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Um reino de monstros Vol.2 - Capítulo 1
Caliel Alves dos Santos

Resumo:
Alfonsim está enfrentando grandes dificuldades para enfrentar os monstros. Rosicler trai Saragat e Tell, a dupla é presa pelo alquimistas. A coisa está ficando tensa!

Capítulo 1: A caixa misteriosa



Parte 1
Rosicler caminhava pelo bosque, as copas das árvores eram bastante altas e os troncos largos. Qualquer um poderia facilmente se perder, menos ela.
Com seu punhal, ela marcou uma seta nos troncos a cada dez metros, indicando uma rota para o pequeno acampamento que o trio montara.
Ah, que droga Rosicler, o que você está fazendo junto com esses zé-manés?
Irritada ela chutou um montículo de folhas. Havia juntado uma boa quantidade de gra-vetos para a fogueira, Saragat que liderava o grupo, pediu para que fizessem uma, estava escurecendo, precisariam estar aquecidos e afugentar animais a noite. Assim tinha trans-corrido o mês inteiro.
— Sinceramente já estou cansada de bancar a “garota das selvas”, quando chegar à Al-fonsim eu vou dar no pé, eu só...
Cric-crac-cric, o som crepitante cortou o andamento do seu raciocínio. Ela girou a cabeça de um lado para o outro procurando o foco do incêndio, de repente um brilho ofuscou os seus olhos. Uma enorme bola de fogo se projetava no céu.
— Ué! Mas o sol já estava se pondo?
Dois projéteis chamuscados se desprenderam em alta velocidade da redoma de chamas.
Um deles caiu à apenas centenas de metros de onde Rosicler se encontrava, formando uma enorme cratera. O outro se dirigiu para Alfonsim.
— Puxa, será que eu não sou uma garota de sorte?
Ela jogou a lenha no chão e se dirigiu a passos rápidos para a cratera flamejante.
* * *
Tell usava o seu sabre como um facão abrindo uma clareira. Os arbustos pareciam provo-car urticárias na pele dos rapazes.
— Rosicler! Nós estamos aqui, onde está você?
— É sua babaca, nós estamos preocupados, quer dizer, o Tell ficou preocupado.
— Isso é maneira de procurar um desaparecido?
— E quem lhe disse que eu faço questão de encontrá-la?
O garoto franziu o cenho. Ambos continuaram a andar pela floresta. Index seguia-os.
De repente, o conjurador estacou em frente a uma árvore, o rapaz também parou curioso.
— Veja isso!
— O que foi?
O mago veio até o tronco e viu uma seta indicando a mesma direção em que eles iam.
— O que é isso?
— É um sinal de localização seu tapado!
— Ai tá bom, não precisa brigar comigo não.
— O problema de andar assim às cegas e a noite é o risco de encontrar os monstros.
O guardião saiu voando e pousou no galho em frente ao servo de Nalab.
— Os monstros não a atacaram.
— Por que diz isso bolo-fofo?
— Não sinto a presença de nenhum aqui?
O encapuzado espalmou as mãos e estapeou o alado que se tornou fino como um papel.
— Porque não disse logo que possuía essa habilidade seu inseto mal?
Fu-fu-fu, Index escorregou do galho e caiu no chão como um saco.
— Não adianta brigar com ele Saragat, vamos!
Os dois continuaram. Mais e mais setas apareceram. O filho de Taran tentava olhar pelas frestas das copas se via a bola de fogo, mas elas impediam sua visão.
Eles chegaram a certo ponto em que acharam os gravetos que Rosicler recolheu.
O mascarado se ajoelhou e verificou meticulosamente como um verdadeiro perito. O guardião sobrevoava com olhos esbugalhados o fato. Tell não se aguentando perguntou:
— E então, pra onde ela foi?
Ele se levantou preguiçosamente do chão e pôs o dedo em riste.
— Baseado na minha dedução... eu não faço a mínima ideia de onde aquela louca foi.
O Lisliboux e Index ficaram com as mandíbulas abertas por um longo período, enquanto o conjurador dava de ombros. O garoto expirou o ar e olhou ao redor, já escurecia.
Ele então pegou uma tora, colocou um pedaço de tecido e acendeu a tocha riscando uma pederneira no sabre. Saragat assoprou o fogo antes que o outro acendesse a tocha.
