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Walter Mercado
Rafael da Silva Claro


A figura andrógina surgia, inconfundível, equilibrando uma pesadíssima capa. Falando um impecável portunhol, ornamentado com vários anéis e a já referida capa, grossa camada de maquiagem e muito laquê, aparecia na televisão, novamente, o astrólogo dos ricos e poderosos. Walter Mercado, o exótico esotérico.

Durante os anos 90, num momento de distração, eu era surpreendido, nos intervalos comerciais, com uma repentina e assustadora abertura de leque. Extendendo o seu alcance à ralé esotérica, o guru surge, brilhante, oferecendo seus serviços, supostamente, divinatórios por telefone. Uma mensagem, bela e rasa, de livro de autoajuda de livraria de rodoviária, era emendada pela frase teatral, hipnótica, e persuasiva, carregada de sotaque espanhol, “ligue djá”. A indefectível e conativa recomendação, repetida ad nauseam, virou bordão.

Essa astrologia de jornalzinho gratuito (dia bom para os negócios) ou de cartaz colado em poste (trago a pessoa amada em três dias) é patifaria de comum acordo. Não pode ser considerado “cair” em estelionato comprar uma “galinha dos ovos de ouro” achando que vai ficar rico; ou arrematar um punhado de “feijões mágicos” supondo se dar bem.

Semana passada, assisti, em streaming, um ótimo documentário sobre Walter Mercado. O filme humaniza aquele que, em suas aparições fugazes, era apenas uma personagem. Além disso, dirime uma dúvida: ele está vivo (recluso) ou morto?

O documentário desmistifica o místico, mas tenta dramatizar os estertores de uma pessoa como qualquer outra. Na verdade, ele era uma pessoa como nenhuma outra. Pois bem, seu manager aplicou-lhe um golpe, algo previsível para alguém muito rico; e a idade avançada chegou e, com ela, a decadência física. Por isso, por mais grossa e pesada que a maquiagem fosse, não dava para disfarçar. Talvez o drama seja a batalha entre a vaidade e a gravidade.

A obra cinematográfica serviu para eu ver com mais atenção uma figura extravagante que passara batida nos, televisivamente extravagantes, anos 90 -Banheira do Gugu, Fantasia, Emmanuelle, Sushi Erótico, Latininho...).

O documentário acaba sendo uma homenagem, e o modo enfeitado como se vestia era como ele escolheu ser; assim como o Serguei quis viver como um rockstar, sendo apenas um doidão, desses facilmente encontrados num boteco de São Tomé das Letras ou num bar mais antigo da Vila Madalena. No entanto, ele se “apresentou” no Rock in Rio, sendo que nem sequer sabia cantar!

Em tempo: Walter Mercado faleceu em 2 de novembro de 2019.


Biografia:
Ensino secundário completo. Trabalhei em várias empresas, fora da literatura. Tenho um blog, onde publico meus textos: “Gazeta Explosiva” Blogger
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