

olhou para Michael.










Esse lugar aqui está ficando cada vez melhor





observou.







E aí?





perguntou Meeta.





O que dizem os nadadores pro

-

fissionais?



Richard engoliu em seco. Ficou com

medo de dizer alguma coisa

para n

ão acordar.







Digo que aceitamos





gritou Michael.







Maravilha!





exclamou Meeta. Ela ficou de pé de um salto e

ajudou Palenque a se erguer. Sart se levantou e ajudou Mura. Num pis

car

de olhos os interterráqueos tiraram as



túnicas e as bermudas sem a menor

vergonha. Em todo o esplendor de sua majestosa nudez, todos

mergulharam perfeitamente na água e nadaram até o meio da piscina com

braçadas experientes e vigorosas.Richard e Michael ficaram embasbacados

demais durante um m

i

nuto para segui

-

los. Em vez disso lançaram olhares

de relance às pessoas que se encontravam por perto. Ficaram mais

surpresos ainda quando viram que a cena chamara a atenção apenas de

Perry. Depois Richard e Michael se entreolharam.







Mas que raio estamo

s esperando?





indagou Richard enquan

to

dava um sorriso de bêbado.



Apressados, os dois mergulhadores, desajeitados, livraram

-

se das

rou

pas. Ao mesmo tempo, saíram em disparada na direção da piscina.

Michael teve dificuldade em tirar a bermuda, e acabou t

ropeçando.

Richard saiu

-

se melhor e logo estava nadando para a parte rasa no centro

da piscina.



Ao chegar Richard foi literalmente atacado por Meeta e Palenque

que, de brincadeira, deram

-

lhe uma série de caldos. Richard aceitou o

assédio das duas belas mul

heres despidas com grande prazer, mas logo

perdeu o fôlego. Quando Michael chegou e começou uma brincadeira

semelhante com Mura, uma vez que Sart e Palenque haviam nadado para

o outro lado da piscina, Richard conformou

-

se em ficar relaxando em um

local ond

e ele e Meeta podiam ficar sentados com as cabeças fora da água.







Richard, Richard, Richard





gritava Meeta, alegremente, en

-

quanto pressionava a palma da mão seguidamente contra a dele e lhe

acariciava a cabeça.





Você é o visitante mais primitivamente a

traente

que jamais tivemos em Saranta. Talvez em toda a Interterra, há pelo

menos vários milhares de anos.










Achei que só a minha mãe gostava de mim





disse Richard, de

brincadeira.







Você conheceu sua mãe?





indagou Meeta.





Que esquisito.







É claro que c

onheci minha mãe





disse Richard.





Você não

conhece a sua?







Não





disse Meeta, rindo.





Ninguém em Interterra conhece sua

mãe. Mas não vamos falar disso. Em vez disso, por que não me leva para

seu quarto?





Bom, essa aí já é uma excelente idéia





disse Ri

chard.





Mas e a sua amiga Palenque? O que diremos a ela?







O que queira





disse Meeta, desinteressada.





Mas é mais fácil

simplesmente convidá

-

la. Tenho certeza de que aceitará vir conosco. E

Karena. Sei que ela também está com vontade de ir.



Richard tent

ou parecer indiferente, mas apesar disso sua surpresa

diante da sua boa sorte inesperada foi evidente. Ao mesmo tempo, diante

dessa reviravolta favor

ável, desejou não ter bebido tanto.





Foi um grupo barulhento que partiu do pavilhão para o refeitório.

Suza

nne, Perry e os mergulhadores cantavam músicas antigas dos Beades

a plenos pulmões para entreter os acompanhantes, os quais,

surpreendentemente, sabiam a letra. Suzanne caminhava ao lado de

Garona, Perry ia com Luna, Richard com Meeta, Palenque e Karena, e



Michael com Mura e Sart.



Embora Suzanne e Perry houvessem evitado beber muito, o que

beberam havia lhes subido às cabeças. Estavam longe de terem se em

-

briagado como Richard e Michael, mas ambos reconheciam que esta

vam

de pileque. Também estavam se diver

tindo a valer.



Arak havia se despedido deles quando o baile acabou, e prometeu

encontrá

-

los pela manhã. Havia lhes desejado um repouso agradável, e

agradecido a eles por comparecerem à comemoração.







Ei





gritou Richard quando terminaram de cantar sua vers

ão de

Come Together.





Vocês não conhecem alguma música aqui da sua terra?







É claro





disse Meeta. Imediatamente os interterráqueos co

-

meçaram a cantar, e embora as palavras fossem em inglês, o ritmo era tão

irregular quanto o da música do baile.










Chega!







gritou Richard.





Isso é esquisito demais. Vamos

cantar Beatles de novo.







Richard, sejamos justos





disse Suzanne.







Não tem problema





disse Meeta.





Preferimos cantar as can

-

ções do seu povo.





Michael! Que diabo está fazendo com as taças?





indagou R

ichard quando viu que o parceiro estava trazendo várias taças

vazias.







Pedi ao Arak





disse Michael.





Ele me disse que podia ficar

com elas. São de ouro. Aposto que tenho aqui dinheiro suficiente para dar

entrada em uma picape nova.



Richard inclinou

-

se e



arrancou uma das ta

ças das mãos do outro.







Ei, me devolve isso aí!





exigiu Michael. Richard riu.







Segura aí. Eu vou arremessar!



Michael entregou o restante das taças a Mura. Depois cambaleou

para tentar pegar a taça que ia ser lançada. Richard arremess

ou

-

a como se

fosse uma bola de futebol americano, e ela caiu girando nas mãos de

Michael. Todos aplaudiram. Michael curvou

-

se, agradecendo, perdeu o

equilíbrio e caiu. Todos riram e aplaudiram ainda mais.







Temos bichos que brincam disso





disse Mura.







Eu



vi alguns bichos de estimação quando viemos para os aloja

-

mentos





disse Suzanne.





Eles pareciam misturas de várias criaturas.







E são





disse Mura.







Vocês praticam esportes aqui?





indagou Richard. Michael

voltou e pegou o restante das taças.







Não, nã

o temos esportes





disse Meeta.





Exceto os jogos

mentais, coisas assim.







Não, nada disso!





disse Richard.





Eu me referia a jogos como

o hóquei e o futebol americano.







Não





disse Meeta.





Não temos competições físicas.







Por que não?





indagou Richard

.







Porque não é necessário





disse Meeta.





E fazem mal à saúde.

Richard lançou um rápido olhar a Michael.










Não admira que os homens sejam assim efeminados





disse.

Michael concordou.







Que tal a gente levar

Lucy in the Sky with Diamonds?





sugeriu

Suzan

ne.





Parece bem apropriada.Alguns minutos depois, ainda

cantando o refrão, o grupo entrou cambaleando no refeitório. Estava

escuro, porém os interterráqueos de alguma forma acenderam as luzes.

Perry estava para perguntar como faziam aquilo quando notou Do

nald. O

ex

-

oficial da Marinha estava sentado no escuro, totalmente mudo. O rosto

estava tão severo quanto estivera quando o grupo partiu para a

comemoração.







Meu Deus





disse Richard.





O Sr. Caxias está exatamente onde

estava quando saímos.



Michael orgul

hosamente depositou seu tesouro de ta

ças de ouro

sobre a mesa, com estardalhaço.



Richard jogou

-

se num assento diante de Donald à mesa. Arrastou

consigo as três mulheres, como troféus.







Então, almirante Fuller





disse, num tom zombeteiro enquanto o

saudava



de um jeito cômico.





Acho que pela nossa companhia e pelos

despojos pode ver que marcou bobeira.







Tenho certeza que sim





disse Donald, sarcástico.







Não faz idéia de como foi incrível, seu espertalhão





disse

Richard.







Está bêbado, marujo





disse Dona

ld, desdenhoso.





Felizmente

alguns de nós tiveram autocontrole suficiente para não perder o juízo.







Sim, bom, então vou lhe dizer o que há de errado com você





disse Richard, apontando um dedo oscilante para o rosto de Donald.





Você ainda pensa que está



naquela porcaria daquela marinha. Deixa eu

lhe dizer só uma coisinha. Você já saiu.







Você não só é burro





sibilou Donald





como também é nojento.



Richard perdeu as estribeiras. Empurrou as mulheres para um lado

e se jogou sobre a mesa de mármore, pegand

o Donald de surpresa. Apesar

da embriaguez, Richard conseguiu subir em cima de Donald e lhe apli

car

alguns murros ineficazes no lado da cabeça.



Donald reagiu prendendo Richard com um abra

ço de urso. Assim




imobilizados, naquele violento abraço, ambos rolar

am da espreguiçadei

ra

onde Donald se encontrava sentado, mas mesmo assim acertaram

-

se

mutuamente com socos curtos. Conseguiram ir parar em cima da mesa, o

que fez a cole

ção de taças de Michael cair no chão com grande barulho. Os

interterráqueos recuaram, a

medrontados, enquanto Suzanne e Perry

intervinham. Não foi fácil, mas conseguiram finalmente separar os dois

homens. Dessa vez foi o nariz de Richard que sangrou.







Seu miserável





exclamou Richard ao tocar o nariz e olhar o

sangue.







Sorte sua seus amigos



estarem aqui





disse

-

lhe Donald.





Eu

podia ter matado você.







Já basta





disse Perry.





Nada mais de provocações ou brigas.

Isso é ridículo. Estão ambos agindo como crianças.







Idiota!





acrescentou Donald. Empurrou os braços de Perry, que

o continham, e



ajeitou a túnica de cetim.







Escroto!





xingou Richard. Ele se afastou de Suzanne e virou

-

se

para suas três amigas.





Vamos para o meu quarto onde não vou precisar

ficar olhando a cara feia desse palerma.



Richard cambaleou até as mulheres, mas elas recuar

am. Depois, sem

dizerem mais nada, fugiram pela extremidade aberta da sala e sumiram

na noite. Richard as perseguiu, mas parou na beira do gramado. As

mulheres já iam a meio caminho do pavilhão.







Ei!





berrou Richard, colocando as mãos em concha ao redor

da

boca.





Voltem aqui! Meeta...







Acho que já é hora de ir para a cama





gritou Suzanne para

ele.





Já causou bastante confusão numa noite só.



Richard virou

-

se para o interior da sala, decepcionado e furioso. Deu

uma violenta palmada no tampo da mesa, for

te o suficiente para fazer

todos que ali estavam pularem.







Merda!





berrou, para todos ouvirem.





Quando Perry empurrou a porta de seu chalé com a mão trêmula,

que fez o possível para disfarçar, deixou Luna entrar antes dele. Já fazia

muito



tempo que ele f

icava assim a

sós

com uma mulher. Não fazia idéia




se seu nervosismo vinha do sentimento de culpa por estar traindo a

esposa ou por reconhecer que Luna era jovem demais para ele. Ainda por

cima, estava meio de pileque, mas ainda mais embriagante que o crist

al

era o fato de que uma jovem absolutamente deslumbrante o havia achado

atraente.



Enquanto lutava para esconder seu nervosismo, foi sensível o sufi

-

ciente para notar que a própria Luna também estava inquieta.







Posso lhe servir alguma coisa?





indagou Per

ry.





Disseram

-

me

que tenho comida e bebida à minha disposição aqui no quarto.





Ficou

olhando enquanto a moça ia até a piscina e se curvava para veri

ficar a

temperatura da água.







Não, obrigada





disse Luna. Depois começou a perambular pelo

recinto.







Vo

cê parece estar preocupada





disse Perry. Por falta de algo

melhor a fazer, foi até a cama e se sentou.







E estou





admitiu Luna.





Nunca vi uma pessoa agir como o

Richard.







Ele não é o nosso embaixador ideal





disse Perry.







Há muitas pessoas como ele lá



no seu mundo?





indagou Luna.







Infelizmente, este tipo não é incomum





disse Perry.





Em geral,

na família deles, a violência passa de geração para geração.



Luna sacudiu a cabe

ça.







E de onde vem o motivo para tanta violência?



Perry coçou a cabeça. Não q

ueria começar uma conversa sociológi

ca

nem se sentia capaz disso no momento. Ao mesmo tempo sentia que

precisava dizer algo. Luna o olhava, na expectativa da resposta.







Bom, vamos ver





disse.





Não venho pensando muito nis

so,

mas em nossa sociedade há

muitas pessoas descontentes por terem

expectativas altas demais e uma sensação de que têm direito a tudo.

Poucas são as pessoas realmente satisfeitas.







Não entendi





disse Luna.





Deixe

-

me dar

-

lhe um exemplo





continuou Perry.





Se al

guém compra um Ford E

xplorer, não demora

muito vê uma propagan

da de um Lincoln Navigator, que faz o Explorer




parecer a coisa mais feia do mundo.







Não sei o que são essas coisas.







São só coisas. E estamos condicionados através de uma propa

-

ganda infindável a sentir que nunca



temos as coisas certas.







Não entendo esse tipo de cobiça. Não temos nada parecido aqui

em Interterra.







Bom, então fica mais difícil de explicar





disse Perry.





Mas, de

qualquer forma, temos lá em cima muita insatisfação que se mani

festa

especialmente

nas famílias pobres, que têm menos coisas que to

das as

outras, e dentro das famílias as pessoas tendem a descontar umas nas

outras.







Isso é triste





disse Luna.





E assustador.







Pode ser





concordou Perry.





Mas somos condicionados a não

pensar nisso po

rque é isso que impulsiona a nossa economia.







Parece estranho ter uma sociedade que incentiva a violência





disse Luna.





A violência é chocante para nós porque nunca tivemos

nada disso aqui em Interterra.







Nunca?





indagou Perry.







Não, nunca





disse Lu

na.





Jamais vi ninguém bater em nin

-

guém. Isso me dá fraqueza.







Então por que não se senta?





convidou Perry. Bateu levemen

te

com a palma da mão sobre a cama ao seu lado, sentindo

-

se

constrangedoramente



óbvio. Mas Luna se aproximou e se sentou ao lado

d

ele.







Não está se sentindo zonza, está?





indagou Perry, tentando

conversar agora que ela estava tão próxima.





Quero dizer, não vai

desmaiar, ou coisa assim.







Não, estou bem.



Perry olhou os olhos azuis claros de Luna. Par um momento, ficou

mudo. Quando

conseguiu falar, disse:





Sabe, você

é

muito jovem.







Jovem? O que tem isso?







Bom...





disse Perry, escolhendo as palavras. Não sabia bem se




estava se referindo à reação dela a Richard ou à reação dele, Perry, a

Luna.





Quando se é jovem, não se tem a expe

riência de quando se é

mais velho. Talvez não tenha ainda tido tempo para presenciar cenas de

vio

lência.







Olha, não há violência aqui





disse Luna.





Resolvemos que não

haveria. Além disso, não sou tão jovem quanto provavelmente ima

gina.

Que idade acha

que tenho?







Sei lá





gaguejou Perry.





Mais ou menos vinte anos.







Agora você parece aflito.







Acho que estou mesmo um pouco





admitiu Perry.





Você

poderia ser minha filha.



Luna sorriu.







Posso lhe garantir que tenho mais de vinte. Isso o faz se sentir

m

elhor?







Um pouco





admitiu Perry.





Aliás, não sei por que estou tão

nervoso. Tudo aqui é ótimo, mas mesmo assim um tanto enervante.







Entendo





disse Luna. Sorriu novamente e ergueu as palmas

para tocar as dele.



Constrangido, Perry colocou suas m

ãos cont

ra as dela.







Por que estamos fazendo assim com as mãos?





indagou.







É só o jeito como mostramos amor e respeito. Não gostou?







Para mostrar amor, eu prefiro beijos





disse Perry.







Como Richard estava fazendo esta noite?







De um jeito um pouco mais íntim

o do que Richard





disse Perry.







Mostre

-

me como é





pediu Luna.



Perry inspirou, inclinou

-

se e beijou Luna de leve nos lábios. Quan

do

se afastou, Luna reagiu tocando os lábios de leve com as pontinhas dos

dedos, como que deslumbrada pela sensação.





Não go

stou?





indagou

Perry. Luna sacudiu a cabeça.







Não é isso, é que meus dedos e minhas mãos são mais sensíveis

que meus lábios. Mas mostre

-

me mais.






Perry engoliu em seco, nervoso.







Está falando sério?







Estou sim





disse Luna. Aproximou

-

se mais dele e olho

u

-

o com

uma expressão sonhadora.





Eu o acho muito encantador, senhor

presidente da Benthic Marine.



Perry envolveu

-

a com os braços e a puxou para sobre a colcha de

caxemira branca.





Michael estava no sétimo céu. Mura era a mulher dos seus sonhos.

Não podia



ser melhor. Ele nem mesmo se importou com a contínua

presen

ça de Sart. O garoto estava na piscina, deixando

-

o entreter

-

se com

Mura à vontade.



Exatamente quando Michael estava para desmaiar de tanto êxtase,

foi interrompido por uma batida à porta. Tentou

ignorá

-

la, mas final

mente

foi cambaleando até a entrada, nu em pêlo. Sentia

-

se mais em

briagado

ainda quando se erguia.







Quem é o infeliz que está aí?





berrou.







Sou eu, seu amigo Richard. Michael abriu a porta.







Que é que está pegando?







Nada





disse

Richard. Tentou olhar atrás de Michael.





Só achei

que talvez você precisasse de uma mãozinha, se é que entendeu do que

estou falando.



O cérebro embotado de Michael levou alguns segundos para en

-

tender a insinuação de Richard. Olhou de relance para Mura na



cama

redonda, depois para Richard.







Está brincando?





indagou Michael.







Não





disse Richard. Deu um sorriso safado.





Mura





disse

Michael



, importa

-

se se Richard entrar e ficar com a gente?







Só se ele prometer que vai se comportar





respondeu Mura.

Mi

chael voltou a fitar Richard com uma expressão de surpresa exa

gerada.







Você ouviu a moça





disse com um sorriso malicioso. Abriu

mais a porta e deixou Richard entrar no quarto. Quando os dois ho

mens




se aproximaram da cama, Mura estendeu ambas as mãos.







Venham, seus dois primitivos!





disse.





Adoraria pressionar

minhas palmas contra as de vocês.



Os dois mergulhadores trocaram um olhar de desconfiança com

-

preensiva, antes de Michael subir outra vez à cama e Richard arrancar de

qualquer jeito as roupas de



cetim que vestia. Ao se acomodar junto a Mura,

ele disse:







Vocês gostam muito de amor livre, hein?







É verdade





disse Mura.





Temos muito amor para dar. É a

nossa riqueza.



Pouco depois, os dois mergulhadores bêbados estavam

desfalecendo



de prazer nos br

aços de Mura. Não era o sexo propriamente dito, uma vez

que dopados como estavam nenhum deles era capaz de consu

mar o ato,

mas mesmo assim não podiam estar mais satisfeitos.



Sart havia observado a chegada de Richard de onde estava, do ou

tro

lado da pisci

na. Sentia

-

se ao mesmo tempo atraído e repelido por Richard.

Mas estava acima de tudo curioso. Depois de se cansar de na

dar, saiu da

água, secou

-

se, depois foi até o trio em êxtase. Mura sorriu para ele.

Estava com os braços em torno de ambos os mergulhad

ores, que haviam

caído num sono profundo.



Mura fez sinal para que Sart se sentasse na cama. Antes acariciava

de leve as costas de ambos os mergulhadores, mas depois deixou Sart

acariciar Richard. Isso permitia que ela se concentrasse em Michael.



Inicialmen

te, Sart só acariciou as costas de Richard, como Mura fize

-

ra antes, mas, cansando

-

se disso, começou a improvisar. Primeiro

esfregou



o braço e o ombro expostos de Richard. A pele de Richard

pareceu

-

lhe estranha a ponto de ser intrigante. Não era tão firme

quanto a

dos interterráqueos, e tinha muitas curiosas imperfeições minúsculas. Sart

transferiu suas atenções para a cabeça de Richard, onde havia notado um

desbotamento pequeno, de contornos indefinidos, de um vermelho

-

azulado, onde nasciam os cabelos, aci

ma da orelha. Quando Sart se incli

-

nou para examinar essa mancha mais de perto, tocando

-

a

intencionalmente com a ponta do dedo, os olhos de Richard se abriram de

repente.



Sart sorriu para ele com ar sonhador e voltou a acarici

á

-

lo com ter

-




nura.







Mas que m

erda é essa!?





berrou Richard. Deu um tabefe na mão

de Sart, para afastá

-

la. Cambaleante da bebedeira, pulou da cama.



Sart também ficou de pé. Imaginou se a tal marca acima da orelha de

Richard não estaria excessivamente sensível. Talvez não devesse tê

-

la



tocado.



O movimento súbito de Richard foi suficiente para acordar Michael.

Sonolento e atordoado, ele se sentou apesar do braço de Mura, que lhe

restringia os movimentos. Viu Richard cambalear ao lado da cama, fu

-

zilando Sart com o olhar. Sart parecia um

tanto culpado.







Que foi, Richie?





indagou Michael com uma voz pastosa e

áspera.



Richard não respondeu. Em vez disso, passou a mão sobre a cabeça

enquanto continuava a fitar Sart com um ódio mortal.







Que houve, Sart?





indagou Mura.







Toquei na mancha de



Richard





explicou Sart.





Aquela aci

ma

da orelha. Não devia ter feito isso.







Michael, venha cá!





ordenou Richard, ríspido. Com um ges

to,

chamou Michael, para que se afastasse da cama, enquanto andava trôpego

na direção da piscina.



Michael ficou de pé

, sentindo

-

se zonzo daquela soneca breve.

Seguiu Richard. Os dois homens cambalearam para onde não podiam ser

ouvi

dos. Michael sabia que Richard estava extremamente transtornado.





O que está havendo?





indagou Michael, baixinho. Richard passou as

costas d

a mão na boca. Ainda estava fuzilando



Sart com o olhar.







Acho que já entendi por que

esses

caras nem se importam com as

mulheres deles





respondeu Richard, também sussurrando.







Por quê?





indagou Michael.







Acho que são todos um bando de veados.







No dur

o?





Michael voltou a olhar para Sart. Essa possibilida

de

havia lhe passado pela cabeça na festa, ao ver tantos homens andan

do de

um lado para outro de braços dados, mas depois, em meio à empolgação

geral, até se esqueceu.










É, e vou te contar mais uma c

oisa





disse Richard.





Aquele

esquisitinho daquele veadinho ali andou massageando as minhas costas e

a minha cabeça. E eu o tempo todo pensando que era a mulher.



Michael riu, apesar do evidente rancor de Richard.







Não tem graça





disse Richard rispidamen

te.







Aposto que o Mazzola ia achar uma graça danada





disse

Michael.







Se contar isso ao Mazzola, eu te mato





disse Richard, entre os

dentes.







Você e mais dez outros





zombou Michael.





Mas, enquanto

isso não acontece, o que pretende fazer?







Acho que d

evíamos mostrar a

esse

veadinho o que achamos dessa

raça





disse Richard.





O cara passou as mãos em mim de cima até

embaixo, porra. Eu não vou deixar essa passar sem um troco. Acho que

não devemos deixar nenhuma dessas pessoas aqui se iludir sobre os

noss

os métodos de persuasão.







Tá legal





disse Michael.





Estou dentro. O que está tramando?







Primeiro, dá um jeito de tirar a garota daqui





disse Richard.







Ah, essa não! A gente precisa mesmo fazer isso?







Mas sem sombra de dúvida





disse Richard, impacie

nte.





E

pára com essa cara de contrariado. Pode lhe dizer que volte amanhã. O



importante é dar a

esse

camaradinha uma lição, e não queremos nenhu

ma

testemunha. Ela vai berrar feito bezerro desmamado, e a gente vai acabar

encarando dois daqueles clones op

erários.







Está bem





disse Michael. Respirou fundo para tomar cora

gem e

voltou à cama.







O Richard está bem?





perguntou Mura.







Está ótimo





disse Michael.





Mas cansado. Aliás, estamos

ambos cansados. Talvez exaustos seja uma palavra melhor. Além disso

,

estamos de cara cheia, como sem dúvida já deve ter notado.







Isso não me incomoda





disse Mura.





Me diverti à beça.







Que bom





disse Michael.





Mas agora estamos querendo te




perguntar se dá para continuar a pressionar palmas amanhã. Quero di

zer,

talve

z seja hora de você se retirar.







Mas claro





disse Mura, sem hesitar. Imediatamente saiu de

cima da cama e começou a se vestir. Sart também.







Não quero que me entenda mal





disse Michael.





Gostaria que

voltasse amanhã.







Entendo que estejam cansados





d

isse Mura, afável.





Não se

preocupem. Vocês são nossos visitantes, e voltarei amanhã, se for

esse

seu

desejo.



Sart atou o cordão em torno da cintura e voltou a olhar para Richard,

que não havia saído de onde estava, a meio caminho da bei

ra da piscina.







Sart





disse Michael, seguindo a linha de visão do garoto.





Por

que não fica mais um pouco? Richard quer lhe pedir desculpas por

amedrontá

-

lo quando pulou da cama daquele jeito.



Sart olhou para Mura. Ela deu de ombros.







Você é quem sabe, amigo.



Sart volt

ou a olhar para Michael, que sorriu e piscou para ele.







Se os convidados desejam que eu fique, então ficarei





disse Sart.

Voltou à cama com um ar meio fanfarrão e lá se sentou.







Maravilha





disse Michael.Mura terminou de se vestir e se

dirigiu primeiro

a Michael, depois a Richard, para pressionar a palma da

sua mão nas mãos de cada um deles uma última vez. Disse a ambos que

estar com eles lhe havia proporciona

do muito prazer, e que ansiava por

encontrar

-

se com eles no dia seguinte. Antes de fechar a por

ta atrás de si,

ela lhes desejou boa

-

noite.



Depois que o som da porta se dissipou, fez

-

se um breve e

desconfortável silêncio. Richard e Michael ficaram olhando para Sart, e

Sart fitava ora um, ora o outro homem. Sart começou a inquietar

-

se. Pôs

-

se

de pé.







Talvez eu devesse pedir mais bebidas





disse, para começar a

conversa.



Richard deu um sorriso forçado e sacudiu a cabeça. Depois se apro

-

ximou de Sart com uma ginga que sugeria que ele não sabia bem onde




estava pondo os pés.







Que tal mais comida?





disse



Sart.



Richard tornou a sacudir a cabeça. Já estava a um braço de distân

cia

do garoto. Sart recuou um pouco.







Eu e o meu amigo aqui temos uma coisa importante que quere

-

mos lhe dizer





disse

-

lhe Richard.







É verdade





acrescentou Michael. Andou de forma

igualmen

te

instável, contornando a extremidade da cama para chegar perto de

Richard, efetivamente encurralando Sart num canto entre a cama e a

parede.







Vou te dizer de um jeito curto e grosso para que não haja mal

-

entendidos





continuou Richard.





Não su

portamos veados como você.







Aliás, eles nos deixam meio malucos





disse Michael.



Os olhos de Sart deslocavam

-

se rapidamente de um para o outro

rosto embriagado, que escarneciam dele.







Talvez seja melhor eu ir embora





disse Sart, nervoso.







Não antes de

termos certeza absoluta de que sabe do que estamos

falando





disse Richard.





Não sei o que querem dizer com veado





admitiu Sart.







Homossexual, bicha, fresco, essas coisas





disse Richard, num

tom de desprezo.





O termo não importa. O caso é que não gosta

mos de

caras que gostam de homens. E temos a ligeira desconfiança de que você

se encaixa nessa categoria.







É claro que gosto de homens





disse Sart.





Gosto de todas as

pessoas.



Richard olhou para Michael, depois olhou outra vez para Sart.







Também não go

stamos de bissexuais.



Sart disparou para a porta, mas não conseguiu fugir. Richard agar

-

rou um dos braços dele, enquanto Michael agarrava

-

lhe um tufo de

cabelos.



Richard rapidamente prendeu o outro braço de Sart também, e com

uma risada triunfante, segurou



as duas mãos do rapaz contra suas cos

tas.




Sart lutou, mas isso de nada adiantou, principalmente porque Michael

ainda o segurava pelos cabelos. Depois que Sart foi imobiliza

do, Michael

deu

-

lhe um soco no estômago que o fez dobrar

-

se.



Ambos os mergulhador

es soltaram o rapaz, depois riram enquanto

o viam dar alguns passos incertos. Sart estava tentando desesperadamente

recuperar o f

ôlego. O rosto dele ficou roxo.







Tá legal, mariquinha





escarneceu Richard.





Aqui vai um

presentinho por você ter posto suas

patas sujas em mim.



Richard ergueu o rosto de Sart com a mão esquerda e atingiu

-

o com

a direita. Não foi um murro qualquer, mas um violento gancho no qual

colocou toda sua força. Este segundo golpe pegou em cheio no rosto de

Sart, esmagando

-

lhe o nariz e j

ogando

-

o violentamente para trás, de

maneira que, perdendo o equilíbrio, acabou batendo com a cabeça na

quina aguçada de uma mesinha

-

de

-

cabeceira de mármore. Infelizmen

te, a

fria pedra penetrou vários centímetros na parte de trás do crânio do jovem.



Richa

rd, a princípio, não percebeu as conseqüências fatais de seu

violento golpe. Ficou preocupado demais com a dor intensa que sentiu



nas juntas dos dedos, machucadas no golpe. Gemendo, apoiou a mão

ferida na outra e berrou um palavrão.



Michael olhou horroriza

do o corpo flácido de Sart cair inerte. Pe

-

daços de tecido cerebral escorriam da horrível ferida. Subitamente só

brio,

Michael curvou

-

se sobre o garoto atingido, que produzia sons

gorgolejantes.







Richard!





gritou Michael, meio sussurrando, meio em voz al

ta.







Parece que temos um problema.



Richard recusou

-

se a responder. Ainda sentia dor, andava de um

lado para outro pela sala e sacudia a m

ão com os dedos bem abertos.

Michael ficou de pé.







Richard?! Meu Deus do céu! O cara morreu!







Morreu!





repetiu Rich

ard. Aquela palavra definitiva estilha

çou

a concentração de Richard em si mesmo.







Bom, quase. A cabeça dele está com um buraco. Bateu nessa

droga dessa mesa aí.



Richard cambaleou de novo para onde Michael se achava e olhou o




corpo inerte de Sart.







Mas q

ue merda!





exclamou.







Que porra é que vamos fazer agora?





desesperou

-

se Michael.







Por que precisava dar

-

lhe um murro assim tão forte?







Foi sem querer, ouviu?





berrou Richard.







Bom, e o que vamos fazer?





repetiu Michael.







Sei lá





disse Richard.



Ne

sse momento, o corpo maltratado de Sart exalou seu

último sus

-

piro, e o gorgolejar cessou.







Pronto





disse Michael, estremecendo.





Ele morreu! Preci

-

samos fazer alguma coisa rápido!







Talvez devamos cair fora daqui





disse Richard.







Não dá para cair for

a





retrucou Michael.





Para onde a gen

te

iria? Pombas, a gente nem sabe onde está!





Tá legal, me deixa pensar





disse Richard.





Merda, não que

ria machucar o rapaz.







Ah, não mesmo





disse Michael, sarcástico.







Pelo menos a esse ponto, não





disse Rich

ard.







E se alguém entrar aqui?





indagou Michael.







Você tem razão





disse Richard.





Precisamos esconder o corpo.







Onde?





exigiu saber Michael, aflito.







Sei lá!





berrou Richard. Olhou em torno, freneticamente. Depois

tornou a olhar para Michael.





Ac

abei de ter uma idéia que talvez

funcione.







Legal





disse Michael.





O que é?







Primeiro me ajude a levantá

-

lo





disse Richard. Ele se curvou

sobre o corpo, rolou

-

o para um lado, depois meteu as mãos sob os bra

ços

de Sart.



Michael segurou os pés de Sart,



e juntos eles ergueram o garoto do

chão.








1

1

2

2





O novo dia chegou de forma gradativa, exatamente como chegaria

na superfície da Terra. A intensidade da luz aumentou devagar, fazendo

desaparecerem as estrelas no teto escuro e abobadado. A cor dele pas

sou,

em



etapas, do índigo bem escuro para um rosa

-

vivo e finalmente para um

impecável azul

-

celeste. Saranta começou a se movimentar.



Suzanne foi o primeiro dos visitantes vindos da superfície da Terra a

acordar com a chegada da aurora artificial. Enquanto olhava

seu quarto,

notando o mármore branco, os espelhos e a piscina, percebeu,

sobressaltada, que aquela experiência interterráquea surreal não havia

sido um mero sonho.



Vagarosamente, virou a cabeça para o lado e viu, pasmada, a

silhueta adormecida de Garona. E

le dormia de lado, de frente para ela.

Suzanne ficou estarrecida por ter permitido que o homem passasse a noite

com ela. Não era

esse

o seu costume. A única forma pela qual ela se

refreara um pouco havia sido a terminante recusa de tirar a túnica de seda

e



a bermuda. Passara a noite vestida, assim como estavam antes.



Suzanne não sabia se podia atribuir sua decisão de permitir que ele

ficasse à pequena quantidade de cristal que havia bebido, ou se a causa

havia simplesmente sido a bela aparência e as excelen

tes cantadas de

Garona. Por mais que detestasse admitir isso, a atração física era

importante



para ela na hora de se envolver com um homem. Aliás, tinha

sido essa, em parte, a razão pela qual ela havia permanecido enredada em

um caso passageiro com um ator



em Los Angeles, muito depois da rela

ção

ter ido por água abaixo.



Como que sentindo o olhar dela, Garona abriu seus olhos escuros e

líquidos, e sorriu com ar sonolento. Foi difícil para Suzanne sentir

-

se

muito arrependida.







Desculpe se acordei você





con

seguiu dizer. Ele era tão belo à

primeira luz do dia quanto parecera na noite anterior.







Por favor, não se desculpe





disse Garona.





Gostei de ter

acordado, e ver que ainda estou com você.







Como é que você consegue dizer sempre as palavras certas?








dis

se Suzanne. Estava sendo sincera, não sarcástica.







Digo aquilo que gostaria que me dissessem





explicou Garona.

Suzanne concordou com a cabeça, mostrando que entendia. Era uma



variação sensata da Regra de Ouro.



Garona rolou na direção dela e tentou abraçá

-

la. Suzanne esquivou

-

se, passando por baixo do braço dele, e saiu da cama.







Por favor, Garona





disse Suzanne.





Não vamos repetir a noite

passada. Agora, não.



