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A TRAJETÓRIA POÉTICA DE MAURÍCIO DE MORAES
Geraldo Affonso Pimentel Pereira de Araujo

Resumo:
Aspectos da obra poética do jornalista e poeta Maurício de Moraes.

A TRAJETÓRIA POÉTICA DE MAURÍCIO DE MORAES

Geraldo Affonso
    
   Maurício de Moraes foi um artista da palavra que merece um estudo mais detalhado que, de fato, espelhe sua exata dimensão no contexto literário do século vinte. Formou-se farmacêutico, mas entregou-se de corpo e alma ao jornalismo, tendo trabalhado em vários jornais até fixar-se no Correio Popular de Campinas, onde exerceu sua profissão com a maior competência e seriedade, até aposentar-se aos oitenta anos de idade. Maurício era um poeta do jornalismo, pois sua alma artística transparecia em quase tudo que escrevia. No entanto, não será o Maurício cronista, aliás, um dos melhores que o jornalismo já produziu, ou Maurício articulista, ou o Maurício repórter, pois ele foi quase tudo que alguém possa ser num jornal, mas o poeta, o grande poeta Maurício de Moraes que iremos abordar neste breve trabalho.
   Maurício nasceu em Ouro Fino no dia 28 de junho de 1915 e ali passou sua infância e adolescência. Sua inteligência privilegiada foi logo notada por parentes, e um dos que mais influenciaram para que se dedicasse às letras foi seu tio Agenor Miranda, a quem seus sobrinhos chamavam-no carinhosamente de Tio Zenô. Agenor, que era um homem culto e possuía uma excelente biblioteca, conversava longamente com todos os sobrinhos, mas tinha uma predileção especial por dois que iriam se destacar no mundo das letras, Maurício de Moraes, filho de sua irmã Lupércia e Antonio Fonseca Pimentel, filho de sua irmã Maria Ignácia. Ao publicar seu primeiro livro de poesias Maurício o dedica ao Tio Zenô, na época recentemente falecido, escrevendo “A Agenor Miranda mestre e guia dos meus primeiros passos a minha maior saudade.”
   O acervo total dos poemas de Maurício, ainda depende de pesquisas, pois ele escreveu muito em jornais, revistas, além de trabalhos esparsos e nunca publicados. Livros de poemas, publicou quatro, o primeiro, “QUANDO AS ESTRELAS DESCEREM”, o segundo “A CANÇÃO PERDIDA”, o terceiro , “A LUA SEM DONO” e o derradeiro batizado com o nome sugestivo de “UM CÉU PARA DEUS”.
   Vislumbrando-se as datas em que os livros de Maurício vieram a lume, percebe-se claramente que eles representam quatro fases distintas da trajetória de vida de seu autor.
O primeiro, datado de janeiro de 1939, “Quando as Estrelas Descerem” revela um jovem poeta de vinte e três anos, pleno de sonhos, com a sensibilidade à flor da pele e valorizando ao máximo os aspectos formais da poesia como pura expressão de arte.
O segundo, publicado em 1954, “A Canção Perdida” mostra o poeta beirando os quarenta anos, pleno de esperanças em tudo que gira ao seu redor, mas já demonstrando um certo ceticismo.
O terceiro, publicado em 1975, temos um poeta de sessenta anos, perplexo ante a chegada do homem à Lua e a perspectiva das viagens espaciais, há também um certo saudosismo em suas viagens ao passado.
    Finalmente, aos oitenta anos, Maurício surpreende com uma obra em que revela uma rara sensibilidade poética. A proximidade e a certeza de que a morte se avizinha, já revela um poeta melancólico, mas conformado.
   Como afirmamos, aos estrear literariamente com seu livro “Quando as Estrelas Descerem”, Maurício revela-se um jovem extremamente sonhador que procura valorizar os aspectos formais de seus poemas, no entanto, sem prejuízo da emoção que é uma de suas principais características de sua sensibilidade de artista. O exemplo que vamos mostrar é o “O POEMA DO IMPOSSÍVEL”, classificado por Agripino Grieco como uma das obras primas da poesia brasileira. É bom que se esclareça que Agripino era um dos mais exigentes críticos literários. Vale esclarece ainda que Maurício retirou o nome de seu livro desse poema.

