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FALANTE E LÍNGUA: UMA INTRÍNSECA RELAÇÃO
Robério Pereira Barreto

Resumo:
A língua é um conjunto de variedades e por isso o falante tem a possibilidade de utilizá-la conforme a situação em que se encontra, conforme quem seja seu interlocutor e ainda, conforme o papel que se está exercendo no momento da fala. A partir desses fatos é possível perceber uma característica comum a todas as línguas: nenhuma delas é homogênea, todas apresentam variações que se materializam nas variedades sociais, geográficas e contextuais. Todas as línguas humanas são equivalentes na sua essência, ou seja, todas são igualmente complexas, não há, portanto, uma língua melhor que outra, a heterogeneidade dos grupos sociais torna a língua rica em diversidades. O que há são preconceitos sociais que discriminam as pessoas pelo seu modo de falar provocando exclusão. Dessa forma, fatores como sexo, classe social influenciam nos processos de diversidades lingüísticas e, conseqüentemente, condicionam diferentes experiências sociais e culturais. Torna-se importante destacar que essas diferenças lingüísticas tornam-se instrumento de autoritarismo e discriminação social por parte dos falantes do português padrão. Do ponto de vista lingüístico todas as línguas são funcionalmente adequadas para os grupos que as usam, e mesmo que os gramáticos ortodoxos insistam nesse desejo de uniformidade da língua, é impossível, já que há uma imensa diversidade cultural brasileira, altamente desejada, que concretiza as diversidades lingüísticas.

