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Pra Mim, Fui Eu
Carlos Artur Paulon

Resumo:
Causos de amores, golpistas e ditadores

Pra mim, fui eu.
Carlos Artur Paulon



PRA MIM FUI EU

I

                             “Em esta casa siempre son las 12 para comer bien” está gravado sobre a larga porta com vidros que separa a varanda da parte interna do restaurante Puerto Del Carmen na Avenida Córdoba quase esquina da Florida em Buenos Aires.
Achamos Tito e eu ser este um café bem ao estilo parisiense. Na varanda algumas mesas ocupam um espaço contido por jardineiras coloridas, mas que dá lugar de passagem às pessoas que vão e vêm num desfile populoso e incessante.
Entre uma cerveja e outra assistíamos a cidade por nós passar, talvez por trabalho, talvez por turismo, uns com pressa outros nem tanto, mas todos trocando olhares rápidos com os que, como nós, gastávamos tempo bebericando neste agradável café que, conforme Tito observou com deboche, é dos poucos no mundo que não propagam a presença assídua de Hemingway, como o Café de Flore, Café Les Deux Magots ou Select em Paris, El Floridita e o Bodeguita em Havana, o Harry's Bar em Veneza, outro em Taxco no México e ainda em Florença, cujos nomes ele não lembra e mais diversos outros bares que, no mundo todo, contam estórias do novelista que, prossegue Tito, deu adeus às armas, boas-vindas aos copos e certamente projetara escrever O Velho e o Bar.

                                 Programávamos, entre umas e outras Quilmes, a nossa noite, a última daquela viagem e a conversa corria amena como sempre assim ocorre entre velhos e inseparáveis amigos que nada tinham mais a fazer, não só naquela tarde portenha, mas na vida mesmo já que muito tinham feito. Acordamos em assistir no Teatro El Nacional, na Avenida Corrientes, a um musical chamado Tanguera e o acordo se fez porque seria mais inteligível, já que muito perderíamos do enredo em peças faladas com a rapidez dos argentinos que a mim parecem ter substituído por jota todos os eles da língua castelhana, castejana, por certo.

Tito e eu nos conhecemos em data inesquecível para quem a viveu ou dela sabe pelos livros de história: 24 de agosto de 1954, numa manhã amanhecida com um tiro no peito que matou Getúlio Vargas e livrou o Brasil de um golpe militar, que lamentavelmente acabou se sucedendo dez anos mais tarde, mergulhando o país na violência que até hoje perdura e aflige o seu povo. Presos nas mesmas celas juntos aos prisioneiros comuns os militantes da luta contra a ditadura militar chamados curiosamente pelos que subverteram a ordem constitucional de subversivos intelectualizaram o crime que se tornou organizado e sofisticado para uma policia corrupta e mal preparada.


Fazia sol em Santo Antonio de Pádua, uma pequena cidade do norte do Estado do Rio de Janeiro e, como sempre, os alunos do internato Colégio de Pádua formados no pátio cantavam o hino nacional, exceto nós, por recomendação de Dona Adelaide, professora de canto orfeônico, que salvava assim a rotineira cerimônia de nossas terríveis e desafinadas vozes. E muito nos aborrecia a correspondente obrigação de fazer a mímica das letras que exaltavam a pátria amada, salve-salve, o que, por certo, nos inibiu qualquer parco dom musical.

Tito, naquela manhã especial, me dirigiu a palavra tão logo o Professor Lavaquial, um educador espanhol que, apesar de usar métodos tão antiquados quão autoritários para manter a disciplina, mantinha na época um educandário laico para alunos internos, diferenciado ainda por ser misto e permitir recreios misturando meninos e meninas para nossa glória e gáudio, anunciou a tragédia.

Na verdade me disse duas frases curtas: “então não vai ter aula” e “por que o Presidente se matou?”

Respondi afirmativamente à primeira, acrescentando que estávamos livres da prova oral de latim onde o critério do Professor José Pinto era dez, cinco ou zero. Tito tirara zero na primeira e dez nas provas subseqüentes o ano inteiro.

-Como foi aquilo, passou a estudar latim? Pergunto eu aqui e agora, tão longe de Pádua e passados tantos anos.

Sem cerimônia responde rindo.

-Ora, Zé Pinto sorteava a palavra latina a ser declinada por escrito no quadro-negro e eram os alunos que metiam a mão no saquinho de pano para tirar o papelzinho contendo a palavra. Tornei-me especialista em templum, templi. Você sabe, da terceira declinação com seus gerúndios, ablativos, vocativos e o não sei mais quid.

- Decorou tudo?

- Nada, tinha horror ao latim. Não devolvi o papelzinho pro saquinho. Nos dias de prova, o tirava da manga do dólmã e era dez redondo ab initio usque fine. Especialista, mesmo, fiquei em esconder cartas no jogo de pôquer.

Mas não lhe respondi a segunda pergunta. Eu não sabia direito porque Getulio Dorneles Vargas se suicidara.

Passamos então, regados à Quilmes, a fazer hora e relembrar partes ainda não esquecidas, lidas ou vividas, da historia brasileira.

Meu pai, que após a ditadura civil de Vargas, por ele chamado de Pai dos Pobres, ajudara com voto e proselitismo a botar o retrato do Velho no mesmo lugar como cantava Francisco Alves, o Rei da Voz de todos os domingos na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, me telefonou e disse: A culpa de tudo é do Carlos Lacerda e quero que você compre um jornal, qualquer jornal, todos trazem na primeira página a Carta Testamento, na qual o Presidente falava de coisas que me eram estranhas, mas que me fez acordar para a política e para a mesquinhez e grandeza dos homens tão logo eu a li e muitas vezes reli.

Getúlio Vargas, quando mais dele soube, mais me pareceu contraditório. Mesquinho quando ditador, perseguindo adversários políticos, copiando modelos fascistas para o Estado brasileiro, entregando aos nazistas Olga Benário, prendendo comunistas e integralistas, aprisionando os sindicatos no Ministério do Trabalho, namorando o nazismo e o fascismo, prendendo Graciliano Ramos, deportando Monteiro Lobato, fora deposto em razão dos ares liberais do pós-guerra na qual o Brasil só se posicionara a favor dos aliados após muita pressão popular, mas acabou absolvido pelo mesmo povo em eleição democrática e se empenhou para capitalizar o Estado com empresas do porte e importância como Petrobrás, Eletrobrás. A Vale do Rio Doce e a Cia. Siderúrgica Nacional foram também por ele criadas no período ditatorial, até que alvo de feroz oposição, por decisão própria, saiu da vida para entrar na história, o que ele mesmo vaticinou em sua Carta Testamento.

- Você se lembra, meu memorialista capenga, como eu ignorava política? Mas agora posso conversar e até surpreender você, caso queira tomar outra Quilmes.

- Peça a cerveja, mas me conte o que sabe.

E meu amigo Tito de fato me surpreendeu:

- Getúlio, o GêGê, quem por mais tempo governou o Brasil, advogado e promotor de justiça por pouco tempo após sua formatura em direito no ano de 1907, chegou ao poder após um movimento armado, unindo os tenentes militares progressistas e os políticos derrotados nas eleições de 1930, tidas como fraudadas pelas oligarquias que elegeram Julio Prestes para suceder Washington Luis, então presidente cujo pensamento se expressa resumido em sua celebre frase: “governar é construir estradas” o que deveria ser do agrado das empreiteiras esta afirmação simplória.

Naquele ano, tropas gaúchas e mineiras iniciaram, sem expressiva participação popular, o movimento que se deu a conhecer como a Revolução de 30 e que investiu Vargas no comando e depois na presidência da República, por eleição indireta ocorrida em 1934, após promulgada uma nova Constituição, que nos legou um federalismo deveras centralizado que até hoje perdura. São desta época o salário-mínimo; a justiça do trabalho, sem ser judiciária e sim uma seção do Ministério do Trabalho; a jornada de oito horas; as férias anuais; o descanso semanal remunerado. De 1931/32 são as leis de sindicalização e do voto feminino. Em novembro de 1937 quando lançadas estavam as candidaturas presidenciais de Armando Sales, Plínio Salgado e José Américo é inventado e divulgado um falso plano chamado Cohem, uma hipotética conspiração atribuída à Internacional Comunista para a tomada do poder. O falso plano foi o pretexto para o projeto continuísta de Vargas. Apoiado pelas forças armadas que até a década de 80 enxergavam comunismo por elas tido como “ideologias exóticas” até nas revistas em quadrinhos que seriam financiadas pelo “ouro de Moscou”, a difundir “idéias alienígenas”, cerca e fecha o Congresso Nacional e pelo rádio anuncia à nação uma “nova era”, institucionalizada com a outorga de uma outra Constituição, a do Estado Novo. Com esse rótulo perdurou uma ditadura até 1945, da qual são frutos a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), legislação fascista que resistiu à democracia de 1945 a 1964, à ditadura militar de 1968 à nova redemocratização em 1985, à nova Constituição de 1988 e até hoje resiste como insepulto fantasma; a “Hora do Brasil”, outra insepulta criação que até hoje perdura com transmissão radiofônica imposta aos “senhores ouvintes” sob o novo título “A Voz do Brasil”; a barganha com os EEUU que aqui construíram a Cia. Siderúrgica Nacional em troca da cessão de espaço em Natal para instalação de sua base aérea estratégica na Segunda Guerra; o rompimento do Brasil com o Eixo Alemanha, Itália e Japão e a Força Expedicionária Brasileira criada em 1943 que desembarcou na Itália em 1944 para defender a democracia, mas oriunda de um país sob regime ditatorial.

- Pois é. Era manifesta a contradição.

-Não só pelo paradoxo de tropas que sustentavam internamente uma ditadura iam expor suas vidas numa luta pela democracia, a contradição era a marca pessoal de Vargas que oscilava nas políticas interna e externa. Acenava aos trabalhadores que “hoje estão com o Governo e amanhã serão o Governo” e felicitava Hitler pelo seu aniversário.

Permitiu a deportação de Olga Benário para morrer aos 33 anos numa câmera de gás nazista e solicitou apoio político do comunista Luis Carlos Prestes, marido de Olga, para um futuro projeto político de voltar ao poder em 1950.


Mas os “queremistas” do “queremos Vargas” não resistiram e caíram a ditadura, o Estado Novo e Vargas, daquela feita renunciando.

Nova Constituição em 1945. Nova eleição presidencial e com o apoio de Getúlio é eleito o Marechal Dutra que, segundo o meu amigo Tito, dentre outras façanhas torrou parte das reservas auferidas nos tempos de guerra com a importação de brinquedos de paz, como ioiôs e outros badulaques plásticos.

Deste Marechal, um homem honrado, contam-se estórias.

A pior se conta que ao receber o Presidente Truman respondeu ao “how do you do Dutra” com um sonoro “how tru you tru Truman”.

A melhor se conta que só decidia de acordo com o livrinho. Estivesse no livrinho podia. Não estivesse não podia. Seu livrinho era a Constituição Federal.

Mas Vargas voltaria e desta feita nos braços e com os votos do povo.

Pela segunda vez consecutiva, fato de ser na época comemorado na América Latina, estavam marcadas eleições diretas. Realizadas em três de outubro, data simbólica, a mesma em que fora deflagrada a Revolução de 30.
O ano era 1950 de triste lembrança, por ter a seleção de futebol do Uruguai vencido a brasileira por 2 x 1 e se consagrado campeã mundial no maior estádio do mundo, o Maracanã, no Rio de Janeiro.

Meu pai e eu ouvimos juntos a narração radiofônica da partida. Vi meu pai acender um charuto em comemoração ao primeiro gol brasileiro marcado por Friaça. Mas os uruguaios sob o comando de Obdulio Varela não se intimidaram diante de uma platéia de cerca de cem mil brasileiros emudecidos no estádio com o empate e a virada com um gol do ponta Ghiggia que fez o Brasil chorar. O mesmo Ghiggia que mais tarde Tito veio a encontrar como empregado num dos cassinos de Montevidéu, assim como Friaça até hoje vive modestamente em Porciúncula, cidade bem próxima a Santo Antonio de Pádua, onde acabamos Tito e eu estudando no internato. Exemplos bem diferentes dos milionários jogadores que sem garra alguma literalmente assistiram a França os vencer na Copa do Mundo de 2006.

Torcendo junto, o meu tio Heitor, de quem tenho muitas boas lembranças e uma especialmente desagradável, tão desagradável que as conseqüências até hoje perduram. Esse meu bom tio, aos domingos dos mais nobres almoços, ou seja, massa e galinha que na época era mais cara que carne bovina, adorava chupar o pescoço da bicha e o fazia com insuportável sonoridade, resultando na minha definitiva repulsa a galos, frangos e galináceos em geral, muito embora nada tenha contra patos, marrecos, codornas e perus. E não é pelo gosto e sim pelo trauma infantil, pois bem me lembro de ser enganado quando Maria, minha primeira mulher, preparava pastas para sanduíches e chamava de atum o que era na verdade uma odiada penosa.

Contra Vargas, o Brigadeiro Eduardo Gomes, militar austero, mas ingênuo politicamente, apoiado pela UDN acabou marcado por frase jamais pronunciada: “não quero votos dos marmiteiros”. Apoiado pelo PSD e também candidato, Cristiano Machado, inspirador do termo “cristianizar”, em política, sinônimo de trair por ter a maioria do seu partido naquelas eleições se aliado ao PTB de Vargas para elegê-lo o que foi feito com 3,8 milhões de votos.

Getulio toma posse em 1951 e trata de ajudar um jornalista do qual se tornara amigo em sucessivas visitas para entrevistá-lo, quando se auto-exilara em São Borja no Rio Grande do Sul, a fundar o jornal Última Hora para apoiá-lo frente a uma imprensa que lhe era adversa, como O Globo, O Estado de São Paulo e os Diários Associados então a única cadeia de alcance nacional. E não se pode deixar de citar a Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro, de propriedade do Carlos Lacerda seu feroz opositor que liderou campanha contra Vargas alegando conceder financiamentos ilícitos a um estrangeiro, Samuel Wainer, o proprietário do jornal getulista.

Inaugura-se um novo estilo Vargas. Um Getulio sob regras constitucionais e democráticas, mas disposto a mudar o país. São criados o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE, hoje acrescido do S de social, BNDES) e a Petrobrás. Concede 100% de aumento para o salário-mínimo.

E a opositora cantilena lacerdista ganha fôlego a partir de episódio aparentemente apolítico.

René Aboad, secretária da 20th Century Fox, foi encontrada morta no seu apartamento da Rua Rainha Elizabeth, em Copacabana. Era mais um crime ou suicídio para uma Delegacia Policial resolver. Um repórter de A Noite, jornal dos diários associados, junto às investigações policiais, descobriu e escondeu da policia um pequeno caderno de anotações escritas em hebraico, tendo, além da escrita, um detalhe que poderia ser noticia: uma cruz suástica na primeira página.

O fato ganhou dimensões espantosas em seu jornal, embora a tradução registrasse apenas anotações domésticas de compras, peças de roupas para lavanderia, tarefas caseiras e coisas outras de menor importância. Mas como o sensacionalismo fabrica mistérios em série, para amarrar o leitor, tudo foi tomando vulto. As noticias sobre o caso deixaram a policia em má situação e o delegado de Copacabana, sob alegação de ter o jornalista sonegado provas, que, aliás, nada provavam, pediu à direção do jornal que o substituísse no caso. Foi então indicado para fazê-lo o jornalista Nestor Moreira que não podendo reverter a situação criada prosseguiu no mesmo tom misterioso e sensacional. O fato desagradou a policia e um dos famosos corretivos foi encomendado. Porém, erraram na medida e o jornalista violentamente agredido morreu em conseqüência dos ferimentos.

Meu amigo Tito interfere e acrescenta:

- Dos Lacerda, quase todos militantes comunistas, Carlos Frederico Werneck de Lacerda, intelectualmente culto sem ter concluído curso superior, jornalista cáustico e tribuno de verve admirável tornou-se político importante e quando eleito deputado federal já abandonara Marx, Lênin e o partidão, do qual fora arauto no lançamento de Luis Carlos Prestes para presidente da Aliança Renovadora Nacional. Filiara-se à União Democrática Nacional (UDN) que fazia oposição ao Partido Social Democrático (PSD) e ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) ambos criados sob tutela de Getúlio Vargas, que assim angariava apoio das elites e dos operários ao mesmo tempo, conciliando interesses antagônicos, do primeiro concedendo privilégios a industriais e proprietários rurais e do segundo dedicando uma política assistencialista e razoável poder de gerência nos institutos de previdência social. Nos inevitáveis conflitos daí resultantes, entre uma e outra baforada em charutos, ria-se com sua própria frase: “deixa como está para ver como é que fica.”

-Sabe meu amigo, o meu interesse me levou a ouvir getulistas e lacerdistas; a passar sabão na linha dos bondes defronte ao prédio da União Nacional dos Estudantes, na Praia do Flamengo, e enquanto o bonde derrapava, eu e outros estudantes adolescentes pichávamos: o petróleo é nosso! Me levou à política estudantil, à militância na esquerda, à advocacia trabalhista, à prisão militar, a abrigar guerrilheiros argentinos e uruguaios, a fundar o Partido dos Trabalhadores e, finalmente, ao desinteresse completo.
O noticiário político hoje o acompanho com postura de espectador de teatro tragicômico.

-Sei, eu também prefiro me divertir com os políticos, debochar das suas hipocrisias.

-Mas não adianta muito, sempre se joga esperança a cada eleição e assim vão se sucedendo as decepções.

-Você está se referindo ao Lula?

-Não necessariamente, já tive decepções maiores. Nem Lula e nem ninguém é milagreiro e sei o quanto deve ser difícil conciliar interesses numa sociedade complexa como a nossa.
-Sim, mas Lula me parecia menos conciliador e mais disposto a mudar mais profundamente as coisas.

-Mas isso só seria possível se o seu partido tivesse conquistado maioria no Congresso e isto não se deu. O Partido dos Trabalhadores não tem hegemonia e para governar são necessárias alianças, concessões, negociações a até transações um pouco, digamos, não ortodoxas.

-Como comprar votos de parlamentares?

-Acho que isso era o mais grave, pois a maioria obtida com corrupção acabaria perpetuando um só partido no poder, coisa socialmente mais grave do que a corrupção que enriquece pessoalmente alguns políticos desonestos.

-Por tal raciocínio o deputado que denunciou o esquema de compra de outros, que, aliás, também se vendeu, salvou as instituições?
-Nossa amiga Lena o considera herói, Macunaima, mas herói.

-Pode ser que não tenha sido esta a intenção, mas de certa forma evitou a corrupção das instituições e seja lá qual for o país, a democracia sempre desaparece quando um só partido legisla e governa. É inerente ao poder tentar a sua perpetuação. Cito o México, para que me entenda.

-Suas memórias são oficiais demais, vou lhe contar, com outra Quilmes, uma historia nada oficial.

E, Tito, com ar misterioso me relata uma estória paralela sobre o assassinato do jornalista de que falávamos antes.

- Como você, meu amigo, fui morador da Gávea, onde se situa a Rua Major Rubens Vaz, na qual passava em direção ao Restaurante Guimas onde soube de outra versão sobre esse militar homenageado com o nome desta rua por ter sido vítima em atentado gerado pelo fato de estar sendo apurada por certo jornalista, chamado Nestor Moreira, também nome de rua no Rio de Janeiro, a descoberta de um caso amoroso clandestino entre um dos Ministros de Vargas e uma vedete dos teatros de revista, cuja filha, também vedete, por curto período namorei também clandestinamente. Uma meiga moça chamada Yara, de pequena estatura, mas que nos palcos era vista como uma mulheraça, a quem os homens categorizavam como gostosa.

-Mais que o caso do caderninho com a suástica, pretendeu-se com o “corretivo” que matou o jornalista preservar um Ministro de Estado ameaçado em sua imagem pública por ter a tal vedete como amante por ele teuda e manteuda.

-Mas os negócios do governo, que ocupavam o ministro, propiciaram bastante tempo para uma eventual, porém boa convivência com Yara, esta bem informada e de “fino trato”, culturalmente bem formada e conhecedora dos truques e posturas teatrais dos quais tinha conhecimentos práticos e acadêmicos, pela qual senti rápida, porém profunda paixão. Uma paixão de fino tato.

-A morte de Nestor Moreira repercutiu em todos os jornais do país, todos instigados pela Tribuna da Imprensa de Carlos Lacerda que, na defesa de um homem da imprensa, mobilizava a classe para a aceitação de sua suspeita logo tida como verdade pela opinião pública: o governo fazia vista grossa e arrastava o inquérito policial que nada apurava, por apurar não querer.

Iniciava-se naquela época a mais tenaz oposição, das mais acirradas de nossa história política, envolvendo diretamente o nome do presidente da República e que acabou no suicídio de Vargas.
Mas agora, talvez pelas inúmeras Quilmes, resolvemos encerrar nossas recordações, antes que chegássemos à conclusão que Tito também ajudara a matar o presidente.

-Por favor, la cuenta!

- Si, son cuarenta y nueve pesos, gracias.

Eram quatro da tarde e o comércio de Buenos Aires se abria para as compras que Tito queria fazer: mimos para ex-mulheres, que são muitas. Algo especial para quem ele imagina ser a próxima.

Foi sozinho.

A distância é um estado esquisito. Separa corpos e aproxima sentimentos. Eu sentia saudades de mim mesmo dos tempos que garoto conheci o Tito e das inúmeras emoções que juntos vivemos. Saudades do Colégio de Pádua, saudades da saudade que senti, quando fui interno, da minha casa em Niterói, da minha namorada de “olhos verdes e cabelinho assim” para quem dediquei versos, uns quase poesia.

Resolvo caminhar. Evito a Florida e desço a Maipú indo até a Plaza de Mayo e caminho por cima das “avuelas” gravadas no chão. Penso nas ditaduras argentina, brasileira, uruguaia, chilena, paraguaia. Penso em Madalena minha amiga uruguaia e em Xixa minha amiga argentina. Mas penso que as ditaduras passaram, deixaram marcas, atrasaram a América do Sul, mas passaram. Por causa delas e apesar delas, os argentinos e uruguaios estão mais pobres. Os brasileiros e chilenos mais ricos. Paraguaios na mesma carência. Mas a vida continua. Comparo Perón com Vargas e me lembro de um título: “O dia em que Getúlio matou Allende” escrito pelo jornalista e advogado gaúcho, Flávio Tavares. Salvador Allende era senador chileno quando Getulio se suicidou e ficou muito impressionado quando estudou os porquês. Certamente guardou a impressão até que na repetição da história, sob farsa semelhante e mais sangrenta, imitou-lhe o extremo gesto.

Resolvi deixar de pensar em coisas tristes, afinal iríamos assistir em breve ao musical Tanguera e as tristezas e tragédias moram nos tangos, como a melancolia no fado.

Minha atenção se voltou para o Cabildo e em sua sombra identifico Tito, com bolsas de compras e em companhia de uma mulher. Quando me aproximei falavam de vinhos.

- Esta é Marta, sexóloga de Mendonza, terra dos bons vinhos, e este é meu amigo advogado brasileiro.

- Muito prazer Marta, este meu amigo bem precisa de sexóloga, talvez gaste menos com presentes e, principalmente, se case menos.

-No posso contestar. Soy viuda dos veces.

Ambos os homens nos afastamos dois passos e todos nos rimos muito.


II

O teatro, em tamanho menor, é internamente disposto tal como é o Moulin Rouge. Mesas pequenas, com abajur irradiando suave iluminação através de delicada cúpula de tecido leve e plissado, abrigam quatro espectadores que podem ser servidos de bebidas e beliscos, por jovens moças de pele perfeita como é a das mulheres argentinas.

A nós coube a companhia de duas idosas senhoras argentiníssimas, para desgosto de Tito na comparação com as belas vizinhas da mesa ao lado.

Tanguera se inicia com uma orquestra composta por muitos violinos, entoando La Cumparsita o que serviu de mote para Tito provocar uma das senhoras, elegantemente vestida e adornada com jóias de ouro, lembrando-as que aquele tango era uruguaio, que Carlos Gardel era francês e que as letras dos primeiros tangos a se tornarem conhecidos eram de um brasileiro, o paulista Alfredo Le Pera.

A resposta foi impedida pela movimentação no palco que exigia a atenção de todos, pois representava La Boca recebendo em seu porto os imigrantes italianos a sugerir que a tarantela influenciou o tango, apesar da observação da senhora elegante de que a influência teria sido francesa, certamente se referindo a absorção do bandolion pelos tangueros portenhos.

A peça representava a trajetória do tango, não muito diferente da trajetória do samba, marginalizado pelas elites, mas caído no gosto popular, ganhando os prostíbulos e cantando as tragédias e querelas resolvidas à faca pelos marginais e rufiões, até que ganha status de ritmo nacional e vai se sofisticando até chegar aos belos tangos de Astor Piazzola.

Dois anos após, em Paris, sentado num dos cafés de Saint Germain freqüentados por Elsa Triolet, André Gide, Jean Giraudoux, Picasso, Fernand Léger, Prévert, Sartre, Simone de Beauvoir e, claro, Hemingway, por estar informando ou deformando minha namorada Tetê sobre existencialismo e relação aberta; sexo e amor separados. Ou seja, fixando meus próprios parâmetros de vida conjugal e afirmando o privilégio de uma parceira preferencial, me deparo com um enorme cartaz que tomava toda a traseira de um ônibus e anunciava aos franceses essa mesma Tangueira argentina.

Era um bonito espetáculo, com primorosas iluminação e coreografia; belos e competentes dançarinos, entremeado por duas ou três milongas cantadas e sensuais apresentações de casais de tangueros, com seus ternos listrados, chapéus pretos, saltos altíssimos, vestidos de longos cortes a deixar bem torneadas coxas à mostra do público que os aplaude intensamente.

Nossas atenções eram cortadas apenas pelos flashes dos japoneses, esses estranhos turistas que tudo fotografam e por estarem sempre com os olhos vedados por câmeras me dão a impressão que é na tela de suas TVs lá no Japão que verão o que deixaram de ver ao vivo em razão de sua obcecada mania fotográfica.

Ao final, um público satisfeito e exigente impede que baixe de vez a cortina. E os aplausos pedem repetidos bis, atendidos com prazer pelo elenco também empolgado.

Mas, como se sabe ou deveria saber, na vida, e ela própria, tudo tem princípio, meio e fim. E por mais que não queiramos chega uma hora em que a cortina se fecha e tudo se acaba.
Tito sempre diz que devemos viver cada dia como se fosse o último. E eu sempre completo: uma dia você acerta.
Atravessamos a Corrientes direto para o Gatto, restaurante situado defronte ao Teatro El Nacional, já nosso conhecido de outras andanças e onde se serve massa molhada em camarões e se bebe bons vinhos de Mendonza, terra de Marta, a viúva do Cabildo.

Interrompo Tito que cantarolava Noite de Reis com letra vertida ao português contando a trágica historia do menino que espera o seu presente com sapatinho na janela, mas não sabe que a mãe dele “por falsa e por canalha” seu pai que a matou.

-E a viúva que fim levou?

Termina a frase que cantava e responde:

-Por pura preguiça deixei pra lá. É uma trabalheira tirar sapatos, cinto, roupas, tomar banho, recolocar sapatos, cinto, roupas. Melhor não. Além de que esta mulher, duas vezes viúva, é assim como um pé na cova.

-É... então tá.

-Ainda se fosse por Yara a baixinha, da qual falávamos no bar, grande no palco e na cama, quem sabe?

-Então me conta essa estória direito, sempre achei ter sido Yara que lhe contou a versão não publicada de que o jornalista foi morto a mando de um ministro de Vargas, amante da mãe dela.

E curioso ouvi:

-Foi sim.

-E ela?

- A conheci na saída do Teatro Recreio na Cinelândia, onde vez ou outra se tenta reviver os áureos tempos da Praça Tiradentes. Tempos de Luz Del Fuego, Mara Rúbia, Virginia Lane, a vedete que afirma ter sido amante de Getulio Vargas. Eu assistira ao espetáculo e seu corpo perfeito que da platéia me pareceu alto, mas não era, e isto foi o que primeiro percebi ao me aproximar quando ela saia do teatro. Disse-lhe algo parecido como eu sou de Niterói e você também não é? Bingo. Ela era de Niterói. E, dada essa sorte, meu acerto a intrigou. E mulher intrigada é mulher ganha. Naquela noite jantamos no Giotto, um pequeno restaurante no início da Praia de Botafogo.

- Mas e o caso do Ministro?

Sem me responder prosseguiu sua narrativa com ar saudoso, mas feliz por um dia ter tido Yara como namorada. É sua maior característica: continuar a amar os antigos amores, amar o amor vivido, não exatamente as mulheres amadas.

- Paixão mesmo meu amigo, dessas de babar na gravata como fraseou Nelson Rodrigues.
Yara tinha sido aluna do Colégio Brasil, dos melhores de Niterói. Filha de conhecido jornalista e de uma vedete que lhe ensinara a arte de rebolar no palco e lhe segredara a outra e desconhecida versão da morte do jornalista. Como paixão e segredos não se combinam, me contou tudo. Yara me contou que o jornalista, cobrindo a estréia de um espetáculo no Teatro João Caetano presenciara uma das vedetes do elenco ser buscada em carro oficial do qual anotou a placa e identificou como sendo do Ministro. O nome da peça, “Tem ti-ti-ti no bo-bo-bó”, sugeria mais “tititi”. Acabei descobrindo que a sua mãe, de casamento desfeito, mudara-se para Copacabana sob o patrocínio ministerial. Yara continuou em Niterói, mas vez ou outra vira sua mãe em companhia do ministro que sempre lhe foi gentil e carinhoso e cuja idade ultrapassava a soma das idades das duas mulheres. Logo após a morte do jornalista, o caso terminou e Yara passou a morar com a mãe, no mesmo apartamento pelo ministro doado, lhe facilitando a freqüência a cursos de teatro que lhe propiciaram tornar-se, mais tarde, famosa atriz em novelas de televisão.

-Então é certo que a policia teve integral apoio do Ministro na aplicação do corretivo em Nestor Moreira?

-Certo, certíssimo. Não só apoio, mas recomendação.

-É... então tá. E pensar que tudo isso acabou nos porões do Palácio do Catete de onde saiu morto um presidente da República.

Fomos os últimos a sair do restaurante, era tarde, bebemos quase toda a família Zuccardi, e o nosso vôo pro Rio de Janeiro sairia às nove da manhã.

Da janela do hotel fiquei algum tempo fumando e olhando o Obelisco no meio da Nove de Julho a mais larga avenida do mundo, segundo os argentinos.

Pudera, esta avenida é dotada de duas outras avenidas laterais que, apesar de mudarem de nome, lhe acompanham em toda sua extensão. Lembrei do Tom Jobim quando perguntado sobre a sua Garota de Ipanema só perder para os Beatles nas paradas de sucessos em todo mundo, respondeu moleque: “pudera, eles são quatro”.

Tito adormeceu me contando detalhes de sua paixão e seu tesão por Yara e que só anos depois por sua mulher Aída viria igual sentir, sempre alegre, “baixinha à paisana, mas grande no palco... e na cama” com a qual se encontrara várias vezes e ainda muitas outras pretendeu encontrar na sua vida que estimava longa.

Mas antes de dormir, me repreendeu, por ter eu dito à viúva Marta que ele se apaixonava demais, casara demais. Fez lá suas contas e me apresentou um resultado no qual tínhamos, eu e ele, o mesmo número de casamentos sem considerar a informação de que se apaixonava demais o que o distinguia de mim.


Eu com Maria minha referência de namorada e mãe de minha adorada filha Tatiana; com Sil, da qual, hoje penso, não deveria ter-lhe dado motivo para o rompimento; e com Carla através da qual, na sua época, recuperei sentimentos de paixão, de amor e de família.

Ele com Regi, da qual pouco me falou, mas deixa transparecer certa gratidão; com Aída que foi-se embora por não acreditar no seu amor e pela qual até hoje nutre carinho; e com uma outra baixinha, que fugiu do casamento em deplorável surto e agora vagueia não se sabe onde, da qual esqueço o nome, e com a qual ele teve sua adorada filha Karina.

Dormi conferindo e murmurando: “bingo”, como ele fala. Estávamos empatados em 3 X 3 nos casamentos, mas eu perdia de goleada no campo estrito e minado das paixões tão avassaladoras quanto breves.

Jogo empatado. Adormecem os jogadores em sua última noite de tangos em Buenos Aires, cidade amada pelos dois, mesmo estando sozinhos, com a vantagem maior de não terem de esperar nenhuma mulher se arrumar após confusa experimentação de trajes, se pentear, se pintar e voltar por esquecer algo que, no entanto, sempre esteve na sua bolsa.

Melhor acordados, dentro de um táxi, que na capital argentina aos milhares brotam, nos dirigimos ao aeroporto e duas horas e meia após, cantamos:

“Rio você foi feito pra mim... e vamos nós aterrar”


III

A morte do jornalista Nestor Moreira foi apenas o estopim, mas o pretexto deu sérios resultados.

Homens chegados ao presidente Vargas resolveram desagravar, por conta e métodos próprios, a pessoa do líder. Para eles já era demais a ladainha opositora de Carlos Lacerda. Este outro líder político, em seu jornal Tribuna da Imprensa, acusava Vargas de acobertar os assassinos do jornalista Nestor Moreira por temer que as investigações chegassem ao verdadeiro mandante e, pior, às causas do mandado.

A responsabilidade de Getulio era indireta, pois no então Distrito Federal, como capital da República, era o presidente quem nomeava o chefe da policia.

Há dúvidas se Lacerda sabia ou não do caso do Ministro e da vedete, mãe de Yara, mas há quem afirme ter ele conhecimento do fato, inclusive terem-lhe às mãos chegadas algumas fotos da vedete, muito embora em apresentações teatrais, nenhuma junto ao Ministro. Uma dessas fotos, guardadas por um antigo jornalista, por este foi mais tarde mostrada a Tito, no tempo que meu amigo era repórter da Radio Jornal do Brasil. Era ela muito parecida com a sua Yara.

E quem guardou uma das fotos assevera que seu patrão na Tribuna sabia de tudo. Mas o caso amoroso não vazou, talvez pela inexistência de provas concretas ou por serem suficientes como escândalos os fatos comprovados como o espancamento fatal do jornalista e os presumidos como a ordem palaciana para o espancamento.

E mais desastrosa ainda foi à execução do desagravo a Vargas. Idéia tão ousada, enlouquecida mesmo, quanto mal planejada por amadores na tarefa de matar por encomenda.

Em razão de ser aliado dos militares na obstinada meta de tirar Getulio do poder, Lacerda ganhou proteção do Ministério da Aeronáutica, que desviado das funções ordinárias dos militares, designou um de seus oficiais, um major de nome Rubens Vaz, para servi-lo como capanga, já que segurança pessoal de um civil não é um mister militar.

O atentado, perpetrado na madrugada de 6 de agosto de 1954, se deu quando Carlos Lacerda e o Major Vaz chegavam à residência do primeiro, num prédio de apartamentos bem ao lado do prédio onde então residia Regi que viria a ser mulher de Tito, na Rua Toneleros.

Os tiros foram disparados pelo pistoleiro João Alcino do Nascimento e respondidos por Lacerda e também pelo Major Vaz a uma de distância não maior que dez metros, sob o testemunho de um jornalista, copidesque do Diário Carioca, Armando Nogueira que em casa chegava bem na hora do acontecimento e que num furo publicado na manhã seguinte declarou ter visto “um revolver cuspindo fogo quatro vezes” frase própria de quem fazia boa literatura até mesmo comentando futebol.

Os aloprados de então, sempre ditos amigos do presidente, mandantes e executores, erraram os tiros, matando o major e ferindo o pé de Lacerda que enquanto o medicavam no hospital responsabilizava o presidente Vargas e seu governo pelo atentado por ele sofrido e pelo assassinato do militar: "Perante Deus, acuso um só homem como responsável por esse crime. É o protetor dos ladrões, cuja impunidade lhes dá audácia para atos como o desta noite. Este homem chama-se Getúlio Vargas."

A culpa recaiu em Gregório Fortunato, bagual vindo da fazenda dos Vargas em São Borja para dar segurança ao chefe que por quem era ilimitadamente apaixonado, após ter a família Vargas resistido, em 1938, praticamente só, ao ataque integralista ao Palácio do Catete. Alto, fortíssimo, Fortunato era um homem rude que participara da luta entre gaúchos e argentinos e era acusado de vender privilégios angariando recursos para a compra de uma fazenda de propriedade de um dos filhos do presidente, Manuel Vargas.

O Anjo Negro, como era chamado, foi julgado e condenado pelo atentado. Preso, na penitenciária Lemos de Brito, no Rio de Janeiro, seria solto por bom comportamento em 1962 e com a ajuda de um colega de cela escrevera a sua versão do episódio que mudaria o curso da história do Brasil.

Os escritos sumiram e o próprio Gregório foi assassinadoi na prisão por motivos jamais explicados.

