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UM SENTIDO PARA O AMOR
Claudinei Rodrigues de Souza

Emoções. Sentimentos... enquanto sentado em minha poltrona na sala, meditava sobre a vida e seu sentido.
     Os cientistas dizem que a luz são ondas eletromagnéticas e partículas chamadas fótons que se propagam em linha reta em todas as direções. Seria este o sentido da vida? Linhas retas que se propagam em todas as direções?
     Para mim, naquele momento enquanto segurava com a mão direita uma xícara de chá, a vida não era luz, era trevas. O ser humano vive em trevas e toda sua vida busca a luz, que se pode dizer ser o amor e a alegria.
     O que se buscaria na vida a não ser a alegria, quando então até em sofrimentos a alegria faz-nos ver o mínimo lado positivo do sofrimento, do augúrio.
     Em trevas nada vemos. Então, de que me servem os olhos se não posso enxergar no escuro? Era esta a minha indagação: de que me valia viver se não tinha mais vida?
     Apoiei a xícara de chá na palma da mão esquerda; senti-a quente. Levei à boca, sorvi um gole, deixei-a sobre a mesa de centro.
     Ainda refletia sobre o fenômeno da vida e a natureza dos sentimentos. Veio de súbito à mente que a vida deveria ter duas faces: a material e a espiritual.
     Aquele novo pensamento introduziu-me o desejo de caminhar pelas ruas. Estava anoitecendo. A rua estava pouco movimentada... olhei para o céu, as nuvens alaranjadas, os pássaros voando como anjos. Eu pensei em minha amada quando víamos o pôr do sol. A saudade apertou-me o coração.
     Aquela caminhada conduziu-me até a praça onde costumávamos ficar juntos. Eis ali, o banco que sempre nos sentávamos, naquele momento estava ocupado por outro casal, abraçados, tomando suco ou refrigerante; beijando-se, amando-se...
     Parei do outro lado da rua. Apoiei-me sobre um poste de luz e observei-os de longe. O vento agitava meus cabelos. Recordei que ela tinha o costume de fazer-me o mesmo, ela, a minha amada.
     Tornei a refletir sobre o lado espiritual da vida, a face que não vemos, contudo sentimos e desejamos. Não a vemos, mas instintivamente a almejamos como um sonho; uma ilusão.
     Era isso! Tudo era ilusão! Tudo era vaidade!
     Vivemos para enganar a nós mesmos que vivemos! Desde pequenos criamos sonhos e projetos para o decorrer de nossas vidas... pura ilusão. De que adiantaria sofrer para conquistar algum objetivo se o final seria sempre o mesmo tanto para o que lutou quanto para o que nada fez: a morte. Eu havia sofrido tanto para conquistar o amor de Eugênia e agora estava tudo terminado.
     Como o fogo que devora a madeira até torná-la em cinzas que para nada servirão, assim é a vida. Uma chama que nos devora para manter-se acesa, e no final, tudo terminar... pó e cinza.
     Poderia isto tudo ser o lado material da vida. A face voltada para nós. Nisto reconheci que se tudo tivesse um fim, de que valeria viver?
     O casal de namorados continuava a ser abraçar, a beijarem-se e a brincar um com o outro. Reparei em uma aliança dourada na mão direita da menina quando a mesma levou sua mão para acariciar o rosto do rapaz. A minha amada muitas vezes já havia me acariciado o rosto. Tinha também o agradável costume de me beijar nos olhos. Minhas lembranças foram interrompidas por uma amiga que veio me saudar.
     - Olá, Enéias! O que faz aqui?
     - Olá, Ana! Para dizer a verdade, estou segurando o poste. – rimos da piadinha. Brincadeira. Estou apenas tomando um pouco de ar.
     - Ah. Cuidado, hein! Não vai tomar muito e ficar bebum por aí!
     - Pode deixar.
     Ela foi embora sorrindo. Os poucos segundos que conversei com ela trouxeram-me alegria.
     Às vezes, quando a chama de nossas vidas está se apagando, aparece alguém com um pouco de força a mais que nós e alimenta o nosso fogo, o fogo da vida. Ora, com quem estou falando a não ser comigo mesmo?
     O casal levantou-se de mãos dadas e foram embora. Lentamente atravessei a rua, aproximei do banco e sentei. Enfiei as mãos nos bolsos da jaqueta, respirei profundamente o ar vespertino. Fechei meus olhos e fiz de conta que Eugênia estava ali ao meu lado, juntinha a mim, sorrindo fitando-me perdidamente nos olhos. Os lábio úmidos, a pele lívida... “Ah! se tudo isto fosse verdade. Por que me ilude, ó meus pensamentos? Por que cria coisas que não existem fazendo-me sofrer maiormente?”
     Nada. Ninguém me respondeu.
     Novamente almejei entender a outra face da vida. Talvez ela concedesse novamente a esperança que precisava.
     Um cachorro vira-latas veio próximo a mim, parou um pouco, aproximou-se mais, cheirou-me os pés e deitou-se ali mesmo, junto onde eu estava. Permaneci indiferente.
     O sol sumia no horizonte por detrás dos montes. Então, definitivamente fiquei só...

