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OS EMBARAÇOS DO PROFESSOR DE LÍNGUA PORTUGUESA
Robério Pereira Barreto

Resumo:
OS EMBARAÇOS DO PROFESSOR DE LÍNGUA PORTUGUESA RESUMO: Neste trabalho serão apresentados os nós do ensino da gramática na escola, tendo por objetivo observar como os professores têm ensinado a Língua Portuguesa na sala de aula, e as concepções modernas de linguagem. Uma vez que tem havido indecisão dos profissionais da língua(gem) na hora de atuar em sala de aula, ficando, portanto, sem saber se agem conforme metodologias advindas da lingüística moderna ou, se agem de acordo com o tradicional ensinamento da gramática. Ao fazemos um breve levantamento histórico do ensino de Língua Portuguesa, buscando compreender como se processam as atividades de aquisição de lingua(gem) na escola, e as concepções dos professores frente ao ensino gramatical tivemos as mais díspares acepções sobre a aquisição do idioma nacional. Por outro lado, temos ainda a questão do preconceito lingüístico presente na sociedade que privilegia os ordenamentos da escrita, buscando desmistificar os mitos que envolvem o ensino de Língua Portuguesa. É relevante observarmos o processo histórico da Língua Portuguesa em nosso país, mesmo porque é uma língua de civilização, visto que os primeiros habitantes das terras brasileiras, os índios, eram falantes de línguas indígenas como o tupi, guarani, entre outras. No Brasil, as variações lingüísticas presentes na oralidade divergem das raízes do português culto, essencial para a língua escrita. O problema do ensino do padrão só se põe de forma grave quando se trata do ensino padrão a quem não o fala usualmente...” (POSSENTI, 1996: 17), e este tem sido um dos fatores negativos para o êxito do ensino da Língua Portuguesa. Outro problema freqüente no ensino de Língua Portuguesa é a confusão gerada em torno da gramática, confunde-se ensino da língua com o ensino da gramática. As evidências apontam para a necessidade de uma reestruturação do ensino de Língua Portuguesa criando meios para que os alunos se tornem bons falantes e escritores do idioma. Palavras-chaves: Língua Portuguesa; Ensino; Professor; Diversidade Lingüística.

     Neste trabalho serão apresentados os nós do ensino da gramática na escola, tendo por objetivo observar como os professores têm ensinado a Língua Portuguesa na sala de aula, e as concepções modernas de linguagem. Uma vez que tem havido indecisão dos profissionais da língua(gem) na hora de atuar, ficando, portanto, sem saber se agem conforme metodologias advindas da lingüística moderna ou, se agem de acordo com o tradicional ensinamento da gramática.
     Um dos fatores que ocasionam esses impasses é a falta de um conhecimento mais aprofundado das novas teorias. A maioria dos professores, principalmente, os que estão a mais tempo em sala de aula, que a maneira tradicional é a mais eficiente e segura para o ensino da língua, pois lhe falta acesso a uma reclassificação dos saberes para conhecer tais teorias. Assim, esse trabalho propõe que a gramática seja trabalhada dentro de um contexto real da linguagem, para uma melhor aquisição da competência lingüística do aluno.
     Ao fazemos um breve levantamento histórico da Língua Portuguesa, buscando compreender como se processa o ensino dela na escola, e as concepções dos professores frente ao ensino gramatical teremos as mais dispares acepções sobre a aquisição do idioma nacional. Por outro lado, temos ainda a questão do preconceito lingüístico presente na sociedade que privilegia os ordenamentos da escrita, buscando desmistificar os mitos que envolvem o ensino de Língua Portuguesa. Assim, pesquisa qualitativa realizadas com os professores buscando compreender o que é importante para o ensino de Língua Portuguesa, observando a visão de cada um sobre o ensino da gramática e que metodologias devem ser adotadas para que os alunos tenham
uma compreensão ampla da língua e desenvolvam assim suas habilidades orais e escritas nos mais variados meios sociais.

Como se processa o ensino de língua portuguesa na escola?