Introdução: O homem: um ser social

Desde Aristóteles, afirma-se que o homem é um ser social e que, por isso, precisa se comunicar. Necessita, assim, viver em comunidade onde troca seus conhecimentos e suas experiências, que irão levá-lo a assimilar e compreender o mundo em que vive e assim, dando-lhe meios para transformá-lo. Acumulando as experiências de sua comunidade, o homem vai construindo uma cultura própria que é transmitida de geração para geração. No entanto, para transmitir sua cultura e para suprir a necessidade de buscar a melhor forma de expressão de suas emoções, suas sensações e seus sentimentos, o homem se viu diante de certos desafios e um deles foi o de criar e desenvolver uma maneira de comunicar-se com seus semelhantes.
O homem, então, conseguiu criar símbolos e signos de vários tipos, picturais, gráficos e lingüísticos, com o intuito de concretizar a comunicação. Portanto, entende-se que a linguagem verbal é o mais útil e perfeito meio de comunicação humana, constituído por um conjunto de símbolos articulados por meio de palavras, sendo elas orais ou escritas, então a língua é o código lingüístico, visto que utiliza a linguagem, própria e particular de uma comunidade.
Diante disso a Lingüística estuda cientificamente o principal sistema de signos conhecido pelos homens: as línguas naturais, e se baseia na observação de fatos procurando investigar, observar como as diversas línguas se organizam e funcionam, sempre estabelecendo relações entre essas línguas e as comunidades em que são produzidas e utilizadas.
A Lingüística nos mostra que as línguas não são um corpo homogêneo, unitário e estático, mas que evoluem com o tempo, transforma-se e vão adquirindo peculiaridades próprias em função do seu uso por comunidades específicas. Então, como apresenta Evanildo Bechara “mesmo nesse esforço de unidade lingüística, existem fracionamentos quer diatópicos, isto é, regionais, quer diastráticos, isto é, de níveis de língua, quer diafásicos, isto é, de estilo” (AZEREDO, 2001:15). Ou seja, não há que desconsiderar certas construções na fala, desde que haja comunicação. Ainda, em “O gigolô das palavras” Luís Fernando Veríssimo afirma que “a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal”. A forma de construção errada da fala são aquelas que não são aceitas pela classe dominante, ou seja, aquela que fala a norma culta do país. Então, quando uma construção lingüística, adquirida por razões culturais, sociais não corresponde ao status de língua padrão os falantes começam a se sentir, por decorrência do preconceito lingüístico, complexo de inferioridade em relação a sua própria linguagem.
Portanto, essas proposições consideradas incorretas, são nada mais que as construções não aceitas pelas classes dominantes da sociedade. Como apresenta os gramáticos, geralmente puristas, o certo é a linguagem das pessoas cultas, educadas, e o errado caracteriza a linguagem das pessoas incultas, não educadas. Mas é importante observar que, numa sociedade econômica, social e culturalmente heterogênea como a nossa, é inevitável a heterogeneidade no campo lingüístico, e como a estratificação lingüística advém de uma estratificação sociocultural, só crescerá o nível de linguagem do cidadão se o mesmo ascender de nível sociocultural.
Bagno (2005) enfatiza com muita propriedade que o tipo mais trágico de preconceito lingüístico é aquele que a pessoa exerce sobre si mesma. Em vista disso, todo falante nativo de uma língua deve ser consciente de que ele é plenamente competente dessa língua. Logo, há que se pregar a consciência da especificidade do povo brasileiro, valorizando a nossa identidade nacional e, conseqüentemente, a nossa cultura já que “diferença não é deficiência” (BAGNO, 2005: 29).
A língua, sendo uma prática humana, revela o uso particular que os falantes fazem dela e a sociedade está ligada à língua de modo bastante aproximado.
     Para Saussure, a língua é um fato social, no sentido de que é um sistema convencional adquirido pelos indivíduos no convívio social, é “um produto social da faculdade de linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos” (SAUSSURE, 2004:17). Entretanto, toda língua é, sem dúvida, um conjunto de variedades e essas variedades são reais e concretas e, tendo existência na consciência de cada indivíduo, a língua constitui um sistema individual, não que ela seja definida por um indivíduo, mas pelo grupo social ao qual esse indivíduo pertence. Na verdade, a língua vive na fala das pessoas e só aí se realiza plenamente. Deve-se, então, admitir que um falante não atua por imitação ou por estímulo-resposta (behaviorismo), mas acionando um conhecimento implícito adquirido na sociedade em que vive. Chomsky vê nessa capacidade específica, inata, a linguagem ou “faculdade lingüística” de comunicação verbal, e que a língua materna não pode ser ensinada, pois a mesma já é despertada na mente através do convívio social. Essa inteligência lingüística, como diz Luft (1997:57), “pertence à condição do ser humano, ser de linguagem verbal”. Portanto, o saber lingüístico, que é competência plena da linguagem verbal, constitui-se de um sistema completo das regras que orientam os atos da fala.
     Sabe-se que a linguagem é, sem dúvida, ubíqua e que sem ela a sociedade, tal como se conhece, não seria possível, pois o volume de conhecimentos, a cultura, tudo é guardado e transmitido pela linguagem. É a linguagem que está em nossos pensamentos, que intermeia as nossas relações na sociedade. Mas, apesar das características da linguagem supra citadas, há quem determine conceitos falsos a seu respeito, inclusive pessoas instruídas, cultas, mas pode-se afirmar que nem mesmo os profissionais da linguagem a compreende totalmente.
     Logo, poder-se-ia afirmar que há tantas normas quantos são os falantes, pois cada indivíduo determina seus próprios padrões de uso da língua, ou seja, seu estilo. Entretanto, a norma pode ser social, regional ou individual. A fala é por si só, assistemática e admite uma pluralidade de variantes. Do ponto de vista lingüístico não há norma melhor que a outra, todas apresentam o mesmo valor a partir do momento que servem de veículo para a comunicação. E, diante da pluralidade da cultura brasileira é importante refletir sobre o que é certo e o que é errado na língua. Não se deve dizer, portanto, que este ou aquele nível de linguagem seja errado, pode ser apenas inadequado. No entanto, o nível de linguagem deve variar de acordo com a situação em que se desenvolve o discurso, pois a consciência geral é de que, quando se fala ou escreve, deve-se fazer de maneira proficiente. A língua, enquanto código permite uma multiplicidade de usos que podem ser adotados pelos falantes.
     Partindo da concepção Chomskiana de que a linguagem é inata e que por ser o homem dotado de racionalidade, há relação entre linguagem e pensamento, a linguagem oral apresenta algumas variedades, pois a fala pressupõe contato direto com o falante, o que a torna mais concreta e mais espontânea, e em situações formais a falante procura observar as normas gramaticais para se adequar ao nível de linguagem que tal discurso exige.
     Enfim, a língua atua na relação entre o sujeito e a sociedade, sua abordagem deve ser feita por sua inserção no contexto social.