Quando as estrelas descerem,
Brilhando como diamantes lapidados,
Eu cantarei!
Cantarei como as fontes novas no silêncio
Das auroras,
Quando adormecerem as vozes musicais da terra.
Eu cantarei aos teus ouvidos!
Cantarei a música da terra prometida,
O bárbaro poema das selvas latejantes,
E ouvirás em silêncio,
No silêncio triste dos sepulcros misteriosos,
A voz do meu ser!

A voz da minha boca!

A minha boca que se embriaga
Com o vinho trágico da Vida

E tu serás feliz,
E todos serão felizes.
Os espíritos se iluminarão de luzes e reflexos!

Quando as estrelas descerem,
Só quando as estrelas descerem!”

      E a crítica, como teria recebido esse novo poeta? Eu diria que houve uma unanimidade de elogios partindo das grandes expressões da crítica e da literatura. Vou transcrever apenas algumas opiniões.
“O Poema do Impossível é uma obra prima. Poucos chegam a ouvir as vozes musicais da terra”( Agripino Grieco)
“Poeta simples e delicado. Alma que luta por se libertar. Alma que sobe e procura, com espírito evocativo e nostálgico, a poesia em Deus”.(Tristão de Ataíde)
Öh, que alegria o encontro de um poeta! E este que veio das Minas de Drummond, de Murilo e de Dantas Mota.”(Cassiano Ricardo)
“Estamos diante de um legítimo poeta. Maurício de Moraes tem o dom de dizer. Seu verso é dos mais agradáveis, dos mais intimamente líricos e poéticos que tenho lido ultimamente”.( Mário de Andrade)
      Nesse livro de estréia, aliás, uma estréia das mais brilhantes, Maurício prometia para breve, dar a lume mais três obras. Um romance que teria o título de Êxodo, um livro biográfico que teria o título de Escobar e um de contos que teria o nome de “Lendas de todas as terras”. No entanto, a publicação dessas obras entrou no rol das promessas que se pretende cumprir, mas vão sendo sempre adiadas até entrarem no esquecimento. Na verdade, a luta pela sobrevivência, o exercício do jornalismo dos mais atuantes, acabou prejudicando sua produção poética. Assim, seu segundo livro, “A Canção Perdida”, na verdade, com uma tiragem bem menor do que a do primeiro, somente sairia no ano de 1954. Além de belos e sensíveis poemas de forma livre, como, aliás, todos os de seu primeiro livro, Maurício introduz seus sonetos nessa obra, todos em versos brancos, ou seja, sem rimas e todos eneassílabos, isto é, com onze sílabas poéticas bem ritmadas. Desse segundo livro transcrevo um de seus sonetos que o poeta deu o nome de Angústia.

Se a noite morresse, que longa tristeza!
Meus olhos veriam distâncias sem fim,
Meus passos seriam espaços perdidos,
Meu corpo cansado cairia no vácuo.

Nem luz, nem estrela veria nos céus,
Meus gestos sem rumo, meus versos sem paz,
Destinos sem glória seriam trocados,
Palavras em sombras, promessas inúteis!

Seus braços tremendo, teu corpo tão branco!
Teus lindos cabelos dançando sem palco,
Tua voz sem destino perdida no mundo!

Se a noite morresse, que longa tristeza!
Os sinos parados, que grande silêncio!
Teu canto, teu canto, morrendo em minh’alma!”
   