É relevante observarmos o processo histórico da Língua Portuguesa em nosso país, mesmo porque é uma língua de civilização, visto que os primeiros habitantes das terras brasileiras, os índios, eram falantes de línguas indígenas como o tupi, guarani, entre outras. A Língua Portuguesa chegou ao Brasil através das grandes navegações, trazida pelos colonizadores portugueses, pioneiros náuticos, sendo utilizada como meio de comunicação entre europeus e asiáticos, e estabelecendo-se no Brasil através do processo de civilização das nações indígenas e africanas.
     Segundo Bearzoti (2001), a Língua Portuguesa hoje é idioma oficial de oito nações, sendo a sexta língua mais falada no mundo, com quase 200 milhões de falantes, “é hoje uma língua culta de dimensão internacional e intercontinental, falada nos cinco continentes”. Entretanto, por ser uma língua falada em paises pobres e subdesenvolvidos acaba por não ter a expressão mundial que deveria.
     No Brasil, as variações lingüísticas presentes na oralidade divergem das raízes do português culto, essencial para a língua escrita. O que ocorre, é que para a maioria da população esta língua culta torna-se distante e confusa, passível de contato apenas na escola e nos meios de comunicação formais. Neste caso, podemos observar que a língua falada pela grande massa populacional difere do português padrão, ensinado na escola, o que dificulta o processo de ensino e aprendizado. “... o problema do ensino do padrão só se põe de forma grave quando se trata do ensino padrão a quem não o fala usualmente...” (POSSENTI, 1996: 17), e este tem sido um dos fatores negativos para o êxito do ensino da Língua Portuguesa. Outro problema freqüente no ensino de Língua Portuguesa é a confusão gerada em torno da gramática, confunde-se ensino da língua com o ensino da gramática. Aquela geralmente marcada pelo uso dos livros e manuais didáticos, partindo de metodologias tradicionalistas que vêem a língua dissecada em partes gramaticais, nunca como um todo significativo.
Este ensino gramaticista tem sido alvo de críticas e questionamentos, sendo culpabilizado pelo fracasso escolar. As evidências apontam para a necessidade de uma reestruturação do ensino de Língua Portuguesa criando meios para que os alunos se tornem bons falantes e escritores do idioma. Segundo Luft (1997) o ensino gramaticalista tende a abafar os talentos naturais, gerando aversão ao estudo da língua e incutindo insegurança, ou seja, reprime a expressão livre e autêntica do falante.    
Segundo o PCN/LP, a Língua Portuguesa tem sido marcada por uma seqüenciação de conteúdos, em que primeiro ensina-se a juntar sílabas para formar palavras, palavras formar frases e frases textos, porém este ensino descontextualizado serve somente para o aluno aprender a decodificar signos. “Se o objetivo é que o aluno aprenda a produzir e a interpretar textos, não é possível tomar como unidade básica de ensino nem a letra, nem a sílaba, nem a palavra, nem a frase que, descontextualizadas, pouco tem a ver com a competência discursiva...”(PCN/LP, 2000: 35), compreendida neste contexto por capacidade de se produzir discursos orais ou escritos, adequados a comunicação.
     Mesmo com a existência de discussões teóricas e críticas sobre o ensino da Língua Portuguesa observa-se que mudanças efetivas ainda não ocorreram na escola. Em verdade, pode-se dizer que o professor de Língua Portuguesa se encontra num completo dilema, entre o novo e o tradicionalista, não conseguindo definir-se sobre o que ensinar. E assim, acabam por aceitar os livros didáticos e modelos de antigos professores tradicionalistas, sem contar aqueles que valorizam o ensino da gramática na escola para a preparação do educando para os possíveis vestibulares, concursos públicos, etc.
Com tais inquietações surge à necessidade de uma analise reflexiva sobre como tem se desenvolvido o processo de ensino da língua materna e como deve ser de fato este ensino. Verificando a problemática aqui levantada, observa-se que este ensino pautado nas regras gramaticais não tem alcançado os reais objetivos, que é levar o aluno a adquirir competências lingüísticas orais e escritas, mesmo porque não se levam em consideração os seguintes aspectos: “...Como aprendemos a falar? Falando e ouvindo. Com aprenderemos a escrever? Escrevendo e lendo, e sendo corrigidos, e reescrevendo, e tendo nossos textos lidos e comentados muitas vezes, com uma freqüência semelhante a freqüência da fala e das correções da fala...” (POSSENTI, 1996: 48).
Se o ensino da Língua Portuguesa só se preocupa com as questões gramaticais, sem dúvidas, a aprendizagem da língua, em si, acaba ficando em segundo plano, e o educando com a idéia de que não domina a língua materna. Para Luft (1997), o professor tradicionalista não considera que todo falante nativo sabe sua língua precisa apenas desenvolvê-la e praticá-la em outros níveis, enfim, parte do pressuposto de que o aluno não sabe a língua, e que cabe a ele ensiná-la.
Enquanto que, o ensino voltado para as questões lingüísticas exige do professor um posicionamento flexível e de valorização cultural do aluno, levando em consideração as particularidades e o contexto social em que este se encontra inserido.