Garona se jogou na cama outra vez e ficou olhando para Suzanne,

um tanto intrigado.







Não ente

ndo sua relutância





disse.





Será que é porque não

gosta de mim?



Suzanne suspirou.







Ora, Garona, com toda essa sua sofisticação e sensibilidade, não

posso imaginar por que é tão difícil para você perceber o motivo. Como

lhe disse ontem à noite, levo um c

erto tempo para conhecer alguém.







O que precisa saber?





indagou Garona.





Pode me fazer

qualquer pergunta pessoal que queira.







Olha





disse Suzanne.





Eu certamente gosto de você. Só o fato

de tê

-

lo deixado dormir aqui já é prova disso. Não costumo agir



assim

com homens que conheço há tão pouco tempo. Mas deixei mes

mo você

ficar, e não me arrependo. Só que não pode esperar muito de mim. Pense

em tudo que ainda estou tentando entender.







Só que não é natural





disse Garona.





Suas emoções não

deviam ser

tão imprevisíveis.







Eu discordo!





replicou Suzanne.





Isso se chama autoproteção.

Não posso ficar por aí permitindo que desejos surgidos de impulsos

momentâneos governem meu comportamento. E você devia fazer o

mesmo. Afinal, não sabe nada sobre mim. Talv

ez eu tenha um marido, ou

um namorado.







Presumo que tenha





disse Garona.





Aliás, ficaria surpreso se

não tivesse. Mas isso não me importa.







Bonito





Suzanne apoiou as mãos nos quadris, desafiadora.










Você não se importa, mas e eu?





Suzanne se deteve.

Esfregou os

olhos ainda sonolentos. Já estava ficando toda excitada, e havia desper

-

tado há apenas alguns minutos.





Não vamos discutir nada disso ago

ra

nesse momento





disse Suzanne.





Esse dia já vai ser bastante desafiador.

Arak prometeu responder às n

ossas perguntas, e, pode ter certeza, eu

tenho muitas.





Ela se dirigiu até um dos muitos espelhos e

cautelosamente entrou na linha de visão de sua imagem. Fez uma ca

reta

ao ver o reflexo. Talvez estivesse completamente transtornada, mas havia

uma coisa q

ue sabia com certeza: não ficava nada bem com aque

le

cabelinho de três centímetros de comprimento.



Garona sentou

-

se na beira da cama e espregui

çou

-

se.







Vocês, humanos de segunda geração, são tão sérios!







Não sei o que quer dizer com "segunda geração"





disse Suzanne.







Mas acho que tenho motivo para estar séria. Afinal, não vim aqui

por vontade minha. Como disse o Donald, fomos abduzidos. E não

preciso lembrar que isso significa ser levado à força.





Como já havia prometido, Arak apareceu logo depois que

o grupo já

havia tomado café, perguntando se todos estavam prontos para a sessão

didática.Perry e Suzanne estavam visivelmente ávidos, Donald estava

menos anima

do, e Richard e Michael, completamente desinteressados.

Aliás, agiram de forma tensa e moderada

, bem diferente do jeito atrevido

de costume. Perry presumiu que estivessem de ressaca e insinuou isso a

Suzanne.







Não duvido





respondeu Suzanne.





Bêbados como estavam,

não seria de se admirar. Como está se sentindo?







Excelente





disse Perry.





Apesar

de tudo. Foi uma noite in

-

teressante. E seu amigo, Garona? Ficou até muito tarde?







Ficou um tempinho





respondeu Suzanne, evasiva.





E a Luna?







Também





disse Perry. Nenhum dos dois olhou o outro nos

olhos.



Assim que o grupo ficou pronto, Arak levou

-

os a

través do gramado

na direção de uma estrutura hemisférica semelhante ao pavilhão, embora

em escala muito menor. Perry e Suzanne acompanhavam Arak. Donald ia




alguns passos atrás deles, e Richard e Michael ainda mais atrás.







Ainda acho que você devia contar



ao Donald





insistiu Michael,

baixinho.





Ele talvez tenha uma idéia do que fazer.







Que merda acha que esse babaca vai fazer?





respondeu

Richard.





O garoto morreu. O Fuller não vai ressuscitá

-

lo.







Talvez ele tenha uma idéia melhor sobre onde deveríamo

s ocul

tar

o corpo





disse Michael.





Tenho medo que o encontrem. Sabe o que

estou querendo dizer. Não quero que você descubra o que fazem aqui

embaixo com os assassinos.



Richard parou de repente.







De quem está falando, de mim?







Ora, você o matou





disse



Michael.







Você também bateu nele





disse Richard.







Mas não o matei





disse Michael.





E a idéia foi toda sua.

Richard olhou o amigo com ódio.







Estamos nisso juntos, seu nojento. Foi no seu quarto. O que me

acontecer, vai acontecer com você também. Está



claro como o dia.





Venham, vocês dois





chamou Arak. Estava segurando uma porta aberta

que dava para o interior do pequeno prédio hemisférico, sem janelas. Os

outros componentes do grupo estavam de pé ao lado e olhando na direção

dos mergulhadores.







Deix

a isso pra lá





murmurou Michael, nervoso.





O caso é que

o corpo está mal escondido. Precisa perguntar ao Donald se ele consegue

bolar um lugar melhor para o colocarmos. Talvez ele seja um ex

-

oficial

babaca, mas é um cara vivo.







Você venceu





disse Richa

rd, relutante.



Os dois mergulhadores apertaram o passo e se reuniram aos outros.

Arak sorriu amavelmente e depois entrou no prédio seguido por Suzanne

e Perry. Quando Donald atravessou a soleira, Richard puxou

-

lhe a man

ga.

Donald arrancou o braço, soltand

o

-

o e fitou Richard com rancor, mas

prosseguiu.







Ei, comandante Fuller!





sussurrou Richard.





Espere aí um

momento.






Donald lançou um olhar de relance para trás, com expressão de

desprezo, endereçado a Richard, e continuou a andar. Arak os guiou ao

longo

de um corredor curvo sem janelas.







Queria me desculpar pelo meu comportamento de ontem à

noite





disse Richard, alcançando Donald, de forma a andar logo atrás

dele.







Pelo quê?





indagou Donald, desdenhoso.





Por ser burro, por

estar bêbado ou por se perm

itir enganar por essa gente?



Richard mordeu o lábio inferior antes de responder.







Talvez os três. Ficamos mesmo num porre de fazer gosto. Mas

não é

esse

o motivo pelo qual quero falar com você.



Donald parou de repente. Richard quase deu um encontr

ão nele.



Michael efetivamente colidiu com Richard.







O que é, marujo?





inquiriu Donald, com uma voz de quem não

admitia baboseiras.





Trate de ir desembuchando. Temos uma palestra

interessante a assistir que não desejo perder.





Bom, sabe o que é...





Richard come

çou, mas aí tropeçou nas palavras, sem saber como começar.

Donald o intimidava, fazendo

-

o deixar de lado as fanfarronices anteriores.







Vamos, marujo





disse Donald, de forma brusca.





Desembuche.







Michael e eu achamos melhor sair de Interterra





disse Ri

chard.







Ah, para dois cabeçudos, vocês até que são inteligentes





disse

Donald.





Imagino que essa súbita iluminação divina tenha ocorrido a

vocês esta manhã. Bom, talvez eu deva lembrar

-

lhes que não sabemos

onde estamos até que Arak decida nos contar. En

tão, uma vez que te

-

nhamos descoberto isso, talvez possamos conversar de novo.





Donald

fez sinal de se retirar. Richard agarrou o braço dele, de puro desespero.

Donald olhou a mão de Richard, furioso.





Solte

-

me antes que eu perca

completamente o controle

.





Mas...





disse Richard.





Pare com isso, marujo!





berrou Donald, interrompendo a

conversa e dando um puxão no braço para soltá

-

lo das mãos de Richard.

Depois, caminhando rapidamente, abaixou

-

se para passar por uma porta

no fim do corredor, atrás dos out

ros.







Por que diabos você não lhe contou?





Michael quis saber, num




sussurro irritado.







Você também não contou





salientou Richard.







Sim, porque você disse que ia falar





disse Michael. Ergueu as

mãos, frustrado.





Grande conversa! Minha avó poderia ter



feito me

lhor.

Agora voltamos ao ponto de partida. E você precisa admitir, aque

le corpo

não está no melhor esconderijo. E se o acharem?



Richard estremeceu.







Detesto pensar nessa possibilidade. Mas foi o melhor que pu

-

demos fazer, diante das circunstânci

as.







Talvez devêssemos ficar o tempo todo no quarto





sugeriu

Michael.





Isso não vai resolver nada





disse Richard.





Vamos! Trate

-

mos ao menos de descobrir onde estamos, para vermos se conseguimos

bolar um jeito de dar o fora.



Os dois homens seguiram Don

ald e se acharam em uma sala futu

-

rista e redonda com nove metros de diâmetro e teto abobadado. Não

havia janelas. Uma única fileira de doze cadeiras anatômicas cercava uma

área central escura e ligeiramente convexa.



Arak e Sufa estavam sentados diretament

e em frente à entrada, em

cadeiras com consoles de controle embutidos nos braços. Imediatamente à

direita de Arak e Sufa se encontravam duas pessoas que os mergulha

-

dores nunca tinham visto antes. Embora esse casal estivesse de branco,

como era o costume,

não eram tão bonitos como os outros interterráqueos.

Suzanne e Perry estavam sentados à esquerda de Arak e Sufa. Donald

estava longe deles, à direita, sozinho, com montes de lugares vazios entre

ele e os outros.







Por favor, Richard, Michael





chamou Arak.







Tomem seus

lugares. Qualquer um que quiserem. E aí começaremos.



Richard fez questão de passar por várias cadeiras vazias e sentar

-

se

ao lado de Donald. Richard cumprimentou

-

o com a cabeça, mas Donald

reagiu mudando o peso do corpo para longe do mergulha

dor. Michael

sentou

-

se ao lado de Richard.







Mais uma vez, sejam bem

-

vindos a Interterra





disse Arak.





Hoje vamos desafiar seus intelectos de forma muito positiva. E enquanto

isso irão logo descobrir como todos vocês tiveram sorte.










Que tal começar nos

contando quando voltaremos para casa?





perguntou Richard.







Cala essa matraca!





rosnou Donald. Arak riu.







Richard, aprecio muito sua espontaneidade e impulsividade, mas

tenha paciência.







Em primeiro lugar, gostaríamos de lhe apresentar dois de nos

sos

cidadãos de destaque





disse Sufa.





Tenho certeza de que irão



achar

muito útil conversar com eles, pois, como vocês, eles também vieram do

mundo da superfície. Permitam

-

me apresentar

-

lhes Ismael e Mary Black.



O casal ficou de pé um momento e cumprimentou

-

os com uma

reverência. Michael aplaudiu por hábito, mas parou de imediato ao

perceber que tinha sido o único a bater palmas. Suzanne e Perry, curio

sos

e de olhos arregalados, fitaram atentamente o casal.







Mary e eu gostaríamos de lhes dar boas

-

vindas tam

bém





dis

se

Ismael. Era um homem consideravelmente alto, com feições acentu

adas,

finas e compridas e olhos bem encovados.





Estamos aqui porque

passamos por aquilo pelo qual estão para passar, e por isso podemos estar

em condições de ajudá

-

los. Como suge

stão geral, eu os incentiva

ria a não

tentar absorver muita coisa rápido demais.



Michael se inclinou para Richard e murmurou:







Acha que ele está se referindo àquele creme para as mãos porreta

que usamos ontem à noite?







Calem

-

se!





Alertou Donald asperame

nte, enfatizando as síla

-

bas.





Se continuarem a interromper, vou ter de lhes pedir que se sen

tem

longe de mim.







Tá legal, falou





disse Michael.







Obrigado, Ismael





disse Arak. Depois, olhando para cada um

dos visitantes, acrescentou:





Espero que você

s todos aprovei

tem bem a

oferta dos Blacks. Sentimos que uma divisão de trabalho poderá ajudar.

Sufa e eu estaremos à sua disposição para fins de pres

tação de

informações, e as questões de adaptação serão respondidas por Ismael e

Mary.



Suzanne chegou mai

s perto de Perry. Havia em seu rosto uma nova

express

ão preocupada.










Como assim, questões de "adaptação"? Quanto tempo acha que

eles pretendem nos manter aqui?







Sei lá





sussurrou Perry. Também estava perplexo diante dessa

mesma insinuação.





Antes de com

eçarmos, gostaria de dar a cada um

dos senhores um telecomunicador e óculos





disse Sufa. Abriu uma caixa

que trou

xera à reunião, e de lá tirou cinco pacotinhos, cada um com um

nome impresso em negrito na parte de cima. Com eles nos braços, foi

distribuin

do

-

os aos seus respectivos donos. Richard e Michael rasgaram as

embalagens dos seus como se atacassem presentes de Natal. Suzanne e

Perry abriram os seus com cuidado. Donald deixou o dele fechado so

bre o

colo.







Parecem óculos e um relógio de pulso sem mo

strador





disse

Michael. Ficou decepcionado. Experimentou os óculos. Tinham for

mato

aerodinâmico e lentes transparentes.







É um sistema telecomunicador





explicou Sufa.





São ativados

por comando de voz, e cada um está regulado para a voz de uma certa

pes

soa, não são intercambiáveis. Vamos mostrar

-

lhes como utilizá

-

los

mais tarde.







O que eles fazem?





indagou Richard. Experimentou os ócu

los

também.







Quase tudo





disse Sufa.





Conectam

-

se com fontes centrais

cujas informações aparecem virtualmente atravé

s dos óculos. Também

permitem comunicação com qualquer habitante de Interterra por visão e

pelo som. Fazem até coisas corriqueiras, como chamar os táxis aéreos, mas

depois falarei mais sobre eles.







Vamos começar





disse Arak. Tocou o teclado sobre o conso

le

diante de si, e a área escura e convexa se tornou azul fosforescente.



"A primeira coisa sobre a qual devemos falar é o conceito do

tempo





disse Arak.





Isso talvez seja o assunto mais difícil para gente

como vocês entender, porque aqui em Interterra o

tempo não é o

construto imutável que aparenta ser na superfície da Terra. Seu cientista,

Sr. Einstein, reconheceu a relatividade do tempo, no sentido que depende

da posição de observação da pessoa. Aqui em Interterra vocês depara

rão

com muitos exemplos de

ssa relatividade. O mais simples, por exem

plo, é

a idade de nossa civilização. Do ponto de vista das referências da



superfície terrestre, nossa civilização é incrivelmente antiga, ao passo que,




de nosso ponto de referência, e daquele do restante do sistem

a so

lar, não é.

Sua civilização se mede em termos de milênios, a nossa, de milhões de

anos, e o sistema solar, em bilhões de anos.







Ai meu pai do céu





reclamou Richard.





Será que vamos ser

obrigados a ficar aqui ouvindo essa ladainha? Pensei que você i

a nos dizer

onde diabos nós estamos.







Se não compreenderem os fundamentos





disse Arak



, o que

vou lhes expor será inacreditável, até sem sentido.







Por que não começamos do fim para o princípio?





sugeriu

Richard.





Diga

-

nos onde estamos, depois o resto

.







Richard!





ralhou Suzanne.





Quieto aí! Richard revirou os

olhos, para Michael ver. Michael mostrou sua impaciência descruzando e

tornando a cruzar as pernas.







O tempo não é uma constante





continuou Arak.





Como eu já

disse, o seu astuto cientista, E

instein, reconheceu isso, mas o erro dele foi

pensar que a velocidade da luz era o limite máximo do movi

mento. Não é

verdade, embora seja necessária uma enorme quantidade de quanta de

energia focalizada para se romper

esse

limite. Uma boa analogia, tirada



da

vida diária, é a quantidade extra de energia necessá

ria para uma mudança

de fase que transforma um sólido num líquido, ou um líquido num gás.

Impulsionar um objeto além da velocidade da luz é como uma mudança

de fase para uma dimensão onde o tempo

é

p

lástico e tem relação apenas

com o espaço.







Cruz

-

credo!





disse Richard, sem pensar.





Isso é alguma piada?

Donald pôs

-

se de pé e se sentou longe dos dois mergulhadores.







Tente ser paciente





disse Arak.





E se concentre no fato de que

o tempo não é uma

constante. Pense nisso! Se o tempo é mesmo relativo,

então pode ser controlado, manipulado e transformado. O que nos leva ao

conceito da morte. Ouçam com toda a atenção! Na superfí

cie da Terra a

morte vem sendo um acessório necessário da evolução, e a evo

lução é a

única justificativa da morte. Mas, uma vez que a

evolução



gerou um ser

cognitivo e sensato, a morte não é mais necessária, passa a ser um

desperdício.



Diante daquela menção a morte, Richard e Michael afundaram

-

se

mais nas poltronas. Perry ergueu

a mão. Arak imediatamente lhe con

-




cedeu a palavra.







Temos permissão para fazer perguntas?





indagou Perry.







Mas é claro





disse Arak, afavelmente.





Isso aqui tem o ob

-

jetivo de ser mais um seminário do que uma palestra. Mas peço

-

lhes que

apenas façam pe

rguntas sobre o que eu já disse, e não sobre o que

imaginam que eu vá dizer.







Você falou em medir o tempo





disse Perry.





Quis dizer que

sua civilização, conforme diz, antecede nossa civilização lá da superfície?







Sem dúvida





disse Arak.





E somos mais



antigos uma quan

-

tidade de tempo quase incompreensível para sua experiência. Nossa

história interterráquea gravada remonta a quase seiscentos milhões de

anos.







Ah, espera aí!





zombou Richard.





Isso é impossível. Isso aí

que você está dizendo é um monte



de abobrinhas. Então vocês já exis

tiam

antes dos dinossauros?







Somos muito mais antigos que os seus dinossauros





confir

mou

Arak.





E sua descrença é inteiramente compreensível. Por isso vamos

devagar com essa introdução a Interterra. Não pretendo me e

x

ceder ao

sublinhar

esse

aspecto, mas é muito mais fácil adaptar

-

se à sua realidade

atual por partes.







Está tudo muito bem





disse Richard.





Mas que tal nos dar

umas provas de todas essas lorotas? Estou começando a achar que todo

esse

lance é uma armaçã

o daquelas bem sofisticadas, e, francamente, não

estou interessado em perder meu tempo sentado aqui.



Nem Donald, nem Suzanne reclamaram daquela interrupção de

Richard. Ambos estavam alimentando reflexões semelhantes, embora

Suzanne certamente não fosse cap

az de manifestar seu ceticismo de um

modo assim tão grosseiro. Arak, porém, permaneceu imperturbável.





Muito bem





disse Arak, pacientemente.





Vamos lhes for

necer algumas

provas em relação às quais possam estabelecer um para

lelo com a história

de sua ci

vilização. Nossa civilização andou observando e registrando o

progresso da sua civilização humana de segunda geração desde o tempo

de sua evolução.







O que quer dizer exatamente com ser humano de segunda ge

-

ração?










Vai entender logo





disse Arak.





Em pri

meiro lugar, va

mos

lhes mostrar algumas imagens interessantes. Como já disse, an

damos

observando o progresso de sua civilização, e até cerca de cinqüenta anos

atrás, pudemos fazer isso à vontade. Desde então, a sofisticação

tecnológica cada vez maior de

sua civilização vem limi

tando nossa

vigilância, que restringimos para evitarmos ser detecta

dos. Aliás, paramos

de usar a maioria de nossas portas de saída antigas, como a que usamos

para

trazê

-

los



a Interterra, ou aquela de Barsama, nossa cidade

-

irmã, a

oeste. Mandamos vedar ambas com magma, mas a inépcia burocrática dos

clones operários impediu a execução do decreto.







Meu Deus, você é mesmo um cara prolixo, hein, meu irmão





disse Richard.





Cadê as provas?







A caverna na qual nosso submersível aportou?







indagou

Suzanne.







Correto





disse Arak.







Ela normalmente fica cheia de água do mar?





indagou Suzanne.







Mais uma vez correto





disse Arak. Suzanne virou

-

se para Perry.







Não admira que o monte submarino Olimpo jamais tenha sido

detectado pelo Geosat.



O monte submarino não tem massa suficiente para

ser captado por um gravímetro.







Ora, vamos!





reclamou Richard.





Já chega de enrolação.

Vamos mostrando as provas!





Certo, Richard





disse Arak,

pacientemente.





Por que não sugere um período da história d

e vocês

que gostariam de observar nos nossos arquivos de referência? Quanto

mais antigo melhor, para que eu possa provar o que digo.



Richard olhou para Michael, pedindo ajuda.







Que tal os gladiadores?





disse Michael.





Vamos ver uns

gladiadores romanos.







O combate entre gladiadores podia ser observado





disse Arak,

relutante



, mas essas gravações violentas se encontram sob censura

bastante severa. Para vê

-

las, seria necessário obter anuência especial do

Conselho de Anciãos. Talvez alguma outra época sej

a mais adequada.







Mas isso é pra lá de ridículo!





exclamou Richard.







Tente se controlar, marujo





atalhou Donald.










Deixe

-

me tentar entender o que você está querendo dizer





disse

Suzanne.





Está insinuando que tem gravações de toda a história humana,

e



quer que escolhamos algum período histórico para poder

mos ver

imagens dele?







Exatamente





respondeu Arak.







Que tal a Idade Média?





sugeriu Suzanne.







Essa é uma era bem grande





disse Arak.





Pode ser mais es

-

pecífica?







Certo





disse Suzanne





Que ta

l a França do século XIV?







Mas vai cair justo na Guerra dos Cem Anos





disse Arak, sem

entusiasmo.





É curioso que até a senhora, Dra. Newell, solicite ima

gens

de uma época tão violenta. Mas, afinal, vocês, humanos de segun

da

geração, têm antecedentes v

iolentos.







Mostre as pessoas se divertindo, não em guerra





disse Suzanne.

Arak tocou o teclado do seu console e depois se inclinou para falar



em um

pequeno microfone no centro dele. Quase de imediato a ilumi

nação da

sala se apagou e a tela do chão criou



vida, enchendo

-

se de imagens

borradas passando a uma velocidade incrível. Fascinados, to

dos se

inclinaram sobre a mureta e ficaram assistindo.Finalmente as imagens

começaram a passar mais devagar, depois pararam. A cena projetada era

nítida e cristalina,



com um colorido na

tural e com três dimensões

holográficas perfeitas. Era de um pequeno trigal no fim do verão, gravada

de uma altitude de cerca de 120 a 150 metros. Um grupo de pessoas havia

interrompido a lida na colheita. As foices estavam espalhadas a

o acaso em

torno de várias toalhas sobre as quais se encontrava servida uma refeição

modesta. O áudio era de ci

garras de verão a ciciar intermitente.







Isso não é interessante





disse Arak depois de dar uma espia

-

da.





Não prova nada. Fora as vestimentas

grosseiras das pessoas, não se

pode identificar a época. Vamos recomeçar a busca.



Antes que alguém pudesse reagir a tela ficou borrada outra vez en

-

quanto milhares de imagens passavam. Olhar aquela luz intermitente e

rápida dava tontura, mas logo ela foi f

icando mais lenta e parou.







Ah, essa é muito melhor





exclamou Arak. Agora a imagem era

a de um castelo erigido numa proeminência rochosa, onde estava

acontecendo alguma espécie de torneio. O ponto de onde as imagens




haviam sido filmadas era bem mais alto



que o da cena anterior. A colo

-

ração da vegetação em torno das muralhas do castelo indicava que esta

-

vam em meados do outono. O pátio estava repleto de gente turbulenta

cujas vozes compunham um murmúrio atenuado. Todos estavam traja

dos

com vestes medieva

is coloridas. Flâmulas com brasões drapejavam ao

vento. Em cada extremidade de uma cerca longa e baixa que passava pelo

centro do pátio, dois cavaleiros acabavam de se preparar para uma justa.

Seus cavalos ajaezados com capas coloridas estavam de frente um



para o

outro,

escavando



o solo, de excitação.







Como foi que filmaram isso?





indagou Perry. Estava hipnoti

-

zado pela imagem.







É um gravador padronizado





disse Arak.







Quero dizer, de que ponto de observação?





insistiu Perry.





De

algum tipo de helicóp

tero?



Arak e Sufa riram.





Desculpe as risadas





disse Arak.





Helicópteros são veículos feitos com base na sua tecnologia. Não com a

nossa. Além disso, um veículo assim seria i

n

vasivo demais. Essas imagens

foram feitas por uma nave antigravitacional pequen

a, silenciosa, não

tripulada, pairando a cerca de seis mil e quinhentos metros de altura.







Ei, lá em Hollywood fazem isso o tempo todo





disse Richard.







Grande coisa! Isso não prova nada.







Se isso for cenário, é o mais realista que já vi





disse Suzanne

. Ela

se inclinou mais para ver melhor. Pelo que sabia, Hollywood não

conseguiria atingir aquele grau de detalhismo.



Enquanto assistiam à cena, os escudeiros dos cavaleiros de armadu

-

ra recuaram, e os guerreiros baixaram as lanças. Com um cristalino som

de



trombetas, os dois cavalos avançaram de lados opostos da cerca de

troncos. À medida que se aproximavam um do outro os aplausos da

multidão aumentavam de intensidade. Aí, logo antes dos cavaleiros se

tocarem, a tela ficou branca. Um momento depois voltou a

o azul

fosforescente inicial. Depois surgiu uma janela com a seguinte mensa

gem:

"Cena censurada. Solicitar permissão ao Conselho de Anciãos."







Droga!





exclamou Michael.





Eu já estava envolvido no lance.

Quem foi que venceu afinal: o cara de verde ou o

de vermelho?







O Richard está certo





disse Donald, de repente, ignorando




Michael.





Estas cenas podem ser montadas com facilidade demais.







Talvez





disse Arak, sem se mostrar nem um pouco ofendido.







Mas posso lhes mostrar o que quiserem. Não seríamos ca

pazes de

encenar todo o complemento da história da primeira geração condi

-

cionado ao desejo momentâneo de vocês.







Que tal uma coisa mais antiga?





sugeriu Perry.





Que tal a

época neolítica no mesmo ponto onde era o castelo?







Excelente idéia!





disse Ara

k.





Vou fornecer as coordena

das

sem uma época específica, além de, digamos, antes de dez mil anos atrás,

e deixar o programa de busca verificar se há alguma imagem ar

-

mazenada.A tela voltou a exibir imagens que passavam em ritmo célere.

Dessa vez a luz i

ntermitente durou muito mais tempo.



Suzanne tocou o braço de Perry. Inclinou

-

se para ele quando ele se

virou para ela.







Acho que o que estamos vendo são imagens autênticas





disse

Suzanne.







Eu também





disse Perry.





Sabe

-

se lá que tecnologia se em

-

prego

u para gravá

-

las!







Não estou pensando muito na tecnologia, mas no fato de que

esse

lugar existe mesmo





sussurrou Suzanne.





Não estamos sonhan

do tudo

isso.







Ah!





comentou Arak.





Acho que a busca encontrou algo. E a

época deve ser vinte e cinco mil an

os atrás.





Enquanto falava, as

imagens foram passando mais lentamente até pararem outra vez.



O cenário era a mesma saliência rochosa, mas sem o castelo. Em vez

disso, no alto do morro, se via uma escarpa curta escavada no cen

tro,

formando uma caverna não



muito profunda. Agrupada em torno da

entrada da caverna via

-

se um grupo de homens de neandertal, vesti

dos

com peles de animais e confeccionando implementos rudimen

tares.







Parece o mesmo lugar, sim





comentou Perry.



Enquanto todos assistiam, a imagem au

mentou, mostrando mais de

perto a cena dom

éstica.







E as imagens são mais nítidas





acrescentou Perry.










Naquela época não nos importávamos que vissem nossas

naves





explicou Arak.





E por isso não havia problema em nos

aproximar

mos até uns trinta metros,



mais ou menos, para estudarmos o

compor

tamento.



Enquanto todos assistiam à seqüência, um dos homens de

neandertal endireitou

-

se depois de raspar uma pele. Enquanto se erguia,

por acaso olhou diretamente para cima. Quando olhou, seu rosto

animalesco fi

co

u subitamente pálido, e a boca escancarou

-

se, num misto

de surpresa



e terror. A imagem da tela estava próxima o suficiente e nítida

o bastan

te para revelar seus grandes dentes quadrados.







Bem





comentou Arak



, aí

está

um exemplo de um caso em

que nosso

disco antigravitacional de controle remoto foi visto. Esse pobre

coitado provavelmente pensa que está recebendo uma visita dos deuses.







Minha nossa





disse Suzanne.





Ele está tentando chamar a

atenção dos outros para que olhem para cima também!







A lingu

agem deles era muito limitada





disse Arak



, mas sei

que havia outra subespécie nesta mesma época e na mesma área, apro

-

ximadamente, à qual vocês deram o nome de Cro

-

Magnon. A capaci

dade

lingüística deles era muito melhor.



O neandertal grunhia e pulava a

pontando para a câmera. Logo o

grupo inteiro já estava olhando para o céu. Várias mulheres que traziam

consigo filhos pequenos imediatamente os puseram no colo e desapare

-

ceram na caverna, enquanto outras fugiam.



Um homem mais ousado se curvou, pegou uma p

edra do tamanho

de um ovo e arremessou

-

a para o c

éu. O míssil foi se aproximando, depois

passou pela lateral do campo de visão da câmera.







Nada má, a pontaria do cara





disse Michael.





O Red Sox

podia contratá

-

lo como arremessador.



Arak tocou o seu conso

le, e a imagem desapareceu. Ao mesmo tem

-

po, as luzes da sala se acenderam. Todos voltaram para suas cadeiras.

Arak e Sufa olharam em torno. Os visitantes estavam todos calados por

enquanto, at

é Richard.







Qual foi a data aproximada dessa gravação?





indag

ou Perry,

afinal.



Arak consultou seu console.










No seu calendário, seria o dia 14 de julho de 23.342 antes de

Cristo.







Vocês não se incomodavam de que a câmera fosse vista?





indagou Suzanne. A imagem do rosto do neandertal não lhe saía da

cabeça.





Estáva

mos começando a nos preocupar com a possibilidade de

sermos detectados





concordou Arak.





Nossa ala conservadora che

gou

até a falar em eliminar os seres cognitivos da face da Terra nessa época.







Por que vocês se incomodariam com gente tão primitiva?





i

ndagou Perry.







Puramente para evitar a detecção





disse Arak.





É óbvio que

vinte e cinco mil anos atrás, devido ao primitivismo de sua civilização,

isso não importava. Mas sabíamos que iria, com o tempo. Sabemos que

nossas naves têm sido ocasionalmente a

vistadas até mesmo em sua épo

ca

moderna e isso nos preocupa, sim. Felizmente, essas visões vêm sen

do em

sua maioria encaradas com descrença, ou, então, os que acreditam

imaginam que nossas naves interplanetárias vêm de algum outro lugar do

universo, não

de dentro da própria Terra.







Espere aí um segundo





disse Donald, de repente.





Não gosto

de jogar água fria na fervura de ninguém, mas não creio que esse

espetaculozinho que vocês estão encenando aqui esteja provando algu

ma

coisa. Seria moleza criar tudo



isso com imagens geradas em compu

tador.

Por que não pára com essa enrolação toda e simplesmente nos diz quem

representa e o que quer de nós?



Durante um momento, ninguém disse nada. Arak e Sufa inclina

ram

-

se um para o outro e deliberaram entre si baixinh

o. Depois

conferenciaram



com Ismael e Mary. Depois de uma reunião breve aos

cochichos, os anfitriões voltaram a se recostar nos encostos das cadei

ras.

Arak olhou diretamente para Donald.







Sr. Fuller, seu ceticismo é totalmente compreensível





disse

Arak.







Não sabemos se os outros suspeitam de nós como o senhor.

Talvez eles possam influenciar sua opinião mais tarde. Naturalmente, irão

sendo apresentadas mais provas à medida que for se desenrolando esta

apresentação para introduzi

-

los ao nosso mundo, e ten

ho certeza de que

se convencerá. Enquanto isso, gostaríamos de solicitar que te

nha paciência

durante só mais algum tempo.Donald não respondeu. Simplesmente

fuzilou Arak com o olhar.










Vamos seguir adiante





disse Arak.





E permita

-

me apre

sentar

-

lhes um r

esumo da história de Interterra. Para isso, precisa

mos começar

no seu mundo, a superfície da Terra. A vida por lá começou por volta de

quinhentos milhões de anos depois que a Ter

ra se formou, e levou vários

bilhões de anos para se desenvolver. Os cientis

tas de seu mundo sabem

bem disso. O que não sabem

é

que nós, humanos de primeira geração,

evoluímos cerca de quinhentos e cinqüenta milhões de anos atrás, durante

a primeira fase da evolu

ção. O motivo pelo qual seus cientistas não

tomaram conhecimento des

sa primeira fase é que quase todo o registro

fossilizado dela desa

pareceu durante uma época que chamamos de

Período das Trevas. Mas falaremos disso depois. Primeiro precisamos

mostrar algumas imagens desses primeiros tempos de nossa civilização,

mas a qua

li

dade não é boa.



A luz diminuiu de intensidade progressivamente. Na escuridão

cres

cente Suzanne e Perry se entreolharam, mas nada disseram. A atenção

dos dois se voltou em breve para a tela do chão. Depois de outro inter

valo

de luz intermitente, aparec

eu uma cena tomada ao nível dos olhos,

mostrando um ambiente semelhante ao que os visitantes haviam visto em

Interterra. A principal diferença era que os edifícios eram brancos em vez

de negros, embora as formas fossem semelhantes. E o povo pa

recia

compos

to de seres humanos normais





não eram todos lindos e estavam

ocupados em diversas tarefas diárias.







Observando estas cenas, somos forçados a sorrir diante de nos

so

próprio primitivismo





disse Sufa.







Sem dúvida





concordou Arak.





Não tínhamos clones o

pe

-

rários naqueles tempos antigos.



Suzanne pigarreou. Estava tentando se situar diante de tudo que

Arak estava dizendo. Como cientista terráquea estava constatando que a

palestra dele entrava em conflito com tudo que ela sabia sobre evolu

ção

em geral e a

evolução humana em particular.





Está querendo dizer que

essas imagens que estamos vendo são de quinhentos e cinqüenta milhões

de anos atrás?







Exato





respondeu Arak. Reprimiu uma risada. Ele e Sufa evi

-

dentemente estavam se divertindo diante das palhaçada

s de um deter

-

minado indivíduo para erguer um bloco de pedra.