O impacto da noticia do atentado nas redações dos jornais gerou uma violenta reação e o noticiário foi amplo e repisado, não só no Rio, mas em todo o país. As Forças Armadas, parte sensibilizada com a notícia da morte do major, parte em conveniente exploração política do episódio, se uniram contra o governo, ou seja, contra Vargas.

O presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Herbert Moses, exigiu do Ministro da Justiça Tancredo Neves as providencias imediatas e no mesmo balaio juntou os dois assassinatos, o do major Ruben Vaz e o do jornalista Nestor Moreira.

No Senado Federal, lideranças de todos os partidos políticos, inclusive do PTB de Vargas, repudiaram o crime. A oposição, com conotação golpista, advertia que “violência gera violência”.


No dia 7 de agosto, o Ministro Tancredo Neves divulgava Nota Oficial, garantindo a apuração dos fatos, sob pena de serem tomadas “medidas extraordinárias”. A expressão ganhou as páginas dos jornais e sua leitura foi ardilosamente interpretada pela oposição como anúncio de uma possível quebra da ordem legal.

A agitação estava incontrolável.

No dia 8, o Clube dos Diretores de Jornal exigia do presidente o livre acesso dos jornalistas aos inquéritos policiais, por desacreditar na polícia.

O comandante da 4ª Zona Aérea, major da aeronáutica, Alfredo Gomes Correia, em nome da oficialidade, exigia o fim das apurações.

No mesmo sentido se pronunciavam os oficiais da Escola do Estado Maior do Exército.

Carlos Lacerda abria manchetes acusando o governo de farsante e de não querer apurar nada.

No dia 14, o Ministro da Marinha, almirante Renato Guilhobel, e o Ministro da Guerra, general Zenóbio da Costa, divulgavam notas tentando tranqüilizar os espíritos e pacificar a nação, mas sem expressarem eficaz defesa do presidente ou mesmo da ordem constitucional, malgrado tal ordem não contemplasse pronunciamentos políticos dos militares.

Os jornais anunciavam uma greve geral de trabalhadores, comandada pelo Ministro do Trabalho, João Goulart, em apoio ao governo e desagravo ao presidente Vargas.

No dia 15, os jornais noticiavam a revolta do Clube Militar contra o governo.

Carlos Lacerda, pela Tribuna da Imprensa e pela Rádio Globo levantava a opinião pública, já completamente envolvida na avalanche sensacionalista, que pregava a existência de um “mar de lama” no Palácio do Catete, então sede do governo.

Dia 18, o Marechal Zenóbio da Costa, em nome das Forças Armadas, advertia que “não seria dado um passo fora da legalidade”. Não era explicativa a advertência e podiam ser interpretadas duas legalidades: a da ordem institucional ou a que previa a apuração dos crimes.

No dia 23, Exército, Marinha e Aeronáutica exigiam a renúncia de Getúlio Vargas.

O golpe de Estado estava declarado, muito embora já tivessem os militares há muito e por conta própria assumido poderes não previstos na ordem constitucional, fazendo funcionar o que se convencionou chamar de República do Galeão, na qual realizavam ilegalmente inquéritos militares para apurar a morte do Major Vaz, inclusive com a convocação para depor, além de servidores públicos lotados no palácio presidencial, o próprio irmão do presidente, Benjamin Vargas, o Beijo que tinha velhas contas a prestar, pois fuzilara integralistas quando do ataque ao Palácio Guanabara onde residia a família Vargas.

O governo de Getúlio estava no chão.

Mas Gegê ainda seria capaz de gestos que, em meio a tanta crise, o faziam se encontrar consigo mesmo.

Um menino de quinze anos insistia com o General Ciro do Espírito Santo Cardoso, chefe do gabinete militar, para falar com o presidente o que lhe estava sendo negado quando Getúlio sai de sua sala é pelo garoto visto.

- Presidente, preciso falar com o senhor.

- Entra aqui guri, como tu te chamas?

-Meu nome é Syllas e por três vezes sou aprovado nos exames para a escola militar, mas sempre sou preterido na matrícula pelos filhos dos militares.

Getulio serve-lhe uma xícara de chá, com algumas torradas e passando sua mão direita na cabeça do garoto lhe pede para ir para casa e esperar uns dias.

Menos de uma semana passada, um telegrama convoca o garoto a procurar Lourival Fontes da casa civil que o recebe e lhe oferece matrícula em qualquer uma das escolas públicas dentre quatro que arrola.

-Quero agradecer ao presidente, por favor.

Levado ao gabinete do presidente lhe diz:

-Obrigado Dr.Getúlio, mas nenhuma das escolas oferecidas por aquele homem ali me interessa. Eu quero ser militar.

Vargas emociona-se com a determinação daquele “gurizinho”, ensaia um sorriso para “aquele homem ali” e telefona, ao que parece para seu Ministro da Guerra, e ordena a matrícula tão desejada.

Formado na Escola de Cadetes do Exército de São Paulo, ainda hoje vive o general reformado Delorme, irmão de Cid o amigo de Tito que freqüentava as festas do apartamento da Gávea no qual meu amigo recebia às sextas-feiras seus queridos e animados confrades da Real Confraria do Prazer.


IV


E eu me lembro que já era quase noite do dia 24 de agosto de 1954, quando consegui uma edição extraordinária do jornal Última Hora e pude atender ao meu pai lendo a Carta Testamento de Getúlio Vargas, por mim decorada.

- Vai nessa, recita o texto, pois não conheço todo.

Molho a garganta com uísque e gelo, atendo Tito e mando:

“Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate.”

As últimas palavras de Getulio Vargas as lia sorvendo cada vez mais triste e toda a Carta mais me parecia uma oração. Eu o estava tendo como um santo, um ser superior que se mata para o bem do povo. Na minha galeria imaginária de heróis, Getulio passara a ocupar o primeiro lugar, destituindo Tiradentes até então meu preferido símbolo de patriotismo.

A Carta, a tristeza que se descobria nas faces de todas as pessoas das ruas paduanas mais a minha enorme vontade de estar perto do meu pai, para perguntar o que todos iriam fazer agora, em mim se misturaram e me deixaram com sensação de orfandade, gerando lágrimas.

- Mas você conhecia esse Getúlio?

Era Tito, empenhado em me consolar. Sempre ele, apelidado de “tudo azul” com sua irresistível vocação ao otimismo e certeza de que tudo no fim dá certo.

- Já que não tivemos aulas e não teremos a hora de estudos, por que não vamos jogar pingue-pongue, ou xadrez, ou roubar jabuticaba?

Na chácara cujo estranho nome era “bilado”, vizinha ao pátio de recreio masculino, havia muitas espécies de árvores frutíferas e uma fonte de água mineral iodetada da qual diziam única da América do Sul.

Eram ali cometidas as nossas transgressões, hoje sei quão inocentes: roubar jabuticabas, organizar campeonatos de masturbação sob os critérios premiados de gozar primeiro ou mais longe ejacular, tudo medido por atentos juízes que permitiam ou não incentivos tais como a famosa foto de Marilyn Monroe com seu vestido branco levantado pelo vento saído de algum conduto de metrô americano; ou ainda ali enterrar latões de manteiga, jamais encontrados por imperfeição dos mapas de localização, retirados às escondidas dos depósitos de cargas da estação ferroviária, cujos trilhos, no recreio da noite, separavam os alunos do internato e os do externato, o que era motivo da inveja das meninas internas, já que as externas tinham acesso mais privilegiado para os namoricos com os meninos internos.

O colégio recebia em seu internato alunos dos municípios vizinhos interioranos para ele vindos em busca de bom ensino e boa parcela de alunos vindos da capital Niterói ou do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, em busca de boa disciplina, ou seja, para uma espécie de reformatório da classe média.

Para lá fui eu, por proteção, já que meus pais em fase de separação me poupariam das brigas que antecedem ao desfazimento dos casamentos, onde não se diz o que se sente mesmo e não se pensa no que se diz o que só causa sofrimentos e mágoas inúteis.

Tito para lá foi por punição mesmo, já que fora expulso, por repetidas indisciplinas cometidas no Liceu Nilo Peçanha em Niterói, desde sentar-se uniformizado no colo de Machado de Assis feito estátua na praça defronte ao colégio até destruir parte da coleção de pedras que ornamentavam a mesa do diretor, um geólogo amador.

Dentre as opções que ele me propunha, escolhi jogar xadrez, pois a Carta Testamento tomara em mim a forma de um tabuleiro, contendo peças com movimentos, jogadas, contra jogadas, cheques por diversos lados, até o cheque-mate que matara o rei.

Depois de três derrotas seguidas por ser impossível me concentrar, fomos para o pingue-pongue no qual passei a bater na bola como se ela fosse o Corvo, alcunha pejorativa do jornalista Carlos Lacerda.

Naquela noite, me deitei com duas conclusões: seria jornalista e, por inexistir na época faculdade de jornalismo, faria direito para sê-lo; havia feito um amigo que agora bebe comigo, com o qual tenho a mais profunda das intimidades e do qual não me separei nunca e tenho certeza absoluta não me separarei jamais, sempre acreditando que morreremos juntos.

-Naquela noite adormeci recitando o final da Carta de Vargas, que agora recito feliz por lembrar de todo o texto e para que você, meu amigo, saiba que naquela noite nos unimos para sempre.

-Isso companheiro, reza essa carta, meu narrador capenga, como capenga estamos aqui nós dois sem nossa querida amiga Lena para ouvir isso tudo.

-“Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história”

V

No dia seguinte o Colégio de Pádua iniciou a guarda dos três dias de luto oficial e tivemos permissão para sair.

Saímos eu e Tito e ele muito valorizou a morte de Getulio Vargas posto que suas saídas, de fim-de-semana, eram, invariavelmente, cortadas em razão de seu mau comportamento disciplinar. Os alunos dos cursos científico e clássico saiam também aos sábados à noite, até as vinte e duas horas. Nós, do ginásio, saiamos aos domingos, após o almoço e após a preleção do diretor que se finalizava com a lista dos sem-saida da qual o meu amigo ocupava sempre os primeiros lugares.

O diretor era um homem culto e nos falava de literatura, ciências, noticias da atualidade, curiosidades da natureza ou dos idiomas. Uma vez nos ensinou que a palavra “mãe” começa com a letra “m” em todas as línguas. Conferi nas que aprendi. Inglês, mother. Francês, mère. Espanhol e italiano, madre. Alemão, mutter, mas jamais atinei qual a importância disso.


E todos nós ouvíamos encantados, aquele homem que se expressava sempre pronunciando o “X” com som de equis e sapecava: equis-aluno, equisperiência, equisatamente.

Disse-nos também que a palavra “saudade” só existia em nossa língua, da qual tirava a curiosa forma lingüística de que nela se calça a bota e se bota a calça.

Mas, talvez em homenagem ao luto nacional, dos três dias subseqüentes ao suicídio do presidente vigorou anistia, ampla, geral e irrestrita. E todos os alunos foram liberados.

E para onde íamos atravessando a ponte do Rio Pomba em bandos rumo ao centro da cidade?

Não havia lá muitas opções: os maiores em tamanho e nem sempre maiores de idade optavam entre a zona e a sinuca.

A primeira, o que me parecia tão estranho quanto cômico, dividia muros com o cemitério da cidade. Por uma escada se chegava ao salão, sempre protegido pela imagem de São Jorge e seu cavalo que dragão não temia e cujas patas eram suavemente iluminadas por uma lampadazinha fraca e vermelha, muito útil para que à noite não se fizesse um completo breu na hora das danças e abraços amorosos.

Moravam permanentemente na zona, também em regime de internato, dúzia de moças vindas dos mais diferentes lugares, mas nem todas disponíveis para o sexo, muito embora lhes fosse permitido acompanhar os alunos nas mesas bebendo cerveja ou cachaça com água tônica, chacoalhada no próprio copo com tiras de papel de pão “modi quê” fazer espuma suavizando a ardência, bebida de uma só vez como se fosse sal de frutas.

Três ou quatro dessas moças eram propriedade particular de fazendeiros ou comerciantes prósperos que as importavam e as mantinham à disposição para quando possíveis fossem as escapadas das esposas, das filhas e até e também dos vizinhos bisbilhoteiros.

Um desses importadores e mantenedores de moças e com comércio próspero, constantemente, de bicicleta percorria o caminho da zona que o fazia passar defronte à casa de uma enorme turca, bondosa com os estudantes, ao quais oferecia quibes e leite salgado, mas maledicente com o comerciante, que vigiado ouvia um debochado grito de -“hum já vai Oscarito?” o qual retrucava “posso parar ai se você me der sua filha”, da qual Tito era amigo, mas a apelidara de Raimunda, por ser feia de cara e boa de bunda.

As demais moças da zona eram livres como se supõe serem as putas e havia dentre elas poucas que, por honra da casa, rotina do oficio, devoção ao prazer ou mesmo carinho elegiam um aluno e com ele faziam amor, de grátis.

Era usado também o recurso da vaquinha onde quatro ou cinco alunos completavam o preço ajustado e disputavam uma das moças na porrinha ou na sinuca.

Eu e Tito nos atrevíamos a ir com os grandes, mas jogávamos mal a sinuca, éramos enganados na porrinha, não tínhamos dinheiro algum e ainda chamávamos as moças de senhoras, que, para nós, substituíam a luxuria em troca de uma atenção mista de irmandade ou maternidade.

Éramos adotados, mas éramos filhotes das putas, e disto tirávamos proveito, aprendendo muito sobre sexo e um pouco do ser mulher, já que muito desse gênero nos é até hoje impossível saber integralmente.

Elas têm o dom ou a pratica de arquivar ressentimentos e, quando menos se espera, nos joga na cara os motivos, com data e hora, com remotos detalhes. Mas se fosse só a recuperação histórica da mágoa que um dia lhes causamos ainda seria um pouco suportável. Mas sentir novas mágoas e raivas tudo novamente por mais antigos que sejam os fatos, dolosos ou culposos, é demais, ou não?


Mas Tito e eu naquele dia não atravessamos a ponte com o bando de alunos. Aliás, eu nunca a atravessava porque parava em sua cabeceira, onde existia o Hotel São José do seu Dé Carneiro e da Dona Neli cuja bondade era vício e sempre cochilava para não ver e ter de reprimir as artes que aprontávamos. Nós e mais nunca menos que seis a oito meninos e meninas.

Por força das circunstâncias, exilado de casa e posto no colégio interno, cujos códigos de conduta, certamente com um pouco mais de sofisticação, se equivalem aos códigos dos presídios onde vigora a lei do mais forte, tive que me virar.

Franzino, ruim de briga, briguei muito. Ou melhor, apanhei muito. Apanhava até que meus algozes se cansassem e desistissem de me impor seu domínio. Outros eu ganhei no papo. Por fim ganhei meu lugar, me fiz respeitar.

Mas, a questão familiar eu resolvi mais prazerosamente. Cultivei a hospitalidade de Dona Neli, retribui com atenção sua gentileza, tal como Tito lhe retribuiria mais tarde seus carinhos com abraços e beijos um pouco exagerados.

Passamos a ser como filhos tratados e direcionamos para essa bondosa pessoa nosso amor filial.

De quebra adotamos suas duas filhas, Bia e Lena, como irmãs e com elas convivemos na melhor fase de nossa adolescência.

E nós quatro comprovamos ao mundo a real possibilidade de haver amizade, só amizade, entre garotos e garotas, homens e mulheres, apesar de tal ser sempre dado como impossível pelos que olham para as mulheres como se estivessem elas sempre de ponta-cabeça.

Lena e eu, por mais interessados em política ouvíamos as narrações radiofônicas do Repórter Esso, que repetiam incessantemente o desenrolar dos fatos e mais pormenorizadamente o que ocorrera com o presidente.


Às três horas da manhã do dia 24 de agosto de 1954 se registrou a última tentativa de salvar o governo, sob um ultimato militar.

Vargas convocou seu ministério e sentado à cabeceira de uma grande mesa no andar térreo do Palácio do Catete, tendo a seu lado, de pé, a filha Alzira e o Major Ernani Fittipaldi, pede a cada um dos Ministros sua respectiva opinião pessoal.

O Governador do Estado do Rio de Janeiro, Ernani do Amaral Peixoto, marido de Alzira, aventou a hipótese conciliatória de uma licença temporária.

O Ministro da Guerra, Zenóbio da Costa, que lhe havia informado sobre o Manifesto dos Generais que exigia a renúncia do Presidente, disse que poderia resistir à custa de muito sangue e retirou-se, segundo ele, para organizar a resistência, mas logo depois se convenceu que melhor seria o afastamento e que este teria de ser definitivo.

O Ministro da Aeronáutica, Epaminondas dos Santos, alertou que a situação era incontrolável.

O Ministro da Justiça, Tancredo Neves, defendeu a permanência do presidente e pediu enfaticamente aos ministros militares uma demonstração de apoio ao governo.

O Ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha, levantou três hipóteses: resistência pessoal, sob risco da própria vida, resistência dos aliados e a renúncia.


O irmão Benjamin Vargas, que fora convocado para depor em inquérito paralelo para apurar a morte do Major Vaz ilegalmente instaurado pela chamada República do Galeão, previa que os militares não aceitariam qualquer solução que não fosse a renuncia.



A filha Alzira Vargas do Amaral Peixoto interrompeu a fala do Ministro da Guerra, demonstrando que eram só treze generais os signatários do manifesto, todos sem comando de tropas, portanto, sem poder para derrubar seu pai. Queria autorização de Getulio para mandar prender os líderes militares como Eduardo Gomes, o brigadeiro derrotado nas eleições, e o general Juarez Távora, tido como mentor intelectual do golpe.

As discussões pareciam mesmo inúteis e as saídas para crise interditadas pela obstinação dos golpistas que preocupação alguma tinham em preservar as instituições.

Nesta guerra era fora Getulio ou fora Vargas a opção dada.

Mas não participei da idéia de que o país estava à beira de uma guerra civil. No máximo ocorreriam focos de resistência ou atentados inconseqüentes, isto porque os civis estavam divididos quer na avaliação dos fatos quer nas posições políticas e, além disso, e principalmente, eram desarmados, enquanto os militares eram quase unânimes na opinião de que o governo deveria cair. E com as Forças Armadas coesas é bastante improvável uma guerra civil.

Mas Getulio não era um político comum.

Como comum não foi a superação da crise para preservar as frágeis instituições democráticas e sua própria honra pessoal.

Sobe ao segundo andar e se recolhe no quarto.

Troca-se e veste um pijama, o que sugere não estar decidido a nada.

Às sete da manhã recebe a noticia de que os militares não abririam mão de sua renúncia definitiva.

Encaminha-se ao escritório e de uma gaveta retira um revolver de marca Colt, calibre 32, pesando 540 gramas, com tambor de 6 tiros, de fabricação americana, acabamento niquelado e coronha de madrepérola.

Às oito e trinta da manhã, atira em seu próprio peito e cai sobre a cama.

Um só tiro, rápido e letal. Com muitas conseqüências, seqüenciais e perenes.


VI

Bia e Lena, minhas escolhidas irmãs se distinguiam entre as demais moças de Pádua pelas quais consideradas muito avançadas, conceito limitadíssimo numa pequena cidade do interior.

Bia, a mais velha de temperamento um tanto rabioso, pavio curto, era de mais difícil aproximação e sempre procurava manter na superficialidade suas múltiplas relações pessoais, sendo mais popular, porém mais defensiva que sua irmã Lena. Escondia-se na exuberância dos gestos ou atitudes. Mas algumas vezes lhe furei o bloqueio e jamais arrisquei me opor-lhe, sob pretexto algum.

Era com ela que Tito participava das diversas estrepolias já que ambos eram traquinas e suas gaiatices eram impiedosas nas palavras e advinham de uma inteligência sagaz e ferina.

Eu me comedia. A tratava como o algodão trata o cristal e mais tarde essa minha atitude me serviu de eficaz escudo frente a sempre presente hipótese dela explodir.

Bonita, era disputada. Namorou muito sem se deixar apaixonar a ponto de perder o controle sobre os parceiros. Senhora da situação dava as cartas, quer as que comumente os casais botam na mesa quer as que sempre mantinha escondidas na manga para vencer com ferocidade canina quaisquer batalhas amorosas.

Quando explodia o fazia sem limites.

Casou-se em Niterói, com um cirurgião plástico, cujo temperamento doce, fala mansa, gestos amenos, lhe era o oposto.

Três filhos, dois homens e a menina primeira, que nascida visitei na casa da Rua João Pessoa em Niterói, de nome Carla.

A mesma Carla através de quem, muitos anos depois, eu recuperei sentimentos de paixão, de amor e até de família.

Susto? Também eu quando tudo se deu o tive.

E assim se deu: dois anos antes, tomei a decisão de extrair um quisto em meu nariz brotado. Na verdade uma decisão só tomada quando uma criança me apontou gritando “olha o nariz dele”.
Nariz que por si só exuberante não carecia do aderido apêndice.

Por nele confiar, eu procurei o marido da mais velha das minhas irmãs adotivas, no famoso apartamento do casal na Praia de Icaraí. Apartamento então nada famoso porque ainda não incendiado por fogueira de móveis na sala empilhados e atiçada por Bia, como parte de sua beligerante e explosiva separação conjugal.

Eu queria retirar o pedúnculo o mais breve possível e lá fui combinar a cirurgia, ocasião em que vi uma foto de Carla, já moça, muito bonita e que naquela semana passeava em Canoa Quebrada, no Ceará. De seu nascimento à foto se passaram dezenove anos e tinham sido essas as duas únicas vezes que eu dela soubera.

Mais o futuro me foi comparsa e tempos depois vou visitar Pádua em companhia de Tito e Aída, então sua mulher, em casamento que já desandava.

Visitar Pádua para mim mais significava ir ver Lena. Mas vi muito mais. Lá estava, visitando sua mãe Bia, Carla que pela primeira vez vi ao vivo e sem fraldas. Uma moça linda, alegre, cabelos pretos, de olhos intrigantes e instigantes, tudo isso abonado por juventude de pouco mais de vinte anos.

Conversamos um pouco, relembrei, escolhendo as engraçadas, minhas histórias em comum vividas com suas mãe e tia e, na despedida, trocamos significativos olhares que transmitiam uma pergunta calada: um dia quem sabe?

Soubemos os dois quando anos depois, Lena e Carla me visitaram num intervalo em que eu morava sozinho, no pequeno, mas povoado apartamento da Gávea e naquele dia, como sempre, havia amigos e amigas que por tudo ou por nada faziam festa.

Carla sentou-se comigo na rede e ali balançamos conversa. Falamos de seu curso de direito, seus planos de advogar, de nossos últimos romances e os assuntos eram quaisquer desde que nós continuássemos juntos conversando.

Lena, cuja maior característica é estar sempre em trânsito, como também dizer que vai e não vai, vem e não vem, resolveu ir embora.

Sem acreditar no sucesso da resposta, pedi à Carla que ficasse comigo.

Nem D.Pedro II disse tão bem o fico por ela me dito. E ficamos quando ficar para mim era categoria estranha já que sou do tempo de namorar, noivar e casar.

Depois namoramos e casamos.

Mas naquela madrugada eu estava apaixonado, recuperando a capacidade de amar e legitimando-me de vez a entrar na família que eu elegera e que poderia passar a verdadeiramente chamar de minha.

Pouco antes de adormecermos ouvimos Tito ao lado rir alto e maroto. Era porque a música de fundo, do rádio vinda, soava:

“Menina, te carreguei no colo, cantei pra ti dormir.....”


VII

Como dois meninos no parque, eu e meu amigo alternávamos posições na gangorra da vida. Ele descia, separando-se de Aída, eu subia juntando-me à Carla que me fazia e continuou me fazendo muito feliz enquanto vivemos juntos.

Tito, por sua vez, amargava uma decepção. Passara a considerar Aída um buraco sem fundo, desses que jogar terra é inútil. Dedicou-se a ela e por mais amor lhe dedicasse não conseguia fazer que ela acreditasse o que a deixava insegura a ponto de tentar chamar-lhe atenção inventando estórias, inverossímeis, estapafúrdias mesmo e, mais grave ainda, inúteis ao que ela pretendia, ou seja, suprir-lhe carências afetivas.

Contou-me ele que procurado em seu trabalho por Tenório, um homem simples, mas de inteligência admirável, por ocasião da recente separação de sua filha Aida, repetiu-lhe que dela ouvira ser filha adotada, sugerindo-lhe que a aconselhasse, já que esta condição lhe causava sofrimento, a procurar ajuda terapêutica. E, isto dito, percebeu o impacto espantoso que causou no homem que tudo desmentindo se fez pasmo e envergonhado.


Contou-me dela outras mentiras e criações delirantes do tipo, sempre lamentando a perda da real possibilidade de junto dela viver uma parceria amorosa que acreditava ser capaz de fazê-lo feliz, sem deixar de enfatizar a atração sexual que nele aflorava espontânea quando perto dela e que em qualquer circunstância o fazia vibrar.

Mas como sofrer junto, ou aplacar o sofrimento de Tito, se eu vivia momento de êxtase?

Era-me impossível e num estado de necessidade absoluta me afastei de meu amigo e fui viver minha vida, então do jeito que eu sempre gostei, amando.

Viajamos Carla e eu, mundo afora e ele era pequeno para nós.

Novidade alguma era mais nova que a nossa própria novidade.

Ela sugava-me experiência e eu sugava-lhe a juventude.

Troca justa, escambo perfeito.

Um dia ela me convidou para a festa de Santo Antônio, a mais comemorativa de Pádua.

Arrumaria malas se por ela fosse convidado ao inferno e, claro, pé na estrada.

Quanto menos quilômetros faltavam, mais apreensão pela chegada na casa de Bia, onde já à tardinha estacionei o carro e combinei:

-Carla eu deixo a mala no carro e você deixa todas as portas da casa abertas, pois tudo pode acontecer.

Ela riu e fomos em frente.

Bia, com broxa na mão e suja de tinta, me recebeu:

-Casartur você não tem vergonha nessa cara de ficar seduzindo menina nova?

Mas, a conhecendo bem, não senti raiva em sua voz, tomei como boas-vindas e respondi, virando os olhos para um belo garoto deitado em sua cama:

-Bia Terezinha, a mim me parece não ser você a pessoa mais indicada para tal me advertir.

Rimos e depois nos abraçamos e ela pela mão me levou ao quarto que para nós preparara com evidentes vestígios de carinho.

Era o que me faltava para me sentir confortado e feliz, pronto para passar um fim-de-semana com a minha família.

Na casa ao lado morava Lena, para onde fui correndo contar que tudo dera certo.

Entre sair de uma porta para entrar na outra, meio escondido, chorei ao pensar o quê diria Dona Neli se viva estivesse? Mas também ri, ao me perguntar: será que iria cochilar por cima da minha linda história com sua neta?

Chorar e rir, meu verso de vida.

VIII

Não se fazia necessário interesse por política para, senão triste, pelo menos espantados ficassem todos, e na casa de D.Neli era esse o clima, quando fui lá compartilhar o acontecimento junto a Lena e Bia e outros amigos. Afinal um presidente tinha se suicidado por política e isto mexeu com os sentimentos de todos, sendo irrelevante a posição política pessoal de cada qual, mas procurar quem nos eram próximos era o que de melhor se tinha a fazer.

Pelo rádio chegavam as noticias e com elas as interpretações, previsões, especulações, sem que ninguém de nada tivesse certeza alguma.

Um só tiro, o de Vargas em si próprio, venceu tropas e canhões dos generais golpistas que teimavam em depô-lo.

O povo ganhou as praças e as ruas e a pau e pedra destruía tudo que identificava como contra Getulio. Foram alvos fáceis os jornais O Globo, Diário de Noticias, O Estado de São Paulo e a Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda; a embaixada americana, a Standard Oil, diversos bancos e até as Lojas Americanas que entrou na lista como Pilatos no Credo, já que de americana só ostentava o nome. Lamento hoje inexistir MacDonald’s naquela época.

A morte do presidente impediu o golpe de Estado em plena articulação entre os militares e com apoio civil da União Democrática Nacional (UDN) partido da simpatia do vice-presidente da República, João Café Filho, sucessor constitucional do presidente morto.

Em 23 de agosto, véspera do ultimato militar ao presidente para que deixasse o governo e também de seu suicídio, Café Filho discursara no Senado convenientemente rompendo com Vargas.

Mas se o rompimento pretendia credenciá-lo a assumir o poder livre da aliança com Getulio que afinal ao poder lhe alçara, acabou por assumi-lo dentro da ordem institucional.

Morto, Vargas vencera e inviabilizara o golpe, já que o sentimento legalista ganhou peso entre oficiais militares, dividindo as Forças Armadas e, houvesse insistência dos generais golpistas, ai sim se tornaria provável uma guerra civil que empolgaria as camadas populares então órfãs do Pai dos Pobres.

O getulismo vencera mais uma vez.

Durante o governo democrático de Getulio Vargas, a par das realizações políticas e econômicas nitidamente nacionalistas tendentes a capitalizar o Estado brasileiro, a política externa brasileira mudou radicalmente de rumo, tornando-se independente, multilateral, no qual hoje trilha.

Ao mesmo tempo em que Vargas evitava aproximações com Perón, que demonstrara interesse em visitar o Brasil, em busca de apoio para criação de um bloco denominado ABC, a ser formado por Argentina, Brasil e Chile, cuja ação serviria para contrapor-se aos interesses americanos na América do Sul, também se negara a enviar tropas de apoio aos EEUU em sua guerra contra a Coréia.

Ao mesmo tempo em que concordara em assinar tratado de cooperação militar com os EEUU criara o BNDE para viabilizar financiamentos às empresas brasileiras tornando-as independentes dos financiamentos em sua maioria então restritos junto a bancos americanos.

Ao mesmo tempo em que restringia as relações econômicas com os EEUU a temas exclusivamente comerciais, emprestou apoio político à intervenção norte-americana na Guatemala.

Acusado de articular uma aliança entre o varguismo e o peronismo, com propósitos de criar repúblicas sindicalistas e antiamericanas, rejeitou acordos políticos com a Argentina, concentrou a política externa brasileira em temas econômicos vinculados à política de comércio exterior e limitou a participação do Brasil, em março de 1954, na Décima Conferência Interamericana de Caracas, assemelhada a uma trincheira defensiva da influência norte-americana.


Vargas inaugurou uma política externa visando o crescimento econômico interno, como estratégia para industrializar o país e para cada vez mais tornar a diplomacia agente de afirmação da nacionalidade.

O período presidencial de Vargas demonstrou a eficácia de unir os propósitos desenvolvimentistas amparados em políticas externa e interna o que determinou profundas modificações desta última, que passou a promover a aliança entre a burguesia nacional, a classe média urbana e os trabalhadores, e permitiu a expansão da capacidade produtiva nos campos da energia e dos combustíveis, visando a expansão industrial.

Mas foi a tenaz oposição dos que combatiam o intervencionismo estatal, e as metas nacionalistas da política econômica e da política sindical do Ministério do Trabalho, que se pôs a alimentar as pretensões golpistas de militares, contaminados pelas campanhas moralistas tão a gosto das elites dominantes, que acabaram por criar o insuportável clima no qual se deu o suicídio do presidente.


IX


Na casa de Lena fiz o que sabia poder fazer, entrei porta à dentro e junto com Tito que aproveitava a anistia com a qual o diretor do colégio homenageava o presidente morto.

O rádio estava sempre ligado, Bia prestava pouca atenção, D.Neli cochilava de roncar, seu Dé Carneiro fechara a venda que fazia parte de seus negócios e se dividia nas atenções entre a escuta radiofônica e as devidas aos hóspedes do Hotel São José, de sua propriedade.

Eu nunca soube de suas preferências políticas, mas Tito afirmava que ele votava na UDN, por ter, em certa ocasião, o visto comprando algo no bar da Rua Direita sob comando udenista. Nesta mesma rua e separado por curta distância havia também o bar do PSD.

Não foram poucas as vezes que Lena, Tito e eu conversamos sobre as fortes divisões paduanas.

Na cidade se dividiam os bares em razão da política; se dividiam os clubes em razão das classes sociais ou em razão das raças; se dividiam os fiéis em razão das orientações conservadora e progressista representadas pelos dois padres e respectivas paróquias.

Padre Diniz, viciado em rapé, em pregação moral e em missa em latim, chegava ao extremo de carimbar as pernas das meninas se considerasse imprópria a medida das saias. Joelho de fora, perna marcada. Além de vigiar com luz de lanterna os namorados do jardim de baixo defronte de sua igreja situado, provocando o êxodo para o jardim de cima, este ao lado da igreja batista, na qual pastoreava o Professor Wilson que nos dedicou paciência sobre-humana. Ministrava trabalhos manuais e solicitava tarefas para avaliar os alunos. Raquete de pingue-pongue, eu, e tábua de cortar carne, Tito, eram os únicos trabalhos que todos os meses a ele expúnhamos.

A divisão, nada ecumênica, gerava duas procissões, duas quermesses, dois padroeiros e duas grandes festas anuais, Santo Antonio e São Félix.

Tito considera todas essas divisões hereditárias da planta física da cidade, dividida em margens pelas águas do Rio Pomba, nas quais se afogara a primeira menina, chamada Diva, que tentou namorar. Nem namorou e nem ela morreu; hoje mora em Vitória e se tornou um caso raro, por ter muito tempo depois lido o que sobre ela se disse após sua falsa morte. Tudo se deu por eu dedicar-lhe versos em razão da noticia inverídica.

A estreita ponte que atravessava o rio, era ineficaz para permitir um trânsito fluente, já que ou bem se ia ou bem se vinha e para atravessá-la se esperava vez, para unir as divisões paduanas era de serventia nenhuma.

Essa teoria eu a contesto, pois são hoje três pontes e a divisão permanece inalterada.

Serve isto sim para atravessar boiadas, para emprestar seus altos arcos aos garotos mergulhadores e também para conduzir as procissões, organizadas em alas, como as escolas de samba.

Meu amigo interessou-se por uma procissão passante e foi esclarecido de que na frente devem desfilar as virgens vestidas de branco, seguidas das casadas e viúvas vestidas de preto. O que lhe valeu perguntar ao padre, sobre as mulheres que desfilavam de saia preta e blusa branca, se elas eram da ala das que só bolinavam. Mas, por sorte dele, a procissão era da corrente progressista, escapando, assim, da excomunhão por tão cretina pergunta.

Lena e Tito não estavam acostumados à tristeza daquela tarde. Eu também me sentia melhor em outras, quando ria muito de tudo e de todos. Especialmente quando eu enciumado debochava imitando os eventuais namorados de Lena. Houve o de dente de ouro que só vestia terno branco e com moedinhas no bolso do paletó para que fizessem tim-tim a cada passo. Também outro, de sapato acamurçado, camisa de mangas curtas dobradinhas e colarinho alteado por trás e sob os cabelos untados de brilhantina mal cheirosa, mas que me causava inveja por dançar muito bem.

Mas minha vingança se deu graças a Bill Halley, Pat Boone, Elvis Presley e seu rock-in-roll.

Por dançar separado eu poupava as moças das minhas pisadas de pé, de minha falta de ginga e também era poupado daquelas anáguas que, como armaduras medievais, impediam o contato físico eficaz para o intento. Poupado era também do escorrer de laquê, direto do cabelo das meninas para minhas narinas alérgicas. Poupado do ridículo ritual que se era obrigado a praticar quando a música estava se acabando, como pensar em coisas tristes, mãe morta, que se não desse certo, se tinha de sair fingindo amarrar sapatos, aos pulos, ou com mão no bolso a tentar domar a excitação.

Lena e eu aderimos ao roque e treinamos muito. Como resultado nos apresentávamos em público, no cinema de Pádua e em outros palcos das cidades mais próximas, onde dávamos autógrafos a quem nos tomasse como artistas de verdade.

Ela muito bonita de belo corpo adornado com calça far-west, o primeiro jeans brasileiro, alpargatas Rhodia, blusa ban-lon, lencinho no pescoço e tiara prendendo seus cabelos longos e louros.

Eu de sapatos globe-troter, camiseta olímpica, blue-jeans das lojas Sears, topete suspenso a gumex e blusão James Dean, no qual colava letras de esparadrapo grafando nomes de universidades americanas, como nos filmes.

Ambos mascávamos chicletes de bola, fazíamos caras e bocas e nos empenhávamos naquela ginástica que acreditávamos dança.

Quando Tito me substituía era tudo igual com uma preocupação a mais: evitar que os movimentos de Lena arrebentassem uma dentre suas dezenas, se bem contadas centenas, de espinhas que lhe valeram o apelido de Casca de Jaca.

E Lena, sempre solidária, impunha os tratamentos mais exóticos que iam de clara de ovo a titica de galinha, de tirar sangue das veias e injetar nos músculos, de passar pomada Minâncora ou fazer compressas de água muito quente e imediatamente muito fria. Tudo em vão, mas valendo a intenção.

Também Lena avaliava nossas namoradas, com um rigor intolerante e as ia denominando de Pau de Virar Tripa a Bafo de Tigre Louco. Essa é muito santinha e aquel’outra muito galinha e todas, segundo ela, um tanto burrinhas.