O que a Lingüística traz de positivo ao ensino de línguas são as noções fundamentais de linguagem e língua, de variedades e registros; a noção de que não há língua que não evolua; a noção de que o uso e os fatos devem prevalecer sobre preconceitos normativistas – sobretudo, a noção de que a língua é um saber interior, pessoal, dos falantes, de onde o ensino deve partir e em que deve, sempre, se basear. (LUFT, 1997: 97)


     No processo de ensino em que se observam os preceitos lingüísticos o professor jamais deve colocar o aluno num grau zero de conhecimento, mesmo porque deve se observar à gramática internalizada desenvolvida pelo falante. “Esse sistema de regras que os falantes internalizam na infância é que constitui a verdadeira gramática da língua, a legítima e autêntica, da qual todos os demais (livros, teorias de gramática, filólogos e lingüistas, etc) não passam de reproduções...” (LUFT, 1997: 97)
     Infelizmente, a realidade do ensino de Língua Portuguesa não prima em sua totalidade pela utilização dos aspectos lingüistas, quando muito mascaram o ensino gramaticalista, ou seja, propõem-se atividades que deveriam levar a uma prática lingüista, mas que acabam servindo de pretexto para o estudo gramatical, podendo assim ser exemplificado com as boas e velhas interpretações textuais, tem-se o texto, mas que acaba não sendo observados os aspectos semânticos e discursivos presentes no mesmo, mas sim as famosas classes gramaticais.
     É necessário desatrelar o ensino da Língua Portuguesa do ensino gramatical, para Possenti (1996), tal modificação poderá ocorrer quando as escolas se derem conta de que estão ensinando aos alunos o que já sabem, a gramática inerente a todo nativo, a qual a escola precisa levar em conta, para a partir daí trabalhá-la em outros níveis, inclusive desenvolvendo as habilidades lingüísticas orais e escritas, privilegiando a palavra escrita, mas não diminuindo a importância das características da oralidade para compreensão do processo de ensino.

1.2 - O Professor e suas concepções de ensino gramatical


Todo ensino tem muito haver com as concepções que o professor possui, no caso do ensino de Língua Portuguesa não é diferente. Se o professor possuir uma visão restrita de ensino, atrelada apenas a aspectos gramaticais, sua prática enquanto professor também será restrita, passando a incutir em seus alunos os mesmos valores que possui, muitas vezes reproduzindo insegurança e servilismo. “Em se tratando da área de Língua Portuguesa, o professor também terá outro papel fundamental: o de modelo. Além de ser aquele que ensina os conteúdos, é alguém que pode ensinar o valor que a língua tem...” (PCN/LP, 2000: 48)
O trato dado à língua pelo professor é essencial para o bom desenvolvimento da prática pedagógica e do sucesso de ensino aprendizagem. Se o professor habitua-se ao comodismo dos currículos prontos e bitolados, que não consideram a língua como uma unidade viva e dinâmica, sem dúvida, o ensino não atingirá níveis de compreensão e domínio pelo estudante.
Para Luft (1997), propor um ensino diferenciado requer do professor segurança e competência, bem como estar informado sobre o que há de novo em teorias de linguagem, isto não significa ensinar ao educando tais teorias, mas sim para que ele produza práticas de estudos para o domínio da língua, observando os reais objetivos do ensino da Língua Portuguesa.


