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Zé do Mato
Luiz Eudes

E sempre disseram que cobras, lagartixas e pessoas com comportamentos estranhos em todos os lugares há. No Junco não é diferente e vez por outra aparece alguém assim, fugindo do mundo e das pessoas, como se algo tivesse a esconder. Cerca um roçado feito às pressas, planta algumas leguminosas de rápida colheita e vive na solidão voraz do campo.
     Um destes homens atendia pela alcunha de Zé do Mato. Moreno alto e forte, de pouco falar, chegou ao Junco numa noite escura de junho – segundo falam –, o mês de São João. Esquivava-se de tudo e de todos. Como não trazia na bagagem mulher nem filhos, logo surgiram boatos sobre o seu passado. Falavam em mortes a facadas, tiros na escuridão. Mas eram acusações soltas, sem testemunhas ou provas.
     A verdade é que Zé do Mato mostrou-se um homem trabalhador, com muito esforço conseguiu desmatar o cercado, cavou aguada, plantou feijão e milho, fez roça de mandioca, escambou lenha com o fazendeiro vizinho e em troca recebeu uma vaca parida, vendeu leite e feijão porque o milho ele dava às galinhas compradas na feira.
     Ninguém jamais soube se foi mesmo fugindo por ter praticado um crime que Zé do Mato se tornou morador daquele lugar. Ao certo, se tem ciência que o roceiro desejava progredir em suas atividades campais e, para tal, se entregava ao trabalho, sem descanso, dia e noite, sábados e domingos – respeitava apenas os dias santificados. Não usava roupas novas, e par de botinas só tinha um, o do trabalho. Só visitava a cidade no dia da festa de Nossa Senhora do Amparo e mulher dama não conseguia com facilidade o seu dinheiro. Era admirado por tamanha dedicação ao trabalho e aos que se armavam de coragem e lhe questionavam, ele respondia, com um sorriso de dentes alvos e fortes estampado no rosto, que o seu desejo era comprar uma fazenda com escritura lavrada por tabelião em cartório.
     Acontecia, por vezes, de a meninada ir vê-lo às escondidas. Zé do Mato não gostava de conversa com estranhos, bem menos de visitas. Os meninos espionavam por entre as estacas da cerca, por vezes subiam no cajueiro ao lado da cancela da propriedade e ficavam por ali, horas, a espioná-lo.
     Impressionavam-se, os garotos, com o cuidado que o roceiro dedicava a limpar o terreiro em frente à casa de taipa e telhado de palhas. Era tudo muito bem varrido, sem ciscos pelo chão. E dentro da casa tinha apenas um tronco de árvore servindo como banco de sentar, um velho pilão recostado à parede enfumaçada pelo negrume que saia do fogão formado por três pedras, onde numa lata encardida pelo tempo era cozido o feijão com alguns pedaços de carne. Aquele cheiro embriagava a todos. Como eles queriam ter coragem para pedir um pouco daquela comida tão apetitosa ao misterioso morador daquele lar!
     Era madrugada ainda e os meninos chegaram montados em bicicletas. Zé do Mato estava acordado, percebia-se pela porta aberta por onde entrava a brisa da manhã. A luz do candeeiro iluminava toda a casa. Lá fora, tudo era silêncio, cortado apenas pelos uivos dos cachorros querendo avisar ao ermitão da presença da moçada. Acompanhavam os passos de Zé do Mato, viram-no ajeitar as brasas do fogão e enfiar um pedaço de carne de caça num espeto. As brasas ardiam no fogão de pedras e o fogo crescia, queimando as varas de candeia. As galinhas esgaravatavam no terreiro e dentro da casa um cheiro forte de terra e mato.
     Aloísio, o chefe do bando, subiu no cajueiro em busca de alguns frutos avermelhados e apetitosos, não percebeu uma casa de maribondo na ponta da galha. Ao pegar a fruta, os insetos se assustaram e atacaram-no, o líder caiu e o velho solitário veio ver o que se passava em seu território. Os meninos correram em disparada temerosos com a reação de Zé. Aloísio não conseguia correr, estava machucado e sentia fortes dores.
     O roceiro aproximou-se dele. O menino estava tenso, nervoso, apreensivo. O que será que o velho faria com ele? Seria verdade tudo o que falavam sobre ele? A brisa soprou forte apagando a luz do candeeiro desnecessária diante do brilho do sol forte do sertão. O velho tocou a perna ferida do garoto com ternura e com a voz enrouquecida pelos anos de silêncio e solidão, falou:
     - Não tenha medo, não te farei mal. Eu vivo aqui sozinho, tendo só a companhia dos bichos de criação. Para conversar eu só tenho os passarinhos e minha diversão são estas plantas.
     Ouvindo aquilo, Aloísio gritou aos companheiros, clamando por retorno. Voltaram em revoada. A carne chiava no espeto. O lavrador pediu que esperassem, entrou na casa e trouxe um prato com farinha e a carne que assava no fogão de pedras. Foi até o improvisado curral, tirou leite, fez pirão e comeram com a carne assada na brasa. Os meninos deliciaram-se. Colheram cajus e goiabas, divertiram-se todos, inclusive Zé do Mato que, após anos de isolamento naquela roça, voltou a sorrir, um riso de criança feliz.


















Biografia:
Luiz Eudes é autor de Noite de Festas e Tempo de Sonhos
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