"Desculpem

-

nos por achar isso tão engraçado





disse ele.





Já faz




um bom tempo que não assistimos a nenhuma dessas seqüências. Isso era

quando tínhamos alguma coisa parecida com as nacionalidade

s que vocês

têm, embora elas hajam desaparecido depois dos primeiros cin

qüenta mil

anos de nossa história. As guerras desapareceram ao mesmo tempo, como

devem estar imaginando. Como podem ver, a superfície da terra era

muito diferente do jeito que é agora

, e é essa aparência que recriamos aqui

em Interterra. Naquele tempo havia apenas um supercontinente e um

superoceano."







O que aconteceu depois?





perguntou Suzanne.





Por que sua

civilização resolveu viver debaixo da terra?







Por causa do Período das Tre

vas





disse Arak.





Nossa civili

-

zação já tinha quase um milhão de anos de progresso pacífico até come

-

çarmos a perceber processos potencialmente ameaçadores ocorrendo em

uma galáxia próxima à nossa. Dentro de relativamente pouco tempo,

ocorreu uma série d

e explosões cataclísmicas que deram origem a

supernovas, literalmente cobrindo a Terra com tempestades de radiação

suficientes para dissipar a camada de ozônio. Podíamos ter resolvido isso,

mas nossos cientistas também reconheceram que

esses

eventos galáct

icos

perturbavam também o delicado equilíbrio da população de asteróides do

sistema solar. Ficou óbvio que a Terra receberia chuvas de colisões de

planetóides, exatamente como ocorreu quando ela se encon

trava em seu

estado primordial.







Caramba!





gemeu R

ichard.





Não dá mais para agüentar essa

conversa.







Cale a boca, Richard!





ordenou Suzanne rispidamente sem ti

rar

os olhos de Arak.





Então Interterra se mudou para debaixo da terra.





Exato





confirmou Arak.





Sabíamos que a superfície da terra se torna

ria

inabitável. Foi uma era de desespero. Procuramos outro lar em todo o

sistema solar, sem êxito, e ainda não havíamos desenvolvido a tecnologia

do tempo, para podermos procurar em outras galáxias. De

pois, chegou

-

se

à conclusão de que nossa única chance

de sobreviver seria nos mudarmos

para a zona subterrânea, ou, para ser mais exato, para de

baixo do oceano.

Como detínhamos essa tecnologia, conseguimos fazer a mudança num

prazo miraculosamente curto. E em pouco tempo, depois que nos

mudamos, o mundo conf

orme o conhecemos foi consumido por uma

radiação mortal, por um bombardeio de asteróides, e por movimen

tos

sísmicos. Foi bastante perigoso, mesmo sob a superfície do oceano, porque




a certa altura o oceano quase evaporou devido ao calor intenso. Todas as

f

ormas de vida da Terra foram destruídas, exceto algumas bacté

rias

primitivas, alguns vírus e um certo número de algas verde

-

azuladas.



De repente a tela ficou branca, e a sala se iluminou de novo. Todos

permaneceram calados.







Bom, foi isso





disse Arak.





Uma cápsula concentrada da

história e dos conhecimentos científicos de Interterra. Agora, tenho certeza

de que querem fazer algumas perguntas.







Quanto tempo durou o Período das Trevas?





indagou Suzanne.







Pouco mais de vinte e cinco mil anos





respondeu



Arak.

Suzanne sacudiu a cabeça, perplexa e descrente, mas tudo aquilo



fazia um

pouco de sentido do ponto de vista científico. E o mais im

portante é que

explicava a realidade que ela presenciava naquele mo

mento.







Mas vocês ficaram sob o oceano





disse P

erry.





Por que seu

povo não voltou para a superfície da Terra?







Por dois motivos principais





disse Arak.





Em primeiro lu

gar

tínhamos tudo de que necessitávamos e havíamos nos acostumado a

nosso ambiente. E o segundo motivo foi que, quando a vida na su

per

fície

evoluiu de novo, as bactérias e os vírus que se desenvolveram eram

organismos aos quais jamais havíamos sido expostos. Em outras

palavras

,

quando o clima chegou a permitir que reemergíssemos, a biosfera era

contrária a nós do ponto de vista antig

ênico. Talvez letal seja uma palavra

melhor, a menos que quiséssemos passar por uma adaptação muito

custosa. E então, ficamos aqui até hoje, muito contentes e feli

zes,

principalmente porque aqui, sob o oceano, não estamos sujeitos aos

caprichos da naturez

a. De todo universo que visitamos até agora, este

pequeno planeta é o que melhor se adapta ao organismo humano.







Agora entendo por que precisamos passar por uma descontami

-

nação tão exaustiva





disse Suzanne.





Tínhamos que ficar totalmen

te

isentos de mi

croorganismos.







Exato





disse Arak.





E ao mesmo tempo precisavam adap

tar

-

se

aos nossos organismos.







Em outras palavras





continuou Suzanne



, a evolução ocor

reu

duas vezes na Terra, sendo o resultado essencialmente o mesmo.







Quase o mesmo





corrigiu

Arak.





Houve algumas diferen

ças




em algumas espécies. A princípio ficamos surpresos com isso, mas depois

fez sentido, uma vez que o DNA original é o mesmo. A vida multicelular

evoluiu a partir das mesmas algas verde

-

azuladas em am

bos os casos,

aproximada

mente nas mesmas condições climáticas.







E é por isso que vocês se denominam seres humanos de primei

ra

geração





disse Suzanne





e nos chamam de humanos de segunda

geração.



Arak sorriu de satisfa

ção.







Contávamos que entendesse tudo isso tão rapidamente q

uanto

entendeu, Dra. Newell





disse.



Suzanne virou

-

se para Perry e Donald.







Estudos científicos confirmam uma parte de tudo isso





disse.





Tanto os indícios geológicos quanto os oceanográficos sugerem que houve

um único continente na Terra antigamente, d

enominado Pangéia.







Perdão





disse Arak.





Não tenho a intenção de interrompê

-

la,

mas isso não corresponde a nosso continente original. Pangéia vol

tou a se

formar durante a última parte das perturbações geológicas do



Período das

Trevas. Nosso continente

sofreu uma destruição total na astenosfera antes

disso.



Suzanne indicou que entendia, com a cabe

ça.







Muito interessante





disse ela.





E deve ter sido

esse

o moti

vo

pelo qual o registro fóssil da primeira evolução se perdeu.



Arak sorriu, satisfeito, uma

segunda vez.







Sua compreensão desses conhecimentos básicos é



bastante

encoraj

adora, Dra. Newell. Mas já havíamos percebido isso antes que

chegasse aqui.







Antes que eu chegasse?





indagou Suzanne.





O que quer dizer

com isso?







Nada





acrescentou Arak, ma

is que depressa.





Absoluta

mente

nada. Talvez devêssemos recordar a seus colegas que foi o rom

pimento de

Pangéia que levou à formação da configuração atual dos continentes.







É verdade





concordou Suzanne enquanto olhava Arak, ansio

sa.

Tinha a sensação

incômoda de que Arak estava escondendo algo dela.




Olhou para Donald e Perry e imaginou até que ponto estavam entenden

-

do aquilo. A apresentação de Arak estava claramente além da capacidade

de compreensão de Richard e Michael. Ambos pareciam estudantes

ente

diados.







Bom, gente





disse Arak, procurando manifestar certo entu

-

siasmo esfregando as mãos uma na outra



, imagino como devem es

tar

reagindo a todas essas informações. É uma experiência atemorizante ver

contestadas todas as suas idéias preconcebidas e

aceitas. É por isso que

vimos insistindo em introduzi

-

los devagar no nosso mundo. Arris

caria o

palpite de que já receberam bastantes informações por meio de palestra,

talvez até demais. A essa altura, acho que seria melhor lhes mostrar

algumas das nossas

formas de viver em primeira mão.







Quer dizer que vai nos levar à cidade?





indagou Richard.







Se isso for do gosto de todos





disse Arak.





Estou dentro





disse Richard, ávido.







Eu também





disse Michael.







E o restante de vocês?





indagou Arak.







Eu vou





disse Suzanne.







É claro que vou





disse Perry quando Arak olhou para ele.

Quando foi a vez de Donald, ele simplesmente confirmou com a cabeça.







Maravilha





disse Arak.





Agora, se derem a mim e a Sufa

alguns minutos, permanecendo em seus lugares, provi

denciaremos

tudo.





Estendeu a mão para Sufa, e ela também se ergueu. Juntos eles

pas

saram à saleta de reuniões contígua.



Perry sacudiu a cabe

ça.







Estou me sentindo abalado. Essa situação inteira está ficando

totalmente inacreditável.







Não sei se devo a

creditar em alguma coisa





disse Donald.







O irônico é que tudo me parece fantástico demais para não ser

verdade





disse Suzanne.





E tudo faz um certo sentido do ponto de

vista científico.





Olhou para Ismael e Mary Black, que se encontra

vam

sentados pac

ientemente.







Por favor, gente, contem

-

nos sua história. É verdade que vie

ram




do mundo da superfície?







Sim, é





confirmou Ismael.







De onde?





indagou Perry.







De Gloucester, Massachusetts





disse Mary.







Não brinca





disse Michael. Endireitou

-

se na cade

ira.





Ora, eu

também sou de Massachusetts, de Chelsea. Já estiveram lá?







Já ouvi falar





disse Ismael



, mas nunca estive lá.







Todos de North Shore já estiveram em Chelsea





disse Michael,

contendo o riso.





Porque lá fica uma ponta da Ponte Tobin.







Nu

nca ouvimos falar dessa Ponte Tobin





disse Ismael. Os olhos

de Michael semicerraram

-

se de desconfiança.







Como vieram parar aqui em Interterra?





indagou Richard.







Tivemos muita sorte





disse Mary.





Muita sorte mesmo.

Exatamente como vocês.





Estavam mer

gulhando?





indagou Perry.







Não





disse Ismael.





Enfrentamos uma tormenta terrível no

caminho dos Açores para a América. Era para termos morrido afogados

como os outros passageiros do navio. Mas, como disse a Mary, tivemos

sorte, e fomos salvos por acaso

, por um veículo interplanetário

interterráqueo. Literalmente fomos sugados pela mesma porta de saída

que vocês, e depois ressuscitados pelos interterráqueos.







Qual o nome do navio de vocês?





perguntou Donald.







Chamava

-

se

Tempest





disse Ismael



, o que

se revelou bem ade

-

quado, considerando

-

se o destino que teve. Era uma escuna de Gloucester.







Escuna?





indagou Donald, estranhando aquilo.





Em que ano

isso ocorreu?







Deixe

-

me ver se me lembro





disse Mary.





Eu tinha 16 anos.

Então foi em 1801.







Ai meu



Deus do céu





murmurou Donald. Fechou os olhos e

passou a mão na cabeça calva. Havia raspado a cabeça naquela manhã.







E vocês ainda perguntam o motivo do meu ceticismo!?







Mary, isso foi há uns duzentos anos





disse Suzanne.










Eu sei





disse Mary.





É di

fícil crer, mas não é maravilhoso?

Olha como parecemos jovens.







Espera que acreditemos que você tem mais de duzentos anos?







indagou Perry.







Vão levar tempo para entender o mundo no qual se encontram

agora





disse Mary.





Só posso lhes dizer que deviam t

entar evitar

formar qualquer opinião antes de terem visto e ouvido mais. Podemos nos

lembrar de como nos sentíamos quando nos deram essas mesmas

informações. E lembrem

-

se de que para nós tudo foi ainda mais

estarrecedor, uma vez que sua tecnologia evoluiu

muito nos últimos

duzentos anos.







Apóio a Mary nesse conselho





disse Ismael.





Tentem man

ter

em mente o que Arak disse no início da sessão. O tempo tem um



significado diferente aqui em Interterra. Aliás, os interterráqueos não

morrem da mesma forma que

na superfície.







Não morrem o cacete





sussurrou Michael.







Cale essa boca





sussurrou Richard em resposta, entre os dentes.





1

1

3

3





Para Perry e os outros, o táxi aéreo parecia o mesmo que haviam to

-

mado no dia anterior, mas Arak disse que era um modelo mais

recente e

muito superior. Independentemente disso, ele levou o grupo de uma

forma igualmente fácil e silenciosa do terreno do palácio dos visitantes

para a movimentada cidade.







Os imigrantes em geral passam uma semana inteira na sala de

conferências antes



de se aventurarem a sair assim





disse Sufa.





Pode

ser pesado para o intelecto, bem como para as emoções. Esperamos não

estar indo rápido demais com vocês.







Têm alguma idéia a expor a respeito disso?





indagou Arak.





Naturalmente estamos abertos a suge

stões.



Os componentes do grupo se entreolharam, cada qual esperando




que o outro respondesse. Como Sufa havia dito, a situação era de

estarrecer, principalmente com a nuvem de outros táxis aéreos passan

do

rapidamente em todas as direções concebíveis. Só o

fato de não co

lidirem

entre si já era qualquer coisa de espetacular.







Ninguém tem uma opinião?





persistiu Arak.







Tudo aqui é impressionante





admitiu Perry.





Assim, é difí

cil

dar opinião. Mas creio que, do meu ponto de vista, quanto mais eu



vir,

melh

or. O fato de meramente experimentar sua tecnologia, como viajar

nesse táxi aéreo, torna tudo que disse mais aceitável.







O que vai nos mostrar?





indagou Suzanne.







Essa foi uma decisão difícil





disse Arak.





Por isso Sufa e eu

levamos tanto tempo organi

zando tudo. Foi difícil resolver por onde

começar.



Antes que Arak pudesse terminar, o aerodeslizador parou subita

-

mente, depois desceu rápido. Um momento depois, a porta de saída

apareceu onde antes não havia sequer sinal dela.







Como é que a porta se abre



assim?





indagou Perry.







É uma transformação molecular no material compósito





dis

se

Arak. Gesticulou para que todos desembarcassem.



Perry inclinou

-

se para Suzanne quando se levantou.







Bela explicação





reclamou.



O táxi aéreo havia deixado o grupo dian

te de um prédio relativa

-

mente baixo, sem janelas, revestido do mesmo basalto negro que os outros

prédios. Seus lados tinham cerca de trinta metros de comprimento e seis

metros de altura, inclinavam

-

se num ângulo de sessenta graus criando

uma pirâmide trun

cada atarracada. Havia pouco movimento de pedestres.

Mesmo assim, no momento em que apareceram os huma

nos secundários,

começou a formar

-

se uma pequena multidão.







Espero que vocês não se importem de serem celebridades





disse

Arak.





Como tenho certeza de



que perceberam ontem à noite, toda a

Saranta está encantada com a chegada de vocês.



A multidão que estava se reunindo era turbulenta, porém educada.

Os que estavam mais próximos aos visitantes estendiam as mãos ansio

sos,

procurando pressionar as palmas c

om eles. Richard e Michael ado

raram




fazer isso, principalmente com as mulheres. Arak teve que agir como

guarda

-

costas para conseguir fazer o grupo passar pela porta, prin

-

cipalmente os dois mergulhadores. A multidão ficou do lado de fora,

respeitosa.







Es

tou gostando cada vez mais desse lugar





disse Richard.





Que bom





disse Arak.







Todos são muito cordiais





disse Suzanne.







Claro





disse Sufa.





É nosso modo de ser. Além disso, vocês

são extraordinariamente divertidos.



Suzanne olhou de relance para Dona

ld, para ver sua reação. Ele só

meneou quase imperceptivelmente a cabeça, como se suas suspeitas se

confirmassem.



Lá dentro, o grupo se viu em uma enorme sala quadrada com inte

-

rior negro em vez do branco de costume. Era bem simples, sem decora

ção,

nem mo

bília, nem mesmo portas, fora a de entrada. Vários interterráqueos

estavam de pé na sala, de frente para paredes despoja

das. Quando viram

quem havia chegado, começaram a se movimentar.



Arak passou rapidamente com os cinco para uma parte vazia da

parede e

murmurou qualquer coisa no comunicador de pulso. Para es

-

panto do grupo, a parede diante deles se abriu da mesma forma que a

porta do t

áxi aéreo. Arak os arrebanhou para um pequeno cubículo atrás

dela.







Um dia você precisa me explicar como funciona esse m

ecanis

mo

de abertura e fechamento





disse Perry a Arak. Perry pousou a mão na

parede assim que entrou na sala menor porém igualmente vazia. A

textura e a condutividade térmica do material lhe lembraram alguma

coisa semelhante à fibra de vidro.







Certament

e





disse Arak, mas estava ocupado falando no

comunicador. Um momento depois, a parede vedou

-

se e a sala mer

gulhou.



Todos instintivamente se agarraram em quem estivesse mais próxi

-

mo, uma vez que tinham ficado praticamente destituídos de peso.







Meu Deus!







deixou escapar Michael.





A sala está caindo.







É só um elevador





disse Arak.



Todo o grupo de humanos de segunda gera

ção riu, envergonhado.










Ora, como é que eu ia saber?





queixou

-

se Michael. Achou que

os outros estavam rindo dele.





Voltando à decisão



do que lhes mostrar

primeiro





disse Arak.





Sufa e eu resolvemos fazer o contrário do que

talvez vocês fizessem na superfície. Em vez de lhes mostrar a vida do

berço ao túmulo, pen

samos em mostrar

-

lhes a vida do túmulo ao berço.





Arak deu um sorriso ma

licioso ao apresentar essa inversão claramente

ilógica, e Sufa imitou

-

o.







Devemos estar indo para algum lugar muito profundo





disse

Suzanne. Estava preocupada demais pelas cercanias para reagir ao co

-

mentário de Arak. Embora não houvesse ruído nem movime

nto per

-

ceptível, a imponderabilidade comparativa lhes indicava a velocidade de

descida.







Estamos mesmo indo bem fundo





disse Arak.





E, por con

-

seguinte, vai estar meio quente lá embaixo.



Finalmente a velocidade da descida reduziu

-

se, e todos instintiva

-

mente se prepararam. Perry pôs a mão na parede outra vez e sentiu uma

onda térmica antes de sua abertura. Arak e Sufa foram na frente ao saírem.



Corredores profusamente iluminados se estendiam em três direções:

diretamente à frente, e para ambos os lados.



Cada um era um estudo de

perspectiva. Podiam

-

se também ver múltiplos outros corredores orien

-

tados em ângulos retos.



Um pequeno veículo aberto aguardava

-

os próximo ao elevador. Ele

parecia ser fruto da mesma tecnologia do táxi aéreo, uma vez que paira

va

silenciosamente a alguns metros do chão. Arak fez sinal para que todos

entrassem. Perry e Suzanne subiram com Sufa, mas Donald hesitou,

efetivamente impedindo que Richard e Michael subissem. Inspecionou até

onde pôde os corredores aparentemente intermináve

is. Como Arak havia

avisado, o ar estava quente. O alto da cabeça de Donald brilhava de suor.







Por favor





disse Arak, indicando um lugar no pequeno ôni

bus

antigravitacional.







Isso parece uma espécie de presídio





disse Donald,

desconfiado.





Não é presí

dio





garantiu

-

lhe Arak.





Não há presídios

em Interterra.



Michael olhou Richard de relance e fez um sinal com o polegar para

cima.










Se não é presídio, então o que é?





indagou Donald.







É uma catacumba





disse Arak.





Não precisam se preocu

par. É

totalm

ente segura, e só vamos ficar aqui durante o tempo que durar nossa

curta visita instrucional.



Relutante, Donald subiu no ônibus. Estava claro que ele não estava

lá muito mais animado para visitar um cemitério subterrâneo do que

estaria por se encontrar em

uma prisão. Richard e Michael o seguiram.

Depois que Arak se sentou, disse algo ao microfone do console. Dentro de

segundos, já estavam disparando pelo corredor como um trem ex

presso

silencioso, salvo pelo som do vento.



O motivo para usarem o veículo fico

u claro depois de eles terem

viajado alguns minutos. Viajando o mais rápido que podiam a uma

velocidade ampliada pela proximidade das paredes, cobriram uma grande

distância dentro do que se revelou uma imensa malha labiríntica sub

-

terrânea. Depois de um qu

arto de hora e meia dúzia de curvas em ân

gulo

reto estonteantes, o veículo reduziu a velocidade e parou.



Várias saletas saíam de cada corredor, e em uma delas Arak entrou,

conduzindo o grupo. Donald deixou claro que não estava feliz por esítar

tão isolado

, e ficou ao lado da porta.



As paredes da saleta estavam repletas de nichos. Arak foi até um de

-

terminado nicho, na altura do peito, e retirou dele uma caixa e um livro.







Já faz muito tempo que não venho aqui





disse. Espanou a

poeira de cima dos dois obj

etos.





Esta caixa é o meu túmulo.





Ergueu

-

a. Era preta e mais ou menos do tamanho de uma caixa de sapatos.





E

este livro contém a lista das datas de todas as minhas mortes anteriores.







Mas que cascata!





deixou escapar Richard.





Agora quer que

acredit

emos que você ressurgiu dos mortos! E não uma vez, mas várias.

Ora, qual é, compadre!?Suzanne viu

-

se concordando com a cabeça,

enquanto Richard ex

pressava a reação dela. Exatamente quando estava

começando a crer em tudo que estavam lhe dizendo, Arak preci

sava vir

com uma decla

ração que desafiava qualquer tentativa de credulidade. Ela

olhou de relance para Perry para ver se ele havia reagido da mesma forma.

Mas Perry estava hipnotizado pelo livro, que Arak havia colocado em

suas mãos.



Arak abriu com cuidad

o a tampa da caixa, olhou o conteúdo, de

pois




passou

-

o para que todos o examinassem. Suzanne espiou, relutan

te,

incerta do que ia ver. Mas era apenas uma camada de cabelos.



Arak e Sufa sorriram juntos. Era como se estivessem se divertindo

com a confus

ão d

os seus hóspedes.







Permitam

-

me que lhes explique





disse Arak.





Na caixa há um

cacho de cabelos de cada um dos meus corpos anteriores. Os cor

pos em si

foram devolvidos à astenosfera derretida, que não fica distan

te de onde

nos encontramos. Como já deve

m ter imaginado, tudo se recicla em

Interterra.







Não entendi

esse

livro





disse Perry. Folheou algumas pági

nas,

olhando de relance as colunas de números escritos à mão, que não faziam

sentido, pois não eram datas como as do calendário gregoriano. Havia

c

entenas delas, o que tornava tudo mais complicado ainda.







Não pode mesmo entender





disse Arak com um sorriso brin

-

calhão.





Ainda não. Ou pelo menos não até subirmos para a câmara de

processamento principal.





Tirou o livro de Perry e recolocou

-

o no nich

o

junto com a caixa.



Confuso, o grupo seguiu Arak para fora da saleta e voltou a subir no

veículo antigravitacional. A viagem de volta pareceu levar menos tempo

que a de ida, e logo chegaram ao elevador.







Se esperam que aprendamos alguma coisa dessa visit

inha, en

tão

não deu certo





disse Suzanne, ao entrarem no elevador.







Mas vai dar





garantiu

-

lhe Arak.





Tenha um pouco de pa

-

ciência.Saíram do elevador num andar apinhado de seres humanos primá

-

rios, e alguns clones operários. Estava tão cheio que foi di

fícil o grupo

permanecer junto, especialmente quando alguns indivíduos reconhe

ceram

os humanos secundários, da festa da noite anterior, e vieram assediá

-

los,

na esperança de pressionar palmas com eles. Richard e Michael foram os

mais procurados.



Apesar de

ssa multidão, Arak e Sufa acabaram conseguindo levar

seus hóspedes até uma grande tela. Na tela se viam centenas de nomes de

indivíduos seguidos por números de salas e horas. Arak olhou

-

a alguns

momentos, antes de encontrar um nome conhecido.







Ora, vejam





disse Arak a Sufa. Apontou um dos nomes.





Reesta resolveu falecer. Mas que maravilhosa conveniência! E ele reser

vou




a sala trinta e sete. Não poderia ser melhor. É uma das mais novas, com a

aparelhagem de transferência bem visível.







Já era hora dele f

alecer





comentou Sufa.





Ele vem recla

mando

muito daquele corpo, há anos.







Será perfeito para nosso objetivo





disse Arak.







Talvez, tendo decidido isso, eu vá ao centro de fertilização





disse Sufa.





Isso vai me dar chance de preparar as coisas e dize

r aos

clones que o grupo vai aparecer por lá em breve.







Idéia maravilhosa





exultou Arak.





Devemos estar lá antes de

uma hora. Veja se consegue programar para vermos uma emersão mais ou

menos a essa hora.







Vou tentar





disse Sufa.





E que tal levar o gr

upo para nossos

aposentos depois?







A idéia era justamente essa





disse Arak.





Só espero que te

-

nhamos tempo.







Até daqui a pouco





disse Sufa, enquanto tocava palmas de leve

com Arak. Depois se foi.







Muito bem, gente





continuou Arak, voltando ao grupo



,

vamos tentar ficar todos juntos. Se alguém se separar do grupo, é só



perguntar onde fica a sala trinta e sete.





Arak partiu, abrindo cami

nho

entre as pessoas aglomeradas que olhavam a tela.



Suzanne fez questão de ficar perto dele tanto quanto pôde.







"Falecer" é um eufemismo igual ao do nosso mundo?





inda

gou

Suzanne.







Semelhante, seria mais correto





respondeu Arak. Os mergu

-

lhadores lhe chamaram a atenção, pressionando as palmas de todas as

mulheres que viam.





Richard e Michael





chamou.





Por fav

or,

mantenham

-

se perto do grupo! Haverá muito tempo para pressionar

palmas esta noite. Vocês terão tempo de folga.







Vamos testemunhar algum tipo de eutanásia?





indagou

Suzanne, com um pressentimento.







Meu Deus, não!





respondeu Arak.







Ismael e Mary dis

seram que vocês não morrem como nós








comentou Suzanne.







Correto





disse Arak. Depois teve que parar e voltar para onde

Richard e Michael se encontravam rodeados de gente. Enquanto ele li

-

berava os dois mergulhadores, Suzanne chegou perto de Perry.







Não

estou preparada para presenciar nenhuma cena mórbida





disse.







Nem eu





disse Perry.







Talvez devêssemos ter preferido ouvir mais palestras antes dessa

excursão prática





disse Suzanne, tentando fazer um pouco de graça.



Perry soltou uma risada sem gra

ça.



Arak conseguiu fazer Richard e Michael avançarem, e ficou com eles

para afastar os fãs entusiasmados. Suzanne e Perry seguiram

-

nos com

Donald logo atrás. Nessa configuração conseguiram chegar diante da

porta da sala 37.



Perry olhou para o relevo da grande

porta de bronze. Reconheceu

-

o

como o cão de três cabeças, Cérbero, que guardava o mundo dos mortos

na mitologia grega. Surpreso, mencionou

-

o a Arak.





Não o copiamos dos

seus gregos





disse Arak, com um sorri

so.





Não, foi justamente o

contrário.







Quer di

zer que os gregos o copiaram de Interterra?





indagou

Perry.







Exato





disse Arak.







Como assim?





perguntou Perry.







Por causa de uma experiência fracassada





disse Arak.







milhares de anos, um contingente de indivíduos liberais de Atlântida

passou pel

a dura adaptação à superfície com planos grandiosos de mo

-

dificar o desenvolvimento sociológico da superfície da Terra. Infeliz

mente,

foi um fracasso. Depois de várias centenas de anos de tentativas vãs, ficou

dolorosamente óbvio que não havia meio de alt

erar a tendên

cia dos

humanos de segunda geração para a violência. Portanto, aban

donou

-

se

toda a experiência. Mesmo assim, vários legados interterráqueos

restaram depois que a ilha que erigiram afundou, como nossas formas

arquitetônicas, o conceito de d

emocracia e um conheci

mento superficial

de nossa mitologia primitiva, inclusive o Cérbero.










Então houve base real para a lenda de Atlântida





exclamou

Suzanne.







Mas é claro





disse Arak.





Atlântida empurrou para cima uma

das portas de saída em montanha

s submarinas para formar uma ilha logo

diante da entrada do mar Mediterrâneo.







Ei, espera só um pouquinho aí!





protestou Richard.





Va

mos

parar com essa conversa mole! Ou a gente entra ou eu e o Mike vamos

voltar para o salão principal, onde estão rolan

do as coisas le

gais.







Está bem, desculpe





disse Arak. Depois, acrescentou para

Suzanne:





Podemos conversar mais sobre a experiência de Atlântida em

outra ocasião, se quiserem.







Gostaria muito disso





disse Suzanne. Depois, quando Arak

abriu a porta, e

la se inclinou para falar com Perry.





Platão situa a ilha de

Atlântida diante do Estreito de Gibraltar, nos seus

Diálogos.





Verdade?





disse Perry. Mas já estava concentrado nos sons e nas imagens da cena

além da porta de bronze. Estava longe de ser mór

b

ida, como Suzanne

temia. Era uma festa bastante alegre, que fazia lem

brar aquela à qual o

grupo havia comparecido na noite anterior, porém em menor escala. A

sala tinha apenas o tamanho de uma sala de estar grande. As cento e

poucas pessoas, mais ou menos

, que se encontravam reunidas ali estavam

vestidas com os trajes do costume, menos um in

divíduo que se destacava

visivelmente. Estava de vermelho, em vez de branco. Nos fundos da sala,

embutido na parede, havia um enorme equi

pamento em formato de rosca

q

ue lembrou a Perry uma máquina de ressonância magnética. Perto dele

havia uma mesa com uma caixa e um livro semelhantes aos que Arak

havia mostrado ao grupo na catacumba mais abaixo.







Arak!





exclamou o homem de vermelho quando enxergou os

novos visitante

s.





Que surpresa agradável!





Imediatamente pediu

licença às pessoas que estavam conversando e foi até a porta.





E trou

xe

seus pupilos! Sejam bem

-

vindos!







Minha nossa





sussurrou Suzanne a Perry quando o homem de

vermelho se aproximou.





Eu o conheci o

ntem à noite.





Suzanne

lembrou

-

se perfeitamente dele, era um dos dois homens que haviam

vindo falar com ela e Garona.





Ele nem parece que está para falecer.





Para ela, ele parecia ser a própria imagem da saúde e o arquétipo de

atratividade masculina com



seus espessos cabelos negros, a pele impe

-




cável e os olhos cintilantes. Imaginou que ele talvez tivesse trinta e tan

tos

anos.







Isso aqui não parece nenhum velório





comentou Perry.







Obrigado, Reesta





disse Arak.





Achei que não se importa

ria

se nosso

s visitantes presenciassem sua festa. Conheceu

-

os na come

-

moração de ontem à noite?







Tive a honra de conhecer a Dra. Newell





disse Reesta. Cum

-

primentou Suzanne com uma reverência e depois estendeu

-

lhe a palma da

mão.Meio constrangida, Suzanne tocou

-

lhe

a palma com a sua. Ele sor

riu,

radiante.







Deixe

-

me apresentar

-

lhe Perry, Donald, Richard e Michael





disse Arak. Apontou para os homens enquanto falava. Reesta reagiu

fazendo uma reverência para cada um por sua vez. Richard e Michael não

estavam prestand

o muita atenção. Estavam mais interessados nas

convidadas, várias das quais já haviam visto na noite anterior.







Sufa e eu decidimos mostrar aos nossos visitantes um pouco da

nossa cultura





continuou Arak.





Estamos fazendo isso antes de dar

-

lhes muitas e

xplicações. Achamos que pode reduzir a descrença com que

em geral deparamos durante a orientação.







Um plano maravilhoso





comentou Reesta.





Entrem! Por

favor.





Saiu do caminho e fez um gesto gracioso para que entrassem.



"Então eles não fazem idéia do mo

tivo dessa comemoração?





perguntou Reesta enquanto os humanos de segunda geração enchiam a

sala.







Não exatamente





disse Arak.







Ah, mas que inocência maravilhosa





comentou Reesta.





É tão

reanimador!







Mas acabamos de visitar meu nicho





acrescentou Ar

ak.







que eu, propositalmente, não lhes dei uma explicação completa.







Abordagem magnífica





comentou Reesta, enquanto piscava e

dava a Arak uma cutucada com o cotovelo. Depois olhou para o gru

po,

antes de encontrar os olhos de Suzanne.





Hoje é um dia



impor

tante para

mim. Hoje este meu corpo vai morrer.



Suzanne não pôde evitar um recuo diante dessa notícia. Não só o




homem parecia perfeitamente saudável, mas também agia como tal. O

anúncio captou a atenção até mesmo de Richard e Michael.







Ah, mas não

se desesperem





disse Reesta, sorrindo do temor de

Suzanne.





Aqui em Interterra é uma hora razoavelmente feliz, mais uma

inconveniência ou aborrecimento. E para mim já era tempo. Este corpo

aqui foi um abacaxi desde o início. Tive que substituir muitos



ór

gãos e os

joelhos duas vezes. Todos os dias parece que surge um novo problema. E

acabei de ouvir esta manhã que o tempo de espera para um novo corpo

caiu para quatro anos, devido à falta de demanda atual. Por algum motivo,

ninguém anda morrendo ultimamente

.







Só quatro anos!





exclamou Arak.





Maravilhoso! Estava

imaginando por que você decidiu tão subitamente. Na semana passada

mesmo você havia dito que estava pensando em fazer alguma coisa as

sim

nos próximos dois anos.







É uma dessas coisas que nunca par

ece conveniente





disse

Reesta.





Andava adiando isso, preciso admitir. Mas agora não posso

deixar passar essa oferta momentânea de curto prazo de reencarnação.







Me perdoe





disse Perry.





Estou confuso, mas quanto tem

po

vocês vivem aqui em Interterra?







Depende do que deseja saber





disse Reesta, com um brilho nos

olhos.





Há uma grande diferença entre o corpo e a essência em termos

de duração da vida por aqui.







Cada corpo em geral dura de duzentos a trezentos anos





disse

Arak.





Mas pode haver exceçõe

s.







Como tive que aprender do pior jeito





acrescentou Reesta.







consegui fazer este aqui durar cento e noventa. Foi o pior que já tive.







Está insinuando que o dualismo corpo

-

mente existe em

Interterra?





indagou Suzanne.







Sim, de fato





disse Arak.

Sorriu como um pai orgulhoso. Depois,

dirigindo

-

se a Reesta, acrescentou:





A Dra. Newell aprende rápido.







Está na cara





disse Reesta.







De que diabo vocês estão falando?





indagou Richard.







