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8 de setembro de 2010
   
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Rio Formoso
Emil de Castro

Rio Formoso

Era menos um. Pedro Albuquerque, rosto cerrado, cabelos desgrenhados, no extremo de sua resistência sabia que a luta era impossível. Vencer não passava de um pensamento latejando no abismo de um pesadelo, na fração de segundo de um cochilo. A resistência era a grande vitória até o último combatente. Era menos um a cada assalto brutal de Calabar, sanguinário na sua sanha implacável.
Eram apenas 20. Nada mais. Pedro Albuquerque não queria admitir aquele número que avançava avassalador. Homens de têmpera - narrara o historiador que a tudo assistia do seu refúgio. Mesmo que fossem 10. Ou 5. Todos à espera de seu momento de ascensão.
-- 600 porcos holandeses! Que sejam mil! Aqui estaremos de pé à espera do porco traidor!
Rio Formoso era um minúsculo reduto.
Dois canhões. Um comandante. Do outro lado, Calabar, na frente dos seus 600 homens. Um assalto brutal.
- Nada de covardia! - berrou Pedro Albuquerque esbofeteando um ser pálido, esquálido, esfarrapado. Não quero ninguém se cagando de medo na minha frente. Um homem ou um rato!
O ser esquálido, de repente, mostrou a luz de sua grandeza. Maior que todos. Cresceu como um gigante. O primeiro a se arremeter contra a sombra que crescia à sua frente. O ser esquálido, pálido, esfarrapado, voava como um pássaro por sobre as cabeças. Seus olhos eram uma fogueira que ardia.
Pedro Albuquerque viu como seria infinita a sua vitória. Algo lhe parecia como se comandasse 20 deuses olímpicos, imortais, que jamais seriam derrotados.
Lá fora o tempo estacionou.
Calabar compreendeu que essa seria a sua grande derrota. Seu instinto lhe avisou que jamais conquistaria aquele reduto com vida. Isso para ele era mais que uma derrota, era uma vergonha.
O historiador anotou no seu bloco: "Rio Formoso não se renderá. Riscou. Não se rendeu.".
O forte resiste. Quatro arremetidas, quatro ataques. Os seres vão morrendo, um a um, e deixam o chão coalhado de cadáveres dos invasores.
Calabar vocifera.
- É melhor se renderem!
A voz de Pedro Albuquerque trovejou.
-     O forte não se rende a filho-da-puta traidor!
Nova arremetida.
O canhão silenciou.
Pedro Albuquerque sente que a vitória é sua. Aquele corpo cravado no chão, retalhado, no meio dos despojos dos seus heróis, ainda estava vivo.
- Vencemos!
Seus olhos resplandeceram.
- Vencemos!
Uma música de vozes se espalhou pelo ar, num uníssono que subia dos corpos retalhados.
O historiador sentiu um arrepio. Anotou mais uma vez: - Calabar foi derrotado.



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