      De madrugada, às vezes sentia frio. Cobria-me dos pés à cabeça, mesmo assim não era o suficiente. A coberta apenas te aquece tão somente se você a aquecer. Eu estava frio.
     Meus sonhos algumas vezes levavam-me à lugares deleitosos. Agradava-me em demasia quando despertava pela manhã e durante a noite eu havia sonhado com ela.
     Várias vezes passou-me à mente se a realidade não seria um sonho, um pesadelo. Queria, naqueles momentos de dúvida sobre a realidade, dormir e sonhar; nunca mais acordar. Não mais sozinho.
     Certa vez, questionei a Deus o porquê de Ele ter me colocado nesta terra se eu nem ao menos havia pedido para nascer. Poucos dias depois, o Senhor respondeu-me que eu havia nascido por permissão dEle. “Por quê?”, novamente indaguei. A resposta não me veio.
     A vida é assim, não tem sentido. Não passa de dúvidas e questionamentos sem respostas...
     Talvez tenha sentido. A luz não é vã. A luz é tudo; é o princípio da criação juntamente com o amor cujo é o magnetismo.
     Se o sentido da vida é a luz, para aqueles que ainda não haviam recebido a luz, que sentido teria a vida? E para aqueles que a luz se apagou, ou foram encarcerados em trevas, que sentido tem a vida? Para quê ter olhos?

     Tinha aberto um baú o qual havia guardado algumas de suas roupas. Tirei uma peça e recordei que fôra aquela que usara na primeira noite que passamos juntos. Ela veio se deitar ao meu lado um pouco tímida. Meu rosto corava de vergonha. Senti-me ridículo.

Às vezes acordava antes dela e ainda permanecia deitado, vendo-a dormir como criança. A respiração lenta e um pouco forçada, pois, sempre quando se deitava, entupia-lhe uma das narinas... era aquela a minha amada, um tanto de minha chama.
     Abri meus olhos e observei ao redor. Imagine só que ridículo! Eu sentado sozinho em um banco de praça, com as mãos no bolso fazendo de conta que minha amada estava ali comigo, ao meu lado, relembrando o passado como se fosse o presente. Uma lágrima escorreu de meus olhos pelo rosto, caiu em minha calça jeans e ali ficou, úmida e fria. Havia saído quente e agora estava fria.
     Olhei para o cachorro vira-latas ainda deitado aos meus pés. “Sabe, meu amigo, dirigi-me a ele, minha amada queria um cachorrinho. Queria um para tomar conta. Creio que era o instinto materno de mulher que a fazia desejar adotar um animalzinho.”
     Mexi um pouco os pés e o cachorrinho, por susto de que eu lhe desse um pontapé como os quais os vira-latas costumam levar, levantou-se rapidamente e saiu andando olhando duas vezes para trás. Chamei-o, ele novamente olhou, mas receoso foi embora.

     Quando ficava junto ao jardim de casa, indagava-me se as plantas possuíam algum tipo de sentimento. Certa vez, cheguei junto a um pé de margaridas e comecei a ofendê-las verbalmente, dizendo a elas que eram feias e sem graça. Fizera aquilo num tom alterado demonstrando que sentia raiva delas, porém, o fiz sem sinceridade porque estimo muito as margaridas. Fizera apenas para ver se as mesmas demonstravam algum ressentimento. Eugênia saiu para o quintal, olhou-me ofender as flores e perguntou:
     - Está doido?
     - Não, - olhei-a de soslaio – apenas estou fazendo um teste.
     Ela riu e entrou para casa.
     As flores nada demonstraram. “Acho que elas não entenderam.”
     Nada mais existe agora. Todas as plantinhas morreram, até mesmo a margarida. Meu jardim secou... tentei salvá-lo mas não sou eu quem dá a vida às coisas.