Se ouvisse em vez de ficar aí embasbacado, teria uma idéia me

-

lhor





disse Suzanne.










Perdoe

-

me!





disse Richard, imitando sotaque britânico.







O que entende por "essência"?





perguntou Perry.





Refiro

-

me a

sua mente, a sua personalidade, todo o complemen

to de seu ser espiritual

e mental





disse Arak.





Tudo aquilo q

ue faz de você o que você é. E

aqui em Interterra as essências vivem para sem

pre. São transferidas

intactas de um corpo antigo para um novo.



Suzanne e Perry apresentaram uma torrente de perguntas, depois

Perry tentou dar a vez a Suzanne. Mas Arak ergueu a

s m

ãos para fazer

ambos se calarem.







Lembrem

-

se de que somos intrusos aqui





disse.





Tenho cer

-

teza de que têm muitas dúvidas. É

esse

o objetivo dessa visita. Seria falta

de educação interromper esse momento particular, de forma que darei

maiores explica

ções depois.





Depois se voltou para Reesta.





Obriga

do,

meu amigo. Não incomodaremos mais. Parabéns, e bom descanso.







Não precisa agradecer a mim





disse Reesta.





E uma honra que

tenha trazido esses hóspedes. A presença deles torna a ocasião ain

da mai

s

especial.







Vamos nos comunicar depois





disse Arak.





Quando vai

morrer?





começou a reunir o grupo, para retornarem pela porta.







Um pouco mais tarde





disse Reesta, na maior naturalidade.





Vamos ocupar a sala durante mais algumas horas. Mas aguarde!



Arak parou e se voltou para o amigo.







Acabei de ter uma idéia





disse Reesta, empolgado.





Talvez

nossos hóspedes de segunda geração gostassem de me ver morrer.







É uma oferta muito generosa





disse Arak.





Certamente não

queremos impor nossa presença, ma

s seria muito instrutivo.







Não é imposição nenhuma





disse Reesta, já animado com a

idéia.



Já aproveitei bem a festa, e eles podem continuar sem a minha

presença física.







Então, aceitamos





disse Arak. Acenou para que Richard e

Michael voltassem, uma ve

z que os mergulhadores entediados haviam ido

para o corredor.







Espero que não haja derramamento de sangue





disse Suzanne a

Arak.





Certamente não, em comparação com o que vocês assistem e




chamam de entretenimento lá no seu mundo da superfície





disse Arak

.



Reesta usou o comunicador de pulso antes de dar uma volta pela

sala e pressionar palmas com todos os presentes. Isso causou uma sensa

-

ção cada vez mais forte de empolgação. Depois ele se aproximou da mesa

sobre a qual se encontravam a caixa e o livro. Qu

ando fez isso a multi

dão

começou a aplaudir. Primeiro ele cortou um cacho de cabelos e o colocou

na caixa. Depois escreveu uma data no livro, e os aplausos co

meçaram a

aumentar.



Uma porta apareceu perto da máquina semelhante a um equipa

-

mento de ressonân

cia magnética, e dois clones operários entraram na sala.

Ambos traziam consigo taças douradas que entregaram a Reesta. Reesta

ergueu as taças e a multidão calou

-

se. Depois Reesta bebeu ambas, uma

após a outra.



Depois a multidão aplaudiu. Reesta fez uma rev

erência para os con

-

vidados e até para os humanos secundários. Depois os dois clones o

ajudaram a entrar na porta de noventa centímetros de largura do equi

-

pamento semelhante ao de ressonância magnética. Ele colocou primei

ro os

pés e deslizou para dentro

até a cabeça ficar bem além da borda. Nesse

ponto um espelho foi baixado de forma que Reesta pudesse ver os

convidados e os convidados pudessem ver seu rosto. Depois de um aceno

final, Reesta fechou os olhos e pareceu acomodar

-

se como se dormisse.



Um dos c

lones operários foi até a lateral do equipamento e colocou a

mão com a palma para baixo sobre um quadrado branco. Quase ime

-

diatamente ouviu

-

se um zunido seguido de um brilho avermelhado que

encheu a abertura do aparelho. Um momento depois, o corpo de Rees

ta

enrijeceu

-

se e os olhos se abriram. Esse estado tetânico durou vários

minutos, depois dos quais o corpo de Reesta ficou flácido, seus olhos

afundaram nas órbitas e a boca entreabriu

-

se, mostrando que morrera.



A multidão que murmurava ficou em silêncio.

O brilho

avermelhado dentro da abertura da máquina diminuiu de intensidade e o

zunido foi se



reduzindo. Depois se ouviu um forte som de sucção, seguido

pelo barulho de uma grande válvula se fechando, e o corpo de Reesta

desapareceu. Um minuto estava perfei

tamente visível, no minuto seguinte

já havia sumido. A multidão permaneceu parada e muda. Segundos se

passaram. Suzanne estava confusa emocional e intelectualmente. A morte,

em qualquer forma, a perturbava. Arriscou um olhar para Perry. Ele enco

-

lheu os om

bros, igualmente perplexo.










E aí, já acabou?





indagou Richard.



Arak fez sinal para que ele se calasse e aguardasse.



Michael apoiou o corpo no outro p

é e bocejou.



De repente todos os comunicadores de pulso de todas as pessoas se

ativaram simultaneamente,

inclusive os dos humanos secundários.

Embora Ismael e Mary Black tivessem lhes dado instruções simples para

usar as unidades





que era apenas falar neles num tom exclamativo



,

ninguém ainda os havia experimentado. Então, quan

do a voz de Reesta

saiu deles

, os cinco ficaram estarrecidos.







Alô, meus amigos





disse a voz de Reesta.





Tudo foi muito

bem. A morte foi bem

-

sucedida, e sem complicações. Vejo vocês daqui a

quatro anos, mas não se esqueçam de se comunicar comigo.



Uma aclamação geral saiu da boca do

s humanos primários, e ejes

entusiasticamente tocaram as palmas uns dos outros, obviamente co

-

memorando o evento.







A morte por aqui não é lá grande coisa





sussurrou Michael a

Richard.







É, mas acho que precisa ser desse jeito especial





sussurrou

Richard

.







É um bom momento para nos retirarmos





disse Arak. Tão

imperceptivelmente quanto possível, ele arrebanhou os humanos secun

-

dários para seguirem até o corredor e depois os liderou de volta aos ele

-

vadores. Suzanne e Perry estavam cheios de dúvidas, mas

Arak as adiou.

Estava ocupado demais procurando arrastar Richard e Michael. Donald

estava impassível como sempre.Só quando eles entraram de novo no táxi

aéreo foi possível conver

sar. Mesmo antes da entrada da nave se vedar,

Perry começou:







Temo que esta

visita vá gerar mais perguntas que respostas. Arak

concordou.







Então ela foi eficaz





disse. Colocou a palma da mão na mesa

redonda negra central e disse: "Centro de Fertilização, por favor!" Qua

se

de imediato o disco vedou

-

se, ascendeu, depois disparou

horizontal

mente.







O que exatamente nós testemunhamos ali?





indagou Suzanne.







A morte do corpo atual de Reesta





disse Arak. Ele se recostou e




voltou a relaxar. Não estava acostumado à tensão de estar em público com

um grupo tão grande e não

-

iniciado de



humanos secundários.







Para onde foi o corpo?





indagou Richard.







Voltou para a astenosfera derretida





disse Arak.







E a essência dele?





indagou Perry.



Arak fez uma pausa como se estivesse procurando palavras.







É difícil explicar essas coisas, mas sup

onho que vão entender se

disser que os dados da memória e a personalidade dele foram transferi

dos

para nosso centro informático integrado.







Cacete!





exclamou Michael!





Olha ali na frente daquele prédio!

É uma porra de um Corvette!



Apesar do interesse i

ntenso de todos nas explicações de Arak eles

não puderam deixar de reagir ao entusiasmo de Michael e seguir o dedo

que ele apontava. O que viram foi um Chevrolet Corvette antigo todo

coberto por incrustações de cracas diante do que parecia uma pilha

aleató

ria de blocos infantis.







O que aquele Corvette está fazendo ali?





indagou Michael

quando passaram zunindo por ele.





É um 62





continuou.





Tive um

igualzinho só que verde.







Esse edifício é nosso Museu da Superfície da Terra





explicou

Arak.





O automóv

el é o único objeto que sentimos que simboliza sua

cultura atual.





Está em péssimo estado





disse Michael. Voltou a sentar

-

se.







É óbvio





disse Arak.





Já estava há um bocado de tempo

debaixo da água antes que o recuperássemos. Mas voltando à pergunta de

Perry. Quando o clone operário começou a seqüência de morte, todo o

conteúdo mental de Reesta em termos de memória, emoções,

autoconsciência e até sua forma exclusiva de pensar foram extraídos e

armazenados na íntegra, disponíveis para serem totalmente rec

upera

dos

mais tarde.



Os humanos secundários fitaram Arak com os olhos arregalados,

num silêncio que revelava seu espanto.







Não só a essência de Reesta pode ser recuperada





continuou

Arak.





Pode ser consultado e se pode até conversar com ele por seu




com

unicador de pulso antes que seja recuperada. Ou, melhor ainda, não

só é possível comunicar

-

se com ele, mas também pode

-

se vê

-

lo na

configuração de seu último corpo através do centro de mídia em cada um

dos aposentos de vocês. A Central de Informações gera

uma ima

gem

virtual que combine com qualquer conversa que estejam tendo.







E se alguém morrer antes de chegar à máquina de transferên

-

cia?





indagou Richard.







Isso não acontece





disse Arak.





A morte é um evento pla

-

nejado em Interterra.







Isso é demais

para mim





disse Perry.





O que está nos dizen

do

está tão distante da credibilidade que por enquanto não sei nem o quê

perguntar.







Não estou surpreso





disse Arak.





Foi exatamente esse o

motivo pelo qual eu e Sufa resolvemos começar mostrando a vocês as



coisas em vez de simplesmente relatá

-

las.







Tive muita dificuldade para acreditar que a mente pode ser

transferida





disse Suzanne.





A inteligência, a memória e a persona

-

lidade estão associadas a conexões dendríticas dentro do cérebro huma

no.

O número

é estarrecedor. Estamos falando de bilhões de neurônios com

até mil conexões cada um.





É muita informação





concordou Arak.





Mas não excessi

va, pelos padrões cósmicos. E você está certa quando diz

que as cadeias de neurônios são importantes. O que nossa

central de

informações faz é reproduzir as cadeias dendríticas a nível molecular

utilizando átomos de carbono isomerizados com duplas ligações entre si.

É como uma impressão digital, chamamo

-

la de impressão mental.







Estou perdido





disse Perry.







Não se d

esespere





incentivou Arak.





Lembre

-

se de que

esse é

apenas o começo. Haverá tempo para que você consiga encaixar tudo isso

no seu devido contexto. Além disso, nossa visita de agora ao centro de

fertilização irá lhe mostrar o que fazemos com a impressão m

ental.







O que tem naquele museu da Superfície da Terra pelo qual pas

-

samos?





indagou Donald.



Arak hesitou. A pergunta de Donald havia interrompido a seq

üên

-

cia de seus pensamentos.







Quero dizer, o que exibem, especificamente?





disse Donald.








Além do C

orvette encharcado.







Muitos objetos variados





disse Arak, vagamente.





Uma

amostra das coisas que representam a história e a cultura dos humanos

secundários.







De onde vieram?





indagou Donald.







A maioria do fundo do mar





disse Arak.





Além das tragé

d

ias

marítimas e da guerra, vocês vêm usando o oceano progressiva e

tolamente como lixeira. Ficariam surpresos ao verem o que o lixo revela

sobre uma cultura.







Gostaria de visitá

-

lo





disse Donald. Arak encolheu os ombros.







Como queira





disse.





Você é o



primeiro visitante que apre

-

senta

esse

pedido. Considerando

-

se as maravilhas de Interterra que agora

se encontram disponíveis para você, estou surpreso por estar interessa

do

nisso. Certamente não há nada ali que já não conheça por completo.







Todos são d

iferentes





disse Donald, lacônico.Alguns minutos

depois, o táxi aéreo depositou o grupo nos degraus da frente do centro de

fertilização. Estava instalado num prédio que lembrava o Partenon, só que

era negro. Quando Perry mencionou a semelhança, Arak lhe d

isse que

outra vez era ao contrário, semelhante à adaptação grega de Cérbero, uma

vez que o centro de fertilização dos interterráqueos tinha muitos milhões

de anos de idade.



Como o centro de falecimentos, a estrutura se situava em uma par

te

menos congesti

onada da cidade. Independentemente disso, logo que

apareceram os humanos secund

ários, atraíram outra vez uma multidão,

forçando Arak a dedicar

-

se a fazer manobras para possibilitar o avanço de

Richard e Michael, para que entrassem e se pusessem fora do alc

ance das

mãos ávidas que os humanos primários lhes estendiam.



O interior desse prédio era a antítese do interior do centro de fale

-

cimentos. Era brilhante e branco, como os prédios do palácio dos visi

-

tantes. A outra diferença era que por ali havia muitos

outros clones

operários, correndo atarefados de um lado para outro.



Arak levou o grupo apressadamente até uma sala lateral com um

vasto número de pequenos tanques de aço inox que pareciam biorreatores

em miniatura para Suzanne. Estavam unidos uns aos outro

s por uma

tubulação emaranhada e complicada, formando o que parecia uma linha




de produção de alta tecnologia. O ar era úmido e quente. Vários clones

operários monitoravam diversos mostradores e medidores.







Essa não é a parte mais interessante





disse Arak

.





Mas é

melhor começar do princípio. Esses tanques abrigam nossas culturas de

tecido ovariano e testicular. Os óvulos e espermatozóides são seleciona

dos

aleatoriamente, e seus cromossomos são escaneados para se verifi

car se há

imperfeições moleculares,



sendo em seguida embaralhados

microssomicamente. As células germinativas reformadas são depois

verificadas, antes de serem fertilizadas. Se alguém quiser dar uma es

piada,

há uma janelinha disponível.





Arak apontou um dispositivo binocular

ao longo da li

nha de montagem.Suzanne foi a única que aceitou a oferta

dele. Curvou

-

se e espiou Dentro de uma minúscula câmara abaixo da

objetiva do microscópio, pôde ver um óvulo sendo penetrado por um

espermatozóide ativo. O processo aconteceu rapidamente. Um momento

depois, o zigoto já se

guira adiante, e dois novos gametas foram injetados

na câmara.







Mais alguém?





indagou Arak, depois que Suzanne se ergueu.

Ninguém se manifestou.







Muito bem





disse Arak.





Vamos prosseguir para a sala de

gestação e uma fase mais i

nteressante.





Ele os guiou por toda a sala de

gametas até um ambiente do tamanho de vários campos de futebol lado a

lado. Ali dentro havia numerosas fileiras de prateleiras que sustenta

vam

inúmeras esferas transparentes. Entre as fileiras andavam centena

s de

clones operários verificando cada esfera por sua vez.







Minha nossa!





murmurou Suzanne, quando entendeu o que

estava presenciando.







Os zigotos em replicação que vêm do processo de fertilização são

novamente verificados para se detectar anormalidades



cromossômicas em

nível molecular





explicou Arak.





Uma vez que se determine que estão

isentos de qualquer imperfeição, e tenham atingido o núme

ro necessário

de células, são implantados em uma esfera e podem se desenvolver.







Podemos andar entre as esfer

as?





indagou Suzanne.







Claro





disse Arak.





É por isso que estamos aqui, para que

possam ver com seus próprios olhos.



Vagarosamente, o grupo foi andando por um corredor de centenas




de metros de comprimento com linhas de esferas de cada lado. Suzanne

est

ava fascinada e estarrecida ao mesmo tempo. Cada esfera continha,

colada a sua base, uma placenta roxa escura e amorfa.







Isso tudo é muito artificial





comentou Suzanne.







Sem dúvida





disse Arak.







Toda reprodução em Interterra é feita assim por ectogêne

se?





indagou Suzanne.





Claro





disse Arak.





Não queremos deixar que o

acaso deci

da algo tão importante quanto a reprodução.



Suzanne parou e olhou para um embrião com não mais de doze

centímetros de comprimento. Ela sacudiu a cabeça. Seus minúsculos

braç

os e pernas se moviam como se nadasse.







O processo a perturba?





indagou Arak. Suzanne balançou a

cabeça afirmativamente.







Isso é mecanizar um processo que, creio, deveria ser deixado a

cargo da natureza.







A natureza é impiedosa





disse Arak.





Nós pode

mos fazer

muito melhor, e com todo o cuidado.



Suzanne encolheu os ombros. Não estava a fim de se envolver em

discussões. Começou a andar outra vez.







Parecem com as esferas em que vocês estavam





disse Perry a

Richard e Michael.







Não fode!





exclamou Rich

ard.







Por favor!





berrou Suzanne, irritada, para Richard.





Já es

tou

ficando cansada da linguagem que vocês dois parecem sentir a obri

gação

de usar.







Desculpe ter ofendido sua majestade





replicou Richard.







Esses recipientes são semelhantes, mas não

iguais





disse Arak,

depressa. A última coisa que ele queria era qualquer tipo de altercação no

centro de fertilização.



Suzanne parou abruptamente e espiou dentro de uma das esferas.

Ficou abestalhada com o que viu. Dentro dela havia uma crian

ça que

pareci

a ter pelo menos dois anos de idade.










Por que essa criança aqui ainda está na esfera?





perguntou.







É perfeitamente normal





garantiu

-

lhe Arak.







Normal?





contestou Suzanne.





Em que idade elas são...





procurou a palavra certa





decantadas?







Ainda diz

emos que nascem





disse Arak.





Ou, usando um

termo mais técnico, dizemos que emergem.





Que seja





disse Suzanne.

Ver aquela criança presa na esfera cheia de fluido a fazia estremecer de

náusea. Parecia tão frio, calculista e cruel.





Em que idade as crian

ças são

libertadas?







Preferivelmente, não antes dos quatro anos





respondeu Arak.







Esperamos até o cérebro adquirir maturidade suficiente para

receber a impressão mental. Além disso, não queremos que o cérebro

fique so

brecarregado com dados desorganizad

os mais do que o necessário.



Suzanne trocou olhares com Perry.







Venham





chamou Sufa. Fez sinal para que se apressassem.







Estão para fazer uma emersão. Tentei adiá

-

la o quanto foi

possível; precisam correr.





Sufa virou

-

se e disparou na direção de onde

h

avia vindo.



Arak apressou o grupo para segui

-

la, na intenção de passar rapida

-

mente por uma sala que chamou de sala de impressão, para chegarem à

sala de emersão, mais adiante. Mas Suzanne se deteve na soleira da por

ta

da sala de impressão, abalada pelo e

spetáculo.



A sala era de um quarto do tamanho da sala de gestação. Em vez de

esferas seladas com embriões, o espaço estava cheio de tanques transpa

-

rentes contendo crianças de quatro anos de aparência angelical. Cada

criança estava suspensa em fluido, mas

numa posição fixa. Os cordões

umbilicais e as placentas ainda estavam presentes, apesar das idades re

-

lativamente avançadas das crianças.







Não sei bem se quero ver isso





disse Suzanne quando Arak a

cutucou de leve.



Os outros se reuniram silenciosamente e

m torno do primeiro tan

que,

boquiabertos. A cabeça da criança estava imobilizada como que preparada

para a cirurgia cerebral estereotática. Os olhos estavam aber

tos, assim

mantidos por retratores de pálpebras, e os olhos em si se en

contravam




fixados com



suturas límbicas. De um aparelho parecido com um revólver,

raios de luz eram disparados através da lateral do tanque transparente

dentro de cada uma das pupilas da criança. Os raios pisca

vam com uma

freqüência rápida e alternativa.





O que está acontecend

o aqui?





perguntou Perry. Parecia até tortura.







É perfeitamente seguro e indolor





disse Arak. Reuniu o gru

po e

fez sinal para que Suzanne se juntasse aos outros.







A criança parece estar sendo bombardeada por um revólver de

videogame





disse Michael.







Posso entender por que essa seria sua dedução a partir de sua

cultura violenta





disse Arak.





Mas não poderia estar mais longe da

verdade. Para ampliar a analogia anterior sobre a transferência que usei

no centro de falecimento, essa criança está apenas

recebendo a transfe

-

rência de uma impressão mental de um indivíduo cuja essência estava

armazenada na Central de Informações. O que estão vendo aqui é o

procedimento de recuperação da essência.



Suzanne avançou vagarosamente com a mão sobre a boca. Sentia

-

s

e

como uma criança num filme de terror: com medo de olhar mas incapaz

de tirar os olhos da tela. Enquanto contemplava o garotinho imobiliza

do,

estremeceu. Para ela, a imagem era a corporificação do desvario

biotecnológico.







Como já viram no centro de fal

ecimentos





continuou Arak



,

levamos apenas alguns segundos para extrair a impressão mental. Mas

implantá

-

la são outros quinhentos. Precisamos usar uma técnica primitiva

de laser de baixa energia porque até hoje ninguém descobriu uma rota de

melhor acesso



do que a retina. Naturalmente, a rota retinal faz sentido,

uma vez que a retina é embrionariamente uma evaginação do cérebro. O

proces

so funciona, mas não é rápido. Aliás, pode levar até trinta dias.







Cacetada!





comentou Richard.





O coitado do moleque



tem

que ficar assim amarradinho durante um mês inteiro?







Creia

-

me, não sentem dor nenhuma





disse Arak.







E a essência da criança em si?





indagou Suzanne.







Estamos lhe dando sua essência enquanto conversamos





dis

se

Arak





juntamente com uma extraordi

nária reserva de conhecimento e

experiência.





Sorriu orgulhosamente.Suzanne meneou a cabeça, mas não




para concordar. Via o processo como uma exploração danada. Para ela era

uma espécie de parasitismo, incutir uma alma antiga em um recém

-

nascido inocente.

A impressão mental estava abduzindo o corpo da

criança.







Arak! Depressa!





chamou Sufa, insistentemente, de uma por

ta

do lado oposto da sala.





Estão perdendo o evento!







Vamos!





Arak apressou o grupo.





É importante que vejam

isso. É o produto acabado.



Suzanne ficou feliz por sair da frente daquela imagem inquietante

da criança amarrada. Correu atrás de Arak, evitando propositalmente

olhar para quaisquer outros tanques. Donald, Richard e Michael ficaram

para trás, hipnotizados pela visão. Michael ergueu



o dedo, e estendeu a

mão com a intenção de interromper o raio laser. Donald deu

-

lhe um tapa

na mão.







Pára de fazer besteira, marujo!





resmungou.







É





disse Richard.





O garoto pode perder as lições de piano

dele.





E soltou uma risada.







Isso é esquisi

to pra cacete





disse Michael. Contornou o tan

que

para ver se podia enxergar dentro do tambor da pistola laser.







Bom, veja o lado positivo





disse Richard.





E bem mais fá

cil do

que ir à escola. Se não machuca ninguém, como o Arak diz, até que eu

acho l

egal. Porra, eu detestava ir à escola.



Donald olhou para Richard, desdenhoso.







Como se eu não tivesse adivinhado.



Os três correram para alcançar os anfitriões. Na sala seguinte, en

-

contraram Arak, Sufa, Suzanne e Perry de pé em torno de uma área

revestida



de um estofado de cetim na base de um escorregador de aço

inox. O escorregador vinha de dentro da parede; sua extremidade supe

-

rior estava vedada por portas de vaivém duplas. Sentada no centro da

depressão almofadada estava uma linda menina de quatro anos

, já ves

tida

com os trajes típicos de Interterra. Era óbvio que havia chegado

recentemente, descendo pelo escorregador. Vários clones operários a

estavam ajudando.





Bem

-

vindos, cavalheiros





disse Arak a Donald e

aos mergu

lhadores. Apontou para a meninin

ha.





Quero que conheçam

Barlot.










Oi, docinho

-

de

-

coco





disse Richard numa voz fininha, de um

jeito tatibitate. Estendeu a mão para beliscar a bochecha da menina.







Por favor





disse Barlot ao se desviar da mão de Richard.





É

melhor não me tocar durante

quinze a vinte minutos, porque acabei de

sair do secador. Os nervos do meu integumento precisam de uma opor

-

tunidade de se adaptar ao ambiente gasoso.



Richard recuou.







Esses três homens também são visitantes recém

-

chegados da

superfície da terra





disse A

rak, indicando Donald, Richard e Michael.







Minha nossa





disse Barlot.





Mas que coisa maravilhosa! Cinco

visitantes da superfície ao mesmo tempo. Estou feliz por receber tamanha

h

onra no dia da minha emersão.







Estávamos exatamente dando boas

-

vindas a Ba

rlot, que está

retornando ao mundo físico





explicou Arak.



Barlot confirmou com a cabe

ça.







E é maravilhoso estar de volta.





Examinou as mãozinhas,

virando

-

as e espichando

-

as. Depois deu uma espiada nas pernas e nos pés.

Mexeu os artelhos.





Parece um bom



corpo





acrescentou.





Pelo

menos até agora.





Soltou uma risadinha espremida.







Acho que parece um corpo esplêndido





disse Sufa.





E que

olhos azuis tão lindos! Seu último corpo tinha olhos azuis?







Não, mas o anterior ao último tinha





disse Barlot.





Gosto de

variar. Às vezes permito que a cor dos olhos seja escolhida aleatoria

mente.







Como se sente?





indagou Suzanne. Sabia que era uma per

gunta

idiota, mas, sob aquelas circunstâncias, não conseguiu imaginar mais nada

para perguntar. Estava impression

ada com o marcante con

traste entre a

voz pueril e a sintaxe adulta da garota.







Antes de mais nada, faminta





disse Barlot.





E impaciente.

Estou louca para ir para casa.





Há quanto tempo estava armazenada?





indagou Perry.





Se é que essa é a palavra cer

ta.







Chamamos de ficar na memória





disse Barlot.





E presumo

que foram cerca de seis anos. Era o tempo de espera que divulgaram

quando fui extraída. Mas, para mim, parece que foi do dia para a noite.

Quando estamos na memória nossas essências não são pro

gramadas para




registrar a passagem do tempo.







Seus olhos estão doendo?





perguntou Suzanne.







Nem um pouquinho





disse Barlot.





Creio que está se refe

-

rindo às hemorragias semelhantes a chamas que sem dúvida devo ter na

esclerótica, não é?







Sim





admiti

u Suzanne. Os brancos de ambos os olhos de Barlot

estavam vermelhos, da cor de um caminhão de bombeiros.







Isso foi das suturas de fixação límbicas





disse Barlot.





De

vem

ter acabado de ser removidas.







Lembra

-

se de quando esteve no aquário?





indagou Mi

chael.

Barlot riu.







Jamais ouvi ninguém chamar o tanque de implantação de aquá

rio.

Mas, respondendo a sua pergunta, não. Minha primeira lembrança

consciente neste corpo, e em todos os corpos anteriores, aliás, foi de ter

despertado na esteira transportad

ora do secador.







As experiências de extração, memória e recuperação são

estressantes, sob algum aspecto?





perguntou Suzanne.



Barlot pensou um momento antes de responder.







Não





disse, finalmente.





A única parte estressante é que agora

vou precisar espe

rar até a puberdade para me divertir de verda

de...





Ela

riu, assim como Arak, Sufa, Richard e Michael.







Esta é nossa casa





disse Sufa, de um táxi aéreo que pairava en

-

quanto a porta de saída se materializava. Ela indicou uma construção

semelhante aos c

halés do palácio dos visitantes, porém sem os vastos

gramados. Agrupava

-

se, num estilo à la Levittown, com centenas de



outras exatamente como ela.





Arak e eu achamos que seria instrutivo

para vocês experimentarem como vivemos e talvez fazerem uma refei

çã

o.

Estão todos cansados demais ou gostariam de entrar para nos fazer uma

visita?







Eu aceitaria um rango





disse Richard, ávido.







Eu adoraria ver sua casa





disse Suzanne.





É muito hospita

-

leiro da parte de vocês.







Sinto

-

me honrado





disse Perry.






Donald



simplesmente concordou com um meneio de cabe

ça.







Estou morrendo de fome





disse Michael.







Então, está decidido





disse Sufa. Ela e Arak desceram do

aerodeslizador e fizeram sinal para que os outros os seguissem.



Como os alojamentos do centro de visitant

es, o interior era uni

-

formemente branco





mármore branco com tecido branco e dezenas de

espelhos. Além disso o quarto principal se abria para o exterior com uma

piscina que ia do interior até o exterior. O lugar exibia poucos móveis.

Vários painéis hologr

áficos grandes, como aqueles que o gru

po havia

visto no setor de descontaminação, constituíam a única de

coração.







Entrem, por favor





disse Sufa.



O grupo entrou em fila, observando o ambiente.







Até parece o meu apartamento de Ocean Beach





disse Michae

l.







Ah, corta essa!





zombou Richard, enquanto lhe dava um tapa

no alto da cabeça, de brincadeira.







Todas as casas de Interterra são abertas assim?





indagou Perry.







São, sim





confirmou Arak.





Por mais irônico que possa

parecer, nós que moramos no sei

o da Terra preferimos o ar livre.







Parece meio difícil de trancar





disse Richard.







Não usamos trancas em Interterra





explicou Sufa.







Ninguém rouba nada?





indagou Michael.



Tanto Arak quanto Sufa riram. Depois, envergonhados, pediram

desculpas.





Não ri

mos por querer





disse Arak.





Mas é que vocês são

muito divertidos. Nunca conseguimos prever o que vão dizer. É muito

cativante.







Creio que isso se deve ao nosso encantador primitivismo





disse

Donald.







Exato





concordou Arak.







Não há roubos em Interte

rra





disse Sufa.





Ninguém preci

sa

roubar, porque há bens suficientes para todos. Além do mais, nin

guém é

dono de nada. A propriedade privada desapareceu bem no começo de

nossa história. Nós, interterráqueos, simplesmente usamos aquilo de que




precisamos

.



O grupo sentou

-

se. Sufa chamou os clones operários, que surgiram

imediatamente. Junto com eles veio um dos animais de estimação que os

humanos secundários haviam visto dos táxis aéreos. De perto tinha uma

aparência ainda mais bizarra, sendo uma curiosa m

istura de cão, gato e

macaco. O animal saltou para dentro da sala e foi direto até os visitantes.







Sark!





berrou Arak.





Comporte

-

se!



O animal parou, obediente e, com seus olhos felinos, contemplou os

humanos secundários com uma grande curiosidade. Quand

o ficou de pé

nas patas traseiras, que eram simiescas, com cinco dedos, viu

-

se que tinha

cerca de um metro de altura. Seu nariz canino torceu

-

se ao farejar.







É um animal bem esquisito





disse Richard.







É um homídio





disse Sufa.





Um homídio particularme

nte

bonito, aliás. Ele não é adorável?







Venha cá, Sark!





gritou Arak.





Não quero que incomode

nossos convidados.



Sark imediatamente correu atrás de Arak e, de pé nas patas trasei

ras,

começou a coçar a cabeça do dono.







Bom garoto





disse Arak, satisfei

to.







Sirvam uma refeição aos hóspedes





ordenou Sufa aos clones

operários, que rapidamente desapareceram.





Sark parece

-

se um pouco

com um bando de animais mistura

dos para formar um só





disse Michael.







É uma forma de descrevê

-

lo





disse Arak.





Sark é u

ma qui

-

mera desenvolvida há éons atrás e que vem sendo clonada desde então. É

um animal notável. Será que alguém gostaria de ver um de seus me

lhores

truques?







Claro





disse Richard. Para ele, o animal parecia uma experiên

-

cia biológica frustrada.







Eu ta

mbém





disse Michael.



Arak ficou de pé e fez um gesto para Sark ir para fora. Seguiu o

animal e pediu a Richard e Michael que o seguissem até o pátio. Os

mergulha

dores se levantaram e foram para o jardim, onde encontraram

Arak pro

curando algo nas profund

ezas de uma moita de samambaias.










Muito bem, aqui está um





disse Arak. Ele se ergueu, com um

pequeno graveto emborrachado na mão. Voltou ao gramado.





Vejam,

vocês não vão acreditar nisso. É muito divertido.







Anda, mostra logo!





disse Richard, meio des

confiado. Arak

curvou

-

se e ofereceu o pau a Sark. O animal pegou

-

o com



grande

animação, tagarelando como um macaco. Depois, após descre

ver um

movimento circular com o braço, jogou o graveto para o outro lado do

jardim.



Arak observou o graveto até que toca

sse o chão. Depois se virou

para os mergulhadores.







Grande arremesso, não acham?







Nada mau





concordou Michael.





Pelo menos, para um

homídio.



Os cantos da boca de Richard se moveram, num sorriso ir

ônico.







Esperem até verem o resto





disse Arak.





Só um



segundo.





Arak correu até onde o graveto havia caído, pegou

-

o e trouxe

-

o de volta.

Tornou a dá

-

lo a Sark. O animal voltou a tomar impulso com o braço e a

jogar o graveto aproximadamente no mesmo local. Arak, zelo

samente,

tratou de correr e pegá

-

lo pela

segunda vez. Quando voltou



estava meio

sem fôlego.





Conseguem acreditar nisso?





disse.___Esse



diabinho seria capaz de fazer isso o dia inteiro. Continuará

arremessando o graveto tantas vezes quantas eu for pegá

-

lo.



Os dois mergulhadores olharam um para o



outro. Michael reviro' os

olhos, enquanto Richard abafava uma gargalhada.







A comida está na mesa!





anunciou Sufa lá de dentro. Arak

ofereceu o graveto a Richard.







Quer experimentar?







Acho que não





disse Richard.





Além do mais, estou faminto.







Então



vamos comer





disse Arak, afavelmente. Jogou o graveto

outra vez na moita de samambaia e se dirigiu para dentro de casa, se

guido

por Sark.







Este lugar está ficando cada vez mais esquisito





resmungou

Richard para Michael enquanto margeavam a piscina.










Pode apostar





disse Michael.





Não admira que eles não

tenham se importado quando eu trouxe as taças ontem à noite. Nada

pertence a ninguém. Estou lhe dizendo, podíamos fazer fortuna aqui

embaixo que eles não estariam nem aí.



Junto com a comida, os clones



operários haviam trazido uma mesa

dobrável, que haviam colocado no centro de um círculo formado por sete

espreguiçadeiras. Arak e os mergulhadores se reuniram aos outros. Sark

subiu nas costas da cadeira de Arak e começou a coçá

-

lo atrás das orelhas.