— Por que você fez isso?
— Não precisa acender uma tocha, eu usarei uma das minhas conjurações, oh deusa das sombras eternas, olhai por meus olhos e dignifique minha caminhada, Visão Noturna.
Os olhos do encapuzado se tornaram completamente brancos e foscos, como se estivesse cego, mas com aqueles olhos, ele conseguia identificar tudo a sua volta.
Sua visão ficou tão aguçada que ele viu uma aranha capturar um grilo numa moita de capim atrás do mago-espadachim. Ele visualizou pegadas em direção leste de onde esta-va.
— Vamos, ela foi por aqui.
Os dois saíram correndo com a criatura alada tomando à dianteira. Tell embora confiasse na magia do conjurador, não estava conseguindo acompanhar o seu pique.
— Vem logo tapado!
— Espera aí, eu já to indo.
Assim a marcha continuou. Como se tivesse acontecido um incêndio, havia uma grande esteira de plantas chamuscadas e árvores tombadas, culminando numa clareira em que havia ainda algumas flamas consumindo a erva seca.
— Rosicler, Rosicler, onde está você?
— Venha comigo, eu já achei ela garoto.
Os dois desceram a cratera. No centro havia uma enorme urna metálica e cinzenta, por toda sua extensão havia sinais hieroglíficos em alto-relevo, formando padrões esotéricos.
Ao lado dela, Rosicler estava deitada e arfando. Tell correu para socorrê-la, Saragat também veio ajudar. Ela parecia respirar com muitas dificuldades.
O Lisliboux colocou-a virada para cima e posicionou as mãos nas costelas dela.
— Cura Benedicta.
Embora executasse a magia de forma correta, ela não gerou os efeitos necessários e a garota continuou a arfar com dificuldades, as mãos se contraiam.
— Sai daí seu paspalho, onde já se viu curar intoxicação com fumaça através de Cura Benedicta? Ela só funciona com ferimentos e queimaduras.
O curandeiro foi afastado pela palma nervosa do servo de Nalab que se ajoelhou perto da vítima e ergueu as mãos, fechou os olhos e concentrou-se.
— Deusa das maravilhas noturnas, eu rogo a minha senhora que conceda mais uma dá-diva a este pobre servo. Cura Divina!
Rapidamente as mãos de Saragat tocaram o corpo de Rosicler que se contorceu, da sua boca, nariz e ouvidos a fumaça foi expelida.
Aos olhos do garoto, parecia que a jovem queimava por dentro.
Index ficou admirado pelo conjurador ter salvado a vida da garota tão diligentemente.
Tell observou como a fé dele era tão aparente aos demais, isso lhe dava mais segurança. Pois mesmo sendo o mais ranzinza, Saragat era muito solícito.
Quando terminou, o encapuzado coçou as mangas do seu traje e expirou o ar.
— Arrrrrrrrrrgh!
O mascarado saltou para trás, Rosicler acordara olhando de um lado para o outro.
— Cadê, cadê, onde?
— O que menina?
O garoto também estava curioso. Rosicler pulou em cima da caixa e montou nela como se fosse um cavalo, alisando-a, beijando-a. O mascarado começou a resmungar:
— “Ah obrigado Saragat por ter salvado minha”; “não, não, não foi nada”.
O mago-espadachim sorriu, a criatura voou em cima da urna e quando ia pousar, levou um safanão. A garota sentia-se a dona do curioso objeto. Os outros dois se aproximaram.
A jovem parecia admirada com o caixote metálico, o conjurador e o neto de Taala cruza-ram os olhares.
— Ela quase morreu pra encontrar um caixão?
— Garotas, unfh! Elas são assim mesmo Tell.
— Não falem como se eu não estivesse aqui.
— Saí logo daí de cima sua tapada, isto pode ser uma armadilha, pode conter explosi-vos, um monstro pode saltar daí...
Enquanto o conjurador listava os perigos do estranho esquife, seus outros dois compa-nheiros estavam procurando uma maneira de abri-la.
Plaft, o encapuzado estapeou o rosto e fez a mão escorrer até a ponta do nariz.
— Vocês ouviram o que eu falei?
— Desculpe, mas é que eu também fiquei curioso. Só você está enxergando bem no es-curo, nos diga o que tem aqui nessa caixa.