E assim convivíamos, na certeza de que além de nós ninguém inteiramente prestava a não ser para inspirar nossas troças e gerar nossas brincadeiras nas quais de rir chorávamos.

Mas tivemos momentos mais sérios, dentre eles a preparação do discurso de Lena como oradora de sua turma, com direito a citações do “velho Sêneca” e algumas outras erudições.

E tivemos momentos de ação política nos quais exercemos reciprocidades na cabala de votos. Eu para presidente do grêmio, ela para rainha dos estudantes.

Nas férias escolares hospedei Lena em minha casa na qual foi ela apresentada a Zenith, esta a marca de nossa televisão, artefato raro na época, e ela ficou sem compreender porque a sombra de sua mão não aparecia na tela quando na frente do aparelho levantada.

Lena também se mudou para Niterói, estudou direito e casou-se com um rapaz bonito, e não quero perder a oportunidade de dizê-lo arrumadinho demais para o meu gosto.

O casal gerou duas filhas, as gêmeas mais diferentes que a natureza já criou em todos os tempos e tornei-me admirador de uma delas.

E assim haveria mesmo de ser porque as trivialidades não combinam com Lena, minha amiga iluminada.



X

Mas foi por falta de iluminação e força, o que era comum em Pádua, que o rádio deixou de nos dar as noticias da revolta popular que responsabilizava Lacerda e os americanos pela morte do Pai dos Pobres. Dos quebra-quebras dos bancos, do empastelamento de jornais e das pauladas e pedradas em tudo que ao povo parecesse americano. Agora lamento de novo na época inexistir o McDonald`s do qual, como se percebe, sou mortal inimigo.

Resolvemos atravessar a ponte, cuja luz que voltara de tão pouca força fazia das lâmpadas tomates inúteis à missão de iluminar.

Passear na Rua Direita, passar pelos bares do PSD e da UDN, ambos repletos de políticos, curiosos, corvos e cassandras, tentando adivinhar o futuro político da nação, até chegarmos ao bar neutro do Seu Naves onde os alunos grandes disputavam animadas partidas de sinuca na disputa das putas.

Para afastar um pouco a tristeza reinante, soubemos de outra sinuca, esta de bico, em que se meteu o Seu Naves.
Deu-se que, passara pela cidade o caminhão da saúde pública. Um pequeno hospital ambulante que periodicamente rodava pelas cidades do interior e por dois ou três dias exercia prevenções várias.

Media pressão, examinava fundo de olho, gargantas, dentes; auscultava pulmões e corações, apalpava abdomens, colhia sangue, urina e fezes para exames, para os quais distribuía vidrinhos e latinhas.

Seu Naves habilitou-se e acabou em enorme dificuldade para recuperar sua latinha sobre a qual defecara e a fizera desaparecer por completo.

Foi surpreendido em seu quintal com um pauzinho na mão a remexer o cocô em busca da latinha da saúde pública, por cujo sumiço temia ser punido e ter de prestar contas ao Estado, já que advertido fora pela doutora sobre a importância da devolução no dia seguinte sem falta.

Mais que a latinha do Naves encheu-se o prato de nossos deboches ao imediatamente iniciarmos para todos a divulgação do inusitado fato, até hoje contado nas esquinas da cidade.

Passara o tempo e seu passar somado ao caso da latinha nos fez também passar boa parte da tristeza daquele dia trágico, mas com a concomitante bonança de ter eu me tornado amigo de Tito e tê-lo feito mais um irmão de Lena.

Estava na hora de voltar ao internato e fizemos o caminho de volta às gargalhadas, causando certo constrangimento aos que guardavam luto e respeito pela morte do presidente do Brasil.

No dia seguinte acordamos como de costume, às sete horas, com o bater de palmas do chefe de disciplina, aluno como nós, mas bolsista, cujo único ônus era tomar conta dos dormitórios exigindo camas arrumadas, toalhas no lugar de secá-las, sapatos enfileirados por debaixo das camas, cobertores dobrados. Encarregava-se, também de apagar as luzes e exigir silêncio quinze minutos após deitarmos. Era o último a dormir e o primeiro a levantar e, principalmente, era o responsável pela preparação da lista dos “sem-saída” aos domingos.

Mais tarde registrei que a maioria desses alunos seguiu carreira policial, sendo que mais de três deles meus contemporâneos de internato se tornaram delegados de policia.
Um deles havia que por má sorte na infância fora atacado por um galo de briga e, ferido no olho, cegou-se passando a usar um olho de vidro. Apesar do infortúnio, e do natural ressentimento pelo trágico acidente, era um bom amigo. Maus eram alguns outros colegas que o tinham como alvo, nos apelidos que iam de Camões a Farol Queimado e, pior, no repetido hábito de roubar-lhe e esconder o tal olho que à noite necessitava ser guardado num copo d’água.

A surpresa do suicídio do presidente havia se dissipado. Soubemos que seu corpo seria dentro de poucas horas levado de avião para o enterro em sua terra natal.

Mas ainda restavam dois dias de luto a serem guardados.

Um outro amigo, o Edson, que ocupava no diário de aula lugar imediatamente abaixo do meu, por respeito à ordem alfabética e por tal era meu incentivador nos estudos, pois se eu errasse as perguntas seria ele o próximo a ser chamado a responder, cujos pais moravam em Paraoquena, um distrito de Pádua, onde eram fazendeiros.

Conseguida a licença para visitar a fazenda, a pedido do pai de Edson, fomos com ele, Tito e eu, aproveitar os inesperados feriados.

Um dos atrativos da viagem era fazê-la a pé pela estrada que margeava o Rio Pomba e assim vencemos os dez quilômetros necessários para lá chegarmos.

Era uma fazenda grande e produtiva dedicada preponderantemente a criação de gado leiteiro. Mas tinha cavalos, cabritas, suínos, e muitas galinhas soltas e ciscando nas proximidades da porta de saída da cozinha da casa principal.

A hospitalidade interiorana logo se fez presente e nós muito bem acomodados fomos, num quarto grande e arejado e logo depois nos sentamos à mesa na qual nos foi servido, em hora atrasada, farto almoço.

Logo notei que nem quando entramos na pequena cidade nem na nossa chegada à fazenda havia burburinhos ou vestígios de comoção ou curiosidade pelo que, assim eu imaginava, todo o país se preocupava. Era completa a indiferença. Tentei, com o dono da casa, entrar no assunto e este, passando-me carinhosamente as mãos em minha cabeça, foi lacônico: agora a Inês é morta.

Eu ri sem graça, não do fatalismo da resposta, mas por não ter a menor idéia de quem fosse essa tal de Inês.

- Uma rainha portuguesa chamada Inês de Castro, seu ignorante.

- É mesmo Tito, seu metido a sabichão.

Respondi enfezado, pois sempre me aborrecia por ignorar coisas que meu amigo sabia e cada vez mais eu ia descobrindo o quanto ele mais do que eu sabia e assim foi até o fim, quando resolvi superar-lhe nos saberes.

-Vamos gente, vamos andar a cavalo.

Edson mandara preparar três cavalos e foi esta a primeira e última vez que montei. Inábil e sem experiência alguma, fazer o cavalo andar foi minha primeira dificuldade, a segunda foi ficar bem acomodado em cima do animal e a terceira foi caminhar após o desastroso passeio. Um fiasco. Pelo menos não tive o dissabor de ver Tito bem montando o seu cavalo, pois também ele era desastrado cavaleiro.

Mais marcante, porém, foi presenciar a cena que jamais esqueci e frente à qual me fiz assustadíssimo.

Ocorreu na manhã seguinte, após o café com leite, este extraído diretamente da vaca para o copo, por mim repetido pela novidade e pela delicia.

Guiados por Edson fomos seguindo seus passos por um caminho estreito sob céu encoberto, não de nuvem, mas de uma névoa úmida e densa muito comum no inverno daquela região fluminense.

A picada nos levara ao chiqueiro, construído a maior distância da casa ou de qualquer outro lugar habitado, já que alimentados com lavagem os porcos e o local eram mau cheirosos.

Eu me distraíra com a quantidade dos biquinhos-de-lacre que voavam muito rápido e numa algazarra estridente de pios agudíssimos festejavam um ou outro pequeno raio de sol que aos poucos ia derretendo a névoa.

Deste inebriado lirismo sai pelo brusco som de uma gorda porca, de pés amarrados por cordas e pescoço envolvido pelo cinto que Edson tirara e com ele as calças para melhor poder com a bicha trepar.

Chocado me pus a gritar:
-Pára com isso.
Porque aquilo me era inusitado, nojento e doente, como assim sentimos e pensamos como meninos de cidade. E pela primeira vez tive um inesperado e decidido apoio de Tito, sempre pronto para qualquer aventura.

Edson, rindo, segurou no cinto que imobilizava a porca, prosseguiu, sem que a bicha parasse de gritar, até o fim que lhe deixou cansado, mas com cara de satisfeito.

Pelo caminho nos relatou outras façanhas do tipo e suas peculiares características.

Falou das éguas de barranco a propiciar altura certa e brincou que quem na frente pelo arreio segura uma égua deve beijar-lhe a boca quando tal determinado por quem está atrás nela enfiado.

Falou das galinhas que requerem mais cuidados, pois o êxtase pode resultar em demasiado aperto do pescoço da penosa e levar-lhe à morte, mas que a penetração mal algum lhes causa, dado ao tamanho dos ovos que põem.

Falou das ovelhas, mais sensíveis talvez, que não raro se apaixonam como nos mostrou Wood Allen e passam a seguir o amante por onde quer que ele vá, denunciando-lhe assim o ato praticado.

E não mais falou porque resolvemos tapar-lhe a boca, ameaçando denunciá-lo ao pai e difamá-lo no colégio.

Mal sabíamos então que seu pai deve ter feito o mesmo quando garoto e, tendo a escola em sua grande maioria alunos do interior, nada do que pudéssemos falar seria diferente do comum costume da meninada da roça.

Ou seja, não tínhamos nenhum poder de vingança e nos conformamos em recolher nosso urbano espanto e nossa piegas repulsa e tentar esquecermos o fato ou esquecer nossos critérios de normalidade citadina.

A vingança, muitos anos depois, involuntariamente se deu, através de um ato falho por mim cometido.

Na festa de Santo Antonio que fui vivendo minha paixão com Carla fui por ela sendo apresentado às suas jovens amigas.

-Esta é Fulana, filha de seu colega Edson.

-Ah, o que comia as porcas?

Seguiu-se aquele silencio dos constrangidos.


XI
Milhares de pessoas velaram no Palácio do Catete durante um dia e uma noite o corpo de Getúlio Vargas e outro tanto acompanhou o cortejo ao aeroporto Santos Dumont para um último adeus ao presidente levado para o cemitério da Paz, em São Borja, no dia 25 de agosto, onde foi velado por mais uma noite e um dia na Prefeitura Municipal por cerca de cinqüenta mil pessoas, vindas de diversas partes do país, e que ainda discutiam hipóteses da morte em razão da controvérsia gerada pela noticia irradiada pela rádio El Mundo de Buenos Aires, ouvida nos pampas, anunciando ter sido o presidente assassinado.

A família, pelas razões expostas pela filha querida do presidente, Alzira Vargas, que na tensa e última reunião ministerial na madrugada do dia 24 de agosto passara uma descompostura nos ministros militares do pai, dispensou honras militares bem como o avião oferecido pela Aeronáutica para transportar o corpo ao Rio Grande do Sul.

A pequena São Borja não tinha como hospedar ou dar de comer a tanta gente e suas casas foram abertas aos estranhos e João Goulart, o Jango, mandou que matassem ovelhas de sua fazenda para alimentá-los e discursou à beira do túmulo:

“Ofereceste mesmo tudo a este povo que neste instante está aqui derramando lágrimas sobre este caixão, com o coração dolorido e amargurado. Ofereceste a vida pelo povo por quem lutaste toda existência. Mas, esteja certo, Dr. Getúlio, este povo que dá esta prova de solidariedade nunca trairá os teus ideais. Este povo saberá lutar com todas as suas forças para a vitória de tuas idéias, que será a definitiva redenção social e econômica de nossa Pátria, para a felicidade de todos os brasileiros. [...] Até a volta, Dr. Getúlio. Vai como foram os grandes homens. Tu que soubeste morrer, levas neste momento o abraço do povo brasileiro, levas especialmente o abraço dos humildes, leva o abraço daqueles que de mãos calmas e honradas constroem a grandeza de nossa Pátria”.


Durante o curto governo de Café Filho, as articulações golpistas prosseguiram e ele por doença alegada como motivo ou por conveniência deixou o cargo em 8 de novembro do mesmo ano.

Assumiu a presidência Carlos Luz, presidente da Câmara dos Deputados, ligado às forças udenistas, particularmente a Carlos Lacerda.

E, como para os golpistas argumentos sempre se criam para servirem de pretexto à quebra da ordem, alardeavam com mais vigor três, todos absolutamente inaceitáveis e alimentados pela frustrada participação eleitoral da UDN.

Nas eleições presidenciais daquele ano, venceu a coligação PSD/PTB, partidos criados por Getúlio, com a candidatura do governador mineiro, Juscelino Kubitschek de Oliveira, o JK, derrotando o general Juarez Távora (da UDN, tido como mentor dos golpistas), Ademar de Barros (do Partido Social Progressista com o pejorativo slogan rouba mas faz) e Plínio Salgado (fundador da Aliança Integralista Brasileira). O Vice de JK era João Goulart, o Jango, Ministro do Trabalho de Vargas e seu herdeiro político.



Morto estava Vargas, mas vivo o getulismo e a UDN, derrotada, logo exigiu para a posse dos eleitos a maioria absoluta dos votos o que não constava na Constituição, era o primeiro argumento golpista. O segundo argumento se dirigia aos setores mais conservadores das Forças Armadas para impedir a posse de JK e Jango, sob a alegação de que ambos estavam ligados ao populismo de Vargas e fariam o país retornar ao caos de 1954. E o terceiro era porque os eleitos tiveram apoio dos socialistas e comunistas, repetindo velhas cantigas para "defender a democracia” o que evitariam acabando com ela, já que nela o respeito às urnas é dogma fundamental.

Todavia, os meninos e meninas, atentos no rádio, empoleirados na “cama lotação”, assim chamada por empilhar muitos amigos, de um dos quartos da casa de D.Neli, presos às suas interpretações, previsões e especulações, nem imaginavam que seriam estes os fatos subseqüentes ao suicídio do presidente, ninguém de nada tinha certeza alguma.

E pelo a seguir sucedido, não era só dos meninos e meninas esta incerteza.

Os golpistas tinham em Carlos Lacerda seu porta-voz e o jornalista, não fazia segredo do que pretendiam, resumindo em artigo assinado: "É preciso que fique claro, muito claro, que o presidente da Câmara não assumiu o governo da República para preparar a posse dos srs. Juscelino Kubitschek e João Goulart. Esses homens não podem tomar posse, não devem tomar posse e não tomarão posse."

O Ministro da Guerra, marechal Henrique Teixeira Lott, por via das dúvidas e das incertezas, resolveu dar um golpe de Estado chamado de preventivo a fim de garantir a posse dos eleitos.
Carlos Luz foi declarado impedido em 11 de novembro de 1955, tendo sido presidente por apenas quatro dias refugiou-se no cruzador Tamandaré que o levaria a São Paulo, levando consigo, agora mudo, Carlos Lacerda, numa tentativa de resistência sob a proteção do governador paulista Jânio Quadros.
Não puderam desembarcar em Santos, tomada pelo exército e nem puderam voltar ao Rio de Janeiro, de onde o Marechal Lott comandava os acontecimentos.
Café Filho, que já se havia restabelecido se é que havia do que se restabelecer foi feito prisioneiro em sua própria casa e nela permanecendo até a posse de JK.
O derrubador de presidentes Carlos Lacerda ficou “a ver navios” e o deposto Carlos Luz ficou à deriva, formalmente renunciando à presidência da República em 11 de novembro e assim pode voltar ao território firme.
Assumiu Nereu Ramos, então vice-presidente do Senado Federal, que se comprometeu a empossar os eleitos em 1º de janeiro de 1956.

Quando voltamos a Pádua, não mais a pé, mas num ônibus categorizado como “cata jeca” João Café Filho, advogado trabalhista, era o novo presidente do Brasil.
Formou um ministério conservador com influência udenista e, para conciliar a divisão das forças armadas, nomeou o general Teixeira Lott, oficial apolítico e legalista, seu Ministro da Guerra.
O seu mandato era tampão, e apenas deu continuidade às obras em andamento: Estrada de Ferro Brasil-Bolívia, de Corumbá a Santa Cruz de la Sierra, a do "Trem da Miséria"; refinaria de Cubatão, conhecida como Refinaria Presidente Bernardes. E assinou o Acordo de Cooperação Atômica com os Estados Unidos.

Tutelado pelos militares, envolvido pelos políticos da UDN, suspeito de participação nas conspirações para o golpe contra Getúlio, o que mais tarde se demonstrou infundada suspeita, sem apoio do povo, com a campanha eleitoral presidencial já nas ruas, era um presidente fraco.

Houvera eleições para senadores, deputados federais e governadores, em 1954, durante o governo Café Filho.

Carlos Lacerda fora eleito deputado federal, o que o credenciava a conspirador mor e o alvo agora era Juscelino Kubitschek, o JK, vencedor das eleições de 1955, mas com apenas 30% dos votos apurados o que fazia redivivos os argumentos da maioria absoluta para a legitimação do eleito, mas que não era requisito das regras do jogo e só o veio a ser muito tempo depois com a instituição dos dois turnos eleitorais.

Encontraram os golpistas um arauto, o coronel Jurandir Bizarria Mamede: "Não será por acaso indiscutível mentira democrática um regime presidencial que, dada a enorme soma de poder que concentra em mãos do Executivo, possa vir a consagrar, para a investidura do mais alto mandatário da nação, uma vitória da minoria?"
Mamede falara em nome do Clube Militar o que desagradou o Ministro da Guerra general Lott e este resolveu agir, questionando o presidente Café Filho, com a clara disposição de punir o coronel que se colocara a serviço do novo golpe, agora contra a posse de JK.

O presidente enfartou e foi internado na madrugada do dia 3 de novembro no Hospital dos Servidores do Estado.

Dois dos outros candidatos, Ademar de Barros e Plínio Salgado reconheceram legitima a eleição de Juscelino. Partidos como PSD, PTB, PSP, PRP, PTN e PST, em manifesto à nação, anunciaram respeitar as urnas: "Todos os partidos do país, sem exceção, se acham lógica e irrefutavelmente comprometidos no sentido de sustentar a validade das eleições, conformando-se com a decisão da justiça eleitoral que, neste momento, é a autoridade cujo pronunciamento a nação espera para acatá-lo com todo o respeito, dentro das tradições de rigorosa integridade, independência e imparcialidade que norteiam a magistratura brasileira."

Era a reação civil, mas eram palavras e os argumentos dos golpistas eram as armas.

A doença do presidente, real ou conveniente, determinou-lhe a licença do cargo, dando caminho ao presidente da Câmara dos Deputados, o lacerdista e golpista, Carlos Coimbra da Luz assumir a presidência, aquele Carlos Luz da República do Tamandaré, nome do cruzador no qual ficaria à deriva por ocasião do contragolpe de Lott para garantir a posse de JK e que cumprimentara felicitando o coronel Mamede pelo seu discurso golpista.

Lott deixou o ministério da Guerra, mas não deixou de fato comando e liderança das Forças Armadas, nas quais era respeitado e acatado a ponto de mesmo fora do governo mobilizá-las e pô-las nas ruas.

Carlos Luz pretendeu indagá-lo sobre os motivos da mobilização militar, sendo então informado por um subalterno que Lott estava muito ocupado e que por tal não poderia atender ao presidente.

Em rápidas ações, Lott sitiou a casa do presidente Café Filho, situação perdurada até a posse de JK, licenciado do cargo e que obtivera alta médica; prendeu o general Fiúza que fora por Carlos Luz nomeado novo ministro da Guerra; ocupou com tropas pontos estratégicos no Rio e em São Paulo, onde a situação era mais preocupante em razão do apoio do então governador Jânio Quadros, que apoiara Juarez Távora da UDN e articulara-se com o Brigadeiro Eduardo Gomes para garantir na capital paulista a continuidade da presidência de Carlos Luz com o seu pretendido desembarque em Santos.

No final, se registrava abortado o golpe, pela ação das tropas do exército, sob comando do general Olímpio Falconiere da Cunha, fiel ao general Lott, e com a renúncia de Luz em 11 de novembro.

O resultado das urnas estava garantido, JK tomaria posse.


O ano de 1954 se aproximava de seu fim e, como sempre ocorria nesta época, aumentava a ansiedade dos alunos, especialmente os internos já que, além do início das provas finais, se esperava ardentemente pela data de cada qual voltar às suas casas, suas cidades, seus parentes, seus amigos.

E, ainda, na última semana de outubro, se realizava a tão esperada Festa do Estudante quando a cidade recebia as embaixadas dos ex-alunos do Rio, de Niterói, de Campos, sempre presentes.

Dois dias de festa, com alvorada que despertava a cidade com foguetes e o ensaiado repique da bateria dos alunos, treinada para a parada que desfilava no domingo pela manhã, após a missa com comunhão dos alunos que eu, como coroinha, ajudava, não por devoção, mais pela saída da escola que os ensaios propiciavam, sempre mangado por Tito, ateu convicto por procurar lógica em questões de fé e por ter a estátua de Santo Antonio, daquelas com peruca de horrível cabelo, lhe negado um sinal, uma lágrima, uma piscada de olho e isto, mesmo que incrédulo, lhe pareceu lógico. Coisas dele!

Eu esperava pelo desfile da Lira de Orion tocando dobrados e musicas populares, ritmadas em marcha.

Na sexta-feira, uma sessão literária, com coro de alunos, esquetes teatrais, dança folclórica, recitações e discursos.

Todavia, o maior acontecimento era o baile da rainha dos estudantes, quase sempre realizado no Night Club cuja peculiar característica era o de ser o único clube de baile que conheço contendo muitas colunas estruturais no meio do salão de dança, desculpadas pela alardeada hipótese de antiga ameaça de desabamento do prédio, pelo que passava o Carnaval fechado, o que assegurava credibilidade à hipótese.

Colunas disputadíssimas para onde os pares convergiam logo nos primeiros acordes da Blue Star na qual cantava o Rui Nariz que viria a ser o Rui Faria do famoso quarteto MPB4, em busca de um ponto escondido dos atentos olhos das mães das meninas que eram, a distancia, tiradas para dançar, com um sinalzinho convidativo do dedo indicador dos meninos.

As provas eram as escritas e também as orais, nas quais Tito sempre se saia muito bem e eu nem tanto, por isso a solução era mesmo estudar, com atenção redobrada nas meterias das qual menos se gostava. No meu caso, as ciências exatas como matemática, química, física. Nas sociais, mesmo não sendo brilhante, me saia bem melhor, especialmente em português, história, geografia, esta última com a valiosa ajuda de Seu Mário, o professor:

-Menino, me dê um rio genuinamente brasileiro, o São Francisco mesmo serve.

-São Francisco.

-Pode ir e boas férias.

Aquele fim de ano foi também o da minha opção pelos jogos, escolhendo como meu time de futebol o Fluminense e adquirindo inteira aversão aos jogos de azar.

E com isso nada tiveram os campeões cariocas Castilho, Píndaro e Pinheiro, o segundo um paduano, e seus demais companheiros de equipe, mas sim em razão de ter eu me aventurado a subir a margem direita do rio Pomba, em busca de uma dessas barraquinhas de festa interiorana, onde roletas param nos escudos dos times de futebol e quem o escudo acerta recebe o dobro as fichas colocadas sobre um balcão forrado com um pano onde os mesmos escudos estão pintados.

E o dinheiro que apostei era exatamente o da passagem de ônibus que me faria voltar para Niterói, de férias. Perdi em partes quase tudo jogando no Flamengo, Botafogo, Vasco. Bangu, América.

Apavorado, tremendo e quase chorando, parti para o tudo ou nada e apostei no Fluminense, ganhando, recuperando minha passagem de volta, voltando correndo ao colégio, dormindo agarrado às cédulas de cruzeiros e me tornando mais um tricolor das Laranjeiras, o time de futebol que até hoje mais títulos de campeonatos cariocas ostenta.


A viagem era longa, em estradas estreitas de chão esburacado respirando poeira ou derrapando na lama, conforme fosse o dia de sol ou de chuva.

Pádua, Itaocara, Bom Jardim, Cordeiro, Macuco, Friburgo, onde começava o trecho asfaltado, mas também com buracos. Depois Cachoeira de Macacú, Itaboraí, São Gonçalo e, finalmente, Niterói, quase nove horas de viagem, ou mais de dez em razão dos enguiços dos velhos ônibus o que não era raro.

Mas a alegria do retorno compensava as adversidades, afinal eram férias, era Natal, era Ano Novo e, melhor de tudo, era Carnaval o que iria se suceder.

E era também rever amigos e a querida Lea, minha primeira paixão na vida. Com os primeiros recompor o trio de mosqueteiros, sempre unidos, com Mauro e Biro. Com a segunda, passear na praia do Saco de São Francisco orgulhoso de sua sensual beleza.

Mauro baixinho demais, eu feinho demais. Biro alto, forte, olhos azuis, bonito demais. Dos três era o único de família de intelectuais sendo seu pai professor de cursos de preparação para as escolas militares, mas não lhe seguia o exemplo e confundindo-se com Sherlock Holmes afirmava ser Willian Shakespeare um detetive inglês. Por essas e outras, as meninas que seu físico atraía sobravam para Mauro e também para mim, para os nossos sonhos das noites de verão.

E o verão em Niterói era uma festa, praias de Icaraí, do Saco de São Francisco, de Charitas, assim conhecida por nela se localizar um pequeno cemitério que ostentava em seu portal uma exortação: caridade. Mas em latim. E a praia como tal foi pelo povo batizada mandando às favas a pronúncia karitas da língua mãe.

Quando nisto falo, me lembro de Tito e suas curiosidades: Real Engenho não cabia no letreiro do bonde e de Real “Engo”, o Rio ganhou o bairro de Realengo. A fábrica de tecidos anunciava em francês o que lhe dava autoridade em moda feminina de “bon goût”, e a cidade ganhou outro bairro, o de Bangú. Também francês o engenheiro contratado para delimitar área em São Gonçalo, onde se situa, sem rio algum, a localidade de Sete Pontes, pois os topógrafos obedeciam às ordens do engenheiro que lhes ditava “ce et point”, assim como sem mar ou lago, nos arredores de Guaratiba, se situa a Ilha, pois era lá o bar de Seu Willian.

E já que os três mosqueteiros de Dumas eram quatro, Tito se incorporava nos dias de férias anteriores ao Carnaval que passava em Tubarão, Santa Catarina, onde moravam seus avós maternos, e com sua prima namorada ia brincar de concurso de Miss Brasil, tomar suco de abacaxi no Tasso’s Bar ou dançar num clube e dançando tão apaixonadamente que acabaram os dois expulsos, em nome da moral e dos bons costumes, expressão que ele repudiava com enfática raiva por dizer-se devotado ao que era bom.

Em algumas dessas férias, Bia e Lena, vinham para Niterói onde Mauro e Bia ensaiaram rápido namoro, logo substituído pelo incontido desejo de Bia que deu preferência a desmontar lambretas, extirpando peças desnecessárias para fazer o pequeno veículo andar, mas sem muita segurança, o que se veria depois quando na carona com Tito se projetou e tombou dentro de uma barraca de feira do Campo de São Bento em meio a tomates, cebolas e batatas.


Lena e eu optávamos por freqüentar o Petit Paris, um pequeno e afrancesado restaurante ao lado do Cine Icaraí, onde se apresentavam músicos como Serginho Brobró que se consagrou no mundo como Sergio Mendes e o MPB4, dos quatro meus amigos Rui do Colégio de Pádua; Miltinho do qual lhe invejava a namorada Lia Mônica, a bonitinha, mas ordinária, assim conhecida não por sua substância e sim por ter protagonizado no cinema a personagem de Nelson Rodrigues; Aquiles, filho de Geraldo Reis um respeitado comunista e de Martha uma benfeitora dos desvalidos; e Magro, caladão, mas um músico de inegável valor.

E a bossa nova estava sendo suave e lentamente gerada, o cinema novo aos poucos concebido, a juventude se transviava de velhos conceitos e contestava pela liberação feminina, pelo amor livre, pela liberdade política, pela pluralidade ideológica, pela crença no país.

Afinal, JK era o presidente, um presidente otimista, empreendedor, conciliador, desenvolvimentista, que bebia, dançava, tocava violão, gostava de futebol e, principalmente, governava sem ódios.

“Um presidente bossa-nova, desta terra descoberta por Cabral, simpático, romântico, original.”


XII


Agora é Tito que abre o baú de sua memória e repete as palavras de JK:

-"Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das mais altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu Pais e antevejo esta alvorada, com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino".

Desde a escola primária, o Externato Aragon de Niterói, tendo como colega um Gerson, que passava os recreios jogando futebol com latas e foi o meia-esquerda maestro da seleção brasileira campeã do mundo em 1970, eu olhava o mapa do Brasil e lá mais ou menos no meio do Estado de Goiás, estava um quadradinho pontilhado e grafado: “futuro distrito federal”, ou seja, um dia aqui será a capital do país.

E o que era previsão, um sonho, tornou-se realidade com JK, um sonhador que antevia esta alvorada.

De pai caixeiro viajante, do qual cedo ficou órfão, e mãe professora primária, na cidade mineira de Diamantina, em 12 de setembro de 1902, Juscelino Kubitschek de Oliveira, o presidente bossa-nova.

Telegrafista, médico da Policia Militar de Minas Gerais, na especialidade de urologia adquirida na França, com participação na defesa do governo constituído ameaçado pela revolução paulista de 1932, é nomeado chefe de gabinete do governo mineiro de Benedito Valadares.

Será o Benedito? Sim, era esse o Bendito o mesmo da piada, que discursando no enterro de um correligionário de 93 anos, lamentou-lhe a morte prematura e quando um cochicho de seu secretário tentava lhe corrigir por incabível o termo completou: “eu sei que é premátura... mas agora já está dito, não fosse eu um Benedito.”

Deputado Federal por duas legislaturas, Senador, Prefeito de Belo Horizonte, Governador de Minas Gerais, JK se candidata e vence as eleições presidenciais de 1955, sob um moderno Programa de Metas sob o slogan “cinqüenta anos em cinco.”

O plano tinha 30 metas para: energia, transportes, alimentação, indústria de base, educação etc.
Nada sobre Brasília, mas a mudança da capital para o centro geográfico do país estava prevista desde a primeira Constituição republicana de 1891.

Numa dessas viagens de campanha eleitoral em Jataí, Goiás, Juscelino discursa, prometendo fiel cumprimento à Constituição ”custe o que custar.” Tal afirmação num país então de golpes e golpistas, tinha inestimável valor político.

Morador da cidade, Antônio Carvalho Soares, o Toniquinho, lembra que a Lei Maior prevê a transferência da capital federal para o centro do país e se o candidato diz pretender cumprir a Constituição, quais eram seus planos para a construção da nova capital?

JK deu a resposta coerente mas absolutamente inesperada: o dispositivo constitucional seria cumprido em seu governo.

E um então inexistente 31º item ao Plano de Metas do candidato passou a existir: transferir a capital federal para o Estado de Goiás.

Visivelmente descrente, o Congresso aprovou a Lei n° 2874, dessas que se aprova sabendo-se que não vai “pegar”, e que foi sancionada por JK em 19 de setembro de 1956, determinando a mudança da Capital Federal e criando a Companhia Urbanizadora da Nova Capital —Novacap.

Os arquitetos Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, convocados, projetaram e lideraram as obras, iniciadas em fevereiro de 1957 e inauguraram a futurista e bela cidade em 21 de abril de 1960, dia de Tiradentes. Mais de trinta mil operários, chamados candangos, oriundos de todos os lugares do país, preponderantemente do nordeste, manejando mais de 200 máquinas, realizaram trabalhando ininterruptamente, a façanha de construir uma cidade em apenas quarenta e um meses.

O governo JK financiou a implantação da indústria automobilística e da indústria naval, a expansão da indústria pesada, a construção de usinas siderúrgicas e hidrelétricas, como Furnas e Três Marias, abriu as rodovias transregionais e aumentou a produção de petróleo da Petrobrás; para ampliar o mercado interno, o plano criou uma política de crédito e isentou de impostos a importação de máquinas e equipamentos industriais, e atraiu capitais externos, desde que associados ao capital nacional.

Em seu governo houve mais duas tentativas de golpes de Estado ensaiados por oficiais da Aeronáutica, em 19 de fevereiro de 1956 em Jacareacanga, Pará, e em 3 de dezembro de 1959, em Aragarças, Goiás. Ambas, patéticas, com seqüestro de aviões militares e que foram rapidamente controladas.

JK anistiou os líderes da insurreição e conclamou as oposições a exercerem seu papel dentro das regras democráticas.

O país das importações de ioiôs, de badulaques plásticos, de meias de espuma de náilon, de camisas volta ao mundo, transformou-se rapidamente, o que nutria o povo de um otimismo que ultrapassava as preocupações sugeridas pela inflação monetária que passou de 25% ao ano em 1960, mas a produção industrial crescera 81% no período, enquanto os salários 15%.

- Foi o preço do desenvolvimento acelerado, foi o sacrifício do presente visando o futuro?

Perguntei a Tito, que pregava necessárias as mudanças na marra e respondeu pragmático:

-O dinheiro não brota do chão e em economia não há milagre. Tem ali, falta aqui, e vice-versa.

Mas éramos todos obrigados a reconhecer bem razoável o funcionamento das instituições democráticas e JK foi o primeiro presidente que nós presenciávamos ter sido eleito pelo voto direto e que iniciou e concluiu seu mandato dentro do prazo imposto pela Constituição Federal.

E isso era muito para quem acordara para a política com o suicídio de um presidente golpeado e acompanhara a sucessão de renúncias, golpes, deposições, mais golpes e contragolpes.

Mal sabíamos que tempos piores viriam, mas mantínhamos o otimismo, aquele mesmo otimismo dos idiotas, como certa vez fraseara Nelson Rodrigues.

Poucas alterações se registravam entre umas e outras férias, a não ser um ou outro fato a distingui-las entre si sendo para mim a mais importante passar a morar com Tito em nossa casa de Niterói.

O mesmo no colégio interno. A rotina séria era sempre a mesma e suas quebradas se davam quando um ou outro aluno se fazia destacar pelo insólito, pelo inesperado, pela rebeldia.

O normal era acordar, arrumar a cama, ir beber água mineral a iodetada “única da América do Sul”, tomar café da manhã, formar cantando hinos, ir para o estudo da manhã, brincar ou brigar no recreio, almoçar, ir para as aulas, praticar algum esporte, tomar banho, jantar, ir para o recreio da noite, este junto com as meninas na frente da escola, limitado pela linha do trem, ir para o estudo da noite e dormir.

Esta rotina era tão estratificada que sabíamos o que comeríamos, durante todo o ano, em cada um dos dias das semanas: feijão, arroz, angu, carne de vaca as segundas, feijão, arroz, angu, carne de porco as terças, feijão, arroz...

Com apoio de Tito, bem popular na escola entre os internos e de Lena entre os externos, fui eleito, derrotando um dos chefes de disciplina apoiado pela diretoria do colégio, presidente do Grêmio Lítero e Esportivo São José, cuja bandeira continha o lema em latim “Esto Vir”.

Até então ser presidente do grêmio era cuidar da biblioteca, organizar campeonato de pingue-pongue, de xadrez, das sessões literárias das sextas-feiras.

Acreditando no lema da bandeira, resolvi “ser homem” e, sob a inspiração de Tito, iniciei um movimento rebelde. Uma greve. Não de freqüência às aulas, nem dos estudos.

Uma prosaica greve em oposição à rotina das sobremesas, ou melhor, da sobremesa, já que estava sendo servida exclusivamente rapadura.

Os alunos, sob a orientação do grêmio não mais aceitariam esta sobremesa e quando ela foi servida no almoço foi, por todos, rejeitada e no jantar foi rejeitada também e tal se repetindo por três dias consecutivos.

Fui chamado na diretoria para explicações que foram expostas ao diretor e sua esposa:
-O grêmio, em nome dos alunos, não quer mais rapadura de sobremesa.

-Mas rapadura vai ser a sobremesa, o que não terá mais aqui no meu colégio é esse grêmio.

Assim o diretor decidiu. O grêmio sofreu um golpe de Estado, foi fechado, e eu tive cassado o meu mandato.

Afastar-me de minha efêmera liderança me serviu de lição, política não se faz com enfrentamento, se faz com conversa, e me fez muito bem entender tempos depois, em Estocolmo, numa reunião de exilados argentinos, uruguaios e brasileiros, todos banidos, expulsos ou fugidos de suas respectivas ditaduras, o discurso de Pedro Poeta, ex auxiliar de Allende, chamado a apoiar um movimento em favor dos presos políticos e que algo assim falou: ¨ajudo sim, mas antes vamos definir conceito importante, preso político não existe, se foi preso não é político e quem é político não vai preso.”

