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O AMOR EM TEMPOS DE TERREMOTO
n-
SUELI COUTO ROSA

Resumo:
UM CASAL SE SEPARA ABRUPTAMENTE DURANTE O TERREMOTO QUE DESTRUIU PORTUGAL EM 1755.

O AMOR EM TEMPOS DE TERREMOTO



Teresa postou-se na porta da igreja enquanto os seus pais entravam para assistir a missa dominical de Todos os Santos. Olhava, ansiosa para todos os lados, aguardando Pedro. Ele quase nunca se atrasava, mas sabia que a mãe dele, já idosa, tinha dificuldades de locomoção. Portanto, resolveu aguardar um pouco para entrarem juntos. Chegou, mesmo a se perguntar se eles já não estavam dentro da Igreja, mas estranhava o fato de Pedro não haver saído para buscá-la.

De repente, sentiu um certo tremor abaixo dos seus pés e pensou que fosse a sua ansiedade. Em segundos, um grande estrondo, um tremor maior e o ruído de coisas caindo. Olhou ao redor e pareceu-lhe que a terra se abria à distância, vindo na sua direção. Além do ruído da queda de paredes da igreja, uma grande nuvem de fumaça e pó começou a se formar. Instintivamente correu para longe da igreja, colocando-se sobre uma rocha que havia ali perto.

Foi quando viu tudo desmoronar: a Igreja e suas torres, as casas ao redor, as estradas. Ouvia gritos de terror, pedidos de socorro, animais fugindo e um odor estranho. Ficou minutos paralisada, sem saber se estava vivenciando um pesadelo. Não, não estava dormindo. Lembrou-se dos seus pais, olhou para a igreja e viu algumas pessoas fugindo dentre os escombros. Correu para lá e viu as pessoas sairem sangrando, carregando outras, pedindo socorro. Buscou pelos seus pais, que sempre se sentavam em um mesmo lugar, à frente do altar. Um grande entulho de pedras e telhas impediam-lhe de chegar até lá.

Pessoas feridas tentavam sair dentre os escombros e Teresa não conseguia visualizar seus pais. Haviam desaparecido. Conhecidos, vizinhos, amigos a reconheciam e pediam por ajuda. Mas ela só queria encontrar os seus pais. Começou a tirar pedras e pedras dos escombros, chamando por sua mãe e o seu pai. As suas mãos sangravam, enquanto ouvia outros tremores, que provocavam mais quedas de pedras sobre a sua cabeça. Um grupo de pessoas amigas resolveu tirá-la de lá, protegendo-a de uma catástrofe maior. Infelizmente, Teresa foi atingida por um caibro em queda.

Quando Teresa acordou, encontrava-se em meio a uma sequência de camas de enfermaria, com a cabeça enfaixada e muitas dores. Podia ouvir os gemidos de dor dos demais pacientes e pode ver que estava numa enfermaria improvisada, em um galpão de um dos conventos. Este foi dos poucos que conseguiu ficar em pé. Perguntou pelos seus pais e parentes e soube, então, que todos os que ficaram em baixo dos escombros da Igreja não haviam sobrevivido.

Teresa entrou em um segundo estado de choque. Não conseguia entender o que havia ocorrido. Chorava copiosamente e pedia respostas. Uma freira aproximou-se e contou do terremoto que havia abatido sobre Lisboa, Cascais e em quase todas as regiões de Portugal. Ainda estavam ocorrendo muitos tremores secundários e muitos incéndios. Por sorte, aquele convento era um dos poucos que foi poupado.

Contaram-lhe que a vila de Cascais havia sido quase que totalmente destruída e que as áreas mais próximas ao mar foram as mais devastadas. Houve centenas de mortes. A freira repetia a ela que tinha tido sorte, que teve apenas uma comoção da cabeça e que deveria se recuperar logo para poder ajudar com os feridos e as suas famílias.

Teresa pensou em Pedro. A família dele vivia na região da baia, porque os seus pais eram pescadores. O que aconteceu com ele e a sua família? Teriam sobrevivido? Como poderia saber? Pensou consigo mesmo que o procuraria assim que pudesse.

Queria se recuperar logo e começou a ajudar aqui e ali dentro da enfermaria. Havia realmente muita coisa para fazer. Quando se deu conta já conseguia resolver muitas tarefas de enfermagem de primeiros socorros. Sentiu-se útil e pensou que esta poderia ser a sua futura profissão.