Todo

s se serviram e começaram a comer.







Bom, é aqui que passamos a maior parte do tempo





disse Arak

depois de uma pequena pausa constrangedora. Sentia que os humanos

secundários estavam um pouco confusos por causa dos eventos daquele

dia.





Alguém tem alguma



pergunta a fazer?







O que vocês fazem por aqui?





indagou Suzanne para come

çar a

conversa. Estava mais a fim de bater papo do que de abordar as questões

de maior importância que lhe passavam pela cabeça.







Nós tiramos proveito de nossos corpos e mentes





explicou

Arak.





Lemos muito e vemos muitos programas holográficos.





O povo

de Interterra não trabalha?





perguntou Perry.







Alguns sim





disse Arak.





Mas não é necessário, e aqueles que

trabalham só fazem o que querem. Todo o trabalho subalterno, que co

ns

-

titui a maior parte do trabalho, é feito pelos clones operários. Todo o tra

-

balho de monitoração e controle é feito pelo Centro de Informações. Dessa

forma, as pessoas ficam livres para tratar de seus próprios interesses.







Os clones operários não se in

comodam com isso?





indagou

Donald.





Não fazem greve, nem se revoltam?







Não, de jeito nenhum





disse Arak, com um sorriso.





Os clones

são como... Bom, como seus animais domésticos. Foram feitos de modo a

se parecerem com humanos por motivos estéticos, m

as seus cérebros são

muito menores. Têm função limitada no lobo frontal de forma que suas

necessidades e interesses são diferentes. Adoram traba

lhar e servir.







Parece exploração





disse Perry.







Deve parecer





disse Arak.





Mas é para isso que servem as

máquinas, como os automóveis, na sua cultura, que eu não creio que

vocês sintam que estão explorando. A analogia seria melhor se seus au

-




tomóveis tivessem partes vivas ao lado das partes de máquina. Tenho

certeza de que precisam usar os carros, senão eles

se deterioram. O mesmo

ocorre com os clones operários, só que eles não toleram o lazer. Ficam

deprimidos e regridem sem trabalho nem ordens.







É incômodo para nós





comentou Suzanne





porque pare

cem

muito humanos.







Precisam se lembrar de que eles não são



humanos





replicou

Sufa.







Há tipos diferentes de clones?





perguntou Perry.







A aparência deles é essencialmente a mesma





respondeu

Arak.





Mas existem os servos, os operários e os de entretenimento, do

sexo feminino e masculino. Está na programação.







Com sua tecnologia, por que não usam robôs?





perguntou

Donald.





Boa pergunta





disse Arak.





Tínhamos andróides há muito

tempo, uma linhagem inteira deles, aliás. Mas as máquinas, quando não

têm partes biológicas, tendem a se quebrar e precisam ser conser

tadas.

Precisávamos ter andróides para consertar outros andróides,

ad infinitum.

Era inconveniente, e até ridículo. Foi só quando aprendemos a casar o

biológico com o mecânico que resolvemos

esse

problema. O resultado

definitivo dessa pesquisa e desenvolvi

mento foram os clones operários, e

eles são muito superiores a qualquer andróide. Cuidam de si mesmos

completamente, até o ponto de se consertarem e até se reproduzirem, para

manter sua população num nível estável.







Impressionante





disse Perry, simplesme

nte. Suzanne meneou a

cabeça.



O grupo ficou calado. Quando terminaram de comer, Sufa disse:







Acho que talvez já seja hora de levá

-

los todos para seus aposen

tos

no palácio dos visitantes. Vocês precisam de um pouco de tempo para

processar o que viram e ou

viram. Além disso não queremos sobrecarregá

-

los no seu primeiro dia. Sempre haverá o dia seguinte.





Ela sorriu

benignamente ao se erguer.







Você está certa quando diz que precisamos de tempo





disse

Suzanne, levantando

-

se também.





Acho que já passei do m

eu limite.

Sem nem um pingo de dúvida,

esse

foi o dia mais estarrecedor, eston

teante

e atordoante da minha vida.








Michael hesitou à porta do seu chalé. Richard estava de pé

diretamente atrás dele. Eles haviam acabado de ser deixados ali por Arak

e Sufa.







O que acha que vamos encontrar?





perguntou Michael.







Pelo amor de Deus!





queixou

-

se Richard.





Como é que posso

saber antes de você abrir a porra da porta?



Michael agarrou a maçaneta e a puxou. Os dois mergulhadores

passaram pela porta e deram um olhar



de relance pela sala.







Acha que alguém esteve aqui?





indagou Michael, nervoso.

Richard revirou os olhos.





O que você acha, miolo mole?





disse.





A

cama foi feita e o lugar foi limpo. Olha, alguém até empilhou todos os

pratos e as taças que você trouxe

do baile e do refeitório.







Talvez tenham sido apenas os clones





disse Michael.







É possível





disse Richard.







Acha que o corpo ainda está lá onde nós o colocamos?







Bem, nós certamente não vamos saber até olharmos





disse

Richard.







Tudo bem, deixa que

eu vejo.







Espere!





Richard disse, agarrando o braço de Michael.





Primeiro vou ver se a barra está limpa.



Richard olhou em torno, além da piscina, e rapidamente se satisfez.

Ninguém estava por perto, e ele se reuniu ao amigo.







Tá legal, pode ver como es

tá o corpo.



Michael se posicionou rapidamente diante do arm

ário que ficava em

frente à cama.







Bebidas, por favor!





ordenou.



A porta da geladeira se escancarou. O aparelho estava repleto de

v

ários recipientes de bebida e comida.







Parece que está como o d

eixamos





disse Michael.







Isso é bom





disse Richard.






Michael curvou

-

se e removeu vários recipientes, expondo o rosto

branco de Sart. Os olhos sem vida miravam Michael, acusadores. Michael

rapidamente meteu os recipientes de volta na geladeira para oculta

r aque

-

la horrível imagem. O corpo de Sart fora o primeiro defunto que Michael

vira além do de seu avô. Mas o avô foi colocado em um caixão, vestido

com um

smoking.

Além do mais, o velho tinha 94 anos.







Bom, essa foi um alívio





disse Richard.







Por enqua

nto





disse Michael.





Mas isso não significa que eles

talvez não o encontrem esta noite ou amanhã. Talvez devêssemos levá

-

lo

para fora e enterrá

-

lo em uma dessas moitas de samambaias.







Que diabo vamos usar para cavar, colheres de chá?





indagou

Richard.





Talvez então tenhamos que levá

-

lo para o seu chalé e colocá

-

lo

na sua geladeira. Ficar com ele aqui me dá calafrios.







Não vamos arriscar levá

-

lo de um lado para outro





disse

Richard.





Deixe ele aí onde está.







Então vamos trocar de aposentos





sugeriu

Michael.





Lem

bre

-

se de que foi você quem o matou, não eu.



Os olhos de Richard semicerraram

-

se amea

çadoramente.







Já tivemos essa conversa





disse ele, devagar.





E ficou deci

dido:

estamos nisso juntos. Agora feche essa matraca e pare de falar no corpo.







E aquela idéia de contarmos ao Fuller?







Deixa pra lá





disse Richard.





Mudei de idéia a respeito disso.







Como assim?







Porque aquele caxias babaca não vai ter nenhuma idéia melhor

do que fazer com o corpo. E eu não sei se temos que nos preocupar tanto



assim. Ora, ninguém nem perguntou onde andava

esse

boiola aí o dia

inteiro hoje. Além disso, Arak disse que eles não têm cadeia aqui.







Isso é porque não há ladrões





redargüiu Michael.





O Arak

não disse nada sobre assassinato, e com toda aquela papagaia

da que nos

mostraram sobre extração da mente, tenho o mau pressentimento de que

eles vão ficar muito perturbados com isso. Talvez nos reciclem, como

fizeram com o Reesta.







Ei, calma aí!





disse Richard.










Como posso me acalmar com um cadáver na minha gela

deira?





berrou Michael.







Cala essa boca





berrou Richard, em resposta. Depois, em voz

mais baixa, acrescentou:





Meu pai do céu, todos na vizinhança vão es

-

cutar você! Controle

-

se. O principal é a gente cair fora daqui o quanto

antes. Enquanto isso o Sar

t fica na geladeira, o que vai impedir que ele

deixe o local fedendo. Vamos pensar em transportá

-

lo para outro lugar se

alguém começar a investigar e a fazer perguntas sobre ele. Certo?







Acho que sim





disse Michael, porém sem muito entusiasmo.





1

1

4

4





O



teto



da caverna submarina escureceu

-

se gradativamente, imitando

um fim de tarde normal, exatamente como na noite anterior. Suzanne e

Perry, maravilhados pela semelhan

ça entre o teto abobadado e o céu da

superfície, assistiram deslumbrados ao espetáculo das pse

udo

-

estrelas que

começavam a piscar no crepúsculo violeta. O eternamente tacitur

no

Donald, ao contrário, olhava de mau humor as sombras crescentes sob os

canteiros de samambaias. Todos os três estavam de pé no grama

do, a

cerca de doze metros de distância



da extremidade aberta do refei

tório. Lá

dentro clones operários atarefados punham a mesa para o jantar. Richard

e Michael já ocupavam seus lugares, loucos de fome.







Isso é absolutamente incrível





disse Suzanne. Curvou o pes

coço

para trás, para poder o

lhar direto para cima.







As estrelas bioluminescentes?





indagou Perry.







Tudo





disse Suzanne.





Inclusive as estrelas.





Ela acabara de

chegar de seu chalé, onde havia nadado, tomado um banho e até tentado

tirar uma pestana. Mas não havia conseguido dorm

ir de jeito nenhum. A

cabeça fervilhava demais.







Há alguns aspectos que são estarrecedores





admitiu Donald.







Não consigo encontrar uma só coisa que não seja





disse

Suzanne. Olhou para o pavilhão escuro do outro lado do gramado onde



fora dada a festa da



noite anterior.





A começar pelo fato de que este




paraíso imenso se encontra debaixo da terra, sob o oceano. Como foi

estranho eu ter mencionado

Viagem ao centro da Terra

de Júlio Verne,

quando estávamos dando início ao nosso mergulho, considerando

-

se que



estamos realmente aqui! Perry achou graça.







É





disse.





Foi bem oportuno.







Oportuno e espantoso





acrescentou Suzanne.





Principal

mente

agora que parece que tudo que Arak e Sufa andaram dizendo é verdade,

por mais fantástico que pareça.







É difícil ne

gar a tecnologia que temos visto





disse Perry, em

-

polgado.





Mal posso esperar para aprender mais sobre os detalhes,

como a biomecânica dos clones operários ou os segredos dos táxis aé

reos.

Patentes de qualquer coisa dessas nos deixariam milionários. E o



turismo?

Já pensou a procura que haveria por uma excursão a este mun

do?

Ultrapassaria qualquer previsão!





Perry tornou a soltar risadinhas.







De uma forma ou de outra, a Benthic Marine vai se tornar a

Microsoft do novo século.







As revelações de Arak sã

o extraordinárias





concordou Donald,

contra a vontade.





Mas há umas lacunas nelas que vocês, deslumbra

dos

como estão, parecem estar esquecendo.







Do que está falando?





indagou Perry.







Tirem os óculos cor

-

de

-

rosa





disse Donald.





Pelo que vejo, a

perg

unta principal ainda não foi formulada: o que estamos fazendo aqui?

Não fomos salvos de nenhum naufrágio de escuna, como os Blacks.

Fomos proposital e deliberadamente sugados pela tal porta de saída deles,

e eu gostaria de saber por quê.







O Donald está ce

rto





disse Suzanne, subitamente pensativa.







Com toda essa empolgação vivo me esquecendo de que, afinal de

contas, fomos vítimas de uma abdução. Isso certamente nos leva a per

-

guntar o que estamos fazendo aqui.







Eles sem dúvida estão nos tratando bem





d

isse Perry.





Por

enquanto





disse Donald.





Mas, como eu já disse, po

deriam mudar

num piscar de olhos. Não creio que vocês estejam se dando conta de como

estamos vulneráveis.







Eu sei como estamos vulneráveis





disse Perry com uma certa




irritação.





Ora,

bolas, com a tecnologia avançada que

esses

caras têm,

poderiam nos desintegrar num instante. Arak falou em viagens

interplanetárias, até em viagens intergalácticas e em tecnologia do tem

po.

Mas eles gostam de nós. Para mim isso é evidente, mesmo que não s

eja

para você. Acho que devíamos ser mais compreensivos e menos

paranóicos.







Gostam de nós, uma ova





disse Donald com veemência.





Nós

os divertimos. Quantas vezes já ouvimos isso? Acham nosso primitivismo

engraçado ou bonitinho, como se fôssemos animais



do

mésticos. Estou

cansado de ver gente rindo de mim.







Não nos tratariam bem assim se não gostassem de nós





per

-

sistiu Perry.







Você é ingênuo demais





disse Donald.





Recusa

-

se a se lem

-

brar de que somos prisioneiros, para todos os efeitos, que fomos

a

bduzidos e manipulados naquele centro de descontaminação. Fomos

trazidos até aqui por um motivo que ainda não nos foi revelado.



Suzanne concordou. As palavras de Donald lhe recordaram um

comentário descuidado de Arak que lhe dera a impressão de que ele já

esperava a chegada dela. Suzanne considerara o tal comentário per

-

turbador, no momento, mas depois ele fora esquecido, suplantado por

revelações mais surpreendentes.







Talvez eles estejam nos recrutando





disse Perry, subitamente.







Para quê?





indagou Don

ald, intrigado.







Talvez estejam se desdobrando tanto para nos mostrar tudo

porque querem nos preparar para sermos seus representantes





disse

Perry, animando

-

se com a idéia enquanto falava.





Talvez eles final

mente

tenham decidido que já é tempo de estab

elecerem relações com nosso

mundo, e querem que sejamos seus embaixadores. Francamente,acho que

poderíamos nos sair tremendamente bem, sobretudo se fizés

semos isso

através da Benthic Marine.







Embaixadores!





repetiu Suzanne.





Idéia interessante! Eles nã

o

querem se adaptar a nossa atmosfera por causa de sua falta de imu

nidade

a nossas bactérias e vírus, e nem gostam do processo de descontaminação

necessário para voltarem a Interterra.







Exato





disse Perry.





Se fôssemos representantes deles, não




teriam

que fazer nada disso.







Embaixadores? Deus me livre





resmungou Donald. Ergueu as

mãos e sacudiu a cabeça, de frustração.







E agora, qual é o problema?





indagou Perry, a irritação

retornando. Donald estava começando a lhe dar nos nervos.







Eu sabia que vo

cês dois eram otimistas





disse Donald



, mas

essa idéia de sermos embaixadores ganhou o troféu.







Acho que é uma possibilidade perfeitamente razoável





disse

Perry.







Escute, Sr. Presidente da Benthic Marine!





disse Donald, rís

pido,

como se o título fos

se vergonhoso.





Esses interterráqueos não vão nos

deixar voltar. Se não fosse um otimista tão irremediável já teria entendido

isso.



Suzanne e Perry ficaram calados enquanto remoíam o comentário de

Donald. Nenhum dos dois queria pensar naquele assunto, mui

to menos

debatê

-

lo.







Acha que planejam nos manter aqui para sempre?





pergun

tou

Suzanne, afinal. Teve de admitir que nada que Arak ou Sufa lhe haviam

dito indicava que existisse algum plano para devolvê

-

los ao seu navio na

superfície do oceano.







Se não

me engano, se eles não nos deixarem voltar, é isso que vai

acontecer





disse Donald, sarcasticamente.







Mas por quê?





inquiriu Perry. Já não havia mais raiva em sua

voz.





É óbvio





disse Donald.





Essas pessoas vêm evitando que

Interterra seja detectada h

á milhares de anos. Como poderiam se sentir

bem nos deixando voltar à superfície, sabendo o que sabemos?







Meu Deus!





murmurou Suzanne.







Acha que o Donald está certo?





indagou Perry.







Receio que ele tenha muitas evidências do que pensa





disse

Suzanne.







Não há motivo para eles estarem menos preocupados com a

contaminação agora do que no passado. E têm ainda mais motivos para

ficarem preocupados agora, que nossa tecnologia está avançando cada vez

mais. Talvez se divirtam com nosso primitivismo, mas desc

on

fio que

morrem de medo da violência de nossa cultura.










Mas continuam nos chamando de visitantes





contestou Perry.







Este lugar onde estamos é o palácio dos visitantes. Os visitantes

não ficam para sempre.





Em seguida, irracionalmente, acrescentou:





Além disso, não posso ficar aqui para sempre. Quero dizer, tenho famí

lia.

Já estou preocupado por ainda não ter podido lhes dizer que estou bem.







Esse

é

outro problema





disse Donald.





Eles sabem muita coisa

a nosso respeito. Sabem de nossas famílias. C

om toda a tecnologia deles,

podiam ter nos oferecido uma oportunidade de informar aos nossos en

tes

queridos que não morremos. O fato de não terem feito isso, creio eu, é

mais uma prova de que pretendem nos manter aqui.







Acho que você tem razão





disse Su

zanne. Depois suspirou.







Há só meia hora, no meu quarto, eu estava desejando ter um

telefo

ne daqueles antigos, só para poder ligar para o meu irmão. Ele é o

único parente que sentiria minha falta.







Você não tem família?





indagou Donald.







Infelizmente,



não





disse Suzanne.





Essa parte da minha vida

simplesmente não deu certo, e os meus pais, eu perdi há anos.







Tenho esposa e três filhos





disse Donald.





É claro que isso não

significa muito para os interterráqueos. Para eles todo o conceito de

paterni

dade parece pitorescamente antiquado.





Meu Deus!





disse

Perry.





O que vamos fazer? Precisamos dar o fora daqui. Tem que existir

um jeito.







Ei, vocês todos!





gritou Michael da sala de jantar.





O rango

está na mesa. Venham comer!







Infelizmente eles é q

ue estão dando as cartas





disse Donald,

ignorando Michael, o qual desapareceu outra vez, voltando ao refeitó

-

rio.





Não há nada que possamos fazer a essa altura, a não ser manter os

olhos abertos.







O que significa tirar vantagem da hospitalidade deles





disse

Suzanne.







Até certo ponto





disse Donald.





Eu nunca defenderia a idéia

de confraternizar com o inimigo.







É essa parte que me intriga





disse Suzanne.





Eles não agem

como inimigos. São tão delicados e pacíficos... É difícil imaginá

-

los




fazendo alg

uma coisa má contra alguém.







Manter

-

me longe da minha família é uma das piores coisas que

posso imaginar





disse Perry.







Não do ponto de vista deles





disse Donald.





Com

esse

negócio

de reprodução feita mecanicamente e a gravação da mente e da

personali

dade de adultos em crianças de quatro anos de idade, não há

famílias em Interterra. É possível que eles não entendam os vínculos

familiares.







Que diabo vocês estão fazendo aí fora nessa escuridão?





ber

rou

Michael. Ele havia voltado à parte do edifício q

ue interligava o re

feitório e

o gramado.





Os clones operários estão esperando. Não vêm comer?







Acho que seria melhor, mesmo





disse Suzanne.





Estou fa

-

minta.







Não sei se estou, depois dessa troca de idéias





disse Perry.

Começaram a andar na direção d

a luz que saía e clareava a grama



escura.







Deve haver alguma coisa que possamos fazer





disse Perry.





Podemos evitar ofendê

-

los





disse Donald.





Isso pode ser crucial.







O que poderíamos fazer que os ofendesse?





quis saber Perry.







Não estou preocupado

conosco





disse Donald.





São

esses

mergulhadores tapados que me preocupam.







Que tal falar diretamente com eles sobre o assunto?





sugeriu

Perry.





Por que não perguntar a Arak quando nos encontrarmos com ele

amanhã se vamos poder ir embora? Então teríamo

s certeza.







Pode ser arriscado





disse Donald.





Acho que não devíamos

enfatizar nosso interesse em partir. Se fizermos isso, eles podem restrin

gir

nossa liberdade. No momento, teoricamente, podemos chamar tá

xis

aéreos com comunicadores de pulso e podem

os ir e vir à vontade. Não

quero perder esse privilégio. Podemos precisar dele se houver chance de

sairmos daqui.







Esse é outro pensamento interessante





concordou Suzanne.





Mas não vejo nenhum motivo pelo qual não possamos perguntar por que

estamos aqui

. Talvez a resposta a essa pergunta nos diga se eles esperam

que fiquemos para sempre.







Não é má idéia





disse Donald.





Eu concordo, contanto que




não demos muito na vista, insistindo no assunto. Aliás, por que não faço

essa pergunta amanhã na sessão que

Arak disse que teremos?







Gostei da sugestão





disse Suzanne.





O que achou, Perry?







Não sei o que pensar, a essa altura





disse Perry.







Vamos, apressem

-

se!





disse Michael, assim que os três entra

ram

na sala.





Esse babaca desse clone operário aí não q

uer nos deixar tocar

nas travessas antes de todos estarem aqui, e é mais forte que um touro.



Um clone operário estava de pé junto à mesa central com as mãos

sobre as tampas dos rescaldos.







Como sabia que ele estava nos esperando?





perguntou Suzanne

ao oc

upar um dos assentos.





Bom, não tínhamos certeza, né, porque esse

pateta aí não fala





admitiu Michael.





Mas estamos torcendo para que

seja esse o motivo. Estamos mortos de fome.



Perry e Donald se sentaram. Quase imediatamente o clone oper

á

rio

ergueu as

tampas dos rescaldos.







Taí!





exclamou Richard.



Dentro de minutos, a refeição já estava servida. Durante algum

tempo, ninguém falou. Richard e Michael estavam ocupados demais

comendo; os outros estavam absortos, pensando em sua conversa recente

no gramado

.







O que vocês estavam fazendo lá no escuro?





indagou Richard,

irrompendo depois em voz alta:





Falando sobre algum funeral? Estão

todos tão cabisbaixos!



Ninguém respondeu.







Grupinho animado





resmungou Richard.







Pelo menos temos modos à mesa





retruco

u Donald.







Vá para o inferno





disse Richard.







Sabe, de repente estou achando isso estranhamente irônico





disse Suzanne.







O quê, os modos do Richard à mesa?





indagou Michael, sol

-

tando um forte arroto.







Não, nossa reação a Interterra





disse Suzanne.










Como assim?





perguntou Perry.







Pense no que temos aqui





disse Suzanne.





Parece o paraíso,

mesmo que não seja no céu, como é nosso pensamento tradicional. No

entanto, tem tudo que nós consciente e inconscientemente desejamos:

juventude, beleza, imort

alidade e abundância. É um verdadeiro Éden.







A beleza nós podemos confirmar, não, Mikey?





disse Richard.







Por que acha irônico?





perguntou Michael, ignorando Richard.







Porque estamos preocupados achando que seremos obrigados a

ficar





disse Suzanne.





Todos sonham em ir para o céu, e nós aqui, com

medo de não podermos sair dele.





Como assim, sermos obrigados a

ficar?





inquiriu Richard.







Não acho irônico





disse Donald.





Se a minha família esti

vesse

aqui, comigo, eu talvez ficasse. Mas não agora. Al

ém disso, não gosto de

ser forçado a fazer nada. Pode parecer piegas, mas valorizo a minha

liberdade.







Nós vamos sair daqui, não vamos?





perguntou Richard, in

-

sistentemente.







De acordo com o Donald, não





disse Perry.







Mas precisamos sair





deixou esca

par Richard.







E por que, hein, marujo?





indagou Donald.





O que faz você

ficar tão ansioso para sair do paraíso da Suzanne?







Eu estava falando de modo geral, não do ponto de vista

pessoal





interrompeu Suzanne.





Francamente, conhecer a forma pela

qual

eles se conservam imortais me deu um pouco de náusea hoje.







Não sei do que vocês estão falando





disse Richard.





Mas

quero sair daqui o mais rápido possível.







Eu também





concordou Michael.



Soou uma campainha suave que ninguém havia ouvido antes. To

-

dos



se entreolharam, intrigados, mas antes que pudessem falar, a porta se

abriu e entraram Mura, Meeta, Palenque e Karena. O bando de belas

mulheres estava de excelente humor. Mura foi direto até Michael e lhe

ofereceu a palma da mão, numa saudação típica dos



interterráqueos.

Depois de eles terem pressionado rapidamente as palmas uma contra a




outra, ela se sentou na beirada da espreguiçadeira de Michael. Meeta,

Palenque e Karena se aproximaram de Richard, que ficou de pé num salto.







Ah, gatinhas, vocês voltar

am!





gritou Richard. Tocou as pal

mas

das mãos de todas as três e abraçou

-

as, entusiasmado. Elas cumpri

-

mentaram Suzanne, Perry e Donald, rapidamente, mas cobriram Richard

de agrados, e o mergulhador desfaleceu de puro êxtase. Quando ele ten

-

tou se deixar



cair para trás na espreguiçadeira, elas o impediram. Disse

-

ram que estavam loucas para levá

-

lo ao quarto dele para nadarem

juntos.





Bom, sim, claro





gaguejou Richard. Fez continência para

Donald antes de se retirar com seu míni

-

harém.







Vamos!





Mura apr

essou Michael.





Vamos também. Eu lhe

trouxe um presente.







O que é?





indagou Michael. Deixou

-

se ser rebocado até a porta.







Um pote de caldorfina!





disse Mura.





Ouvi dizer que gos

tou

disso.







Adorei, é o termo exato





gritou Michael. Em seguida, os do

is

saíram saltitando da sala.



Antes dos demais comensais poderem tecer quaisquer comentários,

a campainha suave soou outra vez. Dessa feita, anunciou a chegada de

Luna e Garona. Os interterráqueos pareciam estar cercando seus par

ceiros

da noite anterior.







Oh, Suzanne!





arrulhou Garona, ao pressionar a palma da mão

contra a dela.





Estava louco para que chegasse a noite, para que eu

pudesse vir passá

-

la outra vez com você!







Perry, meu amor





disse Luna, efusiva.





O dia foi longo

demais. Espero que não t

enha sido cansativo demais para você.



Nem Suzanne nem Perry conseguiam decidir se ficavam

mortificados



ou encantados, principalmente sendo cumprimentados com

pro

testos amorosos assim t

ão melosos. Ambos gaguejaram respostas

ininteligíveis enquanto permitia

m que seus respectivos parceiros os er

-

guessem das espreguiçadeiras.







Acho que estamos de saída





disse Suzanne a Donald enquanto

Garona a puxava, brincalhão, para a extremidade aberta do refeitório.







E nós devemos estar indo para o mesmo lugar que eles





disse




Perry a Donald enquanto Luna o arrastava.



Donald acenou, indiferente, mas nada disse. No instante seguinte,

viu

-

se sozinho com os dois clones oper

ários mudos.





Michael não se lembrava de outra ocasião em que se sentira tão

excita

do. Nunca uma mulh

er assim tão bela e desejável parecera tão

interessada



nele. Por insistência dela, os dois começaram a girar enquanto

avan

çavam em movimentos sinuosos pelo gramado escuro na direção do

quarto dele. Com seus longos cabelos flutuando ao vento, Mura era uma

visão arrebatadora para Michael, e ele teria continuado a fazer aquilo

durante horas, se a tonteira não houvesse impedido.



Sentindo

-

se zonzo, Michael parou de girar, mas tudo a sua volta

continuou girando. Ele cambaleou para sua direita, tentando em v

ão

ma

nter o equilíbrio. Incapaz de se firmar nas pernas, despencou de

qualquer maneira. Mura também caiu com ele.



Riram juntos incontrolavelmente. Levantaram

-

se ainda oscilando

um pouco, depois prosseguiram correndo at

é o chalé de Michael. De

pois

de entrarem,

viram

-

se ambos sem fôlego.







Bem





disse Michael. Inspirou profundamente duas vezes, mas

continuou se sentindo zonzo. Só de olhar para Mura naqueles trajes

colantes, já tremia de desejo.





O que gostaria de fazer primeiro? Dar um

mergulho?



Mura olhou Micha

el demoradamente, de um jeito provocador. Sa

-

cudiu a cabe

ça.







Não, não quero nadar agora





disse ela, a voz rouca.





Na noite

passada você estava cansado demais para carinhos íntimos. Man

dou

-

me

embora antes que eu pudesse fazê

-

lo feliz.







Mas isso não é

verdade





protestou Michael.





Eu estava feliz.







Quer dizer que Sart o fez feliz?







Não, mas que inferno!





gritou Michael, ofendendo

-

se ime

-

diatamente.





Que diabo de pergunta é essa?







Não se perturbe





disse Mura, espantada com a reação de

Michael.





N

ão estou insinuando nada. Além disso, é perfeitamente

natural ter prazer com pessoas de qualquer sexo.










Epa, isso comigo não cola





retrucou Michael, ríspido.





Nem

pelo caramba!







Michael, por favor, se acalme





suplicou Mura.





Por que está

tão nervoso?





Não estou nervoso!





replicou Michael.







Sart fez alguma coisa que o irritou?







Não, ele se comportou bem





disse Michael, nervoso.







Alguma coisa o aborreceu





disse Mura.





Sart ficou aqui a

noite inteira? Eu não o vi em parte alguma durante o dia.







N

ão! Não!





gaguejou Michael.





Ele saiu logo depois de você.

Richard só lhe pediu desculpas por ficar com raiva dele, e pronto. Ele saiu.

Mas é um bom garoto.







Por que Richard ficou com raiva dele?







Não sei





disse Michael, irritado.





Será que vamos fic

ar fa

-

lando do Sart a noite inteira? Pensei que tivesse vindo aqui para me ver.







E vim mesmo





disse Mura. Aproximando

-

se de Michael, aca

-

riciou

-

lhe o peito. Por baixo dos dedos, sentiu o coração dele se acele

-

rar.





Acho que você teve um dia difícil. Dev

íamos acalmar você, e sei

exatamente o que fazer.







O quê?







Deite

-

se ali na cama





instruiu Mura.





Vou friccionar seu

corpo e massagear seus músculos.







Ah, está aí uma ótima idéia.







E depois que você serenar, vamos pressionar palmas com a

caldorfina.







Isso me parece perfeito, gata





disse Michael, recuperando a

compostura.





Vamos nessa.







Certo, eu já volto





disse Mura. Cutucou Michael para que ele

fosse para a cama. Michael obedeceu, despreocupado, deitando

-

se sobre a

coberta macia.



Mura foi até a g

eladeira pegar uma bebida gelada para ambos. Deu

o comando diretamente no receptor, de forma a fazê

-

lo o mais suave

-

mente possível, evitando perturbar Michael. Depois daquele pequeno




acesso de fúria dele, ela havia sentido que ele estava tenso e precisava

da

maior consideração possível. Sabia agora como os humanos secundá

rios

se perturbavam facilmente por causa das coisas mais estranhas.Mura se

surpreendeu ao ver que o compartimento estava abarrotado.







Minha nossa





disse.





O que é que puseram aqui dentr

o?

Devido à

amolação



de Mura, procurando saber sobre Sart, o ardor



de

Michael havia se reduzido consideravelmente. Em vez de ficar te

cendo

fantasias enquanto se encontrava deitado de bruços na cama, esperando a

massagem que ela lhe faria, ele ficou reflet

indo, aflito, so

bre a conversa à

mesa do jantar, a possibilidade de estarem presos em Interterra.

Conseqüentemente, o comentário dela sobre a geladeira es

tar cheia nem

mesmo lhe penetrou na consciência, até ele ouvir emba

lagens de

alimentos e frascos de



bebidas se espatifarem no chão, e depois o grito

sufocado. Foi só aí que se lembrou do corpo de Sart, mas então já era tarde

demais...







Mas que merda!





sussurrou Michael ao saltar da cama. Exa

-

tamente como ele temia, Mura estava de pé, diante da geladei

ra escan

-

carada, com a mão sobre a boca. Sua expressão era de puro horror.



Dentro da geladeira, o rosto congelado e pálido de Sart se encon

-

trava emoldurado por pilhas de recipientes de alimentos.



Michael correu até Mura e a abraçou. Ela se deixou amparar

por ele,

e teria desmaiado, se ele não a tivesse sustentado.







Escute aqui! Escute aqui!





disse Michael, desesperado, num

murmúrio forçado.





Posso explicar.



Mura recuperou o equilíbrio e rejeitou o abraço de Michael. Com a

mão trêmula, tocou a face de Sa

rt, dentro da geladeira. Estava dura como

madeira e fria como gelo.







Oh, não!





gemeu Mura. Levando as mãos às suas próprias fa

ces

empalidecidas, estremeceu como se um vento frio houvesse subita

mente

atravessado o aposento. Quando Michael tentou abraçá

-

la de novo, ela lhe

deu um empurrão para poder continuar olhando Sart. Por mais

aterrorizante que fosse a imagem, ela não conseguia desviar os olhos dela.



Michael curvou

-

se, freneticamente, pegou os objetos caídos e me

teu

-

os outra vez na geladeira para oc

ultar o jovem morto dos olhos da

moça.





Precisa se acalmar





disse, nervoso.










O que aconteceu com a essência dele?





indagou Mura. O san

-

gue lhe voltou às faces, tornando

-

as rubras. O choque e a consternação

estavam se transformando em raiva.







Foi um aci

dente





disse Michael.





Ele caiu e bateu a cabeça.





Michael tentou abraçá

-

la outra vez, mas ela recuou e o manteve à

distância de um braço.







Mas, e a essência dele?





indagou Mura outra vez, embora no

fundo já soubesse qual era a horrenda verdade.







Olh

a aqui, ele morreu, caramba!





redargüiu Michael.







A essência dele se perdeu!





conseguiu dizer Mura. Sua raiva

transitória estava se transformando em pesar. As lágrimas inundaram

-

lhe

os olhos verde

-

esmeralda.







Olha, gata





disse Michael num tom entre so

licitude e

irritação



, infelizmente o garoto morreu. Foi um acidente. Você precisa

se conter.



As lágrimas se transformaram em soluços à medida que a realidade

da tragédia atingia o núcleo da essência de Mura.







Preciso contar aos anciãos





disse ela. Viro

u

-

se e começou a se

encaminhar para a porta.







Não, espere!





disse Michael. Estava desesperado. Contornou

-

a

para impedir que saísse.





Escute

-

me!





Agarrou

-

a com ambas as mãos.







Largue

-

me!





gritou Mura. Tentou livrar

-

se dele.





Preciso

anunciar essa cal

amidade.