O maior golpe foi privar-me do acesso livre, sem preencher carga, aos livros da biblioteca. Para não estudar eu lia muito, lia de tudo, desordenada e impropriamente, mas lia. Por dentro das capas dos livros didáticos eu outros colocava para levá-los clandestinamente para as horas de estudo. A capa mostrada escondia o conteúdo o que ludibriava a vigilância dos chefes de disciplina. Victor Hugo escrevia geografia; Balzac, história; Machado de Assis, por óbvio, português; Monteiro Lobato, que me influenciava na cômoda idéia de não acentuar palavras, ciências e assim os lia a todos, atribuindo-lhes diversos saberes.

Mas tudo isso eu deixaria para trás nas próximas férias de fim de ano.

Meu pai, um getulista, me surpreendeu com o seu desejo de que eu fizesse concurso de admissão para aeronáutica, um ninho de lacerdistas, mas que, segundo ele, me daria um futuro garantido.

Argumentei não ter o perfil de militar, não gostar de acordar cedo, de fazer ginástica e jocosa e enfaticamente arrematei, muito menos gosto de pintar pedras e árvores de branco e detesto guerra.

Seu contra-argumento me fez ceder ao me acenar com a aviação civil, o que me fascinava. Eu adorava avião e deles usufruía utilizando-me de passagens doadas pela Panair do Brasil, empresa correntista do banco do qual meu pai era gerente. E, gerente naquela época não era vendedor de papéis ou perseguidor de investidores, era preposto de banqueiro, com poderes realmente gerenciais.

Faria o concurso, deixaria a arma e seria piloto civil.

Nove em português me fez começar a subir as escadas de uma aeronave.

Dois em matemática, abortada estava minha decolagem.

Eu me matriculara em Niterói para me preparar para os exames militares.

Mas por vontade própria ante ao fato provável de que eu não iria muito longe nos estudos, se em Niterói ficasse, tomei a decisão de voltar ao internato.

Expus minha decisão a Tito, exatamente no dia em que ele acabara de ser expulso do colégio para o qual viera deixando Pádua, imagino atrás de mim, já que comigo dividia quarto.

Contou-me o motivo da expulsão dizendo que organizara um bolo entre os colegas cujo objetivo era acertar o número de vezes em que o professor de matemática falaria uma estranha expressão que lhe era vício. Não se sabia bem se ele queria dizer “estás vendo” ou “estás ouvindo”. já que pronunciava um “ta vindo”, como se fosse vírgula a pontuar suas explicações de álgebra, aritmética ou geometria. Tito apostara em vinte duas vezes e a aula ia se acabando e o homem falara apenas treze. Mas todos sabiam que ele irritado aumentava e muito os seus “ta vindos” e o meu amigo mastigou papel até que se tornasse uma pasta gosmenta e atirou-a no quadro negro pelas costas do mestre que enfurecido rapidamente chegou aos dezenove “ta vindos” sob as intervenções de Tito que clamava um “calma professor” para que o resultado da aposta lhe fosse favorável.

E o foi, meu amigo bingou no bolo, mas perdeu a matrícula por ter sua consciência lhe determinado se entregar, confessando-se como o arremessador do torpedo.

E terminou decidido:

-Vamos nós pra Pádua, como filhos pródigos, pois em Niterói não vai dar certo.

E para lá fomos deixando aquele turbilhão de novidades nas artes onde Portinari ganhara com suas telas e motivos brasileiríssimos fama internacional, na música onde os líricos versos de Vinicius de Moraes presos à mágica harmonia de Tom Jobim substituíam com um novo samba os sambas-canção, trocando o “ela disse-me assim vai embora, ele pode chegar está na hora” pelo “deixa de saudade a realidade é quem sem ela não pode ser”, que João Gilberto cantava afinadíssimo e sussurrando melodias novas e antigas fazendo ridículos os cantores que gritavam erres guturais e esses sibilantes; Rui Guerra e Nelson Pereira dos Santos arquivavam as chanchadas da Atlântida produzindo o cinema novo, Nelson Rodrigues revolucionava o teatro brasileiro, Carlos Drumond e Manuel Bandeira dispensavam rimas e esbanjavam poesia, tudo isso ao mesmo tempo, como se fora o Brasil Passárgada.

Dias antes de arrumarmos as malas, sob patrocínio de meu pai o que, na época, era usual, vivi a minha particular primeira noite de um homem.

Meus pais ainda tentavam mais uma vez salvar o casamento e por certo eles ainda não sabiam que casamentos não se consertam, jamais são salvos, acabam e fim, sendo mais aconselhável ambos partirem para outras tentativas, antes que a idade os impeça de fazê-lo.


Ele mantinha um pequeno sitio em Cabuçú, no qual passava alguns fins-de-semana com amigos e sua namorada clandestina, com a qual mais tarde viria a se casar, ter duas filhas, formando nova família.

Eu já descobrira este segredo de Polichinelo em razão de um descuido dele: esquecera no painel do seu carro, um Aero Willis já fabricado no Brasil, um ímã estampando duas fotos de duas meninas com a recomendação “não corra papai”. Também fui guardião deste segredo, pois eu entendia-lhe as razões e não desejava magoar minha mãe, que se arrasara com o fim de seu casamento.

Mas a separação teve idas e vindas, pois também não lhe foi fácil deixar seus outros filhos, eu, meu irmão e minha irmã.

Convidado, fui num sábado para o tal sitio, onde de sorrate se preparara minha iniciação sexual, com outra convidada de nome Angélica.

Na hora de dormir vesti meu pijama e antes mesmo de deitar, a moça entra no quarto, se estica na cama e me chama pronunciando algo como “adoro meninos” ou declaração do gênero.

Eu tremia. O quarto era pequeno, mas me pareceu muito grande. A cama era pequena, mas me pareceu enorme. A moça era baixinha, mas me pareceu bem alta. E eu tremia cada vez mais.

Guardo de Angélica uma recordação afetuosa. Sensível e atenta na minha condição absolutamente aflita ela me foi extremamente carinhosa. Disse-me que eu poderia apenas dormir e que ficaria comigo até de manhã, quando diria ao meu pai ter sido eu um amante bem razoável. E isso dizia me acariciando o peito e tocando levemente seus lábios nos meus.

Também eu, rejeitando sua conciliatória proposta, me pus a alisar suas pernas, primeiro tímida, e depois sofregamente. Apertar seus seios, também sofregamente e sem saber com que força fazê-lo. Subindo meu corpo no dela como se escalasse um rochedo e afinal tentando nela me enfiar de forma bem desajeitada e ansiosa. Muito rapidamente gozei e até hoje tenho dúvida se cheguei a penetrá-la de verdade, sendo muito provável que não.

Adormeci como que para descansar de um dever cumprido e quando amanheceu Angélica não estava comigo, não estava no quarto, não estava na casa. Também ela dera por cumprida a tarefa que lhe fora encomendada.


No café da manhã, sem olhar nos meus olhos, meu pai me indagava sobre a minha primeira experiência amorosa. Sem entrar em detalhes, apenas disse que eu gostara muito da Angélica, o que se sustentava em razão da forma doce com a qual me tratou, acalmou e me iniciou.

Caso a Tito contado, uma ponta de inveja nele deduzi. Disse-me ter ido à zona do Mangue. No Rio de Janeiro, ciceroneando seu primo do sul, para o qual se gabou experiente com as mulheres.

Entrou numa das tantas casas lá existentes e os dois escolheram duas mulheres e as levaram, uma para cada quarto, se é que se podia assim nomear aqueles cubículos fétidos, contendo uma cama estreita, uma pequena mesa sobre a qual um jarrão d’água e uma bacia se apoiavam e mais nada.

Apavorado, sem nada tentar com sua fugaz companheira, pagou o preço ajustado e, na espreita, apenas esperou seu primo sair do cubículo ao lado, para juntos retornarem à Niterói, trocando informações e deitando vantagens sobre a visita dos dois a zona, o que lhes parecia coisa de macho.

Minha experiência, bem menos traumatizante, serviu de assunto em nossa longa viagem de retorno a Santo Antonio de Pádua e ao internato, agora para nós sem novidades e sobre o qual exerceríamos total controle.

Influenciado com meu retumbante fracasso em matemática, quando do exame de admissão à Escola Preparativa dos Cadetes do Ar, nos matriculamos no curso clássico deixando a grande turma do primeiro ano científico pela pequena do clássico, com apenas sete alunos dentre os quais uma única menina chamada Inês.

Éramos, então, seis rapazes apaixonados por uma mesma diva clássica e Tito, no uso de seu otimismo natural, se sentia por ela distinguido.

Mas eu me considerava no páreo. Por tática, mal a cumprimentava, já sabedor que esse tipo de indiferença necessariamente por ela seria conferido, como de praxe acontece com as mulheres que, embora, nada querendo, se satisfazem com o saber que podem ter.

Na cidade e na escola inteira o assunto era a inauguração de Brasília para a qual começaram a se organizar inúmeras caravanas e aprazadas suas partidas de todos os lugares, grandes e pequenos, acercados e longínquos.


E mal alojados, cobertos pela avermelhada poeira do planalto central, milhares de brasileiros assistiram, em 21 de abril de 1960, a inauguração por Juscelino Kubitschek da nova capital do país.

No dia 20, JK, sob aclamações populares, fechava os portões do Palácio do Catete, pondo fim na "Velhacap", o Rio de Janeiro.

"Como pode um peixe vivo, viver fora da água fria..." cantavam os candangos durante as festas de inauguração, com primeira missa rezada em campo aberto, com a inauguração do Correio Brasiliense e, principalmente, com uma multidão nas largas avenidas da nova cidade, convocada pelos toques do mesmo sino, trazido de Minas, que na mesma data do ano de 1792 anunciara a morte de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.

D. João Bosco, fundador da ordem salesiana, que antevira uma cidade surgindo na selva, entre os paralelos 15 e 20, próximo às lagoas Feia, Formosa e Mestre d’Armas, às cabeceiras do rio Preto, se for santo mesmo, assistiu sua profecia realizada por JK, o presidente bossa-nova que de santo nada tinha.

A arquitetura da nova cidade ganhou fama em todo o mundo como também estranheza dos milhares de funcionários públicos para ela transferidos à custa de vantagens funcionais e financeiras, diretas e indiretas. Estranheza igual que sentiriam os filhos da primeira geração brasiliense quando viajaram para uma das grandes cidades brasileiras. Brasília é diferente, sem esquinas, sem cruzamento de ruas, sem expressivo congestionamento de tráfego.

A cidade ostenta a arte de Oscar Niemeyer, seu arquiteto, na qual projetou grande parte dos principais edifícios, como: o Congresso Nacional; os Palácios da Alvorada, da Justiça, do Planalto e dos Arcos; a Catedral; o viaduto da Universidade de Brasília; o Teatro Nacional e o Memorial JK. Inaugurado em 1981, onde estão os restos mortais do ex-presidente Juscelino, sua biblioteca particular, vários objetos pessoais e variado acervo relacionado à sua iluminada pessoa.

XIII

Tito e eu, após as férias, não mais voltaríamos ao Colégio de Pádua, iríamos fazer o último ano clássico em Niterói e freqüentar curso pré-vestibular.

Meu pai, novamente, tentou influir, trocando as armas militares pelas armações de concreto, me querendo engenheiro, sob os mesmos argumentos de garantir o futuro.

Para animar-me me presenteou grossas apostilas de física, química, matemática e me fez matricular num curso preparatório para o vestibular de engenharia.

Fiquei dois meses e sob irresistível influência de Tito, vendi as apostilas e me transferi de curso, preparando-me para direito.

O vestibular exigia aprovação em três matérias: português, na qual sempre me sai bem na escola como resultado das boas aulas do professor José Pinto; latim, que mesmo se não caísse declinação de templum templi eu poderia tirar a exigida nota quatro, e uma língua por opção entre inglês ou francês, das quais eu nada sabia.

Mas Bia estava em Niterói, agora de namorico com um querido amigo meu, cunhado do filho de um professor que examinaria francês no vestibular de direito. Por ingerência da minha irmã adotiva, esse amigo a mim recomendou escolher francês e ao professor seu aparentado recomendou-me para a aprovação.

Por isso passei e fui ao banco onde meu pai trabalhava e onde eu o visitava, pois já inteiramente separado de minha mãe dando-lhe a noticia pela metade:
-Passei no vestibular.

Era sábado de manhã e no banco ele gerente, o contador e um outro funcionário cumpriam tarefas internas interrompidas pelo anúncio de meu pai:
-Venham aqui conhecer um futuro engenheiro!

- Pai, isso não, vou ser advogado.

Para mais seus olhos brilharam, e ele me disse afetuosamente:

-Você, meu filho, será então o que eu sempre quis ser na vida.



Aliviado, cumprimentei seus colegas de banco, dei-lhe um forte abraço e me apressei em voltar para casa, antes que ele resolvesse me convidar para o seu sítio de Cabuçú para comemorarmos, talvez com Angélica junto.

Caminhando até a Praça XV pensei me perguntando onde estaria minha doce e lembrada iniciadora nas artes carnais.

Viajei para Niterói na parte de cima da Lancha Itaipu, com vento e sorriso na cara. Eu tinha vencido mais uma batalha e queria compartilhar a alegria com minha namorada Lea, que me ajudara nos estudos preparatórios, filha de um pai lacerdista que, como Lacerda, tinha sido comunista, irmão de Alberto Bomilcar Besouchet, o primeiro combatente brasileiro a chegar à Espanha para apoiar o governo republicano e lutar contra as tropas franquistas e que lá foi morto, mas que mesmo sabendo-me de família getulista, logo, janguista e brizolista, sempre me foi cordial, amável mesmo.

Lea, hoje cientista na área de microbiologia e virologia, foi minha primeira paixão e, como se sabe ou se deveria saber, paixão de adolescente é sempre imensa, arrebatadora, inesquecível, tomava por inteiro meus pensamentos e eram dela as saudades que me faziam chorar nas noites de Pádua, debruçado na janela, olhando o infinito que se colocava entre o dormitório do internato e o Saco de São Francisco, em Niterói, onde ela morava. E por causa dela, numa tentativa irrealista de recuperar o passado, dei causa ao rompimento do meu casamento com Sil.

Nenhuma e nem outra fiz de resultado, mas uma e outra seriam histórias mal acabadas se eu não tivesse feito o que fiz.

Não tive saída e me saíram as duas muito queridas por mim até hoje.

As querelas e batalhas políticas que antecederam à queda de Jango coincidiram com a nossa rica vivência universitária.

E lá estávamos num comício, com a nítida sensação de, como povo, estarmos no poder. Se bem que o meu amigo, mais se impressionara com a exuberante beleza de Maria Tereza Goulart, esposa de Jango e primeira dama brasileira, de vestido e sorriso brancos, iluminados no palanque, do que com o conteúdo radical dos discursos dos políticos que exigiam as reformas “na marra”.

A crise se precipitou e a reação foi imediata. No dia 19, lideradas pelos políticos e organizações das direitas, apoiados pela facção conservadora da igreja católica, realizou-se em São Paulo, com cerca de duzentas mil pessoas, a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” da qual participaram milhares de pessoas compulsoriamente, impedidas ao saírem do trabalho de voltarem para a casa por encontrar paralisado o trânsito e o transporte público, espertezas das direitas.

E não foi em vão se ter evocado o santo nome de deus. Os golpistas tinham o que precisavam: apoio popular para derrubar Jango, muito embora o presidente pensasse contar com o apoio do Exército, cujos principais comandos estavam nas mãos de generais que ele julgava fiéis, inclusive seu compadre, Amaury Kruel, sediado em São Paulo, mas que passou a exigir-lhe intervenção na Guanabara e em Pernambuco, depondo seus respectivos governadores eleitos Carlos Lacerda e Miguel Arrais, neutralizando direita e esquerda, à maneira getulista por Vargas dispensada a comunistas e integralistas, em sua época, sugestão também golpista.

Em 31 de março, o General Mourão Filho, que se auto-intitulara “Vaca Fardada”, comandando tropas sediadas em Minas Gerais, muge um manifesto exigindo a renúncia do presidente João Goulart e marcha em direção ao Rio de Janeiro e Brasília. Kruel acaba aderindo ao golpe e o presidente constatou não contar com dispositivo militar que sustentasse seu governo e viaja do Rio para Brasília e em seguida para Porto Alegre onde, talvez, pudesse ser possível resistir.

Novamente o Congresso, age rápido e em 1º de abril de 1964 o golpe se consuma pela declaração do seu presidente golpista Auro de Moura Andrade, que embora estando Jango em território brasileiro, declara vaga a presidência da República e empossa Ranieri Mazzilli.

Era dia da mentira e em razão dela um golpe militar passou a ser chamado de revolução e comemorado um dia antes, evitando a coincidência que afinal não era mera.

Tínhamos Tito e eu simpatia por Jango. Por motivos diferentes. Eu por sua tentativa política para mudar o Brasil, o que até hoje não se fez: continuamos com enorme contingente de miseráveis, continuamos com a renda nacional concentrada, continuamos sem debelar a corrupção, continuamos sem as reformas agrária, político-eleitoral, tributária; mesmo crescendo a produção, mesmo proliferando universidades, mesmo modernizando o parque industrial, mesmo estancando a inflação, ainda somos dois países num só. Para uns poucos, os privilégios do desenvolvimento. Para a maioria do povo, uma vida absolutamente subdesenvolvida.

E para o meu amigo, Jango era simpático por sua bela esposa, pelo seu jeito afável, pela sua solidariedade com os mais pobres e, principalmente, pelo pessoal favor indiretamente a ele prestado.

Três anos antes, mas já amigo de alguns estudantes de direito, Tito meteu-se numa excursão na qual um dos viajantes era um chamado capitão Coqueiro, portador de um bilhete de Jango para Perón, então exilado em Madrid. A recomendação valeu o empréstimo de um velho ônibus, cedido pelo governo espanhol, no qual dezenove estudantes iriam visitar Paris, Munique, Franquifurte, Milão, Veneza, Roma e voltariam a Madrid.

Mas o capitão resolveu valorizar o bilhete presidencial contando seu conto pela metade e cobrando de cada estudante cento e cinqüenta dólares, um preço ordinariamente barato para o giro europeu, mas caríssimo para aquele giro originalmente grátis.

Meu amigo e um outro estudante, sob pretexto que seus pais iriam mandar dinheiro para um banco italiano se livraram de duas: uma era a despesa injusta, outra a confusão que se deu quando a desconfiança, nutrida pela espantosa aquisição de aparelhos eletrônicos, realizada na Alemanha pelo capitão, virou certeza antes de chegarem a Roma, a ponto de saquearem suas malas para a recuperação do capital indevidamente cobrado.

Dissolvida a excursão, poucos voltaram naquele velho ônibus para Madrid e Tito juntou-se a Theobaldo, também portador de outro bilhete, rumando de trem para Lisboa, onde, como recomendados de Carlos Lacerda, tiveram uma estada muito confortável.

Muito tempo depois, Tito conhece Regi numa manhã ensolarada, quando levava a minha filha Tatiana que como dele a tinha a um clube na Ilha de Joatinga, no Rio de Janeiro. A paixão surgida entre os dois fez com que ela desistisse de um casamento prestes a se realizar e transportasse seu enxoval para um pequeno apartamento onde meu amigo morava, na favela do Vidigal e por dois anos viveriam juntos.

Regi morava num prédio da Rua Toneleros, ao lado daquele edifício onde morara Lacerda e se dera o atentado que matou o major Vaz. Numa das vezes que Tito fora buscar sua namorada para caminharem até ao restaurante Polonesa onde os esperava um delicioso suflê de chocolate, foi visto pelo pai de Regi que sobre ele comentou: - minha filha, de onde você conhece esse cafajeste?


Meu amigo preferiu ser cafajeste, mas jamais contou para sua amada de então, e amiga de agora, que a mesma pessoa eram seu pai major Coqueiro e o capitão Coqueiro da tramóia européia e que a obrigara a retirar de seu carro um adesivo, trazido por ele do Uruguai propagando “amnistia”.


Através de minha mãe, cuja finalidade na vida foi ajudar os filhos, renunciando a ela mesma para propiciar aos seus três filhos conforto e saber e disso se fazendo missionária incansável, arrumei um estágio com excelente advogado niteroiense, Dr. Venâncio, esperto em processo, sagaz nas discussões das demandas civis.

Com ele trabalhava um seu colega que cuidava de causas trabalhistas, defendendo trabalhadores e sindicatos de operários. Não era apóstolo de ideologia alguma, porém alinhava-se à esquerda, mas o era na sua inteira dedicação aos prazeres da vida, e a dele particularmente era completamente torta para os padrões vigentes. Casamentos, amantes, audiências, petições, recursos eram sua lida diária e a nenhum deles se dedicava cuidadosamente. Ao contrário, qualquer novidade, em qualquer campo ou ramo, lhe tirava da rotina, ou melhor, lhe faziam a rotineira desordem.

Logo me interessei pela sua especialidade, trabalhista, e, por força de seus sumiços do escritório, por causa da sua clientela que passei a atender, ouvindo casos e redigindo petições, escolhi meu ramo do direito e que mais condizia com meu pensamento político.

Mas não me afastara da minha intenção de ser jornalista e depois de freqüentar, por insistência de minha mãe, um curso de provador de café para tentar emprego no Instituto Brasileiro do Café (IBC), que me amargara boca e alma, consegui um contrato de repórter na Radio Jornal do Brasil ajudado por meu amigo Guilherme Duque Estrada de Moraes que veio a falecer num trágico desastre aéreo no aeroporto de Congonhas em São Paulo.

Com ajuda de minha mãe comprei dois ternos, sapatos, camisas e gravatas e dediquei-me à profissão que me fascinara na infância.

Na Faculdade de Direito dedicava-me mais à militância política do que aos estudos jurídicos orientados por professores que logo desprezei em razão do positivismo e reacionarismo dos quais eram demasiadamente dotados.

Prestei novo vestibular, desta vez para a Escola de Filosofia, situada defronte à de Direito, na qual, atravessando a Rua Presidente Pedreira, freqüentava as aulas do curso de ciências sociais. Não fui atropelado e em direito me formei.

O curso de ciências sociais o não terminei, ou melhor, ele curso foi quem não terminou, porque terminado foi pela direção da escola, submetendo-se aos obscuros desejos dos ditadores alçados ao poder pelo golpe militar de 1º de abril de 1964 que deixou os estudantes em pânico e apavorados os seus pais, inclusive minha mãe que pretendeu queimar meus livros, salvos por meu amigo Celso Panza, filho do então presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, que em sua casa os escondeu.

Mas antes fui convidado pelo diretório acadêmico a dar aulas aos pré-vestibulandos, dentre eles uma linda menina da qual Tito me dizia desaforada e metida a intelectual, me chamou a atenção e por ela me apaixonei ilimitadamente.

Obstáculos havia de serem vencidos. Primeiro a sua natural ou cultivada aversão em conhecer pessoas ou, no mínimo, de descobrir-lhes qualidades. Segundo seu provável namoro com um líder estudantil prestigiado no meio e alvo de atenções da esquerda católica como militante da Juventude Universitária Católica (JUC), José Augusto Pereira das Neves, que se elegera presidente da União Fluminense dos Estudantes a quem alertei no dia do golpe militar que deveria esconder-se, pois enquanto as rádios do Rio de Janeiro transmitiam manifestos de organizações politicamente inexpressivas, como sociedades de moradores, diretórios acadêmicos, clubes de sub-oficiais eu ouvia Lacerda discursando para rádios de Minas Gerais anunciando o que chamava de “vitória da revolução” e vociferava contra o almirante Aragão, leal a Jango, do qual se esperava prender Lacerda e tomar o Palácio Guanabara. E pelo conteúdo do discurso, no qual ameaçava de morte o almirante e o qualificava como bandido, assassino e incestuoso miserável, pude concluir que o golpe estava consolidado.

Logo me senti vivendo Maria, sua beleza, sua mordaz inteligência, suas rebeldias e sua cândida meiguice quando abaixava a guarda.

E na minha vida Maria foi o que sempre ela será, a mais namorada das namoradas.

Lutei por ela e consegui tê-la comigo e casar foi meu desejo e meu desejo se realizou.

Tito, algumas vezes tentou me afastar de tal propósito, dizendo ser cedo, que muita coisa poderia acontecer que a onda do amor livre contrariava casamentos. Mas ele também, por fim, me apoiava convencido das qualidades da escolhida para o meu primeiro casamento.

Quânticos, psicanalistas e crentes sempre repetem que “nada é por acaso”.

Acaso ou não, esta narrativa estava há dias empacada e não era por falta de tempo, nem de assunto, nem era preguiça. Eu perdera o rumo.

Hoje é dia 14 de fevereiro de 2007 e nesta data, há exatos quarenta anos passados, Maria e eu nos casamos e, por me recordar da data, a narrativa se reinicia envolvida num monte de pensamentos, em maioria absoluta prazerosa e esta data comemorei jantando com Maria e Tatiana, a nossa filha, revendo nosso álbum de casamento, para ela pobre, para mim bela recordação.

Foi numa terça-feira, 19 horas, marcados nos convites, uns cartões de linho impressos apenas no rodapé, onde os noivos, não os seus pais, convidavam. As alianças não eram ouro, mas de platina e um coral gregoriano cantaria Jesus Alegria dos Homens, de Bach.

A Igreja de Sant´Anna com altar florido em amarelo, chovia muito forte e, como contumaz conseqüência, faltou eletricidade e sob luz de velas se deu a cerimônia.

Uma cerimônia religiosa com a qual eu concordara, por ser desejo das famílias, e que se por mim fosse recusada estaria eu dando com a negativa uma importância religiosa que, para mim, ela não tinha.

Importância de outra espécie teve e muita. Afinal era o meu ritual de passagem prenhe de desejos, ideais, sonhos e, sobretudo, romance.

A chuva começou quando eu ainda me vestia de camisa branca de peito duro, calça cinza listrada, gravata prata e paletó de tecido grosso, preto e liso, tudo alugado.

E com a chuva começaram também meus pensamentos que indicavam ser esta a última vez que me trocava na casa de minha mãe e a primeira que tencionava ser a última a me casar, passando a viver com Maria em nossa própria casa.

A casa era um pequeno apartamento de quarto e sala, na Rua Moreira Cesar, por nós, carinhosamente chamado Candeias, comprado em construção de construtora que viria a falir, entregando-nos um esqueleto o que nos gerou gastos inesperados e esforço físico para terminá-lo, ferindo-nos as mãos por estender fiação do térreo ao décimo primeiro andar através desses condutores sempre estreitos e entupidos.

Mas cada peça, cada tinta, cada tapete, cada quadro, cada máquina, cada aparelho, tudo em milímetros medido para bem organizar nosso conforto, era compensador e aos abraços e beijos comemorávamos os avanços da obra.

Trabalhávamos os dois, Maria professora eu jornalista e estagiário de direito, curso no qual me formei três meses antes do casamento.

Dividindo despesas completamos o apartamento como planejado, salvo a ordem das prioridades, por mim quebrada ao adquirir sofisticada aparelhagem de som quando nem cama nós tínhamos ainda.

Pode não ser momento de falar do divorcio, mas evito o esquecimento registrando que a compra do som, tão inoportuna, me foi anos depois lembrada por ter sido, conforme Maria me escreveu no dia em que nos divorciamos a herança que lhe deixei. Não o aparelho de som, propriamente dito, mas minha “opção pelo prazer” como está em sua bela carta de despedida.

A cerimônia, sob chuva e luz de velas, me fez chorar de feliz assim que Maria entrou na igreja vestida de branco em modelo reto e simples, sem enfeites, apenas um longo véu sobre os cabelos presos, deixando bem amostra seu sorriso, sua beleza, e nas mãos uma pequena rosa de prata.

Era a minha namorada com passos lentos sobre tapetes vermelhos, entre convidados olhares, caminhando para se tornar minha mulher.

Hoje penso que, embora eu não soubesse, naquele momento cometi meu primeiro erro fundamental: o de imaginar que estaria a recebendo definitiva e eternamente.

Não sabia da enorme diferença entre assinar um termo de casamento e, por exemplo, uma escritura de um imóvel, sendo este último perene, estagnado, eterno, enquanto marido e mulher são mutáveis, progridem ou regridem, e que deles a vida em comum exige esmerada conservação, reformas e, sobretudo, ampliações.

Finda a fila de cumprimentos, cortado o bolo e chegada hora de dar o fora, nós iniciamos viagem ao nordeste, parando para dormir nossa primeira noite num hotel da estrada Teresópolis-Friburgo no qual chegamos sob chuva, derrapando na lama num Volkswagen emprestado.

Quando saímos do pequeno apartamento, vestidos iguais, calça jeans e camisa caqui, Tito segredou-me: -ai hum, vai dormir com a Virgem Maria?


Maria virgem, mais por mim do que por ela, era então a menina namorada e, bastante sem jeito, com pouquíssima intimidade, a tornei mulher.

Não dormi porque dormir me era impossível sob o peso do meu segundo erro fundamental: sentir-me, daquele dia em diante, responsável por Maria, por sua alegria, sua felicidade, seu prazer e também por suas dores, seus desejos, suas desilusões.

Confundido em mim mesmo, ao invés de companheiro me julguei tutor.

Sem plenitude entre nós, tivemos muitos bons momentos até que, sem muita ciência deles os sentimentos interiores de cada um, escamoteados e não declarados, até por proteção recíproca guardados, nos foram afastando e nos sugerindo a ruptura como definitiva fuga, por termos nos acostumado a de nós mesmos fugir.

E dentre os bons momentos o mais sublime e mais marcante, o da nossa síntese, o nosso melhor resultado: a nossa filha Tatiana, muito bem-vinda cinco anos depois da festa, e motivo principal de mais cinco de casados.

Foi difícil para Maria concebê-la, em razão de suas problemáticas trompas, vencidas afinal por sua vontade de ser mãe e pelos tratos medicinais que também exigiram de mim participação marcada a relógio, não muito agradável, por vezes penosa e por certo inibidora, mas realizada pela vontade de ser pai.


Tatiana nasceu em Niterói, nos primeiros minutos do dia 31 de maio de 1972 em noite muito fria, ou pelo menos assim me pareceu durante a espera, cuja ansiedade era agravada pelo racionamento de energia na ocasião imposto.

Nossa menina se antecipara, rompendo a bolsa dias antes da data marcada para a cesariana, demonstrando que assim independentes seriam suas atitudes pelas quais dedico sincero respeito e profundo orgulho.

Para recebê-la, mudamos para um apartamento maior no mesmo prédio, alugando Candeias, enquanto construíamos uma casa para melhor poder criá-la.

Não mais organizávamos a divisão de nossos salários em envelopes com dinheiro para alimentação; luz, água e telefone; prestação de consórcio de automóvel; e o envelope, por mim prestigiadíssimo, dos lazeres.

Eu deixara o Jornal do Brasil, sob o apoio de Maria que me assegurara se necessário, arcar com as despesas da casa e me iniciara na advocacia trabalhista por ela também apoiado, na critica aos meus estudos e ensaios noturnos para as minhas primeiras defesas orais nos tribunais.

Na verdade meu emprego já estava correndo risco, já que não era cumprida a minha obrigação de chegar às sete horas da manhã e cumprir a tempo de ser noticiado pela rádio JB o que ocorria na cidade às sete e trinta.

A primeira tarefa era realizar a chamada ronda, que consistia em telefonar para saber como funcionavam os transportes públicos, o que era bastante difícil através de telefonia insuportavelmente precária. Nem os aparelhos davam linha, nem eu chegava a tempo de tudo apurar.

Por minha informação a rádio JB noticiava uma tranqüila normalidade nos transportes, quando a realidade era um pouco diferente. Um acidente de barcas na baia de Guanabara paralisara o transporte marítimo e por ter ocorrido na cabeceira da pista do aeroporto Santos Dumont também os aviões não decolavam ou aterravam.
E como se tudo contra mim conspirasse, uma greve ferroviária causava enorme atraso nos trens suburbanos o que exigiu demanda sobrecarregada dos ônibus impedindo o deslocamento de milhares de pessoas.
Era o caos na cidade que eu dissera calma.
Foi minha primeira advertência funcional, pena abrandada ao invés de uma mais que justa causa para que eu fosse sumariamente demitido, o que não ocorreu por benevolente interferência de Fernando Gabeira, então “pauteiro” do JB e que todos os dias chegava cedo na redação, onde às vezes conversávamos sobre Marias a dele e a minha, até que sumiu na clandestinidade da luta contra a ditadura militar.

Eu fizera amizade com os jornalistas da seção internacional, que também madrugavam para editar o noticiário vindo por telex das agências de noticias, sendo que um deles, Carlos Prata, foi designado para chefiar a sucursal de Niterói, para onde fui transferido após me negar a gravar pombos na Cinelândia para uma matéria categorizada como “laranjada”, coisa leve ou pitoresca, mas a ordem, se cumprida, me faria ajoelhar de terno e gravata à cata dos pombos de microfone na mão o que me pareceu despropositado.

Para que eu pudesse sacar meu Fundo de Garantia, Prata, a meu pedido, me demitiu e o que recebi me garantiria alguns meses de tranqüilidade financeira e assim estava encerrada minha curta carreira jornalística.


A ditadura seguia sua trajetória ridícula, proibindo até a apresentação do balé de Bolshoi por ser russo e, cada vez mais, repressora, e tendo afastado diversos advogados dos sindicatos, com os quais desde minha militância político-estudantil fizera contatos, findou por me oportunizar exercer advocacia sindical e montar meu próprio escritório, cujos frutos eu passei a colher na mesma medida em que a ele me dedicava, estudando e trabalhando, o que também contribuiu para me descuidar do casamento.

Concluída nossa casa, onde Maria até hoje vive, para ela nos mudamos e da qual me mudei sozinho quando findo o casamento, acontecimento por nós tido como inevitável, mas doloroso como o é qualquer projeto fracassado.

Fracasso para o qual muito contribuiu a própria idealização de um projeto. Os dois projetos individuais frente ao projeto idealizado se demonstraram sem correspondência concreta, já que não há concretude no antigo e romântico dizer nós dois seremos um só.

XIV

Mais uma vez a farsa golpista com Mazzilli na presidência da República durou pouco.

Como farsantes eram os argumentos militares, de que Jango estava arrastando o país para o comunismo, por eles sempre rotulado de “ideologia exótica” ou “interesses alienígenas”, mais ou menos como os doentes evitavam ser portadores de câncer, mas preferem chama-lo “aquela doença”.


Jango exilara-se no Uruguai, de onde escrevera a Doutel de Andrade, deputado do PTB que lhe era fiel: "Essa história de governo revolucionário, pode dizer que fora do Brasil é uma pilhéria. Ninguém acredita. Revolução sem tiros, na base apenas da mistificação, da conspiração e da traição, não é revolução, é golpe. Que revolução nada. O golpe que depôs o governo veio provar que o povo não possuía armas nem sequer para defender-se das atrocidades que contra ele se praticou, quanto menos armas para atacar o Exército e tomar o País".

À exemplo do que fora feito com JK, também Jango foi alvo de inúmeras acusações, jamais comprovadas de corrupção ou de conspirar contra o regime. Vasculharam sua vida particular, se apropriaram de documentos arquivados, privados ou públicos, e não divulgaram conteúdos que desmentiam a farsa, como a carta de Jango renunciando ao cargo de ministro do Trabalho à Vargas dirigida:
"Fui acusado de fomentar greves, de promover agitações nos meios operários, de articular a luta de classes, passando até a figurar como implacável inimigo do capitalismo. Tão injusta quando as outras, porém, é esta última acusação. Há um capitalismo honesto, amigo do progresso, de sentido nacionalista, que sempre mereceu o meu aplauso e o meu apoio. Há outro, entretanto, que jamais deixará de contar com a minha formal repulsa. Refiro-me ao capitalismo desumano, absorvente de forma e essência, caracteristicamente antibrasileiro, que gera trustes e cria privilégios, e que, não tendo pátria, não hesita em explorar e tripudiar sobre a miséria do povo".


Tito, colecionador do pitoresco, me faz lembrar a mentira que virou verdade, por força de insistente versão. Le Brésil n`est pas un pays serieux é a frase atribuída ao general De Gaulle, então presidente da França, por ocasião da chamada Guerra da Lagosta, quando pesqueiros franceses foram detidos pela Marinha do Brasil, por estarem, sem autorização, matando lagostas em mares brasileiros, próximos ao arquipélago de Fernando de Noronha. O governo francês deslocou o destróier "Tartu" para a costa brasileira, em protesto contra a apreensão dos pesqueiros, imagino para garantir a especiaria nos restaurantes dos bulevares St.Germain e St.Michel. Mas mesmo que provavelmente tenha isso pensado, o bravo general jamais disse que “o Brasil não era um país sério”.