Desmistificando o conceito de erro em língua

     Toda vez que se fala, faz-se o uso do código geral que é a língua, mas isso não quer dizer que todas as pessoas falem exatamente igual. Mesmo obedecendo a esse código, que é a língua, pode-se combinar, de maneira particular, o material lingüístico que ele dispõe e assim, criar a fala, ou seja, o uso particular que cada pessoa faz do código lingüístico. Portanto, a língua é compreendida como instrumento de comunicação e liberdade. Em vista disso, é importante habilitar-se a falar claro, de forma eficiente, utilizando-se desse bem tão pessoal, a língua, com desembaraço.
      A linguagem é considerada inculta, mas não inferior, entretanto, o que se pretende aqui é mostrar que o conceito de erro em língua criou estereótipos dos comportamentos lingüísticos das comunidades desprestigiadas. Assim, a classe social prestigiada impõe, obviamente, a variedade culta, desprestigiando as outras variedades com uma natural discriminação sociolingüística. Mas, para Bagno (2003) “todo mundo fala de um modo que tem explicações na história da língua ou na história de quem fala esta língua. E falar ‘diferente’, como eu venho insistindo o tempo todo, não quer dizer falar ‘errado’” (BAGNO, 2003:103).
     Todo falante de uma língua usa variações dela, ou seja, torna-se um poliglota na sua própria língua, como costuma dizer Evanildo Bechara, e ainda sabe adaptar seu discurso de acordo com as circunstâncias. Portanto, o falante pode “usar uma linguagem na rua com amigos, outra com familiares em casa, e outra se tiver de fazer um discurso” (LUFT, 1997:40). Porém, “o pensamento tradicional só aceita a variedade culta, formal, a linguagem policiada, cerimoniosa – todo o resto visto como ‘errado’” (LUFT, 1997:40).
     A língua existe para que com ela se pratique a comunicação e interpretação do mundo, mas, às vezes, as pessoas se sentem incapacitadas de encontrar as formas adequadas de comunicação, pois o medo de errar não permite que se comunique com naturalidade. Isso se torna compreensível já que a imperiosa norma culta impõe as formas corretas de falar e não propõe a adequação comunicativa, e uma das marcas específicas da comunicação humana é a capacidade que a língua tem de ajustar-se às necessidades expressivas dos seus falantes. Sendo assim,

Usar uma língua, tanto na modalidade oral como na escrita, é encontrar o ponto de equilíbrio entre dois eixos: o da adequabilidade e o da aceitabilidade (...) Essa nossa tentativa de adequação se baseia naquilo que consideramos ser o grau de aceitabilidade do que estamos dizendo por parte de nosso interlocutor ou interlocutores. (BAGNO, 2005:130).

     Apesar da linguagem padrão se diferir muito da linguagem subpadrão, ou seja, a das classes sociais desprivilegiadas, devido a sua importância cultural, política e econômica, ambas diferem muito pouco no que diz respeito as suas capacidades expressivas. Todo falante, culto ou não, sabe a língua, a sua língua, isto é, a língua de sua comunidade, da sua classe social e se expressa de maneira clara e eficiente, independente de conhecer regras de gramáticas artificiais, sua gramática é natural, implícita. É o que coloca Luft (1997):

É próprio de o pensamento tradicional ingênuo supor que a gramática da língua está nos livros, e que os falantes, em maior ou menor grau, estropiam a língua, provocando aquelas afirmações de que “todo mundo fala errado”, como se, primeiro, os gramáticos inventassem as regras, para depois os falantes obedecerem a elas e poderem falar.
O inverso é que é verdadeiro: a gramática está na mente dos falantes, só ali existe em plenitude; as gramáticas (livros), em maior ou menor grau, mutilam a língua, e são todas elas, lacunosas, falhas. (LUFT, 1997:85).

     As regras de funcionamento de uma língua são seguidas e usadas implicitamente, “quem fala sabe a gramática da língua; por intuição, sem se dar conta, mas sabe” (LUFT, 1997:87), porém se confunde saber a língua com saber regras gramaticais da língua padrão, e o que se observa é que o falante, mesmo não escolarizado, sabe bem tudo que precisa para falar, e esse saber internalizado o falante adquire com sua convivência lingüística.

