Login
E-mail
Senha
|Esqueceu a senha?|

  Editora


www.komedi.com.br
tel.:(19)3234.4864
 
  Texto selecionado
Violinos e britadeiras
Direitos reservados BN/EDA-RJ
Fabbio Cortez

Ele havia de viver com a mínima dignidade, não era possível! Para tal, além de outros serviços concomitantes, Antônio metera-se com esta espécie de ofício: pilotar motocicletas sem rodas, sem selim, compostas só de um guidão trepidante dos infernos.

     Lenha das bravas defender o pão à britadeira.

     Depois de cumprir o dia, mal chegou a casa - na realidade um microscópico apartamento enxertado na boca podre dos arredores da zona portuária - pôs para tocar o Allegro inicial da Primavera de seu homônimo veneziano. Há tempos vinha fazendo assim: tentava compensar o aço da lida com a maciez de um opus célebre. Se não vivaldiasse, beethoveneria, porque, não fossem as afamadas Estações, ser-lhe-ia útil a bucólica Sexta de Ludwig, com sol, chuva, tempestade; estava era disposto, como de costume, a desfazer-se em poesia bucólica. Tinha lá seus bons discos clássicos, adquiridos nos sebos cujos corredores escarafunchava como rato à procura de migalhas, uma das poucas vaidades a que se dava direito.

     Gostava de experimentar, mesmo que artificialmente, um pouco de natureza dentro daquela caixa de sapatos onde se ocultava do mundo, entregar-se à classe dos animais livres, mas despindo-se da bestialidade inerente, administrando-a no instinto. Fosse qual fosse a condição atmosférica proporcionada por seus velhos discos, desejava naquele momento o pisar de mato, ou uma bela caminhada na areia, fizesse calor ou frio, um quebrar do paradigma urbano.

     “Ah se eu tocasse violino...” meditava no chuveiro frio, enlevado tal qual todo mortal com o mínimo de alma fica na presença de arte fina, “Ah se eu tocasse... seria capaz neste instante de compor músicas primorosas...” Seria nada, pois o peão, embora de certa sensibilidade dentre a maioria dos broncos com que lidava no cotidiano, não tinha muito de dons intelectuais, só apreciava. Mas voltemos ao que interessa: o caso é que Antônio, para tentar o paliativo, punha as orelhas sobre o erudito do tema, acústica de qualidade a tímpanos massacrados pela maldita arma de trabalho. Já lhe era isso algum alento.

     Saiu do chuveiro e tomou a cama toda com a abertura dos braços, pernas e cabeça. Cabeça? Sim, pois o mais difícil de "abrir" ele abriu, a mente cheia de estorvo, como há muito não fazia, e o arrebatamento do gênio prosseguia com suas cordas perfeitas, tornando o cubículo mais afável, e sua respiração assim a equalizar-se gostosamente na barriga: “Que bonito, como esses caras criam coisas assim?...” Ordenou aos olhos a morte passageira dos santos, tentou relaxar as mãos de pedra. No início não deu, dava era uma aflição nos pulsos, nas juntas gerais do corpo. Foi difícil, mas após muito martírio acabou por dormir.

     As mãos da mulher de sua vida entrelaçaram-se às suas, os olhos dela no cerne dos seus, vez em quando um beijo a borboletar-lhe adolescentemente o peito, o livre-arbítrio conjunto num lugar fabuloso, amplo e natural como deveria ser vasto e puro o mundo só dos dois: riachos límpidos, gramados e frescores, o azul todo feito de céu; então mais beijo, a juventude encapelada no âmago, a entrega plena, e agora era um salão enorme, um concerto lindo, primeiros violinos, segundos, violinos intermináveis, delirantes, e ele a admirando aderente, gemendo “Como é linda, meu amor, como é perfeita”, e a amada em resposta sorrindo, regozijando, que demais, oh! era quase uma dor.

     Esteve com ela a noite toda. Mais uma vez. Porém desta feita o sonho fora mais intenso, espirituoso, mais real que o real. Acordou suado, feliz. Era o sinal, sentia ser aquele o dia de conhecê-la, sua luminosa fêmea, senhora de sua vontade. Sabia dela o desenho do rosto e o contorno do corpo, conhecia nela os menores detalhes, o riso alegre, o formato dos dentes, as delicadas maneiras das mãos, o tremular nervoso das pálpebras, o jogar sutil dos cabelos, as nuances da voz. Caprichou no banho, saiu ao trabalho, a intuição lhe gritava "Sim, era o dia".