— Eu enxergo no escuro, mas não através dos objetos Tell. Além do mais já é tarde, vamos dormir aqui. Amanhã tentamos abri-la, mostrando-se perigosa, nós a enterramos.

Parte 2
Andando de um lado para o outro da sala de operações há horas, ela esperava respostas. Olhou o relógio de pulso, os ponteiros trabalhavam preguiçosos.
Olhos atônitos de velhos militares acompanhavam a sua aflição. Para alguém como ela, estava sendo uma tortura esperar pela adversidade.
Como acreditava que as leis de causa e efeito dominavam o universo, seria imprudente de sua parte ceder aos caprichos da sorte.
Clap, a porta se abriu, um ofegante oficial em uniforme militar fez continência e disse:
— Cabo Nogueira se apresentando general-brigadeiro Letícia.
Ela fazia parte do estado-maior da Real Força Espagíria do Baronato de Alfonsim, co-mandava atualmente a divisão aeronáutica, conhecida como o Regimento Aeroalquimis-ta, ela ergueu-se de sua confortável cadeira.
— Desembuche!
A mulher ergueu os ombros em tensão, depois de engolir a saliva, o cabo falou:
— Nossa esquadrilha sob o comando do brigadeiro Mendes foi...
— Diga!
Ele pôs os braços cruzados na altura do rosto em autodefesa e falou de modo rápido:
— Atacados e destruídos num mortífero ataque comandado pela strix Cora.
— NÃO!
Ela circulou pela sala, seus coturnos batiam no chão com mais intensidade. Letícia girou nos calcanhares e bateu os punhos na mesa.
— E como isso aconteceu hun? Foram enviados três dos nossos melhores dirigíveis.
— Nossos dirigíveis foram atacados, um objeto não identificado caiu no bosque, possi-velmente foi à ejeção da urna...
— E onde estão os reforços do Baronato de Flande, o que o tal portador do Monstro-nomicom anda fazendo que ainda não chegou aqui hein?
— A nossa última mensagem foi interceptada senhora, quais suas ordens?
— SAÍAM DAQUI!
Todos tomaram isso não como uma ordem, mas como um conselho e respeitaram-na.
Letícia arfava muito. Tentou conter as lágrimas, mas quando elas rolaram quente pelo seu rosto, a alquimista começou a atirar as coisas de cima da sua mesa na parede.
Virou a mesa e se encolheu encostada a parede ao fundo como se precisasse de abrigo.
A mão delicada limpou as bochechas rosadas, seus olhos tinham círculos negros, o sono era um privilégio que não possuía mais.
— Já perdi o meu irmão, agora o meu melhor amigo, e agora perdemos um dos nossos melhores militares.
Ela havia perguntado a sala vazia e por isso nenhuma resposta foi ouvida, durante muito tempo ela foi considerada um exemplo de pessoa metódica, sagaz e genial.
Agora tudo isso estava no passado, enterrado com os corpos de milhares de alfonsinos.
Quando a Horda chegou ao Baronato, a Real Força Espagíria conseguiu deter o avanço do inimigo durante anos, mas depois do desaparecimento de alguns importantes alqui-mistas, os monstros tomaram controle de parte de Alfonsim.
Letícia teve um insight e levantou-se, dirigiu-se a um dos telemagos que servia na rede de comunicação interna e ordenou:
— Peço que arrumem uma equipe de busca imediatamente, eu mesmo irei liderá-la. A prioridade da missão é encontrar sobreviventes, a outra é resgatar a urna.
* * *
Um dos militares de alta hierarquia que havia sido mandado embora do estado-maior dirigiu-se imediatamente a sala de fumo do quartel-general.
O conde Verdramungo era um dos mais notáveis alquimistas empenhados na luta contra os monstros, porém ele tinha visão prática da situação.
Para tal, os monstros não deveriam ser purificados, pois isso geraria uma espécie de res-sentimento em quem não conseguiria resgatar seus entes.
Entrara diversas vezes em conflito com Letícia e Mendes, por estes dois últimos serem contra seus métodos. O próprio Mendes afirmara que sua maneira de lutar estava muito aquém do porte de um nobre.
Letícia foi mais incisiva em suas afirmações, ela utilizara o termo “rasteiro” para se refe-rir ao aristocrata que ainda ocupava o cargo de general de campo.
Como alguém pode defender monstros?