Antes, trabalhava como copeira da Casa dos Azulejos em Cascais. Imaginou, imediatamente, que não devia existir mais. Trabalhava para os marqueses e era até muito valorizada no que fazia. Foi ali, perto da casa dos Azulejos, que conheceu Pedro, um pescador que ambicionava ser um marinheiro de alto-mar. Seu sonho era conhecer algumas colônias portuguesas, quem sabe, o Brasil. O namoro começou com olhares fortuitos através das janelas e rápidos encontros nas esquinas, até que um dia ele foi à sua casa e pediu-a em namoro.

Os pais de Teresa eram agricultores simples, mas como única filha, seu pai sempre desejou que ela tivesse um futuro melhor. Estimulava-a buscar melhores empregos e acreditava que trabalhando na Casa dos Azulejos poderia obter um futuro melhor, encontrando um bom marido. Mas seu pai não teve como opor-se a Pedro quando viu o seu caráter correto, a sua forma respeitosa de tratá-la e o fato de ser um jovem ambicioso e inteligente. Acreditou nele e começaram a namorar. Pensavam em casar-se em dois ou três anos.

Desde que houve o terremoto não havia voltado à Casa dos Azulejos, que ficava bem junto à baia, frente ao Paço do Conselho. Foi ali que D. Pedro I elevou Cascais à categoria de Concelho, desmembrando-a do Concelho de Sintra em 1364. Sempre havia ouvido esta estória enquanto trabalhava naquela casa.

Ao descer do convento, que fora milagrosamente salvo do terremoto, Teresa caminhou por lugares onde antes eram ruas, agora cobertas de pedras e escombros. Ao lado, viam-se as casas destruídas e incendiadas. Muitas igrejas estavam ao chão ou com apenas parte das suas torres. Não havia mais uma vila e sim, um cenário de guerra. Poucos eram os edifícios em pé e quase nenhum intacto. A Igreja da Ressurreição era só escombros e a da Assunção ainda conservava algumas paredes intactas.

Foi difícil se localizar, pois, as referências haviam desaparecido. Viu de longe as muralhas da Cidadela e procurou pela torre do Relógio, mas esta também ruíra, assim como o Convento N. Sra. da Piedade, o das Carmelitas. Caminhou em direção à muralha da Cidadela, pois assim conseguiria chegar ao local da Casa dos Azulejos.

Surpreendeu-se, pois a casa ainda estava lá, rodeada de escombros, com algumas rachaduras, mas estava em pé. Era uma casa que havia sido construída há poucos anos. Sentiu-se emocionada, pois pela primeira vez sentiu que uma parte do seu passado sobrevivera. Tentou entrar, mas estava interditada já que os seus proprietários haviam fugido da tragédia.

Portanto, não tinha mais o que esperar. Voltaria para o seu trabalho de enfermeira e a sua vida no convento até que pudesse saber algo sobre Pedro. Caminhou um pouco à frente, em direção à praia, para relembrar o local onde Pedro, o seu pai e irmãos deixavam os seus barcos após a pesca do dia. Revelando o forte espírito de luta e resiliência, alguns pescadores sobreviventes ali estavam a cuidar das suas redes. A eles cabia a nobre missão de trazer a comida para uma população doente e faminta. O mar e a pesca ainda representavam a esperança de recuperação de uma população sofrida e desvalida.

Teresa parou sobre uma grande pedra que ali existia, bem junto à pequena baia e ficou a recordar, respirando pela primeira vez em muitos dias, a brisa do mar. Este, continuava igual, com seu azul profundo. Estava entardecendo e podia-se ver o sol aproximando-se para atravessar o belo espelho de água. Viu um homem a guardar seus pertences num barquinho velho, como que estivesse em desuso. Aquele vulto parecia-lhe familiar. Aqueles gestos e modo de usar o chapéu parecia-lhe muito conhecido. O seu coração parou: seria Pedro?? Resolveu chamá-lo: Pedro! Pedro!

O homem voltou-se, colocou as mãos acima dos olhos para enxergar melhor. Passaram segundos que pareciam horas. De repente, jogou tudo ao chão e saiu a correr em direção à Teresa.

Sueli Couto Rosa
Cascais, 2019


Biografia:
Socióloga, professora universitária aposentada, escreve poesias, crônicas e contos, aproveitando seu tempo livre.
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