Segundo o ex-senador, ex-governador do Pará e ex-ministro da ditadura Jarbas Passarinho, o mais civil dos militares ou o mais militar dos civis, a frase "decididamente, o Brasil não é um país sério" foi dita pelo embaixador Alves de Souza a caminho do Quai d`Orsay onde negociou o fim da guerra para o bem de todos, exceto das lagostas.

Enquanto Mazzili aproveitava do palco armado para o teatro do absurdo que se encenava, um general auto nomeado ministro da Guerra, comandava uma Junta Militar golpista, mas dita revolucionária.

A tal Junta editou em 9 de abril de 1964 o Ato Institucional (não numerado por se tê-lo pretendido único) que lhe concedia poderes extraordinários e ignorava a Constituição em vigor. No dia dez, foram cassados os mandatos de quarenta parlamentares que apoiavam Jango também no mesmo ato cassado juntamente com Jânio Quadros e Luis Carlos Prestes o líder comunista. No dia 11, o Congresso Nacional coagido elegeu um general muito feio e baixinho, tido como moderado, presidente da República, com José Maria Alkmin na vice-presidência. Ambos tomaram posse no dia 15, no recinto do Congresso, iniciando-se assim a longa, soturna, obscurantista e assassina ditadura militar brasileira.

Corre a lenda de que esse primeiro ditador era um liberal, um democrata, que sua intenção era entregar o poder aos civis, respeitando o resultado das eleições previstas para 3 de outubro de 1965, para as quais já eram candidatos declarados Juscelino, Lacerda, Magalhães Pinto, Brizola, e Miguel Arraes, os dois últimos exilados após o golpe militar.

Mas, a realidade mostrou ser mesmo lenda, pois não só foram suprimidas as eleições presidenciais como foi o mandato deste ditador prorrogado até 1967.

- Afinal como poderia existir um ditador democrata?

Tito me pergunta com irreverência e ainda quer saber por que não cito nominalmente os ditadores.

-É para serem esquecidos por mim e não lembrados por todos, pois seus nomes deveriam constar de um index de malfeitores e, principalmente, retirados de avenidas, pontes e viadutos. Não merecem homenagens, mas execração.

- Ok eu concordo e não atrapalho mais sua narrativa.

Todavia se realizaram as previstas eleições para governadores dos Estados e, muito embora os governistas conseguissem eleger seus candidatos na maioria deles, os militares não suportaram os resultados nos Estados da Guanabara e Minas Gerais.

O Rio de Janeiro, cuja importância política ainda não perdera seu peso, apesar de não ser mais a capital, o candidato apoiado pelo governador Carlos Lacerda, o professor Flecha Ribeiro foi derrotado por Negrão de Lima, político ligado ao presidente Juscelino, e que percorrera o país em busca de apoio a Getúlio Vargas, do qual foi Ministro da Justiça, junto aos governadores para o golpe de 1937 que implantaria o Estado Novo.

Como repórter a serviço da Rádio Jornal do Brasil, durante a campanha cobri o governador Lacerda em campanha eleitoral e dele ouvi que se não elegesse Flecha Ribeiro não haveria mais as eleições presidenciais em 1967. O que me parecia retórica eleitoreira era na verdade uma avaliação correta e que se confirmaria.

Meu amigo Tito, também quando repórter, contrário às idéias lacerdistas, estava junto ao governador num comício que ele falava aos trabalhadores na adutora do Guandú e presenciou Lacerda sentir-se mal, em razão do calor ou da flagrante apatia da platéia, perder os sentidos e cair no palanque. Sem tentar aparar o tombo, rapidamente encostou-lhe o gravador no afã de obter-lhe as “últimas, palavras em vida”, como até hoje conta de seu plano de vender a fita para TV Globo. Lacerda nada falou, também não morreu e Tito apenas desperdiçou seus pensamentos, que os considero cretinos.

Em Minas Gerais, elegeu-se Israel Pinheiro, braço forte de JK na construção de Brasília, opositor declarado dos militares.

Para 1966 estavam marcadas as eleições em São Paulo, com uma provável vitória dos que se opunham à ditadura.

Esta possibilidade pela qual três dos mais importantes Estados passariam a ser governados por políticos contrários ao regime motivou a ação da "linha dura" nas Forças Armadas. A alta oficialidade das três armas, mormente os coronéis de exército, exigiu um endurecimento do regime militar para consolidar o ideário dos golpistas.

O primeiro ditador, pressionado pelos militares editou mais dois Atos Institucionais, um criando a figura do governador "biônico" que não mais seria eleito pelo povo e outro forçando o Congresso Nacional a aprovar uma nova Constituição, não votada pelo povo, mas uma Carta redigida por mãos fascistas.

Depois teve de aceitar um truculento general como seu sucessor na presidência da República, candidato único e referendado por um Congresso acuado e partícipe da farsa que se montava para as sucessivas trocas de ditadores durante os vinte e um anos de chumbo.

Jânio Quadros, com sua renúncia estratégica para seu pretendido golpe sob o pretexto de não conseguir governar, oportunizara o golpe pelo qual, os militares usurparam o poder, humilharam e oprimiram o povo brasileiro e legaram à nação sua mais escabrosa fase política.

Sob o governo do segundo ditador militar a ditadura mostrou para o que viera. Foi editado um monstruoso Ato Institucional, o de nº. 5, manietando o já desmoralizado Congresso Nacional e também o Judiciário que de submisso passou a tutelado.

Nada mais de cidadania restava aos brasileiros e a via política estava descartada para se opor ao regime e o tempo fechou de vez.

Maria e eu ainda íamos felizes no casamento, embora ela se tenha preocupado quando três militares me levaram preso ao Forte Rio Branco em Niterói, onde o Capitão Bahia se encarregava de interrogatórios dos chamados de subversivos.

Como repórter, eu cobria o Ministério da Agricultura, quando o titular era o ex-governador paranaense Ney Braga e me tornara amigo de seu chefe de gabinete que me fornecera material escrito para utilização num trabalho do curso de ciências sociais, sobre a Estrutura Agrária Brasileira.

As esquerdas, sem opção política, resolveram organizar grupos de resistência conspiratória e armada. Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), o MR-8, o COLINA, o MR-Tiradentes e a preferida de Tito, a Liberdade e Luta (LIBELU), não propriamente por suas propostas e ações, mas pela impressionante capacidade de arregimentar as mais belas universitárias do Rio de Janeiro, causando nele vontade de vestir-se de macacão de operário sujo de graxa para ajustar-se às preferências sexuais das moças.

Eu particularmente era contra essas ações. Jovem, recém casado, bem me sucedendo na advocacia não me dispunha a largar tudo para me meter em movimentos do gênero que me levariam a enfrentar o que não gosto como matos, mosquitos e, principalmente, balas.

Meu amigo Tito encerrava suas participações nas plenárias estudantis com sua frase preferida e radical que a todos surpreendia: “contra essa miserável ditadura eu mato ou morro”. E completava cínico: “corro pro mato ou corro pro morro”.

Mas além de achar que os heróis deveriam saber que causa alguma vale uma vida, eu estava convencido que a luta armada seria uma asneira como opção política, ciência que repele armas, e que as esquerdas apenas iriam justificar maior repressão, não teriam apoio popular nenhum e se o tivessem exporiam o país às consequências fáceis de serem previstas, já que o Brasil não poderia jamais ser outra Cuba no quintal dos EEUU que apoiara o golpe militar, inclusive deslocando frota para a nossa costa, prontas a intervir em 1964.

Capitão Bahia queria tudo saber e eu nada queria dizer este o duelo travado sem violência, mas expondo conceitos. Por coincidência, durante o interrogatório o ditador presidente discursava e o rádio transmitia suas lições de democracia e tomei-lhe as palavras para responder que era aquele mesmo o meu conceito e Bahia, hierarquizado, aceitou.

O trabalho sobre a Estrutura Agrária Brasileira, ou seja, a minha mera compilação ministerial, estava assinada por quatro colegas, todos, agora sim, guerrilheiros de fato. Três guerrilheiros, eu e um capitão interrogador, o que eu diria?

Dos dois guerrilheiros falei mal conhecer um deles, sabia-lhe o nome Aluízio e mais nada e que fora pelo Professor Almir Madeira, também mestre da Escola Superior de Guerra, designado para o meu grupo de estudos.

Outro, disse conhecer muito e desde a infância, por ter sido seu colega no curso primário do Externato Aragon de Niterói e que o sabia primeiro funcionário da Biblioteca Thomas Jéferson da Embaixada dos EEUU e depois advogado defensor público estadual.

Tal eu falei de meu amigo Liszt Vieira, uma criatura doce e que, segundo Tito, entrou na luta armada por ter-se apaixonado por Vera, a outra signatária de Estrutura Agrária Brasileira, e que também se apaixonaria pelas estórias de teatro japonês quando se tornou carcereiro do cônsul do Japão, seqüestrado para forçar a ditadura a soltar outros guerrilheiros que estavam sendo barbaramente torturados.

Mas, para o capitão Bahia, faltava “esta Vera” e eu precisava mudar as desculpas e assim o fiz alegando pouco contato em razão dos ciúmes por ela tidos por minha então noiva Maria, hoje minha mulher e filha de um almirante, militar como ele.

Mais outras perguntas com exposição de fotos de um comício do candidato a governador Tenório Cavalcanti realizado na Praça do Rinque em Niterói e outra em que era eu um dos fotografados numa das passeatas de protesto realizada na Avenida Rio Branco, no Rio.

O comício tinha se realizado defronte a Federação dos Estudantes Secundários de Niterói, presidida por Jorge Rodino, e que me enviara ao evento como seu representante.

A foto da passeata, por sorte, fora tirada defronte ao Jornal do Brasil e, além de mim, estavam muitos dos jornalistas que nele trabalhavam inclusive eu.

O capitão, talvez por ser hora do seu rancho, deu-se por satisfeito e me apresentou a transcrição do depoimento, para minha indignação datilografada por um promotor de justiça, servindo de datilografo a ditadura militar, que sem ler assinei às pressas.

Fiz bem, por dois motivos. De nada adiantaria estar tal transcrição certa ou errada, afinal contra tanques não há argumentos. E, também interrogado, meu colega Navega da faculdade de direito, disse da transcrição estar ela “eivada de erros de português”, pretendendo corrigi-la. Não corrigiu e pela observação passou oito meses preso na Fortaleza de Santa Cruz.

-O doutor vai almoçar conosco no quartel?

-Capitão, isso é uma ordem ou um convite?

-Um convite.

-Muito obrigado, mas preciso ir, minha mulher me espera preocupada.

-Pode ir e não saia da cidade sem me avisar e se apresente amanhã, às dez horas, na Delegacia de Policia Política e Social.

Aliviado, fui, tendo me saído bem entre os militares, amanhã no DOPS seria outro dia.

E foi mais que um outro dia, foi talvez o meu dia mais impressionante e comovente como advogado.

Havia alguns meses, não mais que cinco, atendi no escritório uma senhora estranha, dessas de aparência mística que nos fala invadindo nossos olhos com olhar que atravessa a retina e nos vai às entranhas.

Ela queria que eu a defendesse por estar sendo acionada por uma ex-empregada de sua pensão.

Percebendo-lhe muito pobre, deduzi uma pendenga judicial na qual não se avalia qual das partes é mais necessitada e lhe disse não fazer advocacia patronal.

Não se dando por vencida, acentuou o estranho olhar e pediu-me, excepcionalmente, que lhe cuidasse o caso.

Li quem assinava a petição inicial e constatei ser o advogado de sua ex-empregada uma pessoa acessível para a qual telefonei e tratamos um acordo conciliando as evidentes carências de nossas clientes.

-Quanto lhe devo doutor?

-Nada, minha senhora, como lhe disse só advogo para empregados.

E me olhando mais firme e ainda mais penetrante se despede:

-Muito obrigado, mas tenha certeza que um dia eu lhe pago, juro.

Chegado o dia, às dez horas, sentei-me à espera do delegado do DOPS que minutos depois me chamaria.

-Sente-se, por favor.

O “sente-se” era forte e claro ao contrário do “por favor” inaudível, ambos nada cordiais.

-Pois não, vim por intimação do capitão Bahia.

-E o capitão lhe deixou solto?

Eu expliquei não estar envolvido em nada.

-Veremos então aqui.

Mal humorado, intimidador, gritou:

-Fulana, a pasta.

Entrou a funcionária chamada, me dirigiu discreto cumprimento de cabeça, deitou à mesa a pasta e nos deixou, eu curioso pelo conteúdo da pasta, o delegado furioso por seu nenhum conteúdo, apenas uma poesia natalina que eu fizera publicar no Diálogo, jornal estudantil da faculdade de filosofia, versos que falavam de pobres, de oprimidos, mas também de Jesus, solidariedades e caridades.

-Aqui, nada tenho contra o senhor, pode ir, mas não saia da cidade sem me avisar.

Sai pensando na rotina dos soviéticos que, sem avisar, não saiam das suas cidades, e eram essas as mesmas recomendações dos “revolucionários” anticomunistas.

Cruzei a porta e me dei no olhar da funcionaria que trouxera a pasta, ou seja, no estranho olhar reconhecido como o da minha eventual cliente dona da pensão.

Ela me pagou como anunciara, fingindo não me conhecer, eu muito bem pago, disfarcei minha emoção, mas não uma grata lágrima não contida.

Reciprocamente quitados, geral e plenamente, nunca mais nos vimos.

Exercemos, eu e Tito durante cerca de quarenta anos a advocacia trabalhista e minha filha Tatiana se fez nossa sucessora no escritório e, juntamente com seu ex-marido e meu querido amigo Luiz, também notável advogado, propiciou-me uma aposentadoria tranqüila e confortável.

Na Justiça do Trabalho, tive experiências que me demonstraram como pode variar o caráter dos juizes e dos colegas de profissão e de alguns guardo lembranças, hoje nem más e nem boas, apenas lembranças.

Um deles tentou abalar o prestigio profissional do meu amigo Tito, aproveitando-se de um episódio isolado.

Estava ele recém casado com Aída e o casal mantinha, desde a comunidade da Rua Lopez Quintas, uma estreita amizade com um competente psicanalista, filho de família judia, portanto muito conservadora.

Como sói acontecer, é usual dentre os conservadores haver aqueles sobre os quais uma atração irresistível os leva à marginalidade.

E não foi diferente com o nosso psicanalista de plantão que, não por necessidade, mas por querer se ver cercado de celebridades, resolveu ser intermediário no comércio de cocaína para alguns atores e atrizes de TV.

Casualmente, Tito e Aída marcaram de se encontrar no apartamento dele e de sua mulher Tina para dali irem numa festa das muitas organizadas pelo Partido dos Trabalhadores, em campanha eleitoral, no bairro de Santa Teresa.

Mas como bandido é bandido e judeu classe media é judeu classe média, a casa caiu e o psicanalista aparece cercado de policiais com os quais acordara, em troca de prometida liberdade por ter sito flagrado comercializando a droga no restaurante Aurora, entregar aos policiais alguns gramas do pó guardado em seu apartamento.

Como era de se esperar o acordo foi esquecido e ele levado para uma delegacia de policia em Botafogo, acompanhado por Tina, Tito e Aída, sendo todos fotografados por um desses fotógrafos de jornal dedicado a ocorrências policiais.

Tito e Aída, qualificados ele como “conhecido advogado” e ela estranhamente como “bailarina” ilustraram a matéria sobre a prisão do psicanalista.

E essa matéria circulou pela Justiça do Trabalho distribuída por um advogado que de Tito se fazia amigo. A mesquinhez foi tranquilamente encarada pelo meu amigo que confirmava todo o ocorrido e acrescentava: “gente, garanto que continuo um bom advogado, com ou sem cocaína”, droga que ele sempre qualificou como muito chata e cansativa.

Mas eu parti para a defesa do meu amigo e de forma nada original e muito cabotina, dirigindo-me à redação do mesmo jornal, comprando espaço, e fazendo publicar, na mesma página, uma matéria enaltecedora, especialmente suas qualidades jurídicas, terminando a “entrevista” com uma declaração de que provincianamente ainda se comovia com os amigos que “certamente iriam divulgá-la na Justiça do Trabalho”.

Tito, surpreendido, riu-se ao receber o jornal falando muito bem dele e contribuindo para sepultar o assunto.

Mas há lembranças mais amenas e engraçadas dos nossos colegas e uma delas sempre repito.

Inteligente e mordaz, um nosso colega necessitou fazer exame da próstata e acabou elegendo um médico que fora seu amigo nos tempos universitários. O doutor, com luvas e lubrificante, se põe a examiná-lo e, antes mesmo de findado o toque, lhe diz:

-Ora, Chiquinho, você não tem nenhum problema com sua próstata que me parece bastante sadia.

E a resposta foi decisiva:

-Me chame de Dr. Francisco Domingues Lopez ou tira o dedo do meu cú.

Realmente, era intimidade demasiada.


Além da política, Maria tinha outras preocupações e a minha amizade com Tito já não abonava como antes e muitas vezes dela reclamava, desconfiada de ter ele casos amorosos clandestinos e tinha certeza que ele nos afastava cada vez mais.

E do que nela era desconfiança em mim era certeza, pois sabia de tudo, sobretudo da sua incontida vocação para se apaixonar e se por perigosamente nos limites da insensatez completa.

De certa forma até hoje lhe invejo a sorte, pois dentre as mulheres com as quais Tito se envolveu, todas, sem exceção, eram, pelo menos no campo dos interesses, de muito bom caráter, com ele desfrutando apenas prazeres ou amores, sendo a última a exceção única dentre todas.

Mas se eram elas comedidas, parcimoniosas e sempre salvaguardas dos seus interesses, não foram poucas as vezes que ele as deixou em situações constrangedoras e noutras tantas contribuiu para desfazer-lhes casamentos.

Além de Regi que estava prestes a se casar quando optou por transferir o enxoval para o seu apartamento do Vidigal, antes se envolveu com Marisa, uma linda mulher da qual até hoje eu sou amigo incondicional.

Marisa era casada, sendo certo não ser muito feliz, quando Tito a conheceu como secretaria da presidência de uma estatal de processamento de dados, em Niterói, da qual era ele advogado.

No início deste romance, conversávamos a respeito, quando ele me perguntou o que faria eu, em relação à Maria, se eu também me apaixonasse por alguém.

Disse-lhe então que me parecia correto contar tudo para a minha mulher, mas que certamente ela não compreenderia e talvez por isso eu nada lhe contasse para não lhe parecer um canalha, mas que um canalha me sentiria se não contasse, mesmo correndo risco de por fim ao casamento.

-Então, meu amigo, não tem saída, se não contar se sente canalha, se contar será mesmo um canalha para ela e dela será só um ex-marido.

Ele conhecia bem Maria e a considerava possessiva, dando como exemplo o quanto ela se incomodara quando eu ganhei uma bolsa de estudos e, sozinho, viajei para os EEUU.

Encerrei a conversa, pois a hipótese por ele lançada me fizera mal.

Como sempre arrebatador foi o romance com Marisa e meu amigo dela recebeu uma grande lição, pois temera, quando ela lhe noticiou sua decisão de por fim ao casamento, ser obrigado a decidir-se por assumi-la como mulher.

E ela, inteligente, perceptiva, notando sua preocupação disse não estar se separando para se casar com ele, muito embora o apaixonado caso entre os dois lhe mostrara quanto insatisfatório estava o seu casamento.

“Fiquei deste tamaninho” me disse ele afastando uns cinco centímetros seu polegar do indicador, o que me fez lembrar do erro que eu cometera com Maria, julgando-me seu tutor o que de certa forma Marisa estendera a mim sua lição de independência feminina.

Mas foi com Marisa que Tito esmerou sua irresponsabilidade de apaixonado, insistindo em fazer-se de candidato à compra do apartamento onde ela e o marido moravam o que muito a constrangeria, mas que ele justificava dizendo querer ver “suas roupinhas, seus sapatinhos”.

Não sei como e nem porque esse romance acabou, sei isto sim, do quanto aprenderam um com o outro, independentemente da duração, pois continuam muito íntimos amigos e eu me sinto muito bem em participar também desta intimidade, o que só acontece quando Marisa, segundo Tito, está na muda, ou seja, quando descasa.

Dos anos de carnaval em Santa Catarina, meu amigo exerceu resgate dos tempos de adolescência vividos apaixonadamente com sua prima e namorada, aquela com a qual fora expulso do baile.

Marli, de natureza impetuosa, dessas que “paga pra ver” o que no pôquer às vezes só desperdiça as fichas, pôs em cheque o meu amigo vindo a seu encontro quando tinha ele outra namorada em Niterói.

Desconsiderando os mais de mil quilômetros que separavam as peças desse tabuleiro, quem se pretendeu rainha viu não ser mate o seu cheque e não mais esperou sua vez e nem ao bispo se queixou, voltou para a sua cidade, impetuosamente noivou e casou e no dia do casamento, Tito me mostrou seu Poema do Vento, pelo qual espia sua dor, sua mágoa por também tê-la pretendido, vestida de branco.

E, no resgate, outros ventos trouxeram de volta Marli e por algum tempo reviveram o antigo amor, mas eram outros os tempos, eles eram outros, e pagando pra ver, se viram como até hoje, íntimos amigos.

Quando Maria e eu conversávamos nossas últimas conversas antes da separação, soubemos de Lisa, uma advogada gaúcha pela qual Tito se apaixonara durante um congresso de direito em Porto Alegre.

Não havia teses jurídicas capazes de tirar-lhe a atenção daquela “mulher maravilhosa”.

Eu sempre lhe dera descontos nas descrições das mulheres maravilhosas, pois sabia que para ele achar uma mulher feia, só se fosse de fato uma bruxa de história de terror infantil, pois sempre dava um jeito de achar em qualquer mulher algo de muito sedutor ou, pelo menos, engraçadinho.

Porém, no caso de Lisa, o desconto era dispensável. Era mesmo bonita, de porte elegante, muito inteligente e, embora militante de esquerda e feminista, bem meiga e graciosa.

Mas ela era casada e, por isso, novas complicações para o meu amigo que chegou ao Rio inconformado e me afirmando que a conhecera de olhos opacos e que a deixara com aquele brilho do olhar das mulheres apaixonadas.

E ela estava mesmo apaixonada e tal demonstrou por ter vindo ao encontro do meu amigo que ficou feliz e espantado ao mesmo tempo. Feliz por tê-la perto e espantado porque mesmo perto e com ela só, não pode tê-la. Foi uma primeira condição de Lisa, primeiro iria se separar, depois sim, viveria com Tito sua nova história de amor.

Separou-se, viveu rápida, mas intensa paixão, nunca mais voltou para Porto Alegre, casou-se com outro, separou-se e tem uma linda filha, é brilhante advogada e, embora não o encontre mais, fez em Tito um dedicado amigo.

Eu, sem Maria, ia vivendo amorosamente dos empréstimos a mim concedidos pelas paixões vividas pelo meu amigo.

...ainda hoje vou me embora pra Candeias, ainda hoje eu não sei se vou voltar”.



XV


Aquele amontoado de siglas das organizações esquerdistas, sabendo-o eu uma balburdia só, assustava os militares e lhes dava impressão de correr-lhes risco o poder usurpado.

Sob a complacência do governo organizaram-se o Comando de Caça aos Comunistas(CCC) e o Esquadrão da Morte (EM), que nas sombras da imprensa amordaçada, não eram investigados e muito menos oficialmente reprimidos, o que lhes autorizou praticar barbáries, seqüestrando, torturando, matando de opositores políticos a desafetos particulares.

O general que viria a ser o segundo ditador participou do movimento tenentista de 1922, das revoluções de 1930 e de 1932, para depois se dedicar à caserna. Em 1954 participou, com os generais Lott e Denys, do contragolpe que, em dez dias, depôs os presidentes Café Filho e Carlos Luz; sua volta ao cenário político se deu somente com o golpe militar de 1º de abril de 1964


No dia 2 de abril, por ser o oficial mais antigo, assumiu o comando do Exército e compôs a Junta Militar formada por ele, por um almirante como ministro da Marinha, e um brigadeiro como ministro da Aeronáutica e de Ministro da Guerra se fez forçado sucessor para se tornar o segundo ditador da macabra série.

O ano de 1967 foi do confronto entre partidários do primeiro e do segundo ditador e o de 1968 das atenções do governo para os discursos da oposição no Congresso presentes no noticiário da imprensa e para as ruas tomadas pelo povo de operários e estudantes alvos da violência policial, desnecessariamente exagerada contra quem tinha por objetivo apenas garantir direitos elementares que lhes tinham suprimido.

1968 o ano que não acabou foi, também, o da rebeldia estudantil na França que pôs em cheque o governo De Gaulle, acontecimento que emprestava força a todos os movimentos universitários do mundo, repercutindo também aqui onde motivos de sobra havia para insatisfação geral.

Numa passeata pacífica dos estudantes pela reabertura de um restaurante universitário realizada neste ano no Rio de Janeiro, a estúpida reação da polícia militar matou Edison Lima Souto, um menino de 16 anos. No enterro, cerca de 200.000 pessoas presentes e a polícia voltou a atacar, matando mais um manifestante, ferindo 60 e prendendo mais de 200 pessoas. A cavalaria cercou a igreja da Candelária, sitiando os que lá rezavam na missa de sétimo dia. Foi o último e mais importante confronto às claras, dando lugar às ações políticas clandestinas e violentas.

"Há soldados armados, amados ou não;/quase todos perdidos, de armas na mão./Nos quartéis lhes ensinam antigas lições/de morrer pela pátria e viver sem razão." Era a letra da canção Caminhando de Geraldo Vandré, para o Festival da Canção Popular, tornada hino das oposições.
O Congresso, num rasgo de independência negara licença para cassar o deputado Marcio Moreira Alves que discursara incitando as jovens a não dançar com militares nas festas e o povo a não comparecer aos desfiles militares de sete de setembro.

Para as forças no poder tudo isso era nada, mas serviu de pretexto para fechar o tempo e institucionalizar com um mostrengo ato ditatorial a supremacia estatal sobre a nação acuada, amedrontada, estupefata e de nada adiantou a advertência feita pelo vice-presidente Pedro Aleixo:
"Assim, a autoridade se transmite até o último elemento da cadeia, que pode ser o mais indigno beleguim policial. (...) Tudo terá sido feito sem o conhecimento do presidente da República, mas em seu nome, no uso dos poderes absolutos que lhe foram conferidos. Mais ainda: como a censura e as restrições à liberdade de expressão acompanham, invariavelmente as medidas de exceção, o presidente da República e seus auxiliares imediatos podem não ter conhecimento do que ocorre e é atribuído à sua responsabilidade."

E a excrescência que se pretendia norma jurídica, era uma descarada bula da ditadura, assim resumida:

O ditador presidente da República usurpa o direito de interferir nos outros Poderes da República; pode decretar o recesso do Congresso e legislar por decretos; pode intervir nos Estados e municípios "sem as limitações previstas na Constituição"; pode suspender os direitos políticos de qualquer cidadão pelo prazo de 10 anos; pode cassar mandatos com prejuízo da bancada, pois não serão mais convocados os suplentes; pode "fixar restrições e proibições relativamente ao exercício de quaisquer outros direitos públicos e privados"; pode decretar estado de sítio, e prorrogá-lo, fixando o respectivo prazo; suspende a garantia de "habeas-corpus"; finalmente, veta ao Judiciário a apreciação dos atos praticados pelo poder público na aplicação do Ato Institucional e respectivos Atos Complementares.

O ditador presidente envolvido em continuas repressões desde sua posse, primeiro debelando à força os movimentos estudantis de 1968 e depois, também à força inviabilizando a Frente Ampla, não tinha tempo hábil para o governo e mais se dedicava a tentar conciliar as rupturas do próprio sistema, inclusive as sérias divergências entre os militares culminadas com ataques ao governo dirigidos pelo general Muniz Aragão através de carta endereçada ao ministro da guerra general Lira Tavares que reagiu o demitindo da chefia do departamento de provisão geral do exército.

O presidente ditador, impotente para conciliar as linhas dura e moderada, sofre trombose cerebral e se interna num hospital do Rio de Janeiro, tudo às escondidas, cabendo ao general Jaime Portela, seu chefe da casa militar, juntamente com os ministros militares, darem continuidade ao aparente governo.

Dois dias depois, em 30 de agosto – esse mês de agouro político no Brasil – se reúne o alto comando militar, pois era evidente que o ditador não reassumiria mais o plantão ditatorial.

Mais uma vez a linha sucessória foi desrespeitada, o que tornou ridícula a insistência dos ditadores nomearem vices-presidentes civis que jamais tomariam posse em governos essencialmente militares, cabendo ao Supremo Tribunal Federal participar da farsa declarando impedidos todos que pela linha sucessória deveriam substituir o presidente, formada, por além do vice-presidente da República, pelo presidente da Câmara Federal e pelo presidente do Senado.

O vice-presidente, Pedro Aleixo, chamado pelos ministros militares sem protestar ouve que por ter sido contrário ao Ato Institucional nº. 5, não tomaria posse, o que foi motivo de inventada carta assim resumida: "Nada fiz, nada quis, nada deixo; não me queixo; assinado, Pedro Aleixo”.

Assume o poder a Junta Militar editando o Ato Institucional nº12, que dava poderes de governo, enquanto perdurasse a doença de Costa e Silva, aos três ministros militares, logo pelo povo chamado de “três patetas”.

A linha dura ganha força e são cassados inúmeros políticos, é arrochada a censura à imprensa, são confiscados bens particulares, Santos em São Paulo e Santarém no Pará são categorizadas como zonas de segurança nacional e passam a ser governadas por interventores.

Os “subversivos” reagem e seqüestram o embaixador dos EEUU, Burk Elbrik, forçam a leitura na TV Globo de um manifesto no qual nós como jornalistas nele identificamos o estilo Gabeira, nosso ex-colega do Jornal do Brasil e carcereiro do diplomata. O embaixador é solto em troca de quinze prisioneiros políticos, dentre eles o líder estudantil José Dirceu e a bela Maria Augusta, todos enviados ao México, país que os abrigou e que alguns deixaram indo para Cuba.

A divulgação deste manifesto, que, na realidade, não fora redigido pelo Fernando Gabeira, foi por mim e minha mulher Maria vista em nosso pequeno Candeias e nos deixou completamente espantados e com um gostinho ótimo de que alguém afinal muito sacaneara o ditador de plantão.

José Dirceu em São Paulo e Wladimir Palmeira no Rio eram os expoentes do movimento estudantil que resistia à ditadura, embora fosse José Serra o presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) e deles conta histórias um meu querido amigo, o ator José de Abreu, também preso junto com eles no congresso estudantil de Ibiúna.

Os estudantes escolheram esta pequena cidade do interior paulista para realizarem um encontro que deveria ser clandestino, mas todas as manhãs, eles compravam centenas de pães e quilos de manteiga, numa pequena padaria, que pelo inusitado consumo provocou a quebra do improvável sigilo da reunião.

Durante o cerco policial, segundo José de Abreu, o Zé Dirceu advertia por uma inevitável “cagada”, no que era politicamente contestado, até que, esgotaram-se as advertências e ele, apressadamente, se escondeu em moita de mato arredor, aliviando sua dor de barriga já que a “cagada” anunciada não era política era sua particular realidade intestinal.

Tornado evidente que o segundo ditador jamais reassumiria o governo da “revolução” iniciou-se um estranho processo sucessório que consistia em vasta consulta entre os militares, instados a sugerir lista de três preferidos.

Por repetidas indicações, foi escolhido outro general para presidente e um almirante como vice-presidente, não mais um civil para disfarçar.

Um general, Albuquerque Lima, e um almirante, Ernesto de Melo Batista, protestaram e pelo Ato Institucional nº.17, foram transferidos para a reserva.

Como se vê, a “revolução” editava mais atos institucionais do que a orquestra de Waldir Calmon lançava seus inúmeros LPs “Feito para Dançar”.

E o povo dançava com os espantosos e absurdos poderes conferidos pelo Ato 5 que sob pretexto de emendar a Constituição proporcionou uma nova Carta editada pelos militares, que das oito em toda nossa história política desde 1823 até 1988 editaram duas em apenas dois anos.


O Congresso foi reaberto para a nova farsa de homologação dos nomes do novo e terceiro ditador presidente e do novo vice. Tomaram posse em 30 de outubro de 1969, para um mandato, mais um plantão, de quatro anos e meio.

Durante seu governo valeu tudo para reprimir os opositores, a tortura e os assassinatos dos presos políticos foram generalizados e se institucionalizou a repressão em organismos civis, militares e para-militares enquanto ele, de radinho de pilha, assistia aos jogos de futebol, esporte do qual se aproveitou politicamente com a vitória do Brasil na Copa do Mundo de 1970.

Os capitais externos aportaram aqui como empréstimos a curtos e médios prazos e alguns em investimentos industriais.

Passou-se a consumir mais aumentando as vendas e com elas a produção que cada vez mais empregava mão de obra que trocava de emprego em busca de maiores salários em nunca vistos turn-over e tão acelerado crescimento econômico, embora nada sustentável.

Uma pressão inflacionária era gerada pela incapacidade produtiva de nosso parque industrial que precisava se modernizar para atender crescente demanda.

O movimento sindical arrefeceu não só pela dura e permanente repressão do governo contra reivindicações e greves, mas também por registrar-se desarmado frente a uma realidade de emprego pleno e salários reajustados automaticamente pelos índices inflacionários cuja manipulação oficial se descobriria em seguida.

A tudo isso se passou a chamar de "milagre econômico" que chegava ao país, mas que por insustentável o fez mergulhar, na década seguinte, em depressão econômica e aprofundar nossa escandalosa desigualdade social, motivo óbvio da violência urbana e dos refúgios em condomínios mantidos para que os filhos da classe média, com conforto e mesmo luxo, serem segregados e aprisionados em abrigos nem sempre eficazes.

Filhos da mesma classe média ufanista que nos anos 70 exibia nos automóveis os plásticos de “Brasil, ame-o ou deixe-o” e que pelas esquerdas eram respondidos com “O último a sair, apague a luz” passaram a estudar em universidades manietadas, impedidas completamente de adotar um livre trânsito de idéias, fundamental para um ensino que se pretenda sério.

Carlos Lacerda, em sucessivas licenças do governo da Guanabara, por razões políticas que o fizeram opositor ao regime que ajudara a instalar e por razões pessoais de doença de sua mulher D. Letícia, dera posse ao seu vice-governador o advogado Raphael de Almeida Magalhães, um homem culto, filho de jurista reconhecido, de família tradicional carioca e muito bem relacionado nos meios políticos e também militares tenta fazer alta política, impondo-se tarefa hercúlea, fundar uma frente, pela imprensa chamada Ampla, com Juscelino, Jango e Lacerda, o último antigetulista, antijuscelinista, antijanguista, tendo sido virulento adversário de ambos o ex-presidentes e que não se dispunha a participar, embora sua inteligência brilhante saber pudesse ser este um caminho para restaurar uma legalidade democrática.

A posição de Lacerda ainda mais repulsa causou em meu amigo Tito, que repetia a frase de Churchil, “se Hitler invadisse o inferno eu apoiaria o diabo.”

Mas Raphael insistia até que ouviu de seu líder acalentadora frase: "Continuem a conversar, que diálogo não faz mal a ninguém."

Lacerda acabou recebido por JK e por Jango e a Frente Ampla ganhava força até mesmo em meios militares não participes do governo.

A Frente só não foi recebida pela ditadura que, em 5 de abril de 1968, no uso de suas usurpadas prerrogativas ditatoriais, a fechou por também subversiva em razão de uma fantástica versão sobre as intenções da Frente, uma espécie rediviva do Plano Cohen, assim transcrita pelo historiador Helio Silva:

"Suspeitava-se que Juscelino Kubitschek, Ademar de Barros ex-governador de São Paulo, cassado, Carlos Lacerda, João Goulart e outros políticos cassados e insatisfeitos estavam planejando uma contra-revolução no Brasil. Essa conspiração teria sido articulada na França, onde vários cassados tinham recebido homenagens oficiais e oficiosas. Eles teriam, inclusive, apoio de setores governamentais franceses, empenhados em fustigar a expansão dos interesses norte-americanos no Brasil, dentro da posição internacional independente, pretendida pela França na época.
"Segundo essas suspeitas, a Frente Ampla, congregando Lacerda, Kubitschek e Jango, seria apenas a parte mais ostensiva da conspiração. O governo tenderia a fixar neles a sua atenção, deixando campo livre para Ademar de Barros. Este, como simples homem de negócios, estaria livre para articular um golpe contra o Governo.
"A Igreja Católica, por sua vez, estava sob suspeita de, através de alguns bispos, estar servindo de porta-voz dos integrantes da Frente Ampla. As críticas ao Governo por parte de clérigos visariam a desmoralização do Governo ou a provocar uma crise pelo confronto entre Igreja e o governo.
"O movimento teria sido marcado para 27 de janeiro de 1968, com foco na cidade de São Paulo. As forças rebeldes seriam constituídas basicamente da poderosa Força Pública, milícia estadual. O dia marcado era um sábado, que vinha depois do aniversário da cidade, 25 de janeiro, numa quinta-feira. O feriado de quinta-feira seria aproveitado por muitos paulistas para um fim de semana prolongado fora da cidade, que assim estaria calma e sem movimento no sábado.
"Presas as autoridades civis e militares em São Paulo e consolidado o movimento nesse Estado, haveria a adesão de Minas e, talvez do Rio Grande do Sul. Os políticos da Frente Ampla formariam uma "junta governativa" e declarariam o ditador presidente ‘fora da lei’.
"Não paravam aí as previsões dos órgãos de segurança: um país estrangeiro, a França ou a Rússia, interviria no Centro-Sul do Brasil, ficando os Estados Unidos obrigados a invadir o Nordeste. Seriam os Estados Unidos, então, acusados de invasores, e uma guerra civil destruiria o país."