Enquanto soltava espirais azuis no ar, Verdramungo foi tomado por nostalgias. A porta se abrira tão repentinamente que ele continuou a vagar na atmosfera dos sonhos.
— Mensageiro se apresentando senhor...
O mensageiro estacou, conhecia a fama bravia do seu patrão.
— Espero que tenha boas notícias, Mendes praticamente fugiu com o nosso tesouro.
— Não sei se as considero boas notícias meu senhor, mas lhes digo que a esquadrilha do brigadeiro Mendes agora está desaparecida junto com o major Bernardo.
— Seus esforços em me trazer esta informação foram em vão criado, mas eu particular-mente considero essa uma notícia alvissareira.

Parte 3
Os olhos se abriram, um intenso facho de luz o ofuscou.
Por um momento ele bateu às pálpebras tentando acostumar-se a claridade, seu corpo estava úmido, o orvalho da manhã tinha ensopado sua capa.
As nuvens assumiam formas estranhas no céu de um azul claro e fulgurante.
Ele tentou mover os dedos, eles estavam adormecidos, com esforço, Saragat levantou-se. Bocejando como se fosse um urso acordando da hibernação, ele virou-se para a urna.
— Você acha que consegue abrir?
Index pousado no ombro direito de Tell perguntava a Rosicler entusiasmadamente.
A garota deu um cínico joinha tapando um dos olhos. O conjurador meneou a cabeça. Ambos os curiosos tinham olheiras, indicando que nem havia dormido.
— Eu não acredito que ficaram a noite toda babando em cima disso?!
— Eu não me aguentei de curiosidade Saragat, o que será que tem dentro dela?
— Com certeza algo que não é da nossa conta.
Tronck, o Lisliboux e a jovem quebraram um galho seco usando-o como alavanca. Não podendo mais aguentar a travessura dos dois companheiros, o encapuzado os empurrou.
— Olha, saíam logo daí! Afinal de contas, quantos anos vocês têm mesmo?
— Eu tenho quinze.
— Eu tenho doze!
Falou o mago-espadachim e a garota respectivamente.
É Nalab, em bom meio você foi me meter...
— Está bem, está bem...
— Então vamos abrir?
— Porque você é a mais animada Rosicler, sabe o que tem aí? Já pensou se for um mons-tro?
— Podem ser joias...
Fuuuuuuh! O mascarado suspirou. A exploradora então passou a analisar o caixote de metal.
O designer das formas era extremamente complexo, havia representações de corpos ce-lestes, animais e forças da natureza numa espécie de enigma pictórico.
Os dedos ágeis dela passaram a alisar de modo luxuriante o metal em alto-relevo.
— Quantos mistérios você possui?
Ela abaixou-se e abraçou a caixa. Depositou seus ouvidos nela, esfregando-a com as mãos.
— Vamos, seja boazinha, abre vai...
Rosicler vagueou seus olhos pelo imenso retângulo. Embora existisse uma tampa, não havia trancas, fechaduras ou qualquer outra maneira de arrombá-lo.
Diferente dos cofres, ela também não possuía um dispositivo de senhas como roletas numeradas ou teclas.
O conjurador pediu para que a garota saísse de cima e ela atendeu fazendo birra.
— Não dá para abrir esse baú assim não sua tonta, essa coisa está protegida com uma sequência lógica de selos de magia rúnica, que podem provocar efeitos para impedir al-guém de abri-la sem permissão, é um mecanismo sofisticado. Se nós tentarmos iniciar uma sequência, a qual nem sabemos como começar, ela acabará liberando um processo que pode nos matar em segundos enquanto garante a segurança do que está guardando...
Enquanto o sevo de Nalab continuava sua monótona explicação, a ágil garota analisava palmo a palmo da urna. No centro da tampa estava uma figura do universo, havia estre-las, cometas e diversos planetas alinhados.
Em cada uma das imagens, havia uma linha tênue, quase imperceptível a olhos nus.
Com as vistas apuradas, ela seguiu a linha nas frestas dos desenhos, percebendo que elas passavam atrás das imagens em alto-relevo.
Aha! Eu sabia que não era tão difícil veio!
— Ela está sorrindo, será que encontrou a solução para o mistério Tell?
— Não sei Index, mas ela parece muito concentrada...
— Parem de cochichar nos meus ouvidos, assim eu não consigo me concentrar aqui oh!