Tal qual prometera no primeiro livro, nesse segundo Maurício também prometia para breve dar continuidade à publicação de sua lavra poética, inclusive dando nome aos seus dois próximos livros, ou sejam. “O Canto de Marcela” e “Depois da Noite”. No entanto, essas publicações também entraram no rol das promessas não cumpridas, pois somente em 1975, ou seja, vinte e um anos após a publicação do segundo livro é que Maurício lança o seu “A Lua Sem Dono”, editado pela Academia Campinense de Letras da qual já fazia parte. Nessa obra temos um Maurício perplexo ante o que ele classifica como o desvirginamento da Lua, como bem se vê no poema VIAGEM OBSCURA:

“Desvirginaste a carne da lua
em sua fulguração lírica,
Por isso tens a responsabilidade
Do grande roubo do itinerário dos sonhos.
Maculaste as íntimas confissões de esperanças
E teu pássaro frio de aço e de fogo,
Célere como os bólidos do inferno,
Decepcionou os namorados do mundo!
Burlaste as leis do amor,
Fustigaste com chicote de sangue
Os caminhantes do romantismo
Agarrado às sobras dos derradeiros amantes,
Num mundo que ficou menor,
Mundo de fome, sem rosas e sem sol,
Mundo de solidão de vizinhos
Torturados pela visão do pecado!
Ó astronauta, soldado sem ventura,
Teu passeio no espaço tem sabor de morte,
Numa lua estéril, de crateras frias,
Numa lua desinteressada
E absolutamente de ninguém!”“.

   Além da perplexidade ante as viagens espaciais, nessa obra temos um Maurício de Moraes aos sessenta anos de idade, pleno de criatividade e sensibilidade poética. Nessa obra, Maurício não se prende a nenhuma fórmula poéticas pré-ordenadas ou regras de metrificação.   No entanto a beleza e a sensibilidade poética se faz presente em todos os poemas, a exemplo do que transcrevo:
“ATO DE RECONHECIMENTO
Nasci numa noite azul,
Tenho o azul nos olhos,
Nas esperanças,
Em caminhos do meu fim.
Nasci sob a proteção de uma estrela azul,
Eis a minha alegria e a minha tristeza!
Sou de uma tristeza efêmera
E de uma alegria sem tempo,
Nasci para rir do mundo,
Para sentir a ausência das rosas,
Para, afinal, Ter repouso
Num horizonte sem limitação.”

   Nesse livro, ao contrário dos anteriores, Maurício já não promete novas publicações. No entanto, muitos anos depois, já em 1997 e sob o patrocínio da Prefeitura Municipal de Ouro Fino, através de sua Coordenação de Cultura, já com mais de oitenta anos, Maurício de Moraes fecharia com chave de ouro sua trajetória poética com o seu livro Um Céu para Deus”. Eu considero essa obra com apenas vinte poemas, a melhor elaborada do poeta. Uma grande surpresa para todos nós, levando-se em conta a sua idade. Tal qual já esboçara muitos anos antes em seu livro “A Canção Perdida”, Maurício retorna aos sonetos em versos brancos, rigorosamente metrificados em onze sílabas poéticas. No entanto, embora sonetos na sua essência, Maurício quis fugir da aparência gráfica desse tipo de composição poética de forma fixa, não os dividindo nos clássicos dois quartetos e dois tercetos.
“ Um Céu para Deus” mostra um Maurício de Moraes extremamente sensível e preocupado com a morte que já se avizinhava, no entanto conformado com o destino que a todos nos reserva. Usa uma linguagem um tanto hermética, porém rica em figuras de linguagem que enriquecem e valorizam em muito sua poesia. Nessa obra não há poemas ruins, nem regulares ou sofríveis, são todos bons, ricos em sensibilidade, belos em sua forma e conteúdo. Vale esclarecer que o poeta também não deu nome a nenhum de seus poemas.
Maurício introduz sua obra com um poemeto, aliás, o único que não possui os clássicos quatorze versos que caracterizam os sonetos. No entanto, na simplicidade dessa pequena poesia ele antecipa a temática de “Um Céu para Deus”, ou seja, o sonho, a beleza da vida na juventude, o passar do tempo e por fim a morte como um retorno, como um novo amanhecer. E as cores é que vão transmitindo as idéias do poeta.