Os objetivos de Língua Portuguesa salientam também a necessidade de os cidadãos desenvolverem sua capacidade de compreender textos orais e escritos, de assumir a palavra e produzir textos, em situações de participação social. Ao propor que se ensine aos alunos o uso das diferentes formas de linguagem (oral e escrita), busca-se o desenvolvimento da capacidade de atração construtiva e transformadora. O domínio do dialogo na explicitação, discussão, contraposição e argumentação de idéias é fundamental na aprendizagem da cooperação e no desenvolvimento de atitude de autoconfiança, de capacidade para interagir e de respeito ao outro. A aprendizagem precisa então estar inserida em ações reais de intervenção, a começar pelo âmbito da própria escola. (PCN/LP, 2000:46)


     É natural que haja dificuldades em se propor um ensino que observe tais características, pois isto requer esforço e dedicação por parte do professor, assim como uma formação profissional adequada, bem como propiciar atividades que envolvam os alunos e os demais participantes do processo educativo. Em muitos casos o que dificulta a melhoria do ensino de língua materna é esta indisposição do professor em comprometer-se com as exigências que este processo requer, algumas vezes, por ser muito mais cômodo fazer uso do livro didático, e em outros casos por não compreender criticamente as teorias modernas da linguagem.
     Aos professores de Língua Portuguesa, profissionais cuja responsabilidade é formar leitores e escritores competentes, o apego demasiado ao uso de regras e normas gramaticais só distancia seu objetivo de trabalho, para Louzada (1998, 19) “trata-se primordialmente da mudança de postura do profissional de ensino em relação a concepção de linguagem e do que é ensinar língua materna”, sem esta abertura à novas concepções de ensino fica impossível pensar numa transformação no ensino de Língua Portuguesa.
1.3 - O descompasso entre as teorias e as práticas de ensino da gramática


     Segundo Faraco (2001), as teorias que definem a linguagem sob três aspectos diferentes são: a Filologia, a Gramática e a Lingüística. Sendo a filologia e a gramática criadas pela cultura helenística, enquanto que a lingüística é uma ciência moderna. A filologia estuda as manifestações escritas de culturas antigas, cujo objetivo é fixar esses textos de maneira confiável e mais próxima possível do original, isto envolve desde a comparação de manuscritos e diferentes edições de textos (após a invenção da impressa), até o estudo das palavras e seus respectivos significados. Para o autor, a gramática é uma espécie de livro de etiqueta que dita as regras de escrita, e o gramático aquele que se ocupa em estabelecer as normas do uso da escrita. Enquanto que a lingüística tem como objeto à própria língua, o lingüista preocupa-se com todos os fenômenos lingüísticos em torno do uso da língua, não se prendendo ao uso culto, mas estuda toda e qualquer manifestação escrita. Com relação a isto, há muitas divergências contra o trabalho do lingüista, pois afirmam que este não valoriza o uso padrão da língua, informação esta que não procede, aliás, foram eles que descreveram-na da melhor maneira.
     Em se tratando de lingüística é indispensável recorrer aos estudos de Avram Noam Chomsky, lingüista americano, nascido em 1928, e que em 1950 elevou sua pesquisa sobre linguagem ao nível científico, tendo como ponto central à capacidade inata do ser humano em comunicar-se.
     Para Luft (1997) a teoria de Chomsky determina que o ser humano nasce provido de uma capacidade inata para a linguagem, que é ativada pelo meio social, ou seja, ninguém nasce com a gramática de uma determinada língua, mas sim com uma estrutura genérica que serve como base para aprender as estruturas específicas de qualquer língua.

Não foi por escolha nossa que adquirimos o idioma que falamos: ele simplesmente se desenvolveu em nossa mente em virtude da nossa construção interior e do meio ambiente em que vivemos. [...] para cada um de nós, a língua se desenvolve em conseqüência de nossa constituição atual, quando somos colocados no meio ambiente apropriado. (Chomsky, 1981:18-9 IN: LUFT, 1997:56)