     Virou estátua. A máquina, calada de seu ruído de bomba, acompanhava-lhe a imobilidade ridícula: era ela, seu amor, seu apego futuro, a figura com quem sonhara todos esses anos. Estava ali, viu-a inteira, tão perto, com o mesmo sorriso, mesma aura, mesmo tudo, adorável, à sua frente.

     Mas a moça sequer o notou.

     Ao saltarem do luxuoso carro, porta traseira aberta pelo motorista de paletó e quepe impecáveis, quem de relance viu Antônio foi o cavalheiro que a acompanhava, envolto num admirável terno de jeito italiano, um brasão todo complicado colado no peito; o rico percebeu de relance o homem empunhando aquele aparelho rude, de macacão encardido, a mirar-lhe boquiaberto a esposa. Não sabia que o coração do operário é que fazia as vezes da ora inerte ferramenta de trabalho, dando-lhe duras pancadas por dentro, latejo de aflito.

     O casal, abotoado num abraço fino e prazenteiro, após cumprimentar o gerente geral, que o recebia com gestos de honra, entrou na agência do banco de sua propriedade para a visita anual de praxe.

     Allegro nenhum. Naquela noite, estava decidido: iria se entupir de desgosto e aguardente. No canto escuro de um bar, onde um velho rádio rangia canções descartáveis, Antônio não chorou pouco, e lembrou em lampejos que na manhã seguinte teria novamente de domar a bendita britadeira, sua impetuosa companheira do asfalto.

     Balbuciando dentre as lágrimas, perguntava a si mesmo por que sua "outra metade" não podia ser uma simples trabalhadora, comum como ele, por exemplo aquela moça ali que, silenciosa e de olhos tristes, passava com a vassoura um pano úmido entre as mesinhas. "Bonita ela", pensou, "só está um tanto maltratada, a pobre... assim como eu".

     Antônio foi ao lavatório do bar e reconstruiu o rosto. Tomou coragem:
     - Ei, com licença...
     - Pois não?
     - Perdoe-me a indiscrição... hã... você é sozinha?
     - Desculpe-me, amigo, mas... pra que você quer saber?
     - É que estou meio triste, sabe? precisando conversar um pouco, e a última coisa que quero é arrumar confusão com o marido de alguém, o namorado..., você entende.
     - ... Eu e Deus.
     - Prazer, meu nome é Antônio.
     - Sério? O meu é Antônia – contou a moça rindo do acaso.
     - Que coincidência! Só falta agora você me dizer que gosta de música clássica – disse um Antônio descrente e constrangido por fazer comentário tão improcedente. Temia ser tomado por louco. Mas ali, naquele instante, queria ser ele mesmo, direto, sincero, rasgado.
     - Como você sabe? Só ouço isso, cara - expressou a moça, admirada.
     - Está me gozando? Você gosta mesmo?
     - Estou dizendo...

     A partir daquela noite, Antônio tinha outra mulher a protagonizar-lhe os sonhos. E desde então o som da britadeira se lhe tornou tão bonito de ouvir quanto um violino de Vivaldi.




