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A arte do incômodo
(A cultura queer e o fuzuê do ano)
Roberto Queiroz

Foi a polêmica desse ano de 2017.

Quer dizer: falar de polêmica num país contraditório e hipócrita como o Brasil é sempre um caso sério. E no caso específico do Queer museu e do impedimento por parte do prefeito da cidade, Marcelo Crivella, que deixou bem claro que tal exposição não chegaria ao Rio de Janeiro, foi um quiproquó dos diabos.

O problema (pelo menos, para mim) de fato é: O povo brasileiro nunca foi um povo centrado, e sempre age de acordo com suas emoções e instintos mais passionais. Eu não lembro de ninguém reclamando de tal forma acintosa quando mulheres desfilaram completamente nuas na Marquês de Sapucaí em carnavais completos (e quem assiste o desfile pela tv sabe muito bem que isso já rolou e mais de uma vez até!). Já da exposição...

O caso da criança que tocou o modelo vivo nu ali exposto me faz pensar (além dos comentários feitos nas redes sociais, que achavam tudo uma depravação imoral, anti-cristã) em duas questões básicas: onde estava de fato a mãe daquela criança, que permitiu que ela tocasse o modelo em questão? E o que leva uma pessoal responsável por sua prole a levar uma criança menor de idade a tal evento? São perguntas que não me saem da cabeça em meio aos xingamentos que ouvi quando opinei sobre o tema.

Não bastasse o gesto "erótico" (segundo a definição de alguns portais "formadores de opinião"), existem ainda as acusações de apologia à pedofilia e a zoofilia. Isso num país considerado líder entre frequentadores de portais pornográficos no exterior (portais esses que vendem a pedofilia diariamente com a maior naturalidade) e que bate recordes quando o assunto em questão é o abandono de animais (que o diga a SUIPA, a cada dia mais e mais abarrotada de animais abandonados por donos de péssima estirpe).

Falar de hipocrisia no Brasil - e eis aqui um bom momento para se levantar a questão, e não em programas simplórios de auditório - não explica de forma suficiente o caso em si. O que incomoda mesmo aos puristas, o tema que não sai da cabeça dos repirmidos é a questão da Identidade de gênero (que o diga a bancada evangélica - e para lá de retrógrada! - do Congresso Nacional). E para falarmos disso é preciso entender primeiramente: o que a cultura queer?

Vou à internet, procuro por fontes de pesquisa coerentes (há muito wikipédia, muitos relatos distorcidos no mundo cibertecnológico) e encontro um post básico e muito bem escrito, feito sob a consultoria de Priscilla Bertucci, fundadora da SSEX BBOX e trazendo dados do Centro de Equidade de Gênero da Universidade da Califórnia em Berkeley. A leitura, deixo já claro (para os não-conhecedores do tema), não é para amadores. O tema é espinhoso e em muitos momentos eu me peguei confuso, sem saber se estava de fato entendendo o que era fato e o que era ficção.

A conclusão que chego ao fim da leitura é: O Brasil, por seu histórico de analfabetismo funcional e desinteresse pela própria classe humana, terá sérias dificuldades de lidar com a temárica nas próximas décadas. Há muitas ambiguidades e confusões que só servirão, no final das contas, para confundir ou ludibriar ainda mais os alienados cidadãos brasileiros.

Ser queer é um enfrentamento antes de tudo político (por mais que alguns setores do meio queiram negar ou disfarçar), muito mais do que um simples direito de se assumir como é. Entre cisgêneros e LGBTs há uma gama enorme de cidadãos, outrora comumente chamados de "em cima do muro" ou "dentro do armário" que agora desejam um novo caminho, uma nova classificação. A expressão é antiga e muitas figuras públicas, famosas já ganharam o rótulo de queer. Oscar Wilde, gênio por trás de obras literárias fundamentais como O retrato de Dorian Gray e De profundis, é um deles. O clima de "Permita-se ser aquilo que você quiser" é nítido em todo o texto. E esse é um ponto que realmente me incomodou. Tanto quanto a personagem Ivana/Ivan da recém-terminada novela A força do querer, da Rede Globo.

Eu, como heteronormativo que sou (segundo definição do próprio texto), me vi conflitando comigo mesmo durante toda a leitura. E mais: me lembrei de uma recente entrevista dada pelo ator Wagner Moura durante o programa Bipolar Show, no Canal Brasil dizendo ser contra pessoas que ficam incentivando qualquer um a se assumir, sair do armário, pois há muita gente fraca entrando nessa onda. Ou seja: acho a cultura queer um tema um tanto nebuloso e complicado para se tratado de forma tão aberta num país que não prima por sua inteligência.

Dito isto, há a questão da exposição em si, com sua nudez (a meu ver) desnecessária, e padrões incômodos que em nada de fato acrescentam ao país. País esse já carente de bons valores há bastante tempo...

Contudo, nem tudo o que se produziu nesse terreno é de se jogar fora. Há grandes exemplos de boa arte envolvendo a cultura queer. Divine (transformista, ator-síntese do cineasta John Waters), Village People, Querelle (romance de Jean Genet, filmado no cinema por Fassbinder),. Almodóvar, Dustin Hoffman em Tootsie, Julie Andrews em Victor ou Victoria, Videodrome - a síndrome do vídeo (longametragem de David Cronenberg), Erótica (álbum da cantora Madonna), David Bowie e suas maquiagens psicodélicas... A lista é imensa e há canais na internet que mostram isso com a maior facilidade. Procurem o amigo google de todo santo dia.

Logo, o que fazer? Proibir? Liberar? Honestamente, não me vejo como público espectador de uma mostra dessas. Não faz meu gênero. Entretanto, não partilho da opinião de muitos conhecidos meus de que "o que não é bom para mim, não é bom para os outros!". Acho toda e qualquer tentativa de destruir a liberdade de expressão mal vinda e por isso deve ser combatida.

Portanto, que a sociedade brasileira aprenda (será difícil, eu sei... sempre foi) a ter lucidez. Já passamos da hora de tratar qualquer assunto mínimo - afinal de contas, essa polêmica toda surge num dos piores momentos de nossa nação, quando ela se encontra sendo vendida a preço de banana por calhordas políticos à empresas estrangeiras, e qualquer ladainha que distraia o povo é sempre bem-vinda - como tema-central de nossas vidas miseráveis. A cultura queer e exposição queermuseu estão sendo usados como bodes expiatórios para alienar o povo, jogando a população contra a própria população, enquanto os verdadeiros cafajestes tramam suas conspirações sórdidas à luz do dia.

E finalmente: que cada um tome conta da sua própria vida e faça suas próprias escolhas (assunto, este sim, que sempre incomodou a população nacional, que sempre adorou meter o bedelho na vida alheia).


Biografia:
Crítico cultural, morador da Leopoldina, amante do cinema, da literatura, do teatro e da música e sempre cheio de novas ideias.
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