— Desculpa!
O Guardião do Monstronomicom e o mago-espadachim exclamaram ao mesmo tempo, Rosicler resmungou, Saragat lavou as mãos e passou a observar o desempenho dela.
— O que é isso?
Ela apontou para o centro da tampa. O mascarado estreitou os olhos e murmurou puxan-do pela memória. Possuía pouco conhecimento em simbologia, mas aqueles arquétipos não eram tão incomuns para que pudessem ser ignorados.
— É o mundo supralunar, a abobada com todos os corpos celestes do firmamento. O céu que fica além da atmosfera, o universo desconhecido...
— Tá, tá, basta! Chega da aula de cosmogonia por hoje.
Hunph, que garota desaforada!
Com sua meticulosa investigação, mais dos signos foram descobertos. Nos quatro cantos da tampa estavam os quatro elementos.
Em cima havia uma tocha incandescente, no lado esquerdo uma cabeça humana soprava rajadas de vento, abaixo uma cadeia de montanhas e no lado esquerdo um padrão de ondas concluía o círculo dos quatro elementos.
Rodeando esse conjunto de figuras estavam duas formas que pareciam grandes vírgulas, uma delas parecia uma serpente, já o outro parecia mais um peixe.
Saragat deixou escapar um suspiro de alguém muito cansado.
— Desiste vai, essa coisa aí só vai ser aberta por quem a selou.
— Paciência é uma virtude!
A garota cantarolou como se não estivesse ouvindo a implicância do outro.
Ela circundou toda a caixa de metal, depois apoiou o queixo com uma das mãos e fez uma expressão grave e assim continuou por minutos inteiros.
Tell e o conjurador já estavam bastante excitados. Depois de ver a cara dos companhei-ros, ela esfregou as mãos e sorriu malevolamente.
— Eu já sei a resposta, é tão óbvia que chega a ser infantil.
— Diz qual é então sabichona?
— Calma, calma, me deixe saborear esse momento encapuzado...
O garoto e Index pulavam impacientes na frente da jovem, ela soltou um suspiro.
— Vai Rosicler, diz, por favor!
— Tá bem, tá bem, eu não sou uma garota tão má assim.
Convidando-os a ver o longo retângulo, ela frisou suas deduções:
— Vejam esses padrões, olhando assim eles até parecem aleatórios, mas não para olhos treinados de uma caçadora de tesouros...
— Você não quis dizer saqueadora de tesouros?
— Saragat, pare de implicar com ela...
— Sua inocência me comove, nós estamos em companhia de uma larapia.
— Anhanhan... Como eu ia dizendo, os desenhos seguem uma sequência, iniciando do universo, depois passam pelos quatro elementos, que por sua vez estão envoltos dessas serpentes que são o princípio masculino e feminino.
O conjurador e o Lisliboux ergueram as sobrancelhas, Index continuava a assistir a ex-plicação com olhos arregalados. O servo de Nalab esfregou o nariz e disse ironicamente:
— Para uma ladra até que você tem cultura.
— Alguém que deseja obter riquezas deve ter conhecimentos gerais suficientes para conquistá-las.
O mascarado observou-a com uma expressão afiada. A autodenominada caçadora de tesouros pôs as mãos na sua cintura fina em desafio.
Saragat fez um gesto com as mãos se desculpando. Ela continuou:
— E agora vem a parte mais interessante...
Os olhos dela brilhavam como se tivesse recebido um diamante de presente.
— Os desenhos em alto-relevo podem ser movidos em qualquer linha, como um quebra-cabeça. Se eu mover a peça errada, então à caixa poderá se fechar para sempre, é claro que o dono disso deve ter uma senha mestra. Mas notem uma coisa...
Apontando com os dedos graciosos, ela indicou o formato espiralado das figuras. A espiral seguia em sentido horário.
A mão escorregou pelas laterais do esquife de metal e parou em um símbolo, este por sua vez representava o ser humano.
Depois disso, ela voltou a se concentrar no tampo metálico escuro e moveu um dos cor-pos celestes. O conjurador afastou Tell de perto do caixote.
— Tem certeza do que tá fazendo sua louca?
— Não amola cara!
A estrela foi deslizando pela linha mui finíssima provocando um som de engrenagens a trabalhar. O garoto inclinou a cabeça, ele podia ouvir.