Não, precisamos conversar





insistiu Michael. Lutou com ela

enquanto Mura tentava livrar

-

se.







Largue

-

me!





berrou Mura, a voz se elevando entre os soluços.

Conseguiu soltar um braço.







Cale essa boca!





gritou Michael. Deu

-

lhe uma bofetada com

a

palma da mão aberta, para tentar tirá

-

la daquele estado de histeria. Em

vez disso, ela abriu a boca e emitiu um grito de arrebentar os tím

-

panos.

Temendo as conseqüências, Michael tapou

-

lhe a boca com uma das mãos,

mas não bastou. Mura era alta e vigoros

a, e deu um jeito de fugir dele,

soltando novo grito.






Com uma certa dificuldade, Michael conseguiu tapar

-

lhe a boca

outra vez, mas, por mais que tentasse, não conseguia mantê

-

la quieta.

Impulsivamente, arrastou

-

a para o lado fundo da piscina e caiu com ela



dentro d'água. Mas nem mesmo o mergulho súbito refreou os gritos dela,

de modo que ele foi obrigado a segurar a cabeça da moça abaixo da

superfície.



Ela continuou lutando, e quando ele a trouxe para a superfície para

respirar, ela soltou um grito tão fort

e quanto os anteriores. Michael tor

nou

a empurrá

-

la para debaixo da água, e dessa vez a reteve ali até a violenta

movimentação dela ficar mais lenta, depois cessar.



Vagarosamente, ele foi soltando a cabeça de Mura, com medo de

que ela pulasse para fora e

gritasse outra vez. Em vez disso, o corpo da

moça, flácido, flutuou até a superfície, o rosto voltado para dentro d'água.



Ele puxou o corpo até a beira da piscina e o ergueu, colocando

-

o

sobre a borda de mármore. Uma mescla espumosa de muco e saliva saía

-

l

he do nariz e da boca entreaberta. Ao olhá

-

la, percebendo que estava

morta, um calafrio percorreu

-

lhe a espinha. Seus dentes começaram a

bater incontrolavelmente. Ele havia matado alguém





alguém de quem

gostava muito.



Por um momento, ficou perfeitamente q

uieto. Imaginou se alguém

teria ouvido os gritos de Mura. Graças a Deus, a noite estava tranqüi

la.

Em pânico, ele a arrastou até a cama, deitou

-

a lá, e cobriu

-

a com a colcha.

Depois, correndo, passou pela piscina e penetrou nas trevas noturnas.



O chalé de



Richard ficava a menos de 50 metros, e Michael percor

-

reu essa distância em segundos. Esmurrou a porta.







Seja lá quem for, vá embora!





ordenou a voz de Richard lá de

dentro.





Richard! Sou eu!





berrou Michael.







Não quero nem saber quem é!





respondeu R

ichard, aos

berros.





Estamos ocupados aqui dentro.







Não dá para esperar, Richie





insistiu Michael.





Preciso fa

lar

com você.



Uma torrente de imprecações precedeu um curto silêncio. Final

-

mente, a porta se abriu, com violência.







É melhor que seja urgen

te





rosnou Richard. Estava comple

-

tamente pelado.










Surgiu um problema





anunciou Michael.







E já, já, vai arranjar mais um





avisou Richard. Depois notou que

Michael estava encharcado.





Por que mergulhou na piscina as

sim

vestido?







Você precisa vir com

igo até o meu chalé





gaguejou Michael.



Richard percebeu o grau de nervosismo do amigo. Espiou o inte

rior

do chalé, atrás de si, para ver se alguma das mulheres estava próxi

ma o

suficiente para escutar.







Isso tem alguma coisa a ver com o corpo do Sart?





indagou ele,

sussurrando.







Infelizmente sim





disse Michael.







Onde está a Mura?







Ela é que é o problema





disse Michael.





Ela viu o corpo.







Ai, meu Jesus!





lamentou

-

se Richard.





Ela ficou nervosa?







Ficou fora de si





disse Michael.





Você precisa



vir!







Tá legal! Acalme

-

se! Mas ela perdeu o juízo mesmo, é?







Estou lhe dizendo, ela pirou legal. Quer fazer o favor de dar um

jeito aí e vir comigo?







Está bem, já vou





acalmou

-

o Richard.





Não grite! Só pre

ciso

de alguns minutos. Vou ter que me livra

r das minhas amigas.



Michael concordou enquanto Richard fechava a porta na cara dele.

Virando

-

se, voltou correndo ao seu chal

é. Depois de ver se o corpo de



Mura estava onde ele o tinha deixado, trocou de roupa, depois ficou

andando de um lado para outro, a

guardando Richard.



Richard foi fiel à sua palavra, chegando em menos de cinco minu

tos.

Esquadrinhou o aposento no momento em que passou pela porta. Tudo

parecia bem tranqüilo. Estava esperando encontrar Mura a solu

çar

incontrolavelmente na cama, mas não

a viu em parte alguma.







E aí, onde está ela?





cobrou.





No banheiro?



Michael não respondeu. Fez sinal a Richard para que o seguisse, e

contornou os pés da cama. Abaixando

-

se, com a mão trêmula, agarrou a

ponta da coberta e jogou

-

a para o lado, para expor



o cadáver. A pele de




Mura, antes cor de alabastro e translúcida, havia ficado de um azul

mosqueado, e a espuma que lhe escorria da boca e do nariz vinha

avermelhada.







Mas que diabo...?





disse Richard, boquiaberto. Ajoelhou

-

se,

procurando a carótida, par

a verificar a pulsação. Depois voltou a ficar de

pé. O rosto dele ficou flácido devido ao choque.







Ela morreu!







Ela abriu a geladeira





explicou Michael.





Viu o corpo de Sart.







Tudo bem, entendi essa parte





disse Richard. Estava olhando o

amigo fixame

nte.





Mas por que a matou?







Eu lhe disse, ela pirou





disse Michael.





Começou a gritar a

plenos pulmões. Fiquei com medo que acordasse a cidade inteira.







Por que diabo a deixou abrir a geladeira?





cobrou Richard,

zangado.







Me distraí por dois segundo

s





disse Michael.







Claro, devia ter sido mais cauteloso





ralhou Richard.







É fácil para você dizer isso





rebateu Michael.





Eu lhe disse

que não queria

esse

corpo aqui. Ele devia estar na sua geladeira, não na

minha.







Tá legal, fica frio





disse Richa

rd.





Precisamos pensar no que

vamos fazer.





Não tem mais lugar na minha geladeira





disse

Michael.





Vamos ter que colocá

-

la na sua.



Richard não gostou nada da idéia de arrastar o corpo até o seu cha

lé,

mas não teve nenhuma idéia alternativa, e sabia que



precisavam fa

zer

alguma coisa rapidamente. Se Mura fosse encontrada, Sart seria também.

De uma forma ou de outra, ele ficaria envolvido.







Está certo





concordou Richard, relutante.





Vamos acabar logo

com esse negócio.



Rapidamente eles rolaram Mura para



cima da colcha, depois enrola

-

ram

-

na e, Richard sustentando a cabeça e Michael, os pés, transportaram

-

na pelo gramado até o chalé de Richard. Tiveram um pouco de

dificuldade para fazê

-

la passar pela porta, uma vez que era relativamente

estreita.










Caramba







reclamou Michael.





Transportar um corpo é mais

ou menos a mesma coisa que carregar um colchão. Mais difícil do que a

gente pensa.







É por causa do peso morto





brincou Richard, sorrindo do duplo

sentido.



Eles jogaram o corpo em pleno chão. Enquanto Mic

hael abria a

coberta, Richard foi até a geladeira e a esvaziou. Como era a segunda vez

que empreendiam a operação "cadáver

-

na

-

geladeira", sabiam exata

mente

o que fazer, ou seja, para colocar Mura lá dentro precisariam re

organizar

completamente o conteúdo

.







Prontinho





disse Richard.





Me dê uma mão aqui. Juntos,

conseguiram meter o corpo de Mura no compartimento.



Ela era mais alta e mais pesada do que Sart, de forma que foi mais

difí

cil encaixá

-

la lá dentro. No final, foram obrigados a deixar alguns rec

i

-

pientes de comida e bebida de fora.



Richard se ergueu depois de finalmente conseguir fechar a porta.







Precisamos parar com isso.







Parar com o quê?





indagou Michael.







Parar de apagar esses interterráqueos. Já usamos todas as gela

-

deiras.





Muito engraç

ado. Mas por que não estou rindo?







Não me obrigue a responder, seu pateta





disse Richard.







Vou lhe dizer o que significa na verdade





disse Michael.





Precisamos dar o fora daqui de Interterra! Agora, com dois cadáveres, as

chances de alguém descobrir u

m dobraram.







Devia ter pensado nisso antes de apagar a dona.







Estou lhe dizendo, não tive escolha!





berrou Michael.





Não

queria acabar com a raça dela. Mas ela não calava a boca!







Não grite!





disse Richard.





Você tem razão. Precisamos dar o

fora daq

ui. A única coisa boa é que parece que aquele almirante de meia

-

tigela está pensando da mesma forma que nós.





Suzanne não conseguia se lembrar da última vez em que havia




nadado nua, e ficou agradavelmente chocada com a sensação enquanto

dava braçadas na pi

scina. E embora estivesse ligeiramente constrangida

por estar sem roupas, principalmente diante da forma física impecável de

Garona, não estava tão nervosa quanto imaginava que ficaria. Provavel

-

mente era porque Garona a fazia se sentir aceita como era, ap

esar de suas

imperfeições físicas.



Depois que atingiu a extremidade oposta da piscina, Suzanne mer

-

gulhou para inverter a direção em que nadava, e, acelerando, voltou para

onde Garona se achava, satisfeito, sentado à beira da piscina, com ape

nas

os pés de

ntro d'água. Ela agarrou

-

lhe um dos tornozelos e conse

guiu

puxar o rapaz para dentro da piscina. Eles mergulharam e se abraçaram

sob a superfície da água.



Depois que se fartaram de trocar carícias assim submersos, nada

ram

para a lateral e saíram da pisci

na. A leve brisa que soprava, vinda da

extremidade aberta do aposento, arrepiou a parte de trás dos braços e as

laterais das coxas de Suzanne.







Gostei de você ter voltado esta noite





disse ela. Estava mes

mo

feliz por vê

-

lo.







Eu também gostei. Passei o

dia esperando

esse

momento.





Não

sabia se você voltaria





disse Suzanne.





Para ser franca, tive medo de

que não voltasse. Acho que me comportei de um jeito imaturo na noite

passada.







Como assim?







Devia ter deixado mais clara a minha opção. Ou não deixar



você

ficar, ou, deixando, agir de forma mais apropriada. Mas fiquei em cima do

muro.







Adorei cada momento, mesmo assim





disse Garona.





Nos

sa

interação não tinha objetivo definido. A idéia era apenas passar al

gum

tempo juntos, e foi o que fizemos.



Suz

anne fitou Garona com gratidão, lamentando, sem nada di

zer,

que fosse preciso viajar até um mundo mítico e surreal para en

contrar um

homem assim belo, generoso e sensível. Enquanto sua mente elaborava de

forma natural a idéia de levá

-

lo consigo ao voltar

, o pensamento de que

talvez não voltasse a trouxe de volta à realidade. Também trouxe à tona

outra pergunta fundamental, ainda sem res

posta.










Garona, pode me dizer por que nos trouxeram aqui para

Interterra?





perguntou Suzanne, de repente.



Garona suspi

rou.







Sinto muito





disse.





Não posso interferir no trabalho de Arak.

Você e seu grupo estão sob a responsabilidade dele.







Mas dizer

-

me por que estamos aqui seria uma interferência?







Sim





disse Garona, sem hesitar.





Por favor, não me colo

que

nessa p

osição. Quero muito ser aberto e sincero com você, mas nesse

assunto não posso, e



me sinto mal por ser obrigado a lhe negar alguma

coisa.



Suzanne ficou olhando o rosto de seu novo amigo e conseguiu no

tar

que estava sendo sincero.







Desculpe perguntar





di

sse ela. Ergueu a mão, e ele ergueu a

dele também. Vagarosamente, pressionaram as palmas uma contra aoutra.

Suzanne sorriu de felicidade; estava começando a se acostumar com

aquela carícia interterráquea.







Talvez eu deva lhe perguntar como vai indo a orie

ntação de Arak.







Eu diria que muito bem





comentou Suzanne.





Ele e Sufa são

anfitriões muito corteses.







Mas claro





disse Garona.





Tiveram sorte em pegar um gru

po

tão interessante. Ouvi dizer que já levaram vocês à cidade. Gosta

ram de lá?







Foi fasci

nante. Visitamos o centro de falecimentos e o centro de

reprodução, bem como a casa de Arak e Sufa.







Mas como progrediram rápido





comentou Garona.





Estou

mesmo impressionado. Jamais soube de humanos de segunda geração que

houvessem progredido depressa a

ssim. Qual a sua reação sobre o que viu

e ouviu? Não consigo imaginar o quanto tudo foi extraordinário para você.







A palavra

inacreditável jamais

foi tão apropriada.







Achou algo perturbador?



Suzanne tentou descobrir se Garona estava querendo saber a verd

a

-

de, ou se queria que ela fizesse rodeios.







Houve uma coisa que me incomodou, sim





começou Suzanne,




decidindo ser franca com Garona. Passou a explicar sua reação negativa

ao processo de implantação da mente.



Garona concordou.







Entendo seu ponto de vist

a





disse.





É uma conseqüência

natural de suas raízes judaico

-

cristãs, que atribuem valor tão alto ao

indivíduo. Mas lhe garanto que também damos. A essência da criança não

é ignorada, mas adicionada à essência implantada. É um processo onde há

um benefíc

io mútuo, uma verdadeira simbiose.







Mas como pode uma essência de alguém que não nasceu com

-

petir com a de um adulto já experiente?







Não se trata de competição





respondeu Garona.





Ambas se

beneficiam, embora obviamente a criança se beneficie mais. Poss

o lhe

garantir, como alguém que já passou por esse processo inúmeras

vezes,que fui fortemente influenciado por cada essência de cada corpo que

tive. É definitivamente um processo cumulativo.







Parece uma racionalização





disse Suzanne.





Mas vou tentar

man

ter minha mente aberta.







Espero que tente. Tenho certeza de que Arak tenciona voltar ao

assunto nas sessões didáticas. Lembre

-

se de que a saída de hoje não teve o

objetivo de esgotar as coisas, mas de ajudar a superar a descrença cos

-

tumeira contra a qual



nossos visitantes inicialmente lutam.







Sei disso. Mas

é

verdade que tendo a esquecer

-

me. Então, obri

-

gada por me recordar.







É um prazer





disse Garona.







Você é um homem belo e sensível, Garona. É maravilhoso estar

ao seu lado.





Ela se pegou imaginando



como seria caminhar com ele

numa praia em Malibu ou pegar a Auto

-

Estrada 1, margeando a Big Sur,

no litoral da Califórnia. Havia uma coisa que Interterra não tinha, era o

oceano, e, como oceanógrafa, Suzanne havia feito do oceano o centro do

seu universo.







Você é linda. É extraordinariamente divertida.







Graças ao meu cativante primitivismo





disse Suzanne. Achou

que Garona tivera a intenção de elogiá

-

la, mas teria preferido outra pa

-

lavra, em vez de

divertida,

principalmente depois da reclamação de




Donal

d.







Seu primitivismo é adorável





concordou Garona. Durante

alguns segundos, Suzanne acalentou a idéia de dizer a



Garona qual era sua reação a ser chamada de primitiva, mas

conteve

-

se. Naquela fase do relacionamento entre os dois, preferia ser

positiva. E

m vez disso, falou:







Garona, há uma coisa que eu gostaria que você soubesse sobre

mim. Garona aguçou os ouvidos.







Quero que saiba que não tenho outro namorado. Tinha um, mas

acabou.





Não me importo. A única coisa que me importa é que você está

aqui neste



momento.







Mas eu me importo





disse Suzanne, um pouco magoada.





Eu

me importo, e muito.





1

1

5

5





A



manhã do segundo dia completo dos humanos secundários em

Interterra começou da mesma forma que o primeiro dia. Suzanne e Perry

partilharam avidamente um com o

outro as experiências da noite ante

rior

e estavam ansiosos pelo que o dia lhes traria. Donald estava menos

empolgado e um pouco taciturno. Richard e Michael estavam tensos e

calados, e

,

quando falavam, era só sobre quando iriam partir. Donald

precisou man



-

los se calar quando Arak chegou.



Depois de conduzirem o grupo de volta à mesma sala de conferên

-

cias que haviam usado no dia anterior, Arak e Sufa se dedicaram a uma

sessão educacional que se arrastou durante horas. Foi basicamente um

debate científico

que incluiu a forma pela qual Interterra canalizava a

energia geotérmica; como se conservava o clima interterráqueo, inclu

sive

o mecanismo usado para gerar a chuva noturna; como a tecnologia da

bioluminescência era usada para fornecer iluminação uniforme

tan

to ao ar

livre quanto em ambientes fechados; como se manuseavam a água, o

oxigênio e o dióxido de carbono; e como se cultivavam as plan

tas

comestíveis, fotossintéticas e quimiossintéticas com a técnica da






hidroponia.



Quando a imagem da tela do piso fo

i sumindo e a iluminação geral

começou a retornar, os únicos dois humanos secundários que estavam



prestando atenção eram Suzanne e Perry. Donald estava olhando para

outro lado, obviamente absorto em seus próprios pensamentos. Richard e

Michael estavam ferr

ados no sono. Quando a iluminação atingiu seu

apogeu, ambos os mergulhadores acordaram, e eles e Donald tentaram

fingir que haviam escutado tudo.







Concluindo a sessão desta manhã





disse Arak, parecendo não

se importar com a desatenção de certos indivíduo

s



, tenho certeza de

que vocês têm agora uma idéia mais clara do motivo pelo qual perma

-

necemos aqui neste mundo subterrâneo, ou seja, além da questão

microbiana. Ao contrário do que transpira na superfície terrestre, fo

mos

capazes de construir um ambien

te perfeitamente estável sem flutuações

climáticas, tais como idades do gelo ou outros desastres rela

cionados com

o tempo; energia essencialmente ilimitada, que não é fonte de poluição; e

uma fonte alimentar completamente adequada, que pode ser reabasteci

da.







O plâncton é sua fonte exclusiva de proteínas?





indagou

Suzanne. Ela e Perry continuavam fascinados por todas aquelas revela

ções

científicas.







A fonte principal





disse Arak



, a outra fonte é a proteína

vegetal. Costumávamos usar algumas espécies



de peixes, mas paramos

quando começamos a nos preocupar com a capacidade dos animais ma

-

rinhos maiores de reconstituir sua população. Infelizmente, essa é uma

lição que os humanos secundários parecem não estar dispostos a aceitar.







Especialmente no caso

das baleias e do bacalhau





disse Suzanne.







Exato





disse Arak. Olhou para os outros presentes na sala.





Mais alguma pergunta antes de voltarmos à parte prática?







Arak, tenho uma pergunta





disse Donald.







Pode falar





anuiu Arak. Alegrou

-

se. Donald, at

é o momento,

havia demonstrado muito pouco interesse em participar.







Gostaria de saber por que fomos trazidos para cá





disse

Donald.





Esperava que fosse perguntar algo relativo ao que estivemos

debatendo.







É difícil para mim concentrar

-

me em questões té

cnicas quando




não sei por que estou aqui.







Entendo





disse Arak. Curvando

-

se, confabulou aos sussurros

com Sufa e os Blacks. Depois, voltando a recostar

-

se, acrescentou:







Infelizmente, não posso responder completamente a sua pergun

ta,

pois fomos especif

icamente proibidos de lhes contar o motivo princi

pal

pelo qual estão aqui. Mas posso lhes dizer isso: um dos motivos foi deter a

tentativa de perfuração na porta de saída de Saranta, o que, devo dizer

com prazer, conseguimos. Também posso lhes garantir qu

e hoje saberão

qual foi o motivo principal. Será que isso basta por enquanto?







Acho que sim





disse Donald.





Mas se vamos saber mesmo,

não vejo por que não pode nos contar agora.







Por uma questão de protocolo





disse Arak. Donald concordou

com a cabeça,



relutante.







Como oficial de carreira da Marinha, acho que posso aceitar essa

resposta.







Alguma outra pergunta sobre a apresentação de hoje?





inda

gou

Arak.







Estou meio sobrecarregado no momento





admitiu Perry.





Mas tenho certeza de que vou ter pergu

ntas à medida que o dia for pas

-

sando.







Bom, então vamos dar início à nossa excursão





disse Arak.





Com base no que ouviram esta manhã, onde gostariam de ir primeiro?







Que tal o Museu da Superfície da Terra?





sugeriu Donald antes

que qualquer dos outro

s pudesse responder.







Sim!





manifestou

-

se Michael, entusiasticamente.





O lugar que

tem aquele Corvette na frente!







Você gostaria de ver o Museu da Superfície da Terra?





inda

gou

Arak com um óbvio assombro. Lançou um olhar de relance a Sufa. A

reação d

ela foi a mesma.





Acho que seria interessante





disse Donald.







Eu também





disse Michael.







Mas por quê?





indagou Arak.





Desculpem nossa surpresa,

mas depois de tudo que lhes dissemos, estamos intrigados por quere

rem

se voltar para o passado em vez do

futuro.






Donald encolheu os ombros.







Talvez seja só um quê de nostalgia.







Vendo o que resolveram exibir lá, talvez tenhamos uma idéia

melhor de sua reação ao nosso mundo





explicou Suzanne, esponta

-

neamente. Não estava tão interessada em ver o Museu quant

o estava em

ver os outros lugares que Arak descrevera, mas fez questão de apoiar o

pedido de Donald.







Muito bem





disse Arak, com um jeito afável.





O Museu da

Superfície da Terra será nossa primeira parada do dia.



Todos se levantaram. Pela primeira vez D

onald se mostrou ansioso,

principalmente quando saíram do prédio. Ele pediu a Arak que lhe

mostrasse como chamar um táxi aéreo, e Arak ficou satisfeito em aten

der

seu pedido. Foi até mais além, mandando Donald colocar a pal

m

a da mão

sobre a mesa preta cen

tral do táxi e dar o comando que deter

minava o

destino do veículo.







Isso foi fácil





disse Donald, quando a nave se elevou, silen

ciosa,

sem solavancos, depois disparou na direção correspondente.







Claro





disse Arak.





Foi feito para ser fácil, mesmo. T

odos os

visitantes achavam as viagens de táxi fascinantes. Nunca



se cansavam de

admirar a vista da cidade e a área ao redor dela. Estican

do os pescoços,

tentavam ver tudo, mas era difícil; havia muito a ver, mas o veículo se

movia a uma velocidade incríve

l. Em poucos minutos eles estavam

pairando acima da entrada do museu, a uns seis metros de distância do

Chevrolet





Corvette incrustado por cracas.







Meu Deus, eu adorava aquele carro





disse Michael, com um

suspiro melancólico, quando eles desceram do táxi



aéreo. Ele parou e

contemplou o monumento, nostálgico.





Eu namorava a Dorothy



Drexler

naquele tempo. Não sei qual dos dois tinha as formas mais atra

entes, se

ela ou o carro.







Os dois precisavam de uma chave de ignição para funcionar?





indagou Richard,



com um sorriso malicioso.



Michael tentou acertar o amigo com a mão espalmada, mas Richard

esquivou

-

se com facilidade. Depois dançou rapidamente, apoiado nos

artelhos, como um pugilista profissional, antes de tentar retribuir o golpe.







Nada de pancadaria





alertou Donald asperamente, metendo

-

se




entre os dois mergulhadores.







Seu Corvette talvez servisse para você e a Dorothy





disse

Suzanne



, mas eu sinto uma vergonha danada vendo que os

interterráqueos acham que isso aí representa nossa cultura.







É, dá

a impressão de que somos supersuperfíciais





concor

dou

Perry.





Além de estar enferrujado e em péssimo estado de conser

vação.







Superficiais e materialistas





disse Suzanne





o que, segundo

suponho, provavelmente é verdade, quando refletimos um pouco sob

re o

assunto.







Estão exagerando na interpretação do simbolismo





explicou

Arak.





O motivo pelo qual o colocamos aqui na frente do museu é muito

mais simples. Como agora estamos relegados a observar vocês de longe,

para evitar que sejamos detectados por s

ua tecnologia em rápido

desenvolvimento, são os automóveis que notamos mais. De uma gran

de

distância, tem

-

se a impressão de que os carros são a forma dominan

te de

vida na superfície da Terra, sendo que os humanos secundários agem

como robôs ao cuidarem d

eles.



Suzanne teve dificuldade para conter o riso diante de uma afirma

ção

tão absurda, mas quando pensava no assunto era capaz de entender por

que eles viam isso de uma grande distância.







O mais simbólico é o projeto do Museu em si





disse Arak.

Todos os



olhos se voltaram para o edifício. De perto, a construção



emanava uma aura inegavelmente sepulcral. Com cinco andares,

compunha

-

se de segmentos retilíneos, superpostos ou dispostos em

ângulo reto, de modo a compor uma forma complexa e bem geométrica. A

ma

ior parte dos segmentos estava repleta de janelas quadradas.







O edifício simboliza a arquitetura urbana dos humanos secun

-

dários





comentou Arak.







Parece bem feio, todo quadrado assim, feito um monte de cai

-

xas





disse Suzanne.







Não agrada aos olhos





a

dmitiu Arak.





Exatamente como a

maioria das cidades de vocês, que são essencialmente aglomerados de

arranha

-

céus semelhantes a caixas sobre plantas semelhantes a grades.







Há algumas exceções





disse Suzanne.










Algumas





concordou Arak.





Mas, infelizment

e, a maior par

te

das lições de arquitetura que os habitantes de Atlântida deram aos seus

antepassados na antigüidade se perderam, ou foram ignoradas.







É um edifício enorme





comentou Perry. Abrangia o equiva

lente

a um quarteirão de uma cidade moderna.







Precisa ser





disse Arak.





Temos uma imensa Coleção de ar

-

tefatos da superfície terrestre. Lembre

-

se de que estamos falando de um

período de milhões e milhões de anos.







Então o Museu não abrange só a cultura dos humanos secun

-

dários?







Certamente que nã

o





disse Arak.





Também abriga toda a

gama da evolução atual da superfície terrestre. Naturalmente, temos nos

interessado mais pelos últimos dez mil anos mais ou menos, por moti

vos

óbvios. Embora

esse

segmento represente um mero piscar de olhos em

compar

ação ao período como um todo, concentramos nele nossas coleções.







E os dinossauros?





indagou Perry.







Temos uma mostra pequena mas representativa de espécimes

preservados





disse Arak. Depois acrescentou num aparte:





São

criaturas de uma violência aterr

orizante!





Sacudiu a cabeça como se

experimentasse uma onda de náusea passageira.





Quero ver essa

mostra





disse Perry, avidamente.





Estou louco para saber de que cor

eram os dinossauros.







Eram em sua maior parte de um verde

-

acinzentado meio inde

-

finido







disse Arak.





Bem feios, se quer mesmo saber.







Vamos entrar





sugeriu Sufa.



O grupo penetrou no saguão de entrada. Era uma sala enorme,

revestida com o mesmo basalto preto que o exterior. Através de abertu

ras

no teto alto entravam réstias de luz. Elas



se entrecruzavam na semi

-

obscuridade geral como fachos de luz de holofotes em miniatura,

iluminando os objetos em exposição de forma impressionante. Múlti

plos

corredores se originavam nesse núcleo central.







Por que não há ninguém aqui?





indagou Suzanne

. Olhou em

todas as direções, e só viu corredores vazios de mármore. A voz ecoou

várias vezes no silêncio sepulcral.










É sempre assim





explicou Arak.





Este museu, apesar da

importância que tem, não é particularmente popular. A maioria das

pessoas prefere



não se recordar da ameaça que seu mundo representa

para o nosso.







Está se referindo à ameaça de detecção?





acrescentou Suzanne.







Exato





disse Sufa.







Isso aqui parece um lugar onde seria fácil se perder





disse Perry.

Espiou o interior de alguns dos c

orredores silenciosos, compridos e mal

iluminados.







Não é bem assim





disse Arak. Apontou para a esquerda.





Começando aqui, com as algas verde

-

azuladas, as exposições

evolucionárias são cronológicas.





Depois apontou para a direita.





E

desse lado temos

a cultura dos humanos secundários começando com os

hominídeos africa

nos mais remotos e chegando até o presente. Em

qualquer lugar do museu, pode

-

se determinar como encontrar o caminho

de volta ao saguão de en

trada, seguindo

-

se a direção dos espécimes

pro

gressivamente mais antigos.







Eu gostaria de ver as exibições que buscam reproduzir nossa

época moderna





disse Donald.





Certamente





disse Arak.





Siga

-

me.

Vamos pegar um atalho através dos primeiros cinco ou seis milhões de

anos.



O grupo seguiu Arak e Su

fa como se fossem estudantes que estives

-

sem participando de uma excursão ao museu. Suzanne e Perry acharam

difícil não parar e olhar cada artefato exposto, principalmente quando

chegaram às salas dedicadas aos dos egípcios, gregos e romanos. Nem

Suzanne n

em Perry haviam visto nada igual antes. Era como se alguém

tivesse voltado no tempo com carta branca para escolher os melhores

objetos. Suzanne ficou particularmente encantada com o vestuário do

período exposto com extremo bom gosto nos manequins de tamanh

o

natural.







Vão notar que há uma diferença quantitativa marcante em nossas

coleções





explicou Arak. Ele havia permanecido com Suzanne e Perry

enquanto os outros seguiam adiante.





Temos comparativamente pouco

material moderno. Quanto mais recuamos na his

tória, maiores são as

exibições. Há muitos e muitos anos, costumávamos fazer viagens mes

mo,

com vestimentas protetoras, para obter material para o museu.




Naturalmente, acabamos tendo que parar com

esse

costume, por medo de

nos expormos, logo que seus ante

passados desenvolveram a escrita.







Arak!





gritou Sufa de um ponto várias galerias à frente.





Donald, Richard e Michael estão andando rápido, então irei na frente com

eles!







Perfeito





disse Arak.





Vamos nos encontrar todos no sa

guão

de entrada dentro



de mais ou menos uma hora.



Sufa concordou e acenou em despedida.







Por que se preocupavam com a exposição aos povos antigos?





perguntou Suzanne.





Eles certamente não possuíam uma tecnologia que

pudesse causar problemas a vocês.







É bem verdade





admitiu



Arak.





Mas sabíamos que vocês,

seres humanos secundários, teriam essa tecnologia algum dia, e não

queríamos nenhum registro dessas nossas visitas. Já bastava nos preo

-

cuparmos com o experimento fracassado de Atlântida, embora

esse

não



nos preocupasse tan

to, já que os humanos primários envolvidos haviam

desempenhado o papel de humanos de segunda geração.



Suzanne concordou com a cabeça, mas a atenção dela havia se des

-

viado para um antigo e elaborado vestido minóico, que deixava os seios

completamente à mos

tra.







Há um período na sua história moderna do qual possuímos

muitos artefatos





disse Arak.





Gostariam de dar uma olhada?



Suzanne olhou para Perry, que encolheu os ombros.







Por que não?





disse Suzanne.



Arak dobrou à esquerda e rumou a passos largos at

é uma galeria

lateral repleta de delicadas peças de cerâmica grega. Seguido de perto por

Suzanne e Perry, ele dobrou outra esquina e subiu um lance de escadas

sem nada de especial. No andar acima, chegaram a uma enorme galeria

cheia de peças da Segunda Gue

rra Mundial. Os artefatos iam de coisas tão

pequenas quanto placas de identificação de cães e insígnias de uniformes

até objetos tão grandes quanto um tanque Sherman, um avião B

-

24

Liberator e um submarino alemão intacto, com todos os tipos de objetos

entr

e eles. Estava claro que tudo na galeria já havia estado um dia

submerso no oceano.










Minha nossa





comentou Perry enquanto andava entre as pe

ças

expostas.





Isso aqui parece mais um pátio de ferro

-

velho do que uma

exposição de museu.







Parece que nossa ú

ltima guerra mundial contribuiu substan

-

cialmente para o acervo do seu museu





disse Suzanne. Ela e Arak per

-

maneceram no patamar das escadas. Essa não era uma exposição pela

qual Suzanne pudesse se interessar.







Uma contribuição e tanto





concordou Arak.





Objetos como os

que estão vendo aqui choveram no fundo dos oceanos durante mais de

cinco anos. Durante as últimas centenas de anos de sua história, nossa

única fonte de objetos raros foi o fundo do mar.



Suzanne olhou de relance o submarino.







O crescimen

to explosivo da tecnologia dos submarinos e das suas

operações preocupou vocês?





Só no tocante à tecnologia do radar





disse Arak.





Princi

palmente quando a tecnologia do sonar se combinou

com a de confec

ção de mapas de perfilagem batipelágica. Essa tecn

ologia

foi um dos motivos por que resolvemos fechar as portas de acesso como

aquela pela qual você entrou.



Enquanto Suzanne e Arak continuavam a discutir o sonar e sua

ameaça à segurança de Interterra, Perry perambulou por toda a largura da

galeria da Segu

nda Guerra Mundial. Algumas peças da coleção pare

ciam

estar em perfeitas condições, outros objetos estavam com incrustações de

cracas como o Corvette em frente ao museu. Ao fim do corredor, ele

meteu a cabeça por uma janela que dava para leste e vis

lumbr

ou as

imensas espirais que serviam como sustentação dos Açores.



Perry relanceou os olhos pelo pátio lá embaixo e depois tornou a

olhar. O

Oceanus,

o submersível da Benthic Marine, se encontrava apoiado

so

bre o que parecia ser uma plataforma conectada a um



grande táxi aéreo.







Ei, Suzanne!





gritou Perry.





Venha ver!



Suzanne correu para se reunir a ele. Arak seguiu

-

a. Ambos se de

-

bruçaram da janela e seguiram o dedo de Perry, que indicava o subma

rino.







Meu Deus!





disse Suzanne.





É o nosso submersível!

O que ele

está fazendo aqui?







Ah, sim





disse Arak.





Esqueci de mencionar quanto inte

resse

seu navio gerou junto aos curadores do museu. Creio que, com sua




permissão, eles pretendem exibi

-

lo ao lado das outras peças.







Ele sofreu alguma avaria?





indago

u Perry.







Nada grave





disse Arak.





