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O CONTO DO REI DA MONTANHA
Ronei de Jesus


(Este conto foi inspirado na música “O Conto do Sábio Chinês”, de Raul Seixas)


        O CONTO DO REI DA MONTANHA

Pan Padul, o Rei da Montanha, sonhou que era uma borboleta.
    No sonho suas asas eram belas, sutis como pétalas de rosas e de um azul transparente, igual a água cristalina, e com elas ele sobrevoava campos carregados do fulgor primaveril, deixando-se levar suavemente pelo vento, fluindo sob um sol que refletia cálido e dourado em riachos e córregos barulhentos.
    Era um lindo sonho, definitivamente o mais belo que Pan Padul já vivera. E também o mais real. Sim, profunda e assustadoramente real, em tal nível que quando despertou, fora o rei acometido de súbita e pavorosa confusão: por um momento de fugaz desespero, Pan Padul esquecera-se de quem realmente era e da vida que verdadeiramente lhe pertencia, uma vida de abastança e prazeres que ele, indisfarçavelmente, amava.
    A partir daquele sonho, entretanto, Pan Padul esmaecera, afundando num desânimo angustiante conforme sentia espaçar em seu íntimo um profundo vazio, como se todo o fulgor e energia lhe tivessem sido roubados. Por isso, o mundo à sua volta desbotara junto consigo. Nada mais tinha graça ou fazia sentido. Já não ia mais aos jardins escutar o canto dos rouxinóis, ele já não o deliciava e entorpecia. Seu velho alaúde, companheiro de tantos entardeceres frescos e pores do sol malhados de um ouro tão magnífico que faria qualquer dragão não sossegar até abocanhá-lo, agora adormecia mudo e taciturno sob a poeira de um canto escuro, esquecido.    
    “Está gravemente doente, definhando como uma árvore podre”, as pessoas diziam. E estavam certas, é claro. Pan Padul tinha o espírito enfermo.
     A causa de tudo isso era, simplesmente, que Pan Padul estava confuso. Sim, porque desde que abrira os olhos àquela manhã, o Rei da Montanha já não sabia se era Pan Padul, da Montanha En, que sonhara que era uma borboleta ou uma borboleta sonhando, enquanto isso, que era um rei cujo palácio erguia-se numa alta montanha.
    Esta dúvida o estava torturando e, clara e inevitavelmente, matando aos poucos. Pan Padul, então, decidiu viajar até o Oráculo do Sábio Espírito e ali buscar aconselhamento com o Mais Velho.
    “Eu já não sei mais quem sou, óh Mais Velho”, lamentou-se Pan Padul ajoelhado perante o Mais Velho, cujo espírito idoso abrigara-se à Mãe das Árvores, tão velha quanto o Mundo. “Já não sei se tudo isso é real ou se não passa de uma ilusão, apenas. Diga-me, óh Mais Velho, aquele cujo sagrado espírito remonta aos primeiros dias, sou eu, Pan Padul, da Montanha En, fruto de minha própria mente enquanto acho-me adormecido?”
    A voz do Mais Velho era onipresente, terrível e ao mesmo tempo apaziguadora, como se trazida pelos quatro ventos e ressoando dos recônditos do coração da terra.
   "As respostas que procura somente você possui, e o caminho para encontrá-las é através da meditação."   
    E assim Pan Padul o fez.
    Retraíra-se do mundo como um esquilo aguardando o fim do inverno, e durante um longo tempo voltou-se para o seu interior, refugiando-se na sua mente, conhecendo-a e buscando fervorosamente o seu verdadeiro eu. E quando por fim alcançou-o, a essência da vida desfraldou-se deslumbrantemente diante dos seus olhos, agora sarados da cegueira pela qual – ele via agora claramente – sempre estiveram velados.
    Pan Padul libertara-se. Já não era mais a criatura fraca e vulnerável que costumava ser. Atingira o Divino, e nada que estivesse distante ou indiferente à Ele o atraía. Estava pronto para acordar. Sim, pois agora ele sabia não passar, juntamente com o mundo que enxergava, de uma ilusão pairando no seu subconsciente. Era um sonho intenso e apreciativo, mas que já estendera-se demais, tornara-se cansativo.
    Antes, porém de ir ao encontro do seu eu verdadeiro, o Rei da Montanha fez uma última visita ao Mais Velho.
    Prostrado diante do esplendor e imponência delirantes da Mãe das Árvores, ele o saldou.
    “Óh, Mais Velho, quem vos fala hoje é um novo Pan Padul, cujos olhos foram lavados da poeira que os cobria e conquistou os segredos de sua própria mente. Por isso, ele não vê mais sentido em permanecer sonhando. É hora de acordar.”
    Passou-se algum tempo para que o Mais Velho finalmente falasse, como se despertasse de um sono longo e profundo, sua voz ubíqua trazendo a música das folhas contra o vento.
    “O homem que procura o conhecimento está em constante evolução, mas o homem que finalmente o alcança é venturoso, porque somente desse modo a alma se liberta do carma que pesa sobre a ponte entre a vida e a morte.
    “Entretanto, uma vez alcançado, o conhecimento não deve permanecer oculto, do contrário, de que servirá? O conhecimento não compartilhado implica no egoísmo, e o egoísmo não cabe dentro do Divino. Semeie o mundo com gentileza e ele será gentil; semeie o mundo com violência e ele será violento; presenteie o mundo com o conhecimento e ele estará liberto, lavado de toda impureza e corrupção.