Entretanto houve um momento em que a estrela parou, não tinha mais como ela passar entre as outras figuras esotéricas.
Rosicler então se dirigiu a outra e fez o mesmo movimento, parando quando esta não podia mais deslizar por entre as frestas. O som de mecanismo aumentava cada vez mais.
Trac-tric-trac, este era o barulho que se ouvia, o servo de Nalab fez uma careta, ele sentia que de uma maneira ou outra, aquilo não seria nada bom.
— Pare com isso enquanto é tempo menina.
— Só acaba quando termina mago de araque.
Saragat levantou o cajado, mas antes que pudesse partir a cabeça da garota, o mago-espadachim interviu, os dois entraram em luta corporal.
Ai, ai, ai, ai, como é que eu vou me concentrar desse jeito?
No centro da tampa apareceu um enorme vazio. Agora era a vez da serpente e o peixe, elas foram giradas em sentido horário e para susto geral elas iniciaram um incrível fenô-meno.
Uma cacofonia pôde ser ouvida de dentro da caixa, os desenhos passaram a realizar mo-vimentos autônomos, e as formas dualistas terminaram nas laterais do baú metálico, só que num cumprimento maior.
Só falta uma peça, só mais uma...
— Viu? Eu sempre soube o que estava fazendo Saragat.
— Sorte não vale.
Ela revirou os olhos, e continuou com gestos teatrais, apresentou o resultado final:
— E agora, eu, Rosicler Cochrane, irei abrir a caixa misteriosa...
— Infelizmente ela não é para o seu bico.
O trio olhou ao redor, dezenas de soldados armados com pistolas e mosquetes encurra-lavam-nos. Abrindo espaço entre eles, uma jovem mulher com olheiras.
Tell tentou se explicar, mas a mulher de postura militar e olhos firmes, porém cansados apontou a arma na sua testa.
— Es-pe-pera moça, n-nós somos...
— Não me interessa quem vocês são, rendam-se ou serão mortos.
Saragat se pôs à frente da mulher apontando o cajado, ela o encarou firmemente.
— E se a gente não quiser se render?
— Não temos mais porque esperar. Abram fogo contra esses bandidos!
— Sim general-brigadeiro!
— Oh deusa das sombras, emanai vosso poder através deste servo... Obnubilar.
Num rompante as sombras expelidas pelo cajado se converteram numa redoma escura.
Bang-bang, uma saraivada de tiros de mosquete e pistolas ricocheteou na cúpula.
— General-brigadeiro Letícia, o que vamos fazer?
— Parece que estamos combatendo uma conjuradora das sombras aqui oficial, me dê cobertura, eu sei o que fazer...
Quando os soldados passaram a recarregar as armas, o mascarado desfez a conjuração.
Tell então fez o seu movimento. Descrevendo 360° com o sabre, o garoto atacou.
— Alizé.
A rajada de vento varreu o solo levantando cinzas e poeira, os militares foram arremes-sados para trás. A garota continuava diligentemente a sua tarefa.
— Rosicler, abra logo essa... Unfh, unhg!
O mascarado estava amordaçado, foi tão rápido que nem mesmo ele pôde perceber.
Uma espécie de goma amarela e grudenta foi arremessada na boca dele, quanto mais ele tentava retirar a goma, mais ela aderia ao seu corpo, ele acabou com as duas mãos e um pé preso a boca.
Conjuradores são até bastante poderosos, mas tem uma grande fraqueza, impedindo-os de recitar, eles não podem executar suas conjurações...
— Olha moça, não precisava fazer isso, nós somos os enviados do Baronato de Flande...
— Se for verdade o que diz meu jovem, deve possuir o livro, o Monstronomicom.
— Claro que...!
Olhando em volta, tanto o tomo como Index haviam sumido. O mago-espadachim ficou desesperado. Rosicler finalmente encontrou a última sessão do mecanismo e abriu a cai-xa de metal. Ela emitiu luzes por todas as linhas e passou a se abrir.
— Não sua idiota, não faça isso!
Era tarde demais. Pouco a pouco todos presenciaram a urna se contrair para dentro de si mesma e ficar cada vez menor, adquirindo um formato cúbico.
Quando o processo foi concluído, restava apenas um suporte quadrado com uma pedra vermelha e cintilante como um rubi. A jovem imaginou o quanto aquela joia valeria.