Previsões ridículas de uma ridícula ditadura de tricas e fruticas.

Os três líderes, Lacerda, JK e Jango, nada mais tinham a fazer a não ser passarem por comum destino.

Os três morreram no espaço menor que um ano.

Juscelino Kubitschek num fatídico acidente de 22 de agosto de 1976, na rodovia Presidente Dutra. Quando um caminhão se chocou com seu automóvel.

João Goulart de colapso cardíaco na Argentina em 6 de dezembro de 1976 após participar de um churrasco.

Carlos Lacerda em 20 de maio de 1977 por reação a remédios aplicados num hospital no qual fora tratar de diabetes.

Como tricas e fruticas não são privilégios da direita, também, as esquerdas até hoje alimentaram histórias fantásticas sobre as mortes, atribuindo-as aos braços repressivos da ditadura.

Melhor atribuir ao Sobrenatural de Almeida, personagem saído da mente criadora do teatrólogo Nelson Rodrigues.


Convidado por Charles Pessanha do qual sempre admirei sua inteligente sociologia, assumi a cadeira de direito do trabalho da Faculdade Cândido Mendes de Ipanema o que me incentivou a aprofundar os estudos da matéria além das atividades advocatícias na especialidade que exercia e dos estudos acadêmicos me resultaram artigos publicados em revistas especializadas e, posteriormente, um livro tratando de direito alternativo, justificado na época pela tentativa de se utilizar politicamente o direito, pois a ditadura excluía a hipótese bem mas eficaz de se fazer política no meio apropriado, ou seja, nos partidos próprios da democracia.

Na faculdade eram freqüentes as possibilidades de um ou outro caso amoroso, obviamente, motivadas pelo costumeiro encantamento das alunas pelo professor ou mesmo, dentre as mais competitivas, pelo fugaz prazer de vencer uma disputa. Para as segundas dedicava indiferença, para as primeiras me desmistificava, isto porque nenhuma realmente me despertou maior interesse.


E, para atividades acadêmicas me dispunha quase que inteiramente até que Sil, minha segunda e querida mulher, me afastou das sombras amorosas de meu amigo Tito.

Eu me aproximara amistosamente de sua mãe, a mais íntegra e laboriosa juíza que conheci em minha longa vida profissional, num congresso de direito na cidade do México, onde fora com Maria e Tatiana anda meninha.

Tempos depois, na sétima conferência da Ordem dos Advogados do Brasil, em Curitiba, me tornei bastante amigo da juíza o que me valeu ser convidado a um jantar em sua casa, onde estava, além de advogados e juizes convidados, uma linda menina que do evento também participou de forma, a meu juízo, muito contrariada em razão da sua expressão de tédio contestatório.

Porte e roupa do jeito hippie reunida com uns caretas da Justiça.

Poucas palavras, alguns olhares trocamos e estes últimos retidos ficaram em mim.

Eu morava só no mesmo apartamento do Vidigal onde antes meu amigo Tito morara com Regi, da qual tinha se separado.

Por iniciativa de uma amiga combinou-se em minha casa uma festa e, segundo esta amiga, Sil se fez convidada, e compareceu mais linda ainda e menos hippie.

Dançamos muito e nos amando foi nosso fim de festa.

Senti que não poderia deixá-la escapar-me e a procurei com convite clássico para almoçar já que me apaixonara e queria tê-la a qualquer custo.

E me foi realmente custoso. A juíza sua mãe não aprovou, provavelmente pelo mesmo motivo que suas melhores amigas também não, eu era velho, embora jovem seja qualquer um, com dez anos a menos que nós, e no caso era de quinze anos nossa diferença de idade.

Mas minha paixão por Sil era tanta que a contaminou e a fez arriscar e sua decidida escolha me deixou extremamente feliz.

Passamos a nos encontrar todas as noites e eu esperava ansioso chegar o táxi que a trazia da faculdade de direito ao apartamento do Tambá e me entristecia pela manhã quando ela cedo saia para secretariar audiências em um das juntas do trabalho que funcionavam na Avenida Almirante Barroso, centro do Rio.

Ela e sua mãe moravam na Rua Oswaldo Cruz, em Botafogo, e me decidi mudar para a Avenida Rui Barbosa, o que deixava Sil muito próxima, mas logo estávamos morando juntos, pois para mim poucos passos longe dela eram léguas.

Com ela aprendi como é difícil viver tão apaixonadamente e como a paixão libera nossos sentimentos mais profundos, os bons e os maus, os nobres e os mesquinhos, os suaves e os raivosos, os pacíficos e os beligerantes.

E também conheci minhas reais limitações e minha completa impossibilidade de domar todos esses sentimentos, sempre disponíveis às explosões incontroláveis.

Tudo entre nós era exagerado e forte, era improvável e imprevisível, era espontâneo e irracional.

Meu início, meu meio e meu fim com Sil, foram permanentemente apaixonados.

Depois dela, nunca fui mais o mesmo, e por causa dela, passada a dor da separação, me tornei bem melhor.

De seu tempo sinto saudades profundas e falo daquele tempo com ela, pois dela, a vendo tão freqüentemente como a vejo, não poderia mesmo sentir saudades. Sinto sim um sincero orgulho em ser seu amigo e de saber que irei amá-la sempre e tudo farei para que por ela seja também amado.

Agora estou a rememorar sentimentos, diferentemente de rememorar fatos e isto tem para mim especial significado.

Mas os fatos que juntos vivemos também me são memoráveis especialmente os que relembram uma esperança, mais que nossa, coletiva, e fundada na novidade da política brasileira que foi a criação do Partido dos Trabalhadores.

Surgido dos embates reivindicatórios de conquistas trabalhistas e sob vigilância da ditadura militar que os reprimia com sucessivas prisões de líderes sindicais e sobrevôos de helicópteros nas assembléias reunindo milhares de operários, realizadas em São Bernardo do Campo, o PT, liderado por um metalúrgico de voz rouca, barba cubana e vocabulário viciado, apelidado Lula, passou a empolgar vastos setores da classe média, especialmente estudantes e intelectuais não alinhados com o ideário político dos comunistas, cujo partido próprio ao PT fez cerrada oposição.

E para a fundação do PT saímos Sil e eu num comboio de cinco ônibus da Cinelândia para São Paulo, onde oficialmente se daria o evento nas salas de uma instituição católica, conseqüência natural do apoio dado ao novo partido por grande parcela da igreja. Sendo notável a militância destemida dos frades dominicanos, como Frei Tito e Frei Beto, que lhes custou morte e tortura.

Nesta época, por repercussão de minhas publicações jurídicas alinhadas à corrente do direito alternativo, fui convidado por sindicatos rurais para ministrar aulas nos arredores de Goiás Velho, onde constatei que nada de jurídico seria importante para aqueles trabalhadores que portavam camisetas com a inscrição
“Desta terra viverei ou dela serei adubo” e, invertidos os papéis, a visita me foi aprendizado.

Do Rio a São Paulo a viagem se deu sem descanso em razão da insistente narração de anedotas e cantorias dos companheiros de viagem.

Comparecemos aos atos de fundação, assinamos a ata própria e voltamos ao Rio de avião como petistas burgueses pouco familiarizados com o humor operário.

Sil passou a trabalhar em nosso escritório de advocacia e se demonstrou muito eficiente e sábia para os escritos jurídicos, mas também incompatível com a advocacia das audiências, das discussões e atuações nos tribunais, razão pela qual optou por concursos públicos, através dos quais foi advogada do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Finalmente, como juíza do trabalho, repetindo a competência de sua mãe e hoje contando ansiosamente o tempo para se aposentar, decepcionada e entediada com tal oficio.

Foi muito triste para mim a nossa separação, embora inevitável para ela, também triste e decepcionada com minha confessada infidelidade, já que ao contrário de Tito, não queria manter casos clandestinos e nem magoar com mentiras a quem eu realmente amava, mas reviver minha paixão da adolescência com Lea era-me desejo do qual racionalidade alguma poderia evitar.

E, com a verdade também a magoei, mas pelo menos não fui um traidor de sua confiança e a isto atribuo a perene continuidade de nossa afeição agora vivida em sincera amizade, já que também eu reconheci a impossibilidade de Sil esperar passivamente pelo resgate de Lea, fantasia minha e que pouco durou.

Mais tarde Sil se casou com outro advogado com o qual teve um casal de filhos muito queridos também por mim e do qual, em razão da convivência profissional ou da identidade amorosa me aproximei.

Em certa ocasião, num bar do centro da cidade, assistimos juntos a um jogo de futebol da seleção brasileira em Copa do Mundo, onde alguns uísques nos fizeram competir sob a hipótese de qual dos dois, mais amor dedicara à Sil. Concordei em perder o jogo, não era de meu desejo embolar o meio de campo com ciúmes desnecessários e inconsequentes.

Com o final de seu segundo casamento pudemos prosseguir nossa união, agora nutrida com sentimentos de outra espécie e que não comportam ciúmes, compromissos ou infidelidades, apenas divertidas e doces recordações do rico tempo em que vivemos juntos.

Desfeito meu casamento com Sil, fui morar com Tito que formara uma comunidade em grande casa alugada na Rua Lopes Quintas no Jardim Botânico.

Uma forçada lição de convivência e troca de experiências com outros quatro residentes, mais incontável número de visitantes e agregados que faziam um clima de permanente festa.


Dos seis, três mulheres, duas advogadas e uma psicanalista. E advogados os três homens. Com exceção da psicanalista, todos passaram a trabalhar no meu escritório que, na época, mantinha atendimento no Rio e também em Niterói.

Lisa, a ex-namorada de Tito viera de Porto Alegre fixar-se no Rio e com ela vieram Sonja e Dacio. A primeira, uma criatura divertida, levava sua vida nos limites da marginalidade; o segundo cultivava a prática recomendada pelo futebolista Gerson, o das latas no Externato Aragon e campeão do mundo em 70, em propaganda comercial que pregava dever-se “levar vantagem em tudo”.

A psicanalista tentava administrar o caos, sempre disposta a discutir as pendengas sob seus critérios científicos. Por causa dela, pela qual se enamorou, ou por causa de nossa velha amizade dos tempos de Niterói, o baixinho Mauro se fez o primeiro dos nossos agregados.

Tito, como sempre, tentava dividir com Mauro a namorada psicanalista o que para ambos não era novidade alguma, pois quando garotos, em Niterói, dividiram a Maisa, uma menina esperta ao anunciar na família que iria nadar e molhava no banheiro do Cinema Cassino o seu maiô, após sempre ver o mesmo filme alternadamente na companhia de Mauro ou Tito, mas nem tão esperta para descobrir que ambos de tudo sabiam da divisão ou dos prazeres compartilhados que bastante os divertia.

Quanto a Sonja era ela por nós contida em sua capacidade de transgredir, o que fazia com admirável criatividade.

Casada fora em Porto Alegre com um membro da numerosa família Baludo do qual se divorciara, mas conservara uma original certidão de casamento.

Voltara a assinar seu nome de solteira, mas com o documento obteve CPF e abriu conta bancária, artimanha não prevista pelo Serviço de Proteção ao Crédito, organismo que não pode evitar enormes prejuízos de seus comerciantes associados.

A burocracia, cuja natureza despreza a realidade, e se satisfaz com carimbos e papéis, gerou uma pessoa física inexistente e por tal imune e impune.

Assim nascida, ou melhor, assim concebida, Sonja Baludo tornou-se pródiga na emissão de cheques sem fundos, transformando-os em mercadorias diversas, de roupas a eletrodomésticos, de livros a bijuterias, tudo posto à venda em seu quarto na comunidade da Lopes Quintas.

Pasmo e depois entusiasmado imaginei escrever com detalhes pitorescos ou sórdidos uma história dedicada ao Clube de Diretores Lojistas, inventor do serviço de proteção ao crédito, mas desisti por ter o assunto de risível se tornado muito problemático.

Começaram os credores a bater em nossa porta, chorando mágoas ou ameaçando represálias, aos quais eram informados de que ninguém de sobrenome Baludo ali morava.

Um dia, saia a Sonja oficial para o trabalho quando surpreendida, cobrada e reconhecida por uma credora, fingiu compulsiva tristeza e disse não mais saber o que fazer com essa sua irmã gêmea que vez por outra vinha do sul aprontar essas condenáveis práticas no Rio. E, prometendo ressarcir os prejuízos assim que sua irmã aparecesse alegou pressa em despachar com um juiz e desapareceu num táxi.

Em reunião comunitária uma unanimidade imprensou Sonja e ordenou-lhe morte completa dessa sua irmã gêmea que Baludo assinava.

Sonja obedeceu, mas logo substituiu os cheques sem fundo pelo comércio de preto e branco, ou seja, resolveu se tornar, segundo ela “só pra conhecidos e pessoas de bem”, fornecedora de maconha e cocaína.

Com isso alguns drogados se agregaram e a comunidade entrou em absoluto pânico, mas aprendeu lições muito úteis sobre drogas, dentre elas a compulsão que provocava nos usuários que, após passarem noite inteira em volta de um prato, pela manhã cheiravam carreiras de açúcar que Tito, por pilhéria, esticava no café da manhã antes de sair para o escritório.

Mas a atividade de Sonja foi encerrada pelo descrédito dos clientes que constataram a mistura de comprimidos triturados para aumentar o peso do branco; pela enérgica ação de Lisa e pela benéfica influência de um seu namorado, também advogado do qual a confidenciei ser por Sil, minha ex-mulher, muito admirado.

Sonja, que por certo não sabia ser a admiração feminina um requisito básico para uma mulher tentar um romance, contou-lhe minha confidência, o que a fez perder o namorado e Sil ganhar seu segundo marido, pai de seus dois filhos.

Agregou-se também nesta comunidade um inteligente filósofo, poeta e professor, Alex Varella, que nos ministrava aulas de filosofia e nos gerenciava o consumo de bebidas na barraca do Batista, um sujeito espertíssimo que vendia caipirinhas, cervejas e refrigerantes no Posto Nove em Ipanema, local de poucos intelectuais e muitos falsos intelectuais, mas freqüentados por belas e liberadas mulheres, onde ninguém sentava na areia, ninguém armava barracas, ninguém ia muito ao mar, mas todos bebiam e muito, o que dava a impressão de um coquetel freqüentado por gente vestida de biquínis e sungas.

No “verão da lata” assim chamado por ter um navio, para se livrar da policia, atirado ao mar centenas de latas que ao invés de alimentos conservam maconha, disputadíssima pelo seu teor alucinógeno, quando todos esperavam a hora de aplaudir o por do sol, apesar de sua rotineira repetição diária, Alex recebe a conta que Batista lhe entregara e canta os produtos: 43 cervejas, 36 caipirinhas, 8 refrigerantes e 1 água.

-Batista, áaaaaaaaaaagua???????

Alex gritava revoltado, não era o do Quincas Berro d´Água, era um grito de estranheza por alguém de nossa turma ter bebido água, o que para ele soava como demonstração inequívoca de desvio de caráter.

Algum tempo depois, já dissolvida a comunidade da Lopes Quintas, encontro meu amigo Alex, no apartamento de Tito, já casado com Aída, e lhe ouço as queixas de que se julgava perseguido na universidade na qual dava aulas de filosofia e onde vinha sendo olhado, segundo ele, de “forma diferente”.

-Eu também assim diferente lhe vejo Alex.

Disse-lhe Tito fazendo com que eu também reparasse no doce Alex, vestido de alpargatas de lona florida, calças cor-de-rosa justíssimas, camiseta folgada com manchas disformes e cabelos em completo desalinho caindo nos ombros, além de um broche do Che Guevara em seu magérrimo peito.

Tito conhecera Aida como secretária do nosso escritório de advocacia e por ela, mais que se apaixonar, alucinou-se, apesar de vinte anos mais nova que ele, mas morena brejeira de muito instinto e, apesar de virgem, sensualissima.

Uma menina também agregada à comunidade, cuja presença se anunciava por alto som dos Rolling Stones que embalava o amor dos dois.

As mulheres da casa se surpreenderam com a arrebatadora história e recomendavam cuidado ao meu amigo.

E de tão zeloso cuidado, fez dela sua segunda mulher, mudando-se para um apartamento na Gávea, dando por encerrada sua vida comunitária e contribuindo para o próprio fim da comunidade Lopes Quintas.

No apartamento que compraram, uma pequena cobertura, saíram os dois derrubando paredes e com divisão sobrou apenas o banheiro, restando o resto com cozinha, mesa de jantar, cama, sofás, estantes e escritório num só ambiente o que de pequeno se fez amplo e logo depois construíram uma varanda ajardinada e com redes nordestinas.

Por baixo da forração em carpete, caso ela ainda exista, está gravado com tinta branca o amor de Tito por sua adorada Aída, assim como se desenham os corações que os apaixonados tatuam as árvores.

Eu testemunhei por muito tempo a felicidade dos dois e também a parceria de acidentados por terem sido covardemente derrubados da motocicleta por um automóvel dentro do túnel Rebouças e pelas conseqüências davam graças, ela com o pé e ele com braço e peito engessados. Nas tarefas domésticas quando era para andar ele o fazia, para segurar ou escrever era ela e assim viveram durante alguns meses recebendo as inúmeras visitas com alegria e autos deboches.

Passados cerca de quatro anos, Magrelinha e Tiquinho deram por findo o casamento. Ela menina, por insegurança creio, descria no amor que ele sinceramente lhe dedicava até que cansado abdicou, considerando-a incurável carente e resumindo-a como “um buraco sem fundo” capaz de mentir, inventar, delirar mesmo, para chamar-lhe as atenções.

Meu amigo, decepcionado, arrasado emocionalmente, iria, mais tarde, se tornar presa fácil e se acomodar numa história nova com uma outra mulher, sua última, sem paixão alguma, mas acreditando numa parceria que se demonstrou eficaz apenas nas obras que juntos empreenderam.

Mas ele sempre me diz que Aída foi um caso difícil de ser encerrado e que ainda espera vê-la crescida o que para ele não se deu, mesmo passados mais de vinte anos e estar ela criando com competência três filhos, um adotado e dois de seu segundo casamento.

Aída foi protagonista do “caso do colar” assim por meu amigo chamado e por ele sempre contado às gargalhadas.

No início do casamento eram freqüentes as visitas de uma famosa atriz de TV que resolveu presentear a minha amiga com um vistoso colar de pérolas. Presente agradecido e logo em gaveta guardado, pois Aída mantém desprezo por jóias, adornos, roupas de grife e melhor se sente com um gênero meio moleque de se vestir e portar, até por isso bem lhe cair em seu natural despojamento pessoal.

Por anos manteve o tal colar na gaveta e dele só reclamou quando notou seu estranho desaparecimento sempre conjeturando sobre prováveis autoras do furto.

A princípio escolhera Carla, então minha namorada, como suspeita número um, o que Tito contestava, argumentando, também em meu nome que tão bem a conhecia, ser infundada a suspeita, fruto de sua antipatia gerada pelo meu afastamento temporário do apartamento, onde eram freqüentes e muitas as horas passadas juntos de prazerosa convivência quando a comunidade se desfez e eu não tinha para onde ir, o que lhe exacerbara seus instintos possessivos.


Engavetada estava também a lembrança do tal colar quando Tito, seduzido por Tina, uma amiga, cujo marido cumpria prisão por ser apanhado em Botafogo portando alguns gramas de cocaína, e antiga freqüentadora da comunidade da Lopes Quintas foi com ela dormir e surpreendeu-se com o aparecimento do colar, agora como objeto de sedução enroscado em seu ventre. Fingido ou não, o reconhecimento do colar se deu após manterem relações sexuais e veio acompanhado de fingida ou não indignação que lhe valeu recuperar o colar e ir dormir em seu próprio apartamento abandonando a esporádica amante pilhada em furto.

Aída não estava em casa, sendo suas ausências bem freqüentes no fim do casamento, preferindo dormir em Pendotiba onde seus pais moravam, aqueles pais dos quais em seus delírios os disse adotivos.

Meu amigo retornou o colar para a mesma gaveta da qual suas pérolas só sairiam pelas mãos de Carla, injustamente acusada do furto, para serem avaliadas por um colega da faculdade de direito, funcionário do setor de penhores da Caixa Econômica Federal.

Dois dias depois o diagnóstico: o colar era falso.

Mas por ter sido causa de tantas discussões, brigas, desconfianças e até de apetrecho sexual, acrescido do fato de que há muito tempo a famosa atriz, por estar a trabalho teatral em São Paulo, não aparecia, Tito resolveu lhe telefonar e narrar o intrincado “caso do colar”, e a reação fez-se ouvir, até por quem estava distante do fone: “filho da puta ,ele é tão falso quanto essa merda de colar”, referindo-se ao galanteador que a presenteara.

Como num romance policial todos os bandidos foram identificados e os mocinhos absolvidos.

Eu ainda mantenho com Aída uma leal amizade que me faz tudo nela perdoar ou entender e admiro suas habilidades manuais a considerando uma artista plástica talentosa, talvez um pouco descrente de si mesma como tal, como descrente foi do amor do meu amigo Tito que segue na vida saudoso e cantando.

“Este corpo moreno, cheiroso e gostoso que você tem é um corpo delgado da cor do pecado que faz tão bem”

XVI

O país anestesiado pelo falso “milagre econômico”, entusiasmado com o “pra frente Brasil” bordão que dedicado aos craques do futebol de 70 foi farta e politicamente manipulado como propaganda da ditadura não se tocava para o que realmente acontecia em seus porões.

Rios de dinheiro emprestado eram engolidos por obras gigantescas como a rodovia Transamazônica que derrubou milhares de árvores e acabou literalmente engolida pela floresta, restando-lhe apenas alguns trechos construídos próximos a poucas cidades do norte. Ou a ponte Rio-Niterói, construída sob suspeita de corrupção desenfreada, cujo investimento, segundo seus críticos, cortado pela metade da metade daria para construir uma auto-estrada contornando a baia de Guanabara, com oito faixas de rolamento e que seria percorrida em cerca de vinte minutos, tempo inferior ao registrado atualmente na ponte em horas criticas dos seus diários congestionamentos do trânsito.

Bravatas como a unilateral declaração de soberania nacional sobre os mares até duzentas milhas da costa brasileira era motivo de se vender um “Brasil grande”, prestes a ingressar no primeiro mundo, com um PIB crescendo 14% ao ano e se colocando como a oitava economia do planeta.

E até que esse balão furasse tudo era esquecido, salvo pelas mães que viram seus filhos desaparecidos, torturados e mortos por militares treinados para tal odiento oficio e entrosados com as ditaduras vizinhas do Chile, Argentina e Uruguai.

Essa espúria associação permitiu sem entraves diplomáticos, que policiais e militares de um país prendessem e deportassem sem quaisquer formalidades cidadãos escondidos ou refugiados oriundos dos outros países.

Estavam alguns uruguaios e argentinos refugiados em Porto Alegre quando a policia gaúcha prendeu o casal Universindo e Lílian Celiberti entregando-o na fronteira a policiais uruguaios o que deixou temerosos outros que por mesmos motivos políticos estavam também clandestinos no Rio Grande do Sul.

Sil e eu quando mudamos do Vidigal para a Avenida Rui Barbosa e ainda mantínhamos desocupado o pequeno apartamento do Tambá, recebemos e lhes demos morada a um casal de uruguaios que refugiados se instalaram em Porto Alegre, junto com dois filhos menores um deles do primeiro casamento dela.

Madalena, a uruguaia, muito me impressionava por sua tenacidade, inteligência e, sobretudo, suas lealdades, quer à causa política quer ao seu companheiro, um sindicalista afável, mas que a mim me parecia escorregadio.

O contato foi feito através de um dos mais brilhantes advogados trabalhistas que eu conheci, então militante de um minúsculo e romântico PRC (Partido Revolucionário Comunista) alvo de brincadeiras de Tito que o chamava de partido razoavelmente comunista. Falo do Tarso Genro, um fraterno amigo, que lamento não mais com ele conviver por ter-se dedicado à política e ao PT, e que me proporcionou conhecer Madalena.

Meus hóspedes acabaram por ser oficialmente reconhecidos como refugiados e sob proteção da ONU foram mandados para Suécia e Dinamarca quando o apartamento já ampliara o asilo abrigando também uns argentinos.

Dentre os argentinos, Manuel Andino, que lhe cito o nome na certeza de que não era mesmo esse o seu nome verdadeiro, foi para Copenhague e casou-se com uma dinamarquesa e lá me receberam amavelmente em sua casa, fazendo-me companhia numa viagem de férias por Londres e Paris.

Após a anistia, Manuel retornou, não para a Argentina, mas para Belo Horizonte onde morava na última vez que nos falamos em casual encontro na Gávea.



Madalena, seu marido e filhos, foram para Estocolmo onde o casamento se desfez e a minha querida amiga uruguaia, decepcionada, amorosa e politicamente, voltou para Montevideo, andou pelo Brasil e, por causa de filhos e netos, retornou para a Suécia.

O sindicalista seu marido não lhe fora leal, não só no casamento desfeito, mas também e principalmente na militância política.

Desde a estada do casal no Rio de Janeiro algo nele me parecia estranho e misterioso, muito embora, fomos sempre afetuosos um com o outro. Atribuía isso ao cuidado preservado por qualquer refugiado temeroso em deixar escapar informações que não devam circular. Mesmo depois em Estocolmo esta impressão se repetira e mais ainda se nutrira pelo evidente distanciamento por mim notado nos demais refugiados políticos, argentinos e uruguaios, que lá estavam e que claramente o evitavam.
Mas não dei às minhas observações maiores atenções, posto que já eu presenciara iguais atitudes entre membros das diversas facções políticas ou guerrilheiras, brasileiras, uruguaias ou argentinas, que por divergências ideológicas acabam por discriminar também suas relações pessoais.

Todavia e lamentavelmente não era esta a causa de quase todos discriminarem o então marido de Madalena e todos o faziam para preservá-la, pois todos por ela tinham verdadeiro afeto e, mais do que ela, todos sabiam com quem estava ela casada.

O casamento se desfez, talvez por infidelidade conjugal do marido que acabou indo morar com outra mulher. Após a separação a maior infidelidade veio à tona: quando preso no Uruguai teria ele feito um sinistro acordo com a ditadura, acordos que qualquer um faria sob tortura: entregou sua mulher, mãe de seu filho, e que acabou obrigada a entregar aos militares seu próprio apartamento, prática desconhecida nas ditaduras brasileiras que prendiam ou sumiam com os opositores, mas deixavam seus bens para os legítimos herdeiros.

É de se imaginar a decepção sofrida por essa minha querida amiga que por anos a fio, pensava eu, “dormia com o inimigo”, mas que ainda assim hoje demonstra sua grandeza de espírito, tudo justificando, perdoando e dando aos fatos diferentes versões e, por certo, mais próximas da verdade, da qual ela mesma diz não estar toda sobre a mesa e por isso acrescenta “que le hace una mancha al tigre!.”


E houve também os que se negaram a ir para Europa preferindo ficar e dar um jeito de retornar aos seus países e prosseguir lutando contra as respectivas ditaduras, para o que solicitaram e obtiveram integral apoio de meu amigo Tito, contente por participar longe das armas, dos mosquitos e do mato e, melhor, sem precisar matar ou morrer.

Sua primeira missão era fazer contato com um falsificador de passaportes e a cumpriu com a ajuda de Anísio, seu mais íntimo amigo na época e com o qual estagiara na advocacia, a ele devendo muito de sua bem sucedida carreira profissional. Ele tinha o contato por ter sido militante do partido comunista até cair o muro de Berlin e se declarar atônito como se fora um velho cardeal para o qual no fim da vida se revelava não ser virgem a Maria nem ser Jesus filho de um deus.

A segunda missão era conseguir os passaportes, o que foi feito na praia de Copacabana furtando turistas argentinos distraídos com os biquínis cariocas. Dois dos argentinos iam para areia e Tito os aguardava com seu carro estacionado e atento para a fuga.

As falsificações eram perfeitas para todos, mas seriam para os agentes da Policia Federal no aeroporto?

E novamente “bingo”. No aeroporto Tito se despediu e tenso viu seus hermanos desaparecerem dentre os demais passageiros, certamente para dentro do avião da Aerolineas Argentinas que os levaria a Buenos Aires, não sabendo até hoje se lutaram contra a ditadura, foram por ela desaparecidos ou freqüentaram as rodas de conversas políticas no café Puerto Del Carmen.

Prosseguia o governo do terceiro ditador apoiando incondicionalmente os organismos de repressão que calavam as oposições e impondo rígida censura aos meios de comunicação o que lhe gerou dividendos. Em julho de 1971 o IBOPE indicava 82% dos brasileiros apoiando o governo e, conseqüentemente, o regime militar por ele representado e o “milagre econômico” por ele mistificado.


Os quartéis se mexiam pela próxima sucessão, quando mudaria o general de plantão no comando da ditadura, e o ditador de plantão trabalhava o nome do general Adalberto Pereira dos Santos, cujo prestigio entre os militares era pouco, frustrando a empreitada

Voltou-se então para o nome de seu Ministro do Exército, que lhe afirmou não ter o menor interesse, ao contrário de seu irmão também general que o ditador de plantão temia apoiar pela proximidade deste com o general Golberi do Couto e Silva a quem detestava por ter sido contra a sua indicação, para sucedê-lo no sinistro Serviço Nacional de Informações (SNI) e que esvaziara o gabinete antes de sua posse neste detestável órgão de repressão, criado por este maquiavélico Golberi que também criara a Escola Superior de Guerra copiando a War College americana e importando seus conceitos de segurança nacional, difundindo a idéia dos inimigos internos, ou seja, os opositores esquerdistas a serem tratados como traidores da nação.

Os políticos da oposição tentaram sem êxito engendrar uma candidatura militar não governista para a disputa que se daria no colégio eleitoral, outra farsa criada com 401 políticos da Arena (Aliança Renovadora Nacional) e apenas 102 do MDB (Movimento Democrático Brasileiro) os dois únicos partidos políticos cuja existência foi permitida o que dava maioria absoluta à ditadura.

Mas acabaram por registrar o que chamaram de anticandidaturas com os nomes do deputado Ulisses Guimarães para a presidência e Barbosa Lima Sobrinho presidente da Associação Brasileira de Imprensa para vice, que percorreram o país clamando por democracia e anistia aos refugiados, banidos, exilados e para todos os punidos pelos famigerados atos institucionais.

O povo, por não votar não participava e quando era chamado a votar nas eleições parlamentares demonstrava sua desaprovação, votando nulo ou em branco, registrando em certos casos uma abstenção de cerca de 50% que serviu de aviso aos militares que começaram a admitir, embora de forma lenta e gradual, uma abertura política.

O general candidato a ditador, obteve 400 votos e Ulisses Guimarães apenas 67 sendo que para não participar da farsa os mais radicais opositores ao regime e filiados ao MDB não votaram.

E o líder do MDB, deputado Alencar Furtado discursou:
"O Movimento Democrático Brasileiro [MDB] saúda os eminentes representantes da Aliança Renovadora Nacional [Arena] e presta-lhes a homenagem de sua sinceridade ao proclamar que sairá deste recinto, nem vencido nem muito menos convencido, pois haverá esperança para a liberdade enquanto restar um homem sobre a face da terra, e a democracia é o povo, e o povo, sendo eterno, é indestrutível."

Após saber que o quarto ditador nomeara Golberi, o ditador sucedido confidenciou a seu filho Roberto:"Se arrependimento matasse eu já estaria morto".

E morreu no Rio de Janeiro em 1985, quatro anos antes de aparecerem os documentos e as ossadas das vítimas do seu regime, do seu governo, da sua responsabilidade, trazendo a crua e triste verdade ao povo brasileiro, uma dose para arrependimentos que mataria mesmo qualquer um até mesmo um sanguinário ditador.


XVII


Enfim, sós, Tito e eu juntos no apartamento da Gávea, agora sem roupas femininas no armário, sem as dezenas de potes dos mais variados cosméticos no banheiro, sem ninguém para raspar pernas com aparelhos de barba, numa liberdade há muito não vivida.

Meu amigo definia essa sensação como descalçar apertados sapatos, mexendo com satisfação os dedos dos pés, livres e soltos e resumia:

-Para o Pasquim era “passar a mão na bunda do guarda”, mas para mim, amigo, liberdade é fazer cocô de porta aberta.

Estávamos sozinhos, mas não solitários, ao contrário, o apartamento atraia muitos amigos e passageiras namoradas, tornando-se rotina as festas das sextas-feiras.

Inspirada num casal amigo de Brasília e junto à varanda foi inaugurada, com pompa e circunstância, uma banheira de hidromassagem, cabendo à Índia, esposa do brasiliense Osmar, cortar a faixa e nela banhar sua beleza morena, no que foi acompanhada pelas não menos belas convidadas, o que obrigou aos respectivos maridos refletirem que, se bem administrado, os ciúmes podem se tornar prazeres.

Dentre os freqüentadores habituais, muitos se tornaram fraternos amigos, em especial nossa querida amiga Ig com seu marido Wal que freqüentavam o apartamento com assiduidade e com os quais mantínhamos intermináveis conversas sobre a estranha existência de um código regente dos casamentos convencionais. Um código, cujas normas ninguém combina e nem declara prévia aprovação, mas que se vão criando de forma autógena e impondo regras de comportamento e minando a leal intimidade que deveria ser o valor maior de qualquer casal.

Discutíamos a possibilidade de derrogar este estranho código, liberando da posse corporal o conceito de fidelidade e a esta dedicando valor bem maior que o simples e natural exercício de um ato sexual resultante apenas de uns tesões repentinos e incapazes de alterar os profundos sentimentos que devem continuar unindo parceiros num casamento de verdade.

E a teoria, por Tito era resumida: “fidelidade não mora entre as pernas”.

Menos freqüentes, mas igualmente afetuosas eram as presenças de Maurílio e Délia, Waldir e Lu, Marcus e Flor, e do sempre gentil Cid que variava nas companhias e por sua popularidade aumentava a lista dos convidados das sextas-feiras até que casado com Helena mudou-se para Cabo Frio, deixando vaga a sua participação no exagerado consumo de uísque que Tito, Wal e eu éramos contumazes sob o verdadeiro lema de que “nunca fizéramos amigos bebendo leite”.

Mas havia também a constante presença de um casal notável. Ele um baixinho muito falante, sagaz e inteligente. Ela uma mulher alta e escultural, longos cabelos louros e um par de pernas dessas que nem para andar precisam ser. Al e Vânia acabaram se separando, ele reconstruiu sua vida, casou-se novamente e professa luta corporal em Los Angeles, ela casou-se com um homem por Tito definido como réplica piorada de Al, criou cachorros, engordou espantadoramente, separou-se de novo e sumiu.
Por interesseira influência de Al, que mantinha uma casa na marina de Bracui, lá pros lado de Mangaratiba, e também por influência da origem, Tito comprou um veleiro de dezessete pés, cabines de dormir e diversos apetrechos, então pertencente aos componentes do conjunto musical Kid Abelha, que dava nome ao barco, e que tem como estrela a linda cantora Paula Toller.
Meu amigo, disto sei eu, sempre odiou barco à vela, e Al desfrutava do brinquedo recebendo amigos para passeios eróticos. Erotismo sugerido e praticado quando Tito vendeu o tal barco, 8 meses após, lucrando oito mil dólares.
Tito só por duas vezes foi passageiro, a primeira na ocasião da compra, a segunda quando fracassou ao passar-se por Vasco Moscoso de Aragão,o capitão de longo curso e um falso velho marinheiro personagem de Jorge Amado. Na primeira declarou querer apear do barco o que lhe valeu deboches de um argentino picareta que intermediava a negociação. Na segunda, cambou errado e levou uma cacetada na cabeça que o fez mais ainda odiar barcos, velas e mares.
Um aluno meu na Faculdade Cândido Mendes era também gerente do extinto Banco Nacional, na Gávea, defronte ao apartamento das festas semanais. Por ele soube e para Tito contei que um novo-pobre ex rico devia vinte e cinco mil dólares e por isso queria vender às pressas um apartamento na Rua da Matriz, em Botafogo.
Tito prontamente encaminhou sua esperta proposta. Dava esta quantia em dólares mais o veleiro e assim completava o preço de cinqüenta mil dólares pedidos pelo imóvel.
Recebemos numa noite o proprietário e seu advogado tagarelando sem parar as vantagens do apartamento e após trinta minutos desta pabulagem, Tito saiu-se com essa:

- Meu doutor: achei esforçado o seu discurso, mas quero lhe confessar não ter o menor interesse neste apartamento, meu negócio aqui é vender um barco, que, aliás, odeio. Vai querer?