Clones operários especializados

repararam as luzes externas e o braço manipulador. Ele também foi

descontaminado, mas sob outros aspectos está intacto. Vocês conhecem os

componentes dessa embarcação?







Um pouco





disse



Perry.





Mas não de um ponto de vista

operacional. Suzanne sabe mais do que eu. Eu só naveguei nele duas

vezes.





Donald é que é o especialista mesmo





disse Suzanne.





Ele

conhece essa embarcação como a palma da mão.







Excelente





disse Arak.





Nós quería

mos mesmo formular

algumas perguntas sobre o sonar, que descobrimos ser ainda mais sofis

-

ticado do que havíamos imaginado.







Ele é que pode responder a elas





disse Suzanne.







O que é aquilo sobre o qual o submarino está apoiado?





in

-

dagou Perry.







E um v

eículo aéreo de carga





disse Arak.



Michael fez questão de ficar ao lado de Donald, que estava

atravessan

do o museu como se estivesse fazendo uma caminhada, em vez

de apre

ciando os espécimes. Depois de alguns passos, Michael era sempre

obrigado a correr

para acompanhar as largas passadas de Donald. Donald

há muito deixara Richard e Sufa para trás.







Por que diabo está indo tão rápido?





disse Michael, sem fôle

-

go.





O que é isso, alguma corrida?







Você não precisa me acompanhar





retrucou Donald. Ele do

b

rou

outra esquina e prosseguiu. Eles passavam por uma galeria que continha

esculturas e pinturas renascentistas.







Richard e eu achamos que devíamos sair de Interterra o mais

rápido possível





conseguiu dizer Michael. Estava ofegante.







Vocês dois deixaram



isso claro na hora do café





disse Donald,

desdenhoso. Dobrou outra esquina e entrou em uma sala com paredes

revestidas de tapetes.







Estamos ficando meio preocupados





disse Michael, procu

rando




manter

-

se lado a lado com o rápido ex

-

oficial da Marinha.







Com o quê, marujo?





indagou Donald.







Porque... bom... temos um problema





disse Michael, hesi

-

tante.





Tem a ver com um casal desses interterráqueos.







Não estou interessado em seus problemas pessoais





disse

Donald, em tom ríspido.





Mas é que aconteceu



um acidente





disse

Michael.





Ou, aliás, dois acidentes.



Donald parou de repente, e Michael também. Donald golpeou o ar

diante do rosto de Michael. Os lábios de Donald estavam

arreganhados

,

num sorriso de escárnio.







Olha aqui, seu cabeça de melão! Vocês



dois resolveram se en

-

volver com

esses

interterráqueos. Eu não quero saber das suas dificul

dades

de relacionamento com eles. Entendeu?







Mas...







Nada de "mas", marujo





vociferou Donald.





Estou tentan

do

achar um meio de sairmos daqui, e não quero que

nem você nem seu

amiguinho idiota me desviem desse objetivo.







Tá legal, tá legal





disse Michael, levantando a mão defensiva

-

mente.





Estou contente por você estar trabalhando nesse sentido. Estou

querendo sair daqui tão rápido quanto puder, só penso niss

o. Quero dizer,

vou ajudar de todas as formas que puder.







Não vou me esquecer disso





disse Donald, ironicamente.







Tem alguma idéia de como vamos conseguir?







Vai ser difícil





admitiu Donald.





Vamos ter que encontrar

alguém além do Arak para nos dar um

as respostas válidas. O melhor, é

claro, seria encontrar alguém que não esteja gostando daqui mas que já

esteja aqui há tempo suficiente para saber como sair.







Ninguém parece insatisfeito





comentou Michael.





É como se

vivessem numa grande festa.







Não e

stou falando dos interterráqueos





disse Donald.





Arak

insinuou que várias pessoas do nosso mundo acabaram vindo parar

nestas bandas. Alguns devem estar com saudades de casa e não devem ser

tão amigos dos interterráqueos como Ismael e Mary parecem ser. É

da na

-




tureza humana, ou pelo menos da natureza dos humanos secundários,

resistir a quem os obriga a fazer alguma coisa. É

esse

tipo de pessoa que eu

gostaria de encontrar.







Como você sugere fazer isso?





Não sei





admitiu Donald.





Vamos ter que manter nos

sos olhos abertos para não perder a

oportunidade quando ela se apresentar. Até que gosto de estar passeando

pela cidade. Certamente não vamos encontrar uma pessoa assim sentados

naquela droga de sala de confe

rências.







Mas

esse

lugar está deserto





reclam

ou Michael. Os olhos dele

desviaram

-

se momentaneamente para inspecionar os corredo

res vazios.







Não vim aqui conhecer ninguém





disse Donald.





Vim aqui a

esse

museu dos infernos na esperança de encontrar algumas armas. Achei

que encontraria algumas, mas

ainda não vi nenhuma. Um museu sobre

história humana sem armas é ridículo. O pacifismo desses interterráqueos

está me fazendo subir pelas paredes.







Armas!





comentou Michael. Concordou com a cabeça. A idéia

não havia ainda entrado na mente dele, mas ficou



imediatamente intri

-

gado.





Legal! Para lhe dizer a verdade, estava imaginando por que você

queria vir aqui.







Bom, agora você sabe, marujo?





disse Donald.





E talvez você

possa até ajudar, já que

esse

lugar é assim imenso. Se nos dividir

mos,

poderemos

cobrir uma área bem maior.



Mal Donald deu essa sugestão, captou com o rabo do olho algo que

ainda não tinha visto em nenhuma outra sala de exposições: uma porta

fechada com as palavras

E

NTRADA

R

ESTRITA



numa placa presa a ela. Cu

-

rioso quanto ao seu conteúd

o, aproximou

-

se dela, com Michael a se

gui

-

lo

de perto. Quando Donald chegou mais perto, viu que havia várias outras

palavras em letras menores:

S

OLICITE

P

ERMISSÃO PARA ENTRAR



AO

CONSELHO DE ANCIÕES

..







Que diabo

é

esse Conselho de Anciãos?





perguntou Mic

hael por

sobre o ombro de Donald.







Uma espécie de órgão de governo, creio eu





disse Donald.

Pousando a mão na porta, empurrou

-

a. Estava destrancada, como to

das as

portas de Interterra.





Eureca!





disse Donald, ao vislumbrar alguns dos

objetos exi

bidos

na sala atrás da porta. Empurrou a porta, escancarando

-

a,




e pas

sou pelo umbral. Michael seguiu

-

o e assobiou.







Não admira que não tenhamos muitas armas





disse Donald.





Parece que ficam todas numa galeria oculta própria.





A sala era estreita

em comparaç

ão às outras, mas extremamente longa. De ambos os lados se

encontravam prateleiras para exposição das peças atulhadas de armas.



Os dois homens haviam ido até aproximadamente a metade da ga

-

leria. Na prateleira diretamente em frente à entrada estava uma bes

ta

medieval com uma aljava de quadrelos pontiagudos. Michael inclinou

-

se

e ergueu a besta de onde se encontrava. Tornou a assobiar. Jamais havia

manuseado uma arma daquelas.







Caramba!





comentou.





Mas que troço mais assustador.





Bateu no corpo da arma c

om as juntas dos dedos. O som foi de uma batida

sonora. Tangeu o cordel do arco. Ainda estava bom. Ergueu a arma e

mirou ao longo de seu eixo.





Aposto que isso aqui ainda fun

ciona.



Donald já havia se afastado para a direita, mas logo viu que estava

segui

ndo o sentido cronológico errado. As armas estavam ficando mais

antigas. Adiante, divisou uma coleção de espadas, arcos e lanças gregos e

romanos. Virou

-

se e passou por Michael, que estava ocupado tentan

do

curvar a besta com uma manivela manual de modo a

retesar o cordel e

prendê

-

lo no seu dispositivo de travamento.







O arco ainda tem um bocado de força





disse Michael quan

do

finalmente teve êxito. Colocou um dos dardos na guia e ergueu a arma

carregada para que Donald a visse.





O que acha?







Pode ser qu

e funcione





disse Donald, vagamente, enquanto se

encaminhava no sentido contrário. Sentiu

-

se mais animado ao ver os

primeiros exemplares de arcabuzes primitivos.





Mas eu estava espe

-

rando uma coisa mais definitiva que uma balestra.







Pensei que isso aqui



fosse uma besta





disse Michael.





É a

mesma coisa





disse Donald sem se virar.



Michael pousou o dedo na alavanca de disparo e, sem querer, ati

rou.

O dardo partiu zunindo de sua posição na guia, ricocheteou na parede de

basalto com um som agudo de algo qu

e raspa, passou como um

relâmpago rente à orelha direita de Donald e se enterrou em uma das

prateleiras de madeira. Donald havia sentido o deslocamento de ar do

projétil quando ele passou.










Mas será possível!





rosnou Donald.





Você quase me furou

com ess

a porcaria aí!







Desculpe





disse Michael.





Mal encostei no gatilho.







Bote isso de volta no lugar antes que um de nós saia ferido





berrou Donald.







Pelo menos sabemos como funciona





disse Michael. Donald

sacudiu a cabeça, enojado, enquanto erguia a mão



para ver



se a orelha

estava em bom estado. Graças a Deus, não havia sido ferido. A flecha

havia passado perto o suficiente para tirar sangue. Resmun

gando uma

série de impropérios a respeito dos palhaços que lhe haviam caído nas

mãos, continuou percorrend

o a galeria. Logo se viu diante de uma coleção

de fuzis e revólveres da Segunda Guerra Mundial. Para sua decepção

estavam em péssimo estado, depois de sofrer os efeitos corro

sivos da água

do mar. Foi ficando cada vez mais desanimado, até que deu com uma

L

uger alemã perto do fim da sala. À primeira vista ela parecia estar em

excelente estado de conservação.



Sem perceber que estava contendo a respiração, Donald pegou a

pistola e avaliou seu peso. Para sua alegria, a arma parecia nova em fo

lha,

mesmo após ri

gorosa inspeção. Com grande expectativa ele abriu o pente.

Um sorriso surgiu

-

lhe no rosto. Estava carregada!







Encontrou alguma coisa boa aí?





perguntou Michael. Havia

seguido Donald.



Donald empurrou o pente para dentro da coronha da pistola. Ele

produziu



um som mec

ânico positivamente seguro. Ergueu a arma.







Era isso que eu estava procurando.





Maneiro!





exclamou

Michael.



Donald recolocou a Luger com todo o carinho onde a havia encon

-

trado.







O que está fazendo?





perguntou Michael.





Não vai levá

-

la?







A

gora, não





disse Donald.





Só quando souber o que vou fazer

com ela.





Richard parou de repente. Não conseguia acreditar no que estava

ven

do. Era uma sala entupida de tesouros, a maioria antigos. Havia inú

-




meras taças, tigelas e até estátuas inteiras de o

uro maciço, todas

iluminadas com raios concentrados de luz, que enfatizavam seu brilho. A

um canto, via

-

se uma série de baús cheios de dobrões. Era uma expo

sição

deslumbrante.



O que tornava a visão ainda mais estonteante para Richard era que a

coleção int

eira de valor inestimável estava ao alcance de qualquer pes

soa,

uma vez que os objetos estavam expostos sem vitrines protetoras como ele

via em todos os museus onde já havia estado. E isso além do fato de que

não havia vigias na porta do museu.







Isso é i

nacreditável





disse Richard.





Meu Deus, isso é fan

-

tástico. O que eu não faria por um carrinho de mão cheio dessas coisas!







Gostou desses objetos?





perguntou Sufa.







Se eu gostei? Adorei





gaguejou Richard.





Nunca vi nada igual

a isso aqui. Duvido que



haja tanto ouro em Fort Knox.







Temos salas de armazenagem abarrotadas dessas coisas





in

-

formou Sufa.





Há muitos anos que os navios afundam com tesouros.

Posso providenciar para que enviem uma certa quantidade de objetos

semelhantes ao seu quarto, para

que se regale com eles, se quiser.







Está querendo dizer coisas como as que estamos vendo aqui?







Certamente





disse Sufa.





Prefere as estátuas grandes ou os

objetos menores?







Não sou exigente





disse Richard.





Mas e as jóias? O museu

também tem jóias?





Sem dúvida





disse Sufa.





Mas a maioria delas

vem da An

tigüidade da superfície da Terra. Gostaria de vê

-

las?







Por que não?





concordou Richard.



No caminho para a galeria de jóias antigas, Richard vislumbrou um

artefato em uma mostra de objetos raros do



século XX que o fez sorrir. Em

um pedestal da altura do peito, via

-

se um disco Frisbee cuidadosa

mente

iluminado por uma réstia de luz, como se também fosse tão ines

timável

quanto o ouro.







Mas olha só que coisa!





murmurou Richard, ao parar diante do

di

sco amarelo esverdeado. Notou algumas marcas de dentes de ca

chorro

na beirada do disco.





Mas por que puseram isso aqui?





per

guntou a

Sufa, que já estava lá na frente.






Sufa voltou para o ponto onde Richard se achava para ver ao que ele

estava se referin

do.







Não sabemos bem o que é isso





admitiu ela.





Mas algumas

pessoas sugeriram que poderia ser um modelo de um de nossos veículos

antigravitacionais como nossos táxis aéreos ou nossos cruzadores

interplanetários. Durante algum tempo tememos que alguém h

ouvesse

presenciado a passagem de uma das nossas naves.



Richard jogou a cabeça para trás e deu uma boa risada.







Deve estar brincando





disse.







Não estou, não





disse Sufa.





O formato dele é muito su

gestivo,

e pode

-

se girá

-

lo de forma a capturar uma alm

ofada de ar, imi

tando uma

nave antigravitacional.







Não é modelo de nada





disse Richard.





Não passa de um

Frisbee.







Mas para que serve?





indagou Sufa.







Para jogar





disse Richard.





A gente o arremessa como você

disse e depois alguém o pega. Deixe

-

me



mostrar

-

lhe.





Richard pegou o

Frisbee e jogou

-

o de leve, formando um ângulo com a horizontal. O

brinquedo atingiu um apogeu, depois voltou. Ele o pegou na palma da

mão, entre o polegar e os dedos.





É só isso





disse.





Fácil, não?







Parece





disse Sufa.







Deixe

-

me jogá

-

lo para você, e você o pega, como eu fiz





disse

Richard. Ele recuou uns quinze metros na galeria e jogou o Frisbee para

Sufa. Ela fez os movimentos como se fosse pegá

-

lo, mas era muito desa

-

jeitada. Embora o disco roçasse a mão dela, ela n

ão conseguiu agarrá

-

lo;

ele caiu no chão. Depois de revirar os olhos diante da falta de coordena

ção

dela, Richard afastou

-

se e mostrou

-

lhe de novo como proceder. No novo

arremesso ela se mostrou mais desajeitada que no primeiro.







Vocês não têm muita ativ

idade física, não é?





observou Richard,

num tom de menosprezo.





Jamais vi alguém que não conse

guisse

agarrar um Frisbee.







Com que objetivo?







Objetivo nenhum





retrucou Richard.





Só para se divertir. É

um esporte. Jogar essa coisa de um lado para o ou

tro dá à gente a




oportunidade de se exercitar correndo.







Parece

-

me uma inutilidade





disse Sufa.







Não gostam de fazer exercício aqui em Interterra?







Claro





disse Sufa.





Gostamos de nadar, principalmente, mas

também de caminhar e brincar com nossos hom

ídios. É claro que tam

bém

praticamos sexo, como tenho certeza de que Meeta, Palenque e Karena lhe

mostraram.







Estou falando de esporte!





queixou

-

se Richard.





Sexo não é

esporte.







Para nós, é





afirmou Sufa.





E sem dúvida é uma atividade

bem vigorosa.







Que tal um esporte onde se tente vencer?





perguntou Richard.







Vencer?





indagou Sufa.







Sabe, competir!





disse Richard, chateado.





Não tem jogos

competitivos por aqui?







Mas, é claro que não!





disse Sufa.





Paramos com essa boba

-

gem éons atrás, qua

ndo eliminamos as guerras e a violência.





Ai meu

Jesus!





extravasou Richard.





Não têm esportes! Quer dizer que não

jogam hóquei, nem futebol, nem golfe! Caramba! E pen

sar que a Suzanne

acha

esse

lugar aqui um paraíso!







Por favor, se acalme





suplicou S

ufa.





Por que está tão nervoso?







Pareço nervoso?





indagou Richard, na maior inocência.







Parece, sim





disse Sufa.







Acho que estou precisando fazer um pouco de exercício





dis

se

Richard. Com o Frisbee debaixo do braço, estalou as juntas dos de

dos,

ne

rvosamente. Sabia que estava tenso, e sabia por quê: vivia imaginando

um clone operário encontrando o corpo de Mura encolhi

do dentro da sua

geladeira.







Por que não leva o Frisbee?





sugeriu Sufa.



Talvez Michael ou

um dos outros queira jogar com você.







Por que não?





disse Richard, sem muito entusiasmo.












Muito bem, todos vocês!





anunciou Arak. O grupo havia torna

-

do a se reunir no terraço diante do museu depois de passar mais de uma

hora dentro do prédio. Estavam todos debatendo o que haviam visto

dur

ante a visita, exceto Richard, que ficou pelos cantos, jogando o Frisbee

no ar e pegando

-

o sem parar. Três táxis aéreos os aguardavam no final da

escadaria.







Vamos falar da programação do restante da manhã





disse Arak.







Sufa vai acompanhar Perry até a f

ábrica de táxis aéreos e sua

oficina de manutenção. Perry, creio, preferiu fazer essa visita.







Exatamente, queria muito





confirmou Perry.







Ismael e Mary vão acompanhar Donald e Michael até a Central

de Informações





prosseguiu Arak.



Donald concordou.







E você, Richard?





indagou Arak.





Qual dos dois lugares

prefere visitar?







Tanto faz





disse Richard, continuando a arremessar o Frisbee

no ar.





Tem que escolher um ou outro





disse Arak.







Tá legal, então a fábrica de táxis aéreos





disse Richard, im

-

pas

sível.







E a Suzanne?





perguntou Perry.







A Dra. Newell irá comigo a uma reunião com o Conselho dos

Anciãos





disse Arak.







Sozinha?





Querendo protegê

-

la, Perry olhou de relance para

Suzanne.







Está tudo bem





tranqüilizou

-

o Suzanne.





Enquanto vocês

vis

itavam o submarino na galeria da Segunda Guerra, Arak explicou que

os Anciãos queriam falar comigo profissionalmente, como oceanógrafa.







Mas por que sozinha?





indagou Perry.





E por que não que

rem

que eu vá? Afinal sou presidente de uma empresa oceanogr

áfica.







Acho que não estão interessados no lado comercial





disse



Suzanne.





Não esquenta.







Tem certeza?





persistiu Perry.










Absoluta





disse Suzanne. Deu tapinhas no ombro de Perry.







Então vamos





chamou Arak.





Vamos todos nos reencon

trar

no palácio



dos visitantes mais tarde.





Fazendo sinal para que os outros o

seguissem, ele contornou a plataforma onde se encontrava o Corvette

antigo e começou a descer os largos degraus até os táxis aéreos que

flutuavam ao pé da escadaria.





Pareceu mesmo estranho p

ara Suzanne estar sozinha com Arak

quando o táxi aéreo partiu, arrebatando

-

os para o seu destino. Era a

primeira vez que Suzanne se afastava dos outros, exceto quando dormiu

no seu chalé. Ela olhou para Arak, e ele sorriu para ela. Estar assim

próxima dele



a fez tomar consciência de como ele era bonito.







Está gostando de sua orientação?





indagou Arak.





Ou está se

sentindo frustrada, achando que ela está indo devagar, ou depressa

demais?





Avassaladora, é a melhor descrição da minha opinião sobre

ela







dis

se Suzanne.





A velocidade não vem ao caso, e eu certamente

não estou nem um pouco frustrada.







Seu grupo é um desafio e tanto para se criar e adaptar o melhor

protocolo de orientação. Vocês são todos muito diferentes uns dos outros,

um fato que nós intert

erráqueos consideramos não só fascinante, como

também intimidador. Sabe, devido à seleção e adaptação, somos todos

muito parecidos entre nós, como tenho certeza de que deve ter percebido.







Todos são muito gentis





disse Suzanne, meneando a cabeça

afirmati

vamente e estremecendo diante do lugar

-

comum. Percebeu que,

até aquele comentário de Arak, ainda não havia refletido muito no as

-

sunto. Agora que estava pensando nisso, percebeu que era verdade. Não

só eram todos atraentes no sentido clássico, mas igualmen

te educados,

inteligentes e simpáticos. Havia pouca, senão nenhuma variação entre

seus temperamentos.







"Gentil"

é uma palavra neutra demais





disse Arak.





Espero

que não esteja entediada de conviver conosco.



Suzanne soltou uma risadinha curta e envergonh

ada.







É difícil me entediar estando assim deslumbrada como estou







disse.





Posso lhe garantir isso, não estou entediada.





Os olhos dela

vaguearam até a vista inacreditável da cidade com os enxames de táxis




aéreos zunindo ao redor. A última coisa que sen

tia era tédio, mas de

repente percebeu do que Arak estava falando. Depois de algum tem

po,

Interterra talvez se tornasse um lugar cansativo devido à sua

homogeneidade. Alguns dos mesmos aspectos que faziam dela um pa

-

raíso também a tornavam insossa.



Suzann

e concentrou

-

se em um prédio impressionante que se desta

-

cava da tapeçaria que era a cidade e a tirou dos seus devaneios quando o

táxi aéreo rapidamente se aproximou dele. Era uma enorme pirâmide

negra com uma parte superior dourada. Quando o táxi parou e

depois

desceu até uma passarela que conduzia à entrada da pirâmide, ela ficou

abismada ao notar como o edifício se parecia com a Grande Pirâmide



egípcia de Gizé. Como já estivera em Gizé, juraria que a versão

interterráquea era até mais ou menos do mesmo t

amanho. Quando

mencionou a semelhança a Arak, ele sorriu, com ar de superioridade.







Esse projeto foi uma das nossas contribuições à cultura egípcia





declarou Arak.





Tínhamos grandes esperanças em relação a eles, pois, a

princípio, eram uma civilização c

onsideravelmente pacífica. Enviamos

uma delegação para viver com eles nos primórdios da histó

ria egípcia

com a intenção de fazê

-

los se destacar entre os outros povos

extremamente belicosos que haviam se desenvolvido. A experiência não

foi um empreendiment

o da mesma monta que o movimento de Atlântida,

e nos esforçamos muito, mas, no final, fracassamos.







Mostraram a eles como construir prédios e lhes forneceram os

projetos?





indagou Suzanne. Para ela o mistério da Grande Pirâmide era

um dos mais fascinante

s do mundo antigo.







Claro





disse Arak.





Precisamos fazer isso. Também lhes

ensinamos o conceito de arco, mas eles se recusaram terminantemente a

crer que funcionaria, e nunca o usaram em nenhuma construção.



O táxi aéreo parou, e a lateral se abriu.







Pr

imeiro você





disse Arak, gentilmente.



Depois que entraram, Suzanne percebeu que qualquer semelhança

entre as duas construções havia desaparecido. O interior da pirâmide

interterráquea era de mármore branco cintilante, e os espaços interio

res,

grandiosos

em vez de claustrofóbicos.



Quando Suzanne e Arak percorreram um corredor rumo ao centro




do edifício, Suzanne teve nova surpresa. Garona saiu de um corredor

lateral, surgindo bem na frente dela e lhe deu um caloroso abraço.







Garona!





murmurou Suzanne, obv

iamente extasiada. Retri

buiu

-

lhe o abraço.





Mas que agradável surpresa! Eu não esperava te ver antes

da noite. Ou pelo menos esperava vê

-

lo esta noite.







É claro que teria me visto à noite





disse Garona.





Mas não

consegui esperar.





Olhou

-

a nos olhos.





Sabia que você viria ao

Conselho dos Anciãos hoje, de forma que vim esperá

-

la.





Pois adorei





respondeu Suzanne.







É melhor nos apressarmos





disse Arak.





O Conselho está nos

aguardando.







Certamente





disse Garona. Parou de abraçar Suzanne e pe

gou a

m

ão ela. Os três começaram a andar.







Como foi sua manhã?





indagou Garona.







Esclarecedora





disse Suzanne.





A tecnologia de vocês é es

-

pantosa.







Tivemos uma palestra científica





explicou Arak.







Alguma visita?





indagou Garona.







Ao Museu da Superfície



da Terra





contou Suzanne.







É mesmo?





Garona pareceu surpreso.







Foi um pedido específico do Sr. Donald Fuller





explicou Arak.







Acharam a visita instrutiva?





perguntou Arak.







Foi interessante





disse Suzanne.





Mas eu não teria escolhi

do

esse lugar

, não diante do que aprendemos na palestra científica.



Aproximaram

-

se de um par majestoso de portas de bronze. Em cada

painel se via uma figura em relevo que Suzanne reconheceu ser um

ankh,

ou um antigo s

ímbolo egípcio da vida. Era mais um lembrete para el

a da

evidente troca de informações dos interterráqueos com a civilização antiga

dos seres humanos secundários. Aquilo a fez imaginar o que mais teria

resultado dessa cultura avançada.



No momento em que o grupo chegou a elas, as portas se abriram

para o int

erior da sala, girando em dobradiças silenciosas. Além delas se




viu um salão circular com teto em cúpula, sustentado por uma colunata.

Como o resto do interior da pirâmide, era em mármore branco, embo

ra os

capitéis



das colunas fossem de ouro.



Diante da in

sistência de Arak, Suzanne ultrapassou o limiar de már

-

more. Deu alguns passos hesitantes antes de parar. Examinou a câmara

monumental. Doze cadeiras de estilo imperial se encontravam distribuí

-

das por sua periferia. Cada uma se situava entre um par de col

unas. Todas

estavam ocupadas





supostamente por membros do Conselho, cuja

idade



variava de 5 a 25 anos. O inesperado grupo de idades tão variadas deixou

Suzanne ligeiramente confusa. Alguns dos membros eram tão pequenos

que, quando sentados, seus pés nem t

ocavam no chão.







Entre, Dra. Suzanne Newell





disse um dos componentes do

Conselho, numa voz claramente pré

-

adolescente. Para Suzanne, ela

parecia uma menina de dez anos.





Meu nome é Ala, e é minha vez de

falar pelo Conselho. Portanto, por favor, não ten

ha medo! Sei que o prédio

é imponente e intimidador, mas queremos apenas falar com você, se vier

ao centro da sala, todos poderemos vê

-

la com clareza.







Estou mais surpresa do que temerosa





disse Suzanne ao avan

-

çar até um ponto diretamente abaixo do pont

o mais alto da cúpula.





Disseram

-

me que eu ia me apresentar ao Conselho dos Anciãos.







E foi a ele que veio





disse Ala.





O fator determinante para se

fazer parte do Conselho é o número de vidas que a pessoa teve, não a

idade do corpo atual.







Entendo





disse Suzanne, embora ainda considerasse

perturbador estar diante de um corpo governamental parcialmente com

-

posto de crianças.







O Conselho dos Anciãos formalmente lhe dá as boas

-

vindas





disse Ala.







Obrigada





respondeu Suzanne, sem saber mais o que diz

er.







Trouxemos você a Interterra na esperança de que pudesse nos

fornecer informações que não fomos capazes de obter monitorando suas

comunicações na superfície terrestre.







Que tipo de informações?





indagou Suzanne. Sentiu que es

tava

fechando a guarda.



Em sua imaginação ouviu a voz de Donald dizendo

que os interterráqueos queriam algo deles, e depois que o obti

vessem, os




tratariam de forma muito diferente.







Não se alarme





disse Ala, conciliadora.







É difícil não se alarmar





disse Suzanne.





Principa

lmente

porque você me faz recordar que eu e meus colegas fomos abduzidos para

seu mundo, o que, devo dizer, foi uma experiência aterrorizante.





Pedimos desculpas por isso





disse Ala.





E deve entender que

pretendemos recompensá

-

los por seu sacrifício. Mas



somos nós que

estamos alarmados. Sabe, a integridade e segurança de Interterra são

responsabilidade nossa. Sabemos que você é uma oceanógrafa de desta

-

que no seu mundo.







Estão sendo muito generosos





disse Suzanne.





Na verdade,

estou há relativamente po

uco tempo nesse campo.







Permita

-

me interrompê

-

la





disse um outro ancião. Era um

adolescente que começava a deslanchar no seu crescimento.





Meu nome

é Ponu, e atualmente sou o vice

-

representante. Dra. Newell, estamos

cientes da alta consideração que têm

pela senhora seus colegas do ramo.

Cremos que esse respeito

é

uma prova confiável da capacida

de

profissional de uma pessoa.







Como queiram





disse Suzanne. Não estava com vontade de

debater o assunto sob as circunstâncias do momento.





O que querem me

per

guntar?







Em primeiro lugar





disse Ala



, gostaria de saber se lhe in

-

formaram que nosso ambiente é isento de bactérias e vírus comuns no seu

mundo.







Arak deixou isso bem claro





disse Suzanne.







E presumo que entenda que a detecção de nossa civilização

por

uma civilização como a sua seria desastrosa.







Posso entender a preocupação de vocês com a contaminação





disse Suzanne.





Mas não estou convencida de que seria necessaria

mente

desastroso, principalmente se forem adotadas salvaguardas ade

quadas.







Dr

a. Newell, não pretendemos fazer disso um debate





avisou

Ala.





Mas certamente deve estar ciente do fato de que sua civilização

ainda está num estágio muito inicial de desenvolvimento social. O in

-

teresse individual puro e simples é a força de motivação d

ominante, e a

violência é cotidiana. Aliás o seu país mesmo é tão primitivo que per

mite




que toda e qualquer pessoa porte uma arma.





Permita

-

me parafraseá

-

la





aparteou Ponu.





O que minha estimada colega anciã está

afirmando é que a fome do seu mundo e a

cobiça por nossa tecnologia

serão tão grandes que nossas necessidades especiais seriam postas de lado.







Exato





disse Ala.





E não podemos aceitar um risco desses.

Não durante pelo menos cinqüenta mil anos, mais ou menos, para dar a

vocês, humanos secundá

rios, uma oportunidade de se tornarem mais ci

-

vilizados. Contanto, é claro, que não se destruam antes de chegarem lá.







Certo





disse Suzanne.





Como está dizendo, isto não é um

debate, e vocês me convenceram de que crêem que minha cultura é um

risco para

a sua. Partindo daí, o que querem de mim?



Fez

-

se uma pausa. Suzanne olhava de Ala para Ponu. Como

nenhum dos dois respondeu, ela olhou de relance para os outros rostos.

Nin

gu

ém falou. Ninguém se moveu. Suzanne voltou a fitar Arak e Garona.

Garona sorriu,

tranqüilizando

-

a. Suzanne voltou a se dirigir a Ala.







Bom, e agora?





perguntou. Ala suspirou.







Gostaria de lhe fazer uma pergunta direta





disse.





Uma

pergunta cuja resposta tememos ouvir. Sabe, seu mundo começou a fazer

várias perfurações no fundo do

oceano nos últimos anos, aparentemen

te

de forma aleatória. Observamos esses episódios com uma preocupa

ção

cada vez maior, pois não sabemos quais são seus objetivos. Sabemos que a

perfuração não é para a prospecção de petróleo nem de gás natu

ral, pois

es

ses

recursos não existem nas áreas onde essa perfuração está sendo feita.

Andamos monitorando as comunicações, como sempre fi

zemos, mas sem

conseguirmos saber o porquê das perfurações.







Estão interessados em saber por que o

Benthic Explorer

andou

perfura

ndo a montanha submarina?





indagou Suzanne.







Estou muito interessada





disse Ala.





Vocês estavam per

-

furando diretamente em cima de nossas antigas portas de saída. A

probabilidade disso ocorrer puramente por acaso é extremamente pe

-

quena.





Não foi por a

caso





admitiu Suzanne. Assim que ela pro

-

nunciou essas palavras um murmúrio geral irrompeu entre os anciãos.





Deixem

-

me terminar





pediu Suzanne.





Estávamos perfuran

do a

montanha para vermos se podíamos alcançar diretamente a astenosfera.

Nosso ecobatí

metro indicou que o monte era um vul

cão inativo com uma

câmara de magma cheia de lava de baixa den

sidade.










Por acaso a decisão de perfurar este local em particular se origi

-

nou de uma suspeita de que Interterra existe?





indagou Ala.







Não!





disse Suza

nne.





Definitivamente não!







Não houve influência da suspeita da existência de uma civiliza

-

ção submarina no processo de decisão?





indagou Ala.







Como já disse, estávamos perfurando puramente por motivos

geológicos





disse Suzanne.



Os anciãos conferencia

ram em voz alta uns com os outros. Suzanne

virou

-

se e relanceou os olhos de novo para Arak e Garona. Ambos sor

-

riram para incentivá

-

la.







Dra. Newell





disse Ala para redirecionar a atenção de Suzanne

para si



, por acaso, em sua capacidade profissional, j

á ouviu dizer

qualquer coisa vinda de qualquer fonte que sugerisse que alguém sus

peita

da existência de Interterra?







Não nos círculos científicos





disse Suzanne.





Mas publica

ram

alguns romances sobre um mundo subterrâneo.







Sabemos da obra do Sr. Vern

e e do Sr. Doyle





disse Ala.





Mas

eram livros de ficção que visavam unicamente ao entretenimento.







Certo





disse Suzanne.





Fantasia pura. Ninguém achou que as

histórias deles se baseassem em fatos, embora eles provavelmente te

nham

se inspirado em um h

omem chamado John Cleves Symmes, que realmente

acreditava que o centro da Terra era oco.



Os anciãos voltaram a murmurar em voz alta, nervosos.







As crenças do Sr. Symmes influenciaram de algum modo a opi

-

nião dos cientistas?





indagou Ala.





Até certo ponto







disse

Suzanne.





Mas eu não me preocupa

ria muito com isso, porque estamos

falando da primeira parte do século XIX. Em 1838 a teoria dele realmente

motivou uma das primeiras expe

dições científicas norte

-

americanas. Foi

realizada sob o comando do te

ne

nte Charles Wilkes, e seu objetivo inicial

era encontrar a entrada do interior oco da Terra, que Symmes pensava

ficar debaixo do Pólo Sul.



Mais murmúrios exaltados ecoaram por toda a sala.







E qual foi o resultado dessa expedição?





indagou Ala.