Os agentes alfonsinos se ergueram prontamente, seus olhos chamejavam de ira.
Letícia passou a esmurrar um punho no outro e a rosnar entre os dentes.
— O que você fez? Agora vou levar vocês a nossa prisão, terão muito que nos explicar.

Parte 4
40, 41, 42, 43, 44, 45, 46, 47... direita...
Saragat durante todo o percurso contabilizara a distância percorrida e as mudanças de direção. Com a boca amordaçada pela goma, ele não poderia conjurar magias, e com os olhos vendados, sua direção era incerta, mas ainda assim podia contar com a memória.
Rosicler e Tell tentaram reagir contra a prisão, isso só piorou a situação do grupo.
Em fila única, o trio seguia às escuras, os braços foram colocados para trás e as mãos foram unidas por grossas algemas de aço temperado.
— Pra onde acha que estão nos levando Rosicler?
— Não sei Tell, parece que estamos andando em círculos.
— Silêncio!
Letícia que conduzia a fila gritara com os dois. O garoto estava apreensivo, Index sumira e o livro também.
O mago-espadachim garantia que a criatura de pele cabalística estava com ele esse tempo todo. Desconfianças cruzaram a sua cabeça como um raio.
Quando a marcha parou repentinamente, Rosicler colidiu com a guia da marcha, a gene-ral-brigadeiro. O Lisliboux por sua vez chocou-se com a garota, Saragat atingiu o mago-espadachim e o efeito dominó continuou com os que vinham atrás dele.
A alquimista virou-se furiosa e arrancou a venda da retardatária com brusquidão.
— Não sabe olhar por onde anda não?
— Unfh! Você que me vendou sua estúpida.
— Sua desaforada.
As duas passaram a se encarar, se fosse possível matar com um olhar, as duas estariam tesas no chão. Os homens que assistiam a cena fizeram um silêncio constrangedor.
— Vamos, entre logo aí!
— Aínnnn, sua grossa.
Rosicler foi lançada na cela pela militar, ela rodopiou pelo catre e foi bater-se na parede.
O conjurador e o garoto também foram jogados dentro da cela. Sendo trancada por um dos guardas da prisão, a alquimista apontou um dedo acusador para o Lisliboux e disse:
— Espere só até eu voltar.
O mago-espadachim engoliu em seco com um Glup. Saragat gemeu um M-umu. Rosicler deu língua num gesto bastante cínico.
A general-brigadeiro virou as costas e os seus subordinados a seguiram corredor afora.
— E agora, o que faremos Rosicler, Index fugiu com o Monstronomicom, Saragat não pode nos tirar daqui e eu nunca estive preso numa...
— Se vira moleque, euzinha aqui to dando uma de gás e vazando.
— Não Rosicler, você não pode fazer isso...
— Já fiz otários.
O garoto ficou chocado com as maneiras e o jeito de falar de Rosicler, embora ela e o conjurador discutissem muito durante a viagem, ela nunca havia lhe destratado.
Tell agora se sentia enganado, ele tentou desvencilhar seus braços das algemas, mas seus pulsos ficaram doloridos. Ele rangeu os dentes e a encarou furioso.
— Como você pôde nos enganar? Confiamos em você... Você pegou o livro?
Ela encolheu os ombros e fez uma cara de desconfiada enquanto executava um movi-mento contorcionista, girando os braços abaixo das pernas e os fazendo voltar à frente do seu corpo.
— Eu? Eu não meu bem, não sei aonde teu livro se enfiou.
Ela então retirou uma penca de chaves prateadas do bolso e abriu as suas algemas. Entre-tanto, ela não libertou os outros, o companheiro soltou uma lágrima, Rosicler antes de sair virou-se para ele.
— Desculpe garoto, estou aqui a negócios...
A garota então saiu e fez questão de trancar a cela novamente, mas fez tudo isso sem olhar para os companheiros. O mascarado sentou-se no chão dobrando os joelhos.
O mago-espadachim passou a esbravejar e a chutar as grades da cela. Depois com as lágrimas se tornando uma torrente, ele caiu no chão e encostou seu rosto nas grades.
Snif-snif... Está tudo dando errado, snif, tudo... Snif-snif ... Desculpa vovô.


Biografia:
Comecou a escrever depois de um concurso em sala de aula. Dois anos depois ele publicou seu primeiro livro.
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