    “Assim, digo a você, Pan Padul, da Montanha En, bem-aventurado por ter livrando-se da poeira que tampava-lhe a visão, não estará livre até que cumpra o objetivo que lhe está incumbido nesta existência. O fato de o seu verdadeiro eu está em outro plano não o dá o direito de dar às costas à este, ainda que seja ele uma ilusão.
    “Leva ao mundo segundo os teus olhos a dádiva do conhecimento e poderá, enfim, acordar.”
    Foi assim, então, que Pan Padul, buscando cumprir seu real propósito para com aquele plano, iniciou, junto a seu pajem, Akil, o laufun, sua longa jornada pelos quatro cantos do Mundo. Antes de fazê-lo, no entanto, o Rei da Montanha retraíra-se uma vez mais, dissecando seu reflexo e expurgando, assim, a alma de toda impureza que, apesar de muito bem camuflada, ainda a impregnava.
    A libertação somente é alcançada por meio do sacrifício, compreendera finalmente Pan Padul, que através desse conceito compusera a Sinfonia do Despertar, cuja essência nascera no âmago do seu eu verdadeiro para fluir das cordas de seu alaúde juntamente ao sopro mágico da flauta de seu jovem servo.
   Sobre o dorso do panda-gigante da Montanha En, Pan Padul viajara do oriente ao ocidente, numa jornada que levara todo um terço da sua vida. Nesse ínterim ele fora chamado de mais nomes do que uma mente jovem é capaz de lembrar; o Sábio da Montanha, o Caminhante Incansável, o Mendigo Trovador, o Montador do Grande Panda-Branco, Aquele-que-Enxerga-Longe, o Louco da Montanha, o Monge-que-Acompanha-o-Sol... cada qual pontilhando uma etapa da rota de seus passos, precedendo sua chegada e germinando à sombra de sua partida. Fora elevado e ovacionado, excomungado e desprezado, o que, em suma, serviu para o Rei da Montanha ponderar, se afinal, seu sacrifício já não fora suficiente. Por quanto tempo mais teria de renunciar à sua liberdade, ao seu eu verdadeiro?
    A resposta veio tão natural quanto inesperadamente.
    Houve, pois, que certa vez, numa das suas apresentações, fora Pan Padul interrompido bruscamente por um dos espectadores, que erguendo-se acima da multidão bradou, resoluto:
    “Ah, aos demônios com seus conselhos! Quem há de afirmar que você não é uma mentira?”
    Sim, era exatamente o que ele era, uma mentira no centro dum mundo mentiroso. Sua mensagem, todavia, já fora espalhada, o terreno fora semeado e regado, mas estava além das suas mãos fazê-lo dar frutos.
    Deveria, por fim, despertar!
    “E como pode-se despertar, mestre? Quero dizer, além da concepção?”, perguntara-lhe um dia Akil.
    “Morrendo para este mundo”, respondera Pan Padul.
    Assim, após um longo tempo, Pan Padul retornou à Montanha En, envolta nas nuvens que subiam rodopiantes a coroar seu cume quebrado, onde os pináculos de sua antiga morada apontavam corroídos para os céus.
    Ali, uma última vez, foi ter em presença do Mais Velho.
    “Óh, Mais Velho”, disse prostrado sobre um dos joelhos, o alaúde, cujo brilho desbotara com o tempo, ainda descansando nas costas curvadas, “visita-vos hoje um Pan Padul que retorna e está de partida, definitivamente. Sim, o encontro com o meu eu verdadeiro se aproxima. Este mundo já não me diz respeito, minha dívida para com ele está paga. É hora de acordar!”
    À voz grave do Mais Velho, Pan Padul sentiu, hesitante e levemente abalado, as árvores à sua volta estremecerem com o mesmo chiado nervoso das folhas mortas sob seus pés. Podia sentir a presença do Sábio Espírito sobre ele, um manto pesado a cobri-lo, agora mais opressora do que jamais sentira.
    “Pan Padul, da Montanha En, o mal que te assola é a pressa, e ela deverá ser a tua desgraça. Tua hora ainda não é chegada.”
    Como se perfurado por uma faca, Pan Padul irrompeu em fúria, os pés afundando com força no chão conforme se erguia, como se temesse ser levado pelo vento, que assobiou igualmente furioso, embaraçando sua longa barba, branca e fina.
    “Pressa?! Dediquei metade da minha vida em prol de varrer a poeira dos olhos dos outros, também. Lutei para que não permanecessem imergidos nesta ilusão, nesta mentira”, gritou abrindo os braços, abarcando o ar à sua volta. Então se conteve, a voz se transformando num tom suave – a felicidade invadiu-lhe o espírito, confortando-o. “Seja como for, isso já não importa. Você já não importa, óh Mais Velho, porque assim que dar-lhe às costas, tal qual tudo que ficar cego aos meus olhos, terá se apagado, deixará de existir!”
    Assim, com o coração leve, Pan Padul virou-se, o vento açoitando violentamente suas vestes, e foi-se embora, abandonado a Mãe das Árvore, em toda sua imponência, silenciosa às suas costas.
    Em companhia de Akil, seu servo, ele subiu pela última vez a Montanha En, fazendo a escalada a pé, observando calmamente o mundo ao seu redor, e quando finalmente atingiu seu cume, libertou o jovem laufun dos seus deveres e se auto-libertou, mergulhando como uma águia na brancura das nuvens.


Biografia:

Este texto é administrado por: Jim cavezell
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