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A Conta
T. Richter

- Posso te fazer uma pergunta?- perguntou-me a moça do caixa ao estender a máquina do cartão de débito. - É como se fosse uma pesquisa.
     Era o aniversário de um amigo de infância e ele escolhera aquele restaurante no Largo do Moutela, na Freguesia, para comemorar a data. Estranhei um pouco o tom de voz dela, bem diferente de quando algum funcionário de restaurante pediu minha opinião sobre o serviço ou sobre algum prato.
- Claro- respondi enquanto digitava a senha.
- Se você estivesse no banheiro e garçom entregasse a conta para a moça que está com você, você veria algum problema nisso? Acharia errado ou qualquer coisa assim?
- Não- respondi, já franzindo o cenho- Qual problema teria isso? Não vejo nada demais nisso, e tenho certeza que ela também não.
- Pois é- a moça do caixa pareceu aliviada- O cliente que veio pagar antes do senhor, um que estava em uma mesa próxima de vocês, teve um ataque aqui e me deu o maior esporro porque ele havia pedido a conta e ido ao banheiro, e o garçom trouxe ela antes dele voltar e entregou para a mulher dele.
- Sério isso?- perguntei, meio incrédulo, meio indignado- Eu acho que vi quem era... um cara um pouco gordinho, com uma moça loura?
- Ele mesmo... chegou aqui falando alto, na maior grosseria, dizendo que isso era um absurdo, que uma mulher nunca deve receber a conta do restaurante, que uma mulher não deve nem saber o valor da conta, que isso é assunto do homem...
- Olha... tanto ela quanto eu discordamos disso... já teve vezes de eu pagar a conta sozinho, teve vezes dela pagar a conta sozinha, nós dividimos a conta também... varia muito, dependendo da situação... já teve vezes do salário dela atrasar, já teve vezes de ser o meu... coisas assim... salários atrasam, imprevistos acontecem e estamos já em 2018, não? Em geral nós dividimos tudo.
- Pois é- ao ver-se apoiada a moça animou-se - Eu penso assim também! Divido conta, já paguei quando meu marido estava sem dinheiro! Não tem nada demais nisso, né?
- Não... nada demais- concordei
- O outro cliente ficou indignado! Me destratou, reclamou do garçom...
- E por acaso ele queria que o garçom ficasse parado ao lado da mesa esperando ele ter a boa vontade de voltar? E os outros clientes? Tem gente querendo fazer o pedido, ou pedir a conta, e por aí vai! O garçom deveria atrasar o lado de todo mundo por causa do ego tacanho dele?
- Pois é! Vê se pode! Acho que ele queria sim! Só pode ser!
Enquanto conversávamos, ela aproximou-se, tendo demorado um pouco em despedir-se do pessoal. Contei-lhe o ocorrido.
- Que absurdo!- Ela exclamou.
- E a mulher que estava com ele? A esposa, noiva, ou o que for?- perguntei.
- Não falou nada- a moça do caixa deu de ombros- Ficou na dela, calada como se não estivesse acontecendo nada.
- Ah, eu teria falado- ela comentou, indignada como eu sabia que ficaria- Ele também faz isso porque ela aceita.
Trocamos ainda mais algumas palavras sobre o ocorrido, o qual, se não é surpreendente, não deixa de ser grotesco. A moça do caixa pareceu mais aliviada, mais certa de que, de fato, o erro não era dela ou do garçom, e sim da tacanhice alheia. Despedimo-nos e fomos buscar o carro no estacionamento, ainda comentando sobre tal disparate anacrônico.
Foi uma pena o tal cliente já ter ido embora. Fiquei curioso para ver se ele tinha partido de carro ou de carruagem. Acredito que ele se sentiria bem à vontade no século XIX, bem vitoriano. Uma máquina do tempo a lá H.G Wells anda realmente fazendo falta.
                                        
                                Fevereiro, 2018

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