Biografia:
(Administração de textos — Equipe editorial) ......................................................................................................................................................... Carioca com formação em Letras, Fabbio Cortez é poeta, escritor, revisor, copidesque, consultor estilístico para obras em prosa e poesia, instrutor de técnicas de redação e de caligrafia, consultor de estilo de escrita e leitura, fomentador voluntário para um Brasil mais literário, além de analista da Qualidade Total. | Integra várias antologias, como a I Antologia de Poetas Lusófonos (Folheto Edições, 2008 - Portugal), obra lançada em Lisboa, Zurique, Paris e Rio de Janeiro, e festejada pelos presidentes do Brasil e de Portugal; e em várias edições da Antologia virtual "Saciedade de Poetas Vivos", em que constam nomes consagrados como Affonso Rommano de Sant'Anna, o imortal Lêdo Ivo, Ferreira Gullar e o multimídia Arnaldo Antunes. | Fabbio Cortez é autor do livro de poesia intitulado “Público Cativo”, Oficina Editores, Rio, 2007 - lançado na Bienal Internacional do Livro, Rio -, prefaciado pela multiartista Leila Míccolis, escritora de livros, tevê, cinema e teatro. Escreveu também "Cada dor que anda na rua (perVersos Urbanos)", Editora Blocos, Rio, 2010), obra elogiada pelo crítico literário, jornalista e poeta contemporâneo Tanussi Cardoso. | Cortez é membro da APPERJ - Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro, da UBE/RJ - União Brasileira de Escritores e acadêmico correspondente da AACLIP - Academia de Artes, Ciência e Letras da Ilha de Paquetá, lugar que ama e onde morou. | Também é autor do livro de Contos "Saudade à queima-roupa", Editora Outras Letras, 2011, com noite de autógrafos na Livraria da Travessa - Barra Shopping; e "O mundo perfeito (e outras ficções), Editora Sapere, 2012, de que foi membro do Conselho Editorial, com lançamento na antiga livraria Nobel - Norte Shopping, com orelha do professor Pós-Doutor em Literatura Carlos Eduardo de Almeida. Entre outros escritos sob pseudônimo, lança em 2017 o livro Pequenos acertos no português falado, primeiramente em versão eletrônica.| Fabbio tem várias outras obras concluídas, aguardando o momento certo para publicação. Além disso, trabalha sempre em novos escritos em verso e prosa e seu material literário consta em inúmeras revistas eletrônicas no Brasil e no exterior. | O nome real de Fabbio Cortez é Fábio Cosme Neves Cortez ("Fábio" somente com um bê e com acento), mas seu filho chama-se Fabbio Gabriel (com dois bês e sem acento, justamente para corroborar seu nome artístico). Além de Fabbio Gabriel, tem uma filha amada, Marianna. | Para falar com Fabbio Cortez profissionalmente: contato@fabbiocortez.com | Conheça-o um pouco mais também no site fabbiocortez.com e no portal cultural "Blocos on Line" - www.blocosonline.com.br. | Fabbio Cortez agradece a todos os seus leitores e leitoras, tanto do Brasil como de Portugal, Angola e Cabo Verde, além do de outros países de língua estrangeira. | Tem como principal pseudônimo e eu-narrador o polemista Pietrus Taliger. ......................................................................................................................................................... Referências: escritor Fabbio Cortez; poeta Fabbio Cortez; writer Fabbio Cortez; poet Fabbio Cortez; Fabbio Cortez is a brazilian writer and poet. | Fabbio Cortez – Author
Número de vezes que este texto foi lido: 20696


Outros títulos do mesmo autor

Poesias Insaciável Fabbio Cortez
Contos Violinos e britadeiras Fabbio Cortez
Poesias Beijo bendito (ou Modos de dizer) Fabbio Cortez
Poesias Aproveitando a homofonia... Fabbio Cortez
Poesias Canto assim Fabbio Cortez
Poesias À musa Fabbio Cortez
Poesias Querer-mais Fabbio Cortez
Poesias Seja como for Fabbio Cortez
Artigos Vontade de guerreiro Fabbio Cortez
Poesias Avenida central Fabbio Cortez

Páginas: Próxima Última

Publicações de número 1 até 10 de um total de 43.

  Envie este texto por e-mail
Digite seu nome:
Digite seu endereço de e-mail:
Digite o nome do destinatário do e-mail:
Digite o endereço de e-mail do destinatário:

escrita@komedi.com.br © 2017
 
  Textos mais lidos
A Dama e o Valete - Talita Vasconcelos 182593 Visitas
PÃO E CIRCO - Tércio Sthal 146714 Visitas
Era uma casa grande - helena Maria Rabello Lyra 146303 Visitas
E assim foi a nossa história... - Nandoww 128162 Visitas
Esse mês de Julho... - Nandoww 67239 Visitas
Transgressão do Dever - helena Maria Rabello Lyra 64096 Visitas
Carta a um amor impossível - Carla (Fada) 58323 Visitas
ENTENDA DE UMA VEZ POR TODAS O HINO NACIONAL - Fabbio Cortez 57571 Visitas
Fazendo amor - Milena Marques 57309 Visitas
Há uma urgência do amor.. - Sabrina Dos Santos 53392 Visitas

Páginas: Próxima Última