O mais importante é compreender que qualquer pessoa quando fala não faz isso sem “regras”. Ela pode estar violando uma “regra” da língua padrão, da língua de cultura, da gramática da linguagem formal, mas não viola a “regra” da sua linguagem, da sua própria gramática. (MURRIË, 1998:20)

     A língua, portanto, é um sistema de caráter social, embora só se concretize nos atos de fala produzidos por cada falante, o que implica dizer que o modo de falar também fornece meios para a identificação social, parte-se da língua para definir o grupo social que o falante pertence. Assim, quando se tenta extirpar as formas lingüísticas desprestigiadas de uma comunidade dizendo que são erradas está, conseqüentemente, informando que os seus valores culturais também são errados. Como Bagno (2003) explica:

A língua que uma pessoa fala à língua que ela aprendeu com sua família e com sua comunidade, a língua que ela usa para falar consigo mesma, para pensar, para expressar seus sentimentos, suas crenças e emoções, faz parte da identidade dessa pessoa, é como se a língua fosse à pessoa mesma... (BAGNO, 2003:188).

     Estigmatizar a fala de uma pessoa ou comunidade é abafar os talentos naturais, é causar insegurança na linguagem e assim, gerar medo quanto à expressão autêntica e espontânea. “Uma perseguição neurótica de erros só gera insegurança e desamor ao trato com a língua”. (LUFT, 1997:17). E,

Por forças de teorias gramaticais dessa espécie, puristas, reacionários, quantas pessoas arrastam pela vida preconceitos que lhes bloqueiam a livre expressão. Nunca se sentem à vontade no terreno que mais lhes pertence: a sua língua de berço, com a qual pensam, se comunicam e expressam os mais íntimos pensamentos e emoções. (LUFT, 1997:92).

     Quando se pensa nos conceitos de certo ou errado na língua é necessário atentar para a questão da legitimidade de uma forma lingüística, pois a norma-padrão muda se não mudasse, “ainda estaríamos falando latim” (BAGNO, 2005:98). Assim:

Ao contrário do que as pessoas em geral pensam os conceitos de certo e de errado não são definidos de uma vez por todas, para todo sempre. Como tudo na vida e no universo muda, a língua também muda junto com tudo mais. É verdade que existe uma pressão muito grande dos defensores da norma-padrão de fazer com que ela fique inalterada, compacta e sólida, mas isso é simplesmente impossível. O que a história das línguas – de todas as línguas – nos ensina é que, ao longo do tempo, não importa qual for a intensidade da pressão normatizadora, a norma-padrão vai sofrer alteração. (BAGNO, 2003:167)

     É preciso atentar-se para o fato de que o que é considerado erro pela norma culta é usado com muita tranqüilidade pela maioria dos falantes da língua materna, e que os dizeres pejorativos devem ser retirados, pois não se pode falar de erro já que a forma de linguagem usada pela maioria é perfeitamente entendida. Além disso, urge reconhecer que a língua popular (subpadrão) é mais espontânea, expressiva e dinâmica. Não é possível, portanto, negar a complexidade e dinamicidade da linguagem de qualquer falante, independente do meio de que provém e das experiências lingüísticas que vivenciou ou vivencia. Então, é necessário desenvolver, em todos os falantes sendo cultos ou não, a sensibilidade em relação às variedades lingüísticas e acabar com os preconceitos que privilegiam umas e discriminam e estigmatizam outras, pois

aquilo que parece “errado” ou “estranho” no português não-padrão é, na verdade, resultado da ação de tendências muito antigas na língua, que são refreadas, reprimidas pela educação formal, pelas regras de linguagem literária, oficial, escrita, mas que encontram livre curso na boca do povo.” (BAGNO, 2003:113).