A linguagem vista pelo prisma da teoria chomskyana não pode ser considerada tão complexa como faz crer o ensino tradicionalista, o grande problema é que o ensino tradicional não considera essa gramática natural do falante, mas somente aquela aprendida através dos livros. “O mais importante é compreender que qualquer pessoa quando fala não faz isso sem “regras”. Ela pode estar violando uma “regra” da língua padrão, da língua de cultura, da gramática da linguagem formal, mas não viola a “regra” da sua linguagem, da sua própria gramática” (LOUZADA,1998:20)
     É importante lembrar que a gramática natural de cada indivíduo é aquela que norteia a fala, a oralidade, entretanto deve servir como base para a expressão de processos comunicativos mais elaborados. Segundo Luft (1997) é sob essa base que o professor irá construir sua prática, juntamente com o aluno, de forma realista, útil e produtiva. E assim é preciso que o professor observe a gramática internalizada que cada aluno traz para a sala de aula, bem como o contexto social e as características de sua formação, e é partindo das distâncias que a linguagem dele apresenta da língua culta, o professor vai sustentar seu trabalho, agindo assim estará rompendo com o paradigma; o estudante ao ingressar na escola encontra-se no grau zero de conhecimento da língua.
Dessa maneira o que se ver é a imposição do “realismo lingüístico é indispensável ao professor: a língua (e a gramática) é como é, não como deveria ser, como o professor queria que fosse, como os gramáticos pretendem impor que seja, presos a modelos do passado” (LUFT, 1997:67).
     Ao observarmos a língua e sua estrutura com de fato se apresenta, concebendo-a na sua plenitude, e não a distanciando da oralidade, meio pela qual a utilizamos constantemente, torna-se menos complexo propor um ensino que valorize a língua e respectivamente o seu usuário, sem se prender aos processos inflexíveis das gramáticas normativas, ou o chamado “absolutismo gramatical” como define Luft (1997:67).
      Na verdade a grande dificuldade em se desvencilhar desse absolutismo gramatical está no fato de pouco se conhecer a realidade do ensino lingüista, de não se compreender criticamente as teorias da linguagem, ou pior não produzir posicionamento ou argumentação frente a estas teorias. “É urgente que o professor de língua materna seja tecnicamente bem preparado, com sólida fundamentação lingüista, para termos um ensino mais eficiente, adequado à realidade do país, dos alunos e da escola”. (LUFT,1997:70)
     No tocante a este assunto, é que se faz a relação do descompasso entre as teorias e práticas do ensino da gramática, pois mesmo com todo o avanço da lingüística, percebe-se uma carência assombrosa de práticas de ensino que primem pelo aspecto natural da linguagem, e isto está intimamente ligado à formação profissional do professor e suas concepções de linguagem, bem como de aspectos ligados a sua dignificação profissional.
     A condição financeira também influi muito na atualização, motivação e no próprio desempenho do seu papel de professor. É necessário que seja dado ao professor suporte teórico, emocional e financeiro para que este desempenhe um ensino qualitativo de Língua Portuguesa.


O professor de língua materna deve ser um profissional especializado e competente. E bem remunerado para que possa atuar e reciclar constantemente, comprar livros e revistas, e dispor de todo o tempo necessário nessa tarefa difícil, mas do maior interesse num país que deseje conscientizar, libertar e dignificar seu povo. (LUFT,1997:70)


     À tarefa que cabe ao professor de língua materna é árduo e espinhoso, propor um ensino que conscientize e liberte lhe exige muita força de vontade e disposição, além de estar preparado para enfrentar todos os obstáculos possíveis, tanto teoricamente, quanto emocionalmente.
     É preciso compreender, entretanto, que não significa que o professor deva trabalhar as teorias gramaticais em sala de aula, mas conhecê-las e gerar posicionamentos para fazer o confronto destas com a realidade de seus educandos. Mas, infelizmente, este é que tem sido o drama do ensino da gramática nas aulas de Língua Portuguesa, acredita-se necessário utilizar suas teorias “a tradição sempre foi ser mais teórico que prático, mais normativo que descritivo, e distante da realidade” (LUFT,1997:71).
     Geralmente também se confunde a idéia de se trabalhar na perspectiva da lingüística com “não trabalhar a gramática”, é comum ouvirmos comentários sob o desprezo dado à gramática normativa e que esta deveria ser rasgada ou queimada, isto é uma das confusões gerada pelo total despreparo e desconhecimento teórico da lingüística, pois esta vertente teórica condena a opressão gerada pelo ensino tradicionalista da gramática, não à gramática em si.
     Para Luft (1997) a escola e os professores devem encarar com lucidez o fato de os alunos já chegam com uma gramática internalizada, entretanto com essa teoria deve-se trabalhar reforçando e ampliando para se chegar a outra teoria: a da gramática da língua culta, mesmo porque dentro do universo da linguagem as teorias não se excluem, mas se completam.
     A escola como instituição de ensino e conhecimento tem a necessidade de compreender a linguagem e suas teorias, proporcionando aos professores o debate e as discussões sobre as praticas de linguagem, assim como dar suporte ao trabalho do professor. Isso implica numa revisão das práticas de ensino na instituição, até mesmo daqueles que fazem parte das outras áreas do ensino, não deixando a cargo somente do professor de línguas, mesmo porque de uma maneira ou de outra, todos utilizam a linguagem para desempenhar seu trabalho, “por isso, todas as disciplinas têm a responsabilidade de ensinar a utilizar os textos de que fazem uso, mas é a de Língua Portuguesa que deve tomar para si o papel de fazê-lo de modo mais sistemático”. (PCN/LP, 2000:31)
Se a função da escola e do ensino de Língua Portuguesa é auxiliar o aluno na aquisição das competências lingüísticas, não se pode tratar a linguagem como um conteúdo em si. Mas sim como um meio para melhorar a qualidade da produção lingüística, através de atividades que proponham a reflexão e o uso da língua, entretanto, é preciso que o professor tenha clareza e consciência deste trabalho.
O que há de mais prejudicial para o ensino de Língua Portuguesa é a incompatibilidade de concepções de ensino dentro de uma mesma instituição, gerando atritos e discussões que não levam a prática nenhuma, só o que se consegue é desestabilizar ainda mais o ensino.

