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Cotidiano Urbano
ARTHUR BARRAGAN VASCONCELOS

Resumo:
11-01-2018 Idéia para uma estória. Conta o cotidiano das pessoas nas ruas. Reconhece suas diferenças e as descreve afim de ilustrar a sociedade. Tem olhar humano, solidário e crítico e linguagem literária.

09-01-2018
Acorda, escova os dentes... bebe um café. A roupa está passada, disposta em cabides. Veste-se rápido, a mochila já está pronta, está na hora de pegar o ônibus. Acelera!
No ônibus, ainda com sono, desejos de alguns “bom dias”, de sua parte desanimado. Acorda zonzo e tonto todos os dias e sabe muito bem porque. É verão, início de Janeiro, as escolas estão de férias. Os ônibus andam um pouco menos cheios. Mas a vantagem de morar longe do centro é a de que consegue achar um lugar pra sentar e não precisar fazer a viagem toda em pé. Mas o primeiro ônibus ainda lhe parece a extensão da cama.
No terminal, a mudança de ônibus já exige um pouco de destreza. As pessoas trabalham nos pólos empresariais da cidade, assim os ônibus que vão para esses destinos estão sempre cheios em horários de entrada e saída das empresas. Porém, não se sabe ao certo onde esses ônibus vão parar dentro do terminal rodoviário. Com o entra e sai de ônibus, às vezes seres humanos parecem cardumes de peixes indo de um lado para o outro, seguindo o ônibus e tentando antecipar em que vaga ele vai parar para fazer o embarque e serem enlatados.
Nessa viagem fica em pé se segurando nas curvas, tentando evitar contato físico e/ou visual, o que é tolamente impossível. Olhares se cruzam, pessoas se encostam, há conflitos e uma rara harmonia se estabelece. A movimentação dentro do ônibus cheio requer habilidade que desenvolvera durante anos. Devido ao seu porte físico o homem trabalhador sustentado a prato feito de musculatura mediana necessita desenvolver sua própria maneira de andar num ônibus lotado. Basicamente é o mesmo para todos, mas depende muito das roupas que costuma usar e bagagem que carrega. A melhor forma de viajar é não se mexer muito e efetuar o movimento em momentos oportunos, meias paradas e eventual mudança de configuração do ambiente em volta.
O dia hoje está abafado. E depois de uma manhã regular, na hora do almoço é possível se fazer algo. Como ontem foi dia de pagamento, hoje pode pagar algumas contas. Envia dinheiro para pagar a escola do filho que mora com a mãe em outro município todo mês, porém como é Janeiro, é preciso comprar o material escolar. Não consegue pagar o IPTU, pois nunca sobra dinheiro nessa época do ano. Deve algum dinheiro e dinheiro lhe é devido. Aproveita e passa na casa de uma amiga para lhe cobrar cinqüenta pratas a quem emprestou para fazer uma comida no Ano Novo.
Na rua, muitas pessoas caminhando... Há algo diferente no ar... É possível sentir... As pessoas estão apreensivas, caminham mais depressa. Alguns que entregam papelzinho de compro ouro ou empréstimo fácil, etc... com um sorrisinho na cara e falando ainda mais alto. Algo aconteceu.
Aproxima-se a um grupo de mototaxistas que se agrupam em volta de um celular assistindo a um vídeo e vibram com os tiros, é possível ouvir tiros. Mencionam um bairro da cidade, longe daqui está tudo bem.
Chegando na casa da amiga, comércio fechado. Pessoas aflitas olhando ao redor. Corrente e cadeado no portão. Ela lá de dentro grita: - vai pra casa! Está tendo tiroteio nas ruas!
Rapidamente, um outro amigo que mora ao lado o chama: - vem, entra aqui em casa. – Olá, tudo bem? Ta indo trabalhar? Diz ele olhando para o uniforme.
- Sim, já fui e tenho que estar lá mais tarde. Digo eu, tentando mudar de assunto. – O que aconteceu? Teve tiroteio aqui? Pergunta surpreso. A surpresa se dá pois, mesmo sabendo que esse bairro tem tráfico de drogas forte, seria preciso mesmo um acontecimento de grandes proporções para ter efeitos lá na avenida principal onde os bancos, supermercados, drogarias e lojas varejistas estão.
- Duas Hilux, com quatro cara fuzil em cada uma delas desceram e largaram o dedo pra cima dos cara lá de dentro da favela. Pegaram quatro, um morreu na hora. E lá no outro lado da cidade, trinta homens cada um com um fuzil, hoje de manhã, invadiu a comunidade pra tomar o local e mataram mais de dez. A polícia foi chamada e ta tendo tiroteio lá também. Acho melhor você se adiantar por que senão você vai ficar sem ônibus. Disse ele, numa tentativa de ajudar.
