Login
E-mail
Senha
|Esqueceu a senha?|

  Editora


www.komedi.com.br
tel.:(19)3234.4864
 
  Texto selecionado
Poupe-me, passado
Flora Fernweh

Hoje não quero mergulhar no rio da minha infância nem escalar a goiabeira no jardim do vizinho. Prometi a mim mesmo que hoje, só hoje, a lembrança de minha verdejante criança, criada no campo em meio ao milharal e às chuvas quentes de verão, não subiria à tona e nem tomaria conta do meu ser que tanto luta para seguir em frente. É inevitável olhar para frente imaginando o que faria se minha mãezinha estivesse ao meu lado agora, se meu pai me acalentasse em um último sono e se meus irmãos me vissem crescido e mais maduro que as frutas que costumávamos roubar… é, na aurora de minhas andanças, a simplicidade era um tesouro, e apenas os mais nobres de espírito o detinham. Veja só, o passado me empolga, me afaga. Se uma palavra, um cheiro, uma memória me relembra a doçura de um tempo vivido, instantaneamente como em um passe de mágica que pertence ao destino, encadeio todas as histórias que vivi e que guardo comigo, nada passa despercebido, nem mesmo um olhar rápido, nem mesmo um pequeno amor. A saudade é eterna, porque tudo o que é eterno se derrama em saudades. Já fui muitas faces, muitos bandidos e mocinhos, vi muito sóis e luas, dores e prazeres, mas nunca fui o que hoje sou, pois aprendi com o que passou na tentativa de abstrair o máximo proveito dos ensinamentos da madre-vida. E o que hoje sou, eu não sei nem saberei, não sei ser rei do que virá, por isso apenas estou, sem ser completo e finito, mas difuso e duradouro. Parece que fracassei em não seguir viagem no trem do passado que sempre volta, apita, e estremece meus trilhos, me arrancando dos prumos, duvidando de meus rumos e desaparecendo na fumaça de seu próprio brumo. O que me resta senão desembarcar na próxima estação? Sei até que ela se chama esperança, e sei ainda mais que o futuro desse trem é descarrilar, perder-se nas alturas das serras e tombar montanha abaixo, esparramando com um baque as memórias fugitivas de toda uma vida.


Biografia:
Sobre minha pessoa, pouco sei, mas posso dizer que sou aquela que na vida anda só, que faz da escrita sua amante, que desvenda as veredas mais profundas do deserto que nela existe, que transborda suas paixões do modo mais feroz, que nunca está em lugar algum, mas que jamais deixará de ser um mistério a ser desvendado pelas ventanias. 
Número de vezes que este texto foi lido: 16


Outros títulos do mesmo autor

Artigos As dificuldades para o aumento da doação de órgãos no Brasil Flora Fernweh
Poesias Re(sem)volta Flora Fernweh
Crônicas Anamnese Flora Fernweh
Crônicas Título não encontrado Flora Fernweh
Artigos Minha experiência com a redação do ENEM Flora Fernweh
Poesias CHAMAS DE UM EXISTIR PASSAGEIRO Flora Fernweh
Artigos A VIOLÊNCIA COMO INSTRUMENTO SIMBÓLICO Flora Fernweh
Artigos DIMENSÕES DO FEMINICÍDIO NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA Flora Fernweh
Poesias ENCONTRAR-SE Flora Fernweh
Poesias ESPERANÇANALÍTICA Flora Fernweh

Páginas: Primeira Anterior Próxima Última

Publicações de número 21 até 30 de um total de 133.

  Envie este texto por e-mail
Digite seu nome:
Digite seu endereço de e-mail:
Digite o nome do destinatário do e-mail:
Digite o endereço de e-mail do destinatário:

escrita@komedi.com.br © 2020
 
  Textos mais lidos
MENINA - 33987 Visitas
sei quem sou? - 33975 Visitas
A menina e o desenho - 33845 Visitas
O que e um poema Sinetrico? - 33839 Visitas
IHV (IAHU) e ISV (IASHUA) - Gileno Correia dos Santos 33447 Visitas
Aspectos da Usucapião - Agatha Sthefanini Silva Ferreira 33402 Visitas
Carta a um amor impossível - Carla (Fada) 33286 Visitas
PSICOLOGIA E DIREITO - Francisco carlos de aguiar neto 32875 Visitas
FIO DA ESPADA - Tércio Sthal 32624 Visitas
O Senhor dos Sonhos - Sérgio Vale 32379 Visitas

Páginas: Primeira Anterior Próxima Última