O proprietário, tomando a palavra do advogado, certamente preocupado com a corda em seu pescoço, decidiu que na manhã seguinte iria ver o tal veleiro.
Olhamos Tito e eu, o encontro do ex-rico com Al e Vânia quando assistimos os três se espremerem numa Brasília velha e saírem para a viagem que se deu com as narrativas eróticas de Al sobre as festas no barco e as visões estonteantes propiciadas pela micro-saia de Vânia.
Barco vendido.
Apartamento comprado.
Al e Vânia deixaram o veleiro, mas se instalaram no apartamento, onde viveram algum tempo.


O apartamento começou a esvaziar quando Carla começou a encher meu coração por ela caído de paixão. E por causa dela um outro apartamento, também de cobertura na Gávea, foi providenciado caminhando eu para minha terceira tentativa de me dedicar às inteiras a uma mulher.

Rodamos Carla e eu, boa parte ocidental do mundo. EEUU, México, Cuba, Peru, Argentina, Uruguai, Portugal, Espanha, França, Suíça, Alemanha, Itália e por mais não andamos em razão de seus sapatos sempre apertados e que me faziam, segundo ela, perder a paciência.

E foi com Carla que percebi como minha filha Tatiana, que eu resgatara da França, era ardilosa e esperta. Ardil e esperteza que devolvi com fiel reciprocidade.
Tatiana fora estudar na Europa, tempos em Londres, tempos em Toulouse e no final Hyères, de onde escrevia se dizendo necessitada financeiramente ao que eu atendi lhe enviando um cartão Amex internacional, na época inexistente no Brasil, mas adquirido com abertura de conta bancária em Nova Iorque.
Viajando de carro Carla e eu visitamos este último paradeiro europeu de Tatiana, simplesmente uma cidade, ou melhor uma enorme marina, cujos barcos, lanchas e veleiros, davam conta de sua extrema riqueza, causa dos altos preços que me consumiam faturas, em dólares, do cartão de crédito. Fato que fez Carla avaliá-la como uma menina “que vai longe”.
Movido por saudades e interesse, dediquei-me ao resgate de minha filha, então numa idade em que era possível um francês qualquer exilá-la de vez.
E manhoso armei uma arapuca. Lembrei-me de que ela lera e gostara do Alquimista do Paulo Coelho, o único roqueiro na Academia Brasileira de Letras, propondo-lhe um giro esotérico para Santiago de Compostela.
Aceita a idéia lá fui eu com o firme propósito de trazer Tatiana de volta ao Brasil, pois era preciso que ela estudasse a fim de herdar meu lugar no escritório de advocacia.
Desta viagem, além da companhia jovem, os costumeiros improvisos de Tatiana me convenceram quando estávamos em Algesiras nos sul da Espanha, a enfiar o carro num navio rumo a Tanger onde chegamos já passando da meia-noite ao porto onde todos me pareciam suspeitíssimos. Aflito e no afã de desembaraçar carro e passaporte, vejo Tatiana contente a tomar chá de hortelã ao lado de um marroquino, para mim, o mais suspeito de todos.

-Pai, Abdula é o nome dele e fala um pouco de espanhol e de francês.

-Então é ele mesmo, pois nada entendo aqui e nada leio.

Perguntamos onde era o Hotel Sheraton e como resposta recebemos a informação que era muito caro e para passar uma só noite ele nos indicaria um hotelzinho bom. Avaliamos a informação como sinal de bom caráter de quem me parecia apenas um lumpem de cais do porto.
Era um típico prédio marroquino, com aquelas portas e janelas de arcos agudos, limpo e confortável. Antes de dormir acertamos com Abdula para ser nosso guia na manhã seguinte. Após dormirmos o sobressalto da madrugada, com altas vozes lamuriosas a nós sugerindo torturantes castigos. Mas não era, era uma das tantas rezas diárias comuns na região.
Do café da manhã, por trás dos vidros do salão, demos com Abdula a lavar nosso carro.
Eu ainda não sabia que um árabe contratado e o seu faz tudo, é só mandar.
O passeio foi interrompido para o almoço num restaurante recomendado pelo nosso guia improvisado. Couscous e dança do ventre. Melhor o primeiro, porque muito gorda a dançarina.
Ampliada a negociação Abdula foi nosso em Tanger, Rabat, Casablanca, Marrakech, Fes, misturando desertos e neves.
Por várias vezes Tatiana precisou explicar aos policiais que Abdula estava conosco e que não corríamos risco algum. A discriminação e a suspeita eram constantes. Os garçons sequer o olhavam, mas era para ele que passávamos o cardápio e o fazíamos pedir as refeições. E isto nos valeu mais dedicação ainda do nosso já amigo marroquino.
E de tanta dedicação, Abdula passava parte das noites na delicada tarefa de retirar tabaco dos cigarros e nele misturar haxixe, recompondo assim maços de Marlboro e assim viajávamos nos dois sentidos, real e figurado, por Marrocos, sendo que através do ultimo nos tornamos amigos do Abdula, que de nós se despediu choroso quando voltamos para a Espanha.
E Tatiana caiu na arapuca e comigo voltou ao Brasil.
Tempos depois, recebo um aviso dos Correios para buscar uma encomenda e quando aberta eram tamancos marroquinos, muito feios, mas por lealdade ao Abdula neles eu desfilava pela cidade de Teresópolis, até que Tatiana recebe uma carta de Abdula para saber o que tínhamos achado do presente, não os tamancos, mas seu recheio, por baixo do solado dezenas de bolotas de haxixe, comum em Marrocos mas arriscado aqui.
Carla e eu rimos tanto dessa historia, incentivados pelos tamancos estraçalhados e por seu conteúdo tão perigoso quando delirante.

Daquele início em Santo Antonio de Pádua fomos parar até na República Dominicana, pois era pequeno este mundo para nós e enorme a minha alegria de tê-la comigo.

Formada em direito Carla passou a compor nosso escritório de advocacia como responsável pelas assistências sindicais, exercidas com dedicação e competência, mesmo após o fim do nosso casamento, e de onde saiu para seu escritório próprio, mudou-se para a Glória e se casou novamente e, pelo que me tem contado, está deixando a advocacia para dedicar-se às questões ecológicas e o faz com seu peculiar entusiasmo.

Eu é que não me entusiasmo tanto com ecologia, penso que a natureza não é assim tão generosa. Se fosse melhor dividiria o tempo pelas vidas que cria. Afinal que fazem alguns jabutis melhor do que eu para ser contemplado com séculos de vida? Não canta, não pia, se desloca mal e vagarosamente, enquanto eu e qualquer outro ser humano melhor aproveitaríamos o tempo a ele destinado, mesmo sob a obrigação de fazer aquele cocozinho ridículo.

Durante meu tempo com Carla mais me aproximei de sua família, que ainda tenho como minha, até mesmo com intimidade. A mesma intimidade com a qual respondi ao seu pai cirurgião quando novamente me submeti ao seu delicado ofício, desta feita para extirpar um quisto na língua e ele aparamentado de avental e máscara, bisturi na mão, me diz com ar seríssimo:

-Casartur, quais são suas intenções com a minha filha?

E eu, como se Tito fora, respondi na bucha:

-Pôxa, meu amigo, ainda bem que você não vai me operar de fimose.

Assim sempre se dá, só lembro coisas alegres quando falo da Carla.

Meu amigo Tito prosseguia animado pelas festas das sextas-feiras e se desvencilhando de algumas enrascadas, geradas pela sua inconstante vida amorosa e constante irresponsabilidade.

Sua última paixão acabara se refugiando em Brasília, obrigando-o a para lá viajar com freqüência para ver Lívia, uma amiga de Sil e que, nada sensata, numa ceia de ano novo, relatou ao marido seu caso amoroso com o meu amigo.

O relato de conteúdo e oportunidade absolutamente impróprios alimentou no sujeito um ódio descomunal que o levou armado a espreitar a saída de Tito do escritório.

Por quase um mês nossa equipe de advogados esteve desfalcada, mas os processos que aguardavam julgamento em Brasília tiveram naquele mês especial atenção, já que se encontravam num tribunal vizinho de Lívia, alvo de mais atenção ainda do seu namorado advogado.

Felizmente foi suficiente o tempo para recolocar o marido traído em seu melhor juízo e as coisas voltarem para a normalidade, sendo esta a sempre prevista exaustão das inúmeras paixões do meu amigo.

Cid, quando ainda solteiro, prosseguia freqüentando o apartamento festeiro e passou a financiar passagens aéreas para uma enfermeira de São Paulo dando a entendê-la como sua namorada e com ela aparecendo nas noites das sextas-feiras.

Mas não era. Houve uma espécie de trama, pois o objetivo da moça era outro e nele se incluía, com absoluta prioridade, o meu amigo.

Apesar de uma evidente indecisão, permeada com afastamentos constantes e presença de outras namoradas, mais por comodismo e, desta vez sem paixão alguma, meu amigo começou uma história que acabou sendo longa e nada gratificante.

Por influência do nosso amigo, o advogado Anísio que além de indicar falsificadores de passaportes possuía excelente pinacoteca formada por maioria absoluta de quadros de pintores comunistas, Tito comprara e estava reformando uma casa em Teresópolis, onde passara com constância semanal freqüentar com diversas namoradas, dentre elas, a nova e calculista namorada.

A moça, de malas à mão, alegando incompatibilidade psíquica com seu trabalho hospitalar, procurou Tito no apartamento da Gávea e este não só lhe deu abrigo como a instou a pedir demissão e não mais voltar para São Paulo.

Por pouco tempo permaneceram no apartamento, mas o suficiente para que ela lhe anunciasse uma gravidez e ser pai não era sua intenção, pois já pensara seriamente em vasectomia.

Todavia achou por bem negociar, admitindo a paternidade em troca da mudança de ambos para Teresópolis, pois naquele apartamento e na cidade do Rio de Janeiro lhe pareceu inviável criar uma criança.

A mudança de casa e de cidade se constituiu também em radical mudança de vida, com afastamento do escritório, que passou a freqüentar uma vez por semana, e distanciando-se dos seus amigos, que também não nutriam simpatia alguma por sua nova mulher.

Para suprir sua permanente vontade de construir e para propiciar ocupação à sua já mulher, inventou de instalar um restaurante, empreendimento que se desdobrou numa bela pousada, levando alguns anos em construção.

A mulher e sócia passou a dividir as tarefas de administração do restaurante e de construção dos chalés destinados à hospedagem.

Tinham então dois projetos em comum: viabilizar a pousada e criar Karina, a filha nascida em 1992, uma menina por ele amada muito especialmente, inteligente, adulta para a idade e decidida nas escolhas.

E esta avaliação se mantém correta até hoje, tendo Karina, agora adolescente, a confirmado quando da separação do casal escolhendo morar com o pai, abandonando por completo a mãe e com ele se mudando para Niterói, exatamente para a minha casa que lhe ofereci e na qual até hoje vivem, bem próximo de minha filha Tatiana que a recebeu como se recebe uma irmã querida.

Meu amigo há muito se dera conta do previsível e inevitável desfecho, tão logo concluídas as obras e viabilizadas as atividades da pousada, sentindo que concluído o projeto que mantinha a sociedade, a sócia já lhe era absolutamente indiferente como mulher.

Mas aprendera com seu denso passado amoroso que qualquer separação se torna bem mais cômoda se ela se der sem culpas e esperou por tal oportunidade, mantendo-se o mais afastado possível do casamento e limitando a convivência às trivialidades de qualquer casal.

E um semestre foi bastante para aparecer na pousada um sujeito que lhe pareceu um típico aproveitador das carências femininas e o elegeu como anjo da guarda, enquanto assistia a mulher o eleger como o seu príncipe encantado.

Esta aparição, embora muitos tenham acusado meu amigo de promovê-la, dela sei ter sido, embora conveniente, uma real coincidência.

Coincidiram também os interesses da mulher em preencher suas carências com os galanteios do novo príncipe sedutor; de desejar realizado seu sonho dedicando-se à música já que ele era um príncipe cantor; de dispensar sua completa dependência financeira mantida com meu amigo pelas mirabolantes promessas do príncipe fanfarrão.

Consumada a aproximação dos dois, dado estava um bom motivo para uma separação sem maiores culpas, oportunidade que não seria desperdiçada só lhe faltando providências práticas e estas se deram quando a mulher lhe comunicou a intenção de separar-se e seguir viagem acompanhando o príncipe.

Mais como advogado em causa própria e menos pelo impacto da prevista e esperada traição conjugal, pediu-lhe que deixasse a casa onde moravam, contando com suas irracionalidade e curta inteligência, e ela assim o fez facilitando as providências jurídicas que tais casos requerem e que por mais de três anos tramitaram na vara de família até ser decretado o divorcio.

Estava ele livre do casamento, da presença da mulher e de qualquer culpa ou peso de consciência, assim se dando o seu último bingo.
A atitude de Karina, inesperada por todos e por todos ignorados os verdadeiros motivos de tão radical repulsa pela mãe e o conhecimento que passou a ter das suas insanas atitudes foram as razões suficientes para repudiar qualquer tipo de reaproximação do casal, tendo o meu amigo se decidido a por ponto final no casamento e, constatado o verdadeiro caráter da mulher, também na amizade que sempre construíra com suas anteriores esposas, virando definitivamente esta página, segundo ele a mais mal escrita de sua vida.
E a construção de amizades passadas lhe foi valiosa, tendo se reaproximado de Aída que, com sedução e charme, levantou na recepção do Hotel Ca d`Oro, em São Paulo, valiosas provas da fuga pelo príncipe protagonizada e que ela categorizava como sórdida tentativa de duplo e recíproco golpe com a única identidade de serem ambos os baús furados.

Sil e Aída se mobilizaram no apoio ao Tito. A primeira levando-o a médico e advogado, profissionais que ela julgava necessários para a batalha a ser travada, pois as atitudes da mãe de Karina demonstraram de pronto sua insanidade e sua desmedida ambição por bens materiais. A segunda se colocando diuturnamente ao lado do meu amigo, acompanhando-o nas audiências judiciais, cuidando da sua pousada em Teresópolis e despachando a ex-mulher, por ela apelidada de barraqueira, nos inúmeros, inúteis e despropositados telefonemas pelos quais ora ela ameaçava, ora ela queria se ver perdoada.

E todo esse embrulho era mote para intermináveis e divertidas conversas entre eu e o meu amigo, que a tudo resistia olimpicamente e por tudo mais se divertia do que se preocupava, chegava mesmo e com acerto a prever qual seria a próxima loucura da barraqueira.


XVIII


Minha filha Tatiana e Karina filha do meu amigo, filha do principal personagem desta narrativa, morando muito próximas, como irmãs passaram a conviver o que facilitou a segunda em sua decisão de afastar-se da mãe por completo, pois a primeira, mais velha e sábia, supria-lhe a falta de uma presença feminina, enquanto Tito pelas circunstâncias passou a exercer duplo papel em experiência que o deixava bem feliz, especialmente com o correr do tempo a demonstrar-lhe maiores acertos que erros na criação da menina.

E como era de se esperar, a mãe de Karina passou a alimentar o afastamento adotado pela filha, com atitudes absolutamente insanas causadas por sua absoluta solidão, débil inteligência, moralmente abatida e com reações ciclotímicas típicas dos depressivos mentais, passou a promover tentativas amorosas de reconciliação com a filha, alternadas por irracionais maldades e chantagens.

Pelo que me foi dado observar tanto Tito quanto sua filha Karina se demonstrariam imunes às duas hipóteses, mais pelo ridículo comportamento da mãe de Karina do que pela rejeição que a ela dedicavam decididamente.

Karina dos onze anos de idade e até a atual adolescência dos quinze reagia às atitudes da mãe com surpreendente independência e consciência dos seus próprios sentimentos que variavam de piedade a repulsa, de compreensão ao desprezo, mas sem jamais ter-se arrependido de optar por conviver exclusivamente com o pai que não interferia em suas decisões, apesar de ser pela mãe, muito acusado de lhe ter afastado a filha.

Acusação ridícula, pois foram várias a ocasiões em que Tito viajou para fora do país e a menina se quisesse estaria absolutamente livre para procurar sua mãe.

Mas o motivo das acusações me parece muito evidente, já que certamente é penoso para qualquer mãe se ver desprezada por sua única filha e, ainda mais difícil se dá, quando se trata de uma mãe que não soube poupar sua única filha expondo-a a constrangedoras situações tais como leva-la junto na fuga com o amante ocasional; promover uma frustrada busca e apreensão judicial da menina em sua escola na presença das coleguinhas; chantagear com ameaças de não autorizar viagens ao exterior; tentar denegrir com mirabolantes mentiras a imagem do pai.
Tudo sem perceber ou valorar que tais práticas mais contribuíam para a rejeição que a menina lhe devota.
E ainda ser incapaz de reconhecer ter sido a única culpada pelos acontecimentos originais e subseqüentes, sendo esta a razão de tentar transferir as suas evidentes culpas.

Confesso que não sei ser esta avaliação a mais próxima de um correto diagnóstico, pois enquanto tento compreender os fatos sob a ótica da enfermidade mental que atribuo à mãe de Karina, o meu amigo, um constante questionador dos métodos psicanalistas, prefere ser mais objetivo e atribuir maior peso à falta de caráter da ex-mulher e sempre cita exemplos que presenciou e muitos outros que lhes foram dados a saber após a separação.


Mas por entender desprezível esse assunto ao desenvolvimento da narrativa e, principalmente, para evitar que meu amigo Tito, que acaba de chegar ao meu escritório e costuma espionar meus escritos, nestes virei esta página como ele o fez na sua própria vida, já voltada exclusivamente para sua nova musa.

Dalila é o nome dela e para ela foram feitos muitos poemas o que sempre ocorre durante os estados de paixão para os quais esse meu amigo se entrega com furor adolescente.

As paixões vividas acabam eternizadas em versos, cuja qualidade literária eu sempre questionei, mas não posso ignorá-las quando me ponho a contar suas histórias e sou levado a reler os poemas publicados em livro de impressão cuidada sob orientação de Maria, capa de rara beleza de autoria da Aída, por ele exigidas e cuja utilidade, rindo definia: “quero um livro muito bonito, para ser guardado como belo objeto, independente do conteúdo”.

E relendo “Chorei & Ri” lá registro as diversas paixões do meu amigo e me emociono quando registro também as minhas paixões pessoais, por ele versejadas e, como as dele, eternizadas neste seu livro de poesias dedicado à Tatiana e Karina, nossas filhas queridas:

“Não é como dormir e acordar.
Viver é mais.
É, sobretudo, rir e chorar.
Ri muito mais do que chorei.
Foi bom.
Como bom é estar vivendo com vocês.
Alguns dos meus motivos de risos e choros
Estão aqui registrados para vocês.
São versos.
Não sei se são poesias.
Mas os deixo impressos
Para durarem um pouco além do meu epitáfio:
Aqui jaz o amigo Tito, muito contrariado.”

Passo os olhos nos seus versos e vou repassando sentimentos nossos, nossos momentos passados, nossas emoções, nossos amores muito bem identificáveis: Diva, Lia, Flora, Nali, Maria Teresa, Marilza, Consuelo, Regina, Silvia, Gisa, Vera, Lísia, Ida e Lia Carla estão todas agora na coluna dos nossos créditos amorosos e, melhor, das nossas eternas amizades.

Mas esta Dalila não, esta se fez presente na vida do meu amigo após a publicação do Chorei & Ri e acabou impressa numa coletânea da Editora Komedi. “VIII Antologia Nau Literária”, sob o título "Poemas para Kamila".


Em minha opinião pode ter sido mesmo, como contam os poemas publicados, uma paixão de carnaval, mas inspirou meu amigo a escrever um soneto extremamente belo, denso e que considero o mais literário de todos que antes ele escrevera de nome Saudade.

Quando o li pela primeira vez, conversamos e muito sobre paixões, sobre as mulheres das nossas vidas e principalmente sobre as saudades que ambos carregamos e eu lhe disse:

-Meu amigo, serão seus versos como os vinhos, mais saborosos se escritos na velhice?

E Tito, rindo:

-Não. Vinhos se otimizam trancados em barris, poemas ao contrário, são frutos da liberdade maior alcançável pelo ser humano.

-De que liberdade você fala vivendo preso a esta paixão que brota versos?

-A liberdade de amar independentemente de ser amado e se encontrar suficientemente nutrido pelo amor que somos capazes de sentir, sendo ou não correspondido na mesma medida.

Foi quando compreendi que meu amigo não corria maiores riscos, que tinha consciência de que sua amada Dalila não lhe amava o suficiente, para o entender e desfrutá-lo às inteiras, mas que seria incapaz de afetar-lhe nada além de sua constante veia poética, o que bastante me tranqüilizou.

E ele arrematou com deboches:

-Meu amigo, para mexericar sobre a minha vida, você buscou meus poemas e saboreou além das minhas as suas antigas paixões, ou seja, desfrutou de suas próprias saudades e ficou feliz.

-Sim, consegui me emocionar relembrando meus amores e imaginei um encontro com todas as mulheres importantes da minha vida e acabei entendendo o seu modo de amar os amores vividos, mesmo sem mais ter as mulheres amadas.

-Pois é. Mesmo pobre a minha poesia nos dá atuais prazeres. E você que só andou escrevendo livros sobre direito do trabalho não nos deixou nada e jamais pensei em relê-los, afinal alguém teria saudades de factum príncipis, rebus sic stantibus, indenizações e avisos-prévios?

Bingo?

Quando Tito me fez ver Dalila, um pouco assustado por sua idade inferior à da minha filha Tatiana, não pude deixar de extasiar-me por sua beleza, sua candura e também surpreender-me por sua tristeza no olhar.

Intrigava-me vê-la triste, ombros curvados, sorriso preso, olhar opaco como carregasse mágoas incompatíveis com sua juventude e sua bonita presença a exibir sua pele morena em corpo alto e perfeito.

Curioso, indaguei e meu amigo em seu estilo abreviado, sintético mesmo, informou os motivos: muito cedo engravidara e casara-se e guardava total dependência psicológica ao marido que a subjugava convenientemente, fazendo-a crer que sem ele ninguém mais iria querê-la como mulher, alimentando um sentimento de inferioridade com ela absolutamente incompatível, porém presente em suas atitudes, em sua personalidade e em sua completa submissão.

Indaguei também o que pretendia meu amigo, além do evidente, e porque não dizer vaidoso, prazer de tê-la como companhia e disse-me ele que iria experimentar sem nada pedir em troca, mostrar-lhe outros rumos e começara por tentar convencê-la de que era uma bela mulher, capaz de se tornar independente, de ser respeitada e amada, já que o momento era propicio por estar num doloroso processo de separação de um homem, definido por meu amigo, como primário, infantil e egoísta ao extremo, o que lhe alimentava a violência peculiar dos imbecis.

A aproximação se deu casualmente, quando meu amigo almoçava no restaurante da pousada de sua propriedade em Teresópolis com amigos, dentre eles a mãe de Dalila, seu oposto, de personalidade forte, independente, extrovertida. Quando a filha chegou conversavam sobre o carnaval e dos planos de desfilar numa escola de samba, hipótese que era por ela desejada e, já sem o tal marido, possível.

-Querendo levo você Dalila.

Com o sim da resposta, Tito providenciou as fantasias, abandonando sua adesão feita na Mangueira por inexistir vaga e adquirindo as duas fantasias em outra escola com vagas disponíveis. Por Dalila, traiu a Mangueira.

Ele apaixonou-se pela moça, trinta e oito anos, mais nova e emocionalmente frágil experimentando uma tentativa de livrar-se de um casamento que racionalmente sabia inviável.

As luzes da avenida e o baticum dos surdos da bateria nele foram substituídos pela imagem de Dalila e por suas próprias batidas cardíacas.

Ainda assim, conservou sua delicadeza e penosamente respeitou suas mágoas, ao tempo que lhe valorizava e assim não ganhou seu amor, mas importante e absoluta confiança.

Como os carnavais sempre têm as quartas-feiras de cinzas, também a paixão se acabou, mas entre os dois se firmou uma amizade estreita que levou meu amigo a prosseguir lhe dedicando inesgotável atenção.

Eu assistia intrigado, como, aliás, todos assistiam os dois sempre juntos, conversando como namorados, passeando como namorados, dormindo como namorados e viajando como namorados, não sendo propriamente namorados.

Tito dizia-me sempre, se ela quiser ser minha namorada será, mas não a quero para mim, quero-a comigo.

Por várias vezes presenciei o meu amigo animar-lhe a freqüentar festas próprias de sua idade, insistir que conhecesse homens mais novos e valorizar-lhe a beleza e a sensualidade, enfim, tentar erguê-la, levantar-lhe os ombros, brilhar-lhe os olhos. E ficava realmente feliz quando conseguia impor-lhe autoconfiança.

E esta confiança foi sendo adquirida paulatinamente, especialmente quando em Milão ouviu de vários italianos, cujo atrevimento é notório em se tratando de mulheres, ser ela uma “bella donna”; em Barcelona “bonita mujer” e em Paris ser premiada com um medalhão por ser a mais bela da discoteca da Rue Saint Bom de onde Dalila carregou o meu amigo um tanto bêbado e a pé pela Rue de Rivoli, cruzando a Praça do Hôtel de Ville, sob os olhos vigilantes das sentinelas do La Conciergerie, ladeando a Notre Dame até a Ile St.Louis, onde estavam hospedados num daqueles hotéis parisienses onde se tem a impressão de dormir num armário, o mesmo hotel no qual Aida teve de advertir Tito por estar ele urinando por cima das malas com a falsa sensação de estar no banheiro certamente sonhado por obra de grandioso pileque.

Assim viveram por cerca de um ano e numa de suas viagens Dalila lhe disse que mais uma vez tentaria arrumar seu casamento e, embora tivesse a certeza da inutilidade da tentativa, meu amigo não deixou de apoiar-lhe sob o argumento de que se ela não o fizesse iria conviver com a absurda hipótese de esse desastroso casamento vir a dar certo um dia.

Todavia, foi evidente a sua decepção, não por faltar-lhe sua companhia, mas por não ter conseguido fazê-la crescer e se tornar verdadeiramente mulher.

Acho bonito o sentimento dele por Dalila e sei muito bem como ele o preserva carinhosamente. Em certa ocasião tentei convencê-lo a deixá-la viver sua vida e não mais procurá-la ou atende-la, fui firmemente repreendido, como, aliás, são todos, por mais próximos que sejam do meu amigo, que tentarem interferir nesta relação, para muitos, estranha, mas que bem sei prazerosamente cultivada pelo meu amigo com sua quase-namorada.

A impressão que tenho é que Dalila representa uma espécie de espelho em que ele mira seu lado bom, digno, generoso, desinteressado, pois continua aberto a outros relacionamentos amorosos, não se sente compromissado com ela e muito menos a compromissa.

Ela, não sempre, mas curiosamente, demonstra ciúmes do meu amigo, mas acho que não exatamente para tê-lo e sim para não perdê-lo.

Uma espécie de meio caminho andado: nem muito perto, nem tão longe.


IXX

Embora carinhosamente, Tito apelidara sua ex-quase-namorada de “esquisitona” e variava-se em seu humor, ora achando-a engraçada, ora se pondo triste por suas esquisitices.

Eu não me surpreendia tanto, pois mulheres esquisitas, ou melhor, mulheres com certas esquisitices não era lá muito raro na vida dele e me recordo além da historia de ser filha adotiva inventada do nada por Aída, além das mentiras e fantasias criadas pela mãe de Karina, houve uma outra de curiosa esquisitice dado que jamais comia alimentos que se mexessem, ou seja, balançassem no prato, como gelatinas, pudins, manjares, musses e outras irrequietas guloseimas.

Algumas dessas atitudes estranhas de Dalila me foram contadas.

Apesar de mal tratada e humilhada pelo ex-marido insistia em achar-se culpada pelo fracasso do casamento, pois, segundo ela, era ela que provocava sua ira e sua irracionalidade e sempre acreditava nas suas constantes e não cumpridas promessas de regeneração, de adesão às igrejas evangélicas e dedicação à família.

Nada disso ocorria. Na capa dura da bíblia esticava carreiras de cocaína e bem poderia utilizar-se do papel de seda das páginas sagradas para enrolar unzinho. Sem trabalhar, nada fornecia para a filha do casal. Mas era competente na artimanha de deixar Dalila sempre piedosa em relação a ele e sempre negava mesmo frente a evidências óbvias seus casos amorosos tidos em razão de sua própria vaidade e imaturidade.

Era mesmo tudo meio esquisito. Culminando com uma absurda chantagem emocional, quando Dalila passou a morar em Niterói, bem próximo da casa em que Tito eu moramos e na qual ela estava numa madrugada quando o ex-marido telefonou contando-lhe estar no Rio por ter baleado uma pessoa num bar de Teresópolis, que não sabia as conseqüências do tiro, mas que fugira da policia. Os detalhes demonstravam a mentira, pois dissera que tomara a arma da vítima após luta corporal, o que sugere a pergunta óbvia: se o dominara e lhe tirara a arma, por que o tiro?

Sempre piedosa e crendo nestas mirabolantes estórias, Dalila se dispôs a encontrá-lo e acabou agredida violentamente, após tentativa frustrada de submeter-se a relações sexuais forçadas.

Meu amigo foi resgatá-la e a encontrou marcada, no corpo por hematomas e na alma por profunda humilhação, todavia insuficientes para por fim nesta relação doente.

Era esquisito, estranho, inconcebível, mas assim era.

E mesmo assim optou o que para todos foi muito esquisito mesmo, por ao deixar Paris para ir tentar novamente morar com o agressor, e segundo ela própria contou, dormindo no chão com sua filha, num pequeno cômodo sujo e absolutamente desconfortável, tendo pouco ou nada para comer, mas acreditando na salvação bíblica daquele que mais que marido lhe era algoz.

A tentativa não durou um ano até que resolveu, ou até hoje se mostra resolvida, nunca se sabe, a por fim no casamento e dedicar-se a um trabalho que lhe possa proporcionar independência, sem o que mulher alguma se torna livre.

Quando eu soube dessas histórias e outras de igual gênero, entendi porque meu amigo a apelidara de “esquisitona”, muito embora sempre pronunciasse o definidor apelido com carinho nos olhos.

Com o mesmo carinho e humor que comparava as tentativas de separação, com a campanha presidencial da década de 50 no Brasil, quando Ademar de Barros por três vezes disputava a eleição com o slogan “Desta Vez Vamos”.

-Dalila: desta vez vamos, porra!

Acrescentava e ria, mas no fundo torcia ardentemente pelo sucesso da empreitada. E sei que desinteressadamente, pois na minha presença dissera para ela várias vezes: “você não passou de uma quase-namorada, mas como amante não a quero e seremos sempre muito bons amigos.”

E desde então assim se comportou, no início com muita dificuldade, pois se sentia atraído por ela. Com o tempo e por nova experiência amorosa agora melhor se coloca e decididamente não a quer como mulher, mas não abre mão de estar ao seu lado, dedicando-lhe afeto sincero e generoso.

E desta postura entendo perfeitamente, pois como Tito, eu também, desfeitos casamentos, ou mesmo simples namoros, mantivemos a doce experiência de cultivar profunda amizade pelas mulheres de nossas vidas.

Mas, assim como Lula, após três vezes acabou presidindo o Brasil, é possível, e assim torço que Dalila afinal se liberte de suas culpas e de sua cegueira e que lhe tenha valido o preço de perder o meu amigo que estava de fato disposto a amá-la incondicionalmente.

Estamos Tito e eu há cerca de quatro anos morando juntos em Niterói e na companhia de Karina, sua querida filha, e, conhecendo-o bem, observo estar ele bastante tranqüilo, trabalhando pouco mais eficazmente, escrevendo seus poemas, emocionalmente estável e, como eu, aberto ao mundo, ou seja, aos amores que sempre nos são gratificantes, mesmo quando trabalhosos ou conflituosos ou até esquisitos.

Desconfio como ele de mim desconfia que agora, há para ambos uma hipótese de nova experiência amorosa.

Nova mas que poderia ser a última, posto que nosso tempo de busca tornou-se bastante escasso e disso temos perfeita consciência, afinal ambos estamos com sessenta e seis anos e conquistas se tornam cansativas e a preguiça substitui a cobiça. Mas isso se dá corporalmente, já que o que se convencionou chamar de alma é diverso. Alma, desde que se nasce até que se morre, pode ser velha ou nova, independentemente da idade do corpo. Meu amigo tem sempre sua alma como nova.



A desconfiança é mútua, mas mútua também é a vontade de botar as cartas na mesa, como sempre fizemos, especialmente se a mesa fica num bar de Buenos Aires, Barcelona ou Paris, mas sempre num bar que não sirva leite, essa bebida que em nada contribui para amizades estreitas.

E nem Paris, nem Barcelona. Muito menos Buenos Aires.

Estamos por doze horas dentro de um avião que nos leva do Rio a Sidney e por várias vezes nos olhamos sem nada falar, mas com evidente curiosidade sobre o que estávamos deixando para trás.

Junto a nós, minha filha Tatiana com minha neta Maria e Karina filha do meu amigo se preparando para estudar em Gold Coast, e que certamente nos impedem de conversar.

Mas a conversa esperada, a mesa do bar necessária, que nos colocou frente a frente estava no Arcade, em Auckland, Nova Zelândia, país bem mais propicio para se falar de amores do que a regrada Austrália para Tito uma roça rica que apenas entrou com a VB, uma excelente cerveja.

- Desembucha quem é a mulher?

-Diz você primeiro, ou acha que não estou percebendo?

-Ela me disse chamar-se Chrys, mora em Cabo Frio.

-Ué, Cabo Frio é a terra da Tetê.

-Uma guerreira, um filho após dois casamentos reservada antes, melhor agora, mais confiante.

-Uma guerreira, um filho após dois casamentos reservada antes, melhor agora, mais confiante.

-O que é isso, vai ficar me repetindo?

-Não, falo da Tetê.

-Como assim?

-Assim falo pelas coincidências.

-A Chrys é loura e de cabelo curto.

-A Tetê tem cabelos compridos e pretos.

-E serem separadas, terem filho e morarem em Cabo Frio muitas o são, nada demais.


Estranhei o fato de ter o meu amigo se enamorado de uma mulher loura, fato inédito em sua vida, pois como eu, ele prefere as morenas.

Resolvi puxar outros assuntos, pois não pretendia ser inquisitorial.

-E a inesquecível Yara, a pequena mulher grande na cama e no palco, que fim levou?

-Porque agora lembrada, voltou a ser inesquecível, mas Yara nunca mais a ví e se hoje visse com outros olhos seria.

-Engraçado isso, como que as pessoas ficam e deixam de ser importantes sem que saibamos bem o porquê.

-Creio ser isso a normalidade, pois ter uma pessoa sempre presente em nosso pensamento ou sendo alvo de nossos sentimentos, seja amor ou ódio, é quase uma doença.

-Também acho que amor obsessivo não é amor e sim objeto de nossa própria carência, é como terra em buraco sem fundo, nunca preenche.

-Mas e a sua Tetê, como e quando a conheceu?

-Ainda estou conhecendo e o faço desde que a encontrei por acaso na rua e a revi, num fim-de-semana, em Cabo Frio na casa de um amigo comum quando percebi que tinha algo mais além do que pretendia aparentar, escondida de si mesma.

-É meu amigo Tito, é nas ostras que as pérolas se escondem. E você como conheceu a sua Chrys?

-Na minha pousada em Teresópolis, foi passar um fim-de-semana com um casal de amigos. Jantamos juntos e mais nada.

-Como assim? Nada mais?

-Você sabe que tenho certos cuidados, no dia seguinte a Beatriz, aquela que você acha engraçada e inteligente e que eu me incomodei com sua insistência em falar do ex-marido, ficara de ir ao meu encontro e seria insensato expor qualquer das duas a situações constrangedoras, além disso, não tenho certeza de que a Chrys iria mais além do que um jantar.

-Fez bem e garanto que desta vez você acertou, pois qualquer mulher ficaria feliz por se ver poupada de competições juvenis.

-Além disso, não sei e não gosto de me sentir dividido.
Ter tido muitas namoradas e mulheres não faz de mim um galinha. Trocar eu troquei, troco e trocarei para me sentir mais feliz, mas manter relações paralelas nada me acrescenta, quem tem duas não tem nenhuma, mesmo que as duas nos tenham.

-É complicado, mas compreensível.

Estávamos muito longe do Brasil, mas ambos muito perto de Chrys e Tetê, quando um som familiar nos chamou a atenção.

Lucio Alves e Dick Farney cantavam Tereza da Praia, do início da bossa nova, cuja letra fala de dois amigos que se apaixonam pela mesma mulher e resolvem deixá-la na praia, por ela não ser de ninguém.


