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Achados e Perdidos
Hayton Rocha

Achados e perdidos
Quem nunca passou pela angústia de ter um filho ou um irmão perdido na multidão, no shopping, na feira livre ou na praia? Para Einstein, "só há duas maneiras de viver a vida: a primeira é vivê-la como se os milagres não existissem; a segunda é vivê-la como se tudo fosse milagre."

A primeira vez que vi o mar foi aos 12 anos, no início de 1970, em frente à AABB Maceió. Meus pais se esforçavam para cuidar de nove filhos espalhados na areia, onde uns rolavam, outros faziam castelos e os mais ousados, afeitos à correnteza do Rio Mundaú, arriscavam molhar os braços e as canelas finas na espuma das marolas, encantados com o céu e o sol daquela manhã de domingo.

Minha mãe, responsável inclusive pela “segurança alimentar” daqueles matutos, trazia numa sacola mangas-espada e bananas-prata, além de algumas garrafas de água potável. Tudo transcorria muito bem até minha irmã Zuleide (Galega, seis anos) desaparecer naquela multidão de rostos e corpos desconhecidos.



“Galega! Galega!”, gritava uma mãe desesperada com a possibilidade de nunca mais encontrar a filha, sem saber se corria no rumo da favela de Ouricuri, da Praia da Avenida ou, no pior dos mundos, se procurava a menina nas ondas traiçoeiras da Praia do Sobral, que já era tida como uma das mais perigosas da cidade. E os irmãos, assustados e confusos, entreolhavam-se sem saber o que fazer, temendo agravar o quadro numa eventual dispersão.


Três anos antes, numa daquelas comilanças ao ar livre na zona rural de Patos, no Sertão paraibano, a família já havia passado por agonia parecida quando meu irmão Hélder (Dula, cinco anos, à época), ao perseguir alguns perus, embrenhou-se na mata e não soube mais retornar. A aflição foi enorme porque não se tinha a mínima ideia de onde começar a procurá-lo naquela caatinga cheia de espinhos.

Milagres acontecem. Na praia, Galega foi encontrada meia hora depois nas proximidades do Club Fênix Alagoana, sob a proteção do Corpo de Bombeiros. Na mata, o caso Dula havia sido mais complicado. Meu pai precisou mobilizar alguns vaqueiros a fazerem uma varredura como se procurassem um bezerro desgarrado, até localizar a criança, de tardezinha, dormindo à sombra de um juazeiro, com fome, sede e cansado de tanto soluçar em vão.



Vinte e um anos depois, em 1991, foi a vez de Hélio (Lica, 31 anos). Ninguém desconfiava de que ele desenvolvera um aneurisma cerebral - dilatação anormal de um vaso sanguíneo por perda de elasticidade - que se rompeu justamente numa manhã de sábado, quando se divertia jogando futebol com colegas de trabalho no campinho do clube recreativo da Caixa Econômica, em Riacho Doce. Mesmo forte e novo, ele não conseguiu recuperar-se da intensa hemorragia craniana que lhe fez desaparecer para sempre da mesa em que almoçávamos, quase todo sábado, na velha casa da Gruta de Lourdes.

Todos nós sofremos e choramos, cada qual do seu jeito, o martírio daquele novo desaparecimento em nossa família, ainda que alimentássemos a esperança de que um bombeiro, um vaqueiro ou até mesmo um neurocirurgião nos traria ele de volta. Nem tanto por nós, que já éramos bem crescidos, mas pelos seus filhos inocentes que, assim como o próprio Hélio (Lica), ficaram órfãos de pai antes da hora.

Milagres nem sempre acontecem. Viver é sobreviver para colecionar memórias numa gaveta de achados e perdidos que temos dentro de nós.


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