Nada que



preocupasse Interterra





disse Suzanne.





Aliás, o

objetivo da expedição mudou antes mesmo de ela começar. Em vez de

procurar a entrada do interior da Terra, quando começaram, eles rece

-

beram a missão de encontrar novas áreas de caça a focas e baleias.







Então ignoraram a teoria do Sr. Symmes?





indagou Ala.







Completamente





disse Suzanne.





E ninguém jamais tor

nou a

propor a idéia.







Somos realmente muito gratos





disse Ala



, principalmente

considerando

-

se que o Sr. Symmes estava correto em alguns aspe

ctos. O

Pólo Sul era, e ainda é, nossa principal porta interplanetária e

intergaláctica.







Não é curioso?





disse Suzanne.





Infelizmente é um pouco tar

-

de para o Sr. Symmes provar que estava certo. Seja lá como for, percebo

pelas perguntas que estão me fa

zendo que querem saber se seu segredo

está seguro, e devo dizer que está, pelo menos que eu saiba. Mas enquanto

estamos falando no assunto, talvez eu deva mencionar que embora hoje

em dia nin

guém creia que a Terra seja oca, sempre existiram grupos

margina

is que conversam sobre alienígenas provenientes de culturas

avançadas que nos visitaram ou que vivem entre nós. Sempre existe um

programa de tevê ou outro cujo tema é

esse.

Mas essas idéias de visitas de

alienígenas se referem aos alienígenas vindos do esp

aço exterior, não de

dentro da Terra.







Sabemos do que está falando





disse Ala.





E essa associação

nos é favorável. Vem sendo particularmente útil nas poucas ocasiões em

que uma de nossas naves interplanetárias foi observada pelos humanos

secundários.





A



única outra coisa que eu deveria mencionar





disse

Suzanne





é que nossa cultura vem tendo mitos sobre a Atlântida que

chega

ram a nós dos antigos gregos. Mas asseguro a vocês que a

comunidade científica os considera puros mitos ou possivelmente

resultado



da des

truição de uma antiga cultura dos humanos secundários

por uma vio

lenta erupção vulcânica. Jamais existiu a teoria de que uma

cultura de humanos primários vive sob o oceano.



Os anciãos conferenciaram ruidosamente outra vez. Suzanne reme

-

xeu

-

se, pou

co à vontade, enquanto eles deliberavam.



Ala concluiu o discurso em particular com um meneio da cabeça

dirigido aos seus iguais e depois tornou a voltar sua atenção para Suzanne.










Gostaríamos de lhe perguntar a respeito dos episódios de per

-

furação aleató

ria em águas profundas que vêm ocorrendo no decorrer dos

últimos anos aproximadamente na área de Saranta. Nenhuma delas

ocorreu no cume de um monte submarino.







Imagino que esteja se referindo à perfuração que se fez para

confirmar as mais recentes teorias



de extensão do fundo do mar





dis

se

Suzanne.





Essas perfurações foram feitas simplesmente para reco

lher

testemunhos de rocha para se estabelecer sua idade.



Os anciãos tornaram a irromper em uma curta explosão de tagare

-

lice exaltada. Depois que termina

ram, Ala perguntou.







Houve alguma vez alguma insinuação de que a suposta câmara

de magma que estavam perfurando contivesse ar, em vez de lava de bai

xa

densidade?







Não, que eu saiba





disse Suzanne.





E eu era a cientista à

frente do projeto.







Essas por

tas de saída deviam ter sido vedadas faz tempo





dis

se

um dos anciãos, com certa veemência.







Agora não é hora de recriminações





aconselhou Ala, diplo

-

maticamente.





Estamos tratando do presente.





Depois, tornando a

olhar para Suzanne, indagou:





Em sum

a, em sua vida

profissional,jamais ouviu falar que alguém tivesse imaginado a existência

de uma civilização sob o oceano, nem criasse qualquer teoria semelhante?







Só como mitos, como já mencionei





disse Suzanne.







E agora, como última pergunta, que gosta

ríamos de fazer





disse

Ala.





Estamos cada vez mais apreensivos acerca da progressi

va falta de

respeito de sua civilização pelo ambiente marinho. Em

bora tenhamos

ouvido algumas menções a esse problema em seus meios de comunicação,

a taxa de poluição e a



pesca predatória vêm aumentando. Como até certo

ponto dependemos da integridade do oceano, estamos querendo saber se

o debate que existe na sua civili

zação sobre o assunto é só conversa vazia

ou reflete uma preocupa

ção real?



Suzanne suspirou. Essa era u

ma questão que lhe dizia respeito bem

de perto. Sabia muito bem que a verdade era no mínimo desanimadora.







Algumas pessoas estão tentando mudar a situação





disse

Suzanne.










Essa resposta deixa transparecer que a questão não é considera

da

importante pela



maioria





comentou Ala.







Talvez não, mas aqueles que realmente se preocupam dedicam

-

se

de corpo e alma a essa causa.







Porém talvez o público em geral não esteja ciente do papel crucial

que o oceano desempenha no grande ciclo ecológico da superfície ter

restre;

por exemplo, o fato de que o plâncton regula tanto o oxigênio quanto o

dióxido de carbono da superfície da Terra.



Suzanne sentiu o rosto ficar vermelho como se de alguma forma ela

fosse culpada pela forma pela qual os humanos secund

ários tratavam o

s

oceanos do mundo.







Infelizmente, a maioria dos povos e a maioria dos países enca

ram

o oceano como uma fonte inesgotável de suprimento de alimentos e uma

fossa sem fundo para dejetos e lixo.







Isso é mesmo muito triste





disse Ala.





E preocupante.







E

uma visão deturpada causada pelo egoísmo





disse Ponu.





Não posso deixar de concordar com vocês





admitiu Suzanne.





É um

problema que eu e meus colegas estamos trabalhando para mi

tigar. É uma

batalha.







Bom, era isso





disse Ala. Ergueu

-

se do assento. As

sim que ficou

de pé, caminhou diretamente até Suzanne, com a mão estendida e a palma

virada para a frente.



Suzanne ergueu também a mão e pressionou a palma dela contra a

de Ala. A cabeça de Ala chegava apenas até o queixo de Suzanne.







Obrigada por seu úti

l parecer





disse Ala, com sinceridade.





Pelo menos em relação à segurança de Interterra, você afastou nossos

temores. Como recompensa, lhe oferecemos toda a gama dos frutos de

nossa civilização. Há muito para se ver e para se vivenciar. Com sua

formação,



está qualificada de maneira especial, muito mais do que qual

-

quer outro dos nossos visitantes terrestres. Vá e regale

-

se!



Um súbito aplauso dos outros anciãos deixou Suzanne momenta

-

neamente confusa. Ela agradeceu, constrangida, os aplausos, com um

meneio



de cabeça, antes de falar em voz alta, para poder ser ouvida em

meio aos insistentes aplausos.










Obrigada por me oferecerem esta oportunidade de visitar

Interterra. Sinto

-

me honrada.







Somos nós que nos sentimos honrados





disse Ala. Gesticu

lou

para Arak



e Garona, fazendo sinal para que Suzanne os seguisse.



Mais tarde, depois que os três saíram da Grande Pirâmide, Suzanne

fez uma pausa para olhar rapidamente a imponente construção. Pergun

-

tou

-

se se não deveria ter indagado ao Conselho se ela e os outros e

ram

visitantes temporários ou eternos cativos de Interterra. Parte do motivo

pelo qual ela não havia feito a pergunta era o medo da resposta. Mas

agora sentia que desejava ter perguntado assim mesmo.







Você está bem?





perguntou Garona, interrompendo

-

lhe o



flu

xo

dos pensamentos.







Sim, estou





respondeu Suzanne. Voltou a andar, ainda absor

ta

em reflexões. A única coisa que a visita havia esclarecido mesmo ha

-

via

sido o motivo pelo qual ela e os outros haviam sido trazidos para

Interterra. Os anciãos queri

am interrogar um oceanógrafo profissional

acerca das suspeitas sobre a existência de Interterra. Ela não achava que o

tratamento que ela e seus colegas recebiam iria mudar agora que os

interterráqueos tinham atingido sua meta. Por outro lado, agora se sen

tia

a única responsável pelo sofrimento dos companheiros da superfí

cie. Se

não fosse por ela, eles não teriam sido abduzidos.







Tem certeza de que está se sentindo bem?





indagou Garona.







Parece tão pensativa...



Suzanne obrigou

-

se a sorrir.







É difícil n

ão estar





disse.





Há tanta coisa a assimilar.







Você prestou um grande serviço a Interterra





comentou Arak.







Como disse Ala... todos lhe somos gratos.







Não têm de quê





disse Suzanne enquanto tentava sustentar o

sorriso. Mas foi difícil. Sentindo que

Donald estava certo, e que esta

vam

em Interterra para ficar, sua intuição lhe dizia que o confronto se

ria

inevitável, e considerando

-

se as personalidades de alguns de seus

companheiros, a situação poderia, dentro em breve, ficar violenta e

incontrolável.








1

1

6

6





Esse lugar me dá calafrios





disse Michael.







É esquisito estar assim tão deserto





disse Donald.





Tam

bém é

estranho eles nos deixarem perambular por aqui sozinhos.







Eles confiam nas pessoas





disse Michael.





Isso a gente tem de

reconhecer.







Eu c

hamaria isso de dar bobeira





disse Donald.



Os dois humanos de segunda geração estavam percorrendo a Cen

-

tral de Informações. Ismael e Mary Black os haviam acompanhado até a

entrada do vasto edifício, mas haviam preferido ficar do lado de fora

enquanto Don

ald e Michael faziam sua visita. Lá dentro os ho

mens se

viram em um enorme labirinto de corredores e passagens que se

interceptavam. O lugar era uma

colméia



de salas cheias do chão até o teto

com o que lhes pareceram discos rígidos de uma colossal rede de



computadores. A não ser por dois clones operários que eles haviam

encontrado em uma sala perto da entrada, ainda não tinham visto vivalma.







Não acha que vamos nos perder aqui, acha?





perguntou

Michael, inquieto. Olhou para trás, para o caminho por onde

tinham

vindo. Todos os corredores pareciam iguais.







Estou tomando nota dos nossos movimentos





disse Donald.





Tem certeza?





indagou Michael.





Já demos um milhão de voltas.



Donald parou.







Escuta aqui, seu cabeça

-

dura





disse.





Se está grilado, por que

é que não volta para a porcaria da entrada e espera lá?







Tudo bem





disse Michael.





Estou na boa.







Na boa, o cacete





disse Donald. Começou a andar outra vez.







Mas por que você quis vir aqui, afinal?





indagou Michael al

-

guns minutos depois.







Vamos ap

enas dizer que eu estava curioso





respondeu Donald.







Parece um pesadelo





disse Michael.





Ou um filme de ter

ror

sobre o descontrole da tecnologia





estremeceu.










Pelo menos dessa vez sou obrigado a concordar com você, ma

-

rujo





disse Donald.





É como s

e a tecnologia houvesse dominado tudo.







O que acha que esses equipamentos todos fazem?







Arak insinuou que eles governam isso tudo aqui





disse

Donald.





Aparentemente, monitoram tudo. E armazenam as essências

das pessoas. Deus sabe quanta gente está tran

cafiada nessa coisa nesse

mo

mento.



Michael tornou a estremecer.







Acha que eles sabem que estamos aqui?







Aí você me pegou, marujo





disse Donald. Andaram mais

alguns minutos em silêncio.







Já não viu o bastante?





indagou Michael.







Acho que sim





disse

Donald.





Mas vou insistir mais um

pouquinho só.







Será que essa coisa se conserta sozinha?







Se for o caso





disse Donald



, então teríamos que perguntar

quem estaria mais vivo, se a máquina ou essas pessoas que parecem ter

tão pouco o que fazer.



De repen

te, Donald ergueu uma das mãos, detendo Michael.





O

que é?





gritou Michael.



Donald encostou um dedo nos lábios para que Michael se calasse.







Não está ouvindo isso?





sussurrou.



Michael inclinou a cabeça e escutou. Realmente estava captando

sons bem baixo

s a uma grande distância; leves vibrações que abalavam o

silêncio que, fora elas, era absoluto.







Está escutando?





indagou Donald. Michael confirmou.







Parecem risadas. Donald concordou.







Um tipo curioso de risadas





disse.





Acontece a intervalos

regula

res.







Se eu não achasse impossível, diria que eram risadas gravadas,

como as que se ouve numa comédia de tevê.






Donald estalou os dedos.







Você está certo! Eu sabia que conhecia

esse

som.







Mas isso é uma loucura





disse Michael.







Vamos tirar isso a limpo

!





disse Donald.





Vamos seguir o som.



Com uma curiosidade crescente os dois homens prosseguiram, es

-

perando encontrar a fonte. Nas encruzilhadas de cada corredor precisa

-

vam parar e escutar para escolher uma dire

ção. Gradativamente os sons

ficaram mais a

ltos, e, com eles, as escolhas ficaram mais claras. Quando

fizeram a última curva, descobriram que o som vinha de uma sala à

esquerda. Nesse ponto já estavam convencidos de que estavam mesmo

ouvindo um seriado de tevê; podiam até ouvir os diálogos.







Parec

e uma reprise do

Seinfeld





murmurou Michael.







Quieto!





disse Donald, quase sem emitir som. Achatou

-

se con

-

tra a parede ao lado da porta da sala e fez sinal para que Michael ficasse

ao lado dele. Devagar, Donald avançou. Para sua surpresa, parecia a sala

de monitoração de uma estação de tevê. A parede em frente estava co

berta

de mais de uma centena de monitores. Todos estavam ligados, a



maioria

sintonizada em diversos programas, embora alguns apenas exi

bissem as

cores de teste.



Inclinando

-

se um pouco mai

s para a frente, Donald notou um ho

-

mem sentado em uma poltrona anatômica branca no centro da sala em

frente aos monitores. O sujeito era muito diferente dos interterráqueos

típicos; estava ficando calvo e seus cabelos eram grisalhos e

desgrenhados

.

Realme

nte, diante dele, a tela exibia os personagens Elaine, George,

Kramer e Jerry.



Donald tornou a se achatar contra a parede do corredor, longe da

porta aberta. Olhou para Michael e murmurou:







Você estava certo! É um velho episódio de

Seinfeld.







Eu reconhec

eria essas vozes em qualquer lugar





disse Michael.

Donald ergueu o dedo até os lábios de novo.







Tem um velho ali assistindo ao programa





sussurrou.





E está

na cara que ele não parece interterráqueo.







Verdade?





perguntou Michael, em voz baixa.










Por e

ssa eu não esperava





disse Donald. Sugou o lábio infe

rior

enquanto refletia sobre a situação.







Sem dúvida





disse Michael.





E agora, o que fazemos?







Vamos entrar e saber quem é esse cara





disse Donald.





Tal

vez

tenhamos dado sorte. Mas, veja bem! De

ixe que eu falo, certo?







Fique à vontade





disse Michael.







Tudo bem, então vamos





disse Donald. Desencostando

-

se da

parede, entrou na sala. Michael o seguiu. Eles se moveram silenciosa

-

mente, embora a tevê estivesse tão alta que o homem jamais poderia t

ê

-

los

ouvido se aproximar.



Sem saber como evitar que o homem se assustasse, e mesmo assim

querendo chamar a atenção dele, Donald simplesmente entrou no que

achou que era o campo de visão do homem, só que quase fora dele. O

estratagema não funcionou. O cara



estava enfeitiçado pelo programa; o

rosto dele estava paralisado, numa expressão relaxada, apatetada, os olhos

semicerrados, que nem piscavam, colados à tela.





Com licença





disse

Donald, mas a voz dele se confundiu com novo acesso de risadas

gravadas.



Co

m delicadeza, Donald cutucou o braço do homem. O homem deu

um pulo na cadeira. Vendo os dois intrusos ao fazer isso, encolheu

-

se.

Mas recuperou

-

se rápido também.







Espere aí um minuto! Estou reconhecendo vocês dois!





ex

-

clamou.





Vocês são dois dos visita

ntes da superfície que acabaram de

chegar.







Chegar

não é bem o termo





disse Donald.





Não tivemos es

-

colha. Fomos abduzidos.





Olhou o homem, que não tinha mais de 52

anos, com um corpo curvado e magro. Tinha olhos bem encovados, con

-

gestionados, feições



rudes e um rosto vincado de rugas profundas. Era o

cara com aparência mais idosa que Donald havia visto em Interterra.







Vocês não sofreram um naufrágio?





indagou o homem.







Longe disso





disse Donald. Apresentou

-

se e apresentou

Michael.







Muito prazer e

m conhecê

-

los





disse o homem, animado.





Estava com esperança de ter essa oportunidade.





Avançou para aper

tar

-




lhes as mãos.





E é assim que as pessoas deveriam se cumprimentar





acrescentou.





Já me enchi dessa besteira de ficar pressionando as palmas

d

as mãos.







Qual o seu nome?





indagou Donald.







Harvey Goldfarb! Mas pode me chamar de Harv.







Está aqui sozinho?







Pode apostar. Vivo sozinho aqui.







O que está fazendo?







Não

é

muita coisa





disse Harvey. Olhou de relance para os

monitores.





Assisto a p

rogramas de tevê, especialmente aqueles de

Nova York.







É o seu emprego?







Mais ou menos, creio eu, mas

é

como se eu fosse um voluntá

rio.

Eu só gosto de ver trechinhos de Nova York. Gosto bastante de

Allin the

Family,

mas é difícil encontrar reprises dess

a hoje em dia. Uma pena.

Seinfeld é

batuta, mas não consigo entender muito as piadas.







Essa sala serve para quê?





indagou Donald.





Só para diversão?

Harvey riu, desdenhoso, enquanto sacudia a cabeça.







Os interterráqueos não estão interessados pela tevê

, e não a

assistem muito. É a Central de Informações que se interessa. A Cen

tral de

Informações de Saranta é um dos principais locais de recepção dos meios

de comunicação da superfície terrestre em Interterra. Monitora os meios

de comunicação da superfíci

e para se certificar de que não há referência à

existência de Interterra.





Harvey indicou os monitores com ambas as

mãos.





Essa coisa funciona 24 horas por dia, sete dias por semana.



"Ei, agora me lembrei de uma coisa. Vocês receberam uma tremen

da

cober

tura da CNN e de outras redes de televisão. Estão no noticiá

rio por

terem sido engolidos por um vulcão submarino."







Então, ninguém suspeitou de nada de anormal?





perguntou

Donald.







Nem desconfiaram





disse Harvey.





Só um monte de

baboseira sobre geolo

gia. Bom, voltando à minha função, me ofereci como

voluntário para ficar aqui embaixo monitorando os programas de tevê




para os arquivos e censurar qualquer cena de violência.







Depois da censura não deve sobrar quase nada dos programas





disse Donald, com

um riso cínico.





Por que eles se preocupam com isso?







Sei lá, não faz muito sentido





concordou Harvey.





Mas se eles

assistirem aos programas, esses não podem conter nenhuma vio

lência.

Não sei se já sabe, mas essa gente, os interterráqueos verdadei

ros

, não

suportam violência. Ela os deixa literalmente doentes!







Então você não é um interterráqueo genuíno. Harvey soltou outra

risada curta.







Eu? Harvey Goldfarb, um interterráqueo? Eu pareço um

interterráqueo? Com essa cara?





Parece mesmo um pouco mais v

elho do

que os outros.







Mais velho e mais feio





bufou Harvey.





Mas eu sou assim.

Eles andaram tentando me convencer a concordar em deixá

-

los fazer todo

o tipo de coisa comigo, até implantar cabelos em mim, mas recu

sei.

Mesmo assim, devo reconhecer que

eles cuidaram da minha saúde. Não

resta dúvida disso. Os hospitais deles parecem até oficinas. Eles colocam

uma parte nova na gente, e a gente sai dali novinho. Mas, mesmo assim,

não sou interterráqueo. Sou nova

-

iorquino. Tenho uma casa maravilhosa

na melh

or área do Harlem.







O Harlem mudou um pouquinho





informou Donald.







quanto tempo não vê sua casa?







Foi em 1912 que eu vim para Interterra.







Como chegou aqui?







Um pouco de sorte e a intervenção dos interterráqueos. Fui sal

vo

de me afogar com alguma

s centenas de pessoas depois que nosso navio

bateu num

iceberg.







O

Titanic

?







perguntou Donald.







Qual mais poderia ser





disse Harvey.





Estava voltando para

minha casa em Nova York.







Então, deve haver um bom número de passageiros do

Titanic

aqui em Int

erterra?





indagou Donald.







No mínimo várias centenas





disse Harvey.





Mas não estão




todos em Saranta. Muitos se mudaram para Adântida, e para outras

cidades. Eram muito procurados. Sabe, os interterráqueos nos acham

divertidos.







Já vi

esse

filme





diss

e Donald.







Aproveite isso enquanto pode





aconselhou Harvey.





De

pois

que se aclimatar aqui, não vai mais ser considerado tão interessan

te.

Acredite.







Você deve ter passado o pão que o diabo amassou





disse

Donald.







Não, até que venho sendo feliz aqui







disse Harvey, defensi

-

vamente.





Tem seus prós e contras.





Quero dizer, na noite em que o

Titanic

afundou.







Ah, claro! É verdade. Aquela noite foi pavorosa. Pavorosa!







Sente saudades de Nova York?







De certa forma





disse Harvey. Seus olhos adquiriram



uma ex

-

pressão distante.





Aliás,

é

engraçado, eu sinto falta mesmo da Bolsa de

Valores. Sei que parece estranho, mas eu era um homem que havia subi

do

na vida por mim mesmo... Era corretor, e adorava negociar. Trabalha

va

arduamente, mas adorava a emoção



de acompanhar o mercado.





Harvey inspirou profundamente e depois exalou o ar de uma só vez, num

suspiro profundo. Tornou a voltar a atenção para Donald.





Bom, já

chega de falar de mim. E vocês? Foram mesmo abduzidos para Interterra?

Se foram, são os pri

meiros de que ouço falar. Estava com a impressão de

que haviam sido salvos do vulcão submarino que a CNN noticiou.







Houve mesmo uma erupção naquele momento





disse

Donald.





Mas creio que foi mais para disfarçar o fato de que fomos

sugados para uma das po

rtas de saída de Interterra. De uma forma ou de

outra, nossa chegada aqui não teve causas naturais. Fomos seqüestrados

por algum motivo, que até agora não nos revelaram.



Harvey olhou de Donald para Michael e depois voltou a fitar

Donald.







Vocês não parece

m nada encantados com Interterra.







Estou impressionado





disse Donald.





Seria difícil não ficar

impressionado, mas não estou encantado.










Humm





disse Harvey.





Isso o coloca numa categoria pecu

liar.

Todos os outros que são trazidos para cá se tornam de

fensores do lugar da

noite para o dia. E esse seu amigo, aí?







O Michael sente o mesmo que eu





disse Donald. Michael con

-

firmou com a cabeça.





Sabe





prosseguiu Donald



, não gostamos de

ser forçados a fazer nada, por melhor que possa parecer. Mas, e voc

ê,

Harv?



Harvey olhou atentamente o rosto de Donald e até deu outra olha

da

de relance em Michael, que no momento estava rindo junto com os risos

gravados do programa.





Está falando sério, não está embasbacado com

este lugar, mes

mo com toda essa gente bon

ita e suas festas?







Estou lhe dizendo, não gostamos de ser forçados a nada.







E estão mesmo interessados na minha opinião? Donald

concordou.







Certo





disse Harvey. Inclinou

-

se mais para perto deles e bai

xou

o tom de voz.





Deixe

-

me lhes dizer uma coisa:



se eu pudesse partir esta

noite para Nova York, não perderia tempo. Isso aqui é tão tranqüi

lo e

perfeito que enlouquece qualquer pessoa normal.



Donald não pôde conter um sorriso. O velho era da mesma opi

nião

dele.







Estou lhe dizendo, nunca acontece nad

a aqui





continuou

Harvey.





Tudo é igual, entra dia, sai dia. Nunca acontece nada de errado.

Não sei o que eu faria por um dia na Bolsa de Nova York. Que

ro dizer,

preciso de um pouco mais de tensão para me sentir vivo, ou, no mínimo,

algumas más notícias



ou problemas de vez em quando para poder

apreciar como a vida é boa.



Michael fez um rápido sinal de positivo com o polegar para Donald.

Mas Donald o ignorou. Em vez disso ele perguntou a Harvey se alguém

havia alguma vez conseguido fugir de Interterra.







Está brincando? Estamos debaixo dessa porcaria desse oceano!

Quero dizer, de verdade. O que acha, que pode simplesmente ir andan

do

e sair daqui? Se fosse verdade, não estaria vendo Harvey Goldfarb aqui

sentado tentando dar uma espiadinha na Grande Maçã. E

staria lá em cima,

roendo as unhas.







Mas os interterráqueos saem





disse Donald.










Certamente que sim. Mas as saídas e entradas são todas controla

-

das pela Central de Informações. E quando os interterráqueos saem, saem

lacrados dentro das naves deles. Alé

m do mais, eles costumam mandar

apenas clones operários. Sabe, são muito cautelosos ao evitar qualquer

conexão entre este mundo e o nosso. Lembre

-

se de que um único

estreptococo extraviado seria o suficiente para provocar o caos aqui.





Parece que andou pen

sando um pouco nisso.







Sem dúvida





disse Harvey.





Mas são apenas devaneios.

Donald voltou a atenção para o painel de monitores de tevê.







Pelo menos, pode

-

se sentir conectado com o mundo da super

fície

nesta sala.







É por isso que fico aqui





disse Harv

ey, como se fosse o dono do

lugar.





É uma aparelhagem fantástica. Fico por aqui o tempo todo. Posso

assistir simplesmente a todos os canais de tevê principais do mundo da

superfície.







Pode transmitir, além de receber?





indagou Donald.







Não, o sistema é



passivo





respondeu Harvey.





Quero dizer,

há potência e antenas ilimitadas em simplesmente todas as montanhas da

superfície do globo, mas não há câmeras. As telecomunicações de

Interterra são totalmente diferentes, e muito mais sofisticadas, como tenho

c

erteza de que já entenderam.







Se nós lhe déssemos uma câmera analógica de tevê padrão, acha

que poderia conectá

-

la com

esse

equipamento, sem ninguém saber, e ser

capaz de fazer transmissões?



Harvey acariciou o queixo enquanto ponderava sobre a pergunta de



Donald.







Talvez, se convencesse um dos clones especializados em eletrô

-

nica a me ajudar, isso fosse possível





disse.





Mas onde vai arranjar

uma câmera de tevê?







Sei o que está pensando





disse Michael, enquanto um sorriso

conspirador surgia

-

lhe no ros

to.





Está pensando nas câmeras do

submersível

.





Quando o grupo se reunira diante do museu depois da

visita, Perry e Suzanne haviam lhes contado que haviam visto o

Oceanus

no pátio do museu.



Donald lançou outro olhar furioso para Michael. Michael captou a






mensagem e calou a boca.







Mas não entendo





disse Harvey.





Por que iriam querer que eu

fizesse isso?





Olha aqui, Harv





disse Donald, recuperando a

compostura.





Meus colegas e eu não estamos nada satisfeitos por

estarmos aqui contra a nossa vontade ser

vindo de diversão para

esses

interterráqueos. Queremos voltar para casa.







Espere aí um minuto





disse Harvey.





Devo ter perdido al

-

guma parte do que falou. Está querendo montar uma câmera de tevê para

sair de Interterra?







É possível





disse Donald.





A

essa altura, é apenas uma idéia:

uma peça de um quebra

-

cabeça que ainda não percebi como é, mas, seja lá

qual for, não podemos montá

-

lo sozinhos. Precisaríamos da sua ajuda

porque já está aqui há tempo suficiente para saber como as coisas fun

-

cionam. A per

gunta é: você estaria disposto a ajudar?







Desculpe

-

me





disse Harvey, sacudindo a cabeça.





Precisam

entender que

esses

interterráqueos não iam ver isso com bons olhos. Se eu

fosse ajudar, passaria a ser um dos caras mais desprezados da cidade. Eles

me en

tregariam aos clones operários. Os interterráqueos não gostam de

fazer nada ruim, mas os clones não estão nem aí. Eles simplesmente fazem

o que lhes é ordenado.







Mas por que se importaria com o que os interterráqueos pen

-

sam?





indagou Donald.





Você se u

niria a nós. Em retribuição a sua

ajuda, nós lhe devolveríamos Nova York.







Verdade?





perguntou Harvey. Os olhos dele brilharam.





Está

falando sério? Me levariam para Nova York?







Seria o mínimo que poderíamos fazer





respondeu Donald.





O disco Frisbee f

luorescente pairou sobre o gramado. Richard havia

feito um excelente lançamento, e o Frisbee reduziu a velocidade e

começou a cair bem ao alcance do clone operário que Richard havia

ordenado que jogasse com ele. Mas em vez de agarrar o disco, o clone

permi

tiu que ele ultrapassasse sua mão estendida. O disco bateu na testa

dele com uma pan

cada retumbante. Richard bateu com a mão aberta na

própria testa, com

pletamente frustrado. Praguejou como o marinheiro que

havia sido um dia.





Bom lançamento, Richard





e

logiou Perry,




reprimindo o riso. Perry estava sentado à beira da piscina do refeitório

com Luna, Meeta, Palenque e Karena.



Sufa havia enviado os dois homens

de volta ao palácio dos visitantes depois da visita deles à fábrica de tá

xis

aéreos, antes que qu

alquer dos outros houvesse voltado de suas

respectivas excursões. Inicialmente Richard havia sido acolhido pela

chegada quase simultânea de suas três amigas e de Luna, mas essa euforia

desapareceu quando viu que nenhuma delas conseguia ma

nejar o Frisbee.







Isso é completamente ridículo





reclamou Richard, enquanto

andava para recuperar o Frisbee aos pés do clone operário.





Ninguém

aqui embaixo consegue pegar uma porcaria de um disco, muito menos

lançar um.







Richard parece estar tenso de novo hoje





disse



Luna. Perry

concordou.







Ele está assim o dia inteiro, que eu saiba.







Estava estranho ontem à noite também





disse Meeta.





Mandou

-

nos embora cedo.







Ora, ora,

essa,

pelo que posso deduzir, deve ser por causa do

caráter dele





disse Perry.







Não pode faz

er nada?





indagou Luna.







Duvido





disse Perry.





A menos que vá lá e jogue aquele

pedaço de plástico idiota um pouco mais.







Gostaria que ele se acalmasse





disse Luna. Perry pôs as mãos

em concha ao redor da boca.







Richard!





chamou.





Por que não vem

para cá descansar? Está

ficando nervoso por nada.



Richard fez um gesto obsceno para Perry. Perry encolheu os ombros

para Luna.







Obviamente ele não está lá muito amistoso.







Por que não vai até lá e fala com ele, ao menos?





sugeriu Luna.

Com um gemido, Pe

rry ficou de pé.





Temos uma surpresa para ele

quando voltar ao seu chalé





dis

se Meeta.





Tente convencê

-

lo a vir.







Não o convidaram, vocês mesmas?





perguntou Perry.







Sim, mas ele disse que queria jogar o Frisbee.










Cacete!





exclamou Perry, sacudindo

a cabeça.





Está bem, vou

tentar.







Não mencione a surpresa





disse Meeta.





Senão não vai ter

tanta graça. Não queremos que ele tente adivinhar o que é.







Sim, claro





resmungou Perry. Irritado por ter que sair de per

to

de Luna, aproximou

-

se a passos lar

gos de Richard, o qual estava

impacientemente dando instruções ao clone operário.







Está perdendo tempo





disse Perry.





Eles não sabem jogar

nossos jogos por aqui, Richard. Não estão programados para isso. Não

estão interessados em manter a forma física.



Richard empertigou

-

se.







Isso está na cara, ora.





Suspirou e xingou outra vez.





É frus

-

trante, porque eles têm corpos maravilhosos. O problema é que não têm

nenhum instinto de competição, e eu preciso disso. Porcaria, até as moças

são fáceis demais. Não

dá para persegui

-

las, nem insistir até conseguir.

Essa merda toda desse lugar aqui me parece morto. O que não daria por

um ótimo jogo bem suado de croqu

et



ou de hóquei...







Vamos fazer uma coisa





disse Perry.





Vou apostar uma cor

-

rida com você na piscina



grande do pavilhão. Que tal?



Richard olhou Perry um momento antes de arremessar o Frisbee

bem longe. Depois mandou o clone operário pegá

-

lo. Obedientemen

te, o

clone operário saiu correndo. Richard olhou

-

o um momento an

tes de se

voltar para Perry.







Não,



obrigado





disse Richard.





Vencer você na natação não

vai me dar nenhum prazer. Aliás, adoraria mesmo era dar o fora daqui.

Estou uma pilha de nervos.







Acho que estamos todos preocupados com

esse

negócio de

ir

embora





disse Perry, baixando o tom de voz

.





Então, estamos todos

meio nervosos.





Bom, estou um pouco mais nervoso





disse Richard.





O que acha que fazem por aqui com gente que comete um crime grave?







Não faço a menor idéia





disse Perry.





Não creio que te

nham

crimes graves. Arak disse que el

es não têm prisões. Por que per

gunta?



Richard brincou com a ponta do pé na grama e depois olhou para

longe. Começou a falar, depois parou.










Está preocupado com o que farão se tentarmos ir embora e eles

nos pegarem?







Sim, é isso aí





disse Richard, aprov

eitando a sugestão.







Bom, isso é uma coisa que vamos ter que levar em

consideração





disse Perry.





Mas, por enquanto, preocupar

-

se com isso

não vai nos levar a lugar algum.







Acho que está certo





disse Richard.







Por que simplesmente não se diverte com

aquelas três belíssimas

moças?





sugeriu Perry. Indicou Meeta, Palenque e Karena com a ca

-

beça.





Por que não canaliza um pouco dessa sua energia incontrolável

levando

-

as ao seu chalé? Não consigo entender isso, mas elas são loucas

por você.







Não sei se d

evo levá

-

las ao meu quarto de novo





disse Richard.







E por que não?





perguntou Perry.





Não é um sonho trans

-

formado em realidade? Quero dizer, olha só aquelas gatas. São verda

-

deiras modelos de roupa íntima feminina.







E complicado demais para explicar





disse Richard.







Seja lá por que motivo for, não consigo imaginar que seja mais

importante do que satisfazer essas sereias tão sôfregas.







É, bom, talvez você esteja certo <