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Jornada de descoberta
Lorena Rodrigues Santana


Morar em outro país é uma daquelas experiências que podem transformar uma vida. É sair da zona de conforto em todos os sentidos: fisicamente, psicologicamente, fisiologicamente. O corpo sente, a cabeça se agita, o coração alterna uma batida apertada com tremores de alegria. Há quem se vicie neste misto de sensações que é ser um forasteiro, um estrangeiro em terra alheia, e sempre busque por mais (ou simplesmente crie raízes nessa nova terra que ele acredita que merece chamar de sua também).

Para mim, morar em outro país nunca foi um sonho. Nem mesmo uma possibilidade distante. Eu simplesmente não pensava sobre isso. Entretanto, a vida tem das suas gracinhas. Ela sempre arruma um jeito de sacudir ou de acalmar, de esfriar ou de aquecer, de equilibrar. De trazer pro eixo. Pelo visto, eu precisava disso para crescer. Paguei para ver e a vida me levou para o outro lado do mundo: a Rússia.

Quem me conhecia, dizia que era loucura. Sempre fui muito próxima à minha família, nunca fui do tipo independente. Eu era mais do estilo certinha, conservadora, classica. Daquela que se espera o óbvio, uma linha reta do destino que parece inevitável para quem olha de fora. Mas não, meu desafio era criar uma curva nessa estrada, redesenhar a rota e traça-la por misteriosos, mas também na mesma medida, encantadores novos caminhos.

Eu tinha 23 anos quando me mudei para o país. Com diploma de jornalismo nos braços e um coração cheio de alegria e expectativa pelo o que estava por vir. Não sabia o que me esperava, além de um grande amor que em pouco tempo havia me dado a coragem suficiente para encarar aquela mudança. Tinha na mala, além das roupas de frio, a certeza de que, independente do que por mim esperava, era exatamente ali onde eu deveria estar.

Posso descrever em milhões de textos, conversas, posts, tudo aquilo que aprendi. Entretanto, resolvi eternizar nas palavras redigidas aquilo que me marcou mais, e profundamente. Não seria exagero dizer que na Rússia eu aprendi a ser mulher. Não quero dizer que esta é uma tarefa concluída, ainda estamos em construção. O que a vida na Rússia me trouxe, foi um despertar.

Antes de ir, nunca precisei encarar de frente essa condição de ser mulher. Eu nem sabia ao certo o que ela era. O que aconteceu foi uma série de circunstâncias que me fizeram encarar de frente o ser feminino que eu nem sabia que carregava na alma.

Cheguei ao país com um novo estado civil, o de casada. Até então, sempre havia morado com meus pais e desempenhar meu papel de filha nunca havia sido um grande desafio. Era confortável.

De repente me vi assumindo um novo papel, que trazia com ele uma dose de responsabilidade e de crescimento pessoal que a vida nunca havia pedido de mim. Cuidar de uma casa, organizar as contas familiares, cozinhar, fazer compras...pode parecer banal para alguém, mas não para uma garota que nunca havia se preocupada com esses detalhes da vida adulta.

E então, me voltei para dentro e descobri uma tremenda forca e capacidade de realização. Vesti a camisa e encarei aquele desafio. Aos poucos, fui percebendo que gostava muito de fazer tudo aquilo, de ser aquela pessoa, de estar naquele papel. Para minha surpresa, em cada gesto e decisão que eu tomava, sentia ressoar na minha cabeça o que minha mãe um dia também havia feito e que eu, mesmo inconscientemente, registrei na memória. Me dei conta de eu havia registrado, nao so uma memória visual, mas principalmente uma memória afetiva, o jeito de ser daquela que me gerou. E até mesmo o jeito de ser mulher daquela que veio antes de nós duas, e de tantas outras que, mesmo sem eu me lembrar ou saber quem eram, deixaram suas impressões em meu DNA.

Mas então surgiu uma dúvida. O quanto daquilo que eu fazia, e daquela que eu me tornava, vinha realmente de mim? Será que o meu jeito de ser mulher era apenas um reflexo daqueles outros jeitos que meus genes usavam como modelo? Depois de parar para sentir e entender o que acontecia, entendi que não há problema ser o reflexo de muitas. Porque de qualquer forma, nunca vou conseguir anular minha individualidade. Sou única, mas também a mistura de muitas.

Entender isso, foi então libertador, porque pude também olhar para o presente. Para aquelas mulheres que agora estavam ali ao meu redor. Tantas e tão diferentes daquilo que eu tinha como referência. Percebi uma grande riqueza cultural. Uma grande oportunidade de crescer ainda mais, observando, aprendendo, entendendo como aquelas mulheres deste país tão distante, viviam e sentiam.

Aprendi muito. Ainda aprendo. E vou formando essa miscelânea que eu sou. De repente surgiu o desejo então de compartilhar com outras mulheres aquilo que pude aprender vivendo na Rússia. Mas não só ali. A ideia é entender como as mulheres do mundo todo vivem, se relacionam e se afirmam como tal. Tudo isso para responder uma pergunta...o que é ser mulher? Aonde reside o feminino sagrado dentro de todas nós e como mostramos isso para o mundo? Um trabalho de formiguinha, mas, diga-se de passagem, de uma formiguinha muito curiosa! A intenção é trocar experiências, somar, ser melhor de mãos dadas e tentar caminhar juntas no compasso da nossa evolução.


Biografia:
Mãe, esposa e escritora. Jornalista curiosa. Olhar atento e ouvido sempre alerta.
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