Durante o jantar bebemos com nossas filhas e após três garrafas de um excelente vinho australiano, de uva Syrah, resolvemos voltar a pé para o hotel, situado defronte a Tower City de Auckland, segundo Tito um pirulito de concreto e de onde Karina, sempre aventureira e destemida, saltou e despencou por cento e noventa e nove metros, altura de um edifício de oitenta andares, presa a elásticos e cabos tal qual um astronauta sem nave, o que me fez tremer as pernas ao vê-la nos ares.

Subimos a Queen Stret até a Victoria onde viramos à direita passando em frente de outra barbaridade que os neo-zelandezes consideram brinquedo, uma geringonça composta de três cadeiras que disparam numa velocidade absurda rumo aos céus e de lá desabam presas a elásticos que a fazem subir novamente, repetidamente, e também de cabeça para baixo.

Tatiana e Karina, pelo vinho se divertiam e implicavam com minha neta Maria e, brincando, todas seguiam na frente até que a distância permitiu que eu perguntasse ao meu amigo:

-Tito quando você conheceu a Chrys, sei que foi na sua pousada, mas quando?

- A conheci no último fim-de-semana de novembro passado, mas como já lhe disse, muito superficialmente, por causa da Beatriz e da preguiça.

- E quando, afinal, se tornou íntimo seu relacionamento com ela?

- Dois fins-de-semana após, em Cabo Frio, quando almoçamos no Zepelim e ficamos juntos na casa do Cid. Depois nunca mais a vi, mas penso nela até hoje, ou seja, há quase dois meses não a vejo.

- É, meu amigo, para uma só vez tanta presença a faz importante para você.

- Por isso penso em procurá-la quando voltarmos para casa e, se possível, prosseguir conhecendo-a ainda mais. E você, me conta da Tetê?

-Bem, a Tetê, como lhe disse também é de Cabo Frio e lá a conheci casualmente na porta de um salão de beleza onde fora, segundo ela, pintar seus cabelos e alterá-los o tamanho com apliques que os fizeram mais compridos.

-Deu agora pra espreitar mulheres na porta de salões de beleza, como antes eu fazia defronte aos colégios femininos e depois nos parques de diversões, especialmente frente ao carrossel onde as idades das mamães eram mais interessantes?

-Meu amigo, eu não me chamo Tito, foi uma casualidade. Eu estava passando na calçada e, distraído, não a vi saindo à rua, quando ela meio atordoada com a química capilar, esbarrou em mim e me pediu desculpas e eu a ela

-E depois?

-Sabe, sempre que você estava em Teresópolis, nas suas missões de apoio à Dalila, envolvido com a montagem da loja de roupas infantis da qual ela é a criadora ou fiscalizando seus negócios na sua pousada, eu recebia Tetê em nossa casa. Depois passamos juntos Natal e Ano Novo e nos encontrávamos muito frequentemente.

-Reconheço que poderia eu também ter me encontrado mais com a Chrys, porém me era necessário melhor me situar em relação à Dalila, até que me convencesse de vez ser ela uma querida amiga e ex-quase-namorada.

-Lembra da sua estranha ausência no jantar de Natal com Tatiana, o seu atual namorado, e Karina? E da sua ausência na nossa festa de reveillon da qual você desapareceu antes de começar? Pois é, Tetê esteve conosco nas duas ocasiões.

-Você sabe, detesto Natal, Ano Novo e outras criações de intenções comerciais e forçadas alegrias.

Chegamos ao hotel com aquela conversa contribuindo para desejarmos estar voltando, além do permanente desejo de regresso quando se viaja por mais de vinte dias, sem contar a distância desta Oceania, praticamente no fim do mundo, ou amenizando um pouco, do outro lado do mundo.

O dia seguinte seria em aeroportos e vôos que nos devolveriam as vinte e quatro horas perdidas de vida, em razão do fuso horário diametralmente oposto e eu dormi com Maria neta em cima de mim a espremer cravos, sem distingui-los corretamente e me apertando sinais, verrugas e cicatrizes.

XX


Uma escala em Santiago para troca de aeronave, levou-nos, Tito e eu, a uma conversa aberta, embora estivéssemos confinados numa área gradeada destinada aos fumantes, seres que começam a ser tratados como animais enjaulados e segregados do mundo dito sadio, já que em todos os países se resolveu tê-los assim como uma espécie de mal ambulante a espalhar os mais diversos cânceres, sem, contudo, se registrar decréscimo estatístico desta doença em parte alguma, muito embora, tenha caído vertiginosamente o número de fumantes.

-Meu memorialista capenga, eu tenho lido seus rascunhos e estranhei o abandono dos assuntos políticos, o que houve?

-Tito, eu não sou historiador nem comentarista político, apenas um apaixonado libertário, portanto um convicto democrata. Não era de política moralmente aceita que eu falava, mas sim dos fatos mesquinhos e tristes que afastaram de nós a democracia e nos humilharam com ditaduras imbecis, pelas quais guardo meu único ódio em vida.

-Então era catarse?

-Pode ser assim interpretado, me faz bem falar muito mal dos ditadores e tentar enaltecer o valor da liberdade. Depois do quarto ditador, o alemão que após o assassinato do Vladimir Hersog resolveu dar um basta na tortura, juntamente com o quinto, aquele que preferia cavalos a povo e acabou entregando o poder aos civis, pois outra coisa não poderia mesmo fazer, entramos numa razoável prática política.

-Isso me faz lembrar das madrugadas no Luna´s Bar no Leblon, no qual a resistência à ditadura dele fazia uma trincheira pela liberdade e pelos copos de uísque, não necessariamente nesta ordem. E o ditador que você chama de alemão levava com rédeas curtas sua lenta e gradual abertura política.

-E eram evidentes os sinais de distensão e o bar era mesmo uma célula libertária.

-Eu ria muito de um guerrilheiro boêmio que indignado abominava a abertura e gritava seu inconformismo de não mais se ter contra quem conspirar ou pelo menos falar mal; que conspirações e copos de uísque se tornaram desnecessários para a resistência e que isto de se poder falar livremente nas ruas levaria o nosso bar à falência.

-Mas do alemão quarto ditador deve-se ao Chico o prazer de tê-lo muito bem futucado. Chico Buarque, assinando-se Julinho da Adelaide, para não ser mais uma vez censurado compunha protestando e ironizando o regime e os ditadores, e soubera ter como fã, a filha Amália do presidente, saindo-se com essas irônicas música e letra: “você não gosta de mim, mas sua filha gosta”

-Mas houve muitos fatos importantes de lá pra cá e você os despreza.

-Houve mesmo, importantíssimos, mas não mais existiram golpes de estado ou ditadores. E as instituições funcionaram e estão funcionando de modo bastante satisfatório. Penso que entre Getulio Vargas e Tancredo Neves, fechou-se o circulo dos circos políticos deixando o Brasil de ser uma república das bananas.

-Como assim, mesmo com todos os escândalos que são noticiados todos os dias?

-Meu amigo, isto é varejo e sempre haverá, aqui no Chile, lá no Brasil e em toda a parte. Quero me referir a fatos relevantes, como termos passado por momentos muito sérios e as instituições, no atacado, funcionaram muito bem. Morreu Tancredo antes mesmo de sua posse e Sarney assumiu como vice-presidente e governou até ser democraticamente sucedido por Fernando Collor que foi afastado por impedimento constitucionalmente previsto e substituído pelo vice Itamar Franco, que também governou até ser sucedido por Fernando Henrique também eleito e reeleito pelo povo e que também governou até transmitir o poder ao Lula, o operário de barba cubana, também eleito e reeleito pelo povo e que agora nos governa.

-É verdade, até concordo com sua avaliação sobre o funcionamento das instituições democráticas e aprovo esse atacado, mas o varejo também trás conseqüências, tanto políticas quanto econômicas, para a vida dos brasileiros.

-Isso é certo, mas para ser resolvido não só será mais demorado como também sempre dependerá do bom funcionamento das instituições, as mudanças sociais são mais demoradas nas democracias do que o nosso desejo de vivenciá-las exige.

-É. Democracia às vezes dói, mas acaba curando.

-Além do mais, você sempre foi um sujeito otimista e sempre foi o meu amigo “tudo azul” lembra-se?

-Sou ainda, sempre preferi me decepcionar que desconfiar. Por isso vejo com muito bons olhos termos uma imprensa absolutamente livre, uma Policia Federal absolutamente independente e como nunca tão eficiente, um Presidente que se submete às regras do jogo e vai fazendo o que pode para administrar os inúmeros conflitos de nossa complexa sociedade todos refletidos no Congresso Nacional que não é lá grandes coisas, mas por ter sido democraticamente eleito é a cara do nosso povo.

-Isso meu amigo, o que não se pode mudar é o povo, muito menos politizá-lo rapidamente como seria desejável, “calma que o Brasil é nosso”.

Tatiana e Karina, aflitas, nos chamam para o embarque anunciado e por nós ignorado por estarmos atentos numa prosa amigável e porque também ninguém entende nada do que os aeroportos de todos os lugares do mundo anunciam, salvo se for pela voz sensual da Íris Lettieri, considerada “a mais bela voz do mundo” por correspondentes internacionais, dos aeroportos brasileiros.

Estávamos todos bastante ansiosos para chegarmos ao Rio de Janeiro e, considerando de onde vínhamos, era curto nosso último trajeto.

Mas não tão curto que não comportasse mais uma conversa entre nós, agora novamente sobre a Chrys e sobre a Tetê.

-Sabe Tito, tenho aqui uma certeza do que antes me foi desconfiança.

- Como assim?

-Preste atenção: uma mulher que era loura e que encontro na saída de um salão de beleza onde fora pintar os cabelos de preto; cabelos que eram curtos, mas que saíram deste mesmo salão sustentando um aplique longo; uma mulher “guerreira” que tem um filho e mora em Cabo Frio, poderia ou não ser a minha Tetê e ao mesmo tempo a sua Chrys?

-Bebeu?

-Não, mais apurei.

-Desembucha.

-Uma mulher que você viu apenas duas vezes e há mais de um mês e nesse período esteve comigo todo o tempo, quer em Cabo Frio, quer em nossa casa de Niterói, sempre na sua ausência, inclusive nas festas de Natal e Ano Novo.

-Só me falta dizer que foi com ela aquela sua outra e repentina viagem a Buenos Aires?

- Foi sim, mas para evitar suas perenes lembranças em mim não estivemos no Puerto Del Carmen e, também, porque Tetê descobriu o Café Tortoni, junto à Plaza de Mayo, segundo ela mais clássico, onde Hemingway talvez não tenha estado, mas Gardel por lá derramava tangos e charme, Borges o freqüentava quando estava em Buenos Aires e Garcia Lorca rabiscava guardanapos. Bebemos juntos também no Café Las Violetas que Tetê, a sua Chrys, o comparou à Confeitaria Colombo, do Rio.

-Mas o que mais apurou? Acho pouco.

-Você me disse que a conheceu em Teresópolis, apresentada pelo nosso amigo Cid.

-Sim, mas e daí?

-Daí que xeretei o Orkut dela e descobri o que me faltava para fechar o enigma.

-???

-Dentre os amigos no Orkut dela está a Helena, mulher de Cid. E no Orkut de Helena está lá uma foto dela com o marido Cid e com a sua amiga “Chrys”, os três juntos.

-E a foto é da sua Tetê?

-Sim. Tetê e “Chrys” são a mesma mulher.


- É... desde garotos você disputa mulheres comigo.

-Não nego isso, mas não em todas as vezes que você aparecia com namoradas novas. Confesso apenas que tive mesmo certo interesse por Marisa, Lisa e Aída e em mais nenhuma. Porém desta vez é diferente, não foi você que me apresentou sua “Chrys”, eu conheci longe de você a Tetê.

- Esqueceu da Lívia e mais recentemente da Dalila?

-Qual nada, isso é ilação sua. Sempre gostei muito da Livia, mas jamais com qualquer intenção amorosa, a acho uma pessoa incrível e se você quer saber se estivesse em nosso reveillon a veria, pois há dois anos ela passa essa festa junto comigo. Além disso, não sou tão maluco a ponto de arriscar-me a levar tiros de maridos ciumentos, como você o fez quando esteve apaixonado por ela.

-Sobre a Dalila, seguirá silente?

-Meu silêncio é fruto da minha confusão emocional em relação a ela. Não sei como responder, pois não sei exatamente o que sinto por ela. Gosto muito dela, mas cada vez mais como amiga, assim como você também o mesmo sente.

-E agora o que faremos com a “Chrys”, ou melhor, com a Tetê?

-Nada, a não ser deixar que ela livremente se decida.

-Não sei se isso será o melhor a fazer, mas sei o que vou fazer.

-Pelo jeito, pelo que bem conheço de você, irá tentar envolve-la usando de seus truques que sempre deram certo com as mulheres pelas quais se interessou na vida.

-Qual nada, não tenho mais esse pique, fique certo que se ela não me procurar, também eu me manterei afastado.

-Quer que diga muito obrigado, amigo?

-Quero sim, sempre gosto de tê-lo me devendo algo. Você sempre soube que lhe cobro na hora certa.

-Obrigado, meu amigo quase-canalha e quase-santo.

-Assim somos nós e são todas as pessoas. A questão é escolher qual opção faremos frente às circunstâncias diante de cada pessoa e em cada ocasião.

-Você tem razão meu amigo, certa feita eu estava retornando de Manaus, onde fora fazer uma audiência trabalhista, e fui abordado, no aeroporto, por um japonês, cuja cota alfandegária excedera, pois muito comprara naquela zona livre. Pediu-me para passar uma caixa de papelão e, como eu dispunha de cotas, já que comprara apenas uns simples projetores de slides e outro de filmes em super-oito, resolvi fazer-lhe o favor. Mas distraído misturei os tíquetes de bagagem.

-Eis ai o que lhe digo, tudo são as circunstâncias.

-Pois é, embora não previsto no Código Penal, era este o meu particular estado de necessidade.

-Entregar um dos tíquetes ao japonês poderia representar a perda de um dos projetores, não é?

-Sim, era eu ou o japonês, não tive saída. Esquivei-me do sujeito que me procurando desfilava pelo corredor do avião, enquanto eu me escondia em duas trincheiras: um jornal aberto em minha cara e na minha cabeça a dúvida se ele iria ou não me reconhecer.

-Ora, meu amigo, imagine um de nós num vôo só com asiáticos. Eles para nós são todos iguais e assim deveria também achar de nós o seu japonês.

-Desembarquei com a caixa de papelão do japonês que seguiu para São Paulo e acabrunhado contei o ocorrido para a mais bela comissária do mesmo vôo, por coincidência ao meu lado sentada no ônibus que nos levaria do Galeão ao Leblon.

-Então foi assim que você conheceu a Silvia, a colega de faculdade da nossa psicanalista administradora do caos da Lopes Quintas? Eu não sabia.
-Foi e por conforto ou simpatia, disse-me ela que faria o mesmo, mas que estava curiosa por saber o que tinha na tal caixa.

-Deduzo, pois a conheci depois como sua namorada, que as curiosidade e simpatia da moça a fizeram aterrar no conforto da sua cama.

-Certo e espero que a simpatia tenha preponderado, pois a curiosidade foi decepcionante já que a caixa do japonês continha uma estranha panela elétrica de cozinhar arroz.

-Canalhice dobrada, meu amigo, pois descubro agora que a tal panela é a mesma com a qual você presenteou sua cunhada, muito inusitadamente, quando ela estava prestes a ser mãe.
-Sim, mas pelo menos lhe foi muito útil, não para fazer arroz, mas sim esquentar mamadeiras em banho-maria.
A historia confirmava o dito de que “a ocasião faz o ladrão”, porém eu não queria mudar de assunto.
-Então tá. Você some e eu procuro a Tetê para conversarmos e decidir o que faremos.
-Fechado e boa sorte.
Senhores passageiros, por favor apertem os cintos e coloquem suas poltronas na posição vertical, estamos iniciando os procedimentos para nosso pouso no aeroporto internacional Tom Jobim Galeão no Rio de Janeiro, onde o tempo está nublado e a temperatura é de vinte e seis graus. Na hora local são 18 horas e vinte minutos. A Lan agradece a sua opção de voar conosco e espera tê-los em outra oportunidade. Tenham uma boa noite.


XXI

Conhecer Tetê me fez lembrar da metáfora de James Aggrey, porque ela me pareceu como a águia nascida em galinheiro, criada como galinha, como galinha ciscava migalhas, mas apesar das suas asas de águia, não voava, até que um dia foi instigada a voar alto e voou. Malgrado ofuscada por luminoso sol não se intimidou e se fez livre, não mais tornou ao galinheiro ganhando os ares e por ser guerreira, mesmo sem pouso certo, prossegue voando.
Menos por sua própria rebeldia e mais por estar sendo vitima de inconcebíveis atitudes nada familiares praticadas por um padrasto, sob complacência de sua mãe que a desacreditava, a maltratava e de todas as maneiras tentava lhe frustrar os caminhos; saiu de casa e perambulou entre ruas e lares, uns amistosos outros não, e jamais perdeu sua dignidade, fato por demais louvável, dado as circunstâncias.

Guerreira igual só havíamos Tito e eu conhecido duas, Madalena a uruguaia e a nossa amiga argentina, mas de feitio brasileiro agora norueguesa também pelas circunstâncias.

Xixa, assim chamada por Karina ainda bebê, como ocorre com muitos malucos-beleza que se deslumbram com certos lugares tais como Búzios, Ibiza, Canoa Quebrada, Havaí, São Tomé das Letras, Bali e outros cantos paradisíacos, aportou em Arraial d’Ajuda e o que seria uma simples férias acabou por mudar-lhe a vida. Comissária de bordo de uma grande empresa aérea britânica, poliglota, esta minha querida amiga argentina, arriscou na troca e deixou seu país, seu emprego, sua família e ouvindo o canto da sereia dos mares do Arraial lá ficou de vez. Construiu uma pousada e pensou construir uma família com um primitivo baiano e com ele teve uma filha e já não muito a fim de com ele ficar mais um casal de gêmeos. O casal, por óbvio se desentendia e com tal freqüência que, segundo ela, era inútil prosseguir trocando as fechaduras na porta que ele a pontapés arrombava para insistir num relacionamento fadado ao rompimento. Separada, prosseguia trabalhando na pousada e acabou conhecendo um norueguês que certamente contrastava e muito com o pai de seus filhos. Pablo era seu escolhido nome latino. Apaixonados e sob as ameaças constantes do primitivo baiano resolveram deixar a Bahia e se mudaram para Teresópolis onde os conheci almoçando no restaurante do meu amigo Tito, empreendimento antecessor da sua atual pousada.

Um casal bastante agradável e inteligente e, dado à escassez de tais atributos nesta cidade serrana, logo nos tornamos amigos. Pablo dedicava-se a um novo negócio pelo qual importava iguarias da Noruega para vender no mercado brasileiro. Xixa arrendara a sua pousada na Bahia e dedicava-se a sua inegável arte como ceramista.

Passado um tempo, receberam como hóspede um espanhol que haviam conhecido no Arraial e que segundo se soube depois pretendia levar cocaína do Rio de Janeiro para Ibiza e, não medindo riscos, armazenara a droga em sua bagagem pessoal guardada na casa que o hospedava.

E na posse de mais cocaína o espanhol tomou um táxi para levá-lo do Rio a Teresópolis. No mesmo táxi estava Pablo e parados por policiais, apesar de ter o espanhol inocentado o meu amigo norueguês foram ambos presos e por má orientação jurídica, assinaram um depoimento que registrava uma inverdade, pois fora transcrita a afirmação de que ambos mutuamente se acusavam o que foi suficiente para uma condenação de Pablo à três anos de cadeia e conseqüente expulsão do Brasil.

O meu amigo Tito, num chalé de sua propriedade, situado no terreno onde hoje está uma pousada, abrigou Xixa e seus filhos e nós dois presenciamos admirados a dedicação desta querida amiga que se dividia em produzir arte em cerâmica e preparar alimentos que em todos os fins de semana os levava a Pablo na tentativa de minorar seu sofrimento, além de se obrigar a pagar carcereiros em troca de alguns momentos a sós.

Tito e eu nos comovíamos com a dedicação de Xixa, uma mulher linda, atraente e inteligente, mas inteiramente dedicada ao seu amor Pablo que, após ser libertado e tendo de cumprir a expulsão em poucas horas, demonstrou-lhe o amor igual, querendo Xixa e filhos no avião que o levaria a Oslo.

E Xixa me disse em sotaque argentino:

-Como decidir assi tam de repente e deixar todo e me ir com hijos para tam longe?

- Ora minha querida Xixa, afinal você deixou emprego, família e país por um baiano primitivo de Arraial d’Ajuda, como vacilar em acompanhar um homem que lhe ama e ter a oportunidade de criar seus filhos no mais primeiro do primeiro mundo? Disse-lhe.

E para variar, Tito brincou:

-Um cara que assumiu um kit família sem vacilar. Você deve estar louca de pedra se não for com ele.

E foram todos. E estão, afora o frio e as saudades do Brasil, muito bem e Xixa mantém um ateliê onde vende suas peças e dá aulas como ceramista.

Por duas vezes estive com eles, na Noruega e na Espanha e sempre me lembro deles com saudades. Noticias sempre as tenho, especialmente quando ele ou ela viajam para Argentina, Bolívia, Equador, Peru como se estivessem rodeando o Brasil, onde gostariam mesmo de estar mas legalmente não podem.


Mas Tetê foi nascida em Curitiba, cidade cujo retorno tentou em uma de suas fugas, criou-se em Cabo Frio, lá se casando por duas vezes e se tornando mãe dedicada a cuidar de um menino que lhe requer atenção redobrada na estabilização do nível de glicose em seu sangue. Cuidado que a motivou a de outros também cuidar, dedicando-se a enfermagem num hospital público. Agora voa mais alto como aluna universitária em fisioterapia.

Como muitos fazem no mundo virtual, rebatizou-se como Chrys e mudou de amigos através da internet, um estágio pela decisão de exercitar sua liberdade, rompendo com o passado adverso e construir-se inteira como Tetê.

Quando usava dois nomes para uma só personalidade conheceu Cid e Helena, amigos meus e de Tito, sendo esta a explicação de como as duas, sendo uma só que se nos fez conhecer.

Mas como Tito resolveu me ofertar sua renúncia, que aliás foi passageira, assim que cheguei ao Brasil com ela fui ter e para ela resolvi indagar e tudo poder ser explicado.

Mas nem tudo. Como tal deduzi com ela conversando.


-Tetê: na viagem descobrimos Tito e eu que ambos estávamos namorando você, muito embora para ele você é uma certa Chrys.

-Mas que historia é essa? Apesar de você me dizer morar com esse Tito, dele muito falar, jamais lhe fui apresentada, quanto mais namorada, amante ou ficante.

-Mas ele me disse que conheceu você na pousada de Teresópolis, em novembro passado e depois esteve novamente com você em Cabo Frio.

-Só fui nesta pousada dele, e sei ser dele por você ter me dito quando lá estive em novembro mesmo, mas com você e mais ninguém.

-É verdade, estivemos juntos em Teresópolis em novembro passado. E quer saber? Vamos encerrar este assunto, pois a mim me interessa apenas de hoje em diante.

-Como encerrar? Você me fez feliz com o poema que fez para mim na Austrália, com os presentes que me trouxe e que me fez acreditar ter sentido a minha ausência, vem agora com essa conversa estranha, sem pé nem cabeça, incluindo na minha vida esse Tito que não conheço e até duvido de sua existência. Um sujeito que você diz morar com você e que jamais o vi em sua casa que passei a freqüentar e que lá também nunca vi vestígios sequer dele.

-Chega Tetê, isso não é tão serio assim.

-Como não? O problema não está em ter ou não eu namorado João, Manoel, Joaquim ou Tito. Agora namoro ou namorarei quem eu quiser. A questão principal é eu estar sendo incluída numa confusão que me faz excluída da verdade, pois alguém está mentindo e não sou eu.

- Façamos o seguinte, minha querida, esquece esse assunto sob minha promessa de esclarecer as coisas e me dá crédito e tempo para voltarmos a conversar sobre isso.

-Do assunto, por ora, posso esquecer, mas saiba que vou cobrar mais tarde, pois já conheço você o suficiente para saber que não iria me envolver nessa tramóia absurda sem me revelá-la por inteiro.

Confesso que não esperava uma reação tão constrangedora quanto contundente, mas reconheço-lhe a razão e isso me fez temer a perda de sua confiança, o que me seria bastante penoso.

E também a reconheci bem diferente da oprimida Tetê que antes tivera três relacionamentos, casando duas vezes e que me contara suas experiências anteriores nada livres.


Sempre observei, dentre tantas, uma característica feminina a que faz as mulheres que mudam, ou são forçadas a mudar de vida, buscar rapidamente outra aparência física. É quase uma constante, por exemplo, as que se separam de um homem, seja do marido, do namorado, do amante, não importa, de qualquer amado, imediatamente cortarem ou pintarem os cabelos, ou tomarem ambas as providências. Talvez pensem que mudando os cabelos mudarão de cabeça, pois não raro se sentem culpadas das separações, mesmo que não o sejam de fato.

E com a Tetê não foi diferente, para se tornar Chrys cortou e pintou os cabelos tornando-se a loura que Tito diz ter conhecido imediatamente ao rompimento de um namoro com um sujeito que as informações por ela me dadas e pela minha confessada implicância o julguei prepotente e até megalomaníaco, não pelo nome de um grande país que ostentava no sobrenome que fazia questão de ressaltar e que lhe fora útil enquanto durou a ditadura com seus alternados ditadores, pois seu pai era general e como tal detinha parcela dos usurpados poderes da República.

Um tipo estranho esse namorado dela com sua completa dependência materna, um filho único que além das estrelas do pai usufruía do soldo para a mãe legado quando falecido e este acrescido do salário de uma empresa pública, dentre tantas nas quais alguns militares mamaram as generosas tetas.

Seu perfil não é novidade em livros ou mesmo almanaques de psicologia masculina. Separava as mulheres como as de casar e as de trepar. Às primeiras dedicava-lhes a imagem da mãe e as segundas considerava como putas. É lógica a conseqüência, vive com a mãe e jamais se casou.

Contava vantagens e armava truques, ora anunciando vender luxuosas propriedades jamais tidas, ora presenteando a namorada com grosseiras imitações de grifes famosas. Não enganava ninguém em qualquer das hipóteses e, quando deixado, tentou pirraças típicas de filhinho da mamãe, como pedir de volta os presentes que dera ou ameaçar tornar públicas confidências e intimidades do casal.
Tudo em vão, pois Tetê de galinha tornou-se águia. Não devolveu nada, vendeu barato a bolsa como falsa mesmo, usa hoje uma Gucci verdadeira, artefato cuja maior utilidade foi lhe ter sido dada como jocosa atitude destinada a diferenciar o falso do verdadeiro, sugestão que por Tito me foi dada e que acrescento servir para as bolsas e para as pessoas.

E por duas vezes Tetê foi casada.

A primeira com o pai de seu filho, de quem ela pouco fala, mas que dispensa ao menino razoável atenção, sendo parcimonioso apenas na ajuda financeira para a sua criação, pois afere modesto ganho no trabalho, ao qual, porém, bastante se dedica.

Com o segundo marido o casamento foi mais duradouro e por diferentes realidades passaram. Empresário de construção civil se aliara a pessoa influente em decidir concorrências públicas e progrediu em obras que proporcionaram ao casal por um tempo vida confortável. Na derrocada, perdida a influência do amigo, tornou-se a empresa insolvente e, por ser sério nos negócios ignorou as regras do capitalismo, pelas quais se separam as pessoas físicas das jurídicas, e honrou compromissos da empresa com seus bens particulares o que gerou o empobrecimento do casal.

Mas Tetê lhe foi parceira na adversidade, entregando à venda seu próprio automóvel, assumindo inteiramente as fainas domésticas, cortando gastos e se conformando com as privações. Dele tenho boa impressão por ter quando da separação, ocorrida por motivos não ligados à vida financeira e sim em razão de infidelidade praticada com uma sua funcionária, construiu e deixou para a ex-mulher uma casa que enquanto era construída, embora em quartos separados, continuaram morando juntos com o menino que afinal ajudara a criar.

-Mas nessas três experiências não conseguia ser eu mesma e sempre ignorava as minhas próprias vontades, sempre cedendo para não criar atritos, mas subjugada pelas clássicas atitudes machistas geradas ora por mero exercício de poder, ora por infundados ciúmes.

Assim me resumiu Tetê dizendo-me que hoje se sente ela mesma.

Tal consciência e independência me demonstravam que eu necessitava consertar as coisas em minha vida e não mais queria dividi-la com Tito, a queria livre de artimanhas, representações, conflitos, culpas, mistérios, casos amorosos mal concluídos, mágoas e mentiras.

Mas como me livrar de tudo o que me impedia de consertar todas as coisas para evitar tais conseqüências?
Como insinuar que, talvêz, ela pudesse estar namorando gêmeos?
Por mais que pensasse não achava saída mais realista e factível a não ser tomar uma decisão drástica, radical, extrema.

Eu queria parar de contar histórias e apenas queria guardar na memória o que alegre me era recordar.

E numa manhã de sol irradiante a ponto de me fazer feliz e forte, procurei meu ponto final.

Exatamente como um fundamentalista se alimenta de seu próprio fanatismo, acordei cedo, tomei banho e me barbeei.

Fora um fundamentalista muçulmano sairia assoviando de casa para seqüestrar e projetar aviões contra prédios e torres, morrendo junto aos que mataria.

Fora um fundamentalista cristão culparia os judeus pela morte de Cristo, culparia Judas por traição e admitiria Jesus ter nascido de uma mulher virgem.

No primeiro caso eu seria um suicida para quem a morte é a maior glória e suportaria as atrocidades e violências cometidas pelos americanos onde mais eles pisam como no Afeganistão ou no Iraque sem entender que jamais serão vencedores contra uns fanáticos que adoram morrer.

No segundo caso eu não poderia apoiar Israel pelo direito de se achar dono de todas as terras palestinas, muito menos dar Judas como traidor, pois o que significa denunciar um sujeito que passa a vida nas ruas pregando sua crença diante de todos os habitantes dos lugares pelos quais Jesus passou a dizer que queria ser traído e assassinado para então nos redimir? E também não poderia crer na existência, naqueles tempos, de inseminação artificial.

Concluo que não sou fundamentalista.

Nem mesmo sou crente, pois ler a bíblia não me foi suficiente, ainda mais quando as barbaridades nela contidas acabam virando meros símbolos a serem interpretados a gosto dos leitores ou fregueses de sua irracionalidade.

Mas se são símbolos e não fatos, que contribuição moral nos pode dar a história desse tal de Abraão? O fundador das religiões monoteístas e de sua família, especialmente seu sobrinho Ló? Nem como fatos, nem como símbolos se justificam o que dele a bíblia conta. Pelo que se lê vivia bêbado, mas não tão bêbado para deixar de engravidar suas duas filhas e bêbado não estava quando ofereceu as filhas então virgens para que delas se servissem no lugar de dois anjos mandados por Deus para salvar esta nada sagrada família e que ele escondia em sua casa. Sendo essa gente merecedora das graças divinas, até concordo com a destruição de Sodoma, pois como seria o resto?

O bem, digamos deus e o mal, digamos satanás, são classificações morais que, com ou sem religião, são necessárias à sociedade humana.

O que não são necessárias são as religiões como nada necessária é a crença no juízo final pelo qual serão medidas as nossas atitudes, sob absurda promessa de vida eterna.

Meu amigo Tito, certa feita, me disse a respeito que essa história de religião é fruto do primeiro e básico inconformismo humano com a morte, assim como essa história de viagem interplanetária o é do segundo inconformismo básico do homem, ou seja, estar só no universo.
O que sempre pergunto aos que crêem no juízo final se refere aos seus próprios fundamentos, o bem e o mal e a esperada avaliação que premia ou castiga. As coisas do bem são valorizadas por deus e o satã representa o mal.
E o que de proveitoso há em termos tido outras vidas se nada nos lembramos das vidas passadas?
Ora, para os que crêem deus criou o Universo, ou seja, criou todas as coisas nele existentes, criando o bem e o mal. Assim, deus, que não teve sua causa primeira, ou seja, ninguém o criou, inventou de criar o capeta e, assim, criou um armagedão.
- Por que diabos, deus fez isso?
Dá para entender?
Mas como fé nada tem de racional pelo menos se pode ler a bíblia como apenas uma história, sem precisar acreditar, assim como lemos as histórias daquele monte de deuses gregos sem que nos obriguem a neles acreditar e sem nos expor às suas iras divinas.
Assim me sentido confortado e nada temente pelos juízos mesmo divinos, fui ter com Tito que como bom amigo me deixara em paz com Tetê e para o qual eu tinha lá meus planos, mas me era evidente que ele também os tinha e neles Tetê estava inclusa.
Eu sabia o que lhe dizer, mas não o que dele ouviria.
-Tito meu caro amigo, passamos tantos anos juntos na vida que muitas foram as vezes que eu não sabia o que fazer, onde fazer, quando fazer, se não fosse sob sua marcante tutela.
-Estou achando você meio estranho hoje desde que o vi de bíblia na mão e pensei ter lhe deixado feliz por eu ter abdicado da Tetê.
-Muito feliz, um pouco por Tetê e outro tanto com a minha decisão de me afastar de você, embora muito tenha de lhe agradecer pelos bons momentos que juntos vivemos.
-Mas como irei ficar se me afastar de você? Eu penso o que você pensa ou me deixa pensar, ou seja, não sei pensar sozinho e nem sei se tenho meus próprios pensamentos ou se sempre os tomo de você.
-Exatamente isso. Esse é o nosso problema comum, pois sentindo o mesmo estamos com nossas vidas misturadas até à medula, estamos visceralmente ligados, como um corpo bicéfalo.
-Mas meu querido companaheiro, ora travestido de narrador capenga nem estamos mais tão juntos assim. Não trabalhamos mais juntos, você acabou de obter seu cartão de aposentado, passando a receber a merreca oficial insuficiente para prosseguir em nossas andanças pelo mundo. Mal nos encontramos verdadeiramente vivendo juntos. Não desejamos mais as mesmas mulheres mas confesso que Tetê é a exceção. Por que tanta aflição?
-Bem, o que fará se eu me for de vez?
-Tenha a certeza de que você já se foi de vez e que serei para sua filha Tatiana o que sempre fui para a minha Karina, o melhor pai que eu souber e puder ser. Bem como serei para Tetê o marido que você não pôde ser. Já estamos vividos demais para termos um do outro tanta necessidade, nem mesmo os nossos conflitos estão mais presentes. Estamos assim como numa simbiose ou numa convergência total. E saiba que, por você ter se aposentado, não mais existem um marido, um professor e um advogado, ou seja, você não é mais nada, nem mesmo o meu outro lado, meu alter ego. Entenda a minha necessidade de viver sem você.
- Claro que entendo e talvez eu possa ainda continuar narrando a sua história bem mais tranquilo, mas digo-lhe que sempre fui sabedor do amor de Tetê por você e dela renuncio também, se é que algum dia e a tive inteiramente.
- E ficará muito mais tranqüilo não sendo mais nada, sepulto em mim meu amigo, tenha a certeza disso, pois lhe darei a tranqüilidade de um túmulo
E foi essa a nossa derradeira conversa a correr amena e sincera. Por antecipação sentíamos saudades um do outro. Eu que sempre pensara e previra morrer junto com o meu amigo Tito, mas se nele morri, morri para todos e para sempre.
-Estou conformado e entendo porque você me matou, encerrando a nossa conversa e afirmando meu amor você.
-Pra mim fui eu que o matei e lhe vejo deposto da vida, coberto de flores amarelas, sua cor preferida, vestindo minhas próprias roupas. Me despeço com saudades e sem nenhuma culpa, além de impune por poder usar seu corpo inteiramente, por inexistirem provas nem de sua morte e nem mesmo da sua própria existência.

O matei porque não poderia mais tê-lo em mim ou para vencê-lo no número de casamentos e, assim como Tetê não pode viver sendo a Chrys, nem Getulio Vargas sob a tutela dos militares e nem estes mais puderam humilhar o povo brasileiro.


Biografia:
Advogado, professor universitário, poeta, compositor. Livros publicados: Direito Alternativo do Trabalho. LTr Ed. São Paulo, 1984(direito);O Progresso da Ordem e o Direito Alternativo. Fabris Ed., Porto Alegre, 1986 (direito);Sindicalismo. Estudos Em Homenagem Ao Prof. José Martins Catharino. Coord. Arion Sayão Romita. Ed. Ltr. S. Paulo. 1986(direito); Chorei & Ri- Ed.2006 (poesia). VIII Antologia Nau Literária, Ed.komedi, Campinas, 2007 (poesia) CD gravado: Toca na Toca, 2007. Correspondencia em E-mail: paulonca@hotmail.com. SITE:http://www.paulon.recantodasletras.com.br Os textos aqui publicados são protegidos por Licença Creative Commons.Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao Autor Original (cite o nome do Autor e o Link para a obra original: http://recantodasletras.uol.com.br/autores/paulon). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas..
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