Nesse momento sua amiga põe a cara na janela, - Cara, acho melhor você ir pra casa, o negócio não está bom por aqui não. Diz ela apavorada. Responde que sim, agradece e volta para o terminal rodoviário. Os ônibus estão funcionando, será que eles estavam exagerando? Teimosamente pega um ônibus em direção a sua empresa. O ônibus muda de trajeto e passageiros se levantam para perguntar. O motorista diz que queimaram um ônibus em uma das vias mais importantes da cidade. Essa é uma pratica comum de certas comunidades da cidade. Geralmente a mando dos traficantes locais eles param um ônibus, descem os passageiros e colocam fogo no ônibus. Há casos em outras cidades de tentativas de incendiários que colocaram fogo nos ônibus com os passageiros dentro dele.
Passando pelo centro da cidade novamente, comerciantes estão nas portas dos estabelecimentos, o clima é de medo. Todos olham fixamente para o lado de onde vêm os carros. Que fantástico! Como se o perigo não pudesse vir de outro lado. Outros, mais enérgicos fecham as portas. Mais alguns metros e o trânsito dá um nó. Pára por alguns minutos e volta a andar lentamente.
Dentro do ônibus as pessoas estão apreensivas. Uma mulher, que perguntou ao motorista sobre o trajeto que o ônibus faria, senta-se de lado em sua poltrona com um olhar desolador. Impaciente, olha para fora com indignação. Começa a ficar mais quente. Estão na sombra de um edifício, mas até onde vai este edifício? Logo o sol vai bater. Que calor! A mulher de trás de seu bando sacode a poltrona, numa tentativa de empurrar o ônibus. Se irrita e se mexer para demonstrar à mulher o incômodo. Ela pára de sacudir a poltrona dele com as mãos. As poltronas são soldadas ao piso e estrutura dos ônibus. Em sua parte de trás é possível que o passageiro que estiver atrás segure eu sua estrutura de ferro com as duas mãos. Poucos metros percorridos em mais de vinte minutos e a mulher sacode a poltrona. Vira-se e olha a mulher, uma senhora de uns 50 anos de idade com óculos enormes, que escondem seus olhos e muito de sua experiência de vida. Um pouco antes ela dizia que preferiria que fossem liberadas as drogas, que se alguém quisesse usar que plantasse em casa e colhesse, “- Quer se matar? Se mata!” Disse ela ao concluir.
Uma hora e meia depois chega ao seu trabalho, onde teria chegado mais rápido se fosse a pé. Assim, perdeu uns compromissos. O que não é problema, pois dentro da empresa estão todos apavorados querendo voltar pra casa. Aí, lhe cai a ficha... Como vou voltar pra casa?
À espera da autorização do chefe, vídeos da internet, fotos dos mortos, fotos dos ônibus queimados na cidade. - São três? – Mortos? - Não, ônibus queimados... – Não, foram quatro ônibus queimados. As pessoas discutem. – Assim eles vão parar! Como vou pra casa? Pergunta apreensivo. – Confirmada a paralisação dos ônibus. Tá aqui. Confirma um colega de serviço. - Não se preocupe, posso te dar uma carona até o primeiro terminal onde você pega o segundo ônibus. Oferece ajuda um colega. – Ok. De lá até minha casa são mais 15 quilômetros. Talvez eu consiga outra carona no caminho. Calcula, encabulado. Um certo sentimento de inferioridade e abandono invade seus pensamentos.
O chefe libera o fechamento da empresa e todos saem juntos. Escolhendo certo os caminhos pode-se fugir da confusão e rodeiam a cidade por fora e se deparam com um dos ônibus queimados. No local, um caminhão dos bombeiros apaga as chamas, população olha o estrago. Duas viaturas da polícia, fazem a escolta do ônibus em chamas enquanto os motoristas se viram como podem e se organizam pelo melhor caminho a seguir. Ao chegar ao ponto mais perto para iniciar sua caminhada, agradece e se despede dos colegas.
Começa a seguir seu caminho. Coincidentemente a garagem geral dos ônibus da cidade é no início dessa estrada. Assim, escoltados pela polícia dezenas de ônibus passam por ele indo para a garagem. Uma mulher, a quem conhece de vista, há muito tempo. Está com um bebezinho no colo, chorando na beira da mesma estrada. Ela terá que fazer toda a caminhada com esse bebê no colo. Provavelmente, ela só tem dinheiro da passagem no bolso e não há nem um comércio aberto, somente as pessoas na rua tentando ajudá-la. Devem tentar arrumar uma carona para ela.
Fica feliz por ser homem e ter forças suficiente para chegar em casa com suas próprias pernas. Nem que isso leve horas. Pensa nas pessoas que moram nas comunidades atacadas, nas que foram trabalhar de manhã e não chegarão. O que farão? E as mulheres grávidas, os idosos, os deficientes físicos da classe popular que dependem do transporte público para se locomover? Todos foram excluídos e abandonados pelas autoridades e governantes. Somente a elite, os donos de empresas de ônibus, donos de imóveis no centro da cidade, donos de empresas é protegida. A classe média que pode ter um carro acha que faz parte da elite, porém não fazem. Serão os primeiros a sofrerem quando os direitos a serviços básicos das camadas mais baixas forem negligenciados. Daí não serão apenas vinte mortos em um dia. A situação vai piorar.
Nagarrab Ruhtra


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