Parece que estamos em guerra. Os gramáticos não concordam entre si. Os lingüistas brigam com os gramáticos tradicionais. Professores da mesma instituição não se entendem, vão aos jornais e expõem ao público os pontos discordantes a respeito do ensino de língua portuguesa. Jornais e revistas publicam artigos que dão aos leitores a impressão de que o ensino de português se tornou caótico. As brigas e mal entendidos nas suas manifestações multiformes, desorientam os professores que, nesta altura dos acontecimentos, se perguntam: o que fazer? O que ensinar? (STAUB,2001:18)


     É preciso então acentuar a necessidade do ensino da norma culta, o que se precisa ter claro é como ensiná-la, sem causar violências ou agressões lingüísticas, sem exigir que se perca os referenciais da língua não culta, ou seja, o ensino só deixará de ser excludente e confuso quando o professor tiver uma formação lingüística adequada, que não exclua a importância dos demais ramos das teorias da linguagem.
     E, isso exige da instituição e dos professores um planejamento da ação pedagógica de forma a garantir situações de aprendizagem que envolva os vários aspectos da língua, sendo trabalhado não somente pelos professores de língua materna, mas todo o corpo docente, até mesmo porque as responsabilidades pelo sucesso ou fracasso do sistema de ensino não deve recair sobre os ombros do profissional da área da linguagem.
Referências
BAGNO, Marcos. A Língua de Eulália: novela sociolingüística. 11ª ed. São Paulo: Contexto, 2001.
______________. Preconceito Lingüístico: como é, como se faz. 9ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2001.
BARRETO,Robério Pereira. Desvelando o sentido de ser professor de Língua Portuguesa no cotidiano da escola pública. Sapezal: 2005 (prelo)
BEARZOTI, Paulo.Revista Discutindo Literatura. Ano I Nº 02, pg 12-15.
LOUZADA, Maria Silvia Olivi. O Ensino do Português na Escola. IN: MURRIE, Zuleika de Felice (Org.) O Ensino de Português. São Paulo: Contexto, 1998.
LUFT, Celso Pedro. Língua e Liberdade. 5ª ed. são Paulo: Ática, 1997.
PCNS, Parâmetros Curriculares Nacionais: Língua Portuguesa. Brasília, Secretaria de Educação Fundamental, 1997.
POSSENTI, Sírio. Por que (não) Ensinar Gramática na Escola. 10ª Reimpressão, Mercado das Letras: Associação de Leitura no Brasil, Campinas: São Paulo, 2003.
SALOMON, Délcio Vieira. Como Fazer Uma Monografia. 10ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
SILVA, Rosa Mattos e. Tradição Gramatical e Gramática Tradicional. 5ª ed. São Paulo: Contexto, 2002.
TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática e Interação: uma proposta para o ensino da gramática. 9ª ed. rev. São Paulo: Cortez, 2003.























Biografia:
Professor, EscritoR, Poeta, minicontista e haicaísta
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