“Todo sonho é como um horizonte branco
que de beleza se faz azul
e de repente pode se tornar roxo
e mesmo escuro e por fim negro
até que a morte faça calma e bela
a cor que de tão branca revela-se
como o amanhecer nos campos do estio.”

Em quase todos os poemas desse livro há uma evocação saudosa ao passado , uma certa melancolia em relação ao presente e um conformismo quanto ao futuro. Como afirmei, não há poemas ruins daí a dificuldade de se escolher um para ler entre tantos, que eu também gostaria de mostrar. Nos anos quarenta, o jovem jornalista Maurício de Moraes foi correspondente da saudosa revista “O Cruzeiro” em Buenos Aires. Sem dúvida sua preferência e identificação com a música portenha advém dessa fase de sua vida. Vou ler um em que ele evoca o gênero musical que ela mais apreciava e gostava de cantar, que eram os tangos.

“Meus tangos boêmios não morrem bem sei
além dos meus sonhos ocultos ao canto
que vem de minh’alma sedenta de amor
das fontes das formas bordadas de graça
Se escuto meus tangos nas noites sem fim
Meu choro desperta na beira das horas
Lembranças das eras primárias da vida
Por isso perdido não sei procurar
O instante preciso do encontro do amor
Prisão dos instintos do ritmo forte
À doce agonia dos meus sentimentos
Por isso que as noites traduzem poesia
Espalham perfumes das flores muradas
Das velhas guitarras chorosas de dor”

   Ainda em relação a essa derradeira obra de Maurício, gostaria de esclarecer que ao ler num jornal que estava aberto um concurso de poesias na cidade de Itapira, concurso esse denominado “LÍLIA PEREIRA DA SILVA”, Maurício a toque de caixa organizou esse livro, juntando alguns poemas mais recentes e até escrevendo alguns, procurando, no entanto, dar uniformidade estética e temática a essa obra. Entre centenas de concorrentes, sua obra foi classificada em primeiro lugar e, posteriormente, publicada em forma de livro às expensas da Prefeitura de Ouro Fino, conforme já esclareci. Ajudei Maurício na digitação e compartilhei de sua ansiedade e de sua alegria, tanto com a premiação como com a publicação, o que justifica ter o poeta dedicado seu livro a mim, fato que muito me envaidece.
Finalmente, eu chamaria a atenção para um aspecto que acompanha a poesia de Maurício desde seu nascedouro, que é o grande amor que tinha por sua cidade natal Ouro Fino, evocada em muitos de seus poemas, cidade onde também morreria no dia 24 de novembro de 2000. Assim, para terminar, transcrevo um poema evocando sua querida Ouro Fino, poema esse que Maurício sempre fazia questão de declamar nas solenidades que comparecia em sua terra natal.

SONETO DA TERRA AMADA
Terra de sol, de luz, ó minha terra!
Das serras, das montanhas orgulhosas,
Berço de amor profundo que se encerra
Na beleza dos sonhos e das rosas.

Quando te vejo e meu olhar descerra.
As tuas tardes doces e formosas
Eu sinto que minha’alma se desterra
Na saudade das horas luminosas!

Ó terra minha, minha terra amada,
Pareces a mais linda namorada
Que a gente sempre lembra e tem saudade!

Por isso é que eu te amo de verdade;
E mais ainda porque é teu destino
Ser terra de ouro e terra de Ouro Fino!


*********





Biografia:
Geraldo Affonso é professor,radialista, advogado e membro da Academia Ouro-finense de Letras e Artes. Apresenta aos sábados, a partir de meio-dia e meia na Rádio Difusora Ouro Fino um programa de entrevistas, voltado, principalmente, para a cultura, que pode ser ouvido pela Internet no site www.difusoraourofino.com.br
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