     Para falar efetivamente a língua materna não é preciso saber regras de gramática, mais que esse conhecimento é o conhecimento intuitivo ou inconsciente que todo falante de uma língua tem, pois “a variedade é de alguma forma regrada por uma gramática interior da língua. Por isso, não é preciso estudar uma língua para não ‘errar’ em certos casos. Em outras palavras, há ‘erros’ que ninguém comete, porque a língua não permite”. (POSSENTI, 2002:35). Portanto, pode-se dizer que as pessoas que falam dialetos desprestigiados são tão capazes quanto as que falam de acordo com a norma culta, pois mesmo sem conhecer regras, “o usuário dá a dinamicidade que a língua precisa para realizar sua função social, comunicar” (BARRETO, 2005:06). De acordo com Luft (1997) “o saber lingüístico, competência plena da linguagem verbal, comporta o sistema COMPLETO das regras que governam os atos de fala, devendo incluir necessariamente regras de comunicação” (LUFT, 1997:85). Assim sendo, é importante esclarecer que a língua é usada de maneiras diferentes, pois é produto de uma cultura, e como tal, é diversificada. E se uma cultura muda, a língua, que possui recursos necessários, também muda com ela.
     Observando o prestígio da norma culta que se acentua cada vez mais e a imposição dessa norma como se fosse o único dialeto válido, fica claro que juntamente com as formas lingüísticas também se impõe os valores culturais ligados às formas cultas de falar e isso implica em diminuir valores populares. A língua culta é de fato o modo de falar dos grupos sociais privilegiados, e a formação social dos sujeitos leva-os, infelizmente, a admitir que a norma culta é eficiente, bonita e a única correta. É preciso que os falantes da linguagem subpadrão elevem sua auto-estima lingüística, e como propõe Bagno (2003) devem recusar os argumentos que visem menosprezar o saber lingüístico individual e imporem-se como falantes competentes de sua língua materna. Todas as formas lingüísticas são veículos perfeitos de comunicação e de relação entre as pessoas, e todas têm o seu valor. Sendo assim, torna-se necessário respeitar as variedades da língua, que são, incondicionalmente, uma preciosidade da cultura brasileira.
     A partir disso convém salientar que “o que existe, de um lado, em termos de representação ou imaginário lingüístico, é uma norma padrão ideal, inatingível e, do outro lado, em termos de realidade lingüística e social, a massa de variedades reais, concretas, como se encontram na sociedade”. (BAGNO, 2003:161).
     Desconsiderar a heterogeneidade no campo da linguagem é negar valor à heterogeneidade da formação do povo brasileiro, pois entre sociedade e língua não há uma relação de mera casualidade, é fato.
     Por falar em relação de língua e sociedade tem-se observado que a linguagem influencia os comportamentos dos indivíduos, pois os discursos transmitidos são carregados de valores que são vistos de forma positiva ou negativamente. Ou os comportamentos lingüísticos são aceitos ou recebem uma carga de preconceitos. Mas, o que é inaceitável socialmente se refere à estrutura da linguagem subpadrão. A competência lingüística não é avaliada circunstancialmente, só se considera correta a forma lingüística prescrita por gramáticos ortodoxos. Assim, certas construções são estigmatizadas e ouve-se dizer que o erro é apanágio de pessoas ignorantes, não educadas. Pode-se concluir, portanto, que a língua é veiculo de valores e preconceitos de classe.
     Bagno (2003) enfatiza que todo falante, seja culto ou não, está sujeito a todo tipo de influencias externas ou internas, pois ele está sujeito a todo tipo de situação e, portanto, sofre pressão do ambiente em que se encontra da hierarquia social em relação às pessoas com quem está interagindo, ou seja, os falantes de uma língua, talvez até sem perceber, usam constantemente variedades lingüísticas que consideram erradas. É o que coloca Possenti (2002) no que segue abaixo:

Pesquisas mostram que as pessoas utilizam muito mais freqüentemente do que imaginam as formas de expressão que consideram erradas. Este fato, aliás, tem uma forte influencia na mudança lingüística: as formas “erradas” que as pessoas cultas começam a empregar perdem sua conotação negativa e acabam por tornar-se “certas”. Os sociolingüistas em geral defendem a hipótese de que as regras são de natureza variável, de forma que é muito difícil para qualquer pessoa falar durante certo tempo sem passar inconscientemente de uma variedade a outra. (POSSENTI, 2002: 76).
     
     Nesse contexto, a supervalorização da língua culta passa a ser simplesmente uma forma de preconceito com a linguagem subpadrão, ou melhor, com as pessoas que se utilizam dessa linguagem, já que na língua falada há presença de regras variáveis, até mesmo na língua culta. Então, “sendo a língua uma realidade essencialmente variável, em princípio não há formas ou expressões intrinsecamente erradas” (POSSENTI, 2002:86), a linguagem culta, na verdade, serve mais como manutenção do status quo das classes sociais privilegiadas.


Biografia:
Professor, EscritoR, Poeta, minicontista e haicaísta
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