     Eu me perdia em mim mesmo. Remoia minha dor e minha saudade que seriam para sempre. Suspirava; respirava profundamente o ar daquele outono tão calmo, tão sereno.
     Por que a outra face da vida me estava oculta? Por quê?
     Eu buscava a resposta. Eu via trevas. Buscava a resposta. Trevas... apenas trevas e um pouco de luzes artificiais ao fim do horizonte.

     Tornei a fechar os olhos. Eis que ali estavam meus amigos. Indaguei-os porquê me deixaram. Nada responderam. Abri meus olhos, não havia ninguém. Novamente baixei minhas pálpebras. Estava escuro dentro de mim.
     Minha amada então surgia ao meu lado. Até seu perfume pude sentir.
     - O que faz aqui? – perguntou-me.
     - Estava pensando em você!
     - Pensava bem ou mal?
     - Bem. Apenas lembranças... aqueles velhos tempos antes de você ir embora.
     - Sim, os velhos tempos. – seus olhos brilharam – Lembra-se quando nossos amigos vinham almoçar conosco?
     - Lembro.
     - Era tão gostoso.
     - Sim.
     - Lembra quando preparávamos juntos o jantar. Quase sempre eu queimava o dedo ou um dos braços nas panelas.
      - Eu lembro...
     - Recorda-se também de quando no inverno dormíamos bem agarradinhos para não sentirmos frio?
      - Sim... – meus olhos encheram-se de lágrimas.
     - Ah!... eu também tenho saudades daqueles velhos tempos. – ela olhou ao redor e suspirou; soltou lentamente o ar. Segurou em minhas mãos frias e fitou-me.- Lembro-me de seu sorriso, meu amor, que já não é como nos velhos tempos. – dizia-me enquanto o vento agitava-lhe os cabelos negros. – Seus olhos estão tão tristes. Por quê?
     - ... Sinto saudades dos velhos tempos. Desde que você foi embora, tenho sofrido muito. – ela inclinou-se e beijou-me nos olhos.
      - Não irei mais embora. Nunca mais ... –disse ela.
     Senti medo. Abri meus olhos. Ela não estava mais ali. Fechei-os. Minha amada estava lá, em minha frente, olhando e sorrindo para mim.
     Tornei a abrir os olhos. Algumas pessoas que passavam por ali, encaravam-me estranhamente. Fechei os olhos. Pisquei. Fechei.
     Sim! Eis ali minha amada. O meu amor!
     - Por que tanto tosqueneja? – indagou-me.
     - Estou confuso... para mim, Deus a havia recolhido.
     - Não! Por que pensa desta forma?!
     - Eu a vi partindo. Vi você falecendo em meus braços...
     - Não! Você não viu nada! – ela segurou mais forte em minhas mãos. Seus olhos marejaram e pareceu tremer.
     - Não sei...
     - Ainda duvida? Então me toque! Toque em meu rosto. Sinta minha pele macia, meus cabelos lisos. – ela chorou.
     Toquei-a e senti sua pele, tez fina; delicada como a pétala da rosa. Os cabelos lisos, sedosos... Sim! Ela estava ali!
     - Ainda duvida? – novamente perguntou.
     - Não.
     - Então, vamos embora. Já escureceu. Temos que preparar o jantar. Vamos relembrar os velhos tempos.
     - Está bem!
     Levantamos e começamos a caminhar de mãos dadas.
     Abri meus olhos. Não havia ninguém ao meu lado segurando-me a mão. Fechei-os. Ela estava ali comigo, olhando para frente com um discreto sorriso na face. Meus amigos acenaram com as mãos. Ainda estavam comigo. Não os havia perdido. Tornei a abrir meus olhos. Olhei para trás e vi o banco vazio. Uma folha desprendeu-se do galho de uma árvore e pousou lentamente sobre ele.

     Qual o sentido da vida?
     Eugênia conduzia-me pela mão direita.
     O que é viver?
     Caminhava sozinho pela calçada em retorno a mais uma triste noite em meu solitário lar. O banco da praça estava ali, vazio, como se nunca alguém houvesse sentado nele.
     Qual o sentido da vida?
     Havia descoberto que desde que não mais vivia, tentava viver...

     Eugênia olhou para mim e ainda segurando em minha mão, me sorriu...



Biografia:
Embora admiro muito a escrita como forma de expressão, admiro as páginas em branco; elas também tem muito a dizer.
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