Login
E-mail
Senha
|Esqueceu a senha?|

  Editora


www.komedi.com.br
tel.:(19)3234.4864
 
  Texto selecionado
Novamente o outono
Gladyston costa

Novamente o outono

Findo o verão, denuncia o equinócio, lá vem chegando o outono... Momento em que noite e dia dialogam com equidade. Da janela da sala, metros acima do asfalto, onde carros passam resmungando, vejo folhas amareladas caindo das árvores sem pressa. Segue incólume o agito da cidade com seus carros e pessoas numa dança frenética e uniforme. Em sua primeira trajetória de outono, depois de tantas outras, o sol desliza sobre a cidade alheio à lógica linear que movimenta os desejos materiais estampados nas vitrines. A cidade corre numa velocidade frenética, onde máquinas e corpos se misturam, onde os desejos são cegos e as palavras monólogos. Em sua parábola discreta, o sol anuncia mais um equinócio, há mais folhas sobre o asfalto, sobre as calçadas, mas os passos dos que passam seguem uma única direção. A direção imposta pelos afazeres do dia a dia, das contas a pagar, dos desejos de comprar, das reuniões... O mercado impõe a sua condição. Alheio ao rosnado ensandecido da maquina cidade, as folhas caem mais uma vez neste início de outono e o sol, agora mais inclinado do que na véspera, desliza em sua parábola no seu próprio ritmo. Vai longe o tempo em que cada equinócio (ou solstício) era comemorado, reverenciado com músicas e danças, sentido como o sentido da própria vida. Vem à mente o som de tambores, cordas e sopros numa música mágica como um mantra a conduzir desejos e esperanças. O início e o fim da colheita do alimento que nutre o corpo e a alma, o tempo do sol que conecta a vida ao tempo que é próprio dela, das estações do ano, da alternância entre dias e noites, do fruto que emerge das flores e das folhas que caem no fim do ciclo. Descansa o verão após as águas de março e é chegado o outono, como sempre chegou, sem pedir licença, alheio ao ritmo da cidade. Mesmo com a ausência de percepção do homem máquina, as estações do ano se alternam. O deus sol, e tantos outros, são intangíveis à ciência e são os deuses da sensibilidade. Aqueles que permitem perceber e sentir a suavidade da dança das cores entre as estações. Contam-se muitas histórias sobre esses deuses, da Grécia antiga às tribos indígenas por todo o mundo. A energia que movimenta o mundo e o faz tão belo e misterioso. Já o bicho homem com seus passos apressados, o Homo urbanus, em sua linearidade racional e material segue seu curso aprisionado em si mesmo. Seu tempo é medido pelos ponteiros do relógio. Hoje o seu deus é material, é o mercado, cobra um custo alto para ser alcançado e precifica o tempo. Para esse deus mercado não há sentido em perceber e sentir aquilo que o dinheiro não pode comprar. O que não tem preço, não tem valor. Os ciclos da vida não são mensuráveis pela lógica científica do mercado. Ah sim, o tempo! Não é possível comprá-lo. Vejo da janela as folhas caindo, flutuam sem pressa e com suavidade, logo serão folhas novamente. Não importa o ruído da cidade, os passos apressados e o tempo encarcerado nos ponteiros do relógio, sempre haverá outonos
.
Gladyston Costa


Biografia:
-
Número de vezes que este texto foi lido: 28470


Outros títulos do mesmo autor

Poesias Mormente Gladyston costa
Poesias Propriedade do mindinho Gladyston costa
Poesias Bicho de goiba Gladyston costa
Poesias Corre sapato Gladyston costa
Crônicas Nas asas da monarca Gladyston costa
Poesias Voo de palavras Gladyston costa
Poesias Lua e cidadeII "Lua de Sangue" Gladyston costa
Poesias Porco tem alma? Gladyston costa
Poesias LUA E CIDADE Gladyston costa
Poesias MINHA QUERIDA DAMA DA NOITE Gladyston costa

Páginas: Primeira Anterior Próxima Última

Publicações de número 11 até 20 de um total de 25.

  Envie este texto por e-mail
Digite seu nome:
Digite seu endereço de e-mail:
Digite o nome do destinatário do e-mail:
Digite o endereço de e-mail do destinatário:

escrita@komedi.com.br © 2019
 
  Textos mais lidos
OS ANIMAIS E A SABEDORIA POPULAR - Orlando Batista dos Santos 29031 Visitas
Amores! - 29001 Visitas
Desabafo - 28914 Visitas
haicai - rodrigo ribeiro 28835 Visitas
Era uma casa grande - helena Maria Rabello Lyra 28835 Visitas
Faça alguém feliz - 28703 Visitas
Vivo com.. - 28701 Visitas
eu sei quem sou - 28658 Visitas
viramundo vai a frança - 28655 Visitas
sei quem sou? - 28650 Visitas

Páginas: Primeira Anterior Próxima Última